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quinta-feira, 21 de março de 2019
sábado, 25 de agosto de 2018
Bancada da Bíblia e Lógica de Ação Mercantil-Religiosa, por Fernando Nogueira da Costa
Do GGN:

“Se tem campanha na igreja
O candidato está errado
Seja na missa ou no culto
Está mal-intencionado
Aquele que pede seu voto
Em um momento sagrado
Campanha também não pode
Se for na televisão
Ou no programa de rádio
Da sua religião
Porque não se usa a fé
Pra ganhar uma eleição”
O Ministério Público Federal do Amapá começou campanha nas redes sociais com versos de cordel intitulado “Nenhuma Religião Combina com Eleição”. Tal advertência é necessária haja visto o papel conservador da bancada evangélica no Congresso Nacional.
Por exemplo, quando o presidente temeroso preparava uma ofensiva para conquistar votos a favor da reforma da Previdência, ele fazia uma articulação com lideranças de igrejas evangélicas como com o pastor-presidente da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em São Paulo. Temer recebeu também no Planalto o apóstolo fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus. O golpista buscava o convencimento dos fiéis por meio dos pastores, e sobretudo dos parlamentares comandados por esses líderes religiosos e integrantes da bancada evangélica na Câmara.
No início do ano, Fabio Murakawa (Valor, 15/01/18) informou os líderes de igrejas evangélicas e partidos ligados a elas tinham traçado uma estratégia para ampliarem suas bancadas na Câmara e no Senado a partir de 2019. O objetivo na eleição de 2018 é aumentar de 93 para cerca de 150 o número de deputados federais e quintuplicar, de três para 15, o total de senadores.
A estratégia, no caso do Senado, é lançar apenas um candidato por Estado, evitando dois candidatos evangélicos concorrerem entre si. Neste ano, 54 cadeiras estarão em jogo no Senado, duas por Estado. No caso da Câmara, também há a ideia de fazer uma espécie de “distritão evangélico”, com um ou poucos candidatos ligados às igrejas disputando votos em cada região, independentemente do “partido de aluguel”. Isto é visto como mais difícil de realizar se comparado à eleição ao Senado.
O conselho de pastores tem condição de mapear as regiões, para saber onde dá para eleger um ou dois deputados representantes de seus negócios. Um desafio é conquistar o eleitor evangélico das regiões Norte e Nordeste, ainda muito fiel ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Com uma bancada maior, os evangélicos pretendem defender ainda mais uma agenda conservadora: antiaborto, contra liberação das drogas e do jogo, e em prol do que chamam de “família natural”: casal heterossexual composto homem e mulher. Essa coordenação extrapartidária, também pode negociar apoio a um candidato a presidente, desde logo, em um eventual segundo turno. Caso eleito, cobrará o apoio.
Na economia, a preferência dos líderes evangélicos é pelo modelo neoliberal, adotado no governo golpista.
Conversas sobre a tática eleitoral começaram a se intensificar desde outubro de 2017. Participam representantes das igrejas batistas, além da Assembleia de Deus, Evangelho Quadrangular, Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, Mundial do Poder de Deus, Terra Nova, Fonte da Vida e Sara Nossa Terra, entre outras.
As articulações são costuradas pelo senador Magno Malta (PR-ES), golpista ex-candidato a vice-presidente de Bolsonaro. Conversam com membros da Frente Parlamentar Mista Católica Apostólica Romana. Eles têm agendas conservadoras em comum com a dos evangélicos. Outra frente de mobilização está na Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil (Concepab), presidida pelo bispo líder da Sara Nossa Terra.
Apesar da força adquirida na pauta conservadora do Congresso nos últimos dois anos, líderes religiosos e políticos da Frente Parlamentar Evangélica se acham sub-representados. Citam pesquisa Datafolha, em dezembro de 2016, ter estimado em 29% o total de evangélicos no país. O argumento é terem 28% a 33% de representatividade religiosa na população, mas serem ainda 15% do Congresso como este Poder Legislativo tivesse de representar a divisão religiosa da população! Confundem política e religião!
Consideram o problema da baixa representatividade mais agudo no Senado, onde o grupo ocupa apenas 3 das 81 cadeiras da Casa, além de Magno Malta, são evangélicos atuantes apenas um senador do PSDB-SE e outro do PRB-RJ, suplente do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), e, como ele, bispo licenciado da Universal. Os evangélicos demandam um político com perfil articulador no Senado.
Do grau de sucesso da negociação entre as diferentes igrejas depende o futuro de lideranças importantes, como o deputado Marco Feliciano (PSC- SP). Ele é um pastor da igreja Assembleia de Deus, conhecido por ter presidido a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Antes, em 2011, tinha publicado mensagens homofóbicas e racistas em seu Twitter sobre homossexuais e afro-brasileiros. Em sua trajetória como pastor, chegou a ser denunciado por estelionato pelo procurador-geral da República em 2009. O processo foi remetido ao STF em razão do foro privilegiado. Tem de manter isso, viu?
