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domingo, 2 de setembro de 2018

“Brasil é uma democracia muito doente”, diz jornalista francês Frederic Martel ao DCM



Candidatos desconhecidos, uma eleição que desperta pouco interesse. O Brasil que marcou a França durante os anos Lula, com uma sucessora apreciada pelos franceses revelou-se uma democracia doente. Esse é o diagnóstico de Frédéric Martel, jornalista da rádio France Culture.
Do DCM:
O jornalista francês Frédéric Martel
Candidatos desconhecidos, uma eleição que desperta pouco interesse. O Brasil que marcou a França durante os anos Lula, com uma sucessora apreciada pelos franceses revelou-se uma democracia doente.
Esse é o diagnóstico de Frédéric Martel, jornalista da rádio France Culture, que me recebeu em sua casa, em Paris, no bairro Le Marais, conhecido por ser frequentado por judeus e pelo público LGBTI. Ativista, ele escreveu diversos livros, dentre eles o Global Gay, livro que traça um perfil dos direitos homossexuais no mundo.
Para ele, os ataques a homossexuais pela extrema direita no Brasil são a típica dinâmica dos políticos demagogos populistas que criam um bode expiatório para cativar uma sociedade em crise. Processos questionáveis contra o principal líder petista, contra a primeira presidenta, contra o atual presidente mostram, na sua visão, um sistema que Lula poderia ter reformado, mas não o fez.
O jornalista acredita que o Brasil precisa de um Winston Churchill, Franklin Roosevelt ou de um Charles de Gaulle, figuras que evoca quando perguntado sobre o ex-metalúrgico. “O Brasil precisa de um Macron”, diz ele.
Em suas estantes, livros e objetos que evocam outras civilizações, obras sobre Fidel Castro. Um interessado na América Latina, ele fala de erros e acertos da história recente do Brasil e suas perspectivas.
DCM: Recentemente, o papa Francisco disse que os pais devem levar as crianças ao psiquiatra se houver demonstração de homossexualidade. Qual o estado dos direitos LGBTI no mundo?
Frédéric Martel: Na verdade, o papa não disse isso. Ataca-se a frase vinda do papa, mas é preciso escutar sua declaração. Ela dura entre quatro e cinco minutos. E ela é muito, muito pró-gay. Ela é extremamente favorável aos gays. Sua declaração, eu diria, em relação a todos os papas anteriores e em relação à grande parte dos cardeais, o papa é gay friendly (simpatizante dos gays). De fato, ele fala de psiquiatria, provavelmente sem querer. A frase foi interrompida na sequência. Sem dúvida, ele queria falar sobre psicologia, psicanálise, o que muda o sentido. Realmente, foi um erro ter usado essa palavra. Mas ele disse essencialmente: “você não deve julgar seu filho ou sua filha. Você deve compreendê-la, respeitá-la, amá-la”, palavras pró-gay que nunca ouvimos da boca de um papa ao longo de toda a história.
Isso que eu retenho do que ele falou, mais do que essa parte muito curta. Não fica claro, talvez ele estivesse pensando que se os pais têm um problema, que talvez eles peçam a ajuda de um psiquiatra, talvez para que o próprio psiquiatra diga a eles que não é um problema. Oficialmente, os psiquiatras não consideram a homossexualidade um problema. Eu não vou defender o papa. Não sou católico, não estou nem aí. Mas isso é a típica situação na qual uma frase é retirada do seu contexto e faz-se dizer – de fato a frase foi dita, foi um erro – faz-se o papa dizer algo que ele não disse, uma mensagem que ele não queria dar. Ele queria dar uma mensagem positiva em relação à família homossexual.
O que quer dizer um papa muito favorável à questão gay, como você diz?
Eu não diria que o papa é pró-gay. Eu diria que ele é ambíguo. Um papa jesuíta, que às vezes diz palavras pro-gay, outras vezes palavras anti-gay, às vezes ambíguas. Talvez também discursos que mudam de acordo com o país, do off, do in. Eu diria que é um papa, sobretudo, conservador sobre essa questão, que foi mais favorável às uniões civis, muito hostil contra o casamento. Mas quando o comparamos com o conjunto de seus predecessores, pelo menos desde Paulo VI, há um papa, em relação a eles, pró-gay. Mas para você e eu, não é um papa pró-gay. Ele permanece conservador, é latino, peronista, com tudo que isso pode significar, como muitos… Eu não diria, como homem de esquerda, porque não tenho certeza de que ele seja um esquerdista.
Mas ele é como muitas figuras de sua geração, não esqueçamos que ele tem 81 anos. Ele cresceu numa forma de marxismo, e com uma certa proximidade como a Teologia da Libertação, o que faz com que, para ele, a noção de classe seja mais importante que a questão de raça ou gênero. Então, eu penso que ele não compreendeu muito bem a complexidade da questão homossexual. No geral, ele faz uma distinção justa, de um lado, de algo que é altamente condenável, que são os abusos sexuais e a pedofilia, tudo que concerne a sexualidade violenta, o que ele condena severamente, ao menos em relação ao que se publica, ao que se sabe. Depois, o sexo entre adultos, consentido, que não defende como sendo o ideal, ele não quer julgá-lo. Sua fórmula é: quem sou eu para julgar? Se compararmos ao que a igreja era e o que ela é hoje, inclusive no Brasil, podemos dizer que ele está na direção certa.
Ele corresponde a uma tendência da igreja católica?
Na maioria dos países da América Latina, há uma forte tensão entre a corrente encarnada pelo Francisco, com nuances, o que no Brasil seria representado pelo cardeal Hummes, progressista, e uma corrente ratzingeriana, mais tradicionalista, de conservadores, com o Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. A batalha que existe entre Hummes e Scherer é a mesma guerra que encontra-se no Vaticano, entre Francisco e Ratzinger, no México, muito fortemente nos Estados Unidos, na Argentina, etc. A batalha entre a Teologia da Libertação, uma corrente da Igreja Católica, que foi importante nos anos 1970 e 1980 e que é mais pós-marxista, de esquerda social, que teve uma imensa influência, notadamente sobre o Brasil, de onde são seus grandes líderes, caso de Leonardo Boff, talvez o mais famoso teólogo da Libertação, com Gutierrez, peruano. Há também outros brasileiros importantes, como Frei Betto, bastante próximo de Fidel Castro, bastante à esquerda. Alguns desses padres foram combater em guerrilhas contra a extrema direita.
Há derivas na política?
Na América Latina, com muitas diferenças e singularidades, as correntes da Igreja são extremamente politizadas, de um lado e do outro. São frequentemente ligadas a forças políticas. Na Colômbia, cardeais e alguns arcebispos eram próximos de paramilitares e fascistas. Uma parte significativa da Igreja chilena era próxima de Pinochet e às vezes ligada a ele. Uma parte da Igreja argentina foi favorável à ditadura. Do outro lado, da extrema esquerda, uma parte dos padres da Teologia da Libertação foi de guerrilheiros ou mortos, com armas na mão. Havia muitos adeptos de Che Guevara na Igreja Católica da América Latina. A Igreja Católica tem todos esses componentes de esquerda, direita, extrema esquerda, extrema direita, mas evidentemente há também os padres de conventos, talvez neutros, que não são engajados na vida política, mas eu acredito que a Igreja latino-americana é extremamente politizada e o papa Francisco é produto disso. E isso explica a tensão que há no mundo em torno desse papa; os conservadores não gostam dele de jeito nenhum, organizando um complô contra ele, ou tentando desestabilizá-lo, fazê-lo abdicar.
Levy Fidelix viu seu número de votos se multiplicar por quatro depois de dizer que aparelho excretor não reproduz. Bolsonaro está em segundo lugar nas intenções de voto. Como se chegou a tal cenário?
Muito fácil quando se é um demagogo populista, de extrema direita, encontrar um bode expiatório e formas de popularidade sobre a amargura das pessoas. Podemos estar em dificuldade financeira, podemos não gostar da maneira como o país é governado, podemos ser vítimas de violência, termos razões objetivas de estarmos amargurados, mas termos uma postura de construir uma política para lutar contra esse problema, baseada em fatos reais e propostas concretas que permitam solucionar os problemas, solucioná-los. OU podemos projetar essa amargura em bodes expiatórios, como os imigrantes na Itália. Na França, os desempregados. Os homossexuais, no caso a que você se refere. Diz-se: damos muitos direitos a eles, eles têm liberdade demais para sua perversão, todo um discurso bastante homofóbico, mas que aparece como sendo coerente, porque cria um bode expiatório.
A totalidade dos problemas do Brasil não vem dos homossexuais e nem dos imigrantes. Mas não conheço muito bem Bolsonaro. Não há correlação a priori entre homossexualidade, roubo e assassinato. Por outro lado, quando você quer tranquilizar as pessoas sobre a família, a fidelidade, uma sexualidade normativa, por mais que eu acredite que isso não existe, basta ver os escândalos de padres pedófilos para perceber que são geralmente aqueles que mais militam pela moral que são seus piores defensores. A ideia de que os homossexuais transmitem a AIDS não é totalmente falsa. Mas a AIDS é transmitida entre todas as orientações sexuais. E são os homossexuais que mais se protegem através das terapias de prevenção. Então, parte-se de um preconceito ou uma ideia que tem algo de verdadeiro para criar um bode expiatório que se radicaliza, vira uma figura assustadora, para assustar as pessoas e fazê-las crer que ali está a origem de seus problemas. Mas o problema, na verdade, não tem relação. Não se é pobre no Brasil porque homossexuais se casam. Tudo isso é estúpido.
