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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Emir Sader, cientista político: "Democracia não cabe no neoliberalismo de Temer"

"A retomada do modelo neoliberal, fracassado nos anos 1990, derrotado sucessivamente em 2002, 2006, 2010 e 2014, só pode se dar mediante um governo não democrático. Golpista no acesso ao poder, porque não obteria maioria democrática nos processos eleitorais com um projeto tão antipopular e autoritário, porque tem que governar contra o interesse da grande maioria da população."

Temer
Temer coloca como objetivo a aplicação de um duro ajuste fiscal, que corta direitos da massa da população

Não resta a Temer discurso algum, senão o da ordem e o da economia de recursos, que se traduzem em repressão às manifestações e em medidas antipopulares

por Emir Sader, para Revista do Brasil publicado 15/10/2016



A retomada do modelo neoliberal, fracassado nos anos 1990, derrotado sucessivamente em 2002, 2006, 2010 e 2014, só pode se dar mediante um governo não democrático. Golpista no acesso ao poder, porque não obteria maioria democrática nos processos eleitorais com um projeto tão antipopular e autoritário, porque tem que governar contra o interesse da grande maioria da população.
Um governo que se coloca como objetivo a aplicação de um duro ajuste fiscal, que corta direitos adquiridos pela massa da população, que acentua ainda mais a recessão econômica e, com ela, o desemprego e a perda de poder aquisitivo dos salários, é incompatível com a democracia, porque governa contra a grande maioria dos brasileiros. Temer disse que se conforma com ter o apoio de 5% da população, porque sabe que governa para essa minoria. Mesmo contando com o apoio da velha mídia, não conseguiria obter apoio popular para um programa tão antipopular.
Daí o endurecimento não apenas repressivo do governo, mas das ações concertadas com a Polícia Federal, com promotores, com a Procuradoria-Geral da República, com o Supremo Tribunal Federal, para blindar o sistema politico, para dificultar ao máximo que as forças populares possam voltar a ganhar eleições presidenciais e desfazer o que o governo golpista está fazendo.
O pouco tempo em que está governando foi suficiente para demonstrar que o governo golpista não tem nem discurso e nem medidas que possam conquistar um mínimo de apoio na sociedade. Seu núcleo estratégico, a equipe econômica, só tem a prometer um duro ajuste fiscal, com a esperança de recuperar o que considera o equilíbrio das contas públicas em 2017 ou talvez só em 2018. Não tem o mínimo que se pudesse chamar de projeto hegemônico, que conseguisse organizar um bloco social coerente para governar e um bloco social de apoio.
Ao contrário, o Temer foi indispensável para o golpe, pelo seu cargo de vice-presidente, nada mais do que isso. Seu discurso inicial de "reunificação" do país se choca com o seu isolamento absoluto. A recuperação da economia não tem horizonte futuro algum. Até o equilíbrio fiscal, que poderia ser o objetivo essencial, está afetado pelos gastos desequilibrados do governo.
Não lhe resta discurso algum, senão o da ordem e o da economia de recursos, que se traduzem em repressão às manifestações e em medidas antipopulares. Temer se resigna, dizendo que não lhe importaria ter 5% de apoio, se "colocar a economia nos trilhos", mas em trilhos que atendem a esses 5% e não à grande maioria.
Em escala mundial o neoliberalismo produz governos impopulares, que têm pânico das eleições e só se mantêm pela repressão. As políticas de austeridade na Europa desgastam a todos os governos que as assumem e causam crise permanente de legitimidade. Na América Latina, em países como o México, o Peru, o Chile, os governos se desgastam logo que são eleitos e mantêm o modelo neoliberal, nunca conseguem eleger seus sucessores. As pessoas se interessam cada vez menos pela política, porque os partidos se sucedem, mas reproduzem o programa de governo.
O capitalismo, na sua fase neoliberal, se choca assim, frontalmente, com a democracia. Tem que apelar, cada vez mais, para a repressão, para blindar os sistemas político-eleitorais, para tentar impedir que a esquerda eleja presidentes que ponham em prática projetos alternativos aos seus.
No Brasil, conforme a direita retoma o mesmo modelo neoliberal, a impopularidade fará com que o governo se choque, cada dia mais, com a democracia, se torne cada vez mais autoritário e impopular. Viveremos dois anos de grande disputa política em torno da continuidade desse modelo ou de uma nova derrota sua, se conseguimos recuperar para o povo o direito de decidir sobre os seus destinos.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Sobre mesóclises, mediocridade e a ameaça fascista, por Fran Alavina