Como político oportunista contumaz, disse na maior cara-de-pau: – “Meu sonho é o Senado. Mas, se não houver uma boa articulação entre as igrejas, não vou trocar o certo pelo duvidoso”. Depois da campanha nos templos, ele foi eleito para a Câmara em 2014 com 398.087 votos, o terceiro mais votado em São Paulo.
Por que tanta sede pelo poder mundano e abandono do espiritual? As igrejas estão entre as maiores lavanderias de dinheiro sujo do país. Se os fiéis declarassem à Receita Federal o total de dízimos pagos por eles talvez ficasse mais difícil a lavagem. Mas o lobby evangélico a defende. O MP se ocupa só com a perseguição política a Lula.
Uma igreja poderá informar à Receita Federal ter recebido de dízimo qualquer valor desejado, ignorando a diferença com o valor de fato arrecadado dos “fiéis” tementes das pregações. De acordo do Lauro Jardim, de “O Globo”, as igrejas declararam à Receita em 2013 terem recebido em dízimo e doações R$ 17 bilhões, quase 24% a mais em relação a 2011. Quanto dessa quantia elevada teria sido lavagem de dinheiro?
Pelo fato de as igrejas desfrutarem de privilégios fiscais, a Receita Federal não arrecada nem expõe na internet o “faturamento” das igrejas. Não se sabe, por exemplo, quanto cada igreja obteve dos fiéis e de outras fontes, qual é o destino desse dinheiro, quais das igrejas foram submetidas a auditorias fiscais, etc.
Havia suspeita de determinadas igrejas lavarem dinheiro do tráfico de drogas e de políticos. Foi confirmada pela prisão pela PF (Polícia Federal), no dia 21/02/18, de dez pessoas suspeitas de colaborar com o tráfico de drogas administrado pela facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) na cidade de Itaquaquecetuba (Grande São Paulo). Entre os suspeitos, estavam um traficante do PCC e seu irmão, além de um pastor de uma igreja evangélica. O dinheiro do tráfico era juntado ao dízimo na igreja. Esta foi construída só para essa função.
Se um traficante de drogas e um politico corrupto quiserem lavar o dinheiro sujo, basta eles criarem uma igreja e declararem ter recebido um montante em dízimos de fieis inexistentes. Se existem, não doaram senão um percentual mínimo do registrado por um contador como dizimo. Não gera nota fiscal nem é declarado para imposto de renda, porque igrejas são isentas. A PF tem de saber como rastrear a procedência dos dízimos.
A bancada da bíblia visa principalmente salvaguardar a imunidade tributária aos templos, privilégio alvo de discussões e debates desde 2015, quando foi realizada campanha popular com petição pedindo o fim da isenção. De acordo com o art. 150, VI da Constituição Federal, é vedado à União, aos Estados, ao DF e aos municípios instituir impostos sobre templos de qualquer culto. Entidades religiosas não sofrem tributação e nem pagam impostos sobre aluguel de imóveis, bens possuídos e serviços prestados.
A justificativa para tal imunidade tributária seria o fato de as religiões serem consideradas como de interesse social e igrejas serem organizações sem fins lucrativos. Teoricamente, não comercializam produtos ou vendem serviços religiosos. Na prática, a fonte de renda das igrejas inclui, além do dinheiro recebido diretamente dos fiéis, a venda de bens e serviços, e os rendimentos financeiros com o capital acumulado.
Em um Estado laico não faz sentido dar imunidade tributária a uma parcela das instituições do Brasil apenas porque são religiosas. Qualquer organização usada como negócio para levar seus líderes ao enriquecimento pessoal, inclusive listados pela revista Forbes, deve ser tributada. Escândalos envolvendo organizações religiosas motivaram a ação coletiva pelo fim da imunidade tributária a templos de qualquer culto. Entendeu toda a importância dada à eleição de uma maior “bancada da bíblia”?
Fernando Nogueira da Costa - Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Brasil dos Bancos” (2012) e “Bancos Públicos no Brasil” (2016). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
domingo, 7 de janeiro de 2018
Do Le Monde Diplomatique, um artigo sobre a velha "nova" Direita brasileira
"(...) essa direita priorizou a internet e as redes sociais como campo privilegiado de atuação. Um campo funcional, pois, além de permitir um alcance maior de suas ideias, exige pouca necessidade de debates inconvenientes. Deixam seus apoiadores debater entre si em caixas de diálogo e exibir seus discursos de ódio a toda notícia, “meme” ou vídeo postado nas páginas ou canais do YouTube geridos por iniciativas como o Movimento Brasil Livre (MBL), Revoltados On Line, Vem Pra Rua, além de youtubers que têm ganho destaque entre os jovens como verdadeiros ídolos, rechaçando tudo que for ou parecer de esquerda ou progressista."
