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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Glenn Greenwald sobre Deltan: “Ele próprio usou vazamentos para manipular o público e os suspeitos”




O jornalista Glenn Greenwald, fundador do site The Intercept Brasil. Foto: Reprodução/YouTube
Do Twitter de Glenn Greenwald:
Vale a pena ler esta entrevista de 2017 que Deltan deu à @bbcbrasil – depois de um de seus discursos- em que ele negou veementemente que LJ usou vazamentos à mídia como parte de sua estratégia investigativa. Vale a pena lembrar o que Deltan afirmou aqui…
Muitos suspeitavam que os promotores da Lava Jato estavam usando vazamentos impróprios para manipular o público e os suspeitos. Deltan negou veementemente, inclusive em uma entrevista à @bbcbrasil em 2017, realizada após um discurso em Harvard. Ele mentiu.
Deltan não estava apenas ciente dos vazamentos que mentiu ao negar. Ele próprio usou vazamentos para manipular o público e os suspeitos. A importância deste material – e uma imprensa livre – é que você pode lê-lo e ver a verdade por si mesmo

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O silêncio seletivo da mídia cúmplice....


Resultado de imagem para Mídia golpista

"No tempo veloz das redes sociais e da ignorância planejada da mídia sobre o que não interessa ser exposto, a seletividade é a norma. " - Tânia M. S. Oliveira

Do Jornal GGN:



O silêncio dos cúmplices, por Tania M. S. Oliveira
No tempo veloz das redes sociais e da ignorância planejada da mídia sobre o que não interessa ser exposto, a seletividade é a norma. O mundo dos jornais, revistas e, sobretudo, da TV, permite-se descolado da realidade social de tal modo que, no Brasil, é permitido aos grandes meios de comunicação ignorar que há 23 dias 7 pessoas,militantes de movimentos populares, estão em greve de fome, pedindo que o Supremo Tribunal Federal paute uma ação que julga o princípio constitucional da presunção de inocência.
Seria chover no molhado se a poça fosse de água imaginar que a submissão de seres humanos a um sacrifício limite possa merecer um silêncio cúmplice e vil, como a dizer que suas vidas podem ser dispostas e sua dor pode ser enxergada como algo que se vê em uma vitrine, que não se precisa tocar, uma paisagem distante vista de uma janela, um pensamento que ocorre mas não se fixa como relevante. A poça, contudo, é de sangue.
 23 dias de fome de justiça.
A iminência de uma tragédia de vidas perdidas por uma causa que não lhes pertence individualmente - senão como cidadãos de um país que perdeu seus referenciais jurídicos e de democracia - possui algo de muito dramático que não diz respeito a eles, mas às autoridades a quem se dirigem, e que se recusam a recebê-los, bem assim aos donos dos meios de comunicação que lhes negam a publicização de seu sacrifício: torna-os cúmplices do desfecho qualquer que seja ele. Mostra a faceta de homens e mulheres de um país órfão de solidariedade, onde a vida está completamente banalizada.
23 dias de fome de liberdade.
Pedindo que a Suprema Corte cumpra com sua obrigação de fazer a prestação jurisdicional e julgue uma matéria. Um pedido obsceno não em si mesmo, mas pela necessidade de ser feito, exigido, miseravelmente solicitado, colocando a morte na contrapartida, com a mansa passividade de um martírio.
Como instrumento de luta, as greves de fome são historicamente consideradas como significativas formas de resistência e protesto político e social, desde Gandhi. Mulheres e homens fazem da ausência de uma necessidade vital à sobrevivência a marca de sua luta. No caso presente, no outro extremo, os destinatários da exigência firmam um silencioso e cúmplice pacto com os donos da comunicação: fingem não ver, não saber, não compreender, evidenciando um distanciamento inaceitável do outro, que coloca em questão a própria ideia de humanidade.
A Ministra Carmem Lúcia recebeu militantes, juristas e artistas em audiência no dia 14 de agosto de 2018, entre eles Frei Sérgio Gorgen, um dos grevistas. Disse-se sensibilizada pela pauta, comprometeu-se a visitar os demais. Não o fez e recusou-se a recebê-los ao ser solicitada.  Apareceu na redes no dia 20 de agosto, em um evento, cantando e dançando samba, com um grupo de mulheres que exercem altos cargos públicos e a cantora Alcione. Na aparente leveza de sua vida de eventos, não deixa transparecer o grande paradoxo entre o discurso e sua prática, que efetiva a legitimação do esquecimento. Esquecimento não apenas de uma pauta, uma promessa, mas do conteúdo humano que porta. Fora do foco, ela administra o mundo de um poder sombrio, sem pandeiro ou tamborim. As rimas são pobres e o ritmo se afina com o descaso com as reivindicações de uma sociedade, exposta à esquizofrenia de um sistema de justiça que nem mais se reconhece no nome. Falta colocar amor na cadência, como pedia Vinicius.
Lembrando o ator Osmar Prado em sua emocionante intervenção na reunião no STF: quantos mortos ainda serão necessários para que se tome uma atitude republicana e correta? Quantos suportaremos? Respondo eu: depende de quantos morram sem causar alarde. Depende do quanto de silêncio possa ser produzido pelo pacto mortal de vilania e ignorância, com a certeza da impunidade.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Cynara Menezes sobre a prisão de Eduardo Cunha, o boi de piranha mais suculento da República das Bananas, e a dualidade da mídia



