quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Não importam intelectuais do porte de um Jürgen Habermas, de um Chico Buarque, de um Papa Francisco, um Noam Chomsky, de um Leandro Karnal, de um Clóvis de Barros, de um Leonardo Boff, de um Oliver Stone alertarem para o Golpe... No Brasil, a mídia golpista aliena e faz o jogo da velha Casa Grande... Muitos preferem a sapiência de um "faustão" a pensar e ver a realidade....

   "O Congresso Nacional que derrubou o PT é fruto de uma campanha midiática destrutiva do partido desde o dia em que ele chegou ao Poder, porque o PT representa forças opostas à Elite ligada à velha mídia: escravocrata e excludente e antinacional que vive no Brasil. Lembrando que não há um sentido de Nação nessa Elite, este um dado importante, porque somos, na verdade, dotados de uma Elite, que é uma amálgama de indivíduos nascidos em países diferentes e com culturas diversas: não há nela um sentido comum de brasilidade, é o cada um por si."






Análise justa: o que levou ao declínio do PT e das esquerdas nas eleições de outubro de 2016
por Alexandre Tambelli, no Jornal GGN
Lendo o texto: O atestado de um suicídio político, escrito por Ricardo Cavalcanti-Schiel no Periódico Diagonal de Madri - Espanha, que está neste Link do GGN - http://jornalggn.com.br/…/o-atestado-de-um-suicidio-politic…resolvi fazer um contraponto e coloco aqui:
Uma análise correta do que levou ao resultado eleitoral dos executivos e legislativos municipais em 2016 precisa tirar do centro a afirmação de que há uma vitimização do PT e dos petistas.
O PT, nesses anos todos de Governo, não teve o direito de sequer acertar. A Rede Globo & Cia. - a chamada velha mídia - oligopólio que detém/ controla cerca de 90% de toda a informação do cotidiano do Brasil e do mundo que chega a população em Língua Portuguesa não deixaram.
O Congresso Nacional que derrubou o PT é fruto de uma campanha midiática destrutiva do partido desde o dia em que ele chegou ao Poder, porque o PT representa forças opostas à Elite ligada à velha mídia: escravocrata e excludente e antinacional que vive no Brasil. Lembrando que não há um sentido de Nação nessa Elite, este um dado importante, porque somos, na verdade, dotados de uma Elite, que é uma amálgama de indivíduos nascidos em países diferentes e com culturas diversas: não há nela um sentido comum de brasilidade, é o cada um por si.
Quando o PT começou a reversão de um Processo histórico de divisão Casa Grande X Senzala, quando o Brasil estava caminhando para se tornar um País não mais de terceiro mundo e a ter um sentimento Nacional e de Nação, a partir do crescimento acelerado da economia, do desenvolvimento industrial, da geração de empregos com carteira assinada e do aumento do poder aquisitivo da população casado com o discurso positivo e altivo de Lula e em defesa de um Brasil para todos, desenvolvido e independente apareceram contraofensivas da Elite midiática, não só da Elite midiática nacional como de uma Elite internacional pró-imperialismo e mercado financeiro, para estancar o crescimento do País rumo à quinta economia do mundo, dados econômicos de 2013 apontavam que estávamos passando a Inglaterra e assumindo o quinto lugar.
O olho grande na descoberta do Pré-Sal. Mensalão. Lava-Jato e a destruição da Indústria do Petróleo e da Indústria pesada e de defesa do Brasil foram forjadas antes das Jornadas de Junho. A busca da destruição do Governo Dilma e da Petrobrás surgiu com a criminalização da compra de Pasadena, este fato aconteceu no primeiro semestre de 2013. Não tinha o nome Lava-Jato, mas era o seu primeiro sinal de existência programada e de que estavam armando a cama da Presidenta Dilma e a derrocada do Brasil independente, com Justiça Social e desenvolvido que surgia.
O PT cometeu erros no Poder, o principal foi não ter dotado a sociedade de meios de comunicação progressistas com audiência e que pudessem ser um canal de informação de suas ações governamentais e do modelo de desenvolvimento autônomo do Brasil, que o partido e seu Governo defendiam perante o Mundo Desenvolvido. Sem o contraponto à velha mídia o PT foi perdendo forças para reação ao ataque midiático, que foi se tornando agressivo e desleal. E, ainda, dotado da falta de qualquer escrúpulo para com a verdade e com o Jornalismo. A loucura de tirar o PT de cena era a única bandeira que a Elite financeira e antinacional ligada à velha mídia praticou de 2012 para frente com o Julgamento do “Mensalão”.
Qualquer análise que se baseie em junho de 2013 para dizer sobre o PT deve lembrar que os 20 centavos foram encampados pela Elite midiática, em especial a Rede Globo, que nem respeitava a grade de programação, seus telejornais e novelas para mostrar e incentivar e aumentar de tamanho as manifestações em que se queria e se conseguiu dizer: o Brasil do PT não mais era capaz de dar à população o novo, ou seja, um ponto além da inserção via consumo.
Lembram-se dos hospitais padrão FIFA? Do não vai ter Copa? E da mentirosa ideia da incompetência de se ter uma Copa no Brasil? E a Copa foi um sucesso. 1% dos brasileiros nas ruas representava 100%. Mentira fabricada.
A ausência de uma contra narrativa é que fraquejou o PT. O PT não inventou o financiamento privado de campanha, ele estava dado e poderiam participar todos os partidos. Se pensarmos só o PSOL não participou, certo? E ele possui apenas 4 deputados federais. Com 4 deputados o que  se consegue aprovar? Foi esta participação nas regras eleitorais existentes que manteve no Poder a Centro-Esquerda por 13 anos e meio.  E ela só saiu do Poder por um Golpe de Estado, não nos esqueçamos deste dado.
E vamos ser sinceros, a discussão boba de corrupção do PT não é modelo para analisar o que levou ao resultado eleitoral de outubro de 2016.
A corrupção desejada e anunciada sem provas em quase todas as situações pelos meios de comunicação da direita antinacionalista que temos, a serviço do Neoliberalismo e do Imperialismo, Sim! Fugir desta realidade não vai nos dar a verdade dos fatos. O PT não é um partido corrupto, pode haver alguns membros, poucos, que fizeram coisas erradas, mas é a minoria da minoria.
Podemos questionar, e é saudável questionar, que os Governos do PT não foram capazes de realizar uma Reforma Política e uma Reforma da Mídia, provavelmente, por um Projeto de Poder que se crê possível, vencendo eleições democráticas no voto; e comendo pelas beiradas e continuadamente com o PT no centro do Poder Federal.
Projeto de Poder que se mostrou falho. Não deu no voto, a direita midiática foi criando os mecanismos ilícitos de chegar ao Poder por um Golpe de Estado. Projeto de Poder do PT foi degrau acima de um Projeto de Nação, aqui sim, uma discussão boa de ser feita para evitar que ocorra outras ações golpistas na futura retomada das forças progressistas e de esquerda do Poder central.