Artigo de Pedro Carvalho Oliveira
Desde 2013, movimentos da direita brasileira ganham espaço com sua retórica antiesquerdista e conservadora. Na internet, encontram terreno fértil para discursar muito e discutir pouco. Nessa prática, revelam as rupturas e as permanências da direita no país
Em “O retorno do fato”, Pierre Nora diz que um dos maiores desafios em analisar o presente estava na forma como os meios de comunicação em massa tratavam os fatos e os acontecimentos. O historiador francês se referia ao pós-Segunda Guerra Mundial, quando a compreensão desse conflito e de seus episódios brutais era urgente. Identificava como problemática a apresentação imediatista dos fatos noticiados por jornais e emissoras de rádio e os interesses dos editores, repórteres e jornalistas entrelinhados nas notícias, pois davam “ao discurso, à declaração, à conferência de imprensa a solene eficácia do gesto irreversível”.1 Seria responsabilidade dos historiadores, cientistas sociais, políticos, entre outros, duelar com exames superficiais e tendenciosos, buscando não só a “reversão do gesto”, mas também afundar na epiderme dos fatos. Nora não imaginava como esse problema se tornaria ainda maior com a internet e as redes sociais.
O investigador que se debruçar sobre as etapas da crise política brasileira desde 2013, a partir dos protestos de junho, vai se deparar com uma exorbitante quantidade de informações divulgadas na imprensa e nas redes sociais. Nos tempos dos smartphones e do 3G, qualquer um pode se converter em repórter amador a noticiar acontecimentos convenientemente. Esse investigador vai encontrar também, entre embates partidários rasos, disputas ideológicas intensas entre a esquerda e a direita. Nesse terreno, inevitavelmente trombará com movimentos e organizações de direita oscilando entre o liberalismo e o conservadorismo utilitário, para não falar do extremismo.
Após o arrefecimento das manifestações de rua, essa direita priorizou a internet e as redes sociais como campo privilegiado de atuação. Um campo funcional, pois, além de permitir um alcance maior de suas ideias, exige pouca necessidade de debates inconvenientes. Deixam seus apoiadores debater entre si em caixas de diálogo e exibir seus discursos de ódio a toda notícia, “meme” ou vídeo postado nas páginas ou canais do YouTube geridos por iniciativas como o Movimento Brasil Livre (MBL), Revoltados On Line, Vem Pra Rua, além de youtubers que têm ganho destaque entre os jovens como verdadeiros ídolos, rechaçando tudo que for ou parecer de esquerda ou progressista.
Algumas notícias compartilhadas por eles, como no caso do MBL, são produzidas por seus próprios idealizadores em seus jornais particulares, nos quais, com frequência, fazem uso de análises informativas unilaterais – próximas às que criticam nos meios midiáticos convencionais – sobre fatos orbitantes à política brasileira. Essas notícias acabam convencendo muitos de que trazem a mais inquestionável verdade, intocada da manipulação e da doutrinação ideológica universitária, presumidamente dominada por esquerdistas detentores de um conhecimento elitista. Por isso, suas notícias estão impregnadas pela pretensão de “história nunca contada” em defesa do povo. Vencer uma “guerra cultural” parece imprescindível para a chamada “nova direita”.
Copas modernizadas, raízes conservadoras
Vivemos um momento de profundo descrédito e perseguição aos profissionais da educação dedicados a disciplinas críticas como História, Sociologia, Geografia, entre outras. Ex-atores, músicos e youtubers, cujo conhecimento sobre as formas de operar tais disciplinas é extremamente tênue, têm sido aplaudidos por suas opiniões inflamadas sobre diversas questões sociais, enquanto professores são acusados de doutrinadores ao tentarem discorrer sobre elas. Projetos como o Escola sem Partido, em via de banir o debate plural e o pensamento crítico das salas de aula para favorecer a manutenção da ordem social vigente, se laqueiam como isentos, apolíticos e anti-ideológicos, quando na verdade defendem vieses políticos e ideologias bem definidos. Com isso, a direita conservadora tem bloqueado divergências e ampliado seus regimes de verdade, perseguindo um tipo de conhecimento dito elitista para substituí-lo por um novo, coerente com sua lógica.
As lideranças desses movimentos emergem do apoio que a imprensa e grandes corporações nacionais e internacionais deram às movimentações que conclamaram a população a se engajar em defesa do impeachment da presidenta Dilma Rousseff; um esforço para expor o PT como uma quadrilha que havia se assenhorado do país como se a corrupção endêmica reinante no sistema político, nas instituições públicas e privadas, perpassando toda a sociedade, fosse uma obra exclusiva do partido. Em paralelo, esses mesmos veículos, regra geral, destacavam a atuação do PT em casos de corrupção que vinham à baila e ao mesmo tempo omitiam o predomínio de membros de outros partidos em episódios semelhantes. Qualquer um que se posicionasse criticamente ao processo de retirada da presidenta do poder, compreendendo nisso a existência de mecanismos antidemocráticos, acabou sendo acusado de defender corruptos e políticas sujas.
Entre esses movimentos está o MBL, talvez o maior movimento civil da direita emergente de 2013. Suas propostas parecem desejar com maior veemência a criminalização e marginalização da esquerda em vez de propor e efetivar mudanças políticas. Isso pode ser visto nas dezenas de notícias semanais publicadas pelo noticiário digital Jornal Livre, cujas matérias são assinadas por muitos membros do movimento. Além disso, qualquer esboço de projeto ou pensamento progressista é execrado em sua página no Facebook, deleitando seus seguidores.
