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segunda-feira, 10 de julho de 2017

Abominável sociedade, por Fernando Horta




"Que bom que as cores nos diferem. Você fica com a hipocrisia em verde amarelo e eu procuro qualquer outra que dê guarida a um país sem fome. Quem nos olhar saberá de pronto que não me misturo com quem prefere o cassetete à cabeça do estudante, quem prefere o privilégio da gravata à comida da criança, quem tem força física para bater em panela, mas padece de inanição moral."



Abominável sociedade
por Fernando Horta - Jornal GGN
Em junho de 2001, o Jornal Nacional veiculava uma série de reportagens que viria a ser premiada. Marcelo Canellas e Lucio Alves apresentavam a “Fome no Brasil”. O dado revelado era que uma criança morria de fome no Brasil a cada cinco minutos. Em pleno “milagre neoliberal”, como gostam de citar alguns intelectuais e políticos de direita no Brasil, uma criança morria a cada cinco minutos no Brasil. Vou repetir, porque penso que o número deveria ser usado em qualquer discussão sobre política e economia de agora em diante. Ao começar a ouvir qualquer argumento dos defensores desta hipocrisia de direita, pare e escreva “em 2001, aos sete anos do governo FHC, uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil”. Repita ou escreva, não importa, mas sempre comece por esta informação. Em seguida, olhe a ginástica retórica que o interlocutor fará e avalie se ela se encontra no campo da ignorância ou da mácula moral insanável. Qualquer das duas opções, é uma conversa que não vale à pena.
Não sei se já mencionei, mas em 2001, uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil. O fato, chocante, inaceitável, inumano, é irrisório perto da pergunta de um pai, quando confrontado pelo jornalista se não havia como o seu filho “ganhar um pouco mais de peso”. Ana Cláudia dos Santos, a mãe, e Evangelista dos Santos, o pai, com a sabedoria de quem luta para sobreviver, respondem ao repórter “o que você acha que eu devia fazer?” Este diálogo reflete o Brasil do neoliberalismo. O repórter, obviamente não sabia sobre o que perguntava e não conseguia compreender o que via e ouvia. Provavelmente foi dilacerado a cada entrevista, eis que humano. O pai entrevistado, sequer com tempo de tirar a enxada das costas para falar, desfere a pergunta fatídica que separava os brasis de forma tão evidente. “O que você acha que eu deveria fazer?” para salvar a vida da minha filha que não tem o que comer ...
Eu me recordo de assistir esta reportagem e chorar, copiosamente. Eu não choro com hino, bandeira ou camiseta verde amarela. Não choro por cântico religioso fervoroso. Não choro por ver alguém “atingir a meta” de malhar todo dia e perder peso. Não sou de reconhecer heróis em ações ordinárias e totalmente comuns. Eu chorei como criança vendo aquela série. O olhar de Evangelista para o repórter era a demonstração de que nada, absolutamente nada naquele país, poderia estar dando certo.
O que não consigo entender é como Ana Cláudia dos Santos, a mãe, e Evangelista dos Santos, o pai, se tornaram “vagabundos que se aproveitam do Estado para não trabalhar”. Ou ainda como a fome de sua filha poderia ser um reflexo “da meritocracia” que levaria – em um livre mercado – a sociedade brasileira a ser produtiva e rica. Não entendo como Ana Cláudia e Evangelista se tornaram o “problema das contas públicas do Brasil”, tendo contra si os dedos da classe média (saciada) e da maioria dos que apertam botões no parlamento, e que hoje defendem o fim dos programas sociais, dos direitos do trabalho e a redução de vencimentos para os mais pobres.
Apenas uma sociedade doente, ignorante e hipócrita pode acreditar que Ana Cláudia e Evangelista estão sofrendo assim por que não se esforçaram o suficiente. Apenas uma sociedade lunática, cínica e monstruosa pode se convencer de que eles sofrem desta forma por não terem fé suficiente ou por não terem depositado algum valor numa conta em nome de algum deus.
E eu não falei ainda da sua bebê, que padece da fome.
Certamente quando ela crescer, depois de ter lutado para sobreviver, vai saber evitar as mazelas da sociedade. Vai se esforçar numa escola pública de algum sertão poeirento e seco e vai concorrer “de igual para igual” com alguém que comeu na infância toda e que “não aceita privilégio” de quem quer que seja.
Também não falei de você, que se “revoltou” com o conto das “pedaladas” e saiu a bater panelas vazias – de barriga cheia – querendo o “seu país de volta”. Pois a ONU informa que a fome voltou ao Brasil. O seu país, finalmente, voltou. E se você a ele reivindicar as cores verde e amarela, fique com elas. Não me farão falta as cores de um país em que uma criança morria a cada cinco minutos de fome. Um país hipócrita que não aceita vidraça quebrada, mas nunca se importou com as muitas Anas Cláudias e Evangelistas a enterrarem seus filhos em caixas de sapato, como “querubins sem pecado”, no único consolo possível.
Que bom que as cores nos diferem. Você fica com a hipocrisia em verde amarelo e eu procuro qualquer outra que dê guarida a um país sem fome. Quem nos olhar saberá de pronto que não me misturo com quem prefere o cassetete à cabeça do estudante, quem prefere o privilégio da gravata à comida da criança, quem tem força física para bater em panela, mas padece de inanição moral.
Não sei se já falei, mas em 2001, aos sete anos do governo de FHC, uma criança morria a cada cinco minutos de fome, no Brasil.
Este país voltou ...
De fome ...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Quem são os coxas com quem Chico bateu boca — e por que ele os incomoda. Por Kiko Nogueira