Li críticas dizendo que em seu livro, Global Gay, a América Latina tem países com legislações mais avançadas do que a Europa em relação à questão LGBTI. E no Brasil, recentemente, há casos que vão na direção contrária, como, por exemplo, uma peça de teatro censurada porque Jesus Cristo era interpretado por uma transgênero. Há uma contradição?
Eu penso que América Latina é um conceito de europeus que a veem de longe. Eu acredito que em Global Gay eu mostro bem que a América Latina é dividida; há o Chile, uma espécie de nação startup, o que difere completamente da Venezuela, Cuba, México. Há países muito homofóbicos na América Latina, com legislações extremamente violentas, sobretudo na América Central e Guiana. O que eu disse, por outro lado, é que paradoxalmente se levarmos em conta a vitória do casamento gay em países da América Latina como a Argentina, mas também mais recentemente o Uruguai, estiveram à frente na adoção dessa legislação em relação a países como a França ou a Alemanha, ou a Itália, que ainda não tem o casamento gay.
Recentemente no Brasil, membros do Ministério Público pediram à justiça a anulação de casamentos gays. Qual é o quadro do Brasil em relação aos direitos LGBTI?
São questões muito técnicas. Há países na Europa Central, a Índia, que mudaram várias vezes suas leis, descriminalizando a homossexualidade. Ou na Austrália, autorizando a união civil, depois repenalizando. Foi muito isso nos Estados Unidos, onde cada estado tinha guerras inacreditáveis até que a decisão da Corte Suprema unificasse o direito americano. O Brasil é um estado federal também, que também tem legislações muito complexas por estado. Não conheço as sutilidades do direito brasileiro. Mas eu sou mais otimista, e você pode me criticar. Eu sei que há retrocessos. Mas há um movimento (social) muito forte. E eu digo isso sendo uma pessoa prudente. Não sou um esquerdista de posições radicais.
Eu gostaria de perguntar sobre as propostas LGBTI dos candidatos à presidência no Brasil. Mas antes: eles são conhecidos na França?
Por enquanto não. Conhecemos Lula. Conhecemos bem Dilma Rousseff, porque ela representava a sucessão de Lula, uma mulher, ex-guerrilheira, presa e torturada, penso que ela foi popular na França, em seu primeiro mandato, e também no segundo. Depois, sua queda, os franceses não entenderam muito bem. Há um carinho dos franceses em relação ao Brasil, é o país que melhor conhecemos na América Latina. Os anos Lula marcaram muito a França, que ofuscaram problemas graves, democráticos, sociais, econômicos. Um país que não ia bem, mesmo sob uma democracia muito mais atrasada do que pensávamos. Por enquanto, devo confessar que a eleição é pouco acompanhada na França. Como é em outubro, penso que começará a haver mais notícias sobre.
Nem Marina Silva é conhecida?
Sim. Mas, se você perguntar na rua, não acredito que vão dizer conhecê-la. Sei que ela foi ministra de Lula, que foi uma grande figura do meio ambiente, da Amazônia, creio que ela estuprada, que foi uma mulher que sofreu violência, etc. Quando a gente olha para a história, teria sido melhor que ela tivesse sido eleita no lugar de Dilma Rousseff. A alternância é a chave. O que aconteceu com Lula foi a recusa da alternância. Num dado momento, é preciso haver alternância, que uma nova família política chegue ao poder. Você nem sempre tem razão. Se as medidas que você tomou fracassaram, outros vão corrigir. Uma alternância moderada, talvez não fosse moderada, mas pacífica, como houve na França. Não sou adepto de Sarkozy, Chirac ou Macron.
Mas acho que depois de Hollande, é bom ter outra coisa. E se gostarmos, voltemos à esquerda. E no caso do Brasil, a direita, mesmo que seu candidato tenha morrido num helicóptero, eu estava no Brasil no dia em que ele morreu, Marina Silva, do lado mais verde, ambientalista, de esquerda, eu não sei se ela teria sido uma boa presidente. Mas se ela tivesse sido eleita, teria evitado que Dilma Rousseff tivesse caído dessa forma lamentável. Precisa haver contrapeso, uma corte constitucional, câmaras parlamentares eleitas em diferentes momentos, executivos locais fortes, a ação de sindicatos, etc. O Brasil nos parecia ser uma verdadeira democracia. E hoje, ainda que continue sendo uma democracia, vemos que é uma democracia doente e que precisará da ajuda de alguém.
Esse alguém seria Lula?
Eu não sei, não conheço os outros candidatos. Por que Macron foi eleito? Eu votei nele no segundo turno contra Marine Le Pen. Ele encarnava a ideia de modernizar a França de modo não muito extremo, nem do ponto de vista da União Europeia, nem do islamismo, nem da globalização, alguém bastante moderado, uma renovação, uma juventude, novos valores, liberal, moderno, um dos raros presidentes que trabalhou, é um filósofo, nem todo mundo fez pesquisas sobre Maquiavel e Hegel. Eu espero que o Brasil tenha seu Macron.
O que significa para um país do tamanho do Brasil que seu único candidato conhecido internacionalmente esteja preso?
Nós o conhecemos não porque ele é candidato nesta eleição, mas porque ele foi presidente durante dois mandatos. Não falamos português na França, nem o espanhol. A América Latina é um continente do qual a França está muito distante. Mesmo que muita gente conheça Copacabana e Ipanema, é na verdade um país muito distante. Não temos muito conhecimento sobre esse país. Temos muitos preconceitos e ideias falsas a respeito, sejam positivas ou negativas. Houve uma época de proximidade muito grande com a América Latina, notadamente os anos 1970, por causa da tensão entre os regimes militares e os exilados, que vieram para a França. Muitos brasileiros, argentinos, chilenos, cubanos. Hoje, há uma migração brasileira relativa, menor do que de outros países. A ligação (entre Brasil e França) se atenuou. Eu vou cada ano ao Brasil, onde passo bastante tempo.
Por quê?
Vou a cada ano ao México, a Cuba. Eu acho que o Brasil é interessante como laboratório de uma grande democracia doente. Quando olhamos hoje para a Itália, para a Espanha, a Inglaterra, nem estou nem falando da Hungria e da Polônia, está-se diante de democracias doentes. Eu não posso dizer se é certo ou errado que Lula esteja na prisão, se ele errou ou tem razão. Mas eu penso que seu processo, assim como o processo contra Dilma Rousseff, os outros processos envolvendo o atual presidente, o presidente do Senado, outros líderes políticos brasileiros, mostrou que é uma democracia muito doente. Que é preciso que o sistema seja rapidamente retomado, para criar contra-poderes, meios de controle financeiro, para evitar que esses escândalos se reproduzam, que concernem todo mundo, todas as forças políticas, mas sem cair num populismo cujo resultado será o pior.
Qual?
O resultado de uma eleição de um líder de extrema direita será pior do que o resultado dos governos anteriores.
Pior que Temer?
Não. Talvez. Não acompanhei suficientemente. Mas eu falo em relação a Dilma Rousseff e Lula, que podemos criticar fortemente, mas que foi, pelo menos a primeira época de Lula, foi um momento positivo para o Brasil.
Qual seria a consequência de uma eventual vitória de um governo de extrema direita?
A questão se impõe hoje à Itália, cujo governo, na verdade é misto. Mesmo o Brexit é o mesmo problema, uma reação de tipo nacionalista-populista. E também Trump, uma direita extrema.
Mas Trump diz que seu mérito é ter apresentado bons resultados para a economia americana. Por outro lado, é fato que, com o Brexit, há um déficit.
Trump está no governo há mais de um ano. Julga-se o resultado de uma presidência a longo prazo, não sobre um ano, pela macroeconomia, não pela micro. Precisa-se considerar a influência americana, do modelo americano, dos efeitos de imigração. Não tenho certeza que o resultado seja positivo.
Voltando ao que você disse, o que significa “retomar o sistema” no Brasil? Retomar a democracia? Isso passa pela decisão da Comissão da ONU, que recomendou que Lula possa se candidatar à presidência?
Não conheço objetivamente o processo. Mas a sua questão é muito boa. Precisa-se de um grande homem. Não quero pensar que uma eleição é que vai mudar tudo. Mas vemos bem que quando há um Churchill (primeiro-ministro inglês durante a II Guerra Mundial), um Roosevelt (presidente americano de 1933 a 1945), em períodos de grande dificuldade, um De Gaulle (presidente francês durante e após a II Guerra)… Em todo caso, é preciso que novas regras sejam fixadas e que sejam capazes de mudar um sistema truncado. Quando falamos de homossexualidade, não é isso que vai resultar no sucesso da extrema direita, mas o contexto é tão negativo que as pessoas acreditam que é aí que está a solução. Trump não é uma solução para a América.
Felizmente, a democracia americana é muito forte, muito sólida. Penso que a democracia americana é mais forte do que Trump. Essa é a força desse país, como também penso ser o caso da França, o que não é o caso do Brasil. Há um problema de instituições, de leis constitucionais, de moral política. Ai Lula também cometeu erros. Além do que é verdade ou falso nas acusações que são feitas contra ele, ele teve o poder, era popular; ele tinha muita capacidade para mudar as coisas; ele deveria ter reformado o sistema. Um outro exemplo: quando falamos de Mateo Renzi (ex-premiê italiano), que diz ser trágica a chegada da extrema direita, do Movimento 5 estrelas, mas a maneira como ele fez a reforma não funcionou. Então ele é responsável. Lula é responsável. Eu não conheço as leis, as regras constitucionais de financiamento da campanha eleitoral. Se ele tivesse reformado esse sistema, teria o mérito hoje a seu favor. Então, essas práticas eram toleradas. Não haveria o que dizer. Vemos a necessidade de alguém que seja capaz de mudar tudo isso.