O MBL surgiu em 2014 como movimento apartidário, liberal e enredado na busca por tornar a direita cool, “descolada”. Sua linguagem jovial causa a impressão de novidade, pois a visão de mundo de seus líderes é exposta por meio de “memes”, postagens bem-humoradas, expondo aos cidadãos os conchavos revoltantes dos políticos. O “orgulho direitista” de seus adeptos se contrasta e se explica na história do próprio país, que durante 21 anos esteve submetido a um regime militar após o qual o termo “direita” ganhou conotações pejorativas.2 Em reação a isso, o movimento parece tentar dar novo fôlego à direita, apostando tudo em oferecer principalmente aos jovens uma noção de subversão antes monopolizada por seus antagonistas.
A rebeldia com a qual o MBL se reveste é guiada por uma retórica visceral, emocionada, incidindo diretamente na tradição brasileira de pensar a política como gêmea siamesa da corrupção que busca sanar. No contexto em que surgiu, ajudou a personificar essa relação intrínseca na esquerda, como se o PT fosse seu maior representante, resultado de um conhecimento pouco profundo sobre esse espectro político. Essa retórica acaba por esconder suas alianças políticas, inclusive com personagens acusados de corrupção, encobre seus interesses partidários e esfumaça sua penetração no jogo eleitoral. Porém, diante das evidências de seu nada sólido antipartidarismo, as posições do MBL têm mudado consideravelmente.
Vislumbrando a arena eleitoral, o MBL lançou candidatos e apoia outros. Tem, pouco a pouco, abandonado também sua postura liberal e encontrado no conservadorismo a catapulta para se lançar politicamente. Isso tem ocorrido em consequência das críticas de seus seguidores à sua nova dinâmica, pois esta vem contrariando sua proposta original. Somam-se a isso as denúncias feitas contra seus agentes envolvidos na manutenção de Michel Temer no poder. Buscando renovar a popularidade, apostaram no tradicional imaginário conservador brasileiro e apelaram à defesa da moral e dos costumes, em projetos como o Escola sem Partido e no bombardeio de expressões culturais específicas e manifestações do pensamento crítico.
Essa dinâmica tem sido seguida por outros movimentos que despontaram desde 2013: posturas de direita sob o véu do antipartidarismo, críticas ferrenhas às esquerdas e revanchismo ressentido em relação a elas. Embora suas nuances se transformem com o passar do tempo e o desenrolar da crise política, a internet continua sendo o campo no qual suas ideias se propagam com intensidade. Mas o MBL não está sozinho.
Arbustos densos, espinhos longos
O movimento Vem Pra Rua se tornou grande a partir de 2013. Seu nome foi retirado de um dos gritos emblemáticos das passeatas de junho, quando pautas se mesclavam e engrossavam um coro pouco coeso. Menos forte do que o MBL, não deixa de ser significativo para pensarmos o envolvimento da sociedade civil com a crise. Desejando manter a luta contra a corrupção iniciada nas ruas – orientada assim pela manipulação da grande mídia, quando na verdade essa luta teve origem em protestos populares pelo acesso ao transporte público –, a organização se diz suprapartidária e defensora dos direitos dos brasileiros.
Esse movimento diz que seu partido é o Brasil, rejeitando a política formal e bandeiras institucionais. Não se define como de direita, mas ataca as esquerdas com ímpeto. Critica todos os políticos, mesmo os não alinhados à esquerda, mas frequentemente o faz por meio de discursos moralistas e amplamente passionais. Sua cruzada anticorrupção atira todos os políticos num mesmo bojo, algo perigoso. Nessa empreitada, normatiza uma luta centrada na indignação do “cidadão de bem”, lesado por todos os políticos e sua imoralidade. Defende também o Poder Judiciário como o mais apto, junto ao povo, a gerir o país e afastá-lo da corrupção. Com isso, acaba sendo conivente com a atuação de seus mecanismos mais ostensivos como justificativa para “resolver a crise”. Assim, o Judiciário aparece como isento de qualquer interesse político, imparcial perante os dirigentes do país e seus partidos, algo passível de questionamentos.
De forma menos sofisticada, o Revoltados On Line segue uma linha de ação parecida. Surgiu como um blog e depois virou comunidade no Facebook, em que seus operadores abordam a corrupção política por meio de “memes” e postagens incendiárias sobre escândalos, a crise política e a criminalização dos envolvidos nela. Outros movimentos menos reconhecidos, mas relevantes, se esforçam em mostrar a intervenção militar como única salvação para o Brasil. O movimento Cruzada pela Liberdade se dedica a disputar a memória do golpe militar como única saída para o comunismo após a vitória das Forças Armadas em 1964 e dar à ditadura uma imagem vitimista, marginalizada pela esquerda, fruto da vitória do “marxismo cultural”. Para eles, apenas um regime como aquele pode dar ao Brasil rumos menos sombrios. O autoritarismo e o confronto violento contra as forças opositoras são aplaudidos pela maioria de seus seguidores.
