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sexta-feira, 17 de maio de 2019

Do Justificando: Alunos e professores relatam o que piorou após o início do governo Bolsonaro


Alunos e professores relatam o que mudou após o início do governo Bolsonaro

“Eu estou aqui porque acredito que a paralisação é uma forma de mostrar aos governantes que não estamos satisfeitos com as 'reformas' recentes”
Foto: Mídia Ninja. 
Por Caroline Oliveira, André Zanardo e Daniel Caseiro, no Justificando

“Idiotas úteis” e “massa de manobra”. Foi assim que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) se referiu aos manifestantes que protestaram nesta quarta-feira (15), em cerca de 200 cidades do País, contra o contingenciamento de recursos destinados à educação brasileira. No total, o bloqueio é de R$ 1,7 bilhão num rol de 63 universidades e dos 38 institutos federais de ensino. Segundo o ministro da Educação Abraham Weintraub, a medida foi aplicada sobre gastos não obrigatórios, tais como água, luz, terceirizados, obras, equipamentos e realização de pesquisas. Assistência estudantil e pagamento de salários e aposentadorias não sofreram impacto.
Desde o início do mandato de Bolsonaro, há quatro meses e meio, mudanças na rotina de professores e estudantes têm ocorrido, conforme relatado ao Justificando por manifestantes durante o ato em São Paulo. Tatiana Amorim, 39, professora do primeiro ao quarto ano do ensino fundamental da rede pública, afirmou que “a situação do dia a dia está piorando recentemente”. “A gente já trabalha numa situação sucateada, com uma quantidade de alunos muito grande em sala de aula. Tem escolas, como CEUS (Centros Educacionais Unificados), que passaram de 60 funcionários de limpeza para 14. A escola já sofre com falta de papel higiênico, falta de lixo nos banheiros”, diz Amorim.
Tais mudanças de rotina não se restringem à rede pública de ensino. J.S., 37, professor de sociologia em um dos colégios particulares mais tradicionais de São Paulo, relata uma grande diferença na liberdade dos professores em sala de aula. “Outro dia, estávamos discutindo o conceito de ética segundo Kant e um aluno perguntou se uma determinada atitude do presidente era ética ou não. Tive medo de responder”, relata, explicando que todos os professores foram orientados pela diretoria a não discutir política em sala aula. “Acabei respondendo porque foi o aluno quem trouxe o assunto”, conta o professor. J.S., que pediu que nem ele nem o colégio onde trabalha fossem identificados, confessa que, mais do que uma eventual retaliação por parte da diretoria, teme a reclamações dos pais dos alunos. “Quase todos os meus alunos são filhos de uma elite econômica que votou em peso no atual presidente. Eles não gostam de ter suas opiniões desautorizadas”, conclui.
As mudanças também foram sentidas pela professora do Ensino Médio Nadijane Paula. Nesses quatro meses e meio de mandato de Bolsonaro, Paula afirma que não é possível tratar alguns assuntos dentro da sala de aula “porque os alunos acham que se trata de doutrinação ideológica. Então a gente fica com receio do que tratar e a forma que os alunos irão compreender”. Para ela, a mídia tem um peso muito maior do que o professor. Não tem como ficar 45 minutos falando sobre conceitos filosóficos e o aluno achar que queremos mudar a mentalidade dele, de vida, contra o governo, ou coisa do tipo”. No entanto, a educação não foi a única pauta retratada nas manifestações de ontem. Ainda que em peso menor, os manifestantes também se posicionaram contra a Reforma da Previdência e contra o governo Bolsonaro em si. “Eu estou aqui porque acredito que a paralisação é uma forma de mostrar aos governantes que não estamos satisfeitos com as reformas recentes”.
Andreza Baião, 19, estudante de ciências sociais da PUC-Campinas, relatou que após a eleição de Bolsonaro, assuntos até então intocáveis pelos alunos em sala de aula começaram a surgir. “Eu vejo isto na minha sala, às vezes sentimos a necessidade de parar a matéria e discutir alguns assuntos que se tornaram essenciais.” Bolsista, Baião tem medo de perder a bolsa e precisar deixar a graduação de lado.
As colegas de curso de Andreza Baião, Paula Xavier e Marina Macedo, disseram que a principal mudança nos últimos meses se deu nos relacionamentos com os amigos e na relação entre professor e aluno. Para Xavier, 18, “as pessoas perderam o medo de agredir umas às outras, elas se espelham no presidente deles. Os alunos passaram a se impor muito mais sobre os professores. Agressões verbais e físicas começaram a acontecer nas salas de aula”. Segundo Macedo, 19, “quem já era amigo e tinha o mesmo pensamento se aproximou mais, e quem tinha pensamento diferente se afastou. Nós sentimos muito uma polarização”.
Esse sentimento de intolerância também foi sentido pela professora de psicologia e colunista da Folha de S. Paulo Vera Iaconelli. “Tem uma intolerância no ar que está afetando muito as pessoas: o clima de resolver os problemas na base do tiro. É a loucura generalizada, é uma visão não inclusiva da sociedade brasileira.” Na mesma linha, o professor e pesquisador Fernando Catalan, afirma que, nesse clima de intolerância, deixou de “bater de frente” com os amigos bolsonaristas. “É um equívoco histórico e tenho certeza que eles reconhecerão isso mais pra frente. Eles vão reconhecer que votaram mal por causa de ódio e desse antipetismo generalizado. É lógico que o PT pavimentou o caminho para essa gente, não tem como negar alguns casos de corrupção, a condução da economia foi desastrosa, mas mesmo assim eu ainda acho que o ódio não é o melhor conselheiro”.
Apesar da multiplicidade de críticas ao governo, o contingenciamento de 30% dos recursos da educação foi a principal pauta entre os manifestantes, dominando os cartazes e gritos de ordem durante o ato. Para Eliseu Guilherme, 20, estudante de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), este é apenas o primeiro corte. “Acho que os efeitos piores estão por vir ainda, por isso a importância desse movimento desde já, para não deixar a coisa piorar, para marcar o movimento popular e estudantil.” No ambiente da universidade, Guilherme relata que percebeu uma mudança entre os alunos e professores. “A gente sente que tem aquela preocupação com o futuro da educação. Esse governo só está no começo”.
A preocupação com o futuro é também o que motivou Henrique Vital, 19, a comparecer ao ato. “Nunca tinha ido em manifestação política, essa foi a primeira”, conta Henrique que atualmente faz cursinho pré-vestibular. “Quero ser engenheiro. Vou prestar engenharia de petróleo, um curso que só é oferecido em universidade pública”, disse o estudante, explicando que vem de uma família “sem dinheiro” e onde “ninguém tem diploma”. “Entrar em uma universidade pública é minha única chance de continuar estudando”.  