160906-Dottori

Todo fascista é, antes de tudo, um medíocre. Mas considera esta constatação uma afronta — e reage violento.  Evitar que esta passionalidade torne-se perene é um dos desafios centrais de hoje 
Por Fran Alavina | Fonte: Outras PalavrasImagem: Gerardo Dottori, Retrato de Mussolini (1933)
Não é apenas um golpe. Não é somente a sanha neoliberal que transformada em logística estatal que precariza o trabalho e transforma direitos em bens de consumo. É tudo isso, mas além da faceta golpista neoliberal há também o caráter fascista. O mais horrendo dos três âmbitos, com certeza. É golpe; é a volta do neoliberalismo ao poder; e, é também o começo da institucionalização de práticas fascistas. Aí reside a diferença com momentos anteriores: na perigosa passagem do campo da prática e do pensamento privado para o âmbito público da institucionalização.
Assim considerar, é não subestimar a História, pensando que ela se dá como em terreno plano, sem buracos, sulcos e depressões de superfície. Ela não é nem plana, nem linear. O próprio acontecimento do golpe nos mostra isso: quando se passou que o golpe político era uma prática do passado, ele retornou com toda força, emergindo no seio de uma jovem democracia que passava pela sua mais longeva fase de ampliação de direitos e redução de desigualdades. Por isso, nesse momento em que precisamos dimensionar o acontecido, sob os mais diversos aspectos, não se pode acreditar ingenuamente que práticas como o golpismo, o neoliberalismo e o fascismo para que possam prosperar sejam excludentes no campo da ação. Como se cada um desses âmbitos aguardasse na fila a hora de suas respectivas senhas. Ao contrário, provados e forjados em um passado recente, esses âmbitos se integram, ganhando maior vitalidade, pois não avançam isoladamente.
TEXTO-MEIO
Desse modo, abre-se um precedente extremamente perigoso, um vácuo de sentido político que não pode ser subestimado. Uma vez que se vislumbra o risco de se criarem as condições para o surgimento de algo pior. O atraso e o conservadorismo sempre podem ser apresentados como vanguarda. Desde que além das condições materiais exista uma passionalidade coletiva que lhes sustentem subjetivamente. Ora, tal núcleo de sustentação subjetiva e pública é a formação de uma massa perene que se aglutina em torno não de um princípio de ação comum, de um programa estratégico, de um partido, de um movimento social uniforme, ou em prol de uma causa política particular, mas sim em torno de um sentimento: compartilhado e forte. É o campo passional que pode formar um laço uniforme de agregação, quando a massa que se formou não apresenta fortes liames internos de reconhecimento. Nesses casos, a paixão precede a razão, e a impede de operar, de modo que tudo tem que estar remetido ao campo afetivo-sentimental. A paixão torna-se a própria razão de ser dos gestos, das falas e dos atos. Se de nosso lado, dizemos que preponderou o ódio e o ressentimento; do lado de lá, a narração sempre tomava como ponto de partida a suposta existência de um grande sentimento de “indignação”. Se este era ou não o sentimento, o fato é que a razão tornou-se uma minúscula ilha cercada em todos os lados por um oceano de passionalidades. E não se tratava de qualquer passionalidade, era, e ainda é, uma passionalidade violenta, que não enxerga limites entre a civilidade e a barbárie. Uma passionalidade que por ser coletiva não se contenta com compensações individuais. Ela quer um grande espetáculo, que só o circo político-midiático, isto é, que só o real, contado na forma e com os recursos da imaginação, pode oferecer. É justamente o vínculo sentimental que faz com nas manifestações pró-golpe, se encontrem juntos em um mesmo espaço: torturadores, defensores da ditadura militar, monarquistas, integralistas, separatistas, e pessoas que dizem apenas querer mais democracia. Por isso, se por um lado, agora se inicia a fase da resistência ao golpismo, também não se pode deixar que essa massa pró-golpe eivada de passionalidade violenta se torne uma massa perene. Uma vez tornada perene, ela não apenas se apresentará como um dos núcleos de sustentação do golpe, como também fará com que o golpismo e o neoliberalismo sejam coisas pequenas, pois haverá um núcleo forte de sustentação coletiva do fascismo, que se tornará mais escancarado que agora. Como não deixá-la torna-se perene, esta massa da passionalidade violenta? Eis uma questão urgente, e que pensamos, pode começar com um diagnóstico e desnudamento de uma característica intrínseca ao ser fascista: amediocridade.
É típico do ser fascista a mediocridade. Não há fascista que não seja, antes de tudo, um medíocre. Porém, não basta apenas ser, é preciso se identificar como tal. É na passagem entre “ser” e “se reconhecer como isto que se é” que o proto-fascista emerge violentamente. Pois, ele não quer ser chamado pelo o que é. Na verdade, considera a constatação de seu ser uma afronta pessoal, um desaforo. Veja-se o caso do interino que se tornou permanente: ele não quer ser chamado pelo que é: GOLPISTA.