A celebração pela prisão de Eduardo Cunha foi chocha diante do regozijo dos articulistas da imprensa chapa-branca em “provar” aos críticos da Lava-Jato que a operação “não é seletiva” nem tem como alvo apenas petistas, como ficou patente até agora. Como se a prisão do ex-deputado federal cassado fosse capaz de diluir o estrondoso fato de que, embora citados em várias delações, os tucanos continuem fora da mira do juiz Sergio Moro e a punição de algum deles siga um sonho distante para os reais defensores do fim da impunidade em nosso país.
Diante das evidências cada vez maiores de que não existem provas contra o ex-presidente Lula, quem, que não fosse do PT, poderia ser preso neste momento para tentar amenizar as críticas sobre a parcialidade da Lava-Jato? Ora, até as caspas sobre o paletó de Eduardo Cunha sabem que hoje ele é o preso ideal. Primeiro porque já está decaído. Não é mais o presidente da Câmara e o processo de impeachment de Dilma Rousseff foi concretizado (por ele) com êxito, portanto não é mais útil.
O establishment não está interessado no PMDB, nunca esteve, e Michel Temer sabe disso –ou não teria voltado às pressas de sua viagem ao Japão tão logo o companheiro de longa data foi preso. Os heróis do establishment sempre foram o PSDB e seu velho parceiro, o DEM. São eles que o poder econômico quer ver de volta ao poder, de preferência sem o risco de uma eleição. E é sobre eles que falamos quando denunciamos a seletividade da Lava-Jato. Enquanto nenhum político destes dois partidos for mandado a Curitiba, as críticas sobre a seletividade da operação permanecem; antes disso, Eduardo Cunha não será nada além de um suculento boi de piranha.
Curiosamente, aliás, a prisão do ex-presidente da Câmara acontece na mesma semana em que o escritor italiano Gianni Barbacetto, autor do livro sobre a Mãos Limpas, a operação italiana que inspirou Sergio Moro (a apresentação da edição brasileira é assinada pelo juiz), fez duros reparos às “limitações” da Lava-Jato. Em entrevista ao jornal Zero Hora no sábado15, Barbacetto disse estar “surpreso” que tenham aparecido acusações “só contra o PT e seu líder Lula”. “Parece-me que todo o sistema está envolvido pela corrupção. Desde o início o sistema continua como antes e será apenas Lula a pagar”, criticou.
Se o problema é sistêmico, não será a prisão de Cunha que irá atenuar nos cidadãos conscientes, que não se deixam contaminar pela mídia, a sensação de que a Justiça praticada por Moro é seletiva. Os defensores do magistrado paranaense sempre afirmaram que seu objetivo é acabar com a corrupção no país. Sendo assim, a prisão de Eduardo Cunha jamais poderia ser considerada um fim, e sim um meio. Mas já tem colunista de direita defendendo que Cunha não pode ser beneficiado pela delação premiada, como foi, por exemplo, o ex-petista Delcídio Amaral. A quem essa gente acha que engana? Eles e seus veículos de comunicação sempre foram os porta-vozes do tucanato, sabemos muito bem a quem querem proteger.
A maior utilidade da prisão de Eduardo Cunha é exatamente oposta: que ele abra o jogo e revele as entranhas do financiamento de campanha brasileiro, do qual é profundo conhecedor. Se decidir falar, Cunha tem muito a dizer, sobre políticos de todos os partidos da República (à exceção, suponho, do PSOL), e talvez isto explique o ensurdecedor silêncio do PSDB sobre a prisão do malvado favorito da turma de camiseta verde e amarela. Isto se considerarmos que a prisão de Cunha é mesmo para valer. Eu tenho cá minhas dúvidas. Mas ainda que seja, não será surpresa para ninguém se a possível delação do peemedebista só servir, mais uma vez, para incriminar aqueles que têm sido os únicos a pagar pela podridão do sistema político brasileiro desde o mensalão.
Cynara Menezes, em seu blog

domingo, 26 de junho de 2016

Roberto Amaral: Para garantir o impeachment, agora a Lava Jato blinda o PMDB e ataca novamente o PT... O triste retorno de Moro...


