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terça-feira, 9 de abril de 2019

Para todos os que resistem ao mal e ao autoritarismo, por Urariano Mota


"A vida é o que resiste. Que contradição mais estranha, eu descubro e me digo: a vida, tão breve, é tudo que resiste. É que existe uma resistência na duração do momento..."

Para todos resistentes
Por Urariano Mota
Trecho do romance “A mais longa duração da juventude” para a resistência hoje e sempre:
“A vida é o que resiste. Que contradição mais estranha, eu descubro e me digo: a vida, tão breve, é tudo que resiste. Mas que paradoxo: se ela está no tempo que se dirige para o fim, se ela é naquilo que deixará de ser, como resistirá à Irresistível? – É que existe uma resistência na duração do momento, pela intensidade, luz ou cintilação do breve. É como o brilho da estrela distante que recebemos agora, “agora” ainda. Mas esse agora simultâneo não há. O que vemos já não mais existe, tamanha foi a distância que a luz percorreu no espaço até atingir a nossa percepção. Mas isso é do terreno da física, mecânico, do reino dos trezentos mil quilômetros por segundo. O que escrevo é de outra natureza.
A resistência, que é vida, se faz na brevidade pelas ações e trabalho dos que partiram e partem. Mas nós, os que ficamos, não temos a imobilidade da espera do nosso trem. Nós somos os agentes dessa duração, o trem não chegará com um aviso no alto-falante, ‘atenção, senhor passageiro, chegou a sua hora’. Até porque talvez chegue sem aviso, e não é bem o transporte conhecido. O trem é sempre de quem fica. E porque somos agentes da duração, a nossa vida é a resistência ao fugaz. Nós só vivemos enquanto resistimos”.

terça-feira, 26 de março de 2019

Do DCM: Lideranças progressistas definem resistência ao desgoverno Bolsonaro: pela soberania do Brasil. Por Joaquim de Carvalho


Os ex-candidatos a presidente Fernando Haddad e Guilherme Boulos se reuniram com Sônia Guajajara, candidata a vice na chapa de Boulos, o governador Flávio Dino e o ex-governador Ricardo Coutinho para definir estratégia de resistência ao desgoverno Bolsonaro. Leia a nota:



Haddad, Boulos,,Sônia Guajajara, Flávio Dino e Ricardo Coutinho

Nota à Imprensa
Brasília, 26 de março de 2019
Reunidos nesta manhã em Brasília, realizamos um debate sobre o atual momento nacional, especialmente considerando o rápido e profundo desgaste do Governo Bolsonaro. Destacamos alguns pontos para reflexão de toda a sociedade:

1. Estamos atentos e mobilizados para evitar agudos retrocessos sociais, trazidos por esse projeto de Reforma da Previdência, centrado no regime de capitalização e no corte de direitos dos mais pobres.
2. Do mesmo modo, convidamos para a defesa da soberania nacional. Consideramos que por trás do suposto discurso patriótico do atual governo há, na prática, atitudes marcadamente antinacionais, como vimos na recente visita presidencial aos Estados Unidos.
3. Em face da absurda decisão do Governo Bolsonaro de “comemorar” o Golpe Militar de 1964, no próximo dia 31 de março, manifestamos nossa solidariedade aos torturados e às famílias dos desaparecidos. Sublinhamos a centralidade da questão democrática, que se manifesta na defesa do Estado de Direito, das garantias fundamentais e no repúdio a atos de violência contra populações pobres e exploradas, a exemplo das periferias, dos negros e dos povos indígenas. Não aceitamos a criminalização dos movimentos sociais, uma vez que eles são essenciais para uma vivência autenticamente democrática.
Nesse contexto, é urgente assegurar ao ex-presidente Lula seus direitos previstos em lei e tratamento isonômico, não se justificando a manutenção de sua prisão sem condenação transitada em julgado.
Por fim, essa reunião expressa o desejo de ampla unidade do campo democrático para resistir aos retrocessos e oferecer propostas progressistas para o Brasil.
Fernando Haddad
Ex-candidato a presidente da República
Guilherme Boulos
Ex-candidato a presidente da República
Flávio Dino
Governador do Maranhão
Sonia Guajajajra
Ex-candidata a vice-presidente da República
Ricardo Coutinho
Ex-governador da Paraíba
Fonte: DCM

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Feliz Ano Novo de Resistência, por Henrique Vieira



  O autoritarismo e o elitismo dos poderosos não toleraram discursos e práticas de valorização da pessoa humana e das minorias.... A mesma mentalidade persecutória e elitista matou Jesus, encarcerou e depois estimulou a execução de Gandhi, assassinou Martin Luther King e Chico Mendes.... Mas eles ajudaram a mudar o mundo.... pela resistência à opressão.... Façamos nossa parte a partir de seus exemplos... Assistam o vídeo abaixo do pastor progressista Henrique Vieira e boas reflexões...  Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Do Canal Mídia Ninja:




domingo, 30 de dezembro de 2018

Filósofo Paulo Ghiraldelli: Como enfrentar Bolsonaro? A Filosofia Social pode colaborar aqui...


Do canal de Paulo Ghiraldelli:



Consumismo, elitismo, vaidade, individualismo, midiotia, falta de leitura, falta de estudos e narcisismos: terreno fértil à imbecilização fascista...

