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domingo, 7 de janeiro de 2018

Do Le Monde Diplomatique, um artigo sobre a velha "nova" Direita brasileira


"(...)  essa direita priorizou a internet e as redes sociais como campo privilegiado de atuação. Um campo funcional, pois, além de permitir um alcance maior de suas ideias, exige pouca necessidade de debates inconvenientes. Deixam seus apoiadores debater entre si em caixas de diálogo e exibir seus discursos de ódio a toda notícia, “meme” ou vídeo postado nas páginas ou canais do YouTube geridos por iniciativas como o Movimento Brasil Livre (MBL), Revoltados On Line, Vem Pra Rua, além de youtubers que têm ganho destaque entre os jovens como verdadeiros ídolos, rechaçando tudo que for ou parecer de esquerda ou progressista."


Artigo de Pedro Carvalho Oliveira



Desde 2013, movimentos da direita brasileira ganham espaço com sua retórica antiesquerdista e conservadora. Na internet, encontram terreno fértil para discursar muito e discutir pouco. Nessa prática, revelam as rupturas e as permanências da direita no país

Em “O retorno do fato”, Pierre Nora diz que um dos maiores desafios em analisar o presente estava na forma como os meios de comunicação em massa tratavam os fatos e os acontecimentos. O historiador francês se referia ao pós-Segunda Guerra Mundial, quando a compreensão desse conflito e de seus episódios brutais era urgente. Identificava como problemática a apresentação imediatista dos fatos noticiados por jornais e emissoras de rádio e os interesses dos editores, repórteres e jornalistas entrelinhados nas notícias, pois davam “ao discurso, à declaração, à conferência de imprensa a solene eficácia do gesto irreversível”.1 Seria responsabilidade dos historiadores, cientistas sociais, políticos, entre outros, duelar com exames superficiais e tendenciosos, buscando não só a “reversão do gesto”, mas também afundar na epiderme dos fatos. Nora não imaginava como esse problema se tornaria ainda maior com a internet e as redes sociais.

O investigador que se debruçar sobre as etapas da crise política brasileira desde 2013, a partir dos protestos de junho, vai se deparar com uma exorbitante quantidade de informações divulgadas na imprensa e nas redes sociais. Nos tempos dos smartphones e do 3G, qualquer um pode se converter em repórter amador a noticiar acontecimentos convenientemente. Esse investigador vai encontrar também, entre embates partidários rasos, disputas ideológicas intensas entre a esquerda e a direita. Nesse terreno, inevitavelmente trombará com movimentos e organizações de direita oscilando entre o liberalismo e o conservadorismo utilitário, para não falar do extremismo.

Após o arrefecimento das manifestações de rua, essa direita priorizou a internet e as redes sociais como campo privilegiado de atuação. Um campo funcional, pois, além de permitir um alcance maior de suas ideias, exige pouca necessidade de debates inconvenientes. Deixam seus apoiadores debater entre si em caixas de diálogo e exibir seus discursos de ódio a toda notícia, “meme” ou vídeo postado nas páginas ou canais do YouTube geridos por iniciativas como o Movimento Brasil Livre (MBL), Revoltados On Line, Vem Pra Rua, além de youtubers que têm ganho destaque entre os jovens como verdadeiros ídolos, rechaçando tudo que for ou parecer de esquerda ou progressista.

Algumas notícias compartilhadas por eles, como no caso do MBL, são produzidas por seus próprios idealizadores em seus jornais particulares, nos quais, com frequência, fazem uso de análises informativas unilaterais – próximas às que criticam nos meios midiáticos convencionais – sobre fatos orbitantes à política brasileira. Essas notícias acabam convencendo muitos de que trazem a mais inquestionável verdade, intocada da manipulação e da doutrinação ideológica universitária, presumidamente dominada por esquerdistas detentores de um conhecimento elitista. Por isso, suas notícias estão impregnadas pela pretensão de “história nunca contada” em defesa do povo. Vencer uma “guerra cultural” parece imprescindível para a chamada “nova direita”.

Copas modernizadas, raízes conservadoras

Vivemos um momento de profundo descrédito e perseguição aos profissionais da educação dedicados a disciplinas críticas como História, Sociologia, Geografia, entre outras. Ex-atores, músicos e youtubers, cujo conhecimento sobre as formas de operar tais disciplinas é extremamente tênue, têm sido aplaudidos por suas opiniões inflamadas sobre diversas questões sociais, enquanto professores são acusados de doutrinadores ao tentarem discorrer sobre elas. Projetos como o Escola sem Partido, em via de banir o debate plural e o pensamento crítico das salas de aula para favorecer a manutenção da ordem social vigente, se laqueiam como isentos, apolíticos e anti-ideológicos, quando na verdade defendem vieses políticos e ideologias bem definidos. Com isso, a direita conservadora tem bloqueado divergências e ampliado seus regimes de verdade, perseguindo um tipo de conhecimento dito elitista para substituí-lo por um novo, coerente com sua lógica.