O modo fascista de esconder sua mediocridade inerente apela sempre ao mundo da cultura, do conhecimento formal, das belas artes e das letras. Em outros termos, apela-se à erudição e ao gosto artístico de um certo bom fruidor. Continuemos, então, com o mesmo exemplo, porém outro caso. O caso do elogio das mesóclises, algo que qualquer um satisfatoriamente alfabetizado pode realizar. Somente alguém muito medíocre para ostentar um simples recurso discursivo como símbolo de distinção; e, somente outro medíocre o aplaudiria por isso. Dir-se-ia, no adágio da sabedoria popular, que compreende a natureza das relações sem precisar de mesóclises: “não sem motivo um gambá cheira outro”. Talvez o gosto das mesóclises seja um ato falho do inconsciente medíocre, que sempre o remete ao seu lugar natural: o meio. Mas, continuemos ainda com o mesmo exemplo personalizado, e em um caso semelhante. O bom gosto estético é desprovido de qualquer relação de caráter moral: o belo e o certo não são configurados sem qualquer laço de reciprocidade. Não esqueçamos, os fascistas históricos eram grandes admiradores das artes. No caso de agora, o ex-interino, que além de um amante das artes é também poeta (pelo menos é o que dizem) propõe a esdrúxula medida da redução dos gastos públicos por 20 anos, um medida não apenas cruel, mas desumana. Como nos fascistas de ontem; nos fascistas de hoje, a maldade e a beleza podem conviver lado a lado, sem maiores dificuldades.
Ademais, passando do campo do estético ao ético, veja-se que o fascista para esconder o vácuo do valor moral de suas ações, vácuo causado pela mediocridade, remete o fundamento de suas ações, não apenas aquelas de fórum privado, mais principalmente as ações feitas na esfera pública, à Deus e à família. Medíocre que é, o fascista não se responsabiliza por suas próprias ações. Caso mais exemplar disso pode ser medido na ínclita professora e egrégia advogada do golpe, que muitas vezes nos aparece como uma personagem tragicômica de uma bufa encenação barroca. Gesticulando como o rábula da província: sempre a defender ou acusar, pois vê em toda oportunidade de fala a chance de um cliente novo. Certamente, sua gesticulação (não podemos esquecer que o gesto é um dos signos mais expressivo que os fascistas se utilizam) cinicamente passional, que vai da aparente temperança ao fingindo furor em um átimo, como se sempre estivesse perante um júri de tribunal, é a expressão máxima  de sua faceta fascista que se alinha perfeitamente ao discurso. Gesto e palavra se unem para dar a forma dos atos. Mas, é no conteúdo do discurso que se confirma a forma. Quando na tribuna do senado ela atribuiu à Deus a “formação de um complô”; e, depois disse que fazia tudo aquilo por “seus netos”.
Ora, para o fascista, o fundamento da ação nunca pode está no sujeito (lembremo-nos do funcionário nazista que dizia apenas cumprir ordens), porém sempre no além de si mesmo: no espaço transcendente da deidade, ou no lugar temporal do futuro familiar. O fundamento não pode estar no sujeito, pois este está no meio, no meio está a mediocridade, e esta nunca pode ser arrolada como princípio da ação honrosa. Não pode passar despercebido que justamente uma advogada não reclame como princípio de sua ação a Lei. Perceba-se, pois, que não estamos mais no campo da política, uma vez que a Lei, ou até mesmo um falso legalismo, não é chamado como critério de justificação das ações. Tal, não é senão o fascismo na sua essência conteudística e na sua forma retórica. O abandono da esfera política, uma vez que o fascismo é a negação da política, se recorre a duas esferas, que são consideradas por princípio fora da regulação política:Deus e a família. Estão, pois, formados os círculos concêntricos das justificações morais do fascista, que nas perversidades que justificam se assemelham muito aos círculos do inferno de Dante. O desejo megalomaníaco do fascista é diretamente proporcional à sua mediocridade. Logo, a advogada do golpe afirmar após o desfecho dos ritos legais que o medíocre (tão medíocre, que tem medo de vaias) está em “dívida” com ela. Como o rábula da vila, após o fim exitoso do processo, se apressa em cobrar a fatura. Todavia, não se trata de uma dívida qualquer: ele, o medíocre letrista das mesóclises, dever ser, segunda sua credora: “o melhor de todos os presidentes”. Mas, como pode alguém medíocre ser o melhor de todos? Só mesmo um outro medíocre, para esperar que da mediocridade nasça grandeza. No reino escuro das mediocridades até quem tem um olho é cego.
Nesse sentido, o golpe, por seu caráter fascista, quando desnudado, não é outra coisa que o elogio da mediocridade. Mediocridade dos que o fizeram, mediocridade dos que o aplaudem. Caso você se oponha ao reconhecimento da mediocridade, e ousar dizer que o medíocre não é aquilo que diz ser ou não ser, mas sim àquilo que é, medíocre, não espere outra coisa que a violência. Medíocres não gostam de ser contrariados. Fascistas de ontem, fascistas de hoje: violentos, pois sempre medíocres.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Luciano Martins Costa sobre a Fiesp e o perfeito coxinha midiota