Frédéric Martel e o colaborador do DCM, Willy Delvalle

Willy Delvalle
Formou-se em jornalismo na Unesp e cursa mestrado em Filosofia Política e Sociologia na Universidade Paris 7, na França. Foi professor voluntário de português para imigrantes e refugiados em São Paulo. Realizou o documentário "Entre o Cavaco, Cavalo e o Portão"


quarta-feira, 11 de abril de 2018

Criador do maior partido da Itália acusa 'golpe' no Brasil e diz que Lula é alvo de 'perseguição'


Para Beppe Grillo, Moro condenou ex-presidente para impedir sua participação nas eleições; fundador do M5S aproveitou para criticar privatizações de Temer

Do ANSA (em Roma), republicado pelo Opera Mundi:

Após o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, mais uma legenda política italiana se pronunciou contra a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O fundador do antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S), Beppe Grillo, afirmou nesta terça-feira (10/04) que o petista é alvo de "perseguição" e denunciou um "golpe de Estado" no Brasil.


Comediante de carreira, Grillo se afastou do dia a dia do M5S, partido mais popular da Itália, porém continua sendo o principal rosto do movimento, que tenta costurar alianças para assumir o governo do país.
"Um só grito está emanando das ruas das cidades brasileiras. Um grito potente, libertador, que pede justiça, que acompanha os cantos, as lágrimas, as vozes em uníssono, de um povo que repete ininterruptamente: 'Lula presidente, guerreiro do povo'. Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, símbolo de esperança, coragem e honestidade, preso por não ter cometido nenhum crime", diz Grillo em um texto publicado em seu blog.
Wikimedia Commons

Beppe Grillo afirmou que Lula é alvo de perseguição política

Manifestantes protestam pelo mundo contra prisão do ex-presidente Lula

'Esse é um processo cheio de invenções jurídicas', afirma advogada que integra defesa de Lula

Lourenço Diaféria: Bilhete pra um operário


O post tem o título "Lula vale a luta", em português mesmo, e também afirma que o juiz Sérgio Moro condenou o ex-presidente para impedir sua participação nas eleições de 2018. "Lula representa essa enorme parcela da população pobre que não tem voz, direitos e visibilidade, em conflito perene com os poderes fortes", acrescenta.
Além disso, Grillo ainda criticou o presidente Michel Temer, acusando-o de "privatizar tudo o que fosse possível", incluindo o pré-sal, "um verdadeiro tesouro para o Brasil" - o M5S tem cerca de 35% do Parlamento e tenta angariar aliados para assumir o governo nacional pela primeira vez, o que o faria lidar diretamente com a gestão Temer em assuntos bilaterais, como a extradição de Cesare Battisti.
"Lula vale a luta, como demonstração de solidariedade a este grandíssimo homem, do olhar bom, de mãos fortes de metalúrgico e com um coração que sempre bateu pelos mais vulneráveis; fortemente amado por seu povo e, por isso, bloqueado pelos lobbies do poder, vítima de uma perseguição política à luz do dia. Que diferença há entre o que ocorreu e um golpe de Estado?", conclui Grillo.
Entre os grandes partidos italianos, apenas Matteo Salvini, secretário da ultranacionalista Liga Norte, elogiou a prisão de Lula, afirmando que a Justiça do Brasil deu um sinal de "liberdade e mudança". Já o PD, rival do M5S, por meio de seu presidente, Matteo Orfini, afirmou que o processo contra o petista é de uma "gravidade inaudita".
Além disso, pediu para a União Europeia enviar uma delegação para verificar as condições de Lula na cadeia.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Do analista e historiador português Rui Tavares: Brasil emana um terrível fedor de situação pré-ditatorial.




"O ponto de viragem foi a vitória de Dilma Rousseff nas eleições de 2014. Desde que ela tomou posse começaram as manobras para a destituir sob qualquer pretexto — e o pretexto que foi encontrado não foi mais do que a utilização de um critério de ornçamentação comum a muitos governos no mundo, de que todos os seus adversários já se esqueceram e que nem eles sequer jamais levaram a sério. Mas esse foi o pecado original. Como no Macbeth de Shakespeare, a vontade de poder justifica que se cometa o primeiro crime político: todos os outros cadáveres servem para justificar o primeiro." - Rui Tavares, historiador português





É possível também admitir que o tempo de Lula na política brasileira já poderia ter sido encerrado pelo próprio e pelo PT, para dar lugar a uma nova geração de políticos que contribuíssem para um Brasil menos polarizado. O mito de Lula é desmesurado, e ao mesmo tempo que gera ódios insanos, também acaba por secar a sua própria área política. E isto é independente do famoso processo do “triplex do Guarujá”, que segundo a investigação do juiz Sérgio Moro teria sido oferecido a Lula pela construtora OAS em troca de favores políticos mas de que comprovadamente nem Lula nem a sua família usufruíram (além de, claro, não terem nenhum título de propriedade dele em seus nomes — o que em si pode não ter significado caso houvesse um usufruto indireto através de um testa de ferro). Mas o processo do “triplex” não está ainda fechado, de forma que teremos de esperar para ver se configura, ou não, corrupção.
É admissível até, como já vi nas páginas do PÚBLICO, perceber os argumentos a favor da decisão do Supremo Tribunal Federal de manter a prisão após confirmação de uma sentença em segunda instância e perceber os argumentos de quem diz que a metodologia do processo contra Lula tem, a vários momentos, laivos indesmentíveis de perseguição política: vejam-se as escutas libertadas para a imprensa antes de validação judicial, com o intuito de influenciar a opinião pública. É certo que o Brasil está muito polarizado. Nós não temos de estar polarizados com ele. Custa-me a entender que haja gente tão obcecada com Lula que não tenha tempo para reconhecer que a forma como Sérgio Moro investiga, sentencia e vem para as redes sociais lançar foguetes é tudo menos típico de um juiz sério num estado de direito.
O que não é de todo possível, parece-me, é olhar para o que se está a passar no Brasil e não estar preocupado com o presente e o futuro da democracia brasileira. Já não é de hoje que da situação política brasileira emana um terrível fedor a situação pré-ditatorial.
O ponto de viragem foi a vitória de Dilma Rousseff nas eleições de 2014. Desde que ela tomou posse começaram as manobras para a destituir sob qualquer pretexto — e o pretexto que foi encontrado não foi mais do que a utilização de um critério de ornçamentação comum a muitos governos no mundo, de que todos os seus adversários já se esqueceram e que nem eles sequer jamais levaram a sério. Mas esse foi o pecado original. Como no Macbeth de Shakespeare, a vontade de poder justifica que se cometa o primeiro crime político: todos os outros cadáveres servem para justificar o primeiro.
A partir do momento em que ficou claro que uma parte do sistema político brasileiro estava disposta a tudo para tirar Dilma do poder — em parte, relembre-se, para enterrarem e conterem a operação Lava-Jato —, ficou claro também que seria inadmissível para a mesma gente aceitar que o PT pudesse vir a recuperar o poder em eleições presidenciais. Lula na cadeia passou a ser uma necessidade, não por causa de um triplex que ele nunca ocupou nem de um processo que ainda não transitou em julgado, mas pela muito mais singela razão de que Lula poderia perfeitamente ganhar as próximas eleições.
Se a minha interpretação shakespeariana estiver correta, porém, as coisas não vão ficar por aqui. Imagine-se que Lula apoia um outro candidato e que a transferência de intenções de voto, como as sondagens indicam, permitem que esse candidato passe à segunda volta das eleições presidenciais e se ponha em posição de ganhar (talvez contra um fascista como Bolsonaro). Alguém imagina que os inimigos de Lula se vão deixar derrotar por um candidato do PT? Eu tenho dificuldade em imaginá-lo. E por isso não tenho dúvida que é a própria realização do ato eleitoral brasileiro que deve ser agora protegida dentro e fora do Brasil. A última vez que se suspendeu a democracia naquele país, ela demorou duas décadas a voltar.
.x.x.x.
Rui Tavares é político, escritor e historiador.

domingo, 21 de janeiro de 2018

James N. Green, acadêmico americano, cria movimento internacional que denuncia perseguição a Lula