Roberto Amaral, ex-presidente nacional do PSB, lembra a diferença no tratamento concedido a Delcídio do Amaral e a Eduardo Cunha
Policiais federais entram no prédio do ex-ministro Paulo Bernardo - Foto: José Cruz/Agência Brasil
Policiais federais entram no prédio do ex-ministro Paulo Bernardo – Foto: José Cruz/Agência Brasil
Após a prisão do ex-ministro Paulo Bernardo (PT), o cientista político Roberto Amaral afirmou que a Operação Lava Jato está sendo usada politicamente para destruir o PT: “A Lava Jato tem méritos. Ninguém é contra que criminosos de colarinho branco sejam mandados para a cadeia. Mas a Lava Jato está sendo usada como um projeto político eleitoral para destruir Lula e desmantelar o PT”.
Segundo Amaral, “há uma evidente blindagem do PMDB e uma clara tentativa de atingir o PT”: “O exemplo mais claro foi a condução coercitiva do ex-presidente Lula. Não tenho notícia de que algo semelhante tenha sido feito com outros presidentes”.
Ele lembra o caso da prisão do então senador Delcídio do Amaral, que na época era líder do governo Dilma Rousseff: “Delcídio foi preso no exercício de seu mandato, e não se tratava de flagrante delito. O tratamento em relação ao Delcídio é bem diferente do que tem sido concedido a Eduardo Cunha. Outro exemplo: o delator Sérgio Machado está em prisão domiciliar em seu palacete em Fortaleza”.
O ex-presidente nacional do PSB e ex-ministro da Ciência e Tecnologia afirma ainda que “certas medidas do Supremo Tribunal Federal e da Polícia Federal são antecipadas ou adiadas para interferir no julgamento do processo de impeachment” de Dilma: “Esperaram meses para afastar Eduardo Cunha. Ele só foi afastado pelo STF depois que conduziu a votação do impeachment. E a delação premiada de Sérgio Machado só foi divulgada depois que o Senado afastou Dilma. São muitas coincidências”.
O secretário de comunicação do Diretório Municipal do PT em São Paulo, João Bravin, também estranhou a ação da PF: “Mais uma vez é uma ação seletiva da Polícia Federal contra um partido político que não se negou em participar ou colaborar com investigações. A cada semana temos um ministro desse partido golpista saindo do governo e ninguém vai na casa desses ex-ministros que têm [nome citado em] delação, nem coercitivamente. Isso é um absurdo, uma perseguição seletiva”.
Desde que a Lava Jato teve início, vários políticos ligados ao PT foram presos pela operação e por seus desdobramentos. Além de Delcídio do Amaral, foram detidos os ex-deputados José Dirceu e André Vargas, o ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto e o ex-secretário-geral Silvio Pereira. Ex-deputados federais de outras siglas, como Luiz Argolo (SD) e Pedro Corrêa (PP), também foram presos. Mas nas nenhum peemedebista de relevo foi detido em razão da Lava Jato.
Os peemedebistas, porém, já foram alvo de outras operações. Em maio de 2014, por exemplo, o governador de Mato Grosso, Silval Barbosa (PMDB-MT), foi preso pela PF na Operação Ararath, que investigava o desvio de recursos no Estado por meio a utilização de sistema financeiro clandestino. E, em 2013, o deputado federal Natan Donadon (PMDB-RO) foi preso após ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal por peculato e formação de quadrilha.
Dos integrantes da cúpula do partido, somente o senador Jader Barbalho (PA) chegou a ser detido em 2002, depois de ter renunciado ao mandato de senador, em uma investigação sobre irregularidades na Sudam. Libertado, ele foi eleito deputado federal em outubro daquele ano.
Link curto: http://brasileiros.com.br/oCMx3

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Investigações da Lava Jato: dois pesos e duas medidas ou a Lava que é a jato para uns, enquanto ara outros, não lava nem a gotas


"O repórter Marcelo Auler faz, em seu blog, um impressionante relatório da verdadeira corrida de tartarugas que são os procedimentos da Polícia Federal quando se trata de investigar as escutas, vazamentos e outras suspeitas de irregularidade.
A rapidez com que vazam os depoimentos sigilosos e acordos de delação premiada  – como o de Nestor Cerveró – é inversamente proporcional à da busca de esclarecimentos.
Os papéis secretos que foram parar nas mãos do banqueiro André Esteves – e deixaram indignado  o ministro do STF Teori Zavascki – até hoje, mais de um mês depois, não apenas continuam um mistério como o delegado ainda está esperando as imagens das câmeras de segurança." - Fernando Brito
Veja o artigo-reportagem de Marcelo Auler, retirado do seu blog:


Ninguém nega que os resultados das investigações que escancaram o lamaçal de corrupção que há anos domina as relações de empresários, políticos e governantes brasileiros são impressionantes. Discute-se sim que estas investigações sejam focadas nos governos dos petistas, embora não tenham começado com eles. Também se tornaram questionáveis os possíveis métodos adotados por operadores da Lava Jato para atingirem o fim desejado. Bem como o pouco caso destes mesmos operadores, quando diante de irregularidades, ou mesmo crimes teoricamente praticados por alguns dos encarregados desta investigação.
Entre agosto – quando publicamos “Lava Jato revolve lamaçal na PF-PR” – e dezembro deste ano, os números que retratam a Lava Jato aumentaram vistosamente: os procedimentos instaurados pularam de 716 para 1016; as buscas e apreensões somavam 356 e hoje são 396; eram 86 mandados de condução coercitiva, agora são 99; foram executado
Lava Jato infografico-resultados dezembro de 2015
s 105 mandados de prisões e hoje totalizam 119; de 53 pedidos de cooperação internacional pulou-se para 86; as delações premiadas subiram de 28 para 40; na época estavam protocoladas 31 denúncias criminais contra 143 pessoas, atualmente são 36 com um total de 179 denunciados.