LEIA: O indivíduo e a “sociedade de consumo”: características da contemporaneidade http://ghiraldelli.pro.br/filosofia-s...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Le Monde Diplomatique: Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido no Brasil - 50 anos de pertinência, por Patrícia Martins Gonçalves




Depois de 50 anos de sua publicação, “Pedagogia do Oprimido” continua atual e se faz necessária e fundamental, porque Educação é muito mais que garantir boas notas em testes, como pretende os interesses das classes dominantes. O fazer educativo é um processo vivo, orgânico, cotidiano de formação humana e socialização

Do Le Monde Diplomatique


Comemoramos o aniversário de cinquenta anos da obra “Pedagogia do Oprimido” do educador Paulo Freire, a qual tem grande significado para a Educação e para a concretização da democracia não só no Brasil, mas em qualquer outra nação, pois trata do fenômeno educativo como um processo situado na sociedade e, portanto, como emancipação humana na História de Luta, fazendo do ato educativo um processo de leitura do mundo, da realidade e de si mesmo.

Paulo Freire é um educador da simplicidade e da profundidade, suas palavras nos guiam para um olhar concreto diante da realidade e para a atitude democrática coletiva que é inerente ao fenômeno da Educação. Esse olhar em sua obra é acompanhado de contexto social, político e cultural, o que possibilita a percepção e a construção da consciência de classe, conhecimento necessário para que possamos nos libertar coletivamente da injustiça social que assola o Brasil e os demais países em desenvolvimento na hegemonia capitalista atual. A Pedagogia do Oprimido é uma de suas obras mais importantes e, talvez, mais prática e direta no que concerne à ação transformadora da realidade através da práxis cultural, política e comunitária em Educação.

Uma das tendências das sociedades capitalistas é adulterar a Educação para que esta seja alienadora e preparadora para a submissão diante da exploração do trabalho e da competição do mercado. Isso gera disparidades econômicas, desigualdades sociais extremas, junto com injustas ambientais. Gera ainda escolas de qualidade para as classes dominantes e escolas precarizadas para as classes trabalhadoras e, assim, reproduz a mão de obra necessária para a perpetuação da exploração e das contradições do mundo do trabalho no contexto do capital: a relação patrão e empregado, explorador e explorado, opressor e oprimido, ou seja, a exploração do mais fraco pelo mais forte. Padrões desumanos que se modificam e se ajustam ao processo histórico para a sobrevivência do capital. Essa percepção mostra que estes padrões de relações são tão presentes em nossos dias como foram no passado, porém, assumem novas formas e roupagens frutos do complexo desenvolvimento das estruturas sociais ao longo da História.

Nesse contexto social e histórico, portanto, a Educação verdadeiramente humanista e emancipadora perpassa a Pedagogia do Oprimido, pois a libertação parte, na verdade, do explorado e não do explorador. O ato de “leitura do mundo” no processo educativo, leva à descoberta de si, pois é diante da totalidade que nos conhecemos, surgem problemas e curiosidades, as quais são fundamentais para manter acesa a chama do prazer de aprender, assim, as respostas encontradas levam a novas perguntas, este processo investigativo é o que leva ao aprendizado e à construção do conhecimento.

Conhecer, portanto, a realidade leva à investigação histórica, que leva à constatação da contradição da desumanização na História humana, ou seja, da “humanidade roubada” (FREIRE, 2014, p. 41), a qual não é uma fatalidade ou vocação histórica, mas uma deformação, “é distorção da vocação do ser mais” e, portanto, é passível de transformação e de libertação. Tal concepção de fazer educativo mostra que a desumanização não é um “destino dado, mas resultado de uma “ordem” injusta que gera violência dos opressores” contra os oprimidos, “e esta, o ser menos” (FREIRE, 2014, p. 41). Diante disso, o processo de libertação é necessariamente coletivo e, por isso, a Educação é parte fundamental da emancipação humana.

Paulo Freire diz que a luta libertadora é um ato de amor, pois se opõe “ao desamor contido na violência dos opressores, até mesmo quando esta se revista da falsa generosidade” (p. 43), ou seja, na violência simbólica e na expropriação cultural, quando a consciência do opressor se faz hospedeira nas consciências dos oprimidos. No entanto, a libertação e superação da opressão não se dá em termos puramente idealistas, mas pela luta e pela ação. É preciso saber contra o que estamos lutando, portanto, Freire cunha o conceito de “educação bancária”:

Essa concepção “bancária” implica […] aspectos que envolvem sua falsa visão dos homens. […] Sugere uma dicotomia inexistente homens-mundo. Homens simplesmente no mundo e não com o mundo e com os outros. Homens espectadores e não recriadores do mundo. Concebe a sua consciência como algo espacializado neles e não aos homens como “corpos conscientes”. A consciência como se fosse alguma secção “dentro” dos homens, mecanicistamente compartimentada, passivamente aberta ao mundo que irá “enchendo” de realidade. Uma consciência continente a receber permanentemente os depósitos que o mundo lhe faz, e que vão sendo transformados em seus conteúdos. Como se os homens fossem uma presa do mundo e este, um eterno caçador daqueles, que tivesse por distração “enchê-los” de pedaços seus (FREIRE, 2014, p. 87). 

A exploração acontece muito fortemente no campo do pensamento, do conhecimento, da Educação e até do entretenimento. Atualmente no Brasil vivemos uma espécie de síntese histórica onde é possível enxergar o resultado do papel manipulador da mídia alienadora das consciências, da imposição do pensamento, valores e interesses das classes dominantes sobre as massas humanas das camadas das classes trabalhadoras, que são a verdadeira força motriz que impulsiona a produção da riqueza do país. Essa ação manipuladora das grandes mídias das classes dominantes disputa espaços de influência no campo da Educação, na construção de políticas públicas e no direcionamento dos financiamentos, dessa forma, vem deformando processos educativos e implementando uma pedagogia alienadora, focada no medo, na obediência, na competição, etc., tais forças têm crescido aceleradamente e vêm se tornando hegemônicas mundialmente.