Limpando folhas secas
Nos últimos anos, observaram-se avanços significativos de políticas e movimentos civis progressistas, ainda que eles continuem a encontrar barreiras sólidas na sociedade brasileira. Com esses avanços foi possível debater o machismo, o papel da mulher na sociedade, a violência contra os LGBTQ, a repressão policial, o racismo, entre tantas outras coisas capazes de pôr em xeque o funcionamento de um sistema no qual a equidade de direitos é tratada como privilégio. A chamada “nova direita” reage a isso protegendo o direito de ser contra essas políticas. Reage também à ideia de que o Estado brasileiro, tomado por forças esquerdistas, bolivarianas ou o que quer que fossem, havia supostamente financiado, com o dinheiro público, políticas para suprir o “vitimismo” das classes subalternas, disseminar uma cultura imoral e destruir os costumes tradicionais do brasileiro. Estrategicamente, essa direita, que de nova tem pouquíssimo, usa o conservadorismo para alçar voos políticos.
Desde meados do século XX, forças conservadoras reagiam negativamente à equidade, pois já era “uma reação instintiva, uma coisa epidérmica, uma náusea, um desgosto ver aquelas gentes simplórias, subalternas, ascender a posições de influência”.4 As permanências são visíveis dentro dessa visão de mundo. Os discursos sobre a necessidade de uma “mão firme” para eliminar a violência e a corrupção, já defendidos por Oliveira Viana desde os anos 1920, também continuam. Logo, quem é contra a mão firme odeia o Brasil. Quem é progressista é imoral. Quem é esquerdista é marginal. Quem defende os direitos humanos defende bandidos. Essa é a imagem reproduzida em redes sociais sobre os “inimigos da nação” e convertida em alvo de ódio. Sua reprodução se sustenta na substituição do conhecimento empírico pelo discurso energizante emocional, pelas notícias de procedência questionável, pela dinâmica da briga entre torcidas, pela perseguição. Em que momento da história isso já foi visto antes?
*Pedro Carvalho Oliveira é mestre e doutorando em História pela Universidade Estadual de Maringá, onde integra o Laboratório de Estudos do Tempo Presente (LabTempo-UEM).
1 Pierre Nora, “O retorno do fato”. In: Jacques Le Goff e Pierre Nora, História: novos problemas, Livraria José Alves, Rio de Janeiro, 1976, p.182.
2 André Kaysel, “Regressando ao regresso: elementos para uma genealogia das direitas brasileiras”. In: Sebastião Velasco e Cruz et al. (orgs.), Direita, volver! O retorno da direita e o ciclo político brasileiro, Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2015, p.49-73.
3 Gabriel de Barcelos, “O conservadorismo moral como reinvenção da marca MBL”, Le Monde Diplomatique Brasil, out. 2017. (Ler mais na pág. 4.)
4 Daniel Aarão Reis Filho, “O colapso do colapso do populismo: acerca de uma herança maldita”. In: Jorge Ferreira (org.), O populismo e sua história: debate e crítica, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2001, p.344.
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domingo, 28 de agosto de 2016
O golpe cínico desmoraliza o Brasil, por Marcelo Zero
"Mas o fato concreto, iniludível, é que o golpe já nasceu desmoralizado. A “assembleia geral de bandidos presidida por um bandido”, como bem a definiu Miguel de Sousa Tavares, deu o pontapé inicial no golpe com claro desvio de poder de seu presidente acusado de corrupção. O mundo inteiro reagiu com asco moral ao espetáculo dantesco."
Por Marcelo Zero, no Blog do Altamiro Borges
A corajosa e competente senadora Gleisi Hoffmann causou comoção e polêmica ao dizer, no plenário do Senado, que metade daquela Casa não tinha moral para julgar a presidenta honesta. Houve até embate com o presidente Renan Calheiros, que, numa tentativa pouco racional de defender a instituição, chamou o Senado de “hospício”.
Evidentemente, a Senadora Gleisi não fez uma crítica pessoal a ninguém. Ela fez uma crítica, inteiramente pertinente, ao processo do impeachment sem crime. Afinal, não há fraude com moral. Não há golpe ético.
E indivíduos éticos podem aderir a monstruosidades morais coletivas. A História está cheia de tragédias desse tipo. Assim, há aqueles que aderiram ao golpe por convicção, embora haja outros que o fizeram por puro oportunismo ou por motivos pouco republicanos.
Mas o fato concreto, iniludível, é que o golpe já nasceu desmoralizado. A “assembleia geral de bandidos presidida por um bandido”, como bem a definiu Miguel de Sousa Tavares, deu o pontapé inicial no golpe com claro desvio de poder de seu presidente acusado de corrupção. O mundo inteiro reagiu com asco moral ao espetáculo dantesco.
A cada dia que passa, o golpe se desmoraliza mais, daí a pressa dos golpistas em “liquidar a fatura”.
O episódio da Senadora Gleisi acabou encobrindo fato crucial a esse respeito. Na última quinta-feira, a arquitetura intelectual e técnica do golpe foi inteiramente desmascarada. O auditor do TCU, Antonio D´Ávila, acabou confessando, talvez por vaidade e certeza de impunidade, que ajudou a redigir a peça acusatória que o procurador do TCU, Júlio Marcelo, apresentou para ele mesmo julgar. É como se um juiz redigisse a peça acusatória para um procurador para que ele mesmo proferisse depois a sentença. Pior: esse processo fraudulento foi feito alijando-se a Secretaria de Recursos daquele órgão, instância que deveria ter se pronunciado sobre o assunto e que tinha opinião divergente dos arquitetos intelectuais do golpe.