A esta contabilidade acrescente-se o pioneirismo de se levar à cadeia por envolvimento em suposta corrupção, desvio e lavagem de dinheiro dos donos das construtoras, a um senador no exercício do mandato. Isto é, teoricamente a prisão atingiu a todos os extratos da sociedade
Há, porém, uma área em que o trabalho da Força Tarefa da Lava Jato, composta pela Polícia Federal (DPF) e pelo Ministério Público Federal (MPF), resiste e não caminha: as investigações de irregularidades e até mesmo crimes supostamente cometidos na superintendência no Paraná (SR/DPF/PR) seja com a possível participação direta, conivência ou apenas uma suposta “distração” de agentes e delegados.
Pela maneira como encaram este problema, verifica-se que não é por falta de instrumentos ou dificuldade na investigação que elas não caminham. Seria muito mais uma opção política. O medo de que estas possíveis ações delituosas ponham o trabalho – ou parte dele – a se perder.
Sobre esses fatos, delegados, procuradores e outros agentes da Força Tarefa da Lava Jato que vivem na mídia, simplesmente emudecem. Quando cobrados, silenciam ou tangenciam. A grande imprensa, por sua vez, se omite.
Youssef e o grampo que descobriu na cela da SR/DPF/PR
Youssef e o grampo que descobriu na cela da SR/DPF/PR
O caso exemplar é o do grampo ilegal descoberto pelo doleiro Alberto Youssef, no final de março de 2014, dentro da cela 5 da custódia da Superintendência. Ele pode ter sido usado como “atalho” para se chegar a alguns objetivos que contribuíram para o surpreendente número de delações premiadas que a Operação Lava Jato acumula.
Em decorrência disso, evita-se comentar e revelar o que realmente ocorreu. Ou pior, evita-se confirmar o denunciado: que o grampo foi instalado por ordem da cúpula da SR/DPF/PR. Aparentemente, tenta-se esquecer o caso, dando tempo ao tempo.
Decorridos 21 meses da sua descoberta; 16 meses da conclusão de uma sindicância que segundo denúncias visava desmentir o funcionamento do grampo; e cerca de sete meses da abertura de uma segunda investigação, não se tem nenhuma explicação oficial do que ocorreu, apesar das promessas da própria Polícia Federal.
Pressionado pela defesa da Odebrecht, em 30 de outub ro, Sérgio Moro deu prazo de cinco dias para a Polícia Federal se manifestar sobre a sindicância do grampo na cela de Youssef.
Pressionado pela defesa da Odebrecht, em 30 de outubro, Sérgio Moro deu prazo de cinco dias para a Polícia Federal se manifestar sobre a sindicância do grampo na cela de Youssef.
A questão, por menos que se queira, coloca em jogo a própria autoridade do juiz Moro, assim como sua indiscutível isenção e imparcialidade. Afinal, ele que se mostra ativo e alerta em várias situações, nesse caso parece fazer ouvidos de mouco. Instado pela defesa da Odebrecht, em 31 de outubro, após uma segunda petição dos advogados, ele oficiou à Polícia Federal cobrando resultados da nova sindicância sobre o grampo. A anterior, que concluiu que o grampo não funcionava, ele já havia acatado.
No documento que assinou em um sábado, (veja foto ao lado) estipulou um prazo de cinco dias para que as informações lhes fossem prestadas. A resposta foi anexada aos autos em 12 de novembro, nove dias úteis depois.
 Através do ofício nº 341/2015, o corregedor geral do DPF, delegado Roberto Mario da Silva Cordeiro, informou ao juízo da 12ª Vara Criminal Federal de Curitiba, que
a conclusão do apuratório está prevista para o final deste mês de novembro de 2015“.
Confiando no que informou o corregedor ao juiz Moro, no dia 21 de novembro publicamos a reportagem Grampo da Lava Jato: aproxima-se a hora da verdade. Mal sabíamos que eram promessas em vão, motivo pelo qual nos desculpamos com os leitores por termos abandonado uma regra básica do jornalismo: desconfiar sempre, de quem quer que seja.
Novembro terminou e nada foi anexado ao processo. Dezembro passou e nenhuma informação nova foi lançada nos autos. Nele também não se encontra qualquer manifestação do juízo cobrando o cumprimento de sua ordem e o prazo que a própria Corregedoria estipulou. Como se falou acima, o assunto é evitado. De tal forma que a ordem judicial descumprida não é questionada.
O Blog bem que questionou principalmente a Assessoria de Comunicação do DPF. Mas, não só o chefe daquela divisão, Leonardo Lima, se recusou muitas vezes em atender nossas ligações, como não respondeu a um pedido de entrevista (no dia 24 de novembro) e nem mesmo às mensagens eletrônicas encaminhadas, duas delas nos dias 30 de outubro e 1 de novembro.
Às cobranças que fizemos, todos silenciaram. Quem remeteu resposta, foi lacônico: “sem comentários”. Insistimos nos dirigindo diretamente ao delegado Cordeiro, corregedor do DPF, no dia 15 de dezembro. Para nossa surpresa, oito dias depois chegou uma resposta que parece desconhecer que a própria Corregedoria, em novembro, informou que concluiria a investigação até o final daquele mês:
“A sindicância questionada encontra-se em processamento e está em fase final de conclusão”.
Na mensagem da Assessoria de Comunicação, a reclamação por o blog correr atrás da notícia.
Na mensagem da Assessoria de Comunicação, a reclamação por o blog correr atrás da notícia.
Junto à explicação lacônica, sem menção à previsão anterior já vencida, veio a reclamação por o blog ter tentando obter a informação que lhe vem sendo sonegada diretamente com o corregedor:
Outrossim, salientamos que quaisquer demandas oriundas da imprensa devem ser encaminhadas exclusivamente à Divisão de Comunicação Social”.