Você deve ter lido, nesta semana, sobre Laodsé de Abreu Duarte, o diretor da Fiesp desde 1983, que deve mais de R$ 6 bilhões ao Fisco. Mas o que você dificilmente vai ficar sabendo pelos jornais hegemônicos é que centenas de empresários são clientes de duas dezenas de escritórios de advocacia especializados em driblar as obrigações fiscais.

Foto: EBC
E você, midiota em busca da perfeição, foi fazer uma selfie com o pato amarelo da Fiesp. Foto: EBC
Texto de Luciano Martins Costa extraído do site Brasileiros
Você deve ter lido, nesta semana, sobre o empresário, diretor da Fiesp desde 1983, que deve mais de R$ 6 bilhões ao Fisco.
Laodsé de Abreu Duarte, que tem nome de filósofo chinês, naturalmente contesta a dívida. Mas a própria nota oficial da Fiesp, emitida para se desvincular do indigitado caloteiro, afirma que a entidade “condena a excessiva carga tributária do País”, da mesma forma como “”é intransigente no combate à sonegação e à corrupção” – (atenção, advogados – aqui, a expressão “indigitado caloteiro” quer dizer “apontado como caloteiro”, afirmação que se justifica porque ele é cobrado publicamente pelo Tesouro).
Mas Laodsé – que não é o autor do Tao Te Ching –, tem reagido com serenidade oriental à última leva de notícias que dá conta de sua espantosa relação com a lei.
Ele pediu demissão de seu cargo na Fiesp e distribuiu notas afirmando que não pode ser chamado de caloteiro porque seu caso ainda não cumpriu toda a tramitação possível na Justiça.
Não é o mesmo tratamento que ele e seus colegas da poderosa associação da indústria recomendam, por exemplo, a personagens acusados seletivamente pela imprensa nos recentes escândalos de corrupção.
Foi, aliás, sob patrocínio da Fiesp que se desenvolveu o processo de golpe que interrompeu o mandato da presidente da República eleita em 2014.
Mas o caso do sr. Laodsé é dessas histórias que ganham as manchetes e logo se desvanecem, porque a mídia tradicional não quer discutir a questão central: o que mais prejudica o Brasil – a carga tributária que é paga pelos empresários e cidadãos honestos ou o buraco provocado no Tesouro pelos sonegadores?
Aliás, será que existe uma relação entre as alíquotas de impostos e taxas e a expectativa de arrecadação desidratada pela sonegação histórica?
A Federação do Comércio do Estado de São Paulo publica há anos um painel que atualiza minuto a minuto o peso dos tributos, mas nunca se preocupou em divulgar a carga da sonegação sobre os que cumprem suas obrigações tributárias.
O noticiário sobre o sr. Laodsé tem o mérito de levantar essa cortina: os valores devidos pelos sonegadores ao governo federal passam do trilhão de reais.
Nem mesmo os jornalistas especializados conseguem vislumbrar o que seja essa soma, sem consultar outras referências. É preciso observar, por exemplo, que apenas o valor cobrado do sr. Laodsé supera as dívidas de 18 Estados brasileiros, entre eles a Bahia e Pernambuco.
Se conseguisse recuperar 20% do total devido pelos grandes sonegadores, o Tesouro poderia cobrir o déficit público que, entre outras coisas, foi usado como justificativa para o afastamento de Dilma Rousseff, e poderia financiar todos os programas sociais que estão sendo ameaçados de corte pelo governo enterino.

Bom, tudo isso pode ser apreendido com pouco esforço na leitura do conjunto de notícias disponível na mídia em geral desde o dia 20 de junho, quando o site conjur.com.br publicou uma grande análise sobre o calote trilionário dos arautos da moralidade pública.
Mas o que você dificilmente vai ficar sabendo pelos jornais hegemônicos é que centenas de empresários são clientes de duas dezenas de escritórios de advocacia especializados em driblar as obrigações fiscais.
Um dos mais lustrosos entre esses consultores jurídicos foi preso há dez anos e ainda responde a processo, por distribuir uma cartilha ensinando a esconder dinheiro em empresas offshore.
Sabe aquela lista chamada de Panama Papers? Estão quase todos lá, mas a mídia tradicional não tem interesse em identificá-los.
E você, midiota em busca da perfeição, foi fazer uma selfie com o pato amarelo da Fiesp.
Sabe quem é o pato, não sabe?
Link curto: http://brasileiros.com.br/N5zyo
#Luciano Martins Costa
Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidad

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Velha mídia e a imposição de uma ideologia, por Alexandre Tambelli


Liberdade de comunicação e expressão sem comprometimento com a Ética e com a busca pela verdade não é liberdade.