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A censura às universidades quer produzir medo, mas a democracia prevalecerá sobre o fascismo. Por Kiko Nogueira



"A censura às universidades busca produzir, na melhor das hipóteses, medo e, na pior, um cadáver. Um novo Cancelier.
"O repúdio é necessário. A solidariedade a estudantes e professores é fundamental."
Do DCM:


Resistência na Faculdade de Direito da UFPR

A censura às universidades busca produzir, na melhor das hipóteses, medo e, na pior, um cadáver. Um novo Cancelier.
O repúdio é necessário. A solidariedade a estudantes e professores é fundamental.
Nos últimos dias, ao menos 35 instituições foram alvos de operações da Justiça Eleitoral para fiscalizar suposta prática de propaganda.
Houve ações em eventos com temas como fascismo, democracia e ditadura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na da Grande Dourados, no Mato Grosso do Sul.
A faixa com os dizeres “Direito UFF Antifascista” teve de ser retirada da escola de direito da UFF, em Niterói.
Na Paraíba, ocorreu uma inspeção do TRE em aulas da Universidade Federal de Campina Grande e apreensão de material. 
É um ataque frontal à liberdade de expressão e à autonomia universitária. 
Noves fora o fato de que ele Jair Bolsonaro veste definitivamente a carapuça de fascista ao buscar reprimir. Um aperitivo do que pode vir.
O Ministério Público Federal se posicionou de maneira firme, declarando que medidas para impedir a livre manifestação são incompatíveis com o regime constitucional.
“É lamentável que, em uma disputa tão marcada pela violência física e simbólica, pelo engano e pela falsificação de fatos, o ataque do sistema de justiça se dirija exatamente para o campo das ideias”, diz a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão.
‘Polícia só deve entrar em universidade se for para estudar’, apontou o ministro do STF Luís Roberto Barroso.
Para seu colega Marco Aurélio Mello, a interferência é “incabível”. A reação é tardia? Pode ser. Mas antes tarde que mais tarde.
Na sexta, dia 26, um corpo foi encontrado dentro de um carro com marcas de tiro na Faculdade de Direito da UFRJ. A vítima estava no banco do carona. 
Uma postagem do centro acadêmico registrava a presença do Sendero branco durante uma aula pública.
O homem não era ligado à faculdade — mas não é esse o ponto. O recado dos bandidos é que pode vir a ser.
A polícia está apurando o caso, mas é evidente que não vai dar em nada.
O bolsonarismo saiu do armário e seus capangas estão agindo à luz do dia.
Em nome de Luiz Carlos Cancelier e dos alunos e mestres brasileiros, é hora de resistir.
Em nome de nós e de nossos filhos, o pensamento livre e a democracia vão prevalecer.
Em post do Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da UFRJ, vê-se o carro onde foi encontrado o cadáver enquanto uma aula pública era realizada

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Eleições presidenciais de 2018: o possível fim do direito à educação pública. Por Juliana Passos de Castro no site Justificando


  "É curioso o fato de que o atual presidente do País possua rejeição quase absoluta perante a opinião pública e que candidatos que não propõem um projeto político diferente de seu governo alcancem determinados índices de apoio nas pesquisas. Concordo com a reflexão de Felipe da Silva Freitas no sentido de que todos que votaram a favor da emenda constitucional 95 são, também, responsáveis pela crise na educação e em outros setores sociais[9]. É, no mínimo, ingênuo acreditar que aqueles que contribuíram para a aprovação das medidas adotadas no governo Temer representem alternativas ao cenário político do momento." - Juliana Passos de Castro, doutoranda em Direito pela UFPE


Do Justificando:

Eleições presidenciais de 2018: o possível fim do direito à educação pública


Foto: Agência Câmara

Quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Eleições presidenciais de 2018: o possível fim do direito à educação pública

Os retrocessos na área educacional têm sido evidentes nos últimos anos. Além de medidas prejudiciais ao sistema público de ensino como um todo, adotadas a partir do governo Temer, várias ações indicam uma ameaça, sobretudo, à educação superior em universidades federais e estaduais.
Anteriormente ao golpe de 2016, alguns avanços significativos foram alcançados no âmbito do ensino público brasileiro.
A ampliação do número de vagas nas universidades públicas, a extensão universitária em cidades do interior, a reestruturação e ampliação dos IFES (Institutos Federais de Educação Superior) e a adoção de cotas em universidades mantidas pelo Estado são alguns exemplos de esforços relativos à democratização do ensino público no Brasil.