Projeto de Nação acima de Projeto de Poder, para não haver retrocessos e novos Golpes. A população precisa ser defensora dos interesses nacionais, sendo capacitada para tanto, certo? Não apenas crer que se enrolar numa bandeira é o suficiente para se ter brasilidade e amor pelo Brasil.
Quem sabe se o PT abandonasse o personalismo, deixando a chapa das eleições em 2014 terem um candidato, encabeçando ela, de outro partido, o Golpe de Estado teria fracassado.  Porém, suposições não levam a lugar nenhum nem mudam o cenário atual, apenas ensinam a mudar no futuro.
O PT é a vítima, hoje, desta loucura de extinguir toda a esquerda do mapa eleitoral brasileiro. Vejam os malabarismos para incriminar Lula, que é o símbolo máximo das esquerdas brasileiras, ou o Processo de Impeachment sem crime de responsabilidade de Dilma. Numa sociedade democrática e com uma Justiça imparcial não aconteceriam tais fatos.
Sai o PT e o jogo de criminalização das esquerdas e dos desenvolvimentistas e defensores dos interesses nacionais e de um Estado forte continuam: mudam-se só os personagens e os partidos. Hoje, mais do que nunca, com a força da velha mídia, com o Poder da Rede Globo em direcionar, cooptar parcelas inteiras do Judiciário ao seu intento de destruição dos defensores de um modelo de desenvolvimento para além do neoliberalismo e da associação direta, sem contrapesos, sem questionamentos aos ditames do Imperialismo Norte-Americano.
Torna-se preciso dizer que a Lava-Jato amplificou um senso-comum: o anti-petismo. Fique você 24 horas do dia sendo alvejado no noticiário do País, sem tréguas e sem direito de um contraditório, de uma defesa de sua reputação e veja se consegue sobreviver, se sua reputação se mantém intacta.
As eleições de 2014 foram fraudadas pela Lava-Jato. As de 2016, também. E é um processo de fraude tão avassalador que não se consegue manter um mínimo de lucidez, de noção da realidade existente por parte do cidadão médio. Este ficou totalmente perdido. Ficou, aos poucos, despossuído de qualquer racionalidade, afinal, se diz, 24 horas por dia em quase todas as mídias jornalísticas do País, que tudo o que não dá certo no Brasil foi porque o PT Governou errado, e, ainda, se colou nele todas as mazelas da corrupção. Toda a corrupção do mundo aconteceu a partir de 2003 e se findou com o Golpe de Estado!
E, claro, escondendo dados de avanços sociais maravilhosos como o do Brasil saindo do Mapa da Fome da ONU, os mais de 40 milhões de brasileiros que ascenderam socialmente, o fato de termos dobrado, em 10 anos, o número de universitários formados no Brasil, as inúmeras escolas técnicas e campus universitários, as mais de um milhão de cisternas no Nordeste, os parques eólicos, as reservas internacionais de mais de 350 bilhões de dólares, o aumento do salário mínimo 75% acima da inflação no decorrer dos governos Lula e Dilma, etc. etc. etc.
Seria um processo de perda de memória coletiva?
Lava-Jato e os vazamentos seletivos e a prisão só de petistas, mesmo que sem provas e sem razões de ser. Esse Congresso reacionário. Aécio e a não aceitação da derrota. Eduardo Cunha e as pautas-bombas. A fabricação de uma crise econômica muito maior do que existia negligenciando os fatores ligados a conjuntura internacional: desde a crise de 2008. O negligenciar do preço do barril de Petróleo para a desvalorização do valor de mercado da Petrobrás. A não informação da diminuição do preço das comodities no mercado internacional. O boicote a todas as ações de Governo no segundo mandato de Dilma. O bloqueio do debate político, econômico e do modelo de desenvolvimento para o Brasil por parte da velha mídia, transformando tudo em uma única pauta: a da corrupção. As “pedaladas”, que nunca foram provadas, e a ação intencional do TCU em criminalizar ações corriqueiras de quase todos os governantes, somente do Governo Dilma. A Reforma Eleitoral. Todos estes fatos são centrais em qualquer discussão eleitoral para outubro de 2016.  
Uma observação. O massacre diário ao PT nos levou a uma diminuição de 40% de candidaturas a Prefeito do partido. Pelo desgaste da sigla, o partido preferiu se coligar a outros partidos ao, invés, de encabeçar a chapa. De 1779 candidaturas em 2012 foi para 1004 em 2016. Menos candidatos menos chances de ter prefeituras, certo? A informação está neste link de 2 de outubro de 2016 da EBC.
Estes fatos todos acima levaram ao declínio eleitoral do PT nas eleições do começo do mês. E ascensão de um conservadorismo gigante nos legislativos e executivos brasileiros. É massacre midiático. Toda a esquerda enfraqueceu. 24 horas por dia de anti-petismo elegeu o conservadorismo no Brasil, facilitou o Golpe de Estado e alimentou o Fascismo e a alienação crescente, não decrescente, da população, que não sabe o que fazer diante de uma situação em que o Governo atual, que é impopular e desaprovado pela imensa maioria dos brasileiros, faz o que faz e ninguém se manifesta nas ruas, tirando os mesmos grupos do Pré-Impeachment que, desde sempre, estavam do lado da Democracia e da permanência de Dilma.
Ninguém pode governar sem meios de comunicação capazes de informar com imparcialidade o que está sendo feito pelo Governante. E, muito menos, Governar com receio de estar frente a frente com o povo que Governa. Veja que o Temer e seu Governo vão na frente da tela da TV e falam, mesmo que para dizer o que numa sociedade mais atenta, mais lúcida seria motivo de revolta popular, mas eles vão sem medo. Talvez, porque há todo o respaldo do Judiciário, da mídia para essa situação existir sem questionamentos, ele pode até dar entrevistas tranquilamente e sem questionamentos maiores na velha mídia, detalhe importante. O Governo Dilma poderia ir, à frente da TV, também, tinha um respaldo muito maior: o voto da população em uma Eleição democrática e não foi.
Para terminar.
Se formos fazer uma autocrítica da esquerda no Poder podemos dizer:
A maior falha do PT foi na comunicação.
Em segundo lugar na ideia de que a velha mídia é inofensiva: se estou ganhando com a velha mídia ai, para que enfrenta-la.
E, o PT perdeu o Poder, porque não a enfrentou e ela, a velha mídia, conseguiu criar uma imagem negativa do PT, incompatível com a realidade, porém, fabricada e eficaz. Imagem negativa que produziu em 2014, o Congresso do Golpe e em 2016 o continuado voto na direita antinacional aliada ao mercado financeiro e ao Imperialismo Norte-Americano, direita, agora, mais do que nunca, anti povo.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A cara do Brasil, hoje, é a do homem que chutou o mendigo no chão. Por Kiko Nogueira