Isso é gravíssimo. Houve clara violação da imparcialidade exigida de auditores e procuradores e do código de ética de conduta dos funcionários públicos. Assim, o golpe começou com desvio de poder, no campo político, e com claro desvio ético, no plano técnico.
O golpe está definitivamente desmoralizado, política e tecnicamente.
Porém, a mais grave imoralidade do golpe é a sua desonestidade intelectual.
Em sua narrativa cínica e mentirosa, o golpe apregoa que os governos de Dilma Rousseff promoveram uma “gastança”, maquiada por “pedaladas fiscais”, a qual precipitou o país na maior crise da sua história.
Mentira deslavada. Até 2014, os governos do PT gastaram menos do que arrecadaram, isto é, fizeram vultosos superávits primários. Ao contrário do que dizem, de forma mentirosa, as despesas primárias discricionárias em todos os níveis de governo permaneceram estáveis: foram de 4,7 % do PIB, em 2012, 4,8% do PIB, em 2013, e, de novo, 4,7% do PIB, em 2014. A dívida líquida da União também permaneceu estável, em torno de 34% do PIB. Já as despesas com pessoal e encargos, caíram de 4,6% do PIB, em 2009, para 3,9 % do PIB, em 2014.
Em 2015, com a crise instalada, o governo promoveu o maior ajuste fiscal da história do Brasil. Foram cortados nada menos que R$ 80 bilhões de despesas orçamentárias discricionárias, isto é, aquelas que podiam ser objeto de cortes. Mesmo assim, houve déficit. Por quê? Porque as receitas fiscais tiveram uma queda brutal de R$ 185 milhões.
Assim, a crise não foi provocada por “excesso de gastos” e, muito menos, por “pedaladas” e créditos suplementares. O déficit não provocou a crise. Foi a crise que provocou o déficit, pelo encolhimento brutal das receitas. Na realidade, alguns importantes economistas, como Luiz Gonzaga Belluzzo, argumentam que, se houve erro de Dilma em 2015, não foi um inexistente descontrole de gastos, mas, ao contrário, um excesso de responsabilidade fiscal. Não foram as pedaladas. Foi a grande “despedalada” de R$ 80 bilhões que teria contribuído para a queda da atividade econômica, num ambiente de redução do consumo e dos investimentos privados.
Mas a queda brutal da receita e da atividade econômica, que frustrou o grande esforço fiscal realizado, foi devida, em sua maior parte, a um decisivo fator que precipitou e aprofundou a crise: o terceiro turno e o golpismo. Foi a crise política gerada pelo terceiro turno e pelo golpismo que impediu que as medidas econômicas tomadas em 2015 surtissem o efeito desejado. Deve-se ter em mente que ajustes econômicos só funcionam devidamente num ambiente político estável.
Não foram as “pedaladas fiscais” que levaram o país à crise. Foram as pedaladas contra democracia.
Essas pedaladas desmoralizantes foram complementadas agora pela maior fraude eleitoral da história. O interino, que foi eleito, como vice-presidente, com o mesmíssimo programa de governo da presidenta, agora tenta implantar um plano que é o inteiro oposto do programa aprovado nas urnas por mais de 54 milhões de brasileiros. Isso é ético? Isso é democrático? Ou isso é uma gigantesca fraude? Isso não significa dar um golpe baixo nos eleitores? O pior é que essa gigantesca e imoral fraude poderá, de acordo com a PEC 241, perdurar por 20 anos.
São essas pedaladas contra a democracia e contra a vontade popular que mais desmoralizam os golpistas, as instituições e o Brasil perante o mundo. O respeito formal às regras não substitui o respeito à vontade do povo. E não há decoro parlamentar que possa encobrir a suprema vergonha de se condenar uma inocente.
O que começa mal, termina mal. O que começa sem ética, termina coberto de vergonha.Todos os jornais internacionais comentam a vergonha que é o golpe brasileiro.
Assim, não é apenas Câmara, o Senado e a classe política que estão sem moral. O golpe nos converteu numa republiqueta de bananas. O golpe desmoralizou o Brasil.
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sábado, 18 de junho de 2016
Todas as denúncias contra os movimentos conspiratórios hipócritas pró-impeachment
Denúncias e fatos que mostram que o MBL, que recebeu dinheiro do PMDB e dos irmãos Koch dos Estados Unidos, está sim ao lado dos corruptos
Todas denúncias contra os movimentos pró-Impeachment, que levaram ás ruas milhares contra Dilma Rousseff, em nome de uma “moralidade” que lhes falta, contra “corrupção” das quais eles sequer ligam, pois se misturam a corruptos. Pois vamos ás denúncias com links dos portais de notícia.