Leia as notícias sobre as universidades públicas brasileiras:

Em 2009, mediante a aprovação da emenda constitucional 59, foi reconhecido o direito à gratuidade do ensino básico, que compreende a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio.  Anteriormente, o artigo 208 da Constituição somente estabelecia a obrigatoriedade do ensino público no período fundamental. Em 2014, mediante a Lei 13005, foi aprovado o Plano Nacional de Educação[1]. Dentre outras medidas, foi estabelecida a necessidade de investimentos progressivos na educação pública pelo período de dez anos com o intuito de efetivar os dispositivos constitucionais sobre o direito à educação.
Em desrespeito, porém, às conquistas já obtidas em termos de direitos sociais, foi aprovada a emenda constitucional 95, que, além de outras restrições, estabeleceu o teto de gastos com serviços públicos como saúde e educação pelo período de vinte anos. Uma das possíveis consequências de tal medida é a inviabilização dos objetivos traçados no Plano Nacional de Educação.
No que concerne à educação superior pública, os ataques têm sido constantes. Além das restrições orçamentárias promovidas pela emenda 95, foi anunciado, recentemente, um corte significativo no orçamento da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). De acordo com a própria instituição, a redução drástica de recursos financeiros impossibilitaria o pagamento das bolsas destinadas à pesquisa científica a partir de agosto de 2019. Embora o Ministério da Educação tenha se pronunciado no sentido de que as bolsas seriam mantidas, a situação continua preocupante e reforça a ideia de que os investimentos na área do ensino não constituem prioridade do governo federal.
Interferências relacionadas à autonomia universitária, à liberdade de cátedra e à liberdade de expressão dos docentes também têm ocorrido com certa frequência.
Um exemplo já mencionado em outro artigo foi a intenção, anunciada pelo Ministério da Educação, de proibir os cursos sobre o golpe de 2016, promovidos por várias universidades públicas do País. Embora a Procuradoria Geral da República para os Direitos do Cidadão, no âmbito do Ministério Público Federal, já tenha se posicionado pela impossibilidade jurídica desse tipo de intervenção, o curso sobre o mesmo assunto que seria ministrado na Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul se encontra suspenso por força de decisão judicial.  Outro exemplo, também já discutido, foi a abertura de processo administrativo contra professores envolvidos no lançamento do livro A verdade vencerá, na Universidade Federal do ABC, UFABAC, que, além de alguns artigos, contém entrevista com o ex presidente Lula[2].
Do ponto de vista normativo, um ato que pode ensejar perseguição aos professores de universidades federais diz respeito à portaria 193, publicada no dia 04 de julho do presente ano pelo Ministério de Planejamento, Orçamento e Gestão. A nova norma permite a realocação de servidores públicos federais em caráter irrecusável, por tempo indeterminado e sem necessidade de prévia anuência do órgão ao qual o servidor esteja vinculado.  Embora não se destine especificamente aos professores universitários e sim a todos os servidores públicos federais, há riscos de que os docentes sejam afetados pela regra atual a critério do governo federal[3]De acordo com a Adufepe (Associação dos Docentes da UFPE), a portaria pode ensejar decisões autoritárias que podem comprometer a autonomia dos serviços públicos[4].

Para além dos problemas acima mencionados, operações policiais foram direcionadas a diferentes universidades públicas. Com a justificativa de combate a supostos atos de corrupção foram realizadas acusações, conduções coercitivas e prisões abusivas conduzidas a partir de uma versão midiática voltada à criminalização de gestores e professores.
A situação que teve o desfecho mais trágico envolveu o reitor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Luiz Carlos Cancellier de Olivo. Na ocasião, na Operação ouvidos moucos mais de 100 policiais se dirigiram à universidade e prenderam o reitor sob a acusação, não comprovada, de obstrução à investigação criminal envolvendo desvio de verbas na instituição. O reitor foi solto e, no entanto, proibido de voltar à universidade. O resultado foi seu suicídio no dia 02 de outubro de 2017 e um relatório da Polícia Federal que não comprovou o envolvimento do reitor em atos criminosos[5].
Também houve ações semelhantes em outras universidades, como, por exemplo, a Operação Phd na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Operação Research, na Universidade Federal do Paraná (UFPR)  e Operação Esperança Equilibrista na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais)[6].
Aparentemente e apesar de determinadas particularidades, o que está ocorrendo atualmente com as universidades públicas do Brasil possui algumas semelhanças com as estratégias utilizadas para a venda de empresas nacionais na década de 90. De acordo com Aloysio Biondi, em seu livro O Brasil Privatizado, as privatizações foram facilitadas com o auxílio dos meios de comunicação, que promoveram intensa campanha contra as Estatais, contribuindo decisivamente para sua desmoralização perante a sociedade.[7]
Boaventura de Sousa Santos entende que as universidades públicas passam por um momento de perigo. Para o autor, o projeto neoliberal pretende consolidar um capitalismo universitário, que teve seu início com o discurso de produção de conhecimento direcionado ao mercado, avançou para propostas de privatizações e objetiva sua conclusão com a consolidação da universidade como uma empresa. O autor afirma que o ataque às universidades parte de cortes orçamentários e do discurso de combate à corrupção, mas que dentre os reais interesses, se encontra a eliminação de um espaço voltado ao pensamento crítico[8].