O que os jornalistas da assessoria de imprensa certamente ignoram é outra regra básica do jornalismo: perguntar, questionar, incomodar e correr atrás da notícia. Na nossa escola profissional não aprendemos a ficar passivos à espera que se manifestem. Tampouco ouvir reclamações calado. Talvez, por isto é que nem sempre somos atendidos por aqueles profissionais.
Investigações paradas - A sindicância do grampo encontrado por Youssef não é a única investigação do DPF sobre fatos ocorridos com o envolvimento ou a possível omissão de seus agente e delegados, ainda não levada à termo. Na mesma reportagem já citada – “Lava Jato revolve lamaçal na PF-PR” – postada no dia 20 de agosto, apresentamos outra prova de possível ilegalidade dentro da SR/DPF/PR.
O coordenador de assuntos internos do DPF após confirmar que um grampo no fumódromo era ilegal, encaminhou a sindicância para deliberação do corregedor. O que foi feito?
O coordenador de assuntos internos do DPF, após confirmar que um grampo no fumódromo era ilegal, encaminhou a sindicância para deliberação do corregedor. O que foi feito?
Trata-se do despacho do delegado Alfredo José de Souza Junqueira, coordenador de assuntos internos da Coger, encaminhado ao corregedor do DPF. O documento acabou remetido à CPI da Petrobras. Nele, confirma-se que um novo grampo encontrado, no primeiro semestre de 2015, no fumódromo da Superintendência do DPF, não tinha autorização judicial.
No documento, Junqueira deixa claro que “conforme preceitua o art. 59 da Instrução Normativa nº 76/2013-DEG/DPF, concluída a Instrução da sindicância, os autos serão remetidos ao Sr. Corregedor-Geral, acompanhados de relatório, com proposta de: a) arquivamento, b) instauração de inquérito policial e/ou c) instauração de processo administrativo disciplinar. O delegado encarregado da sindicância encaminhou-a para a deliberação do corregedor.
Depois dessa divulgação, não se teve mais notícias sobre o que aconteceu com o resultado desta sindicância.
Tanto o grampo na cela de Youssef, como o colocado no fumódromo, foram assumidos pelo agente de polícia federal, Dalmey Fernando Werlang.
Na custódia, segundo declarou diversas vezes, a escuta foi instalada  a mando do delegado Igor Romário de Paula, chefe da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado (DRCOR). Ao ordená-lo, o chefe da DRCOR, segundo Dalmey, estava acompanhado do próprio superintendente, delegado Rosalvo Ferreira Franco, e do encarregado da Operação Lava Jato, Márcio Anselmo Adriano. Ou seja, os dois sabiam e de certa forma convalidaram a ordem da escuta sem autorização judicial.
Com relação ao grampo do fumódromo, Dalmey apontou a responsabilidade da delegada Daniele Gossenheimer Rodrigues, então sua chefe no Núcleo de Inteligência Policial (NIP) Ela é casada com Igor. O primeiro grampo tinha como alvo o doleiro Youssef. O do fumódromo visava acompanhar os chamados “dissidentes”, isto é, os policiais que criticavam as irregularidades da Lava Jato, como o grampo na custódia.
Talvez pelo possível envolvimento de delegados que atuam diretamente na Operação Lava Jato, o DPF e o próprio Ministério Público Federal – cujo papel constitucional é de fiscal da lei e também responsável pela fiscalização externa do trabalho da Polícia Federal -, nada fizeram com relação a estes casos. Para muitos isto demonstra a parcialidade com que o DPF e o próprio MPF estão atuando com relação a estas denúncias. O silêncio do Ministério da Justiça sobre tudo isso também é considerado bastante estranho.
Como a reportagem mostrou, o aparelho instalado na cela de Alberto Youssef gravou mais de 100 horas de conversas desmentindo a sindicância presidida por Moscardi
Como a reportagem mostrou, o aparelho instalado na cela de Alberto Youssef gravou mais de 100 horas de conversas desmentindo a sindicância presidida por Moscardi
Aliás, os procuradores da República do Paraná e o próprio juiz Sérgio Moro acataram a conclusão de uma sindicância feita na Superintendência, sob a presidência do delegado Mauricio Moscardi Grillo, que concluiu, em agosto de 2014, que o aparelho de escuta encontrado na cela estava desativado e tinha sido colocado ali na época em que o traficante Fernandinho Beira-Mar passou por aquela superintendência (2008).
Esta versão prevaleceu meses seguidos até Dalmey confessar a instalação do aparelho de escuta em abril de 2015. A partir de então descobriu-se que o aparelho usado na cela de Youssef chegara em Curitiba meses depois de Beira-Mar ser transferido.  Depois, como narramos na reportagem “Surgem os áudios da cela do Youssef: são mais de 100 horas“, uma perícia do próprio DPF em Brasília recuperou áudios das época da prisão de Youssef. Isso, por si só, derrubou a conclusão da sindicância endossada internamente na Superintendência pelos delegados em cargo de chefia, pelos procuradores e pelo juiz.
Silêncio sobre outras irregularidades - Também não mereceu nenhum comentário de qualquer dos operadores da Força Tarefa a denúncia do delegado Paulo Renato Herrera e do advogado paulista Augusto de Arruda Botelho de que os policiais da Força Tarefa da Lava Jato tentaram obter dados sigilosos de pessoas com foro privilegiado, sem levarem o fato ao conhecimento do Supremo Tribunal Federal.
A denúncia foi reportada aqui, dia 6, em “Lava Jato: surge nova denúncia de irregularidade“. Teriam tentado obter informações de políticos com direito a foro especial através de um Alvará concedido pelo então juiz estadual da comarca de Pinhais, José Orlando Cerqueira Bremer, para uma investigação sobre tráfico de drogas. É verdade que a denúncia dos dois foi feita em depoimentos à delegada Tânia Fogaça, da Corregedoria Geral (Coger) do Departamento de Polícia Federal (DPF), em uma sindicância ainda em curso. Mas foi sintomático o silêncio de todos que nem se preocuparam em desmentir a acusação. O juiz Bremer, por sua vez, se disse “traído”.