Publicado na RFI:
“A ideia de fundar o grupo ‘Acadêmicos e Ativistas pela Democracia no Brasil’ foi encorajar uma discussão aberta e democrática, combinada com a ação, para responder à situação atual no Brasil, mas também para pensar sobre como promover uma agenda progressiva que possa atingir os objetivos de inclusão social, justiça econômica e ampla democracia”, escreveu James N Green na página do grupo no Facebook, que já conta com mais de 2.400 membros.
Green é brasilianista, professor de História Moderna da América Latina e diretor da Brown-Brazil Iniciative da Brown University, nos Estados Unidos, e professor visitante da Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel.
Pesquisador do Brasil há mais de 40 anos, tendo vivido seis no país, em plena época da ditadura militar, Green resolveu juntar um grupo de acadêmicos e ativistas pela democracia no Brasil. Tendo acompanhado de perto o processo de destituição da presidente Dilma Rousseff e se indignado com o que ele chama de pretextos para o impeachment, ele resolveu montar um grupo de resistência internacional.
O acadêmico é autor do livro “We cannot remain silent” ou “Nós não podemos ficar em silêncio”, que foi lançado no Brasil como “Apesar de você: a oposição à ditadura militar nos EUA, 1964-85”.
Nesta entrevista, Green comenta o julgamento do ex-presidente Lula, marcado para o dia 24 de janeiro, e o seu receio ao ver similaridades entre o Brasil de hoje e o dos tempos pré-64.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Sociólogo e jurista português, Boaventura de Sosa Santos debate o golpe e o fim da Democracia no Brasil