As lideranças desses movimentos emergem do apoio que a imprensa e grandes corporações nacionais e internacionais deram às movimentações que conclamaram a população a se engajar em defesa do impeachment da presidenta Dilma Rousseff; um esforço para expor o PT como uma quadrilha que havia se assenhorado do país como se a corrupção endêmica reinante no sistema político, nas instituições públicas e privadas, perpassando toda a sociedade, fosse uma obra exclusiva do partido. Em paralelo, esses mesmos veículos, regra geral, destacavam a atuação do PT em casos de corrupção que vinham à baila e ao mesmo tempo omitiam o predomínio de membros de outros partidos em episódios semelhantes. Qualquer um que se posicionasse criticamente ao processo de retirada da presidenta do poder, compreendendo nisso a existência de mecanismos antidemocráticos, acabou sendo acusado de defender corruptos e políticas sujas.

Entre esses movimentos está o MBL, talvez o maior movimento civil da direita emergente de 2013. Suas propostas parecem desejar com maior veemência a criminalização e marginalização da esquerda em vez de propor e efetivar mudanças políticas. Isso pode ser visto nas dezenas de notícias semanais publicadas pelo noticiário digital Jornal Livre, cujas matérias são assinadas por muitos membros do movimento. Além disso, qualquer esboço de projeto ou pensamento progressista é execrado em sua página no Facebook, deleitando seus seguidores.

O MBL surgiu em 2014 como movimento apartidário, liberal e enredado na busca por tornar a direita cool, “descolada”. Sua linguagem jovial causa a impressão de novidade, pois a visão de mundo de seus líderes é exposta por meio de “memes”, postagens bem-humoradas, expondo aos cidadãos os conchavos revoltantes dos políticos. O “orgulho direitista” de seus adeptos se contrasta e se explica na história do próprio país, que durante 21 anos esteve submetido a um regime militar após o qual o termo “direita” ganhou conotações pejorativas.2 Em reação a isso, o movimento parece tentar dar novo fôlego à direita, apostando tudo em oferecer principalmente aos jovens uma noção de subversão antes monopolizada por seus antagonistas.

A rebeldia com a qual o MBL se reveste é guiada por uma retórica visceral, emocionada, incidindo diretamente na tradição brasileira de pensar a política como gêmea siamesa da corrupção que busca sanar. No contexto em que surgiu, ajudou a personificar essa relação intrínseca na esquerda, como se o PT fosse seu maior representante, resultado de um conhecimento pouco profundo sobre esse espectro político. Essa retórica acaba por esconder suas alianças políticas, inclusive com personagens acusados de corrupção, encobre seus interesses partidários e esfumaça sua penetração no jogo eleitoral. Porém, diante das evidências de seu nada sólido antipartidarismo, as posições do MBL têm mudado consideravelmente.

Vislumbrando a arena eleitoral, o MBL lançou candidatos e apoia outros. Tem, pouco a pouco, abandonado também sua postura liberal e encontrado no conservadorismo a catapulta para se lançar politicamente. Isso tem ocorrido em consequência das críticas de seus seguidores à sua nova dinâmica, pois esta vem contrariando sua proposta original. Somam-se a isso as denúncias feitas contra seus agentes envolvidos na manutenção de Michel Temer no poder. Buscando renovar a popularidade, apostaram no tradicional imaginário conservador brasileiro e apelaram à defesa da moral e dos costumes, em projetos como o Escola sem Partido e no bombardeio de expressões culturais específicas e manifestações do pensamento crítico.

Essa dinâmica tem sido seguida por outros movimentos que despontaram desde 2013: posturas de direita sob o véu do antipartidarismo, críticas ferrenhas às esquerdas e revanchismo ressentido em relação a elas. Embora suas nuances se transformem com o passar do tempo e o desenrolar da crise política, a internet continua sendo o campo no qual suas ideias se propagam com intensidade. Mas o MBL não está sozinho.

Arbustos densos, espinhos longos

O movimento Vem Pra Rua se tornou grande a partir de 2013. Seu nome foi retirado de um dos gritos emblemáticos das passeatas de junho, quando pautas se mesclavam e engrossavam um coro pouco coeso. Menos forte do que o MBL, não deixa de ser significativo para pensarmos o envolvimento da sociedade civil com a crise. Desejando manter a luta contra a corrupção iniciada nas ruas – orientada assim pela manipulação da grande mídia, quando na verdade essa luta teve origem em protestos populares pelo acesso ao transporte público –, a organização se diz suprapartidária e defensora dos direitos dos brasileiros.

Esse movimento diz que seu partido é o Brasil, rejeitando a política formal e bandeiras institucionais. Não se define como de direita, mas ataca as esquerdas com ímpeto. Critica todos os políticos, mesmo os não alinhados à esquerda, mas frequentemente o faz por meio de discursos moralistas e amplamente passionais. Sua cruzada anticorrupção atira todos os políticos num mesmo bojo, algo perigoso. Nessa empreitada, normatiza uma luta centrada na indignação do “cidadão de bem”, lesado por todos os políticos e sua imoralidade. Defende também o Poder Judiciário como o mais apto, junto ao povo, a gerir o país e afastá-lo da corrupção. Com isso, acaba sendo conivente com a atuação de seus mecanismos mais ostensivos como justificativa para “resolver a crise”. Assim, o Judiciário aparece como isento de qualquer interesse político, imparcial perante os dirigentes do país e seus partidos, algo passível de questionamentos.