No dia 25 de novembro, quando autorizou a prisão do senador Delcídio do Amaral e do banqueiro André Esteves, do Banco Pactual, por tentativa de obstrução da Justiça, o ministro do STF, Teori Zavascki, mostrou-se surpreso com vazamentos de documentos e informações que ocorreram. Afinal, o banqueiro tinha em seu poder cópia do rascunho da delação premiada que Nestor Cerveró preparava para oficializá-la junto à Procuradora Geral da República, em Brasília. Ela estava na cela que ele dividida com o doleiro Youssef, como anunciamos na reportagem “Lava Jato: Adivinhem quem estava na cela com Cerveró?“. Sem esconder sua indignação, o ministro comentou:
“Os vazamentos da Lava-Jato municiam pessoas poderosas”.
Uma nova investigação foi aberta na Polícia Federal, mas ela não ficou a cargo de nenhum órgão central. Foi entregue, pelo superintendente do Paraná, delegado Rosalvo, ao seu amigo, delegado Severino Moreira da Silva. Oficialmente  lotado na Coordenação-Geral de Defesa Institucional (CGDI) da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado – DICOR, em Brasília, ele, na prática, desde março atua como “convocado” em Curitiba. Nesse afastamento que já dura nove meses, auxilia na investigação sobre compra de sementes de maconha pelo Correio.
Apesar da indignação do ministro Zavascki a investigação, ainda não andou. Até esta quarta-feira, dia 30/12, o principal personagem da história, isto é, o ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, não foi ouvido pelo delegado Severino. Nem ele nem qualquer outro personagem. O delegado ainda esperava receber filmagens das câmeras espalhadas na superintendência. Ele sequer tinha conseguido a copia do rascunho da delação premiada que vazou para o banqueiro André Esteves.
Situação parecida ocorreu com outras investigações abertas em 2014 para apurar vazamentos de informações selecionadas e privilegiadas para jornais e revistas. Sindicâncias neste sentido foram presididas também pelo delegado Moscardi. Até hoje, porém, os resultados delas são desconhecidos.
O delegado Moscardi na premiação aos delegados da Lava Jaro pela Associação de Delegados da Polícia Federal - foto: reprodução.
O delegado Moscardi na premiação aos delegados da Lava Jaro pela Associação de Delegados da Polícia Federal – foto: reprodução.
Apesar disso e de Moscardi ter, segundo as denúncias, presidido uma sindicância que apresentou falsos resultados – de que o grampo nas cela de Youssef não funcionava- ele vem sendo prestigiado pela cúpula da Superintendência. Nos últimos dias, mesmo sem oficialmente pertencer à Força Tarefa da Lava Jato – ele só ingressou em situações pontuais – apareceu ao lado de Márcio Anselmo em recente entrevista à imprensa. Também recebeu medalha da Associação dos Delegados da Polícia Federal, como membro da equipe da Lava Jato.
Celulares na cela - Também como mostramos na mesma postagem, “Lava Jato: Adivinhem quem estava na cela com Cerveró?“, em julho de 2014, descobriu-se que Youssef utilizava um celular na cela. O fato foi noticiado no Painel da Folha e republicado na coluna Fábio Campana, no Paraná. Um trecho da nota dizia:
“Alô, doleiro – A Polícia Federal descobriu que o doleiro Alberto Youssef, preso na operação que apura desvios na Petrobras, conseguiu usar um celular atrás das  grades. Os investigadores acreditam que ele fez as ligações, de dentro da
carceragem em Curitiba, para ocultar provas do caso. Foram identificados cinco suspeitos de receber propina para permitir o uso ilegal do telefone. Eles estãolotados no setor de custódia da PF paranaense e serão investigados por crime de corrupção passiva.
Na mira – A delegada que apura o uso do celular pediu ontem, em ofício sigiloso, “levantamentos detalhados” com o endereço, o patrimônio e os “principais relacionamentos” dos cinco funcionários da carceragem.
Alvos – Os investigados são um agente da Polícia Federal, três guardas
municipais e uma funcionária terceirizada. A delegada ainda não sabe se todos colaboraram para a entrada do telefone” (…)
O  principal suspeito da entrega do celular, segundo policiais ouvidos pelo blog, era o antigo carcereiro Paulo Romildo Rosa Filho, o “Bolacha” . Ele, como noticiamos também em “Lava Jato: DPF delega investigação do vazamento”,  já foi acusado, por familiares de um preso, de ter cobrado propina dentro da carceragem. Mas, as investigações da propina e com relação ao celular não foram adiante. A delegada encarregada da apuração do caso do celular, teria alegado que o noticiário atrapalhou seu trabalho e começou a  investigar quem tinha vazado a informação.
Enfim, esta relação de incidentes que foram noticiados na sua maioria apenas por este blog, mostra que há muitos detalhes do trabalho da Força Tarefa da Lava Jato que estão sem explicações. Aguardam uma apuração detalhada e isenta ou, em alguns casos, que se apresente o resultado de sindicâncias já concluídas, mas que são guardadas a sete chaves. Isto nos permite questionar a parcialidade por parte dos operadores desta Força Tarefa, mas não apenas deles. As próprias instituições como o DPF e o MPF, assim como o juiz Moro,na medida em que não cobram resultados e fazem ouvido de moucos, acabam contribuindo para a suspeita da existência de dois pesos e duas medidas quando se esbarra em possíveis irregularidades da própria polícia. Tudo isso, sem qualquer interferência – como deveria ocorrer – do Ministério da Justiça.