Sociólogo expõe suas reflexões perturbadoras sobre o futuro da esquerda, um século após 1917. E diz, sobre o Brasil: não é possível construir estratégias em torno de um líder único
Por Boaventura de Sousa Santos, em duas entrevistas: a Taís Seibt (em texto) e Antonio Martins (em vídeo) - Fonte: Outras Palavras
Em sua mais recente passagem pelo Brasil, Boaventura de Sousa Santos, um dos mais reconhecidos intelectuais da democracia e da globalização, deixou um recado direto para as esquerdas brasileiras: se quiserem suplantar a onda conservadora que se alastra pelo país, inclusive entre as classes populares, terão de se unir. E disse mais: personificar a união da esquerda na figura do ex-presidente Lula é um erro.
A mensagem veio de Porto Alegre, objeto de atenção do sociólogo português desde 1989, quando o município implantou o orçamento participativo, colocando em prática o que estava apenas na mente de teóricos da democracia, como ele próprio. Foi também na capital gaúcha que ele ajudou a fundar o Fórum Social Mundial, reunião de movimentos sociais que teve grande repercussão no início dos anos 2000 e ajudou a elevar líderes populares ao poder em diversos países, inclusive no Brasil.
Mas a Porto Alegre e o Brasil de agora em muito se distanciam daquele “outro mundo possível” que Boaventura sonhara uns anos atrás. Com movimentos sociais bem menos articulados e uma esquerda “adormecida”, como ele diz, o país vive uma transição – e ainda não se sabe para qual direção. “Para a ditadura? Uma ditadura diferente, que não envolve militares?”, chegou a questionar o pesquisador em conferência na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, na qual conclamou a “democratizar a revolução e revolucionar a democracia”. Foi aplaudido longamente pelo auditório lotado de estudantes, membros de movimentos sociais e velhos conhecidos seus na política gaúcha, como Olívio Dutra, ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul pelo PT.
No dia seguinte à palestra, o diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra recebeu a reportagem no hall do hotel que costuma hospedar toda sorte de celebridades que desembarca em Porto Alegre. O intelectual tampouco passou despercebido. Sua presença levou uma estudante às lágrimas. Saiu confortada pelo abraço do professor e com um livro autografado, antes que Boaventura discorresse sobre a situação política brasileira, os riscos da apatia popular para o futuro da democracia e a experiência portuguesa na rearticulação das esquerdas. Confira a seguir os principais trechos da entrevista (Taís Seibt)
Na introdução de seu livro mais recente, A difícil democracia(Boitempo, 2016), o senhor fala que a América Latina teve a chance de reposicionar o debate do pluralismo e da diversidade nos primeiros anos do século XXI, quando governos de esquerda chegaram ao poder. Diante dos acontecimentos recentes no Brasil, o senhor diria que se perdeu essa oportunidade?
Boaventura de Sousa Santos – Foi uma oportunidade histórica perdida. As razões são complexas. Hoje, no mundo muito interdependente e com uma forte globalização neoliberal, tudo tem de ser visto no contexto internacional. A possibilidade de criar democracias de maior intensidade na América Latina ocorreu na primeira década do século XXI. Era uma altura em que os Estados Unidos estavam muito concentrados no Oriente Médio e não prestavam muita atenção no que se passava na América Latina. Ao mesmo tempo em que o “Big Brother” estava distraído, a grande mobilização social que tinha sido gerada com a transição da ditadura para a democracia em diversos países, no caso brasileiro com grande força do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), mais o Fórum Social Mundial, que teve lugar em Porto Alegre em 2001, levaram ao poder governos populares cuja alternativa não era radical ao capitalismo. Pelo contrário, era ter um modelo de desenvolvimento capitalista, mas permitir que ele desse alguma redistribuição de capital. Tivemos aqui o Bolsa Família e outras políticas, mas essa oportunidade não era sustentável, o que decorre também de fatores internos e internacionais. Começou uma crise internacional, que impacta a economia brasileira, sustentada nos altos preços das commodities, que de certa maneira é uma lógica do colonialismo. Os Estados Unidos também voltaram a olhar para esse continente, onde os recursos naturais estavam de posse de governos nacionalistas ou, quando explorados internacionalmente, estavam indo para outros países, como a China. O pré-sal estava fora do mercado internacional. O governo brasileiro acabou cedendo a diversas pressões.
As pressões externas na dimensão econômica coincidiram com uma desmobilização dos movimentos sociais. Como isso se relaciona com o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, ao qual o senhor se refere como “golpe jurídico-midiático-institucional”?
Os movimentos sociais passaram por uma vertigem, que foi, afinal, um erro. Vendo que tinha no poder “amigos”, eles (os movimentos) acharam que podiam descansar. Não podiam, porque os governos também estavam sujeitos a pressões, então a pressão de baixo para cima não podia diminuir. Os movimentos descansaram e quando quiseram se reanimar, em 2013, a mobilização social era muito confusa, na medida em que havia reivindicações de esquerda ao lado de reivindicações de direita. Quanto à queda de Dilma, é evidente que houve um golpe institucional, pois como se viu não houve nenhuma acusação direta contra a presidente, portanto o objetivo foi retirá-la do poder para fazer a reformulação econômica que se pretendia. Isso passava pela reforma previdenciária e ao mesmo tempo as leis trabalhistas, no sentido de empobrecer os trabalhadores, reduzir a carga salarial das empresas e garantir a sua rentabilidade, porque ela é garantida não por inovações tecnológicas, mas às custas do salário. Foi isso que se fez.
Só que agora Michel Temer, alçado ao poder em decorrência desse processo, também enfrenta dificuldades para se manter no governo. Como o senhor vê a articulação entre política, mídia e judiciário neste novo cenário?
As classes que neste momento controlam o sistema político, uma articulação entre as oligarquias e as classes dominantes no Brasil com os interesses norte-americanos, estão a ver se efetivamente Michel Temer tem ou não poder para levar a cabo essas medidas (econômicas). Se eles se convencerem que Temer não tem condições, certamente encontrarão uma solução alternativa. Talvez pensem que o melhor é esperar até 2018, que era o que deveriam ter tido e deixar a presidente Dilma terminar o seu mandato, e depois optar por um novo candidato que pudesse colocar outro projeto político em movimento. O calculo é sempre o mesmo, é saber quem leva a cabo as medidas que eles consideram adequadas para o país. Temer foi um instrumento. Por isso a grande questão que se impõe é que era uma chapa, então a chapa deveria ter sido impedida no seu conjunto e não somente a presidente Dilma. Isso não se fez exatamente porque havia uma grande pressa em conter a política anterior e se instituir uma nova política. Se eles considerarem que Temer cumpriu o que deveria fazer, que era destituir Dilma, demonizar o PT, neutralizar de alguma maneira Lula, esse trabalho está feito. Eu diria que é um trabalho sujo, mas é esse o trabalho que ele (Temer) fez na política. E uma vez feito, talvez Temer não lhes interesse mais e queiram alguém com mais prestígio neste momento, com eleições indiretas, que possa canalizar as coisas até 2018. Mas as coisas nunca são totalmente como as classes dominantes querem, porque há luta popular, o movimento popular está a acordar.