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No mundo, o Brasil é, por um lado, uma piada institucional, uma república de bananas em crise com uma vocação enorme para impeachments e golpes dos mais variados tipos. Uma democracia digno de risadas ou pena.
Por outro lado, foi-se a nossa proverbial gentileza, ou a impressão de gentileza e bonomia. Somos a nação do ódio e todos sabem disso.
A cara do Brasil é a do canalha que chutou o mendigo na rua do centro de São Paulo. O vídeo da ignomínia viralizou. Foi parar, por exemplo, no tabloide New York Post, o sétimo jornal mais lido dos EUA.
Ainda não se sabe a identidade do cidadão. O autor da postagem no Facebook é Maicon Campos, motorista do Uber.
Ele contou que três sujeitos — três — agrediram o homem no chão. Ele conseguiu filmar apenas um deles. Seguiu o trio para ver aonde iam.
Quando os encontrou falando com um policial, imaginou que fosse sua chance. Abordou o PM e mostrou-lhe o que estava no celular. O soldado mentiu, falando que não podia fazer nada, e o mandou fazer um BO. Na base comunitária, ouviu a mesma coisa.
A onda de indignação veio quando ele colocou o vídeo em sua página — mas de que adianta essa histeria vazia?
Além do PM, quantos outras outras pessoas testemunharam o caso ao vivo e a cores e foram omissas? Por que só Maicon tentou fazer alguma coisa?
O monstro que chutou o sem teto e a inação dos circunstantes formam o retrato do que nos tornamos. O lugar onde velhinhos carregam cartazes perguntando “por que não mataram todos em 64?”
Onde manifestantes fazem bonecos de Lula, Dilma e outros “inimigos” tendo a cabeça cortada em guilhotinas. Onde ciclistas são espancados por malucos que querem “a Paulista de volta”.
Onde um juiz como Sérgio Moro vira salvador da pátria e anjo vingador. Um juiz que manda carta malcriada para jornal, reclamando de articulista que não o elogia.
Onde colunistas estimulam e vomitam raiva diuturnamente.
Se o Brasil se olhar no espelho, vai enxergar o pústula que deu um coice no mendigo. Reconhecer isso pode ser o primeiro passo para a nossa cura.


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Sobre o Autor
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

Mídia Ninja: Economistas desmotam PEC 241 como Traição Nacional



Economistas desmontam PEC 241 no Senado. Senadores acusaram PEC da 'traição nacional'

Por Vinicius Borba, na Mídia Ninja


Economistas das principais universidades do país afirmam que a Proposta de Emenda Constitucional 241 representa retrocesso e uma "camisa de força" para o país. A audiência pública ocorreu na manhã desta terça-feira (11), um dia após aprovação em primeiro turno da PEC que congela gastos em áreas como saúde e educação, baseado nos índices de inflação no país. A senadora Lídice da Mata (PSB-BA) foi enfática ao denunciar a proposta como "PEC da traição nacional”.
Laura Carvalho, doutora economista da Universidade de São Paulo, demonstrou não haver nenhuma experiência internacional parecida ao congelar por 20 anos a possibilidade de investimentos e que a inconsistência da proposta é grave. "Nossa crise fiscal é muito mais o sintoma da crise econômica brasileira do que a causa dessa crise. Portanto, a PEC 241 não só não soluciona os problemas que temos, como pode prejudicar muito uma retomada, a estabilidade política", afirmou.
A doutora também esclareceu que a crise tem por origem falta de receitas e não abuso de gastos, como afirmado por governistas e defensores da proposta. Ela também reafirmou que é a volta do crescimento econômico que pode mudar essa realidade, e que nesse sentido a PEC poderá ter efeito contrário, engessando a economia e o investimento no país caso haja melhorias em breve.
Já o professor da Universidade Federal Fluminense, Jessé Souza, trouxe um panorama complexo do "novo capitalismo" e denunciou as "chantagens" promovidas pelo capital financeiro por meio da mídia, da compra do parlamento e da consequente manipulação do Estado por interesses estrangeiros, diferentemente de anos passados.
Segundo ele, o desmonte do Estado de bem estar social é seguido de exemplos práticos de como o empresariado "não quer pagar o pato”. Ou seja, impostos sobre grandes fortunas, heranças e desonerações pagas pelo Governo, sem nenhuma contrapartida das empresas, mas exige que a população mais pobre o pague e ainda defende o corte destes investimentos na saúde e educação. "Negam sistematicamente que 53% dos impostos pagos no país vem classes mais humildes como os que recebem até três salários minímos", afirmou.
Laura Carvalho, da USP, respondeu ao senador Cristovam Buarque (PPS-DF) que questionou qual seria o plano para substituir a PEC. "Acabar com essas desonerações de impostos do empresariado, cobrar a sonegação fiscal monstruosa e imposto progressivo sobre grandes fortunas são aplicadas por grandes países em todo o mundo", afirmou Laura.