domingo, 15 de novembro de 2015

Je Suis Paris — e também Bagdá, Trípoli e Damasco... Artigo de Mauro Santayana



  Por mais que sejam terríveis, para todos nós, e para as famílias enlutadas, os atentados em Paris em nada diferem, em suas conseqüências humanitárias, daqueles que ocorrem, todos os dias, em dezenas de lugares no Afeganistão, no Norte da África e no Oriente Médio. - Mauro Santayana




Foram lamentáveis e brutais, sob todos os aspectos, os atentados ocorridos em Paris, que acarretaram centenas de mortos e feridos inocentes, franceses e estrangeiros.

Nas horas que se seguiram, na frágil cobertura da TV estatal francesa, que parecia só dispor de uma equipe e entrava, ao vivo, em contato, por telefone, com o seu repórter que estava no interior da Boate Bataclan, o foco foi mantido na solidariedade e na reação das autoridades e do governo.

O Primeiro Ministro François Hollande, com a mesma expressão de perplexidade mostrada por George Bush em suas primeiras declarações no dia do atentado às Torres Gêmeas, declarou que a França permanecerá unida, e que ela será implacável em sua resposta ao EI, o Exército Islâmico - o grupo terrorista que assumiu a autoria dos ataques — e que serão tomadas medidas de segurança para que a situação não se repita.

A retórica, dos jornalistas e do governo, é a única resposta que pode ser dada pelos franceses à situação de absoluta vulnerabilidade e impotência em que a França se meteu, ao intervir em outros países.

Uma retórica que serve para disfarçar — com a costumeira cortina de fumaça e de maniqueísmo — a crua e implacável realidade em que Paris se encontra, do ponto de vista desses ataques, e das escolhas que fez, nos últimos anos, em sua política externa.

Em primeiro lugar, porque há muito pouco que a França possa fazer para evitar novos atentados.

Se seus autores forem apanhados, outros os substituirão, vindos de fora, ou recrutados na periferia das grandes cidades francesas, onde muitos jovens, filhos de emigrantes, precisam apenas de um pretexto para fazer explodir seu ressentimento e sua frustração com a miséria e o desemprego, ou a falta de perspectivas de futuro, em um continente onde não se sentem bem-vindos, assombrado pela decadência e a crise, onde a extrema direita floresce, alimentada pela xenofobia, o racismo e o preconceito.

Em segundo lugar, porque, por mais que sejam terríveis, para todos nós, e para as famílias enlutadas, os atentados em Paris em nada diferem, em suas conseqüências humanitárias, daqueles que ocorrem, todos os dias, em dezenas de lugares no Afeganistão, no Norte da África e no Oriente Médio.

Por lá, pessoas explodem, a qualquer momento, ou são fuziladas, decapitadas, estupradas, às dezenas, por terroristas originalmente armados pelas mesmas potências “ocidentais” que estão sendo atacadas agora — e por pseudo “democracias”, como a Arábia Saudita onde adúlteras são punidas a chibatadas e mulheres não podem sair de casa sem véu nem um homem que as vigie — com o intuito de derrubar governos em países, que, independente da orientação política de seus regimes, viviam em situação de paz e estabilidade.

No entanto, esses atentados, em outras partes do mundo, não merecem matérias especiais de meia hora na televisão brasileira — afinal, é melhor que nos identifiquemos com a “civilização” que queremos emular e com a “democracia” que queremos emular — é muito mais conveniente, do ponto de vista do discurso de doutrinação ideológica eurocêntrico e neoliberal, discutir a dor das famílias e as medidas de segurança — absolutamente inócuas, diga-se de passagem — que devem ser supostamente adotadas — do que revelar ao público o que está realmente por trás dos acontecimentos.

Nem se vêem nas camisetas e nos cartazes que rezam “Je suis Paris”, em várias partes do mundo, espaço para frases como “Je suis Syrie”, porque, claro, são muito mais importantes as mortes de Paris, do que aquelas que ocorrem, literalmente, há anos, para lá de Bagdá, em lugares como Basra, Karbala ou Ramadi.