Em relação à classe popular, uma pesquisa recente da Fundação Perseu Abramo mostrou que pensamentos neoliberais estão bastante presentes nas periferias de São Paulo. Isso demonstra, de certa maneira, que a classe popular acaba reproduzindo o discurso das classes dominantes. Isso não enfraquece a luta popular nos termos que o senhor coloca?
As classes populares são aquelas que mais passam tempo vendo televisão. São sempre as mesmas mensagens passadas, nas telenovelas e nos jornais, porque as mensagens são objetos do mesmo tipo de vida, da lógica do consumo, a lógica individualista, não admira que se tenha uma falsa consciência nessas classes. As coisas só mudam quando se vê mudanças concretas no cotidiano. Quando se der a privatização da política previdenciária e se houver uma crise financeira, as pensões dos mais pobres, que já são pequenas, podem desaparecer porque faliram os bancos. Estamos num período de falsa consciência.
Ao mesmo tempo, diante da exposição das relações estreitas de grandes empresas com o governo, como as delações da Odebrecht e da JBS escancararam, há uma apatia da população em relação à classe política, de ambos os lados…
É um modelo neoliberal, de promiscuidade. Os partidos do governo se deixaram cair na tentação porque ela tem muitas recompensas, sobretudo quando temos um sistema político que está indefeso, porque permite o financiamento privado de campanha, o que deveria ser proibido. Nesse sentido, os governos de esquerda não foram diferentes dos demais, entraram no mesmo modelo.
E quais as consequências dessa apatia da população para a democracia?
Vamos passar por um período muito conturbado na medida em que, não tendo havido uma reforma política, uma reforma fiscal, uma reforma tributária, uma reforma da mídia, as condições para uma política diferente são bastante escassas. Não podemos deixar de ter em mente que, no final do mandato, a presidente Dilma veio a aplicar algumas políticas que eram de recorte neoliberal e iam de encontro ao seu programa e os interesses das classes populares. Isso criou uma confusão enorme no movimento popular. Por isso, as condições para uma estabilidade democrática, num nível superior, mais inclusivo, vão demorar algum tempo. Vai haver muita turbulência, o que esperamos é que essas turbulências sejam pacíficas. Eu acho que as instituições terão de ser defendidas na rua. O povo tem que mostrar que quer uma solução verdadeiramente democrática, não o regresso a ditaduras. Espero que as classes populares e os partidos de esquerda, depois de serem refundados, reformados, possam efetivamente vir a disputar o poder, de forma totalmente diferente da anterior. Os partidos de esquerda não devem se aliar a partidos de direita. Portanto, enquanto não houver uma aliança de esquerda deve se manter a tensão.
A internet ajuda nesse processo ou também as redes sociais já estão instrumentalizadas por outros interesses?
Tem uma posição ambígua aí. É evidente que muita mobilização e lutas por democracia em outras partes do mundo tiveram uma participação importante das redes sociais para juntar as pessoas e ampliar protestos. Por outro lado, os comentários que são feitos nas redes sociais são dominados pela extrema direita. São forças conservadoras com organizações de rede social que visam fundamentalmente atingir o público menos culto, mais suscetível de ser influenciado por mensagens conservadoras. Por isso, quando há uma mensagem de esquerda, há sempre uma grande quantidade de mensagens hostis e algumas favoráveis. Isso é parte de um processo de luta da extrema direita internacional, que visa efetivamente desacreditar qualquer alternativa de esquerda.
Diante desse cenário, como o senhor acredita que outra democracia é possível?
Penso que Portugal, depois de muito sofrimento das classes populares entre 2011 e 2015, está demonstrando que há uma alternativa ao neoliberalismo, e que essa alternativa é institucional, não implica nenhuma ruptura. O que aconteceu em Portugal foi que a esquerda se uniu. Três partidos com tradições totalmente opostas dentro do movimento de esquerda, o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, se uniram para criar um governo alternativo. Esse governo contraria todas as políticas neoliberais dizendo que o que essas políticas querem não pode ser cumprido pelas reformas da previdência e trabalhistas, mas sim valorizando o trabalho, o sistema público e o estado social. Em Portugal, a economia está crescendo, o desemprego baixou e a expectativa dos portugueses nunca foi tão positiva nos últimos 20 anos. A situação portuguesa está a ser olhada com muita atenção por políticos de esquerda e até de direita de várias partes da Europa. Portanto, continuo a acreditar que há alternativas possíveis se houver partidos não corruptos, que tenham lideranças inovadoras, que saibam que uma aliança contra-natura nunca funciona, pois é sempre traída, como aconteceu de maneira brutal neste país (Brasil). Isso é uma lição que deve ficar para todos os brasileiros.
Talvez o mais difícil, no caso brasileiro, seja unir as esquerdas com força suficiente para reduzir a dependência econômica do capital estrangeiro…
Tem que haver uma reforma política. Para isso, é preciso haver o mínimo de consenso. Por isso eu digo que vai haver um período de empate durante um certo tempo no Brasil. O Brasil precisa se preparar para uma solução. Não quer dizer que seja agora, sobretudo quando se pensa que o ex-presidente Lula pode ser um candidato da esquerda, quando não se sabe qual vai ser seu futuro no plano jurídico. Fazer uma alternativa depender de uma pessoa, quando ela está nas mãos de forças hostis, mostra bem a fragilidade de qualquer opção de esquerda neste momento no Brasil.

terça-feira, 13 de junho de 2017

ONU diz no The Guardian da Inglaterra, que o Brasil irá implementar o mais duro ataque aos pobres no mundo



Para quem duvidar abaixo, o Falando Verdades traduziu alguns trechos da matéria do The Guardian, cujo original em inglês está indicado mais abaixo:

Brazil is poised to implement the most socially regressive austerity package in the world, a senior United Nations official has warned.
Despite violent street protests against budget cuts, President Michel Temer – who came to power after engineering the impeachment of his former running mate, Dilma Rousseff – is pushing through a 20-year social spending freeze that will be locked into the constitution.