Sobre a velha mídia é imperativo dizer que Rede Globo, Folha, Estadão, Veja, Band, RBS, Rede TV e algumas poucas mais estão liberadas para agir da maneira que bem entendem, porque a sociedade brasileira e nossos representantes no Executivo, Legislativo e Judiciário aceitam esta liberdade irrestrita deles, ao não cobrar limites éticos, obrigações de realizarem Jornalismo de qualidade, com a busca pela verdade no Jornalismo por eles praticado.

Desde sempre me parece que estes grupos de mídia se sentem e se colocam acima da Lei e eles acabam por desvirtuar o sentido literal do termo liberdade de expressão: um dos pilares da Democracia e do Jornalismo.

Acreditar que podem fazer qualquer matéria e com manchetes garrafais e negativas (afirmando verdades sem comprovação) sobre pessoas e grupos políticos sem nenhuma preocupação com a verdade do fato noticiado, com o respeito humano para com as pessoas envolvidas, evitando os assassinatos de reputação, mídias, até, utilizando, da criação de fontes em off “fantasmas” para condenar pessoas e assim por diante é desvirtuar o sentido literal do termo liberdade de expressão.

De algum modo creem estes grupos de mídia que as Leis brasileiras não se aplicam a eles (aos grupos de comunicação da velha mídia).

E estamos falando de não mais que 10 famílias controlando bem mais de 80% de todos os meios de comunicação que produzem o noticiário, trazem informações sobre o cotidiano do Brasil e do Mundo para os brasileiros.

Podemos dizer que a velha mídia possui/forma o oligopólio das comunicações no Brasil.

Pensemos juntos em ações deste oligopólio da velha mídia.

Perseguir e expor a execração pública pessoas e grupos políticos por causa da Ideologia diversa da deles é Ético, é Jornalismo?

Jogar pessoas contra pessoas criando este clima de ódio social que se instaurou no Brasil contra pessoas de determinado grupo político é papel de uma empresa que trabalha com Jornalismo?

Defender interesses particulares (ideológicos e econômicos) como se fossem interesses coletivos e dos brasileiros é fazer Jornalismo?

Defender interesses de grupos econômicos antinacionalistas e de países centrais do Capitalismo em detrimento do Brasil e de sua soberania e desenvolvimento econômico/industrial independente é papel de empresa de mídia brasileira (ou ao menos de empresa de mídia que está situada em território brasileiro)?

É só pensar na Petrobras e ver o descuido do noticiário, sempre negativo, para com esta empresa para saber do que estou falando. Empresa estratégica para o País.

Quanto este comportamento de perseguição ao ideologicamente diferente não é nocivo para a sociedade brasileira, não é verdade?

Encontrar uma única visão de mundo, uma única opinião, uma única direção da informação que podemos ter sobre qualquer assunto de interesse social e nacional é saudável? Resultado do oligopólio da comunicação em mãos da velha mídia.

Imaginemos estes grupos de mídia combinando em uníssono perseguir alguém, só porque a pessoa defende outras ideias, busca outro modelo econômico e social para o Brasil?

Onde o perseguido irá se defender?

Alguém já viu a velha mídia abrir espaço/tempo no seu noticiário para o perseguido se defender das acusações (muitas das vezes frágeis, algumas vezes verdadeiras, outras vezes infundadas e até acusações inventadas) que ela coloca no papel, na tela ou no vídeo?

É justo alguém ser acusado de cometer ilícitos de maneira implacável sem existir contra ele condenação Judicial, sem se apresentar provas materiais e cabais de que os ilícitos são reais, e não apenas frágeis ilações, e não ter o acusado direito de se defender no mesmo canal (jornal, revista, portal, rádio, televisão) e com o mesmo espaço da acusação sem provas?

Imaginemos estes grupos de mídia oligopólicos querendo impor a sua Ideologia e o modelo econômico-social a ser implementado no Brasil, mesmo que nós, a população, em sua grande maioria queira outro caminho para o País?

Por que a perseguição ao diferente (pessoa/ Ideologia) é aceita por todos nós? E sem reflexão? Aqui respondo.