Leia mais artigos sobre o tema:

Seguindo esse raciocínio, bastante preocupante foi o pronunciamento do candidato à presidência da República, Geraldo Alckmin. Em entrevista concedida recentemente à Globo News ele afirmou que estudaria a possibilidade de por fim ao ensino superior gratuito, começando pelos cursos de pós-graduação. É importante esclarecer que cursos de pós-graduação envolvem, também, mestrados e doutorados e não apenas especializações. O que pretende, portanto, o candidato? A produção de ciência a partir, exclusivamente, da iniciativa privada e, em muitos casos, com possibilidades de controle por grandes grupos de empresas estrangeiras?
É curioso o fato de que o atual presidente do País possua rejeição quase absoluta perante a opinião pública e que candidatos que não propõem um projeto político diferente de seu governo alcancem determinados índices de apoio nas pesquisas. Concordo com a reflexão de Felipe da Silva Freitas no sentido de que todos que votaram a favor da emenda constitucional 95 são, também, responsáveis pela crise na educação e em outros setores sociais[9]. É, no mínimo, ingênuo acreditar que aqueles que contribuíram para a aprovação das medidas adotadas no governo Temer representem alternativas ao cenário político do momento.

Juliana Passos de Castro é doutoranda em direito pela Universidade Federal de Pernambuco.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Do Le Monde Diplomatique: Ataque ao sistema de ensino superior público no Brasil: o que está por trás?


Resultado de imagem para Temer contra as universidades federais

O Brasil não se recuperará caso o Sistema de Ensino Superior Público seja desmantelado. Ficaremos reduzidos a uma intelligentsia compradora, eternamente dependente da ciência e tecnologia internacionais e a um sistema de ensino superior comandado por poderosos grupos econômicos internacionais pautados pela lucratividade e passando a apresentar um ensino superior elitista e conteudista

Por Eduardo A. C. Nobre, no Le Monde Diplomatique Brasil

Ao longo de 2017 assistimos perplexos a vários eventos que tiveram em comum o fato de envolverem o Sistema de Ensino Superior Público no Brasil (o qual doravante chamarei de SESP) e que, mascarados por uma forma de institucionalidade e alimentados por uma sanha revanchista e um discurso de austeridade fiscal, têm na verdade um único objetivo, a sua destruição.

Enquanto políticos do alto escalão com provas incontestes de seu envolvimento em atividades criminosas se livram de suas punições, absolvidos pelos seus pares, funcionários públicos com décadas de dedicação ao SESP são submetidos a tratamentos degradantes e humilhantes, com exposição midiática indevida, sob a acusação de obstrução de justiça, sem que existam contra eles as mesmas provas explícitas apresentadas contra políticos e grandes empresários.

Refiro-me especificamente à condução coercitiva, e em alguns casos inclusive prisão, de reitores, funcionários e docentes de várias universidades federais, em operações de investigação de esquemas de corrupção aprovadas pelo Judiciário e conduzidas pela Polícia Federal, como as ocorridas nas universidades federais de Minas Gerais (UFMG) no começo de dezembro, do Paraná (UFPR) em fevereiro, de Santa Catarina (UFSC) em setembro e do Rio Grande do Sul (UFRGS) em dezembro de 2016. A truculência contra e a humilhação desses funcionários são tantas que fizeram com que o reitor da UFSC, professor doutor Luiz Cancellier de Olivo, preso por obstrução de justiça, cometesse suicídio.

O Brasil não pode se dar ao luxo de difamar suas instituições públicas sob a desculpa do combate à corrupção e sob a sanha revanchista de “passar o Brasil a limpo”. Logicamente que todos desejamos que os casos de corrupção sejam investigados, julgados e que as pessoas envolvidas tenham a devida punição, a começar pelos mais altos escalões do governo.

Além da exposição indevida e execração pública de funcionários públicos no exercício da função, parece que um dos preceitos fundamentais do direito brasileiro, o da presunção da inocência, tem sido deixado de lado. Além do que, pelo Código do Processo Penal Brasileiro, a condução coercitiva só pode ser aplicada caso a pessoa intimada se recuse a comparecer, o que parece que não foi o que ocorreu na maioria dos casos. Estaríamos vivendo assim um estado de exceção, que parece contar com o apoio de parte da sociedade e da mídia, e que agora direciona suas garras contra o SESP.