No trecho acima o jornal diz que um representante da ONU fala que o pacote de austeridade que estão aplicando no Brasil é o mais duro pacote de medidas no mundo. Que gastos públicos serão congelados por 20 anos no país.
head of a final senate vote on the measures next Tuesday, the UN special rapporteur on extreme poverty and human rights, Philip Alston, took the unusual step of decrying the plan as an attack on the poor – and a violation of Brazil’s obligations under the International Covenant on Economic, Social and Cultural Rights.
“This is a radical measure, lacking in all nuance and compassion,” he said in a statement on Friday. “It is completely inappropriate to freeze only social expenditure and to tie the hands of all future governments for another two decades. If this amendment is adopted it will place Brazil in a socially retrogressive category all of its own.”
O jornal diz também que a proposta de congelamento de gastos é radical pois congela principalmente gas sociais e pode fazer o país mergulhar em uma crise e retrocessos sociais sem precedentes no Brasil.


Leia a matéria completa no The Guardian

sábado, 6 de maio de 2017

O Golpe de 2016 no Brasil como aplicação do conceito de Guerra Híbrida, com a ajuda dos midiotas úteis, paneleiros classe alta e coxinhas....



Segue artigo do analista político internacional Pepe Escobar, extraído do Opera Mundi:


Guerra Híbrida: a nova guerra do século 21 no Brasil


Nos manuais estadunidenses as ações não-convencionais contra “forças hostis” a Washington. A centralidade do Pré-Sal no impeachment. Como os super-ricos cooptam a velha classe média.
Pepe Escobar*
usa brasilO Brasil no epicentro da Guerra Híbrida
Revoluções coloridas nunca são demais. Os Estados Unidos, ou o Excepcionalistão, estão sempre atrás de atualizações de suas estratégias para perpetuar a hegemonia do seu Império do Caos.
A matriz ideológica e o modus operandi das revoluções coloridas já são, a essa altura, de domínio público. Nem tanto, ainda, o conceito de Guerra Não-Convencional (UW, na sigla em inglês).
Esse conceito surgiu em 2010, derivado do Manual para Guerras Não-Convencionais das Forças Especiais. Eis a citação-chave: “O objetivo dos esforços dos EUA nesse tipo de guerra é explorar as vulnerabilidades políticas, militares, econômicas e psicológicas de potências hostis, desenvolvendo e apoiando forças de resistência para atingir os objetivos estratégicos dos Estados Unidos. […] Num futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerras irregulares (IW, na sigla em inglês)”.
“Potências hostis” são entendidas aqui não apenas no sentido militar; qualquer país que ouse desafiar um fundamento da “ordem” mundial centrada em Washington pode ser rotulado como “hostil” – do Sudão à Argentina.
As ligações perigosas entre as revoluções coloridas e o conceito de Guerra Não-Convencional já desabrocharam, transformando-se em Guerra Híbrida; caso perverso de Flores do Mal. Revolução colorida nada mais é que o primeiro estágio daquilo que se tornará a Guerra Híbrida. E Guerra Híbrida pode ser interpretada essencialmente como a Teoria do Caos armada – um conceito absoluto queridinho dos militares norte-americanos (“a política é a continuidade da guerra por meios linguísticos”). Meu livro Império do Caos, de 2014, trata essencialmente de rastrear uma miríade de suas ramificações.
Essa bem fundamentada tese em três partes esclarece o objetivo central por trás de uma Guerra Híbrida em larga escala: “destruir projetos conectados transnacionais multipolares por meio de conflitos provocados externamente (étnicos, religiosos, políticos etc.) dentro de um país alvo”.
Os países do BRICS (Brasil Rússia, Índia, China e África do Sul) – uma sigla/conceito amaldiçoada no eixo Casa Branca-Wall Street – só tinham de ser os primeiros alvos da Guerra Híbrida. Por uma miríade de razões, entre elas: o plano de realizar comércio e negócios em suas próprias moedas, evitando o dólar norte-americano; a criação do banco de desenvolvimento dos BRICS; a declarada intenção de aumentar a integração na Eurásia, simbolizada pela hoje convergente “Rota da Seda”, liderada pela China – Um Cinturão, Uma Estrada (OBOR, na sigla em inglês), na terminologia oficial – e pela União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia (EEU, na sigla em inglês).
Isso implica em que, mais cedo do que tarde, a Guerra Híbrida atingirá a Ásia Central; o Quirguistão é o candidato ideal a primeiro laboratório para as experiências tipo revolução colorida dos Estados Unidos, ou o Excepcionalistão.
No estágio atual, a Guerra Híbrida está muito ativa nas fronteiras ocidentais da Rússia (Ucrânia), mas ainda embrionária em Xinjiang, oeste longínquo da China, que Pequim microgerencia como um falcão. A Guerra Híbrida também já está sendo aplicada para evitar o estratagema da construção de um oleoduto crucial, a construção do Ramo da Turquia. E será também totalmente aplicada para interromper a Rota da Seda nos Balcãs – vital para a integração comercial da China com a Europa Oriental.
Uma vez que os BRICS são a única e verdadeira força em contraposição ao Excepcionalistão, foi necessário desenvolver uma estratégia para cada um de seus principais personagens. O jogo foi pesado contra a Rússia – de sanções à completa demonização, passando por um ataque frontal a sua moeda, uma guerra de preços do petróleo e até mesmo uma (patética) tentativa de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou. Para um membro mais fraco dos BRICS foi preciso utilizar uma estratégia mais sutil, o que nos leva à complexidade da Guerra Híbrida aplicada à atual, maciça desestabilização política e econômica do Brasil.
No manual da Guerra Híbrida, a percepção da influência de uma vasta “classe média não-engajada” é essencial para chegar ao sucesso, de forma que esses não-engajados tornem-se, mais cedo ou mais tarde, contrários a seus líderes políticos. O processo inclui tudo, de “apoio à insurgência” (como na Síria) a “ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” (como no Brasil). E conforme cresce a insurreição, cresce também a “intensificação da propaganda; e a preparação psicológica da população para a rebelião.” Esse, em resumo, tem sido o caso brasileiro.
Precisamos do nosso próprio Saddam.
Um dos maiores objetivos estratégicos do Excepcionalistão é em geral um mix de revolução colorida e Guerra Híbrida. Mas a sociedade brasileira e sua vibrante democracia eram muito sofisticadas para métodos tipo hard, tais como sanções ou a “responsabilidade de proteger” (R2P, na sigla em inglês).