De forma menos sofisticada, o Revoltados On Line segue uma linha de ação parecida. Surgiu como um blog e depois virou comunidade no Facebook, em que seus operadores abordam a corrupção política por meio de “memes” e postagens incendiárias sobre escândalos, a crise política e a criminalização dos envolvidos nela. Outros movimentos menos reconhecidos, mas relevantes, se esforçam em mostrar a intervenção militar como única salvação para o Brasil. O movimento Cruzada pela Liberdade se dedica a disputar a memória do golpe militar como única saída para o comunismo após a vitória das Forças Armadas em 1964 e dar à ditadura uma imagem vitimista, marginalizada pela esquerda, fruto da vitória do “marxismo cultural”. Para eles, apenas um regime como aquele pode dar ao Brasil rumos menos sombrios. O autoritarismo e o confronto violento contra as forças opositoras são aplaudidos pela maioria de seus seguidores.

Limpando folhas secas

Nos últimos anos, observaram-se avanços significativos de políticas e movimentos civis progressistas, ainda que eles continuem a encontrar barreiras sólidas na sociedade brasileira. Com esses avanços foi possível debater o machismo, o papel da mulher na sociedade, a violência contra os LGBTQ, a repressão policial, o racismo, entre tantas outras coisas capazes de pôr em xeque o funcionamento de um sistema no qual a equidade de direitos é tratada como privilégio. A chamada “nova direita” reage a isso protegendo o direito de ser contra essas políticas. Reage também à ideia de que o Estado brasileiro, tomado por forças esquerdistas, bolivarianas ou o que quer que fossem, havia supostamente financiado, com o dinheiro público, políticas para suprir o “vitimismo” das classes subalternas, disseminar uma cultura imoral e destruir os costumes tradicionais do brasileiro. Estrategicamente, essa direita, que de nova tem pouquíssimo, usa o conservadorismo para alçar voos políticos.

Desde meados do século XX, forças conservadoras reagiam negativamente à equidade, pois já era “uma reação instintiva, uma coisa epidérmica, uma náusea, um desgosto ver aquelas gentes simplórias, subalternas, ascender a posições de influência”.4 As permanências são visíveis dentro dessa visão de mundo. Os discursos sobre a necessidade de uma “mão firme” para eliminar a violência e a corrupção, já defendidos por Oliveira Viana desde os anos 1920, também continuam. Logo, quem é contra a mão firme odeia o Brasil. Quem é progressista é imoral. Quem é esquerdista é marginal. Quem defende os direitos humanos defende bandidos. Essa é a imagem reproduzida em redes sociais sobre os “inimigos da nação” e convertida em alvo de ódio. Sua reprodução se sustenta na substituição do conhecimento empírico pelo discurso energizante emocional, pelas notícias de procedência questionável, pela dinâmica da briga entre torcidas, pela perseguição. Em que momento da história isso já foi visto antes?

*Pedro Carvalho Oliveira é mestre e doutorando em História pela Universidade Estadual de Maringá, onde integra o Laboratório de Estudos do Tempo Presente (LabTempo-UEM).

1 Pierre Nora, “O retorno do fato”. In: Jacques Le Goff e Pierre Nora, História: novos problemas, Livraria José Alves, Rio de Janeiro, 1976, p.182.
2 André Kaysel, “Regressando ao regresso: elementos para uma genealogia das direitas brasileiras”. In: Sebastião Velasco e Cruz et al. (orgs.), Direita, volver! O retorno da direita e o ciclo político brasileiro, Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2015, p.49-73.
3 Gabriel de Barcelos, “O conservadorismo moral como reinvenção da marca MBL”, Le Monde Diplomatique Brasil, out. 2017. (Ler mais na pág. 4.)
4 Daniel Aarão Reis Filho, “O colapso do colapso do populismo: acerca de uma herança maldita”. In: Jorge Ferreira (org.), O populismo e sua história: debate e crítica, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2001, p.344.

terça-feira, 28 de março de 2017

O Brasil e a direita loira Shopping Center, por Ricardo Cavalcanti-Shiel




Crônica de um domingo 26 de março em Campinas, entre consumismo obsessivo, a bolha indie de Barão Geraldo e 500 manifestantes em estilo fitness, porém um tanto desconcertados

Ato "contra a corrupção" em Copacabana: como em Campinas e em todo o Brasil, baixo comparecimento, desorientação política e definição social clara

Ato “contra a corrupção” em Copacabana: como em Campinas e em todo o Brasil, atos do MBL e “Vem pra Rua” tiveram baixo comparecimento, desorientação política e presença notável de pessoas loiras (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)