Isso poderia parecer absolutamente normal, tendo em vista que a mesma parte da sociedade e da mídia parece considerar normal o protagonismo exacerbado que o Judiciário brasileiro passou a ter nos últimos anos, sem questionar até que ponto esse protagonismo pode estar ferindo os princípios do estado democrático de direito. Contudo, essas ações associadas a outras parecem indicar que existe uma ação escondida em curso de desmantelamento do SESP.

Vamos aos fatos.

Em agosto, a comunidade científica brasileira foi abalada pelo boato de que a principal agência de fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico nacional, o CNPq, iria cortar milhares de bolsas de alunos de graduação (iniciação científica) e de pós-graduação (mestrado e doutorado). Após diversas manifestações em peso da comunidade, o CNPq desmentiu esse boato, contudo, mesmo não tendo sido suspensas, existem vários casos de atrasos no pagamento dessas bolsas.

Se analisarmos a quantidade de recursos empenhada nas rubricas Desenvolvimento Científico, Desenvolvimento Tecnológico e Engenharias, subfunções-fim do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações do Governo Federal, ao qual o CNPq é subordinado, vemos que essa quantidade diminuiu bastante: passou de R$ 4,9 bilhões empenhados até dezembro do ano passado para R$ 3,7 bilhões no mesmo período deste ano. Essa redução de investimentos é fatal para o SESP, pois além das bolsas, várias pesquisas desenvolvidas por essas instituições contam com o CNPq como principal fonte de recursos, diferentemente das instituições privadas, que conseguem outras fontes de financiamento.

Só para termos uma ideia dessa ordem de recursos, nesse mesmo mês o governo federal liberou R$ 11,7 bilhões em emendas parlamentares e encaminhou medida provisória ao Congresso Nacional (MP nº 793) prevendo mais R$ 8,6 bilhões de perdão de dívidas dos produtores rurais, tudo isso às vésperas da votação pela Câmara dos Deputados do relatório do Ministério Público Federal que denunciava o presidente da República por corrupção passiva, conforme amplamente divulgado pela mídia.

Em novembro, o Banco Mundial lançou o relatório “Um ajuste justo – propostas para aumentar eficiência e equidade do gasto público no Brasil” em que propôs o fim do ensino superior público e gratuito como uma forma de promover o ajuste fiscal no Brasil, sem “prejudicar os mais pobres”. Essa ideia poderia ser pertinente antes de 2012, pois de fato no passado o SESP apresentou distorções graves, facilitando o acesso às já privilegiadas classes sociais de maior renda. Contudo, após 2012, com a adoção do sistema de cotas para estudantes de baixa renda do ensino médio público e gratuito e grupos autodeclarados PPI (preto, pardo e indígena) passaram a ter um maior acesso à universidade pública e gratuita, essa ideia do Banco Mundial parece não corresponder à realidade.

Dados de relatório da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) de 2016 mostram que o perfil de renda e racial dos discentes nas instituições federais de ensino superior alterou-se bastante após a adoção do sistema de cotas. Enquanto o percentual dos estudantes de baixa renda (até três salários mínimos) subiu de 40% para 51% do corpo discente, a porcentagem de alunos negros (pretos e pardos) subiu de 34% para 47%.

Ou seja, parece bastante incoerente que no momento em que o SESP se democratiza, permitindo o acesso de milhares de jovens de grupos sociais e raciais historicamente excluídos à universidade pública e gratuita, o Banco Mundial sugira que essa passe a ser paga.

Contudo, esse discurso foi muito aplaudido e festejado por essa parte da mídia e da elite brasileira, que dizem defender os preceitos neoliberais da diminuição do papel do Estado. Essa postura é cínica, pois agora que o SESP deixou de ser exclusividade da elite, permitindo o acesso a grupos historicamente excluídos, ele deixou de ser prioritário e deve ser desmantelado, porque é “caro” demais para o Brasil. Enquanto isso atividades altamente lucrativas, como as do agronegócio, sorvem cada vez mais recursos públicos, através de benefícios diretos, desonerações fiscais e perdão de dívidas.

Também em novembro, outra ocorrência bastante grave contra o SESP ocorreu quando pesquisadores do Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (NAEA) da Universidade Federal do Pará apresentavam seminário com resultados de pesquisa científica coordenada pela professora doutora Rosa Acevedo Marín sobre os impactos de atividade da mineradora Belo Sun no Rio Xingu, quando foram atacados e cerceados de suas liberdades individuais por grupo liderado por políticos locais vinculados aos interesses da mineradora canadense, comandados pelo prefeito Dirceu Biancardi do município de Senador José Porfírio. Sob o discurso de que os pesquisadores e os membros do Ministério Público Estadual estavam impedindo o “desenvolvimento” da Amazônia, esse grupo impediu a divulgação de pesquisa científica importantíssima que apresentava os danosos impactos socioambientais dessa atividade.

Dessa forma, juntando todos os fatos acima, parece existir uma operação orquestrada contra o SESP no Brasil que junta diferentes ações e discursos, como o do combate à corrupção, o da necessidade do ajuste fiscal e/ou até mesmo porque a postura crítica de parte dos pesquisadores desse sistema seria um empecilho ao retorno do crescimento econômico.

