Esse assassinato é o modo normal de funcionamento do sistema brasileiro. É assim que se governa no Brasil: usando impunemente a violência policial, assassinando políticos quando necessário, atirando contra manifestantes, executando cidadãs e cidadãos pobres e vulneráveis.
Marielle expôs como a polícia brasileira age da mesma forma que a máfia italiana, mas com a inteligência suficiente para concentrar sua atuação de milícia mafiosa em favelas “invisíveis” aos olhos de muitos.
As mesmas favelas que alguns colunistas deste jornal foram capazes de comparar a países estrangeiros controlados por outras forças e, por isso, meritórios de intervenção militar digna de situações de guerra.
Ou seja, intervenção que trate setores da população como habitantes de um país inimigo, pessoas a serem fichadas, submetidas a humilhações cotidianas e temor constante de simplesmente desaparecerem sem traço.
Não por acaso, antes de ser assassinada, Marielle vinha de um evento chamado Jovens Negras Movendo as Estruturas. No Brasil, a cada 21 minutos, um jovem afrodescendente é morto, o que mostra claramente como se trata de um setor “matável” da população.
Morte, normalmente, sem consequência legal e cuja comoção social provocada pela violência será provavelmente menor. O que expõe claramente o circuito de violência que impera na sociedade brasileira.
O que vemos agora é apenas a consolidação de uma estrutura de fato. Um país comandado por uma casta de indiciados e criminosos que se apoia em poder militar anabolizado e em poder policial descontrolado que há muito se degradou à condição de setor organizado do banditismo nacional.
Algo que desde a época do regime militar com seus esquadrões da morte e da extorsão, com seus delegados Fleury faz parte da paisagem local.
Por isso, há de se insistir: esse não é um crime isolado, nem será o último. Ele é a verdadeira expressão do que significa “governar” no Brasil. Pois esse país é, antes de qualquer coisa, uma forma de violência.
Noam Chomsky é, sem dúvida, um dos intelectuais mais influentes e prolíficos dos últimos 100 anos. Figura central em diversas áreas do conhecimento que, não bastasse todo seu trabalho, tem um dom raro: o de conseguir ser extremamente didático, lúcido e sensato para diferentes tipos de público sem ser simplista.
E este dom fica evidente neste espetacular documentário “Requiem For The American Dream”, de 2016, disponível no Netflix. Em meros 70 minutos, Chomsky dá uma verdadeira aula sobre a economia, política e a sociedade do nosso tempo, baseado em 10 princípios da concentração de riqueza e poder, algo profundamente interligado e que explica todas as crises passadas, como pavimentamos o caminho para chegarmos até aqui e as crises e possibilidades que virão. Afinal, as crises não são somente parte intrínseca do capitalismo, como também representam o sinal mais inequívoco de que o sistema está sadio e funcionando, como disse Marx e Berman.
Através de uma série de entrevistas, realizadas durante 4 anos, Chosmky explica cada um destes princípios:
1. Reduzir a democracia: como uma das maiores preocupações dos “pais fundadores” da sociedade americana, expresso na Constituição e na criação do Senado, a exemplo de James Madinson, era proteger os ricos do “excesso” de democracia, criando mecanismos para que ela “não fugisse do controle”.
3. Redesenhar a economia: como o aumento exponencial da participação das instituições financeiras na economia, em detrimento da produção, somada com a desregulação do mercado a partir dos anos 70, potencializada nas décadas posteriores e a elevação do conceito de “insegurança do trabalhador” – celebrado por Alan Greenspan – servem de base para a situação atual.
4. Dividir o fardo: de que maneira o estado de bem estar social dos anos 50 e 60 e a melhora das condições de vida da população foi corroído ao longo do tempo, significando menos impostos para os ricos, que habilmente conseguiram fazer com que a maioria do povo arcasse com os custos básicos da sociedade, enquanto a desigualdade atinge picos históricos hoje em dia.
5. Atacar a noção de solidariedade: obedecendo a máxima de “tudo para mim, nada para os outros” de Adam Smith, como a educação pública e a previdência social foram atacadas e diminuídas, ainda que largamente usada pelas classes A e B no passado e base de sustentação do desenvolvimento da sociedade americana. Partindo desses exemplos, Chomsky mostra como o capitalismo atua para minar nossa capacidade de sentir empatia e solidariedade com o outro, conquistando nossas mentes e nos fazendo refém do egoísmo mais tóxico e abjeto possível.