Antonio Martins: Convite à desconstrução da genocida PEC 241



Governo venceu primeira batalha para aprovar congelamento dos gastos públicos. Mas um mergulho no Orçamento da República desmente, uma a uma, suas teses. País não está quebrado. Gasto social cresceu, mas ainda é reduzido. PEC tira da Educação e Saúde, e engorda os milionários
Por Antonio Martins | Edição de Vídeo: Gabriela Leite - Outras Palavras
[A seguir, o texto do vídeo]
Segunda-feira, 10 de outubro de 2016. Muito bom dia. Este é mais um vídeo experimental de Outras Palavras, hoje com um tema especial. Vamos debater a PEC-241, que entra em votação na Câmara dos Deputados. Mas, para fazê-lo, convidamos você a examinar conosco um documento de extrema importância, nunca debatido claramente pela velha mídia. Trata-se do Orçamento da República. Ele é uma espécie de radiografia das políticas públicas e das ações do Estado brasileiro. Numa democracia verdadeira, sua análise deveria ser matéria básica nas escolas de Ensino Médio. No entanto, ele é tratado ou como um segredo, ou como um saber hermético, acessível apenas para notórios especialistas. É o que está acontecendo neste exato momento
Aprovar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241 é o grande objetivo do governo Temer em 2016. Em alguns aspectos, este governo é mais frágil que às vezes pensamos. Ele já adiou para 2017 a tramitação do aumento da idade mínima para aposentadoria, a Contra-Reforma da Previdência. Ele não sabe ainda por que meios atacar os direitos trabalhistas e a CLT. Ele preferiu concentrar-se na PEC-241, por dois motivos. Primeiro, tratar de um tema menos conhecido pela sociedade.
Segundo, porque por trás desta Proposta está embutida uma narrativa tenebrosa – e manipuladora – sobre a situação do país. Fala-se que estamos quebrados. Argumenta-se que a causa do desastre foram as políticas praticadas a partir de 2003, quando houve uma pequena melhora nas condições de vida da maioria. Conclui-se que, para nos livrarmos do pior, será necessário um período de sacrifícios, no qual as políticas anteriores serão revertidas. Ao final, garante-se, o país estará saneado e novamente pronto para crescer e gerar empregos. Todos estes argumentos são falsos, como você verá, com base nos próprios números oficiais e num conjunto de gráficos e tabelas.
O argumento central do governo Temer e dos economistas conservadores que o apoiam é o aumento da dívida pública. “Um país é como uma família”, disse o ministro Henrique Meireles, em cadeia nacional de TV: “não pode gastar mais do que ganha”. De tanto viver acima de suas possibilidades, o Brasil estaria hoje muito endividado, a ponto de quebrar. Vamos examinar concretamente esta afirmação.
O gráfico a seguir mostra da evolução da Dívida Pública brasileira, nos dois últimos anos. Ela realmente cresceu, chegando hoje a R$ 4,2 trilhões. Este número, por si mesmo, diz pouco. A dívida é alta? É baixa? Para mensurar melhor seu significado, os economistas normalmente preferem um outro indicador: a relação entre a dívida e o PIB. É, de fato, um dado melhor. Usando a analogia do ministro Meireles, o que importa, para uma família ou um país, não é o valor absoluto da dívida, mas quanto ela representa em relação aos rendimentos do endividado.
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Segundo este critério mais relevante, verificamos que a dívida manteve-se praticamente estável, de 2006 a 2014. Ficava em torno dos 55% do PIB, com pequenas oscilações para cima ou para baixo. A piora começa no segundo mandato da presidente Dilma, em 2015. A dívida, que havia se mantido estável por oito anos, sobe para 68,8% do PIB menos de um ano e meio depois, quando a presidente foi derrubada. Com Temer, continuou crescento: está hoje em 70,1% do PIB.
Significa que o país está quebrado? É duvidoso. Nosso segundo gráfico compara nossa dívida atual com o que ela representava no final do governo Fernando Henrique Cardoso: 81% do PIB, em setembro de 2002. Comparemos também com outros países. Nos Estados Unidos, a dívida é de 101% do PIB. Na Itália, 132,7%. Na Zona do Euro, em seu conjunto, 90,7%. No Japão, 229,2%. Você ouviu falar que algum destes países – todos com dívidas muito maiores que a brasileira – está em situação catastrófica? Algum jornal ou TV já acusou o ex-presidente FHC de irresponsabilidade fiscal?
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Os reais interesses por trás do discurso do país quebrado vão começar a aparecer agora. Qual a receita do governo Temer para reduzir a dívida brasileira? Cortar despesas sociais, como Saúde, Educação, Transportes Públicos, direitos previdenciários e em infra-estrutura: redes de esgoto, despoluição de rios, geração de energia, rodovias, ferrovias, portos, aeroportos. A PEC-241 estabelece uma medida drástica, nunca antes adotada pelo país. Se ela for aprovada, estes gastos ficarão congelados por vinte anos. Poderão ser reajustados – se tanto – apenas segundo a inflação. Não importa se a população crescer, ou se futuros governos quiserem investir mais no social. Os cinco próximos presidentes da República estarão condenados a viver sob congelamento. O deputado Elvino Bohn Gass calculou, num outro vídeo didático: as perdas poderão ser de R$ 703 bilhões só em três áreas: Saúde, Educação e Agricultura Familiar.