A concepção e a prática “bancárias”, imobilistas, “fixistas”, terminam por desconhecer os homens como seres históricos, enquanto a problematizadora parte exatamente do caráter histórico e da historicidade dos homens. Por isso mesmo é que os reconhece como seres que estão sendo, como seres inacabados, inconclusos em e com uma realidade, que sendo histórica também, é igualmente inacabada. Na verdade, diferentemente dos outros animais, que são apenas inacabados, mas não são históricos, os homens se sabem inacabados. Têm a consciência de sua inconclusão. Aí se encontram as raízes da educação mesma, como manifestação exclusivamente humana. Isto é, na inconclusão dos homens e na consciência que dela têm. Daí que seja a educação um quefazer permanente. Permanentemente, na razão da inconclusão dos homens e do devenir na realidade (FREIRE, 2014, p. 102).

Portanto, atualmente a “Pedagogia do Oprimido”, depois de 50 anos de sua publicação, continua atual e se faz necessária e fundamental, porque Educação é muito mais que garantir boas notas em testes, como pretende os interesses das classes dominantes. O fazer educativo é um processo vivo, orgânico, cotidiano de formação humana e socialização. Paulo Freire conseguiu nesta obra integrar a filosofia da práxis à elaboração de uma pedagogia libertadora, estética e sensível, pois que a democracia e a prática da liberdade coletiva no fazer educativo é, antes de tudo, uma atitude do corpo. Freire ao justificar a obra intenciona que as mãos das pessoas “[…] se estendam menos em gestos de súplica. Súplica de humildes a poderosos. E se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas que trabalhem e transformem o mundo” (p. 42).

A obra é uma ferramenta madura para a transformação da Educação opressora e bancária e para garantir a democracia como parte inerente da prática coletiva e educativa, seja ela, escolar, formal, não-formal, popular, cultural ou política. Todos esses atos coletivos devem ser permeados por processos educativos e não propagandísticos e publicitários. A diferença libertadora se dá na reflexão e ação sobre o mundo, a realidade, a História, sobre a superação opressor-oprimidos e não processos de marketing e manipulação como temos visto no processo eleitoral e comunicativo brasileiros. Isso mostra o quanto a nossa democracia é incipiente e o quanto a “Pedagogia do Oprimido” se faz necessária à Educação brasileira e dos países em desenvolvimento.

Referência
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, 57. ed. Rev. e atual. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

Patrícia Martins Gonçalves é doutoranda em Educação no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação Processos Socioeducativos e Práticas Escolares da Universidade Federal de São João del- Rei – Minas Gerais. Trabalha há mais de 10 anos na área de Educação, com ênfase em artes, permacultura e educação ambiental, em projetos sociais e escolas.



quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Uma agenda para os próximos passos (na luta contra o neo-fascismo), por Ion de Andrade


  "Esse híbrido entre Estado fascista e Estado de direito está sustentado pelo manejo das redes sociais que são a principal engrenagem a formar a vontade coletiva que os sustenta. Ao lado delas, um moralismo repressivo e homogeneizador, veiculado por algumas instituições religiosas, mas não só, dá forma a uma “infantaria” que veicula no “corpo a corpo” a face “moralizadora” do regime no mundo real. No topo do comando do Estado, esse moralismo (destinado ao povo) cede espaço para uma intelectualidade mais sofisticada e laica formada em escolas americanas, conservadora na gestão da administração pública e neoliberal na da economia e finanças."





Em show, Roger Waters lista Bolsonaro como neo-fascista, junto a outros presidentes atuais - Foto: Reprodução
Por Ion de Andrade
Uma agenda para os próximos passos
Os resultados das eleições no Brasil e as tendências que parecem despontar no horizonte em diversos países apontam para um cenário novo onde valores alinhados ao nazi-fascismo se fundem a um ordenamento que (para manter a legitimidade) parece querer dar continuidade aos aspectos formais do Estado de direito.
O que está em andamento sinaliza para uma busca de equilíbrio entre a normalidade institucional e o autoritarismo capaz de dar legitimidade e longevidade à experiência autoritária. Nisso esse fenômeno parece novo e essa “novidade” pode estar tornando “velha” toda a política anterior baseada nos equilíbrios que até então sustentaram a democracia como a concebíamos.
Esse híbrido entre Estado fascista e Estado de direito está sustentado pelo manejo das redes sociais que são a principal engrenagem a formar a vontade coletiva que os sustenta. Ao lado delas, um moralismo repressivo e homogeneizador, veiculado por algumas instituições religiosas, mas não só, dá forma a uma “infantaria” que veicula no “corpo a corpo” a face “moralizadora” do regime no mundo real. No topo do comando do Estado, esse moralismo (destinado ao povo) cede espaço para uma intelectualidade mais sofisticada e laica formada em escolas americanas, conservadora na gestão da administração pública e neoliberal na da economia e finanças.
Esse Regime novo, que surge das entranhas da experiência (tardia entre nós) de uma “democracia” similar a tantas outras do pós-guerra, sustentada por uma esquerda e uma direita teoricamente concordantes sobre uma ordem constitucional que pactuaram previamente, precisa ser estudado ao detalhe. É condição para que os valores do pluralismo, da democracia e da inclusão social possam recuperar algum tipo de protagonismo na política.
Toda essa necessária reflexão e acúmulo deverá ter papel nos próximos passos a serem trilhados na sociedade e já deveria influenciar as eleições municipais de 2020 quando, sejam quais forem as circunstâncias, forças políticas antagônicas se enfrentarão em torno de projetos de sociedade. Aliás, qual é mesmo o projeto de sociedade das forças progressistas para o âmbito dos municípios e cidades?
Não adiantará o discurso repetitivo e reativo motivado pelas iniciativas do campo vitorioso, o "Soy Contra" de hoje.
Esse exercício de aprendizado, já complexo por si mesmo, tem um adversário de peso: não há nada a aprender se já se sabe de tudo.
A ausência da autocrítica, que é, metodologicamente falando, parte integrante da reflexão que se impõe, convertida que foi em pecado, poderá prolongar o tempo de aprendizado do campo progressista, inibindo a sistematização de uma agenda proativa capaz de influenciar os rumos da política e permitir acúmulos.
A ausência dessa agenda, além disso, contribuirá também para um baixo tônus na ocupação dos espaços democráticos pelas forças progressistas, facilitando a marcha autoritária.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Estudantes vão à escola de roupas pretas como sinal de resistência após vitória do fascismo Fake News