Por Ricardo Cavalcanti-Schiel - no Outras Palavras
Pequenos grupos políticos mais caracteristicamente de direita no Brasil (a saber: o Movimento Brasil Livre, o Vem Pra Rua e o Revoltados Online) convocaram para este domingo, 26 de março, manifestações públicas nas cidades brasileiras. Passado um ano das massivas manifestações puxadas pelos agentes desse espectro político, pedindo a destituição da então presidente Dilma Rousseff, não se sabe agora exatamente a que fim essa nova manifestação domingueira foi convocada. A suspeita sobre sua motivação recai principalmente sobre o possível desejo de marcar posição e mostrar a cara, principalmente agora que o governo cuja instalação essas forças patrocinaram parece estar contra as cordas em quase todas as frentes institucionais e políticas. Se a intenção era mostrar a cara, então ela apareceu de forma bastante marcada, e não foi necessariamente pela escala multitudinária das manifestações anteriores.
Campinas é uma cidade de grande porte do eixo da indústria de alta tecnologia do Estado de São Paulo. É uma cidade com uma portentosa classe média, eloquentemente avessa ao cultivo cultural e fã incondicional de shopping centers. Em Campinas vive-se fundamentalmente para consumir. A “vida social” ― e, pode-se dizer, pública ― é toda ela marcada por esse vetor simbólico imperativo, e mesmo as oportunidades em que as pessoas se reúnem são irremediavelmente vincadas, seja no seu motivo geral seja no conteúdo do diálogo entre as pessoas, pelo imperativo de consumir e, colateralmente, de ostentar, instaurando uma gramática da distintividade social ― na acepção que lhe deu o sociólogo francês Pierre Bourdieu ― que obedece a uma regra matemática bastante simples (e até obsessiva): quanto maior o poder aquisitivo, maiores as exigências de gourmetização do consumo. É difícil encontrar, em uma cidade como Campinas, algo que escape dessa lógica arrasadora.
Alguém poderia eventualmente lembrar que essa é também a cidade sede da segunda mais importante universidade do país, de modo que as coisas podem não ser exatamente assim. Acontece que, dos tempos do cenário do Feliz Ano Velho (final da década de 70), do Marcelo Rubens Paiva, para cá, a Unicamp se tornou um quisto acantoado em sua própria redoma social, e seus estudantes foram se refugiar em um distrito geograficamente isolado da cidade, o mundo de Barão Geraldo, onde cultivam, eles também, uma espécie de gourmetização “indie”, na sua pequena ilha de “estilo” ― evocando a distinção consagrada pelo arquiteto Anatole Kopp, entre “causa” e “estilo” ― alheia ao mundo ao redor e, quando muito, fustigada pela pontual mas continuada e exasperante violência urbana (que não distingue vítimas).
Por todas as suas características, Campinas pode, com certa facilidade, ser colocada no polo privilegiado do capitalismo avançado de enclave, com suas características contradições no que respeita à lógica de maximização da produção de necessidades ― insatisfeitas, evidentemente, porque num mundo onde só existem necessidades (de consumo), a satisfação é algo logicamente inalcançável ― e a manutenção de um exército (sempre tensamente contido) de serviçais.
Neste domingo, aqueles grupos políticos antes mencionados mais uma vez quiseram sair às ruas, naquele que para eles parece ser o seu condomínio natural e de direito: a Alphaville (no sentido do filme de Godard) da classe média paulista.
Há um ano atrás, a praça que leva o nome da mais relevante personalidade histórica campineira (a segunda é o barão do café e presidente oligárquico da República Velha, Manuel de Campos Sales), o compositor oitocentista Antônio Carlos Gomes ― ironicamente um nome do mundo da cultura ―, estava de tal forma abarrotada de gente na concentração para a manifestação contra Dilma Rousseff que qualquer central sindical sonharia em repetir a façanha (sem nunca ter se atrevido a isso). Naquele momento, os carros de som dos grupos de direita pediam cuidado com as plantas e anunciavam que a Praça Carlos Gomes tinha que ser tratada como (seu) patrimônio histórico. Eles pareciam ébrios de triunfo. Alguns meses depois, a mesma praça serviria de locação para as cenas iniciais da atual novela das nove horas da Rede Globo. Neste domingo, no entanto, em comparação com o que se passara um ano antes, o cenário poderia ser descrito como melancólico.
Ao deixar o ponto de concentração, a manifestação se estendia por não mais que dois quarteirões de uma rua estreita. Provavelmente não mais que 500 pessoas. Vestidas majoritariamente em estilo fitness e casual esportivo, elas deixavam bem marcado o ambiente relaxado de lazer domingueiro. Esse, obviamente, não é o mundo do trabalho; muito menos o da necessidade (e, por extensão, o do desemprego, da precariedade, do medo e das carências infraestruturais). Esse é o mundo dos abastados e despreocupados. Para eles, a “corrupção” é uma espécie de prurido, de brotoeja, uma micose que deve ser curada para que eles possam usar mais comodamente seus trajes esportivos.