Mas vamos checar se há lógica no argumento do governo, de que o corte de gastos sociais poderá reequilibrar as finanças públicas. Examinemos, primeiro, a evolução destes gastos. O estudo mais completo a este respeito é, provavelmente, um trabalho da Secretaria do Tesouro Nacional do ministério da Fazenda, elaborado por uma equipe de onze especialistas e concluído este ano. Está disponível aqui.
O trabalho da secretaria do Tesouro Nacional classificou sete destinações do gasto social: Assistência Social, Educação e Cultura, Organização Agrária, Previdência Social, Saneamento Básico e Habitação, Saúde e Trabalho e Emprego. Analisou a evolução dos gastos em cada uma destas rubricas, entre 2002 e 2015. E concluiu que houve, de fato, elevação real.
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Veja no gráfico. Em conjunto, o gasto social da república avançou, no período, de 12,8% do PIB para 17,5% – um aumento de 4,7 pontos percentuais. Esta evolução reflete as políticas sociais dos governos Lula e Dilma. Criou-se o Bolsa Família. Houve aumento real do salário mínimo, que melhorou as aposentadorias e pensões. Foram criadas 18 universidades públicas. Centenas de milhares de famílias colocaram, pela primeira vez, um filho ou filha no ensino superior. O SUS continuou a executar programas pioneiros, como a distribuição gratuita de medicamentos a todos os portadores de HIV, e a realizar as cirurgias e procedimentos complexos – inclusive transplantes – que os planos de saúde privados não fazem. Tudo isso custa dinheiro e o Brasil está ainda muito distante de outros países. Na França, por exemplo, o equivalente ao Bolsa Família paga a cada pessoa ou família, por mês, entre 514 e 1079 euros – de R$ 1850 a R$ 3890 – a depender do número de filhos. Na maioria dos países europeus, e no Japão, o ensino da melhor qualidade é público e gratuito: os filhos dos pobres frequentam o mesmo tipo de escola dos filhos dos seus patrões.
Vamos comparar agora o gasto social – que será atingido pela PEC-241 – com outra despesa, não tocada pela Proposta. Estamos falando do pagamento de juros, pela República. Este gasto tem natureza diferente. Ele não coloca uma única carteira a mais, em sala de aula, ou um leito em hospital público. Não alivia o drama dos desempregados. Não ajuda o pequeno agricultor a alimentar os brasileiros. Não corrige o valor do bolsa-família nem das aposentadorias. Não ergue uma ponte, não instala um cano de esgoto. Ele se destina unicamente a engordar a riqueza de quem (menos de 1% da população) já tem tanto dinheiro que aplica o que sobra em papéis do governo – e ganha muito com isso.
Faça as contas, na ponta do lápis. Se a dívida pública chegou a 70,1% do PIB e se a taxa de juros paga pelo governo federal é de 14,25%, isso significa que pagamos à aristocracia financeira 10,11% do PIB. É mais do dobro de todo o aumento do gasto social (4.7% do PIB) ocorrido em treze anos. São 3,7 vezes o que investimos em Educação e Cultura, cinquenta vezes mais que os gastos em Reforma Agrária, vinte vezes mais que em Saneamento, cinco vezes a Saúde, oito vezes a promoção de Trabalho e Emprego.
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Num dos próximos programas, você verá que a analogia do ministro da Fazenda é simplória. A contas públicas de um país não podem ser comparadas às de uma família. Mas, por enquanto, vamos aceitar o argumento de Henrique Meireles. Se a MP-241 fosse aplicada a uma família, significaria congelar a compra de livros, a reforma ou o puxadinho na casa, os exames médicos da mãe e a compra de ferramentas para a oficina mecãnica que o filho está abrindo. Tudo isso, para preservar a jogatina do pai.
Ou, na verdade, para preservar aqueles que ganham com a jogatina do pai. Segundo a lógica da MP-241, os gastos sociais precisam ser cortados para que continue de pé a ética bizarra da acumulação financeira. Ela rejeita a colaboração, a coletividade, a alegria compartilhada. Suas marcas são o egoísmo, a competição, o suposto vencedor individual. Seus heróis são gente como Jorge Paulo Lehmann, o grande bilionário brasileiro, que segundo a revista Forbes Brasil é um gênio, porque ganha, por hora, R$ 2,26 milhões. São cerca de 15 mil bolsas famílias, ou 50 casas populares.
Se servir a esta lógica ao menos ajudasse a evitar a quebra do Brasil, talvez valesse a pena aceitá-la. Mas no programa de amanhã, você verá, com dados tão eloquentes como os de hoje, que não é assim. Se aceitar a MP-241, o país não praticará apenas uma grande injustiça. Ele mergulhará numa espiral descendente que só produz mais crise – embora enriqueça, sem parar, a aristocracia financeira de gente como Jorge Paulo Lemann.

Alzheimer: novo remédio tem resultados promissores

As primeiras fases de um estudo sobre uma nova droga contra o Alzheimer tiveram resultados muito promissores.


O remédio destrói as placas de proteína que se acumulam no cérebro de pacientes com a doença, e pode representar um tratamento alternativo muito esperado. Já faz mais de uma década desde que a última droga para pessoas com a condição foi licenciada.

A pesquisa foi feita pela empresa de biotecnologia Biogen em parceria com a Universidade de Zurique, na Suíça.