Isso não pode
Essa moleza vai acabar

Chico Buarque ama o Rio de Janeiro, entre outros motivos, porque pode circular ali à vontade. Faz caminhadas e corridas com regularidade, sem que ninguém o incomode, a não ser um ou outro fã para uma selfie.
Ou fazia. 
Chico vai ter de rever seus conceitos com relação a seus exercícios em sua cidade. Não são mais os paparazzi flagrando seus jantares com a namorada a uma distância regulamentar. 
Agora são fascistinhas em bando que acham normal tolher o direito de ir e vir. 
Uma “playboyzada” — na definição de Emicida — achou natural abordar de maneira agressiva um sujeito que vê pela TV por causa de suas posições políticas. Dois dos palhaços foram identificados: Túlio Dek, um rapper que ninguém ouviu falar a não ser por seu namoro fugaz com a prima Cleo Pires, filha da atriz Glória Pires, registrado por revistas de fofoca; e o filho de Álvaro Garnero, Alvarinho.
Nenhum deles faz, como diria minha tia calabresa, porra nenhuma. Também não são obrigados, claro. Estavam, ao que parece, saindo do restaurante Sushi Leblon. O filho de Garnero causou controvérsia, recentemente, com um vídeo em que aparecia, alcoolizado, acariciando Ronaldo Fenômeno, que o chamava de namorado. 
O pai saiu em sua “defesa” quando o rapaz foi “xingado” de gay. Álvaro, auto intitulado “empresário”, apresentava um programa de turismo jabazeiro na Rede TV, viajando e se hospedando de graça. Nunca deu Ibope, mas a intenção não era essa, e sim viajar na picaretagem. Filiou-se ao PRB. Pega uma praia com o amigo Aécio quando a agenda permite.
Mário Garnero, pai de Álvaro, portanto avô de Alvarinho, esteve no centro do “escândalo Brasilinvest”, banco de investimentos que fechou em 1985 porque mais da metade de seus empréstimos fora contraída por empresas “fantasmas”.
Garnero foi indiciado pela Polícia Federal por estelionato, formação de quadrilha e operações fraudulentas no mercado financeiro. Em 1997, teve a prisão preventiva pedida pela Procuradoria Geral da República.
Esses moleques inúteis e mal nascidos perderam a modéstia, a educação e a civilidade. Fundiram-se com a coxinhada revoltada on line que acabou com redes sociais, devastando as regras mais básicas, e agora atropelam a Constituição. 
Até prova em contrário, qualquer um tem o direito de acreditar no que quiser — no PT, na mula sem cabeça ou em bula de remédio. Não para eles. Se pudesse, esse pessoal construiria muros separando gente de “bem” e o resto. Tudo isso, obviamente, enquanto grita contra a ditadura bolivariana e manda os outros irem para Cuba.
Ao Globo, Túlio Dek se disse “um grande fã”, mas não entende como o ídolo “continua defendendo o PT”. Chico, um homem bem sucedido, branco, rico como ele, deveria ser como ele. 
O Rio de Janeiro que Chico ama talvez não exista mais. Acabou o sossego. Desta vez, o encontro com a milícia do ódio terminou relativamente bem. Da próxima, quem sabe o que pode acontecer?
 (Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).
Sobre o Autor
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

sábado, 5 de dezembro de 2015

KIM KATAGUIRI, o 'JAPONÊS MAUSINHO' do 'QUANTO PIOR, MELHOR', bem diferente da juventude que defendeu suas escolas embaixo de bombas e cassetetes da polícia elitista do PSDB de Alckmin e Richa

