quinta-feira, 27 de junho de 2013

Marilena Chaui: "As manifestações de junho de 2013 em São Paulo



As manifestações de junho de 2013 na cidade de São Paulo



por Marilena Chaui, na revista Teoria e Debate

Observações preliminares

O que segue não são reflexões sobre todas as manifestações ocorridas no país, mas focalizam principalmente as ocorridas na cidade de São Paulo, embora algumas palavras de ordem e algumas atitudes tenham sido comuns às manifestações de outras cidades (a forma da convocação, a questão da tarifa do transporte coletivo como ponto de partida, a desconfiança com relação à institucionalidade política como ponto de chegada) bem como o tratamento dado a elas pelos meios de comunicação (condenação inicial e celebração final, com criminalização dos “vândalos”) permitam algumas considerações mais gerais a título de conclusão.

O estopim das manifestações paulistanas foi o aumento da tarifa do transporte público e a ação contestatória da esquerda com o Movimento Passe Livre (MPL), cuja existência data de 2005 e é composto por militantes de partidos de esquerda. Em sua reivindicação especifica, o movimento foi vitorioso sob dois aspectos: 1. conseguiu a redução da tarifa; 2. definiu a questão do transporte público no plano dos direitos dos cidadãos e, portanto, afirmou o núcleo da prática democrática, qual seja, a criação e defesa de direitos por intermédio da explicitação (e não do ocultamento) dos conflitos sociais e políticos.

O inferno urbano

Não foram poucos os que, pelos meios de comunicação, exprimiram sua perplexidade diante das manifestações de junho de 2013: de onde vieram e por que vieram se os grandes problemas que sempre atormentaram o país (desemprego, inflação, violência urbana e no campo) estão com soluções bem encaminhadas e reina a estabilidade política? As perguntas são justas, mas a perplexidade, não, desde que  voltemos nosso olhar para um ponto que foi sempre o foco dos movimentos populares: a situação da vida urbana nas grandes metrópoles brasileiras.

Quais os traços mais marcantes da cidade de São Paulo nos últimos anos e que, sob certos aspectos, podem ser generalizados para as demais? Resumidamente, podemos dizer que são os seguintes:
– explosão do uso do automóvel individual: a mobilidade urbana se tornou quase impossível, ao mesmo tempo em que a cidade se estrutura com um sistema viário destinado aos carros individuais em detrimento do transporte coletivo, mas nem mesmo esse sistema é capaz de resolver o problema;

– explosão imobiliária com os grandes condomínios (verticais e horizontais) e shopping centers, que produzem uma densidade demográfica praticamente incontrolável além de não contar com uma redes de água, eletricidade e esgoto, os problemas sendo evidentes, por exemplo, na ocasião de chuvas;

– aumento da exclusão social e da desigualdade com a expulsão dos moradores das regiões favorecidas pelas grandes especulações imobiliárias e o conseqüente aumento das periferias carentes e de sua crescente distância com relação aos locais de trabalho, educação e serviços de saúde. (No caso de São Paulo, como aponta Hermínia Maricatto, deu-se a ocupação das regiões de mananciais, pondo em risco a saúde de toda a população); em resumo: degradação da vida cotidiana das camadas mais pobres da cidade;

– o transporte coletivo indecente, indigno e mortífero.  No caso de São Paulo, sabe-se que o programa do metrô previa a entrega de 450 k de vias até 1990; de fato, até 2013, o governo estadual apresenta 90 k.

 Além disso, a frota de trens metroviários não foi ampliada, está envelhecida e mal conservada; além da insuficiência quantitativa para atender a demanda, há atrasos constantes por quebra de trens e dos instrumentos de controle das operações. O mesmo pode ser dito dos trens da CPTU, que também são de responsabilidade do governo estadual.

No caso do transporte por ônibus, sob responsabilidade municipal, um cartel domina completamente o setor sem prestar contas a ninguém: os ônibus são feitos com carrocerias destinadas a caminhões, portanto, feitos para transportar coisas e não pessoas; as frotas estão envelhecidas e quantitativamente defasadas com relação às necessidades da população, sobretudo as das periferias da cidade; as linhas são extremamente longas porque isso as torna mais lucrativas, de maneira que os passageiros são obrigados a trajetos absurdos, gastando horas para ir ao trabalho, às escolas, aos serviços de saúde e voltar para casa; não há linhas conectando pontos do centro da cidade nem linhas inter-bairros, de maneira que o uso do automóvel individual se torna quase inevitável para trajetos menores.

Em resumo: definidas e orientadas pelos imperativos dos interesses privados, as montadoras de veículos, empreiteiras da construção civil e empresas de transporte coletivo dominam a cidade sem assumir qualquer responsabilidade pública, impondo o que chamo de inferno urbano.

2. As manifestações paulistanas
A tradição de lutas

Recordando: A cidade de São Paulo (como várias das grandes cidades brasileiras) tem uma tradição histórica de revoltas populares contra as péssimas condições do transporte coletivo, isto é, a tradição do quebra-quebra quando, desesperados e enfurecidos, os cidadãos quebram e incendeiam ônibus e trens (à maneira do que faziam os operários no início da Segunda Revolução Industrial, quando usavam os tamancos de madeira – em francês, os sabots – para quebrar as máquinas – donde a palavra francesa sabotage, sabotagem). Entretanto, não foi este o caminho tomado pelas manifestações atuais e valeria a pena indagar por que. Talvez porque, vindo da esquerda, o MPL politiza explicitamente a contestação, em vez de politiza-la simbolicamente, como faz o quebra-quebra.

Recordando: Nas décadas de 1970 a 1990, as organizações de classe (sindicatos, associações, entidades) e os movimentos sociais e populares tiveram um papel político decisivo na implantação da democracia no Brasil pelos seguintes motivos:

1. introdução da idéia de direitos sociais, econômicos e culturais para além dos direitos civis liberais;
2. afirmação da capacidade auto-organizativa da sociedade;

3. introdução da prática da democracia participativa como condição da democracia representativa a ser efetivada pelos partidos políticos. Numa palavra: sindicatos, associações, entidades, movimentos sociais e movimentos populares eram políticos, valorizavam a política, propunham mudanças políticas e rumaram para a criação de partidos políticos como mediadores institucionais de suas demandas.

Isso quase desapareceu da cena histórica como efeito do neoliberalismo, que produziu:

1. fragmentação, terceirização e precarização do trabalho (tanto industrial como de serviços) dispersando a classe trabalhadora, que se vê diante do risco da perda de seus referenciais de identidade e de luta;

2. refluxo dos movimentos sociais e populares e sua substituição pelas ONGs, cuja lógica é distinta daquela que rege os movimentos sociais;

3. surgimento de uma nova classe trabalhadora heterogênea, fragmentada, ainda desorganizada e que por isso ainda não tem suas próprias formas de luta e não se apresenta no espaço público e que por isso mesmo é atraída e devorada por ideologias individualistas como a “teologia da prosperidade” (do pentecostalismo) e a ideologia do “empreendedorismo” (da classe média), que estimulam a competição, o isolamento e o conflito inter-pessoal, quebrando formas anteriores de sociabilidade solidária e de luta coletiva.
Erguendo-se contra os efeitos do inferno urbano, as manifestações guardaram da tradição dos movimentos sociais e populares a organização horizontal, sem distinção hierárquica entre dirigentes e dirigidos. Mas, diversamente dos movimentos sociais e populares,  tiveram uma forma de convocação que as transformou num movimento de massa, com milhares de manifestantes nas ruas.