Aducanumab

A droga, chamada aducanumab, ainda está nos estágios iniciais de desenvolvimento. O estudo, publicado na revista Nature, foi feito para saber se ela é segura.

Os resultados foram positivos e também deram a entender que a droga pode parar o declínio de memória associado à doença.

Estudos maiores já estão em andamento para avaliar completamente os efeitos do aducanumab. É preciso ser cauteloso porque, como bem lembra a Dra. Tara Spires-Jones, do Centro de Sistemas Cognitivos e Neurais da Universidade de Edimburgo, “muitas drogas vão bem nesta fase inicial de teste e, em seguida, falham em testes maiores”.
Fase 3

O próximo passo da pesquisa – a fase 3 – envolve dois estudos separados com 2.700 pacientes em estágio muito precoce de Alzheimer por toda a América do Norte, Europa e Ásia.

A fase 3 vai testar completamente o efeito da droga no declínio cognitivo. O Dr. Alfred Sandrock, da Biogen, que está trabalhando com a Universidade de Zurique nesta pesquisa, disse: “A fase 3 realmente precisa ser feita, e espero que irá confirmar o que temos visto neste estudo. Eu poderia prever o tratamento no futuro de pessoas que não têm sintomas porque, se você tem amiloide no cérebro, é provável que você vai desenvolver Alzheimer um dia”.

Efeitos colaterais

A fase já concluída do estudo, com 165 pacientes, mostrou que o aducanumab é seguro. Após um ano de tratamento, também evidenciou que, quanto mais elevada a dose, mais forte foi o efeito sobre as placas amiloides.

Os pesquisadores ainda realizaram testes de memória nos pacientes e encontraram “efeitos positivos”.

No entanto, 40 pessoas abandonaram o estudo, metade devido a efeitos colaterais, tais como dores de cabeça. Estes eram muito mais comuns com uma dose mais alta da droga.
Diferenças nos cérebros dos pacientes após tomarem por um ano placebo e diferentes doses da droga
Diferenças nos cérebros dos pacientes após tomarem por um ano placebo e diferentes doses da droga
Resultados tentadores

Apesar da cautela, muitos profissionais estão animados com as novas possibilidades.

O Dr. David Reynolds, diretor científico do Alzheimer Research UK, disse que os resultados fornecem “evidência tentadora que uma nova classe de medicamentos para tratar a doença pode estar no horizonte”.

Já o Dr. James Pickett, diretor de pesquisa do Alzheimer’s Society, afirmou que a parte mais interessante do estudo é que mais amiloide foi “limpa” do cérebro quando as pessoas tomaram doses mais elevadas do medicamento. “Não há tratamentos existentes para a doença de Alzheimer que interferem diretamente com o processo da doença. Assim, uma droga que realmente retarda o progresso do Alzheimer, limpando amiloide [do cérebro], seria um passo significativo”.


Wallerstein: como deter a midiotia e a sua virada à direita


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Crise do capitalismo produz pobreza e dissidências ultra-conservadoras. Para vencê-las, central não é o poder de Estado, mas multiplicar nova organização a partir da base
Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Antonio Martins | Imagem:Eric Drooker | Outras Palavras
Como deter a virada à direita? Esta é a questão que as pessoas que se consideram à esquerda têm se colocado há algum tempo. Ela está sendo lançada, de diferentes maneiras, na América Latina, em boa parte da Europa, nos países árabes e islâmicos, no sul da África e no sudeste da Ásia. A questão é ainda mais dramática porque, em mutos destes países, a virada segue um período em que houve uma certa guinada à esquerda.
O problema para a esquerda são as prioridades. Vivemos num mundo em que o poder geopolítico dos Estados Unidos está em constante declínio. E vivemos num tempo em que a economia-mundo está reduzindo severamente os recursos dos Estados e das pessoas, a ponto de o padrão de vida da maior parte da população do planeta estar em declínio. Estes são os constrangimentos para qualquer atividade da esquerda, e é possível fazer pouco para superá-los.
Surgem, de modo crescente, movimentos que denunciam a política tradicional e os partidos de centro. Eles pedem políticas de transformação radicalmente novas. Mas há dois tipos de movimentos assim, que poderíamos chamar de uma versão de direita e uma de esquerda. A versão de direita pode ser encontrada na campanha de Donald Trump à Casa Branca, na cruzada anti-drogas do presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, no Partido da Lei e da Justiça, na Polônia, e em muitos outros. Para a esquerda, a prioridade número um é evitar que estes movimentos controlem o poder de Estado. Eles são basicamente xenofóbicos e exclusionistas. Usarão este controle do Estado para esmagar os movimentos de esquerda.
Ao mesmo tempo multiplicam-se, à esquerda, movimentos que se organizam com base em políticas radicalmente novas. Isso inclui a tentativa de Bernie Sanders para concorrer à presidência dos EUA pelo Partido Democrata; o esforço de Jeremy Corbin para que o Partido Trabalhista britânico reassuma seu apoio histórico a posições socialistas; o Syriza, na Grécia; o Podemos, na Espanha e muitos outros. Obviamente, quando tais movimentos parecem próximos a alcançar o poder de Estado, a direita (tanto a tradicional quanto a que se diz radicalmente anti-establishment) une-se para derrotá-los ou para forçá-los a modificar sua posição de modo abrupto. Foi o que aconteceu com o Syriza.
Portanto, este esforço tem limites implícitos. Os novos movimentos de esqueda acabam forçados a se comportar como outra versão de um partido social-democrata de centro-esquerda. Isso cumpre um papel. Limita, no curto prazo, os ataques aos mais pobres, reduzindo danos. Mas não ajuda na transformação social.
O objetivo de médio prazo, de estabelecer um novo sistema-mundo que seja mais democrático e igualitário, requer ação política de outro tipo. Requer organizar-se em toda parte, na base da sociedade, e construir alianças a partir de lá – mais do que a partir do poder de Estado. Este foi o segredo do fortalecimento recente dos movimentos anti-establishment de direita.
Para que prevaleça, na luta que ocupará os próximos vinte ou quarenta anos e que definirá o sistema sucessor do capitalismo existente – agora em declínio definitivo – a esquerda precisará combinar uma série de politicas. Alianças de curto prazo, para minimizar o mal que os orçamentos restritos fazem aos mais pobres. Oposição duríssima ao controle do poder de Estado pelos movimentos anti-establishment de direita. Constante organização política pela base. Isso é muito difícil e exige constante clareza de análise, opções morais sólidas sobre o tipo de outro mundo possível que queremos e sabedoria tática.