Porque não temos a chance de ouvir, assistir, ler uma opinião diferente, uma notícia favorável ao outro (pessoa) e a outro modelo econômico-social (Ideologia) para além do da velha mídia.

O contraditório (o outro lado/os outros lados da notícia) não se faz presente na velha mídia. Em não se fazendo presente a verdade se torna única.

Quase que somente quem defende a sua Ideologia e é aliado da velha mídia anda sendo entrevistado e opinando em seus microfones.

Com o contraditório, por exemplo, gente de diferentes ideologias/partidos exporiam suas ideias, dariam suas versões sobre fatos narrados pela velha mídia em igualdade de condições nos meios de comunicação. E, não acontece assim, porque há um oligopólio dos meios de comunicação.

Podemos dizer de maneira simples: existe uma predominância brutal de uma única Ideologia nos meios de comunicação brasileiros.

E com este Poder de penetração social (o oligopólio da comunicação em poucas mãos e com mesma ideologia e propósito) facilitamos de existir a perseguição ao diferente, a imposição de um modelo socioeconômico, porque a sociedade se torna refém do oligopólio.

Facilitamos como?

Imaginemos contrariar os interesses destes grupos de mídia e saberemos.

Um Juiz que ouse dar uma sentença em prol de não aliado ideológico da velha mídia pode ter sua reputação assassinada.

É só pensar uma ação em cadeia deste oligopólio midiático ameaçando a reputação do Juiz se seu parecer contrariar estes poucos grupos de mídia e se saberá o quanto é nocivo para a sociedade a voz única e ameaçadora da velha mídia.

O Juiz, em suas obrigações com a Justiça e a Verdade, poderá ter medo de exercê-la porque a velha mídia com seu Poder oligopólico é capaz de formar uma opinião pública favorável à execração pública dele (o Juiz), e leva-lo à condenação de alguém inocente.

E não estamos nos tornando uma opinião pública que quer condenar determinados grupos políticos e pessoas baseados apenas no noticiário diário da velha mídia? Atualmente, com a ajuda de vazamentos seletivos e ilegais de depoimentos de “delatores” da Lava-Jato?

E sempre no desejo de condenar os participantes de uma agremiação política e esquecendo-se de ao menos nos indignar por qualquer erro que os participantes de outras agremiações políticas comentam, quando estas são aliadas da velha mídia.

E, que, por esta aliança (político-ideológica), os participantes de agremiações políticas aliadas da velha mídia são pela mesma velha mídia poupadas de qualquer perseguição e/ ou execração pessoal, partidária diante do público em geral.

É justo vivermos numa sociedade onde a sua bandeira ideológica determina se você pode ou não ser perseguido, ter sua reputação assassinada pela velha mídia em noticiários diários sem direito a se defender com o mesmo tempo e no espaço de quem lhe acusa, e até ser condenado sem provas porque os grupos de comunicação oligopólicos têm força para formar uma opinião pública com sanha condenatória e influenciar decisões de Juízes em tribunais?

Pensemos na realidade minha que descrevo abaixo.

Eu aprendi que para ser uma pessoa melhor, mais leve, menos preconceituosa e mais consciente das coisas que interessam ao meu País torna-se preciso a atitude radical de desligar as rádios e as TVS abertas do Brasil, excetuando os canais educativos, a TVT (TV dos trabalhadores) e alguns canais ligados à Igreja Católica, e não ler jornais e revistas da velha mídia para evitar me alimentar de ódio, de me tornar um perseguidor de pessoas, de me transformar num sujeito rude e violento e com instinto condenatório.

Quanta violência no linguajar desta chamada velha mídia, quanta vontade de não aceitar as diferenças de opiniões, de querer destruir os governos e os governantes que não seguem a sua cartilha Ideológica existe.

Para que todo este Estado de Coisas?

É justo vivenciarmos a quase privação de assistir, ouvir ou ler notícias de milhões de brasileiros indignados com a forma de praticar “Jornalismo” da velha mídia oligopólica?

Somos alguns milhões a reclamar diariamente do comportamento da velha mídia, que mais parece um partido político de oposição.

Muito do Brasil intolerante e até da crise econômica de hoje é fruto deste processo violento e fratricida que comandam Rede Globo, Band, Rede TV, RBS, Folha, Estadão, Veja e algumas mídias mais e suas editorias que só mostram violência, só falam mal do Brasil, só querem medidas recessivas e desfavoráveis à maioria da população e não mostram uma página de notícias boas sobre o País; lugar, onde, por exemplo, existia no início dos anos 2000, 50 milhões de famintos e 12 anos depois, erradicada é a extrema-pobreza, fato que retirou o Brasil do Mapa da Fome da ONU (Organização das Nações Unidas).