Por Debora Fogliatto
Em pelo menos três escolas de Porto Alegre, estudantes foram às aulas usando roupas pretas na manhã desta segunda-feira (29) como forma de demonstrar que se opõem à eleição de Jair Bolsonaro (PSL) como próximo presidente do Brasil. Os alunos dos colégios Aplicação e Bom Conselho também levaram faixas e placas, enquanto no Marista Rosário eles fizeram um ato simbólico dando as mãos e formando um grande círculo no pátio da instituição.
Os protestos ocorreram de forma orgânica, segundo o estudante do Bom Conselho José de Almeida Lemos, de 15 anos, que conta que na noite de domingo (28) começaram a circular fotos nos stories do Instagram sugerindo que quem havia ficado triste com os resultados usasse roupas pretas para ir à escola. Por isso, um grande número de estudantes acabaram aderindo ao chamado.
De acordo com José, os professores da escola não se manifestaram de forma contrária ao protesto, nem a coordenação. “Tiveram dois alunos, eleitores do Bolsonaro, que tiraram fotos no momento que estava ocorrendo o protesto e encaminharam para a coordenação. A coordenação não procurou ninguém que estava protestando pra falar sobre o assunto”, contou.
Além das vestimentas, os estudantes do Bom Conselho também levaram uma faixa escrito “resistência” e bandeiras LGBT. Também havia bandeiras do movimento no Rosário, onde os estudantes entoaram “seremos resistência”. No Aplicação, eles tiraram uma foto com cartazes que formam as palavras “ele não”.
A educação tem sido um dos campos de mais disputa nessas eleições, assim como na política em geral nos últimos anos. Em todo o país, defensores do programa Escola Sem Partido ganham espaço e influência, alegando que há “doutrinação política” ocorrendo nas escolas. Durante a campanha, diversas instituições de ensino tiveram seus banheiros pichados com dizeres preconceituosos, especialmente racistas, e a Universidade de Brasília chegou a ter livros de direitos humanos de sua biblioteca rasgados.
Ao mesmo tempo, as escolas e universidades também se transformaram em espaços de resistência e luta contra a ameaça de um governo autoritário. Na última semana, diversos campi chegaram a ser invadidos por policiais federais e militares por supostamente terem recebido manifestações de cunho eleitoral. Em Porto Alegre, uma faixa foi tirada da Escola Estadual Padre Reus na semana anterior, e um evento pela democracia foi transferido para o Viaduto Brooklyn após ser proibido de ocorrer de Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
No Ceará, um professor de uma escola em Fortaleza foi criticado por defensores de Bolsonaro e acusado de “doutrinação comunista” após exibir o filme “Batismo de Sangue”, que conta a história de dois freis católicos torturados durante a ditadura militar por se oporem ao regime. Mas nesta segunda-feira, o professor foi saudado por seus estudantes, que lotaram os corredores do colégio aplaudindo o docente quando ele chegou à instituição.
Continue lendo o texto original clicando aqui.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Um gosto amargo de juventude na boca, por Mauro Lopes


"A morte de Herzog foi um dos maiores eventos de minha juventude. Vladimir Herzog. Vlado,  foi torturado e assassinado numa cela do DOI-CODI na sede do II Exército em 1975, quando eu tinha 15 anos de idade. Foi um marco no processo que me levou à união com milhares de outros jovens na luta contra a ditadura."