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Bob Fernandes: Análises dos generais nos quartéis. Nas ruas e redes, berros e slogans fascistas.

   "Grupos apropriam-se da bandeira, hino, cores, e alardeiam clichês dos sem-noção. Com empáfia e pretensão impulsionadas por profunda ignorância. Diante de qualquer câmera ou microfone, berram slogans que se ressentem não de razões, que existem e são muitas, mas da Razão. Só eles e elas são a "Pátria", a "Pátria" é só deles e delas. Os servos devem ser mantidos em seu lugar. Ou serem expulsos." - Bob Fernandes



Segue, para reflexão, importante análise do comentarista político Bob Fernandes (em video e texto. Veja também o vídeo do ato ecumênico pelos 40 anos do assassinato, pela Ditadura, de Vlademir Herzog ao final do texto):




Em vídeo conferência para reservistas, em setembro, o comandante do Exército, Eduardo Villas Boas, abordou um hipotético risco de "crise social" e opinou:

-...e nesse contexto nos preocupamos porque passa a nos dizer respeito diretamente.

O general Antonio Mourão, comandante do III Exército, também em palestra para reservistas defendeu o "despertar para a luta patriótica".

Depois, ao G1, o general Mourão disse que tratava não de "convocação", mas da "análise" dos seguintes cenários: "sobrevida" do governo, "queda controlada", "renovação" e "caos".

Tulio Milman, da Zero Hora, relatou a palestra de Mourão. A Folha, a do general Villas Boas.

Jânio de Freitas, jornalista, tem abordado tais falas e significados em meio a um amplo faz-de-conta-que-ninguém-disse-nada.

O que nos ensina a História? Que a República nasceu de levante militar e político em 1889; em 126 anos, outros 3 golpes e meia dúzia de tentativas.

Os escassos 30 últimos anos são o mais longo período democrático da nossa história.

Cabe à Política digerir necessidades vitais da sociedade, e metabolizar equívocos e erros na construção da democracia mais sólida possível.

O que se vive, ao contrário, é a Política da mútua avacalhação. Na disputa pelo Poder, os que deveriam ser grandes se apequenam.

Terminam por encurralar quase tudo num mundo binário. De um lado, porque comum aos demais, ainda a recusa em admitir erros políticos e morais inaceitáveis.

De outro lado, como visto em seguidas agressões nas ruas, recintos, redes e mídias, os fomentadores do fascismo de sempre.

Grupos apropriam-se da bandeira, hino, cores, e alardeiam clichês dos sem-noção. Com empáfia e pretensão impulsionadas por profunda ignorância.

Diante de qualquer câmera ou microfone, berram slogans que se ressentem não de razões, que existem e são muitas, mas da Razão.

Só eles e elas são a "Pátria", a "Pátria" é só deles e delas. Os servos devem ser mantidos em seu lugar. Ou serem expulsos.

Com esses, seja em qualquer latitude e longitude ideológica, não se faz um país democrático.

Veja também:

O Caso Vlademir Herzog: Um momento para não esquecer

domingo, 16 de agosto de 2015

Quando a direita golpista encontra o Estado ampliado


     "A falta de cultura política faz essa direita entender o poder político como uma espécie trono que, se for tomado, passa a ordenar de forma legítima e completa todo o ordenamento social que deve, a partir de então, curvar-se aos novos senhores. Uma burrice colossal." - Ion de Andrade