Por que só termos a Editoria do Brasil do caos, da violência e da corrupção, onde tudo dizem dá errado, apesar do Brasil ter um PIB, hoje, 5 vezes maior do que o de 12 anos atrás e termos um Judiciário que passou a investigar à corrupção do colarinho branco e não termos mais o famoso “Engavetador Geral da República”?

Este mês houve, por decisão da Presidenta da República, aumento para professores e pros aposentados acima da inflação do Período e não virou manchete e notícia a ser valorizada. É correto?

E, o mais chato, parece que só se tem uma manchete e notícias e sobre uma única pessoa a ser veiculada depois que o “Impitman” subiu no telhado. Pessoa a ser perseguida às 24 horas do dia só por não defender/ compartilhar do modelo socioeconômico que a velha mídia defende para o Brasil e forte candidata para vencer as eleições presidenciais de 2018.

Eu não sei qual é o limite de saturação e paciência do povo brasileiro diante destas mídias.

A minha, felizmente, terminou em 2008. Estou livre deste vírus do ódio e do mal e da perseguição.

Tomara que possamos adentrar numa nova era em breve. Torna-se preciso modificar este modelo de Jornalismo que se crê acima do bem e do mal e acima de qualquer Lei.

Liberdade de comunicação e expressão sem comprometimento com a Ética e com a busca pela verdade não é liberdade jornalística, penso eu.

Todos têm seus direitos e obrigações e devem seguir a Leis vigentes no Brasil e ter comprometimento Ético e com a verdade, que, creio eu, se aprende desde o berço. Até empresas de Jornalismo e seus profissionais.

Quem não possui comprometimento com a Ética e a verdade não merece ter canais de comunicação para informar os brasileiros sobre o cotidiano do Brasil e do Mundo.

Não dá mais para vivermos este processo de perseguição contra pessoas e grupos políticos com outra Ideologia, praticado pela velha mídia, infelizmente, e 24 horas do dia. E se valendo hoje, de aliança com segmentos do Judiciário (MP, PF, tribunais) e da Política.
Alexandre Tambelli  - Fonte: Jornal GGN

terça-feira, 7 de julho de 2015

O Midiota


Cada vez mais trancados em condomínios com cercas elétricas, presos nos carros com vidros fumês sempre fechados ou encurralados em camarotes vips, os midiotas se deram conta de que eles agora é quem vivem num gueto...