Segue o texto de Mauro Lopes publicado no Brasil 247



Sinto um gosto amargo de juventude na boca. É um gosto inesperado. Pode soar estranha a afirmação, pois, diz a regra, na medida em que envelhecemos cultivamos nostalgia dos tempos do pleno vigor -apesar de esta “regra” ser mais um lugar comum que propriamente uma regra da vida. Mas, vá lá. O fato é: este e não outro é o gosto desta hora, quando estamos às vésperas de 28 de outubro e a possibilidade de vitória de Bolsonaro não pode ser ignorada ou menosprezada.
A morte de Herzog foi um dos maiores eventos de minha juventude. Vladimir Herzog. Vlado,  foi torturado e assassinado numa cela do DOI-CODI na sede do II Exército em 1975, quando eu tinha 15 anos de idade. Foi um marco no processo que me levou à união com milhares de outros jovens na luta contra a ditadura.
A geração à qual pertenço recebeu o bastão de uma geração de jovens que enfrentou o combate mais duro com o preço de muita prisão, tortura e morte e o passamos para outros que viveram o encerramento da ditadura.
Foi uma juventude intensa, de momentos de grande alegria, encontros e relações carregadas de significado; ao mesmo tempo, reuniões e atividades clandestinas, de convivência com o medo, o risco da prisão, de apanhar na rua da PM a cada protesto, a cada passeata.
O clima era de tanto medo em função da violência da ditadura que nos  encontrávamos com os dirigentes partidários nos “pontos”, lugares pré-estabelecidos numa esquina ou qualquer outro ponto de referência público e a conversa acontecia andando, enquanto  discretamente olhávamos ao redor, a saber se não estávamos sendo seguidos. Se o dirigente não aparecesse no “ponto”, era sinal de que podia ter sido preso. Se não aparecesse no “ponto” seguinte, era dada como certa sua prisão e todos os militantes a ele vinculados cuidavam de mudar suas rotinas, por vezes mudavam de casa.
Vivíamos assim, sobressaltados. Nosso pão era a utopia e o desejo de liberdade.
Essas gerações de jovens que vivenciaram o confronto com a ditadura acabaram por entregar a seus filhos um país diferente. Filhos e filhas que só experimentaram democracia; como jovens, elegeram Lula e viveram sem medo -em que pese o medo de sempre do massacre nas periferias, no campo, das pessoas que se descobriram LGBTI. Gerações que imaginaram serem os governos do PT o patamar mínimo civilizatório do país e olhavam com esperança para o futuro, imaginando avanços ainda maiores.
Mas há uma sombra que encobre a esperança, o medo volta a rondar e dessa vez assalta os sobreviventes da luta contra a ditadura e os filhos, filhas, netos e netas que saborearam democracia e paz na juventude e no ingresso à vida adulta.
É mesmo um gosto amargo esse de juventude que sinto agora.
Mas, aviso. Não nos sentíamos derrotados mesmo com as prisões e as torturas que nos roubavam pessoas queridas. Lutávamos o bom combate, fazíamos nossa corrida, guardávamos a esperança e a fé num tempo novo.
Não será portanto este gosto amargo que sobe à boca com as pesquisas e as ameaças dos fascistas que irão nos amedrontar.
Avós, pais e mães, filhos e netos estão por todos os cantos lutando. Lado a lado.
Venceremos?
Impossível saber agora. As condições são duras. Mas os que lutam pela liberdade e a paz não o fazem pela certeza da vitória. O que nos move é a justiça de nossa causa.




sábado, 16 de dezembro de 2017

Previdência: a Argentina também resiste



Foto: Julieta Sou
 
Do blog Outras Palavras
 
 
Em resposta ao repúdio popular massivo, mais de mil oficiais das forças policiais argentinas foram colocados nas ruas de Buenos Aires
 
Os próprios oficialistas foram obrigados a suspender a votação da Contrarreforma Previdenciária argentina na Câmara de Deputados na tarde de hoje, após episódios de violência que deixaram dois parlamentares da oposição e vários manifestantes feridos.
 
Os protestos desta quinta-feira (14), começaram às 9h da manhã (horário de Brasília) e reuniram até às 15h, horário previsto para a votação, milhares de trabalhadores contrários à reforma que pretende economizar 100 bilhões de pesos argentinos (aproximadamente 20 bilhões de reais) para o Estado às custas de 17 milhões de aposentados, pensionistas e beneficiários de programas sociais.
 
Convocados pela CTA (Central Autônoma dos Trabalhadores) e a CGT (Central Geral dos Trabalhadores), os manifestantes marcharam pela Avenida de Maio em direção ao Congresso Nacional, mas tiveram que recuar ao serem reprimidos pelas forças policiais.
 
Mais de mil oficiais da Polícia Federal, Gendarmeria (a Força Nacional Argentina) e Polícia de Segurança Aeroportuária participaram da ação. Bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e jatos de água com corante eram atirados nos manifestantes que abriam a manifestação e em um grupo de pessoas mascaradas que se separou dos manifestantes para jogar pedras e garrafas nos policiais.
 
Enquanto isso, dentro do Congresso, os policiais impediam a entrada de deputados da oposição na sala de votação; entre eles, Axel Kicillof, ex-ministro de economia do governo de Cristina Kirchner. Ao menos dois deputados ficaram feridos; um deles foi levado em uma ambulância após receber um golpe de um dos policiais.
 
Também houve muita confusão entre os parlamentares. Para iniciar a sessão, eram necessários 129 deputados. O presidente da câmara, Emilio Monzó (PRO-Cambiemos), da base governista, anunciou às 15h30 que o quórum mínimo tinha sido atingido, mas a oposição questionou o número e a validade da sessão, e denunciou a repressão policial. Muita discussão e até empurra-empurra depois, por volta das 16h15, a deputada governista Elisa Carrió também pediu que a sessão fosse anulada e teve o seu pedido acatado por Monzó. Enquanto a oposição comemorava o adiamento e denunciava a atuação truculenta inédita do lado de fora, governistas diziam que a oposição tinha agido de forma violenta dentro do plenário.
 
A contarreforma previdenciária proposta pelo governo altera o critério de atualização dos benefícios de aposentados, pensionistas, pessoas com deficiência e beneficiários de programas de renda mínima. A aprovação da proposta somente é possível porque uma parte da oposição peronista, composta pelos governadores, negociou com o governo para que uma parcela dos recursos economizados seja destinada às províncias, que atualmente estão fortemente endividadas.
 
O projeto, que já recebeu meia sanção do Senado, deveria ser votado na Câmara de Deputados teve sua tramitação adiantada pelo partido do governo, para que a votação acontecesse hoje, data que coincide com o fim da Reunião Ministerial da OMC na cidade.
O efetivo militar preparado para garantir a segurança de executivos e autoridades de Estado do mundo todo que participaram do evento foi então aproveitado para reprimir os protestos que já haviam começado desde terça-feira. A resistência, no entanto, deve continuar. A CGT (Central Geral dos Trabalhadores) convoca para amanhã uma greve geral de 24 horas.
 