Altamiro Borges sobre o balcão de negócios da PEC da Morte, a 241






Por Altamiro Borges

O usurpador Michel Temer jogou pesado para aprovar a PEC da Morte – a proposta de emenda constitucional que congela por 20 anos os gastos públicos em saúde, educação e em outras áreas essenciais para a população mais sofrida do Brasil. Afinal, ele já vinha sendo cobrado pela elite empresarial – principalmente pelos abutres financeiros – que financiou o “golpe dos corruptos” e garantiu o seu assalto ao Palácio do Planalto. Ela exigia pressa nas “medidas impopulares” e até sinalizava que poderia trair o Judas mais cedo do que muitos imaginavam. Temendo a traição, o ilegítimo fez de tudo: do banquete macabro com os deputados na véspera da votação aos anúncios milionários na mídia chapa-branca.

Mas a vitória na votação de segunda-feira (10), na qual 366 deputados-carrascos aprovaram a PEC-241, não se deveu apenas ao convencimento no campo das ideias. Aos poucos, a imprensa venal vai revelando que o Palácio do Planalto se transformou em um autêntico balcão de negócios para “convencer” os nobres e éticos parlamentares. Uma notinha na Folha informa que em troca do apoio à PEC, os deputados cobraram cargos e benesses. “Com o esforço do governo em conseguir um placar folgado na votação da proposta de teto dos gastos públicos, integrantes da base aliada na Câmara dos Deputados aproveitaram a ofensiva do Palácio do Planalto para negociar a indicação de cargos em empresas estatais”.

“Segundo um assessor presidencial, ao longo do dia, deputados que estavam fechados desde o domingo pelo apoio à iniciativa pressionavam o Palácio do Planalto nesta segunda-feira (10) a atender seus pedidos aproveitando a votação considerada vital para o sucesso do governo Temer. Os pedidos, de acordo com auxiliares presidenciais, já eram esperados. ‘Nada que seja surpreendente. Sempre há um deputado federal, inclusive favorável à austeridade fiscal, que aproveita para fazer negociações de seu interesse’, avaliou um aliado do peemedebista. Para garantir a aprovação da proposta, o presidente montou uma força-tarefa ministerial, que incluiu a criação de um gabinete inteligência para identificar traições na base aliada e a exoneração temporária de auxiliares diretos que detêm mandato de deputado federal”.

Cargos nas estatais e ameaças aos “traidores”
Ainda segundo a reportagem, assinada pelos insuspeitos Valdo Cruz e Gustavo Uribe, o próprio Michel Temer “atendeu pelos menos quatro deputados federais que se mostraram indecisos sobre a iniciativa. Caso houvesse a necessidade uma abordagem mais direta, o presidente deixou a agenda de compromissos livre, assim como os ministros Eliseu Padilha e Geddel Vieira. Para evitar o esvaziamento do plenário, o Palácio do Planalto mandou cancelar todas as audiências marcadas com deputados federais em ministérios e estatais, como o Banco do Brasil e a Caixa. Além disso, montou um sistema online com atualizações sobre o número de congressistas que registram presença na sessão parlamentar”.

Já o Estadão informa que o balcão de negócios foi acompanhado de ameaças, de um verdadeiro terrorismo. O jornal revela que os “dissidentes”, os que não se submeteram às promessas de cargos e benesses ou às ameaças, deverão ser punidos. “O maior foco de irritação é com o PSB, que controla o Ministério de Minas e Energia e deu 10 votos contra a proposta do teto. A maioria deles veio de Pernambuco, estado governado pelo partido e base política do ministro Fernando Bezerra Coelho Filho”. O capanga Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil, já mandou avisar que “os traidores” serão exemplarmente punidos. “Quem votou contra a PEC não deve participar do governo”.

Mídia chapa-branca será recompensada
Nestes dias de tensão antes da aprovação da PEC da Morte, o Judas Michel Temer e seus jagunços tiveram um aliado fiel, sem qualquer risco de “traições”. A mídia rentista, por razões político-ideológicas e por motivos meramente mercenários, não vacilou um segundo na defesa do corte dos gastos públicos na saúde e educação e na garantia do dinheiro em caixa para pagar os banqueiros. Em editoriais e generosas reportagens, os jornalões, as revistonas e as emissoras de rádio e televisão bombardearam os “midiotas” com farta munição para justificar a “austeridade fiscal”. Nesta terça-feira (11), passada a refrega, a mídia chapa-branca esbanjou euforia com a “vitória folgada” da PEC da Morte.

No jornal O Globo, da bilionária famiglia Marinho, a ex-urubóloga Miriam Leitão soltou rojões: “A PEC do teto de gastos não resolve o problema, mas sem ela a situação se agravaria muito... A vitória por 366 votos foi significativa, mas é só o primeiro passo”. Já o Estadão elogiou a “firmeza” de Michel Temer e garantiu que a votação criou “as condições políticas para tornar possível o urgente ajuste das contas públicas e a consequente retomada do crescimento econômico”. No mesmo rumo, a Folha aplaudiu a aprovação da PEC da Morte. Diante de tamanho servilismo, talvez nos próximos dias a Secretaria de Comunicação (Secom) do covil golpista até eleve ainda mais as verbas publicitárias para a mídia chapa-branca!