O pensamento mágico

A convocação foi feita por meio das redes sociais. Apesar da celebração  desse tipo de convocação, que derruba o monopólio dos meios de comunicação de massa, entretanto é preciso mencionar alguns problemas postos pelo uso dessas redes, que possui algumas características que o aproximam dos procedimentos da midia:

a. é indiferenciada: poderia ser para um show da Madonna, para uma maratona esportiva, etc. e calhou ser por causa da tarifa do transporte público;

b. tem a forma de um evento, ou seja, é pontual, sem passado, sem futuro e sem saldo organizativo porque, embora tenha partido de um movimento social (o MPL), à medida que cresceu passou á recusa gradativa da estrutura de um movimento social para se tornar um espetáculo de massa. (Dois exemplos confirmam isso: a ocupação de Wall Street pelos jovens de Nova York e que, antes de se dissolver, se tornou um ponto de atração turística para os que visitavam a cidade; e o caso do Egito, mais triste, pois com o fato das manifestações permanecerem como eventos e não se tornarem uma forma de auto-organização política da sociedade, deram ocasião para que os poderes existentes passassem de uma ditadura para outra);

c. assume gradativamente uma dimensão mágica, cuja origem se encontra na natureza do próprio instrumento tecnológico empregado, pois este opera magicamente, uma vez que os usuários são, exatamente, usuários e, portanto, não possuem o controle técnico e econômico do instrumento que usam – ou seja, deste ponto de vista, encontram-se na mesma situação que os receptores dos meios de comunicação de massa.

A dimensão é mágica porque, assim como basta apertar um botão para tudo aparecer, assim também se acredita que basta querer para fazer acontecer. Ora, além da ausência de controle real sobre o instrumento, a magia repõe um dos recursos mais profundos da sociedade de consumo difundida pelos meios de comunicação, qual seja, a idéia de satisfação imediata do desejo, sem qualquer mediação;

d. a recusa das mediações institucionais indica que estamos diante de uma ação própria da sociedade de massa, portanto,  indiferente à determinação de classe social; ou seja, no caso presente, ao se apresentar como uma ação da juventude, o movimento  assume a aparência de que o  universo dos manifestantes é homogêneo ou de massa, ainda que, efetivamente, seja heterogêneo do ponto de vista econômico, social e político, bastando lembrar que as manifestações das periferias não foram apenas de “juventude” nem de classe média, mas de jovens, adultos, crianças e idosos da classe trabalhadora.

No ponto de chegada, as manifestações introduziram o tema da corrupção política e a recusa dos partidos políticos. Sabemos que o MPL é  constituído por militantes de vários partidos de esquerda e, para assegurar a unidade do movimento, evitou a referência aos partidos de origem.

Por isso foi às ruas sem definir-se como expressão de partidos políticos e, em São Paulo, quando, na comemoração da vitória, os militantes partidários compareceram às ruas foram execrados, espancados, e expulsos como oportunistas – sofreram repressão violenta por parte da massa. Ou seja, alguns manifestantes praticaram sobre outros a violência que condenaram na polícia.

A crítica às instituições políticas não é infundada, mas possui base concreta:

a. no plano conjuntural: o inferno urbano é, efetivamente, responsabilidade dos partidos políticos governantes;

b. no plano estrutural: no Brasil, sociedade autoritária e excludente, os partidos políticos tendem a ser clubes privados de oligarquias locais, que usam o público para seus interesses privados; a qualidade dos legislativos nos três níveis é a mais baixa possível e a corrupção é estrutural; como consequência,  a relação de representação não se concretiza porque vigoram relações de favor, clientela, tutela e cooptação;

c. a crítica ao PT:  de ter abandonado a relação com aquilo que determinou seu nascimento e crescimento, isto é, o campo das lutas sociais auto-organizadas e ter-se transformado numa máquina burocrática e eleitoral (como têm dito e escrito muitos militantes ao longo dos últimos 20 anos).

Isso, porém, embora explique a recusa, não significa que esta tenha sido motivada pela clara compreensão do problema por parte dos manifestantes. De fato, a maioria deles não exprime em suas falas uma análise das causas desse modo de funcionamento dos partidos políticos, qual seja, a estrutura autoritária da sociedade brasileira, de um lado, e, de outro, o sistema político-partidário montado pelos casuímos da ditadura. Em lugar de lutar por uma reforma política, boa parte dos manifestantes recusa a legitimidade do partido político como instituição republicana e democrática.

Assim, sob este aspecto, apesar do uso das redes sociais e da crítica aos meios de comunicação, a maioria dos manifestantes aderiu à mensagem ideológica difundida anos a fio pelos meios de comunicação de que os partidos são corruptos por essência.

Como se sabe, essa posição dos meios de comunicação tem a finalidade de lhes conferir o monopólio das funções do espaço público, como se não fossem empresas  capitalistas movidas por interesses privados.
Dessa maneira, a recusa dos meios de comunicação e as críticas a eles endereçadas pelos manifestantes não impediram que grande parte deles aderisse à perspectiva da classe média conservadora difundida pela mídia a respeito da ética.

De fato, a maioria dos manifestantes, reproduzindo a linguagem midiática, falou de ética na política (ou seja, a transposição dos valores do espaço privado para o espaço público), quando, na verdade, se trataria de afirmar a ética da política (isto é, valores propriamente públicos), ética que não depende das virtudes morais das pessoas privadas dos políticos e sim da qualidade das instituições públicas enquanto instituições republicanas.

A ética da política, no nosso caso, depende de uma profunda reforma política que crie instituições democráticas republicanas e destrua de uma vez por todas a estrutura deixada pela ditadura, que força os partidos políticos a coalizões absurdas se quiserem governar, coalizões que comprometem o sentido e a finalidade de seus programas e abrem as comportas para a corrupção.

Em lugar da ideologia conservadora e midiática de que, por definição e por essência, a política é corrupta, trata-se de promover uma prática inovadora capaz de criar instituições públicas que impeçam a corrupção, garantam a participação, a representação e o controle dos interesses públicos e dos direitos pelos cidadãos. Numa palavra, uma invenção democrática.

Ora, ao entrar em cena o pensamento mágico, os manifestantes deixam de lado que, até que uma nova forma da política seja criada num futuro distante quando, talvez, a política se realizará sem partidos, por enquanto, numa república democrática (ao contrário de uma ditadura) ninguém governa sem um partido, pois é este que cria e prepara quadros para as funções governamentais para concretização dos objetivos e das metas dos governantes eleitos.

Bastaria que os manifestantes se informassem sobre o governo Collor para entender isso: Collor partiu das mesmas afirmações feitas por uma parte dos manifestantes (partido político é coisa de “marajá” e é corrupto) e se apresentou como um homem sem partido. Resultado: a) não teve quadros para montar o governo, nem diretrizes e metas coerentes e b) deu feição autocrática ao governo, isto é, “o governo sou eu”. Deu no que deu.

Além disso, parte dos manifestantes está adotando a posição ideológica típica da classe média, que aspira por governos sem mediações institucionais e, portanto, ditatoriais. Eis porque surge a afirmação de muitos manifestantes, enrolados na bandeira nacional, de que “meu partido é meu país”, ignorando, talvez, que essa foi uma das afirmações fundamentais do nazismo contra os partidos políticos.

Assim, em lugar de inventar uma nova política, de ir rumo a uma invenção democrática, o pensamento mágico de grande parte dos manifestantes se ergueu contra a política, reduzida à figura da corrupção. Historicamente, sabemos onde isso foi dar.

E por isso não nos devem surpreender, ainda que devam nos alarmar, as imagens de jovens militantes de partidos e movimentos sociais de esquerda espancados e ensangüentados durante a manifestação de comemoração da vitória do MPL.

Já vimos essas imagens na Itália dos anos 1920, na Alemanha dos anos 1930 e no Brasil dos anos 1960-1970.

Conclusão provisória

Do ponto de vista simbólico, as manifestações possuem um sentido importante que contrabalança os problemas aqui mencionados.

Não se trata, como se ouviu dizer nos meios de comunicação, que finalmente os jovens abandonaram a “bolha” do condomínio e do shopping center e decidiram ocupar as ruas (já podemos prever o número de novelas e mini-séries que usarão essa idéia para incrementar o programa High School Brasil, da Rede Globo).

Simbolicamente, malgrado eles próprios e malgrado suas afirmações explícitas contra a política, os manifestantes realizaram um evento político: disseram não ao que aí está, contestando as ações dos poderes executivos municipais, estaduais e federal, assim como as do poder legislativo nos três níveis.
Praticando a tradição do humor corrosivo que percorre as ruas, modificaram o sentido corriqueiro das palavras e do discurso conservador por meio da inversão das significações e da irreverência, indicaram uma nova possibilidade de práxis política, uma brecha para repensar o poder, como escreveu um filósofo político sobre os acontecimentos de maio de 1968 na Europa.