Veja o vídeo aqui.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Boaventura de Sousa Santos e João Bosco contra a truculência da PF na UFMG


Do Outras Palavras:
171207-JoãoBosco“A Esperança Equilibrista é outra”, garante o compositor. “Não se deixem intimidar: a resistência falará mais alto”, completa o sociólogo

Mensagem de Repúdio pela coerção do reitor da UFMG

Por Boaventura de Sousa Santos
Na minha qualidade de Director do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, quero manifestar o mais vivo repúdio pela despropositada e ilegal condução coercitiva de que foi vítima o Reitor e a equipa reitoral da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Quero ao mesmo tempo testemunhar a mais veemente solidariedade a estes académicos íntegros e quero pedir-lhes, em nome da comunidade académica internacional, que não se deixem intimidar por estes actos de arbítrio por parte das forças anti-democráticas que tomaram conta do poder no Brasil.
Eles sabem bem que nada disto tem a ver pessoalmente com eles enquanto indivíduos, pois sabem que não há nenhuma razão jurídica que justifique tais acções. Os actos de que são vítimas visam, isso sim, desmoralizar as universidades públicas e preparar o caminho para a sua privatização.
Estamos certos que estes desígnios não se cumprirão, pois a resistência da comunidade académica e do conjunto da cidadania democrática brasileira a tal obstarão.
O Reitor da UFMG e a sua equipa reitoral estão agora na linha da frente dessa resistência e merecem por isso não apenas a nossa solidariedade, mas também todo o nosso respeito.
* * *

Nota da Repúdio à operação “Esperança Equilibrista”

Por João Bosco
Recebi com indignação a notícia de que a Polícia Federal conduziu coercitivamente o reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, Jaime Ramirez, entre outros professores dessa universidade. A ação faz parte da investigação da construção do Memorial da Anistia. Como vem se tornando regra no Brasil, além da coerção desnecessária (ao que consta, não houve pedido prévio, cuja desobediência justificasse a medida), consta ainda que os acusados e seus advogados foram impedidos de ter acesso ao próprio processo, e alguns deles nem sequer sabiam se eram levados como testemunha ou suspeitos. O conjunto dessas medidas fere os princípios elementares do devido processo legal. É uma violência à cidadania.
Isso seria motivo suficiente para minha indignação. Mas a operação da PF me toca de modo mais direto, pois foi batizada de “Esperança equilibrista”, em alusão à canção que Aldir Blanc e eu fizemos em honra a todos os que lutaram contra a ditadura brasileira. Essa canção foi e permanece sendo, na memória coletiva do país, um hino à liberdade e à luta pela retomada do processo democrático. Não autorizo, politicamente, o uso dessa canção por quem trai seu desejo fundamental.
Resta ainda um ponto. Há indícios que me levam a ver nessas medidas violentas um ato de ataque à universidade pública. Isso, num momento em que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, estado onde moro, definha por conta de crimes cometidos por gestores públicos, e o ensino superior gratuito sofre ataques de grandes instituições (alinhadas a uma visão mais plutocrata do que democrática). Fica aqui portanto também a minha defesa veemente da universidade pública, espaço fundamental para a promoção de igualdades na sociedade brasileira. É essa a esperança equilibrista que tem que continuar.

domingo, 19 de novembro de 2017

Mauro Lopes discute o que a grande mídia e os políticos que alçaram ao poder por meio de um sujo golpe quer que se pense das Redes Sociais


 "Está uma febre - há tempos - de crítica às redes sociais como um amontoado de guetos: comunicamo-nos só com quem está no nosso gueto e repudiamos os demais, é o que se diz e escreve comumente.


 "Com isso, alegam os críticos às redes, perdemos capacidade de diálogo com os "diferentes", com pessoas que pensam de outra maneira -no contexto brasileiro, traduzindo em miúdos, isso quer dizer perder contato com as pessoas que apoiaram o golpe de Estado."



Imagem relacionada

Do Facebook do jornalista Mauro Lopes em https://web.facebook.com/mauro.lopes.925602/posts/1929165867301091

Sobre Redes Sociais


  Está uma febre - há tempos - de crítica às redes sociais como um amontoado de guetos: comunicamo-nos só com quem está no nosso gueto e repudiamos os demais, é o que se diz e escreve comumente.


  Com isso, alegam os críticos às redes, perdemos capacidade de diálogo com os "diferentes", com pessoas que pensam de outra maneira -no contexto brasileiro, traduzindo em miúdos, isso quer dizer perder contato com as pessoas que apoiaram o golpe de Estado.

  Há outra crítica, alinhada com essa, segundo a qual haveria uma "militância estéril" nas redes, porque o mundo não muda com postagens. 

   Não sou um teórico sobre as redes -na verdade, nem entendo muito bem do assunto. Navego como usuário, sobretudo a partir das pesquisas e formulações de meu blog, o Caminho Pra Casa

 Gente muito porreta e competente refletiu e escreve sobre elas: Zygmunt Bauman, Umberto Eco, Manuel Castels, Fábio Malini, Fátima Conti, Silvia Portugal, coletivos como o Coalizão Direitos na Rede e o Fórum de Mídia Livre.

  Dou uma opinião intuitiva, baseada em minha vivência como jornalista. 

   É uma simplificação; mas, vá lá.

  Lembro-me de quando tinha 16, 17 anos (1976-77). Não havia internet, quando mais redes sociais. Fazíamos um jornal, o Cobra de Vidro, resultado do esforço comum de uns 30 jovens vinculados a diversas organizações de esquerda na resistência à ditadura - era um coletivo, termo desconhecido à época.

  Escrevíamos, diagramávamos, levávamos à gráfica e, com o dinheiro da venda do número anterior e mais algumas campanhas de arrecadação, íamos tocando o projeto. Chegamos a vender 15 mil exemplares. O público era estudantes de faculdades privadas na Grande São Paulo.

  Minhas reflexões rasas:

1. Quem comprava o jornal? Eram estudantes de oposição à ditadura. Os estudantes de direita/apoiadores do regime não compravam e nos hostilizavam muitas vezes ("ô, comunistas", era a ofensa mais usual). Portanto, pensar que as redes sociais nos levaram agora para um gueto - falar com quem é de oposição ao regime semi-ditatorial de hoje- parece-me um exagero e uma certa miopia temporal. 
  