Finalmente, a pergunta que não quer calar, é a seguinte: se Saddam Hussein e Muammar Kaddafi — com todos seus eventuais defeitos — estivessem no poder e a Síria gozasse da mesma situação de estabilidade que tinha antes do início — estimulado pelo “ocidente” — do trágico engodo da “primavera árabe”; se os EUA – aliados da França — não tivessem armado terroristas para atacar Damasco — os mesmos assassinos que hoje militam e são a espinha dorsal do Estado Islâmico —- os atentados de Paris teriam ocorrido?

Capitais europeias não eram atacadas antes da promulgação da “Guerra ao Terror” pelos Estados Unidos, nem da “primavera árabe”, que gerou milhões de mortos e refugiados, com a destruição de centenas de cidades; nem antes do envolvimento da OTAN, a serviço dos EUA, com bombardeios na Líbia e em outros lugares — contra governos que antes eram tratados, hipocritamente como aliados pelo “ocidente” — em países em que crianças iam uniformizadas e bem alimentadas à escola todos os dias, e não caçavam, para comê-los, ratos entre os escombros de suas casas, como agora.

Nunca é demais lembrar que quem planta vento, colhe tempestade.

Que os novos atentados de Paris — e o pânico com os falsos alarmes que se seguiram — sirvam de alerta ao Brasil — país em que convivem, em harmonia, judeus e muçulmanos, e gente de todos os lugares do mundo — que, estimulado pela doutrina da repressão policialesca e pelo desejo de ser mais realista que o rei de “especialistas” que cresceram vendo enlatados de espionagem norte-americanos, está se metendo a “gato mestre”, criando leis “antiterroristas”, que podem nos fabricar inimigos onde nunca os tivemos.

Leis que são, como podemos ver, pela vulnerabilidade e impotência dos países que as adotam, tão supérfluas quanto inócuas e estúpidas.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Lama a Jato, por Guilherme Scallzili

   A cada depoimento novo, o cenário da Lava Jato fica mais constrangedor para a oposição. A imprensa tucana faz algazarra em torno das menções dos delatores a Dilma e Lula, mas o que vemos é um número crescente de elos com José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, etc.


Lama a jato, por Guilherme Scalzilli

Publicado no Brasil 247
A cada depoimento novo, o cenário da Lava Jato fica mais constrangedor para a oposição. A imprensa tucana faz algazarra em torno das menções dos delatores a Dilma e Lula, mas o que vemos é um número crescente de elos com José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, etc.
Inflado pela mídia corporativa, Sérgio Moro convenceu-se de que podia criminalizar as maiores empreiteiras do país e ao mesmo tempo manter o processo focado nos petistas. Mas suas pretensões exacerbadas são inconciliáveis com o viés seletivo dos inquéritos.
Ao longo dos intermináveis ritos processuais será impossível desnudar as construtoras sem atingir as doações para candidaturas do PSDB e os contratos no metrô de São Paulo, por exemplo. As menções a Serra nos emails da Odebrecht (e as canhestras tentativas de ocultá-las) fornecem um indicativo dos monstros ocultos nesses armários.
Algo parecido amedronta os ministros do STF. Se tratarem os políticos citados sob critérios menos rigorosos do que usaram no julgamento do “mensalão”, escancaram o partidarismo de seus votos submissos a Joaquim Barbosa. Repetindo aquela verve condenatória, precisarão meter a cúpula oposicionista na cadeia.
Eis o dilema central de Moro e seus asseclas: quanto mais eficazes forem do ponto de vista jurídico, mais perigosos se tornam politicamente. O esforço para manter as investigações em certos eixos convenientes evidencia a preocupação com esses limites. A cronologia usada para o escândalo da Petrobrás fala por si.
E os justiceiros estão certos. A Lava Jato não sobrevive uma semana se extrapolar os limites da atual base governista. Logo surgiriam os editoriais pedindo cautela, os protestos da OAB, as admoestações do CNJ e as interferências das cortes superiores. Prender tucano é coisa que a boa sociedade não aceita e ponto final.
Talvez se precavendo desses perigos, a alcaguetagem comandada por Moro teve tantas falhas rudimentares. Grampos ilegais, vazamentos seletivos e outras esquisitices dificilmente sairão ilesos dos trâmites processuais. É mesmo previsível que as irregularidades inviabilizem boa parte das ações, quando não as anularem por completo. Já vimos esse filme antes, aliás.
A estratégia delatora presume um componente de barganha que dá sentido muito próprio a deslizes que podem favorecer os réus em longo prazo. No mínimo insinua que a efetiva punição dos empreiteiros não configurava o objetivo central dos inquéritos.
Assim compreendemos por que a oposição tenta agravar logo o desgaste do governo federal. O impeachment selaria a utilidade partidária do justiciamento de Moro, garantindo a blindagem dos outros interesses que ele ameaça. Seria um alívio para as próprias defesas, que enfim sorveriam o desvio da atenção midiática.
O golpe representa uma cortina de fumaça para o vergonhoso desfecho que a Lava Jato previa desde o início. Além de alvos de um procedimento político, Dilma e o PT são bodes expiatórios da impunidade dos seus adversários.