Justamente porque uma nova possibilidade política está aberta, algumas observações merecem ser feitas para que fiquemos alertas aos riscos de apropriação e destruição dessa possibilidade pela direita conservadora e reacionária.

Comecemos por uma obviedade: como as manifestações são de massa (de juventude, como propala a mídia) e não aparecem em sua determinação de classe social, que, entretanto, é clara na composição social das manifestações das periferias paulistanas, é preciso lembrar que uma parte dos manifestantes não vive nas periferias das cidades, não experimenta a violência do cotidiano experimentada pela outra parte dos manifestantes.

Com isso, podemos fazer algumas indagações.

Por exemplo: os jovens manifestantes de classe média que vivem nos condomínios têm idéia de que suas famílias também são responsáveis pelo inferno urbano (o aumento da densidade demográfica dos bairros e a expulsão dos moradores populares para as periferias distantes e carentes)? Os jovens manifestantes de classe média que, no dia em que fizeram 18 anos, ganharam de presente um automóvel (ou estão na expectativa do presente quando completarem essa idade), têm idéia de que também são responsáveis pelo inferno urbano? Não é paradoxal, então, que se ponham a lutar contra aquilo que é resultado de sua própria ação (isto é, de suas famílias), mas atribuindo tudo isso à política corrupta, como é típico da classe média?
Essas indagações não são gratuitas nem expressão de má-vontade a respeito das manifestações de 2013. Elas têm um motivo político e um lastro histórico.

Motivo político: assinalamos anteriormente o risco de apropriação das manifestações rumo ao conservadorismo e ao autoritarismo. Só será possível evitar esse risco se os jovens manifestantes levarem em conta algumas perguntas:

1. estão dispostos a lutar contra as ações que causam o inferno urbano e, portanto, enfrentar pra valer o poder do capital de montadoras, empreiteiras e cartéis de transporte que, como todo sabem não se relacionam  pacificamente (para dizer o mínimo) com demandas sociais?

2. estão dispostos a abandonar a suposição de que a política se faz magicamente sem mediações institucionais?

3. estão dispostos a se engajar na luta pela reforma política, a fim de inventar uma nova política, libertária, democrática, republicana, participativa?

4. estão dispostos a não reduzir sua participação a um evento pontual e efêm
Zero e a não se deixar seduzir pela imagem que deles querem produzir os meios de comunicação?

Lastro histórico: quando Luiza Erundina, partindo das demandas dos movimentos populares e dos compromissos com a justiça social, propôs a Tarifa Zero para o transporte público de São Paulo, ela explicou à sociedade que a tarifa precisava ser subsidiada pela Prefeitura e que ela não faria o subsídio implicar em cortes nos orçamentos de educação, saúde, moradia e assistência social, isto é, dos programas sociais prioritários de seu governo.

Antes de propor a Tarifa Zero, ela aumentou em 500% a frota da CMTC (explicação para os jovens: CMTC era a antiga empresa municipal de transporte) e forçou os empresários privados a renovar sua frota.
Depois disso, em inúmeras audiências públicas, ela apresentou todos os dados e planilhas da CMTC e obrigou os empresários das companhias privadas de transporte coletivo a fazer o mesmo, de maneira que a sociedade ficou plenamente informada quanto aos recursos que seriam necessários para o subsídio.

Ela propôs, então, que o subsídio viesse de uma mudança tributária: o IPTU progressivo, isto é, o imposto predial seria aumentado para os imóveis dos mais ricos, que contribuiriam para o subsídio juntamente com outros recursos da Prefeitura.

Na medida que os mais ricos, como pessoas privadas, têm serviçais domésticos que usam o transporte público, e, como empresários, têm funcionários usuários desse mesmo transporte, uma forma de realizar a transferência de renda, que é base da justiça social, seria exatamente fazer com que uma parte do subsídio viesse do novo IPTU.

Os jovens manifestantes de hoje desconhecem o que se passou: comerciantes fecharam ruas inteiras, empresários ameaçaram lockout das empresas, nos “bairros nobres” foram feitas  manifestações contra o “totalitarismo comunista” da prefeita e os poderosos da cidade “negociaram” com os vereadores a não aprovação do projeto de lei.

A Tarifa Zero não foi implantada. Discutida na forma de democracia participativa, apresentada com lisura e ética política, sem qualquer mancha possível de corrupção, a proposta foi rejeitada.

Esse lastro histórico mostra o limite do pensamento mágico, pois não basta ausência de corrupção, como imaginam os manifestantes, para que tudo aconteça imediatamente da melhor maneira e como se deseja.
Cabe uma última observação: se não levarem em consideração a divisão social das classes, isto é, os conflitos de interesses e de poderes econômico-sociais na sociedade, os manifestantes não compreenderão o campo econômico-político no qual estão se movendo quando imaginam estar agindo fora da política e contra ela.

Entre os vários riscos dessa imaginação, convém lembrar aos manifestantes que se situam à esquerda que, se não tiverem autonomia política e se não a defenderem com muita garra, poderão, no Brasil, colocar água no moinho dos mesmos poderes econômicos e políticos que organizaram grandes manifestações de direita na Venezuela, na Bolívia, no Chile, no Peru, no Uruguai e na Argentina. E a mídia, penhorada, agradecerá pelos altos índices de audiência.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Reinaldo Azevedo, a expressão maior do fascismo direitista da Revista Veja




 A ânsia direitista e golpista da infelizmente famosa Revista Veja é conhecida. Contudo, poucas vezes foi tão claramente explicitada quanto nos diversos comentários de seus articulistas, de antes (como Diogo Maynard) e de agora, com Reinaldo Azevedo. Na verdade, este é tão escancaradamente elitista, reacionário e golpista que o filósofo e teólogo Leonardo Boff chegou a compará-lo ao besouro "Rola-Bosta" (veja em http://oespiritualismoocidental.blogspot.com.br/2012/12/leonardo-boff-oscar-niemeyer-veja.html).  Nas palavras de Leonardo Boff:

A figura que me ocorre deste articulista e da revista semanal, em versão online, é a do escaravelho, popularmente chamado de rola-bosta. O escaravelho é um besouro que vive dos excrementos de animais herbívoros, fazendo rolinhos deles com os quais, em sua toca, se alimenta. Pois algo semelhante fez o blog de Azevedo na VEJA online: foi buscar excrementos de 60 e 70 anos atrás, deslocou-os de seu contexto (ela é hábil neste método) e lançou-os contra Oscar Niemeyer. Ela o faz com naturalidade e prazer, pois, é o meio no qual vive e se realimenta continuamente. Nada de surpreendente, portanto.

Os dizeres e desdizeres dos "articulistas" de Veja, com a bênção do finado Robert "Murdoch" Civita, expressam muito bem a visão de Brasil e de povo das organizações do grupo Abril, que em nada difere do império dos Marinho em suas Organizações Globo  Mas melhor passarmos à palavra às próprias palavras escritas de Reinaldo Azevedo, como nesta passagem de seu "artigo" "É Lula de novo pela culpa do povo" (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/lula-novo-com-culpa-povo/):
Eu não tenho o menor interesse na opinião do povo. Quase sempre ele está errado. Aliás, a opinião de muito pouca gente me interessa. A democracia sempre foi salva pelas elites e posta em risco justamente pelo “povo”, essa entidade. Vai acontecer de novo. Lula, reeleito, tende a levar o país para o buraco. E uma elite política terá de ser convocada para impedir o desastre. O “povo”, nos assuntos realmente importantes, não apita nada. É uma sorte! Aqui e no mundo inteiro. Não apitou quando se fez o Plano Real. Ou nas privatizações. Teria votado contra a venda da Telebrás ou da Embraer. Junto com Lula. Estaríamos sem telefones e sem produzir aviões. Os petralhas sabem: fico aqui queimando as pestanas, tentando achar um jeito de eliminar o povo da democracia. Ainda não consegui. Quando encontrar, darei sumiço no dito-cujo em silêncio. Ninguém nem vai perceber… Povo pra quê?</blockquote>