Nesse domingo, ao menos em Campinas, os manifestantes também deixaram de lado, em certa medida, o amarelo CBF das camisetas de outrora para dar lugar a um inusitado e massivo verde-bandeira, como se tivesse sido minuciosamente planejado por um carnavalesco; a mesma cor, aliás, de uma multidão de cartazes impecavelmente bem impressos com o dizer “fim do foro privilegiado”. Em termos visuais, esse se tornava, portanto, o mote central da manifestação. Algum desavisado poderia concluir que se tratava de uma manifestação contra o velho e oligárquico establishment político (o mesmo a quem essas mesmas forças alçaram ao monopólio completo do governo, para que fizesse o “serviço” que dele se esperava); establishment este, teoricamente em conluio com as cortes para livrar-se da punibilidade judicial que o assombra. Não fosse contra ele, essa agora não seria mais que uma manifestação movida por razões estritamente… “processuais”. É difícil concluir se esse apego à picuinha foi o fator determinante do esvaziamento da manifestação. (Atenção! Isto pode ser uma ironia!). Mas o fato bastante óbvio é que não havia uma mensagem contundente. Pela primeira vez, talvez, uma manifestação política evocava mais silêncios que consignas. No fim das contas, os manifestantes pareciam marchar para esconder aquilo que eles não diziam ― ou que tinham vergonha de dizer.
Evidentemente, não se marchou pelo “fim do foro privilegiado” (muito menos pelo fim dos privilégios…). Os dois carros de som (um ao início e outro ao final do grupo de manifestantes) tonitruavam as invectivas espumantes que vêm caracterizando o estilo discursivo da direita desde o advento da Internet. Nesse quesito, a palavra de ordem era mais direta, pragmática e sedutora para os seus partidários: “Lula na cadeia!”. Ao que parece, o zelo “processual” dos nossos manifestantes lhes faz se sentir no direito de ocupar o lugar (ao menos de consciência transcendente) do Judiciário. Pérolas de adolescência política como essas eram pronunciadas por “puxadores” de óculos escuros, com pinta de garotões de academia, fazendo uso de uma prosódia anabolizada pelo estilo de um Galvão Bueno. Parecia até que por pouco, por muito pouco mesmo, não havia garotas do layout “panicat” no alto dos carros de som.
Além do mote visual do “fim do foro privilegiado”, os carros de som puxavam também os motes auditivos do “não ao voto em lista fechada” e do “em defesa da Lava Jato”. O primeiro parecia mais uma dessas picuinhas esvazia-manifestação. O segundo apelava para a força de um ícone messiânico que cada vez mais parece ter pés de barro e que, com as águas de outros marços que virão, pode definitivamente vir a se conformar a seu destino de pantomima.
A vacuidade das mensagens políticas deliberadas produziu, assim, um efeito curioso: a verdadeira mensagem política passou a ser aquela que estava implícita, que não era outra que simplesmente a presença visível dos manifestantes domingueiros em trajes esportivos: a presença dos abastados e despreocupados. Nesse sentido, não parece ter sido tanto uma manifestação, mas antes um desfile; um desfile, talvez, para mostrar uma cara mais verdadeira e expressiva da direita. Se é verdade que nos últimos anos a direita vem cada vez mais ocupando o lugar da especificidade no cenário político brasileiro, por oposição ao lugar da generalidade, da “normalidade”, que antes ocupava, parece que agora, cada vez mais, ela tem uma cara bem delineada.
O caso pontual de uma manifestação como esta de domingo, tomado aqui a partir de uma cidade como Campinas, pérola do pujante interior paulista, parece ter escancarado esse regime de visibilidade. Qualquer um que se detivesse em assistir à manifestação poderia estimar com relativa facilidade que a idade média dos manifestantes ficava na casa dos 50 anos. Havia um certo número de pessoas mais jovens, mas havia sobretudo uma grande massa de pessoas acima dos 60 anos. Um desses senhores trazia no peito um papel impresso com o dizer “intervenção militar já!”. A aritmética do aspecto etário com o reconhecimento de certas visões de mundo pode oferecer uma conclusão singela: não eram apenas idosos em uma manifestação como essa; eram efetivamente as viúvas da ditadura.
Outro elemento visual impactante, mesmo para um lugar do interior de São Paulo (talvez não o fosse no interior de Santa Catarina), é que raramente uma manifestação parece ter reunido tanta gente loira. Não deixa de ser um recorte fisionômico bastante inusitado da população brasileira, para que compareça em tal grandeza de amostragem numa manifestação política. Já foi o tempo em que a direita pintava o cabelo de acaju. Sem querer ensejar preconceitos ou estereótipos, mas apenas pelo intrigante do impacto visual: o que teria tornado a direita tão loira?
Em número reduzido, decepcionante para eles mesmos talvez (sobretudo depois das gloriosas manifestações massivas do ano passado), muitos manifestantes pareciam, desta feita, movidos por certa exasperação. Vendo um transeunte caminhar no sentido contrário da marcha, um dos manifestantes fez-lhe gestos incisivos de que era para o outro lado que se deveria caminhar. O manifestante parecia notavelmente contrariado. Mais atrás, alguns porteiros saíam dos prédios em que trabalhavam, em pleno domingo tão ciosamente (por outros) destinado ao lazer. Um deles, não se sabe por que impulso, chegou a comentar com algumas pessoas alheias ao acontecimento: “O Lula vai ganhar no primeiro turno!”