O MIDIOTA


Texto de Lelê Teles, extraído do Brasil 247


hermenegildo é um midiota.
a midiotia, explico, é uma patologia social provocada por excesso de desinformação.
penso nisso, enquanto finjo ouvir música no meu celular, com fones no ouvido, aproveitando para ouvir a conversa mole de três garotas e um rapaz no parque da cidade, em brasília.
ultimamente tenho usado minha condição de invisível social para bisbilhotar a conversa alheia.
voar e ficar invisível são dois sonhos humanos.
sou um pássaro sem asas, mas às vezes desapareço.
conheço hermenegildo, trabalhamos juntos no banco do brasil antes de entrarmos para a universidade, ele não deu pela minha presença.
eu deitado na grama de papo pra cima, tendo a raiz do guapuruvu como travesseiro; os midiotas sentados sobre uma canga.
um casal de bem-te-vis se bicavam enamorados na copa da frondosa árvore. todo pássaro canta, pensei, mas nenhum deles compõe. e nenhum canta a música alheia, não se faz covers na natureza. anotei.
notei, com o rabo do olho, que hermenegildo fez clareamento dentário e por isso ria de qualquer coisa.
das meninas, uma tinha clareado os cabelos, notava-se pela raiz escura; outra se autoelogiou por ter feito clareamento de pele para se livrar das manchas no rosto e a outra se chamava clara.
comentavam sobre o ataque racista à maria júlia coutinho, a maju do jornal nacional.
acho que estão fazendo tempestade em copo d'água, afirmou clara, midioticamente. pra mim ela é a cara da globeleza, disse a do cabelo clareado, se o que ela quer é fama é só tirar a roupa e se requebrar.
todos riram, hermenegildo careteou seus dentes clareados.
a terceira concordou e disse ainda que isso tudo era para promovê-la, um vitimismo calculado e marketeiro.
ah, eu acho que a globo inventou isso para livrar o Zeca Camargo do vexame que deu ao comentar a morte de cristiano araújo, pra desviar o foco, sentenciou o bom hermenegildo.
todos concordaram, como não haviam pensado nisso? parecia mesmo possível na mente dos midiotas que a globo, para livrar um homem branco, jogasse às feras uma mulher negra.
o midiota tem dificuldade de compreender a realidade, ele vive no simulacro midiático.
o grupo falou ainda sobre a defesa da redução da maioridade penal, e da coragem dos dois brasileiros que insultaram dilma nos esteites e da admiração do grupo pelo pequeno kim.
eles faziam uma enorme confusão conceitual sobre tudo o que falavam.
hermenegildo usava uma camiseta de uma mão com quatro dedos. clara disse ter comprado o adesivo com a presidenta de pernas abertas. a do cabelo clareado já bateu panela na varanda de casa e a da pele maicoudjéquizada estava no maraca na abertura da copa das copas e xingou a presidenta.
enfim, quatro perfeitos midiotas. sorridentes e cheios de ódio.
não ficaria surpreso se hermenegildo ou uma de suas colegas aparecessem nos comentários da fanpage do jornal nacional insultando maju.
o midiota fez do facebook uma rede antissocial. tudo pelos quinze segundos de infâmia.
é um comportamento de manada, mas tem uma razão. depois de séculos de escravidão e privilégios, a moçada se tocou que os filhos de porteiros não querem mais ser porteiros e que as filhas de domésticas estudam para serem patroas.
onde tudo isso vai parar?
o midiota é também um meritocrata, gaba-se por ter o mérito de ter nascido no lugar certo, com o sobrenome certo e com a cor correta.
havia um mundo todo planejado para ele se dar bem.
de repente vieram as cotas, o enem, o fies... há negros na publicidade, no cinema, na universidade, fazendo compra em shoppings e agora, veja que ousadia, aparecem até como garota do tempo no jornal nacional.
cada vez mais trancados em condomínios com cercas elétricas, presos nos carros com vidros fumês sempre fechados ou encurralados em camarotes vips, os midiotas se deram conta de que eles agora é quem vivem num gueto.
de tanto segregar o outro, acabou por promover a sua própria apartação social.
por isso eles fazem gozação com um atleta negro. para dizerem, olha, você está invadindo o meu espaço, ponha-se no seu lugar.
Por isso agridem a jornalista negra, porque só aceitamos negras nuas e se requebrando e somente durante o carnaval. deixamos vocês excitarem os nossos homens durante uma semana por ano, depois disso voltem à cozinha.
por isso xingam um goleiro negro de macaco. porque embora tenha ficado rico praticando esportes, não passa de uma criatura selvagem.
no meio da conversa, clara chamou a maju de macaca. eu me levantei, tirei os fones e cumprimentei hermenegildo.
ouvi que falavam sobre a garota do tempo, se não me enagano uma de vocês a chamou de macaca, eu disse.
hermenegildo, meu caro, você estudou antropologia e sabe que essa história de chamar um negro de macaco é um racismo abjeto.
todos nós, hermenegildo, em todas as culturas urbanas, usamos termos para desumanizar o outro, por isso dizemos porco, galinha, jumento, burro, égua, cachorra, baleia, piranha, viado...
mas cada um destes termos, hermenegildo, é dirigido a uma única pessoa a qual julgamos emitir um coportamento que nos lembra certo animal.
a maju, hermenegildo, não está na tv comendo bananas sobre uma árvore, pendurada pelo rabo.
não há absolutamente nada nela que remeta a um macaco.
geralmente, hermenegildo, a imagem do macaco que se usa para ofender os negros é a de uma chimpanzé.
mas você sabe, hermenegildo, que o chimpanzé tem os lábios finos, típicos no homem branco. o chimpanzé, cara, tem pelos no corpo, típicos no homem branco. e o chimpanzé, hermenegildo, você bem o sabe, tem a pele branca.
O chimpanzé é mais um branco que um negro.
por isso, hermenegildo, porco, galinha e burro são sempre ofensas pessoais, individuais.
mas macaco, não.
quando chamamos um negro de macaco estamos a dizer que eles, e não ele, são todos quase humanos, porém são selvagens por natureza e naturalmente incivilizáveis.
e o que dizer de uma mulher, virei-me para clara, que usa um adesivo no carro que simula o estupro de outra mulher, ou que vai a um estádio mandar uma senhora sexagenária ir tomar no cu? O que dizer de um cabra que tripudia da deficiência física de uma pessoa?
em que escala, em que grau de civilidade vocês acham que estão seus midiotas?
oxe, não tem nada a ver o que você falou, cara, eu nem te conheço. quem você pensa que é? disse-me a clara clareada.
eu sou aquele que come lagartas pela manhã e arrota borboletas à tarde inteira.
e vocês, quem vocês pensam que são?
peidei alto e fui-me embora, dando as costas aos midiotas.
mal educado, gritou a outra.
e eu peidei de novo e continuei andando sem olhar para trás.
palavra da salvação.