O #ChangeBrazil foi montado e financiado por americanófilos e empresários

Postado em: 25 jun 2013 às 19:58
Marina Terra

#Changebrazil: “O que eu fiz foi uma tentativa de sujar o governo brasileiro no mundo”. Onda da desinformação se alastra velozmente na Web, aproveitando marcas de protesto em outras partes do mundo

“O que eu fiz foi uma tentativa de sujar o governo brasileiro no mundo, exatamente como o vídeo diz.” Assim definiu Thismr Maia, pseudônimo de Silvio Roberto Maia Junior, porta-voz do movimento Change Brazil, o objetivo dos vídeos que postou na Web, segundo o site Direto da Aldeia. Nascido em 14 de junho, no momento em que uma onda de manifestações eclodiu no país, o movimento vocalizou por meio de vídeos de Maia pedindo – em inglês – um pedido de “ajuda” internacional.
No vídeo, que já tem mais de um milhão de acessos no YouTube, Maia fala da repressão sofrida por manifestantes em 13 de junho. Nesse dia, a polícia militar, controlada pelo governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), reprimiu com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha o protesto, ferindo também jornalistas. Boa parte da mídia, que anteriormente havia criminalizado os protestos – especialmente por meio de editoriais raivosos pedindo a “retomada da Paulista” –, mudou completamente o tom e passou a defender o movimento Passe Livre.

Ali, naquele momento, nascia também o Change Brazil, ou #changebrazil. Nas redes sociais, pipocou um vídeo, em inglês, com legendas em inglês, que se intitulava “Please Help Us” (Por favor, nos ajude). Em um estúdio bem iluminado, em gravação de qualidade profissional, Maia começa falando sobre o aumento da tarifa de ônibus e imediatamente cita os levantes populares na Turquia e na Síria – “espontâneos”.


De fato, o caso turco foi rapidamente comparado ao brasileiro pela mídia brasileira e internacional, que apontou como o denominador comum o caos das grandes metrópoles. Manifestantes aqui e lá trocaram afagos, com brasileiros levando aos protestos bandeiras da Turquia e vice-versa. O premiê turco, Tayyip Erdogan, porém, avalia que não se trata de uma coincidência e que os dois países são alvo, na verdade, de conspiração internacional. Não está claro que haja uma articulação externa, mas a correia da desinformação gira velozmente na Web.
changebrazil facebook mentiras anonymous
(Imagem: Reprodução/Facebook)
O Anonymous Brasil, um perfil que, como o próprio nome indica, preserva a identidade de quem o dirige, precisou desmentir que tinha publicado um vídeo que também teve mais de um milhão de visitas, que elencaria cinco bandeiras do movimento que segue nas ruas. Entre os perfis que espalharam este vídeo, um deles, talvez o mais acessado, é assinado por “Dilma Bolada” — ao que tudo indica, um perfil no Youtube falso que se aproveita da popularidade da personagem, essencialmente pró-governo, do Facebook.
Falando rápido, Maia critica a mídia, pedindo que o espectador tenha em mente que a “verdade” sobre os protestos não será reportada nem no Brasil nem no exterior. Por isso a “boa ação” do vídeo. Ainda antes de completar um minuto de fala – o vídeo tem mais de cinco minutos –, Maia já condena a classe política brasileira e aponta que a motivação dos manifestantes é justamente um rechaço contra a roubalheira e má fé, generalizadas. Ele não menciona nomes de partidos ou políticos.
Nos protestos seguintes, coincidentemente, muitos gritos eram direcionados exatamente contra os políticos, vários pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em 17 de junho, a matriz foi repetida pelos apresentadores de telejornais, enquanto as imagens da multidão espalhada pelas ruas das principais cidades brasileiras eram transmitidas ao vivo. Alguns jornalistas, enquanto narravam “o despertar do Brasil”, se emocionaram. Poucos dias antes, os mesmos reclamavam do trânsito provocado pelos protestos do Passe Livre e chegavam a chamar alguns manifestantes de “vândalos”.
No dia seguinte, os principais jornais, como Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, seguiram disseminando o “basta” escutado nas ruas brasileiras. Não demorou para o espírito do Change Brazil se espalhar. Mais tarde, na quinta-feira passada, membros de partidos de esquerda foram agredidos na Avenida Paulista. Organizada pelo Passe Livre para comemorar a redução da tarifa, a manifestação logo perdeu o intuito inicial. “Sem partido” e “Aqui é Brasil” eram as consignas tanto dos agressores como do resto dos manifestantes, muitos enrolados na bandeira nacional, com pinturas em verde e amarelo no rosto.
change brazil facebook mundo
Foto simula Maia levando um tiro na cabeça de uma arma – desenhada na parede com as cores da bandeira dos Estados Unidos. (Facebook)
Também se ouviu “Quem não pula quer a Dilma”, adaptado do protesto pelo aumento da passagem do transporte público, “Quem não pula quer tarifa”. Com o aumento da violência nos protestos, cada dia mais numerosos, a presidente se dirigiu à nação em cadeia de rádio e TV, onde deixou claro seu respeito aos manifestantes pacíficos. Ela também se disse disposta a analisar todas as demandas apresentadas nas ruas. “Eu estou escutando vocês”, sublinhou Dilma.
Maia comemora o êxito. “Essa tática sempre funcionou bem historicamente. Como também diz no vídeo, a Dilma não pode deixar o Brasil ficar feio no mundo agora. Eu só queria trazer a atenção mundial para o Brasil, e junto com a companheira que não conheço, do vídeo ”No, I’m not going to the world cup”, tenho orgulho de dizer que conseguimos. Agora, com pressão internacional, a Dilma e companhia são mais obrigados a nos ouvir”, comemora o brasileiro, em entrevista dada ao Aldeia.
Ainda segundo ele, “historicamente, pressão mundial tem se provado extremamente eficaz em relação a mudar governos opressores. Recentemente pedi para pessoas mandarem outro vídeo nosso para organizações humanitárias, e agora fiquei sabendo que a Greenpeace tem se pronunciado sobre o que está acontecendo aqui também”. Após celebrar a grande adesão ao movimento, Maia lança a chantagem: “se a Dilma quer que sua administração seja vista favoravelmente, ela terá que nos ouvir”.
Uma visita à página no Facebook do porta-voz do Change Brazil nos revela ainda mais sobre esse curioso personagem, que sublinhou na entrevista ser contra governos repressores. A foto acima simula Maia levando um tiro na cabeça de uma arma – desenhada na parede com as cores da bandeira dos Estados Unidos. Os “miolos” também estão pintados nas cores azul e vermelha. No resto da página, mais fotos de armas, com mensagens apoiando o porte civil. “Quando eu falei ‘o Brasil terá que se dobrar’, é óbvio que eu me referia ao governo brasileiro, né. Pelo amor de deus, gente”, justifica o porta-voz do Change Brazil.
Ps de Pragmatismo Politico.: Jeferson Monteiro, autor do perfil original da personagem Dilma Bolada, entrou em contato para confirmar as informações da matéria. O jovem afirma que a o nome ‘Dilma Bolada’ foi utilizado por outro grupo para plagiar sua página original. A página falsa pertence a uma pessoa ligada à direção da juventude do PSDB e foi criada estrategicamente para pegar carona no sucesso da personagem original.
Marina Terra, Opera Mundi

#changebrazil: Leitores estranham conexões do “movimento”


publicado em 25 de junho de 2013 às 12:58
por Luiz Carlos Azenha 
Reproduzo, abaixo, informações que me foram repassadas pelos leitores, nos comentários ou no Facebook.
A marca #changebrazil apareceu na tela de um jogo entre Fluminense e Orlando City Soccer Club, de Orlando, na Flórida, na SporTV, segundo um leitor (partida disputada em 22.06.2013):
O dono do clube da Flórida é um milionário brasileiro apresentado no site do Orlando City Soccer Club como terceiro maior acionista da Abril Educação e dono da rede de escolas de inglês Wise Up:
O anúncio do contrato com a FIFA foi feito no mesmo dia do contrato da Globo Marcas.
A colocação das placas no estádio foi assumida pelo dono da Wise Up, em um perfil no Facebook:

O que nos leva a perguntar: como o #changebrazil pode falar mal do Brasil no Exterior, como no vídeo de um professor de inglês, postado no You Tube em 14.06.2013 e que teve centenas de milhares de acessos?
Como não há qualquer prova — pelo menos ainda — de conexão entre o milionário brasileiro e o professor de inglês autor do vídeo, fica o registro de pelo menos uma incoerência: detonar o Brasil no mundo não é a melhor forma de promover a Copa do Mundo de 2014, certo?