Ricardo Cavalcanti-Schiel

Antropólogo (mestre e doutor nessa área), pesquisador, viajante, cinéfilo, melômano.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Fernando Brito: O significado do Fracasso do MBL-Vem pra Rua


Do Tijolaço:

vazio

A Folha noticia na primeira página , com indisfarçável tristeza, que “Atos a favor da Lava Jato levam menos gente às ruas”.
Dentro, uma grande e competente turma de repórteres tem, no máximo, 60 linhas para explicar que não houve cálculo da quantidade de pessoas presentes, exceto pelos organizadores, que as estimaram em 15 mil.
Como o boi sempre engorda com o olho do dono, dê-se por 5 mil e estará de bom tamanho.
A matéria registra que no dia 13 de março de 2016, os “coxinhas” reuniram 500 mil, nas precisas contas do Datafolha.
A edição, piedosa, compara as fotos da Paulista de ontem com a de dezembro, que já não ia bem das pernas.
Dois anos de curso primário bastam para ver que, de cada 100 daquela grei, apenas um foi brincar de “super-Moro”.
Não é uma variação casual, está cheia de significados a interpretar, embora ninguém o faça nos jornais de hoje.
Exceto, claro, na própria Folha, que chamou para fazê-la justamente o agora dissidente rotweiller da direita impixista, Reinaldo Azevedo, que as classifica como expressão de uma “igrejinha piromaníaca”.
Não é preciso muito esforço para perceber-se quem são os santos desta seita e que são, por isso, os grandes derrotados na política a que se aventuraram: o Ministério Público e Sérgio Moro, este que há dias foi para internet dizer que contava com o apoio de “talvez a totalidade da população”.
É inevitável que as águas dos acordos políticos para deter o incêndio da política vão avançar no refluxo da maré coxinha.
O efeito dos que fazem como faz hoje Ricardo Noblat  prega que “Só um expurgo político salvará o país” – não me lembro de algum período democrático marcado por expurgos, coisas muito frequentes em época de Hitler, Mussolini e Stálin – é um tiro pela culatra.
Em meio ao rodízio de pizzas, pretender um “expurgo seletivo” sobre Lula e o PT levará o país a um clima de confronto generalizado, ao qual estabilidade alguma pode sobreviver.
A igrejinha piromaníaca – na qual se batizou, com gosto, o sr. João Dória, com seu discurso “Marcelo Madureira” – conduzida por “santos” truculentos e bem pagos, deveria ter aprendido com o que ela própria fez na primeira eleição direta pós-ditadura, quando encontrou em Color um possível dique contra a história, ali representada por Lula e Brizola.
Deteve-os, é verdade, com os métodos globais que se conhece, mas a que custo!
A moralização que se prometia virou o que se assistiu.
Reinaldo Azevedo, que sabe que o poder importa mais que o discurso, este que se ajeita conforma o freguês, afirma em seu texto: “a demonização da política, conduzida pelo MPF e pelo candidato Rodrigo Janot, acabaria por retirar do PT o papel de protagonista do petrolão. E cravei: a direita xucra ressuscitará as esquerdas “.
Na esteira da Paulista vazia, Brasília vai começar a se mover com mais desenvoltura. E seu processo de “autoanistia” complica o que era sua aparentemente única saída: tirar, pela criminalização promovida pelas igrejinhas pirotécnicas, Lula da disputa eleitoral.

Esmael Morais: Os demônios de Temer e o fracasso dos protestos de domingo. dia 26 de março, da extrema-direita



A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) sustenta em sua coluna desta segunda-feira (27) que os entreguistas começam a se apavorar com a reação a tanta truculência junta. “Não tem como enganar a todos todo o tempo”, diz ela ao registra o fiasco das manifestações deste domingo (26) convocadas pelos extremas-direitas MBL e Vem Pra Rua.



Do Blog do Esmael Morais:


Os demônios de Temer e o fracasso dos protestos de domingo
Gleisi Hoffmann*
O governo está acuado em sua perversidade, ilegitimidade e fraqueza moral. A cada dia que passa o projeto inaceitável de Michel Temer de acabar com direitos essenciais dos cidadãos enfrenta pressão crescente das ruas, de instituições, do Judiciário e até mesmo da base aliada no Congresso.
Para se salvar, Temer recorre ao que lhe é possível, inclusive as manobras casuísticas, como a anunciada decisão de excluir servidores públicos estaduais e municipais da proposta de reforma da Previdência. Neste caso, ele procura cinicamente jogar para prefeitos e governadores o desgaste de medida tão impopular. Tenta, dessa forma, preservar o que está lhe escapando das mãos graças ao repúdio da sociedade.
Mas mesmo acossado, o presidente que articulou o golpe não se cansa de encher seu caldeirão de maldades, como acabamos de ver com a aprovação do projeto que introduz a terceirização ilimitada. A felicidade dos adeptos do ultraliberalismo, no entanto, está indo por água abaixo. É só ver o que acontece no país.
A grande virada contra essa onda de atentados ao povo começou em 08 de março com a mobilização das mulheres em todo o Brasil contra a Reforma da Previdência. Um dos “8 de março” mais bonitos e politizados de que já participei. No dia 15 de março mais de um 1 milhão de brasileiros foram novamente às ruas de praticamente todas as capitais gritar contra a política de desmonte de Michel Temer. O mais bonito disso tudo é que quem protestava não eram apenas os militantes da esquerda. Não. Eram pessoas que têm consciência plena do que significarão essa reforma da Previdência e o ataque a outras conquistas. Foi simplesmente um dia histórico.
O que aconteceu em 15 de março é, até aqui, o ponto alto de uma realidade que se torna cada vez mais evidente: os entreguistas começam a se apavorar com a reação a tanta truculência junta. Os próprios parlamentares aliados resistem em aceitar mudanças tão drásticas na Previdência. Para se ter uma ideia, o projeto da reforma enviado pelo governo recebeu 164 emendas na comissão especial da Câmara dos Deputados, a grande maioria apresentada pelos partidos que apoiaram o golpe.
Essa resistência ficará mais clara ainda pelo fracasso das mobilizações do Vem Pra Rua e do MBL neste último domingo. Convocaram o povo a apoiar as reformas, principalmente a da Previdência, e a Lava Jato. Não foram correspondidos. Não tem como enganar a todos todo o tempo. O povo brasileiro está vendo que o golpe foi contra seus direitos!
Se a proposta da Reforma da Previdência chegar ao Senado – o que pode não acontecer, devido ao claro declínio político de Temer –, a reação será mais intensa. Nós da oposição não daremos descanso a essa gente. O senador Paulo Paim (PT), por exemplo, conseguiu aprovar a criação de uma CPI para investigar a real situação de toda a Seguridade Social. Será que ela é mesmo deficitária, como prega o governo?
Recentemente, outro episódio reforçou o combate às ações dos que tomaram o poder. A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal, encaminhou ao Congresso uma Nota Técnica sobre a reforma da Previdência. Na avaliação do órgão, as medidas defendidas pelo governo, como o aumento para 65 anos da idade mínima para a aposentadoria, são uma afronta à Constituição e, por isso, passíveis de questionamentos judiciais.
Por sua vez, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou dura nota conclamando os católicos a se mobilizarem contra a reforma que pode deixar milhões de brasileiros sem aposentadoria e sem nenhum amparo social. A Igreja, como sempre, está do lado dos mais humildes.
Além do Ministério Público e da CNBB, a Justiça também começa a se pronunciar sobre a reforma da Previdência. A 1ª Vara Federal de Porto Alegre determinou a suspensão da propaganda oficial, que tem como mote “reformar hoje para garantir o amanhã”. Da mesma forma, a 21ª Vara Federal da Seção Judiciária do Distrito Federal deferiu, parcialmente, pedido de liminar formulado pela Federação Nacional dos Servidores da Justiça Federal e do Ministério Público Federal (Fenajufe) contra a União. Essas entidades questionam o suposto déficit da Previdência.
No caso da terceirização irrestrita, a reação foi imediata. A Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) afirmou que o último crime de Temer instituirá como regra a precarização do trabalho. Ao mesmo tempo, o Ministério Público do Trabalho (MPT) decidiu pressionar o governo a vetar totalmente esse projeto que simplesmente acaba com a CLT. Nossa bancada de oposição na Câmara dos Deputados já prepara ação judicial para impedir que a Lei aprovada semana passada não entre em vigor após sua sanção por Temer.
Desde a consumação do golpe, a impressão que tenho é que, com este governo, abriram-se as portas do inferno e os demônios estão se abatendo contra o povo brasileiro – demônios da reforma da Previdência, da reforma trabalhista, da terceirização. Os demônios que retiram direitos e conquistas e que querem que a vida do povo brasileiro vire realmente um inferno.
Mas podem ter certeza, o cerco a Michel Temer está se fechando e a pressão do povo e de diversos segmentos da sociedade vai exorcizar esse mal que ainda insiste em nos afligir, mas que terá vida curta.
*Gleisi Hoffmann (PR) é líder do PT no Senado.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O que a mídia faz questão de não dizer sobre o "mentor" das manifestações do dia 15, Rogério Chequer



  Ex-sócio de um biolionário citado pela Forbes e ex-residente nos Estados Unidos, Rogério Chequer,
que a grande mídia adestrada pinta como "referência nacional", e alvo de processo neste mesmo país, além de ter tido o nome citado pelo Wilileals em 2012 e estar, apesar de se dizer democrata, sempre ao lado do PSDB e icentivando o ódio aos manifestantes que parecem ter alguma ligação com a esquerda.

Vejamos, sobre o novo "muso" da direita, reportagem retirada do Pragmatismo Político, com citações e fotos do Wikeleaks, Veja, Institutional Investitor, etc:

O que a mídia não disse sobre Rogério Chequer, o líder das manifestações


  Tratado como “referência nacional” pela mídia brasileira, Rogério Chequer enfrenta processo nos EUA – país onde vivia até poucos anos atrás, foi sócio de um bilionário listado pela Forbes e teve seu nome revelado em arquivo secreto do Wikileaks. Apresentado como líder da moralidade e acostumado a posar ao lado de políticos como José Serra e FHC, Chequer tem muito a explicar...

Rogério Chequer está sendo tratado como o novo herói de boa parte da imprensa brasileira. Ganhou espaço nas páginas amarelas da revista Veja, e, no programa Roda Viva da TV Cultura, comandado por Augusto Nunes, colunista de Veja, encarou perguntas tão confortáveis que parecia haver ali um cenário previamente combinado entre entrevistadores e sabatinado.
Sem se dar por satisfeito após ler a entrevista de Chequer na Veja e assistir ao seu Roda Viva, o jornalista independente Fernando Brito descobriu, com uma breve pesquisa, coisas que os profissionais dos supracitados meios de comunicação não quiseram vasculhar ou fingiram não se interessar.
“Chequer vivia, até poucos anos atrás, nos Estados Unidos. Lá era sócio de uma empresa chamada Atlas Capital Manegement, que geria fundos de investimentos junto com David Chon e Harry Kretsky. Apenas um dos fundos, o Discovery Atlas Fund (do qual Chequer também era sócio), tinha US$ 115 milhões (R$ 360 milhões) em ativos”, conta Brito. As informações são do Institutional Investitor.
rogério chequer
Chequer, não se sabe a razão, deixou a sociedade que cuidava de fundos milionários nos EUA e voltou ao Brasil para se tornar sócio dos primos numa agência especializada em produzir apresentações de ‘power point’. É sabido, porém, que o líder dos atos anti-Dilma é réu em um processo na Corte Distrital do estado americano de Connecticut, aberto em 2012 pelo seu ex-sócio Robert Citrone (dono da Discovery Atlas), um bilionário que integra, inclusive, a lista dos homens mais ricos do mundo da Forbes.
Fernando Brito conta que a curiosidade sobre a trajetória de Chequer surgiu naturalmente, já que os grandes veículos de comunicação lhe concederam o título de nova celebridade política.
“Ele [Chequer], como qualquer pessoa, tem o direito de se manifestar. Mas quando o tornam uma figura pública, uma “referência nacional”, o que ele faz, fez e qual é a sua trajetória passa a interessar e é dever dos jornalistas informar, salvo se não tiverem interesse em saber de onde vem o personagem que promovem nacionalmente”, afirma.
chequer rogério vem pra rua