   Em 1976/77 também falávamos no "gueto". Pergunto: foi um equívoco fazer o Cobra de Vidro? Creio que não. De um jeito ou outro ajudamos na luta contra a ditadura. Isso vale para outros jornais da chamada "imprensa alternativa" da época, como Movimento, Versus, Avesso, Em Tempo, Ex, Coojornal (eram centenas). 

  Eles falavam para o "gueto"? De certa maneira sim, como hoje. Creio que a reclamação quanto às redes peca por manter uma nostalgia de um tempo que nunca existiu. Nos anos 1970/80 não rodávamos milhões ou centenas de milhares de exemplares para dialogar com "o centro", "as massas", os apoiadores do regime. Como hoje. No entanto, creio que ninguém sugere que aquele esforço foi inútil. Creio que o de hoje também não o é. A propósito: hoje, mesmo um blog de expressão restrita, como o Caminho Pra Casa, feito por apenas uma pessoa e colaborações eventuais, atinge um número de pessoas muitas e muitas vez maior que aquele do Cobra de Vidro. 

  2. Aqueles coletivos que faziam os jornais não faziam "só" os jornais, apesar de alguns dos jornalistas envolvidos dedicarem-se quase em tempo integral a eles. Os jornais eram parte de uma gama de iniciativas contra o regime e da utopia de um mundo novo; além de fazer os jornais éramos ativistas do movimento estudantil, operário, sindical, de um sem número de organizações da sociedade. Hoje não é assim? Quem atua/escreve nas redes "só" faz isso?

  Não é o que vejo. Os que conheço têm ação em outras esferas da vida político-social do país. 

  Então, creio que é bom "ocupar" as redes. A alternativa seria deixá-las para a direita. Não me parece um bom caminho.

  Quanto a algoritmos, controle, censuras, não é o tema aqui - como a censura, prisões apreensões daquela época também não esteve em tela neste escrito.

 É o que tenho observado -mas pode ser uma formulação equivocada, claro.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

As possibilidades democráticas da internet em tempos de Golpe. Texto de Helga do Nascimento de Almeida


   "O golpe dado por Michel Temer é uma realidade agonizante e que vem trazendo diversos desdobramentos perversos para o Brasil. Os resultados dessa empreitada de diminuição feroz do Estado brasileiro, além de estarem produzindo cicatrizes profundas na economia e desenvolvimento social do país, também têm gerado marcas na relação entre as elites políticas brasileiras e os eleitores." - Helga de Almeida

Possibilidades democráticas na internet em época de golpe: A rede transformou as regras do jogo sociopolítico e vem se tornando central na política. Parlamentares em todo o planeta não só notaram a mudança tecnológica como tiram proveito, alguns mais e outros menos, dessa nova realidade

possibilidades democráticas na internet tempo golpe eleições
Helga do Nascimento de Almeida*, Brasil Debate (também publicado no Pragmatismo Político)