Quando a direita golpista encontra o Estado ampliado, por Ion de Andrade

Por Ion de Andrade
Gramsci, em sua elaboração sobre a revolução de transformação no Ocidente, sinalizou nos anos 30 que a presença da Sociedade Civil nos Estados ocidentais condicionaria uma revolução longa, pois essa Sociedade Civil, entendida como uma densa rede de trincheiras, alicerçava a supremacia burguesa sobre o consenso e não sobre a força. A robusta Sociedade Civil dos Estados ocidentais impediria, portanto, qualquer sonho de solução explosiva à esquerda capaz de varrer, por um ato de força, tal poderio burguês sobre o Estado.
Esse raciocínio cristalino, embora hoje já insuficiente, conforme comentei no artigo  "A via brasileira e a Crise do paradigma gramsciano" ainda não foi devidamente apreendido pela direita tupiniquim de matriz golpista, que crê que em qualquer circunstância histórica, pode golpear impunemente a soberania popular.
A falta de cultura política faz essa direita entender o poder político como uma espécie trono que, se for tomado, passa a ordenar de forma legítima e completa todo o ordenamento social que deve, a partir de então, curvar-se aos novos senhores. Uma burrice colossal.
O Estado de direito regula uma guerra, permitindo, por meio de instituições cuja legitimidade decorre do voto, a formação de condições mínimas para o exercício do governo e da oposição, que, apesar de minoritária, é possuidora de direitos e prerrogativas inalienáveis. Em torno desse Estado há a tal rede de trincheiras que é a Sociedade Civil que sustenta o próprio arcabouço estatal.
Pelo lado do campo autoritário e atualmente golpista poderíamos citar, como instâncias típicas da Sociedade Civil, a grande mídia, os sindicatos patronais, as grandes corporações profissionais da elite, (magistrados, médicos, dentre outras), os partidos conservadores, as organizações sociais de direita e de extrema direita. No campo democrático poderiam ser citadas instituições como a OAB, a ABI, a CNBB, as Cenrais Sindicais, os diversos sindicatos de trabalhadores dentre os quais petroleiros, bancários, metalúrgicos, professores, o MST, os demais inúmeros movimentos sociais, os partidos do campo democrático, dentre outros...
A cassação do mandato de Dilma, seja qual fosse a capa de legitimidade paraguaia, mergulharia o país numa longa crise de governabilidade sem remédio até que a normalidade institucional, o Estado de direito, estivesse novamente recomposto.
O conflito aberto eclodiria levando o país a um cenário imprevisível e catastrófico.
A direita armou o bote e depois, despertada sabe-se lá por qual conjunto de variáveis premonitórias, reconheceu que teria um preço a pagar.
O peso gravitacional das variáveis que vieram à luz do dia, (manifestações patronais, resistências anunciadas dos movimentos sociais, risco econômico, etc) não me parece suficiente, aliás, para justificar tamanho e tão largo recuo da complexa e cara estratégia golpista montada há meses. Num movimento concertado TODOS os setores golpistas recuaram. Difícil de entender com o que sabemos.
É como se estivesse faltando alguma variável de peso maior capaz de tornar mais inteligível o recuo em curso. Será que a prisão do Almirante Othon precipitou de uma vez a ruptura formal da aliança que os golpistas tinham como certa com as Forças Armadas?
Seja como for, 31 anos depois do fim da ditadura, enlutada e tangida, a direita vai sendo novamente obrigada a conformar-se, e já não era sem tempo, aos ditames do Estado de direito.
O luto é justo. O Estado de direito não é opcional, é obrigatório e é, além disto, a arena histórica na qual a cidadania e os trabalhadores construirão vida digna, autoconfiança e emancipação.
A crise atual testou os limites das ambições golpistas e a capacidade de resistência da democracia brasileira.
A guerra segue adiante e sem quartel, mas, ao que parece, as instituições passaram no teste de stress.
O teatro macabro se encerra com o ato do dia 16 que passa a figurar como o gran finale e não mais como o preparador de um golpe a ser perpetrado pelo TCU/Câmara Federal com a rejeição das contas do governo de 2014 ou via TSE com a abertura de um processo de revisão das contas de campanha da presidenta, já aprovadas por unanimidade.
Do lado de cá, no dia 20, a nossa manifestação deve ser a festa cívica de uma nação que se levantou, é crítica ao governo, mas não aceita perder as conquistas democráticas, nem viver novo ciclo autoritário e entreguista.
Festa de bodas a do dia 20 tem que ser grande. Bodas democráticas.
Fonte: Luis Nassif Online  -  Leia também: Jânio de Freitas sobre os ataques dos imbecis à Democracia

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Jô Soares comenta a pichação-ameaça de imbecis fascistas-golpistas em frente ao seu prédio, seguida da análise de Luis Fernando Veríssimo sobre o ódio doentio da direita



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

  Jô Soares, em seu último programa com as "Meninas do Jô", comentou e discutiu as pichações de coxinhas-golpistas antidemocráticos de direita, com os dizeres "Morra, Jô Soares", em frente ao seu prédio, o que assustou inúmeras pessoas, inclusive crianças que frequentam duas escolas próximas.  