Não por acaso, São Paulo tornou-se o epicentro da Guerra Híbrida contra o Brasil. Capital do estado mais rico do Brasil e também capital econômico-financeira da América Latina, São Paulo é o nódulo central de uma estrutura de poder interconectada nacional e internacionalmente.
O sistema financeiro global centrado em Wall Street – que domina virtualmente o Ocidente inteiro – não podia simplesmente aceitar a soberania nacional, em sua completa expressão, de um ator regional da importância do Brasil.
A “Primavera Brasileira” foi virtualmente invisível, no início, um fenômeno exclusivo das mídias sociais – tal qual a Síria, no começo de 2011.
Foi quando, em junho de 2013, Edward Snowden revelou as famosas práticas de espionagem da NSA. No Brasil, a questão era espionar a Petrobras. E então, num passe de mágica, um juiz regional de primeira instância, Sérgio Moro, com base numa única fonte – um doleiro, operador de câmbio no mercado negro – teve acesso a um grande volume de documentos sobre a Petrobras. Até o momento, a investigação de dois anos da Lava Jato não revelou como eles conseguiram saber tanto sobre o que chamaram de “célula criminosa” que agia dentro da Petrobras.
O importante é que o modus operandi da revolução colorida – a luta contra a corrupção e “em defesa da democracia” – já estava sendo colocada em prática. Aquele era o primeiro passo da Guerra Híbrida.
Como cunhado pelos Excepcionalistas, há “bons” e “maus” terroristas causando estragos em toda a “Siraq”; no Brasil há uma explosão das figuras do corrupto “bom” e do corrupto “ruim”.
O Wikileaks revelou também como os Excepcionalistas duvidaram da capacidade do Brasil de projetar um submarino nuclear – uma questão de segurança nacional. Como a construtora Odebrecht tornava-se global. Como a Petrobras desenvolveu, por conta própria, a tecnologia para explorar depósitos do pré sal – a maior descoberta de petróleo deste jovem século 21, da qual as Grandes Petrolíferas dos EUA foram excluidas por ninguém menos que Lula.
Então, como resultado das revelações de Snowden, a administração Roussef exigiu que todas as agências do governo usassem empresas estatais em seus serviços de tecnologia. Isso poderia significar que as companhias norte-americanas perderiam até US$ 35 bilhões de receita em dois anos, ao ser excluídos de negociar na 7ª maior economia do mundo – como descobriu o grupo de pesquisa Fundação para a Informação, Tecnologia & Inovação (Information Technology & Innovation Foundation).
O futuro acontece agora.
A marcha em direção à Guerra Híbrida no Brasil teve pouco a ver com as tendências políticas de direita ou esquerda. Foi basicamente sobre a mobilização de algumas famílias ultra ricas que governam de fato o país; da compra de grandes parcelas do Congresso; do controle dos meios de comunicação; do comportamento de donos de escravos do século 19 (a escravidão ainda permeia todas as relações sociais no Brasil); e de legitimar tudo isso por meio de uma robusta, embora espúria tradição intelectual.
Eles dariam o sinal para a mobilização da classe média. O sociólogo Jesse de Souza identificou uma freudiana “gratificação substitutiva”, fenômeno pelo qual a classe média brasileira – grande parte da qual clama agora pela mudança do regime – imita os poucos ultra ricos, embora seja impiedosamente explorada por eles, através de um monte de impostos e altíssimas taxas de juros.
Os 0,0001% ultra ricos e as classes médias precisavam de um Outro para demonizar – no estilo Excepcionalista. E nada poderia ser mais perfeito para o velho complexo da elite judicial-policial-midiática do que a figura de um Saddam Hussein tropical: o ex-presidente Lula.
“Movimentos” de ultra direita financiados pelos nefastos Irmãos Kock pipocaram repentinamente nas redes sociais e nos protestos de rua. O procurador geral de justiça do Brasil visitou o Império do Caos chefiando uma equipe da Lava Jato para distribuir informações sobre a Petrobras que poderiam sustentar acusações do Ministério da Justiça. A Lava Jato e o – imensamente corrupto – Congresso brasileiro que depôs a presidenta Dilma sem culpa, revelaram-se uma coisa só.
Àquela altura, os roteiristas estavam seguros de que a infra-estrutura social para a mudança de regime já havia produzido uma massa crítica anti-governo, permitindo assim o pleno florescimento da revolução colorida. O caminho para um golpe soft estava pavimentado – sem ter sequer de recorrer ao mortal terrorismo urbano (como na Ucrânia). O problema era que, se o golpe soft falhasse – como parece ser pelo menos possível, agora – seria muito difícil desencadear um golpe duro, estilo Pinochet, através da UW, contra a administração sitiada de Roussef; ou seja, executando finalmente a Guerra Híbrida Total.
No nível socioeconômico, a Lava Jato seria um “sucesso” total somente se fosse espelhada por um abrandamento das leis brasileiras que regulam a exploração do petróleo, abrindo-a para as Grandes Petrolíferas dos EUA. Paralelamente, todos os investimentos em programas sociais teriam de ser esmagados.
Ao contrário, o que está acontecendo agora é a mobilização progressiva da sociedade civil brasileira contra o cenário de golpe branco/golpe soft/mudança de regime. Atores cruciais da sociedade brasileira estão se posicionando firmemente contra a ilegalidade, da igreja católica aos evangélicos; professores universitários do primeiro escalão; governadores estaduais; massas de trabalhadores sindicalizados e trabalhadores da “economia informal”; artistas; intelectuais de destaque; juristas; a grande maioria dos advogados; e por último, mas não menos importante, o “Brasil profundo” que elegeu Rousseff legalmente, com 54,5 milhões de votos.
A disputa não chegará ao fim até que se ouça o canto de algum homem gordo do Supremo Tribunal Federal. Certo é que os acadêmicos brasileiros independentes já estão lançando as bases para pesquisar a Lava Jato não como uma operação anti-corrupção simples e maciça; mas como estudo de caso final da estratégia geopolítica dos Exceptionalistas, aplicada a um ambiente globalizado sofisticado, dominado por tecnologia da informação e redes sociais. Todo o mundo em desenvolvimento deveria ficar inteiramente alerta – e aprender as relevantes lições, já que o Brasil está fadado a ser visto como último caso da Soft Guerra Híbrida.
Autor: Pepe Escobar
Tradução: Vinícius Gomes Melo e Inês Castilho – Fonte: Pravda.ru