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Fragmentar a sociedade, projeto conservador das elites




Para Márcio Pochmann, terceirização geral, em debate na Câmara e STF, reflete projeto de oligarquias financeira e agrária, que já não tem projeto para país — exceto punção da riqueza e trabalho
Por Carlos Drummond, na Carta Capital
A universalização da terceirização, seja a aprovada pelos deputados e em tramitação no Senado, seja a da proposta em análise no Supremo Tribunal Federal, é a uberização da força de trabalho, chama a atenção Marcio Pochmann, presidente licenciado da Fundação Perseu Abramo e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Faz parte do projeto da nova elite agroexportadora, que mantém a desigualdade, em contraposição às propostas fragmentadas da parcela da sociedade que gravita em torno dos serviços e está nas ruas, explica o economista da Unicamp na entrevista a seguir.
Como a terceirização cresceu?
Marcio Pochmann: No fim dos anos 1980, início dos 1990, da recessão do governo Collor e da abertura comercial, expuseram o parque produtivo brasileiro à competição internacional sem condições adequadas. Isso culminou em uma reação dos empresários para reduzir custos. A terceirização permitia às empresas concentrar-se nas atividades finalísticas e repassar as atividades-meio, fugindo do modelo fordista em que a empresa fazia tudo. Esse era o discurso que veio de fora. 
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A terceirização, segundo as empresas, aumenta a produtividade.
A terceirização aumentou muito com a desregulamentação dos anos 1990, do governo Fernando Henrique basicamente como mecanismo de redução de custos e precarização do trabalho. Nesse período, o País não teve ganhos de produtividade. A partir do ano 2000, com o ambiente econômico mais favorável, houve uma ampliação do setor produtivo, com empregos não terceirizados entramos em um ambiente de quase pleno emprego nos melhores momentos.
A recessão estimula a terceirização?
Ela voltou a ganhar espaço no ambiente recessivo, de forte pressão sobre os custos das empresas. O projeto aprovado na Câmara e agora à disposição dos senadores é o inverso do defendido por juristas, especialistas, trabalhadores e sindicatos, de regular a atividade terceirizada de modo a comprometê-la com o ganho da produtividade em vez da redução de custos. A legislação em tramitação não é para os terceirizados, é para universalizar os não terceirizados. 
Como vê essa perspectiva?
Associo a universalização da terceirização ao processo de uberização da força de trabalho no Brasil. A ideia do serviço de táxi desregulamentado do Uber é inviabilizar impostos e tributos. O governo está preocupado com fundos públicos para financiar a Previdência, mas a terceirização certamente vai implicar menos arrecadação para o Estado. É coerente com a proposta de relação direta entre patrão e empregado. Descarta-se o sindicato, não há regulação. É uma volta ao século 19. 
Quais seriam as perspectivas?
Vivemos uma fase de reavaliação do projeto de redemocratização do Brasil dos anos 1980. Acreditávamos que a democracia poderia ser uma possibilidade de mudança, mas ela não permite isso, toda conquista vai por água abaixo. De 1981 a 2016, a economia brasileira cresceu 2% ao ano em média. Isso dá 0,6% per capita. Estamos num ciclo de decadência da industrialização, que começou nos anos 1980. Hoje a indústria representa 7% do PIB. É uma fase longa de decadência econômica, mas também política, dos valores culturais, dos relacionamentos, das instituições, algo muito maior. Olhamos o curto prazo, o cotidiano, mas há um movimento maior nisso. 
Que movimento seria esse?
Os partidos e os sindicatos são vinculados ao mundo industrial, mas estamos numa sociedade de serviços, onde há quase o mesmo tipo de relação existente na sociedade agrária, sem laços. A situação não propicia compromissos de médio e longo prazo. É uma sociedade gelatinosa, não converge para absolutamente nada. Veja o exemplo de Campinas, que teve uma base industrial operária. Hoje, 21% do emprego da classe trabalhadora está ligado a dez shopping centers. É o mundo dos serviços.
Reúne o trabalhador não empregado, mas parceiro ou sócio, que ganha em razão das vendas. Os assalariados da faxina, limpeza, segurança e manutenção. Os vendedores das lojas de grife, do MacDonald’s, dos cinemas. Não tem nada que os una, circulam sob o mesmo teto sem diálogo, não são companheiros, não são colegas. O shopping é uma agregação de empreendimentos sem identidade. É a situação pós-moderna, de fragmentação socioeconômica. Muito diferente da situação da fábrica. Os trabalhadores não se conhecem, mas há ali a figura do dono ou do diretor-geral, que define o salário.
Qual seria a alternativa?
Estamos diante de uma crise de projeto da sociedade brasileira. Há ocaminho da elite dirigente, proveniente de um projeto do passado, primário-exportador. A fração nova dessa elite está em parte do Centro-Oeste e do interior do Nordeste, onde se localiza boa parte dos 30% dos municípios brasileiros que cresce mais de 7% ao ano por causa do agronegócio. Essa elite não existia até os anos 1980, é resultado das opções que o País fez, do ajuste exportador, da valorização cambial, do investimento público nas pesquisas da Embrapa. Há um êxito aí, mas aponta para um rumo que não é o de uma nação desenvolvida, mas o de um Brasil que reproduzirá as desigualdades.
É um projeto que não gera riqueza suficiente para repartir de forma digna, justa. Em contrapartida, há o outro lado do País, urbano e dependente dos serviços. Aí existe a possibilidade de formação de outra maioria, que não se identifica hoje com partidos e sindicatos, depende da eficiência do Estado e quer serviços decentes e ética na política. Esse pessoal está nas ruas, tem uma crítica e se manifesta, mas isso não resulta em liderança, proposições, numa instituição que possa dar conta dessa realidade. Não consegue convergir para um projeto. Há, portanto, o embate desses dois projetos, em disputa para superar o modelo velho, que está em crise.