Esse discurso vem ao encontro dos interesses de poderosos grupos privados multinacionais do ensino superior, que agora veem no Brasil uma possibilidade de expansão dos seus negócios lucrativos. Contudo, esse panorama também não é positivo para o ensino superior nacional. Afinal de contas, o Brasil conta com uma infinidade de instituições de ensino superior privadas, muitas já vinculadas a esses poderosos grupos internacionais, mas são as instituições do ensino superior público que aparecem no topo da lista das melhores universidades do mundo. Curioso notar que quando uma delas cai de posição ou é ultrapassada por outra (pública), essa parte da mídia “desinteressada” logo alardeia o fato, insinuando a decadência das instituições públicas, sem se lembrar quão longe as privadas nacionais estão delas nesses “rankings”.

Assim sendo, boa parte do discurso e da prática que estamos assistindo esconde uma agenda oculta, que tem como interesse principal a destruição do SESP, a subjugação dos setores estratégicos nacionais aos interesses de grandes empresas internacionais e a destruição de qualquer pensamento crítico que se oponha a esse projeto hegemônico. É justamente essa agenda que está por trás do discurso contra o SESP.

A meu ver, o Brasil não se recuperará caso o SESP seja desmantelado. Ficaremos reduzidos a uma intelligentsia compradora, eternamente dependente da ciência e tecnologia internacionais, pagando elevados royalties por isso, a um sistema de ensino superior comandado por poderosos grupos econômicos internacionais pautados pela lucratividade e passando a apresentar um ensino superior elitista e conteudista em detrimento de um ensino democrático, pluralista e crítico, que certamente resultará na piora das condições sociais, principalmente na distribuição de renda, que já é uma das piores do mundo, visto que no Brasil ainda são as camadas mais instruídas as que possuem a maior renda.

*Eduardo Alberto Cuscé Nobre é arquiteto e urbanista, mestre e doutor em Arquitetura e Urbanismo, respectivamente, pela Oxford Brooks University (OBU) e pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e pós-doutor em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur/UFRJ). Atualmente é professor de Planejamento Urbano e Regional dos cursos de graduação e pós-graduação da FAU-USP e presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Um dos objetivos do Golpe: O desmonte das Universidades Federais, que fecham laboratórios e cursos apos cortes de verbas (dinheiro que vaii para a compra de deputados)



Responsáveis por mais da metade da pesquisa científica do país, universidades federais fecham laboratórios e cursos. Se nada for feito, o desmonte pode levar ao fechamento de clínicas e hospitais




universidades federais fecham laboratórios cursos corte de verba governo temer
Cida de Oliveira, RBA
Formada por 63 universidades e seus 320 campi espalhados pelo país, a rede federal de ensino superior forma mão de obra altamente qualificada. E de seus laboratórios saem mais da metade de toda a pesquisa científica produzida no país. Essas instituições oferecem ainda serviços diretos à sociedade, como o atendimento à saúde por meio de clínicas e hospitais universitários. Em muitas localidades, esses equipamentos são os únicos com os quais a população pode contar.
Iniciada no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva e com muitas obras ainda em andamento, a expansão do sistema federal dobrou o número de vagas, reduziu a desigualdade no ingresso à universidade pública e ajudou a elevar o nível da produção científica brasileira, com mais vagas na pós-graduação acompanhadas de mais recursos.
Em meio à consolidação da expansão, porém, as universidades tiveram seu orçamento minguado a partir de 2014.
De lá para cá, houve perdas de 50% dos recursos de capital (para obras e compra de equipamentos) e de 20% dos recursos de custeio, sem contar a inflação do período. “Há instituições que nem recebendo 100% do orçamento de 2017 terão condições de honrar todos os seus compromissos. Isso porque se trata de um orçamento menor quando comparado ao do ano anterior“, afirma o reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Emmanuel Zagury Tourinho, em entrevista à RBA.
Eleito novo presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) em 28 de julho, Tourinho conclama a sociedade a se juntar à comunidade acadêmica na luta em defesa das universidades federais. “Nós gostaríamos de sensibilizar a todos para a importância disso, porque a população vai ser surpreendida lá na frente, quando perceber que essas instituições, fundamentais, não têm mais a capacidade que deveriam ter para atender às suas demandas.”
Confira os principais trechos da entrevista:

Qual é a avaliação da situação das universidades brasileiras?

É das mais difíceis pelas quais já atravessaram. Temos tido cortes recorrentes no orçamento desde 2015. E enfrentamos o contingenciamento na liberação dos recursos aprovados, que são inferiores ao dos anos anteriores.
Nosso cotidiano na administração das universidades é escolher as despesas que serão pagas. Independentemente do esforço de melhoria da gestão e da priorização das ações, os recursos disponíveis são sempre insuficientes para cobrir todas as obrigações.
Os reitores estão muito preocupados com essa situação difícil, de escolher quais compromissos honrar. Há universidades em situação mais crítica, outras menos, mas todas com dificuldades enormes. Há instituições que nem recebendo 100% do orçamento de 2017 terão condições de honrar todos os compromissos, já que é um orçamento menor quando comparado ao ano anterior. Sem falar no que foi perdido com a inflação. Nós não temos um orçamento folgado, em que possamos nos ajustar a qualquer redução que vier. Fazemos um grande esforço de gestão para aproveitar tudo o que dispomos depois dos cortes e contingenciamento.