Irônico é notar que a Caixa Econômica Federal é uma das patrocinadoras das transmissões da SporTV onde o #changebrazil foi promovido.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Rede Globo, o povo não é assim tão bobo



Texto de Plínio de Arruda Sampaio Jr. Professor da Unicamp

Assustada com as mobilizações populares que romperam duas décadas de marasmo político e letargia social, após um momento de perplexidade e desorientação, a ordem estabelecida deu uma primeira resposta à revolta social que toma conta do Brasil. Seu ponto de vista aparece na estética e no discurso da grande mídia falada e escrita. Não por acaso, as grandes redes de televisão tornaram-se um dos alvos preferenciais da fúria popular, ao lado de outros símbolos do poder burguês e da modernidade fútil - os prédios públicos, os bancos, as concessionárias de automóveis.

Por representar o que há de mais comprometido com o capitalismo selvagem, a perspectiva da Rede Globo é emblemática de como a plutocracia enxerga as mobilizações populares que ameaçam seus privilégios seculares. As imagens da Rede Globo são quase que invariavelmente feitas a partir de duas perspectivas: do alto das coberturas dos prédios e dos helicópteros ou atrás da tropa de choque. É uma metáfora de como a burguesia lida com o conflito social: distante dos problemas da população e em oposição frontal a quem luta por direitos coletivos.

Preocupados com a possibilidade de que a revolta popular se transforme numa revolução política, a grande mídia martela dia e noite palavras de ordens que têm como objetivo neutralizar o potencial subversivo das ruas. No “fim da história”, as rebeliões não podem ter causa. Daí a insistência em instrumentalizar a ira contra os partidos da ordem – PT, PSDB, PMDB, PSB, etc. – para estigmatizar todo e qualquer partido e para banir toda e qualquer bandeira política que possa dar um horizonte revolucionário à energia humana que brota de baixo para cima.

Consignas e bandeiras da contra-revolução

Bonner à frente, as consignas reacionárias são repetidas ad nauseam nos jornais, rádios e televisão. “As manifestações não podem ter partido”. Na verdade, disputam desesperadamente a direção das manifestações. Na falência dos partidos convencionais, tomam para si, com o beneplácito da burguesia, o papel de verdadeiro partido da ordem. “As manifestações não podem ter bandeiras”. Na verdade, enaltecem, exaltam e estetizam as bandeiras da paz (social) e da ordem e progresso (do nacionalismo chauvinista). Na falência das políticas convencionais, apelam para o moralismo e buscam desesperadamente resolver a quadratura do círculo, encontrando uma saída dentro da ordem. A manobra mal esconde o pânico com o despertar do povo para a política. Tentam desesperadamente conter a energia vulcânica que clama por mudanças radicais, transformando as manifestações em uma grande catarse nacional.

O levante popular coloca em xeque um dos nós fundamentais do padrão histórico de dominação da burguesia brasileira: a intolerância em relação à utilização do conflito social como forma legítima de conquista de direitos coletivos. Daí o esforço para estigmatizar os manifestantes que enfrentam violenta repressão. Sem distinção, todos que enfrentam a tropa de choque – manifestantes, provocadores infiltrados e simples marginais - são tachados de “vândalos” – uma minoria violenta que perturba a ordem e que se contrapõe à maioria que se manifesta pacificamente. Mal disfarçam a intenção de instigar a polícia e atiçar a classe média remediada contra a vanguarda das manifestações. Os jornais atuam de maneira orquestrada para saturar a opinião pública com imagens de destruição patrimonial – repetidas cansativamente para provocar a rejeição da população. O objetivo é criar um clima de histeria coletiva que venha, mais adiante, a justificar o massacre da revolta. Suspeitamente, não se escuta um pio sobre a ação escancarada de provocadores infiltrados, liderados por agentes dos órgãos de repressão do Estado e por grupos de extrema direita. Os pescadores de águas turvas apostam na única solução que a classe dominante brasileira conhece para tratar o conflito social: o pelourinho. Precisam ser contidos.

O partido da revolução democrática

A avassaladora mobilização da juventude contra as péssimas condições de vida da população polarizou a luta de classes entre mudança e conservação – revolução e contra-revolução. Se a esquerda não conseguir dar uma resposta ao contra-ataque das forças da reação, as mobilizações sociais podem simplesmente se exaurir sem condensar a energia política necessária para abrir novos horizontes. O desafio exige que as organizações de esquerda se unifiquem, lutem ao lado da juventude nas trincheiras avançadas do levante popular e portem a bandeira da revolução democrática – a essência do que está sendo exigido pelos manifestantes - como única alternativa à barbárie.

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Plínio de Arruda Sampaio Jr. é professor do Instituto de Economia da UNICAMP e membro do Conselho Editorial do Correio da Cidadania – www.correiocidadania.com.br

Sobre o velho e o Novo: as Manifestações e a Mídia

Sobre o Velho e o Novo



ESCRITO POR DARLAN MONTENEGRO  da Universidade Rural do Rio de Janeiro 
SEGUNDA, 24 DE JUNHO DE 2013



Não há motivo para pânico. Também não há motivo pra deslumbramento. De uma maneira geral, há motivo para um bocado de otimismo. E para alguma preocupação. Mas não muita.

O que é antigo não deve produzir nenhum desespero. A esquerda política e os movimentos sociais que se aglutinam, de uma forma ou de outra, em torno dela já lidou com isso em outros momentos.

E o que é antigo?

1) É antiga a forte resistência aos partidos políticos, nos movimentos juvenis de massas (os grandes, grandes, mesmo). Elas envolvem dezenas de milhares de pessoas que nunca foram a uma passeata, que têm uma relação tensa com a política e que não veem nos partidos os seus representantes. E a maior parte da sociedade não se sente representada pelos partidos. Não se sente hoje e não se sentiu, no passado. Falo dos grandes movimentos de massas que eu vivi como membro de grêmio secundarista, de centro acadêmico e da União Nacional dos Estudantes (tudo isso entre os anos 80 e 90): a luta dos secundaristas do Rio contra o aumento das mensalidades, em 1988; a luta pelo Fora Collor, em 1992 (a maior mobilização juvenil da nossa história, até aqui; mas que está sendo rapidamente superada, em termos de número de participantes, pela atual); a luta dos secundaristas e universitários do país inteiro por uma mudança na legislação que regulava as mensalidades, em 1993. Todas essas foram muito grandes (ainda que muito diferentes em suas dimensões e alcance). E, nelas, a força do antipartidarismo era imensa.

Em 1988, os estudantes tentaram tirar o presidente da Ames (Associação Municipal – então Metropolitana – de Estudantes Secundaristas, do Rio) de uma grande passeata porque ele se identificava publicamente como militante do PT e da Convergência Socialista. E muitos de nós, que atuávamos numa organização que mais tarde, naquele mesmo ano, viria a se chamar OJL, atuamos de forma deliberada para capitalizar o sentimento antipartido das lideranças estudantis e construir um campo político que se tornaria hegemônico no movimento estudantil secundarista do Rio de Janeiro por alguns anos.

A força política que tem hegemonizado as entidades estudantis nacionais brasileiras ao longo dos últimos trinta anos é justamente aquela que decidiu não se apresentar publicamente como partido e adotar, como um dos pilares da sua política de massas, a denúncia da interferência dos partidos no movimento. Trata-se do PCdoB, que, no movimento secundarista, atua, desde 1984, como UJS, e, no universitário, foi Viração por toda uma época e, depois, UJS. Eu fui a muitos congressos da UNE, na minha vida. E a alguns da Ubes. Em todos, estava lá o PCdoB puxando a palavra de ordem: “A UNE (ou a Ubes) é união; não é partido, não”. É hipócrita, é claro. Mas vocês hão de concordar que tem funcionado.