Wikileaks e Stratfor

Brito foi além, e no último dia 28 de março descobriu que o nome de Chequer consta na lista da empresa de inteligência global Stratfor (também chamada de CIA of Shadow) – o arquivo foi vazado pelo Wikileaks, que teve acesso a mais de 5 milhões de e-mails confidenciais da empresa. Rogério Chequer aparece no arquivo identificado com a companhia “cyranony”. Seu nome está na 13ª linha do arquivo, que pode ser baixado diretamente do site do Wikileaks aqui.
“Existe, de fato, uma companhia Cyrano NY, LLC, registrada como “companhia estrangeira” no Estado de Delaware, um paraíso fiscal dentro do território americano, e assim reconhecido até pela Receita Federal brasileira”, diz Fernando Brito.
Como já noticiou Pragmatismo Político em diversas oportunidades, a Stratfor foi acusada de envolvimento em tentativas de golpes de estado em vários países e atua fortemente no setor de manipulação de interesses estratégicos. Um dos e-mails fala da insatisfação da Stratfor com a rejeição do ex-presidente Lula aos caças norte-americanos e sugere uma relação da empresa com um grande jornal brasileiro.
Conheça algumas históricas obscuras da Stratfor, reveladas pelo Wikileaks:
São ainda misteriosas as razões que fizeram Chequer abandonar uma aparente vida empresarial de sucesso nos Estados Unidos para regressar ao Brasil. Espera-se, no entanto, que o líder de um movimento que apregoa a “transparência” como bandeira principal explique-se publicamente.
“Não acusamos Chequer, embora ele, como figura pública que é, agora, talvez pudesse explicar o que fez desde que seus negócios saíssem de um estado glorioso que tinha como dono de um fundo de investimento nos EUA e viesse, em 2012, se tornar sócio dos primos numa agência de publicidade especializada em produzir apresentações de “power point”, questiona Brito.

Chequer e Olavo de Carvalho

Na última semana, o astrólogo Olavo de Carvalho, uma espécie de cardeal da extrema-direita brasileira chamou Chequer às falas. Pelo Twitter, Carvalho ironizou o líder do Vem Pra Rua, referindo-se a ele como “Chequer Semfunds”, “Talão de Chequer” e como alguém adepto à “paumolice tucana” (referência ao fato de o grupo ser ligado ao PSDB). O astrólogo estava insatisfeito porque Chequer e o Vem Pra Rua não haviam ainda assumido posições mais incisivas em defesa do impeachment da atual presidente.
rogério chequer fhc veja
Do lado esquerdo, Rogério Chequer aparece em foto com o ex-presidente FHC; à direita, aparece nas páginas amarelas da revista Veja (Reprodução)
Pouco tempo depois de ser repreendido, Chequer prestou esclarecimentos a Olavo – foi quase um pedido de desculpas. A conversa surtiu efeitos. Chequer quis provar que se despira do manto da “paumolice tucana” e, imediatamente, procurou o jornal O Estado de S.Paulo para anunciar publicamente uma redefinição de posições. Ficou decidido que ele e o Vem Pra Rua dariam sustentação oficial aos pedidos de impeachment.
O jornalista Fernando Brito, que também acompanhou o episódio, comparou a subserviência de Chequer diante de Olavo com o recuo de Marina após a pressão do pastor Silas Malafaia para que a ex-presidenciável do PSB alterasse pontos polêmicos do seu programa de governo.
rogério chequer josé serra
Rogério Chequer esteve na companhia do senador José Serra (PSDB-SP) durante toda a manifestação que pediu o impeachment de Dilma no último dia 15
“Note-se-lhe a firmeza de convicções e de caráter”, afirmou Brito, referindo-se à repentina mudança de posicionamento de Chequer depois da consulta com Olavo.

Futuro

Chequer deveria explicar por que saiu às pressas dos Estados Unidos, os motivos de sua pendência judicial e o fato de ser uma das possíveis fontes de informação da empresa americana de inteligência Stratfor – um braço privado da CIA que tenta aplicar golpes de Estado em países cujos governos não são simpáticos (leia-se, alinhados) à Washington. Não o fará, porém, se depender dos grandes conglomerados de comunicação do Brasil. Há algo em comum entre Chequer e a grande mídia brasileira: a falta de compromisso com o Brasil.
Pragmatismo Político