Os recursos encolheram enquanto as universidades cresceram?

A expansão do sistema foi acompanhada de expansão do investimento para a criação de novas universidades. As que existiam criaram novos campi, novos cursos, duplicaram o número de alunos. O sistema federal praticamente duplicou o numero de vagas ao longo da última década. E o orçamento, até 2014, era corrigido pelo menos pela inflação do ano anterior. E em alguns momentos, dada a expansão, houve aumento proporcional à ampliação das atividades da universidade.
De 2014 para cá, em termos orçamentários, perdemos 50% dos recursos de capital (para obras e compra de equipamentos) e 20% dos recursos de custeio (manutenção, pagamento de bolsas, despesas básicas) sem contar a inflação. Isso é uma perda nominal; a perda real foi maior do que isso em termos de orçamento. Mas hoje temos uma situação em que nem esse orçamento defasado é liberado integralmente.

Houve cortes sobre o que já estava defasado?

Sim. Nós não recebemos nem esses 50% correspondentes a 2014. Só 40% desses 50%. Perdemos 20%, o equivalente a 20% do que era o orçamento em 2014. Isso sem contar a inflação do período.Há muitas obras paradas porque vínhamos em um processo de ampliação da infraestrutura para dar conta da expansão das vagas – obras que estavam em andamento quando fomos pegos por esses cortes, que começaram a ser feitas dentro de um planejamento estabelecido considerando o que era um histórico de evolução do orçamento das universidades.
Na medida que esses recursos começam a não vir, você deixa de poder cumprir o planejamento. E os problemas vão se acumulando para além da obras paradas, com outras andando em passo mais lento porque não há recursos. No custeio, os cortes afetam a manutenção, o pagamento de bolsas aos alunos, despesas básicas de vigilância, iluminação, limpeza e outras necessárias para as atividades regulares. É muito difícil porque há ainda instituições consolidando a expansão, com cursos novos criados a partir de pactuação com o Ministério da Educação, que ainda estão sendo implementados.
Então as universidades estão crescendo e os recursos diminuindo. Nós gostaríamos de sensibilizar a sociedade para a importância disso porque ela vai ser surpreendida lá na frente, quando perceber que essas instituições, fundamentais, não têm mais a capacidade que deveriam ter para atender suas demandas.

Como estão funcionando numa situação assim?

Nós temos hoje universidades fechando laboratórios, que estão suspendendo projetos de pesquisa, muitas vezes estudos de ponta na ciência que colocam o Brasil na condição de liderança. São projetos descontinuados por falta de recursos, de equipamentos, de manutenção nos equipamentos que já existem.
Boa parte dos recursos que alimentam atividades de pesquisa – e as federais realizam mais de metade da pesquisa nacional – é captada pelos pesquisadores junto a agências de fomento, como CNPq e Finep, por exemplo, que estão hoje com orçamentos restritos e pararam de apoiar a pesquisa científica na dimensão que apoiavam. Então esses pesquisadores não estão conseguem mais captar esses recursos.
Para serem retomadas, essas pesquisas que estão sendo paralisadas vão exigir muito mais investimentos daqui a dois, três anos.Vai ficar mais caro retomar do que gastaríamos na continuidade. Pesquisa não é como uma ponte, que você decide se constrói agora ou se deixa para construir em dois anos. O custo da ponte é quase o mesmo, corrigida a inflação. Mas no caso da ciência, que avança, não.
Você tem um grupo que está em papel de liderança internacional. Se ele para, deixa de acompanhar a produção de conhecimento nesse patamar. Para ele voltar, vai ter de investir muito mais recursos do que ele precisaria hoje para produzir e se manter nessa posição de liderança, produzindo ciência de ponta.

Qual é a importância das universidades federais?

Vai além da de formar mão de obra de alto nível. Formamos os melhores profissionais, cientistas, gestores e lideranças do país. Um sistema de excelência, que tem de cumprir seu papel fundamental para o país, que é o de formar recursos humanos muito qualificados, com capacidade de enfrentar problemas novos. Gerar conhecimento para solucionar os problemas surgem por meio da pesquisa científica que a universidade realiza, atendendo um volume e diversidade muito significativa de demandas da sociedade, de governos e de entes não governamentais. Um sistema que é fundamental para o desenvolvimento econômico e social do país.
A expansão trouxe para dentro das universidades grupos sociais que estavam excluídos do ensino superior, de baixa renda, indígenasnegros, quilombolas. Melhoramos o índice, que era baixíssimos, de negros na universidade.
Mas isso também significou que temos de desenvolver políticas de assistência estudantil que garantam que esses alunos permaneçam e concluam seus estudos. O sucesso dessa política só vai acontecer quando conseguirmos formar e formar bem todos esses alunos. O programa nacional de assistência estudantil que temos hoje, que representa uma parcela do orçamento das universidades, é insuficiente para o tamanho da demanda. Conseguimos atender pequena parcela dessa demanda.
As federais mantêm um leque muito grande de serviços à comunidade, dezenas só na área de saúde, como os hospitais universitários, e em muitas outras áreas. Muitos desses serviços são organizados a partir de programas de extensão universitária, e outros instalados para servir de espaço de formação de alunos. Então tudo isso será afetados com essa dificuldade de manutenção das universidades.