1- PMDB deu carro e até casa para o MBL (matéria no link )

Ex-membro do MBL, denuncia o grupo, que recebeu casa e carro do PMDB/Cunha
A mais recente, em que ex-membro da coordenação do MBL, Brauzio Faolo, afirma e descreve como o PMDB/Cunha, deram casa e até carro para o Movimento Brasil Livre
2- Áudios comprovam que o MBL recebeu financiamento de partidos como PMDB, PSDB, DEM, SDD (matéria aqui)
Reportagem do UOL, causou verdadeiro abalo no Movimento Brasil Livre que ficou conhecido como Movimento Bandido Livre, a reportagem conta com áudios vazados e com uma investigação do repórter que encontrou líderes nacionais do MBL em jantares com Cunha, quando o mesmo estava para ser condenado á prisão.
3- Líder do MBL, Renan Santos tem mais de 60 processos na Justiça e deve milhões em indenizações trabalhistas (matéria aqui)

60 processos e dívidas milionárias com processos trabalhistas.
A ficha do líder nacional do MBL é pesadíssima, antes mesmo de ingressar na política, veja o trecho da reportagem do UOL:
” Ele é réu em, pelo menos, 16 ações cíveis e mais 45 processos trabalhistas, incluindo os que estão em seu nome e o das empresas de que é sócio. Ele nega irregularidades.
As acusações incluem fechamento fraudulento de empresas, dívidas fiscais, fraude contra credores, calote em pagamento de dívidas trabalhistas e ações de danos morais, num total de R$ 4,9 milhões. (…)”
5- Envolvimento e recebimento de dinheiro de empresas estrangeiras, como dos irmãos KOCH, da área de Petróleo
Denúncia vinculada no jornal do canal americano, Real News, mostra o financiamento do MBL, por grupos estrangeiros como dos irmãos KOCH, que estão interessados na privatização da Petrobrás e ganham com saída de Dilma, por motivos óbvios, a Privatização da Petrobrás.
6-MBL defendeu sim Eduardo Cunha sim! (matéria aqui)

Kim sorridente ao lado do seu heroí.
O Jornal mineiro, O Tempo, desmascarou os movimentos pró-Impeachment, que afirmaram nunca terem apoiado Cunha, muito pelo contrário, um pouco antes do fim de 2015, os mesmos até defendiam Cunha como heroí, Kim Kataguiri por exemplo, afirmava que algumas acusações contra Cunha podiam ser falsas.
7- Cunha, era o “chefe” do MBL, 10 fatos que mostram que o MBL era “comandado” por Cunha (matéria aqui)

Cunha ao lado dos coordenadores nacionais do MBL, entre eles Fernando Holliday, dezembro de 2015, “confraternizando”.
O site Cafezinho, mostrou 10 fatos que mostram que Cunha, direciona e comanda as pautas do MBL, entre elas pedir o Impeachment do Ministro Marco Aurélio do STF, após briga com Cunha, acampou na frente da casa de Cunha para pedir Impeachment já, bateu pouco ou nada em Cunha nas manifestações entre outras.
Essas são apenas algumas, em breve postaremos mais.
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segunda-feira, 23 de maio de 2016
Golpistas Podres representantes das Elites, da Hipocrisisa Coxinha e do pior Bandidismo: Romero Jucá diz que acertou com Supremo ‘parar a Lava Jato’ com saída de Dilma
"Jucá disse na conversa gravada com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, que um eventual governo Michel Temer (PMDB) deveria construir um pacto nacional “com o Supremo, com tudo” para delimitar e parar a Lava Jato."
Do Blog do Esmael Morais:

Do Blog do Esmael Morais:
Jucá diz que acertou com Supremo ‘parar a Lava Jato’ com saída de Dilma
23 MAIO 2016 - 09:10
O ministro interino do Planejamento, Romero Jucá (PMDB-RR), foi flagrado em conversas “não republicanas”, em março, nas vésperas da votação do impeachment, nas quais confessa que acertou com ministros do STF derrubar a presidente eleita Dilma Rousseff (PT) para barrar as investigações da operação Lava Jato.
De acordo com reportagem da Folha (aqui e aqui), Jucá disse na conversa gravada com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, que um eventual governo Michel Temer (PMDB) deveria construir um pacto nacional “com o Supremo, com tudo” para delimitar e parar a Lava Jato.
Jucá e Machado, nos diálogos, dizem temer o juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba, e só isentaram o ministro Teori Zavascki a quem classificaram de “um cara fechado”.
Eles ainda insinuam que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) teria comprado a eleição para a presidência da Câmara (2001-2002). “O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele [Aécio] ser presidente da Câmara?”, disse Machado, para afirmar que “o primeiro a ser comido vai ser o Aécio” pela Lava Jato.
Na prática, o ministro interino entregou um conluio entre oposicionistas e ministros do Supremo contra Dilma.
Senador licenciado, Juca poderá ter o mesmo fim do ex-senador Delcídio do Amaral (sem partido- MS), que foi preso e perdeu o mandato depois de incriminar ministros do mesmo Supremo.
Jucá é alvo de um inquérito no STF derivado da Lava Jato por suposto recebimento de propina.
As conversas somam 1h15min e estão em poder da PGR (Procuradoria-Geral da República).