Nas manifestações do “Fora Collor”, escolas inteiras se retiraram de manifestações, em protesto contra a participação de representantes dos partidos nos atos públicos (não falo apenas dos chamados “burguesinhos da zona sul”, como foi o caso nas manifestações de 1988; falo da galera do bom, velho e público Colégio Pedro II, mesmo). Na luta contra os aumentos de mensalidades, em 1993, uma imensa rede (olha ela, aí) de centros acadêmicos de cursos de universidades pagas, na região metropolitana de São Paulo, se recusava a ter qualquer relação com a UNE e denunciava os partidos como instrumentalizadores do seu movimento.

É bom registrar que, além dos que chegavam ao movimento sem nunca terem participado de nenhuma outra manifestação, aqueles que simpatizavam com o anarquismo também rejeitavam os partidos (exatamente como hoje). Para completar, só mais um exemplo: quando a União Estadual dos Estudantes de São Paulo foi (re)construída, em 1993, a chapa vencedora foi a do movimento dos “independentes” (os sem-partido e, de uma maneira geral, antipartido). Tinham apoio partidário, é verdade. Mas a base que os sustentava não sabia disso.

Porém, não obstante a resistência e os protestos dos “antipartido”, todos esses movimentos foram dirigidos por entidades fortemente identificadas com a tradição política da esquerda. Portanto, não priemos cânico. Pelo menos, não muito.

2) É antiga a disposição da mídia (o partido mais bem organizado da burguesia brasileira e também o mais influente) de disputar os rumos dos nossos grandes movimentos de massas; a primeira tentativa é, quase sempre, de deslegitimar ou descaracterizar, pra ver se a coisa morre. Foi assim que a Globo agiu na campanha das Diretas e no Fora Collor (não acredite no que contam por aí; o Fora Collor não foi um movimento orquestrado pela Globo; foi um movimento orquestrado por entidades estudantis que se opunham à implementação do projeto neoliberal no Brasil).

Na época das diretas, a Globo começou não cobrindo os primeiros atos (convocados pelo PT, ainda em 1983). Depois, quando o negócio decolou, em 1984, disse que o povo que estava nas ruas tinha saído para comemorar o aniversário de São Paulo (essa é uma das mais patéticas). Aí, quando o negócio se alastrou, mesmo, a Globo virou democrata de carteirinha e colocou o Osmar Santos para ser locutor dos comícios das Diretas. Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha.

No início das manifestações pelo Fora Collor, a Globo (principal aliada do presidente, apesar do que diziam e dizem os seguidores do nosso bravo e heroico – de verdade e sem ironia – Leonel Brizola) não cobria. Centenas de milhares de jovens nas ruas do país inteiro e, para o Jornal Nacional, era como se nada estivesse acontecendo. Depois, passou a adular os caras-pintadas e o meu velho amigo e companheiro de direção da UNE, Lindbergh, acabou passando o natal na Xuxa. Mas, antes disso, foi sistematicamente taxado de dinossauro (todos fomos) a cada vez que dizia que o nosso movimento não era apenas contra a corrupção, mas contra as “reformas” neoliberais do Collor. E é bom que se diga: Lindbergh nunca parou de descer o pau nas privatizações e na política neoliberal de Collor. A Globo levou ele para a Xuxa, APESAR disso.

A Folha de São Paulo, em ambos os casos, agiu de forma distinta, em relação à Globo, mas com objetivos semelhantes: aderiu cedo às campanhas, percebendo o seu potencial mobilizador. Mas buscou sempre influir nos rumos desses movimentos. No caso das Diretas, buscou garantir que a transição não desembocasse em um governo de esquerda (muito provavelmente encabeçado pelo Brizola). No caso do Fora Collor, procurou garantir que a imagem de corrupto de Collor não contaminasse o programa neoliberal do qual ele era o maior portavoz. A mídia que apoiou a “CPI do PC” e repercutiu as denúncias contra Collor, na verdade, não apostava na sua derrubada, mas no seu enfraquecimento, o que o levaria a negociar com os grupos das elites cujos interesses haviam sido prejudicado quando Collor colocou o seu grupo no centro de todos os esquemas de favorecimento governamental: da distribuição das verbas de publicidade do governo aos velhos esquemas de propinas tomadas das empreiteiras.

Em ambos esses casos, as elites obtiveram vitórias parciais (um pouco menos parciais no caso das Diretas). Mas eu ouso dizer (não sem um bocado de indisfarçado orgulho) que a vitória do movimento pela derrubada de Collor impediu que o Brasil se tornasse uma Argentina. FHC governou em condições piores do que as que Collor tinha, no início dos 90 (um movimento sindical destroçado e um movimento estudantil inexistente). Os anos 90 foram muito ruins. Mas, se olharmos para todos os nossos vizinhos continentais, veremos que poderiam ter sido MUITO piores.

Mais uma vez, não há razão para pânico por conta da ação da mídia (ou, ao menos, APENAS por causa dela).

3) E esses movimentos sempre foram, também, muito heterogêneos, em sua composição e nas razões que levavam as pessoas a participar. Digo, sem muito medo de errar, que o mesmo deve valer para a Passeata dos Cem Mil, em 68, e valerá sempre para os grandes movimentos de massas. A vida é assim, mesmo. Fazer o quê? Entrar em pânico, com certeza, não. Pelo contrário. É bom que as pessoas estejam se mobilizando por se encontrarem indignadas com variados aspectos da nossa vida social (e, especialmente, com a forma como se tem organizado o espaço urbano). Razões pra ficar indignados, definitivamente, não faltam.

As novidades desse movimento são, em geral, preocupantes (ainda que nem todas):

4) A ausência de uma direção claramente de esquerda, no plano nacional (em SP, o MPL dirigiu o movimento e é claramente de esquerda). Isso é novo. Os grandes movimentos nacionais anteriores tiveram (todos) direção. E uma direção de esquerda (ou, vá lá, de centro-esquerda, no caso das Diretas). Esse, não tem. E não tem por uma razão principal: aquele que se constituiu, nos anos 80, como o principal partido de esquerda do país e as entidades que, de uma maneira geral, gravitaram, ao longo dos últimos trinta anos, em torno da política proposta por esse partido encontram-se no campo de sustentação do governo federal e encontram-se fortemente descolados de qualquer dinâmica real de mobilização. O PT, a UNE, a CUT e os sindicatos em geral foram tomados completamente de surpresa pelas mobilizações. Isso é totalmente novo.

E há um fator seriamente agravante: a orientação adotada pelos governos petistas, de fazer gigantescas concessões ao capital financeiro e apostar em políticas hiper-graduais de mudança social, contribui para que o governo federal se encontre, diante desse movimento, numa situação defensiva (noves-fora a evidente cooptação da maior parcela dos quadros dirigentes petistas para uma política de redução da capacidade questionadora dos movimentos sociais). Por outro lado, aqueles que optaram por romper com o PT e com o governo (ou que a eles já se opunham, desde antes da posse de Lula, em 2003) não possuem enraizamento nem de longe suficiente para se apresentarem como dirigentes dos movimentos sociais. Então, de um lado, no início do movimento, tínhamos um campo governista que falava em “golpismo” e em “baderna”; de outro, uma oposição de esquerda que tentava desesperadamente ver no movimento a confirmação das suas próprias orientações políticas. E o movimento não estava nem aí pra nenhum dos dois. Nenhum dos dois tinha (ou tem) condições de dirigi-lo;

Não foi o facebook que levou a um movimento sem direção. Foi a incapacidade dos dirigentes tradicionais de cumprir um papel dirigente nos movimentos sociais. Os governistas porque desistiram de fazê-lo e porque, em muitos lugares (como SP) eram os sujeitos das políticas que o movimento combatia (no DF, pra completar, o governador petista foi o responsável pela repressão). A oposição de esquerda porque não tem musculatura. Mas há males que podem vir para bem. E, quem sabe, os sustos que a esquerda (toda!) tem tomado, nos últimos dias, não possam servir para um enfraquecimento do governismo chapa-branca e do oposicionismo sectário?