Um grande prejuízo a toda a sociedade.

O Brasil avançou muito na última década em termos de produção científica e na expansão e na qualificação de seu sistema de pós-graduação, o que nos colocou em posição diferenciada para melhor em comparação com os países vizinhos, da América Latina e em comparação aos países em desenvolvimento. Mas é um capital que estamos deixando dissolver com essa falta de investimentos.
É preciso que a sociedade acorde para isso, que o Congresso Nacional dê atenção especial à questão, que o governo recomponha os orçamentos de uma área prioritária como educação, ciência e tecnologia. Caso contrário, isso custará muito mais caro para o país. É importante que se compreenda que isso não deve ser feito pelos cientistas, pelos professores ou pelos alunos que estão nas universidades. Mas tem de ser feito pela sociedade brasileira, porque é um patrimônio de toda a sociedade, muito importante para que tenhamos condições de enfrentar os nossos próprios problemas.
Esse sistema está em uma situação de muita fragilidade. É claro que, em um momento de redução de recursos no orçamento federal, todas as áreas são afetadas. Mas as universidades têm a peculiaridade de ser um investimento indispensável para que se construa um futuro melhor para a nação. Sem investimento em educação, ciência e tecnologia, o país nunca chegará à condição de país desenvolvido e soberano no enfrentamento aos seus problemas.
Por isso, não se trata de um “gasto a mais“. É um investimento em uma área que decide qual vai ser o futuro. Assim, o recurso que deixamos de investir agora deverá ser bem maior daqui a alguns anos. Nós pagamos muito mais caro cada vez que descontinuamos o investimento em educação, ciência e tecnologia.
Para serem retomadas, essas pesquisas que estão sendo paralisadas vão exigir muito mais investimentos daqui a dois, três anos.Vai ficar mais caro retomar do que gastaríamos na continuidade.

O que é possível fazer?

Duas coisas são emergenciais: conseguir que o Ministério da Educação e do Planejamento liberem integralmente os recursos de 2017 – que já são insuficientes. Senão as universidades entram em situação muito grave. A segunda coisa é conseguir aprovar para 2018 um orçamento que recomponha os valores de 2014 ou, pelos menos, os de 2016 corrigidos pela inflação.
É importante que a sociedade organizada se sensibilize sobre a grave situação, bem como os parlamentares. Que todos se mobilizem na mesma direção dessas medidas essenciais para a que as universidades voltem à normalidade.

Estamos em vias de um processo de privatização da rede federal?

Há, sem dúvida, setores interessados na privatização das universidades públicas, movidos por interesses empresariais. Mas a proposta não tem a adesão da sociedade e todos sabem disso. Primeiro, a privatização do ensino superior não encontraria chance de sucesso, já que 70% dos alunos das federais vem de famílias com renda per capita abaixo de 1,5 salário mínimo. Não é população com condições de pagar.
A privatização do sistema seria a sua extinção, porque o que as mensalidades pagariam seria ilusório perto do que as instituições necessitam. Não poderíamos fazer pesquisa, extensão. É possível que muitos que estão insensíveis à universidade sejam favoráveis. Mas isso não foi colocado explicitamente nas negociações, nas conversas. E isso seria totalmente descabido para a nossa realidade, em que dependemos tanto desse sistema.
Estaríamos na contramão. Tirando poucos casos isolados, há um entendimento de que grande parte das nações desenvolvidas ou em desenvolvimento de que não se mantém um sistema de ensino superior sem os recursos do Estado. Na Alemanha, onde o sistema é dos melhores, todas as universidades são públicas e gratuitas. Usa-se muito o argumento de que os Estados Unidos são exemplo bem sucedido de país com ensino superior privado de qualidade. Mas não é bem assim. Elas são largamente mantidas com recursos públicos, a pesquisa é feita com recursos públicos. E a cobrança de mensalidades virou problema social, porque a maioria das famílias está endividada.
E se seguíssemos nessa direção, estaríamos indo contra a universidade enquanto espaço de inclusão. A universidade seria então uma instituição excludente a mais em um país de desigualdade acentuada.

Como a Andifes avalia a proposta que desconfigura a Unila?

Essa proposta de mudança da (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) Unila, que afeta também a Universidade Federal do Paraná (UFPR), sem ouvir as instituições, sem considerar as suas identidades, história e vocação, é antes de tudo ataque à autonomia universitária, que é um dos pilares da instituição universidade. E se nós tivermos de nos submeter aos interesses políticos circunstanciais, não teremos universidades públicas de qualidade.
A Andifes aprovou manifestação em que repudia esse ataque direto à autonomia das instituições. Repudiamos veementemente e trabalharemos sobre o Congresso Nacional para que não seja aprovada essa medida.
É óbvio que os cortes e os ataques à autonomia das universidades estão relacionados, dentro de um processo mais amplo de desconstrução do projeto de universidade pública que tem vigorado no país. Mas essas ações encontrarão resistência nas universidades e na sociedade. Não vamos nos conformar nem ficar passivos, porque não estamos disputando só concepções de universidades, mas de projeto de nação. E vamos atuar sobre todos os entes da sociedade para que compreendam o que está acontecendo e para que possam também estar ao nosso lado em defesa das universidades federais.
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