LEIA TRECHOS DOS DIÁLOGOS
Data das conversas não foi especificada
SÉRGIO MACHADO – Mas viu, Romero, então eu acho a situação gravíssima.
ROMERO JUCÁ – Eu ontem fui muito claro. […] Eu só acho o seguinte: com Dilma não dá, com a situação que está. Não adianta esse projeto de mandar o Lula para cá ser ministro, para tocar um gabinete, isso termina por jogar no chão a expectativa da economia. Porque se o Lula entrar, ele vai falar para a CUT, para o MST, é só quem ouve ele mais, quem dá algum crédito, o resto ninguém dá mais credito a ele para porra nenhuma. Concorda comigo? O Lula vai reunir ali com os setores empresariais?
MACHADO – Agora, ele acordou a militância do PT.
JUCÁ – Sim.
MACHADO – Aquele pessoal que resistiu acordou e vai dar merda.
JUCÁ – Eu acho que…
MACHADO – Tem que ter um impeachment.
JUCÁ – Tem que ter impeachment. Não tem saída.
MACHADO – E quem segurar, segura.
JUCÁ – Foi boa a conversa mas vamos ter outras pela frente.
MACHADO – Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez [autorizou prisões logo após decisões de segunda instância], vai todo mundo delatar.
JUCÁ – Exatamente, e vai sobrar muito. O Marcelo e a Odebrecht vão fazer.
MACHADO – Odebrecht vai fazer.
JUCÁ – Seletiva, mas vai fazer.
MACHADO – Queiroz [Galvão] não sei se vai fazer ou não. A Camargo [Corrêa] vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que… O Janot [procurador-geral da República] está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho.
[…]
JUCÁ – Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. […] Tem que ser política, advogado não encontra [inaudível]. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.
[…]
MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].
JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.
MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.
JUCÁ – É. Delimitava onde está, pronto.
[…]
MACHADO – O Renan [Calheiros] é totalmente ‘voador’. Ele ainda não compreendeu que a saída dele é o Michel e o Eduardo. Na hora que cassar o Eduardo, que ele tem ódio, o próximo alvo, principal, é ele. Então quanto mais vida, sobrevida, tiver o Eduardo, melhor pra ele. Ele não compreendeu isso não.
JUCÁ – Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem.
*
MACHADO – A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. É que aquele documento que foi dado…
JUCÁ – Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com…
MACHADO – Isso, e pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já.
JUCÁ – Caiu. Todos eles. Aloysio [Nunes, senador], [o hoje ministro José] Serra, Aécio [Neves, senador].
MACHADO – Caiu a ficha. Tasso [Jereissati] também caiu?
JUCÁ – Também. Todo mundo na bandeja para ser comido.
[…]
MACHADO – O primeiro a ser comido vai ser o Aécio.
JUCÁ – Todos, porra. E vão pegando e vão…
MACHADO – [Sussurrando] O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele ser presidente da Câmara? [Mudando de assunto] Amigo, eu preciso da sua inteligência.
JUCÁ – Não, veja, eu estou a disposição, você sabe disso. Veja a hora que você quer falar.
MACHADO – Porque se a gente não tiver saída… Porque não tem muito tempo.
JUCÁ – Não, o tempo é emergencial.
MACHADO – É emergencial, então preciso ter uma conversa emergencial com vocês.
JUCÁ – Vá atrás. Eu acho que a gente não pode juntar todo mundo para conversar, viu? […] Eu acho que você deve procurar o [ex-senador do PMDB José] Sarney, deve falar com o Renan, depois que você falar com os dois, colhe as coisas todas, e aí vamos falar nós dois do que você achou e o que eles ponderaram pra gente conversar.
MACHADO – Acha que não pode ter reunião a três?
JUCÁ – Não pode. Isso de ficar juntando para combinar coisa que não tem nada a ver. Os caras já enxergam outra coisa que não é… Depois a gente conversa os três sem você.
MACHADO – Eu acho o seguinte: se não houver uma solução a curto prazo, o nosso risco é grande.
*
MACHADO – É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma…
JUCÁ – Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não.
MACHADO – O Aécio, rapaz… O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB…
JUCÁ – É, a gente viveu tudo.
*
JUCÁ – [Em voz baixa] Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então… Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.
MACHADO – Eu acho o seguinte, a saída [para Dilma] é ou licença ou renúncia. A licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais. Essa cagada desses procuradores de São Paulo ajudou muito. [referência possível ao pedido de prisão de Lula pelo Ministério Público de SP e à condução coercitiva ele para depor no caso da Lava jato]
JUCÁ – Os caras fizeram para poder inviabilizar ele de ir para um ministério. Agora vira obstrução da Justiça, não está deixando o cara, entendeu? Foi um ato violento…
MACHADO –…E burro […] Tem que ter uma paz, um…
JUCÁ – Eu acho que tem que ter um pacto.
[…]
MACHADO – Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori [Zavascki, relator da Lava Jato], mas parece que não tem ninguém.
JUCÁ – Não tem. É um cara fechado, foi ela [Dilma] que botou, um cara… Burocrata da… Ex-ministro do STJ [Superior Tribunal de Justiça].
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