golpe dado por Michel Temer é uma realidade agonizante e que vem trazendo diversos desdobramentos perversos para o Brasil. Os resultados dessa empreitada de diminuição feroz do Estado brasileiro, além de estarem produzindo cicatrizes profundas na economia e desenvolvimento social do país, também têm gerado marcas na relação entre as elites políticas brasileiras e os eleitores.
Se a desconfiança em relação aos representantes políticos no Brasil já era baixa – segundo dados da FGV a confiança da população na figura do presidente da República em 2015 era de 14% e no Congresso era de 12% – hoje, diante de um presidente que apresenta uma taxa de aprovação de 4% (segundo pesquisa VoxPopuli/CUT de 2 de Agosto de 2017), há, de fato, um perceptível desânimo nacional em relação aos políticos brasileiros.
Se estamos vivendo uma realidade tão adversa, o que se pode fazer? Como dar mais transparência para às ações políticas? Como aproximar políticos e cidadãos para que esses últimos consigam ter uma maior margem de influência sobre os mandatos de seus representantes? Como fortalecer o relacionamento entre representante e representados no momento entre eleições?
Segundo Castells (2004), a internet não tem mais um papel puramente instrumental, mas, ao contrário, hoje há uma transformação das regras do jogo sociopolítico no ciberespaço, o que faz com que a internet esteja afetando o próprio jogo. Se a internet vem se tornando central na política, pode-se ver que os parlamentares em todo o globo não só notaram a mudança de paradigma tecnológico como já têm absorvido e se instrumentalizado para usufruírem das possibilidades dessa nova realidade.
Bom, se antes a percepção era de que a as elites políticas, em especial o Poder Legislativo, se abrigavam em uma caixa preta, agora a percepção é de que as elites políticas, na Era da Visibilidade, isso não é mais possível.
O encontro entre cidadãos e parlamentares no ambiente digital tem acontecido tanto pelo crescimento do uso pelos cidadãos, quanto por parlamentares. A pesquisa TICs Domicílios 2015 (2016) demonstrou que 58% das(os) brasileiras(os) se declaram usuárias(os) de internet (em 2014 eram 55%). Destes que usam a internet, 85% usam a rede para mandarem mensagens instantâneas por Whatsapp, Skype ou chat do Facebook, além disso, 77% usam redes sociais como Facebook, Instagram ou Snapchat.
Esse novo panorama torna indispensável que parlamentares estejam na internet e principalmente nas redes sociais, já que, como apontaram Pereira e Sátyro (2016), os políticos têm que ir onde o povo está e, nesse momento, a presença nas redes tornou-se fundamental se se quiser um relacionamento com alguma proximidade com o eleitorado.
No Brasil já se vive uma realidade de ampla adesão de parlamentares às redes sociais. De acordo com dados dispostos em minha tese de doutorado (Almeida, 2017) e focando o olhar para o uso da rede social mais usada por brasileiros, o Facebook [1], 63,16% dos deputados federais tinham páginas no Facebook em 2013, já em 2017 vimos que 97,90% dos deputados federais brasileiros têm páginas no Facebook, ou seja, em apenas quatro anos houve um crescimento de 34,76%.
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O que se percebe através dos dados é que há universalização no uso do Facebook pelas(os) parlamentares da Câmara dos Deputados. Ou seja, o que diferencia parlamentares não é mais sua presença ou ausência na rede. Todas(os) estão no Facebook.
Então o que as(os) diferenciarão? A qualidade de uso das redes sociais. Parece que há parlamentares que ainda permanecem em um estágio de web 1.0, em que as relações se pautavam por um modelo one-wayconversation e assim constroem suas figuras digitais em páginas que só difundem mensagens e consideram suas(seus) seguidoras(es) apenas como receptoras(es).
No entanto, ao mesmo tempo já se pode ver parlamentares que têm conseguido mergulhar na era da web 2.0 e instituem um modelo de feedback e uma conversa em duas vias, em que o debate é central nos espaços abertos por sua página e as(os) seguidores(as) são considerados agentes informacionais e fiscalizadores fundamentais.
Dessa forma, ao analisar-se melhor a diferença de uso e engajamento gerado pelas páginas de diferentes categorias de parlamentares, começa-se a entender que há deputados federais que já têm conseguido construir uma dinâmica interativa dentro de seus facebooks, o que pode contribuir com a tentativa de uma reaproximação entre representantes e representados.
Se se olha para categorias específicas e o número das comunidades de seguidoras(es) das páginas de deputadas(os) de ideologias diferentes, por exemplo, é possível sublinhar que deputadas(os) de centro têm uma mediana de seguidores um pouco maior que deputadas(os) de esquerda, e por último estão os deputados de direita.
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Fonte: Almeida (2017)
As médias de postagens também demonstram algumas diferenças, em que deputados(as) da região Sudeste e deputados(as) de esquerda sobressaem.
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Fonte: Almeida (2017)
Por fim, entendendo melhor o engajamento das(os) seguidores(as) percebido nas páginas na semana amostral de 2016, se vê que, mais uma vez, deputadas(os) de esquerda se sobressaem, o que pode indicar que essas(esses) têm seguidoras(es) mais participativos. Já na categoria ideologia, em primeiro lugar estão deputadas(os) de esquerda.
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Fonte: Almeida (2017)
A conclusão que se chega é que a internet já tem sido encarada como um espaço de encontro entre parlamentares e cidadãos brasileiros. Para alguns parlamentares isso ocorre em menor escala, para outros em maior escala. Obviamente não se ignoram os problemas das fraturas digitais e as bolhas no Facebook, no entanto, pode-se afirmar que tem ocorrido uma abertura de comunicação não mediana para que representantes e representados possam interagir e debater.
Parece ainda ser esse um pequeno passo em direção a possibilidades mais consistentes de construção de um relacionamento entre eleitor e eleito no extenso período entre eleições.
É bom que lembremos que a representação democrática deve ser encarada como um relacionamento (YOUNG, 2006) e que mecanismos de comunicação devem ser estabelecidos exatamente para manter a interlocução entre representantes e representados (PITKIN, 1983).
*Helga do Nascimento de Almeida é cientista política, mestre e doutora em ciência política pela UFMG
Nota
[1] De acordo com o portal “The Statistics Portal” a taxa de penetração do Facebook na população brasileira de 53,9% (dados de Abril de 2017)
Referências em jornais
“Confiança do brasileiro cai na maioria das instituições entre 2014 e 2015, aponta Direito SP” http://portal.fgv.br/noticias/confianca-brasileiro-cai-maioria-instituicoes-entre-2014-e-2015-aponta-direito-sp
Referências em literatura acadêmica
ALMEIDA, Helga. (2014) Análise dos usos das NTICs pelos parlamentares brasileiros: Um estudo sobre o Facebook e o Twitter pelos deputados federais brasileiros em 2013. In: 38 Encontro da Anpocs, 2014, Caxambu. Anais do 38 Encontro Nacional da Anpocs. Caxambu: Anpocs, 2014
ALMEIDA, Helga. (2017) Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Ciência Política, Departamento de Ciência Política, Departamento de Ciência Política, Universidade Federal de Minas Gerais. Orientador: Prof. Dr. Marcus Abílio Gomes Pereira. Belo Horizonte, 2016.
CASTELLS, Manuel. (2004). A Galáxia Internet: Reflexões sobre Internet, negócios e sociedade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
PEREIRA, Marcus Abílio. SATYRO, Natália. (2016) Os deputados estaduais mineiros e a apropriação da internet. In: Manoel Leonardo Santos; Fátima Anastasia. (Org.). Política e desenvolvimento institucional no legislativo de Minas Gerais. 1ed.Belo Horizonte: Editora PUC-MINAS, 2016.
PITKIN, Hanna. (1983) O conceito de representação. In: CARDOSO, Fernando Henrique; MARTINS, Carlos Estevam (Org.). Política e sociedade. São Paulo: Nacional, 1983. 8-22. Reproduzido de PITKIN, H. F. (org) Representation. Atherton Press, New York, 1969, pp. 1-21.
YOUNG, Iris. “Representação política, identidade e minorias.” Lua Nova 67 (2006): 139-190.
Documentos
TIC Domicílios 2015. (2016) Pesquisa sobre o uso das tecnologias da informação e comunicação nosdomícilios brasileiros. Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br São Paulo, 2016.
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