5) A presença significativa de forças de direita atuando no movimento também é relativamente nova; e, para mim, ainda não está completamente dimensionada. Pode estar havendo um exagero na leitura do que está se passando nessa área. Mas também pode ser que a coisa seja pior do que parece. Sei lá. De qualquer forma, não acho que seja dos carecas ou neonazis em geral que venham as maiores ameaças. O pior, até aqui, tem sido o povo que abraça as ideias ao estilo do Anonymous (ou talvez de anônimos que se apropriam dos símbolos usados pelo grupo de hackers). O vídeo com as cinco bandeiras “unânimes” (todas elas centradas no tema da corrupção; nenhuma voltada para a distribuição da riqueza ou a promoção da igualdade) circulou um bocado, nesses últimos dias. E, se circulou pelo meu facebook, fortemente hegemonizado pela presença de comunistas (como o dono do perfil), imagino o que não esteja acontecendo em outras timelines menos vermelhas. E são bandeiras conservadoras e de forte apelo de massas. Cheiro de Collor e FHC, que os deuses nos livrem. De qualquer forma, tudo isso é mais preocupante pela ausência de direção do que pela força da direita, propriamente dita. E o partido da mídia está potencializando justamente esses caras. No jogo da seleção brasileira contra o México, Galvão Bueno fez propaganda das mesmas bandeiras do “Anonymous”, de forma evidente pra quem está há anos na luta política, mas sub-reptícia para o grande público. Há perigo real na combinação da ausência de centro dirigente nacional com a ação da mídia (nota: esse texto foi escrito antes das manifestações de quinta-feira, dia 21; o perigo da combinação da ausência de direção com a ação da mídia e a presença de elementos de direita no movimento encontra-se, hoje, confirmado num nível muito além do que eu imaginava).

6) Há novidades legais, também. Foi a primeira vez que vi um movimento se irradiar de forma tão rápida em torno do tema da violência policial. E isso, convenhamos, é sensacional. Coisa bonita à beça de se ver. A galera entrando no cacete, em São Paulo, e uma legião de jovens dispostos a ir imediatamente para as ruas, em solidariedade. É claro que tem muito mais coisa que explica a disposição para a mobilização desse pessoal todo. E isso a gente ainda vai fazer seminário e mesa-redonda na academia por um bocado de tempo, pra debater. Mas é inegável que o galvanizador foi a violência da PM paulista. O Alckmin criou um monstro. Um monstro do bem, tipo aqueles do “Monstros S.A.”.

7) O facebook é uma novidade, evidentemente; e explica a facilidade com que um movimento sem direção se espalhou tão rapidamente; mas não acredito nem um pouco que o movimento possa sobreviver, no médio prazo e para além do ciclo de manifestações que estamos vivendo, com base apenas nas redes sociais. Ele precisará ganhar mais vida presencial, para além da que já existe em SP (reuniões, assembleias e a inevitável eleição de formas variadas de representação e direção). O resto é perfumaria e baboseira castellsiana (o novo autor predileto do Merval).

Sobre a “situação tática”:

8) Em primeiro lugar, é uma bela oportunidade para o governo federal guinar à esquerda. Não houve, até as manifestações, sinais de que planejasse fazê-lo. Pelo contrário: as mudanças sinalizadas na política fiscal e nos juros cheiram a acovardamento diante da inflação. Até a eclosão do movimento, Dilma vinha mostrando disposição de se afastar do rumo “anti-cíclico” que começara a esboçar, de um ano pra cá.

Por outro lado, a oposição à esquerda não parece ter força para dirigir um movimento que derrote o governo pela esquerda. Se esse grande movimento se tornar, em alguma medida, um instrumento da derrota política de Dilma, isso dificilmente se dará pela esquerda. Mas, no momento em que as bandeiras dos partidos de esquerda são quebradas, nas passeatas, interessa a todas a forças desse campo (governistas ou não) se unir em torno de alguns princípios comuns, que permitam ao campo exercer uma influência positiva sobre o movimento. A defesa da democracia interna ao próprio movimento; a denúncia da violência policial (venha de onde vier, inclusive de governos petistas); o apoio às bandeiras fundamentais que levaram o movimento a se organizar, num primeiro momento (mesmo que defender essas bandeiras implique em criticar o(s) governo(s) petistas).

Por outro lado, é do interesse de pelo menos parte da oposição de esquerda a Dilma somar esforços com os petistas que estiverem dispostos a fazê-lo. Porque, para o PSOL (ou, sejamos mais precisos, para PARTES do PSOL), a derrota do governo não é algo que se pretenda obter a qualquer preço e a possibilidade de que os rumos do movimento passem a ser pautados pela mídia, tendo como agentes os pequenos segmentos conservadores do próprio movimento, também representa um perigo sério. No mínimo, trata-se da possibilidade de perder toda uma geração de lutadores sociais. No máximo, trata-se da configuração de um quadro muito favorável à ação mais ousada da direita no cenário político.

Tudo isso seria preocupante, mas parece haver sinais de que as forças da boa e velha esquerda começam a se mover, para construir uma unidade política com a boa e novíssima esquerda. E é unidade das melhores: aquela que se constrói na luta. As plenárias de organização do movimento, no Rio, por exemplo, sinalizam nessa direção. Da mesma forma, a carta assinada por parlamentares do PSOL e de partidos da ala esquerda da base governista, no Rio, em apoio ao movimento, também é um excelente sinal.


O grande desafio da última década, a meu ver, foi tensionar os governos petistas por uma política reformista de esquerda (reformista de fato, como no início dos anos 60, com as “reformas de base” e na época da construção do “programa democrático e popular”, no final dos 80, em forte continuidade com o ideário do período pré-golpe). Houve, na verdade, muito pouca tensão: os segmentos da esquerda que permanecerão no PT renunciaram a fazê-la; e os que saíram, também; os que ficaram aderiam ao governo “tal como ele é”; e os que saíram dedicam-se, exclusivamente, a derrotá-lo. Houve pouca tensão e pouco resultado. Os governos petistas foram extremamente moderados em implementar políticas de mudança. E reforma, de fato, não houve nenhuma.

O futuro do tal “gigante que acordou” (imagem ruim e extremamente auto-centrada) ainda é incerto. Mas, a depender dos seus desdobramentos, pode forçar Dilma a rever alguns dos seus conceitos. Para melhor. Eu acho que as coisas tendem a arrefecer, como sempre, e o governo tende a voltar modorrentamente ao rumo desalentador que vem seguindo. O pronunciamento de Dilma, na noite sexta-feira, dia 22, sinalizou alguma disposição de ir à esquerda (embora a presidente tenha se posicionado muito mal em relação ao tema violência policial). Há que verificar o que, do que ela disse, se confirmará na prática.

Esperemos que alguma mudança de orientação venha dessa nova conjuntura. Até porque a derrota de Dilma não implicará, de forma alguma, numa ascensão da esquerda. Não há força social e política na esquerda capaz de derrotar o governo petista. E não haverá por algum tempo, ainda. Mas, na direita, essa força existe. E o melhor remédio para que Dilma não venha a ser derrotada pela direita é sentir os pés queimando pela esquerda.

Darlan Montenegro é professor adjunto na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Médico e professor universitário narra suas impressões sobre os "agitadores" nas manifestações

A tática dos extremistas da Direita



GIOVANO IANNOTTI: QUEREM PÔR UM CADÁVER NO COLO DA PRESIDENTA

Fonte: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2013/06/24/querem-por-um-cadaver-no-colo-da-presidenta/

Neste sábado (22), minha mulher e eu fomos à manifestação ocorrida em Belo Horizonte na qualidade de médicos. Somos professores e vários de nossos alunos estavam presentes. Como já havíamos testemunhado a violência no ato da segunda-feira anterior, fomos preparados para atender possíveis vítimas, levando na mochila alguns elementos muito básicos para pequenos ferimentos e limpeza dos olhos irritados por gás.