 Tal ato de Terrorismo, manifestação de ódio e covardia são bem dignas dos seguidores de Olavo de Carvalho, Arnaldo Jabor, Kim Kataguri, Marcello Reis, Diogo Mainardi, Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo, retoma uma prática comum de covardes nazistas dos tempos da ditadura, e tudo isso porque o apresentador corajosamente vem defendendo a democracia e a presidenta Dilma da onda fascistóide, fundamentalista e golpista, fomentada pela Casa Grande e sua mídia amestrada, contra o resultado legítimo das Urnas, enfrentando  os interesses golpistas da própria emissora que o contratou, a poderosa e Golpista Rede Globo, como demonstrou a entrevista feita com a presidente e que levou a emissora a suspender seu programa semana passada, pondo no lugar os jogos da copa Sub-20 (que ela nunca transmitiu antes), e já buscando uma alternativa ao programa do Jô para breve. 

  Veja o vídeo, abaixo (extraido do Contexto Livre), onde o apresentador comenta o fato fascista e suas imlicações. Após isto, leia o artigo-crônica de Luis Fernando Veríssimo, publicado no Estado de São Paulo, sobre o ódio vingativo, fascista e truculento da direita golpista:



Ódio


Texto de Luis Fernando Veríssimo, publicado no Estado de São Paulo, em 25 Junho 2015 | 02h 00



Não vi a entrevista do Jô com a Dilma, mas, conhecendo o Jô, sei que ele não foi diferente do que é no seu programa: um homem civilizado, sintonizado com seu tempo, que tem suas convicções - muitas vezes críticas ao governo -, mas respeita a diversidade de opiniões e o direito dos outros de expressá-las. Que Jô fez uma matéria jornalística importante e correta não é surpresa. Como não é surpresa, com todo esse vitríolo no ar, a reação furiosa que causou pelo simples fato de ter sido feita.

  A deterioração do debate político no Brasil é consequência direta de um antipetismo justificável, dado aos desmandos do próprio PT no governo, e de um ódio ao PT que ultrapassa a razão. O antipetismo decorre em partes iguais da frustração sincera com as promessas irrealizadas do PT e do oportunismo político de quem ataca o adversário enfraquecido. Já o ódio ao PT existiria mesmo que o PT tivesse sido um grande sucesso e o Brasil fosse hoje, depois de 12 anos de pseudossocialismo no poder, uma Suécia tropical. O antipetismo é consequência, o ódio ao PT é inato. O antipetismo começou com o PT, o ódio ao PT nasceu antes do PT. Está no DNA da classe dominante brasileira, que historicamente derruba, pelas armas se for preciso, toda ameaça ao seu domínio, seja qual for sua sigla. 

  É inútil tentar debater com o ódio exemplificado pela reação à entrevista do Jô e argumentar que, em alguns aspectos, o PT justificou-se no poder. Distribuiu renda, tirou gente da miséria e diminuiu um pouco a desigualdade social - feito que, pelo menos pra mim, entra como crédito na contabilidade moral de qualquer governo. O argumento seria inútil porque são justamente estas conquistas que revoltam o conservadorismo raivoso, para o qual “justiça social” virou uma senha do inimigo.

  Tudo isto é lamentável, mas irrelevante, já que o próprio Lula parece ter desesperado do PT. Se é verdade que o PT morreu, uma tarefa para investigadores do futuro será descobrir se foi suicídio ou assassinato. Ele se embrenhou nas suas próprias contradições e nunca mais foi visto ou pensou que poderia ser a primeira alternativa bem-sucedida ao domínio dos donos do poder e acordou um dia com um tiro na testa? 

  De qualquer maneira, será uma história triste.