Por Giovano Iannotti*, professor de Medicina

A manifestação foi tranquila durante todo o trajeto. Até mesmo a intolerância com militantes de partidos de esquerda foi pouco vista. Uma grande bandeira vermelha era orgulhosamente carregada e, salvo um ou outro, respeitada. Contudo, o clima começou a piorar quando a manifestação encontrou o cordão policial. Como tem ocorrido, a maioria aceitou o limite imposto, mas os provocadores instavam os moderados a enfrentarem a polícia. Parecem colocados estrategicamente entre o povo, porque se repartem em certo padrão e gritam as mesmas frases.

Como é sabido, eventualmente o conflito aconteceu. Retiramo-nos para a pequenina área verde que sobra naquele encontro entre as avenidas Abraão Caran e Antônio Carlos. E ali ficamos tratando sobretudo intoxicações leves e ferimentos superficiais causados por estilhaços e balas de borracha. Em um momento, fui chamado para atender um senhor ferido na cabeça. Fui correndo, mas ele já passara o cordão de isolamento da polícia. Identifiquei-me como médico aos policiais do governo de Minas Gerais e disse que poderia atender o senhor ferido. A resposta foi uma arma apontada contra meu peito. Pedi para falar com algum oficial, mas a PM recomeçou a atirar. Voltei para nosso pronto-socorro improvisado. De dentro do campus da UFMG começaram a atirar bombas de gás sobre nós que atendíamos os feridos e recuamos ainda mais, para o meio da Antônio Carlos.

Minutos depois, chamaram-nos com urgência informando que alguém caíra do viaduto José de Alencar. Quando chegamos, um jovem com o rosto sangrando estava sofrendo uma pequena convulsão. Fizemos a avaliação primária e, na medida em que surgiam problemas, tratávamos da melhor forma possível. Aquele paciente precisava de atendimento avançado urgentemente, em um centro de trauma, mas a polícia não arrefecia. Aproximou-se de mim um sujeito com o rosto tampado por uma camiseta. Ele descobriu parcialmente a face e me disse no ouvido que era policial e que pediria que não atirassem para que pudéssemos evacuar a vítima (penso ter visto esse autodeclarado policial perto de mim, quando eu tentava falar com um oficial, e depois correndo ao meu lado. Se for a mesma pessoa, ele era um dos exaltados que instavam à violência). Chegaram algumas pessoas com camiseta vermelha, na qual se lia “bombeiro civil”. Eles nos ajudaram a improvisar uma maca com um cavalete da empresa de transportes e faixas de manifestantes. Algum tempo depois, por coincidência ou não, os tiros pararam e fomos, com dificuldade, levando a vítima em direção do cordão policial. Minha mulher ficou na barreira.

Quando passamos a barreira, vi uma ambulância parada a uns 20 metros. Gritei para os que ajudavam para que fôssemos para ela. Todavia, para meu horror, a polícia não permitiu. Disse que aquela viatura era somente para policiais feridos. Tentei discutir, mas vi que seria improdutivo. Disse a um oficial, então, que conseguisse outra. Não tínhamos muito tempo. Colocamos a vítima no chão, imobilizando sua coluna cervical e iniciei a avaliação secundária. Na medida do possível, limpamos o rosto ensanguentado do jovem e realinhamos os membros fraturados. Pedi aos policiais que, pelo menos, trouxessem equipamentos da ambulância “deles” para imobilização e infusão. Recusaram-se.

Esperamos um bom tempo até que uma ambulância do resgate do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais chegasse. O veículo praticamente não tinha nenhum equipamento. Somente a prancha, talas, colar cervical e oxigênio para ser usado com máscara. “Soro” não havia. Transferimos e imobilizamos o paciente. Nesse tempo, tentávamos descobrir para onde levar a vítima. Respostas demoravam a chegar. Pensamos no Mineirão, bem próximo de nós, mas primeiro disseram que era para torcedores e depois que não dispunha de centro de trauma. Fomos para o Pronto Socorro de Venda Nova, Risoleta Neves. Lá uma colega assumiu o tratamento do ferido.

Entrei em contato com minha mulher e ela me disse havia se juntado a meu irmão, que dois outros haviam caído do viaduto e que havia vários feridos, mas que eles não estavam conseguindo mais atender.

Mais tarde, quando os reencontrei no metrô de Santa Efigênia eles me contaram uma história de terror. Depois de me deixar com a primeira vítima, minha mulher se identificou aos policiais e disse que queria passar também para me ajudar. A polícia não deixou e ameaçou atirar nela. Como as agressões reiniciaram logo depois, ela ficou presa entre bombas e pedras, até que conseguiu fugir e retomar a antiga posição para socorro, no meio da Antônio Carlos. Foi quando encontrou meu irmão. Logo depois, receberam um chamado, avisando que outro rapaz havia caído. A situação clínica desse paciente era muito pior do que a do anterior. Não interessa escandalizar ou ofender com detalhes médico-cirúrgicos. Relato somente que o quadro que os dois descrevem é gravíssimo. A vítima não reagia, estava em coma, mas respirava e o coração batia. Meu irmão, sabendo da primeira experiência, correu para os policiais, desta vez um outro cordão formado na Antônio Carlos, levantando as mãos, agitando uma camisa branca e gritando que havia um ferido morrendo. Os policiais, vários, apontaram-lhe armas e gritaram para que ele fosse embora. Quando ele tentou avançar um pouco mais, os tiros começaram e ele correu em direção de minha mulher para ajudá-la.

Ali, ao lado da vítima, perceberam que a polícia atirava neles. Relatam que já não havia ninguém próximo. Somente a vítima, ele e minha mulher de jaleco branco. Os tiros e as bombas de efeito moral e de gás vinham com um único endereço. O deles. Ficaram o quanto aguentaram; mais não puderam fazer. Desesperados, tiveram que abandonar o rapaz que morria e buscar refúgio.

Depois, tiveram a notícia de que um terceiro homem caíra do mesmo viaduto. A cavalaria já estava em ação e não havia como atravessar a avenida para socorrer essa terceira vítima. Quando cheguei em casa, alguns alunos relataram que socorreram um homem que caíra do viaduto (perece que foram quatro, no total). Quando a polícia passou, eles conseguiram chegar à vítima e ficar com ela até que o SAMU chegasse.

Algumas ideias ficam em minha cabeça. Quem já conviveu com militares sabe na maioria das vezes reconhecer um por sua forma de agir, andar, cortar o cabelo e de falar. Sem leviandade, acredito que vários dos provocadores eram militares infiltrados. Vi o homem de rosto coberto dizer ser policial e que pediria para que os policiais alinhados dessem uma trégua e nos deixassem passar. Isso aconteceu. Outra imagem simbólica foi ver a tropa de choque da Polícia Militar de Minas Gerais dentro de uma universidade federal (deveria ser um território livre e sagrado da paz, da inteligência e da cultura) fechada para os estudantes. Da universidade vinham bombas que machucavam a juventude. Já ampliando o horizonte, o Itamaraty em chamas, a bandeira de São Paulo queimando, o Congresso quebrado, um governador sitiado em sua casa. Há que se ler nos símbolos e nos fatos. Amplie-se mais esse horizonte. Não se vê que os métodos são os mesmos usados nas “primaveras” árabes, em Honduras, no Paraguai, no Equador, na Venezuela e que começa também a ser usado na Argentina?

Nada há de espontâneo no que está ocorrendo e não é à toa que os meios de comunicação têm promovido e estimulado a agressividade e a multiplicidade de slogans e bandeiras. Não é verdade que não haja líderes nessas manifestações. Os líderes estão nas sombras, colhendo os frutos das últimas tecnologias. São discretos. Quem sabe o que são o Instituto Millenium, o instituto Fernando Henrique Cardoso, o Council on Foreign Relations, a Trilateral Commission, o Carnegie Council? Preparam o Brasil para a guerra global idealizada pelos think tanks? É essa a forma de chegar aos recursos naturais do imenso território brasileiro sem a mínima resistência de governos mais progressistas? Incomoda o acordo com a Rússia para a compra e desenvolvimento de armas?

Uma certeza: querem atacar a democracia. Em vez de atacar partido, tome partido. Você está sendo manipulado. Pelo que vi e vivi é certo que querem jogar um cadáver no colo da presidenta Dilma.

*Professor de Medicina