6. Deixar reguladores atuarem em causa própria: o crescimento absurdo do lobby e como as pessoas escolhidas para definir a legislação são as mesmas que usufruem dela em praticamente todas as áreas da economia e da sociedade.
7. Financiar as eleições: grandes corporações financiando as campanhas presidenciais caríssimas que geram governantes que ficam na mão delas, em um círculo vicioso absurdo. Soa familiar, não?
8. Manter o povo na linha: o ataque ao sindicalismo e todas as organizações de trabalhadores. De que forma eles eram parte essencial da resistência à exploração e ao abuso e, com o tempo, foram minados, seja diretamente pelo governo, seja pelas próprias organizações, que trataram de demonizar profundamente a atuação sindical, chegando a somente 7% de trabalhadores privados sindicalizados hoje.
9. Criar e propagar o consumismo: de que forma a propaganda, de maneira bem engenhosa e eficaz, tratou de criar gerações de consumidores com pouco ou nenhum senso crítico, um roteiro que todos conhecemos bem.
10. Marginalizar a população: “marginalizar” no sentido de excluir o povo das discussões principais, da participação democrática, minando o controle social e gerando cidadãos apolíticos que se engalfinham num ódio à política e ao governo absolutamente cego que, claro, compromete os maiores interessados na melhoria da sociedade: o próprio povo.
Nada disso é novidade, mas a capacidade de Chosmky em mostrar de maneira concisa e didática o seu impacto, somado ao arquivo histórico dos realizadores, faz com que esse documentário seja um excelente resumo de tudo aquilo que é central para o mundo em que vivemos.
O superego social com um gole de fôlego, enche os pulmões, e começa a sacralizar a ideia do Estado mínimo. Assim, escutam-se gritos que alegam, pautados no discurso (neo)liberal, que cada um deve viver segundo o seu direito ou segundo seu trabalho.
Com a velha esperança de que o dinheiro (recursos) é capaz de uma reprodução hermafrodita, alguns enaltecem a meritocracia e a desregulamentação por parte do Estado, todavia esquecem que desregulamentar é uma forma sutil de regulamentar, porém essa nova regulamentação é a lei do mais forte.
A ideia de que cada um deve guiar-se segundo seu direito (dê ao rico a riqueza e ao miserável a miséria) nada mais é do que uma genuína injustiça.
Alegar que bolsa família, FIES, Fome Zero, Prouni e outros programas sociais são formas de estimular a ociosidade e sobrecarregar o Estado é uma tentativa de asfixiar a realidade na ilusão de que todos temos chances iguais.
Sempre que o Estado reduz sua interferência, ao ponto de tonar-se ausente, o mundo fica à mercê de um ambiente predatório, em que alguns se iludem achando que são alto suficientes e não precisam de proteção, esquecendo uma lição básica que deste os séculos passados vinham sendo ensinada aos generais da Roma antiga:
Que quando um voltava “vencedor de uma batalha, desfilava em carro aberto com um escravo ao lado, que a cada 500 jardas lhe assoprava ao ouvido: ‘lembra-te que és mortal’. Mais 500 jardas e lá vinha o escravo, de novo… Era uma obrigação legal do escravo fazer esse alerta. ”[1]
Desregulamentar – derrubar a Constituição e políticas inclusivas – não passa da tentativa de destruir um horizonte de previsibilidade, insculpido pelas leis, para voltar ao império da equidade (vontade do rei) em que cada um poderá erigir em si mesmo um verdadeiro tirano e o mais forte triunfará.
A postura protetiva do Estado em certos graus é aceitável e desejável para proteger os indivíduos – sempre com cuidado preciso para que os limites sejam devidamente ajustados, e assim, evite “o grave risco do majoritarismo moral, que é uma manifestação da tirania da maioria.”[2]
O ratiofundamentalis de nosso sistema não consubstancia apenas a defesa das classes subalternas, também é a defesa dos capitalistas contra os capitalistas.
O mercado, a vida e tudo que está envolvido reclama por um modus vivendi que possibilite a instauração de um horizonte de garantias para que cada um possa viver segundo sua necessidade (ao doente dê a saúde, ao indigno a dignidade) possibilitando assim, mudanças qualitativas nos rumos da história.
Nesse oceano de egos a hipocrisia se torna nítida, uma vez que é evidente que alguns buscam a desregulamentação para poderem regulamentar de forma “livre” valendo-se do poder econômico. Infelizmente muitos influenciados por discursos populistas esquecem que “não há conquista de direitos e garantias sem história”.[3]
Talvez o que falta em nossa sociedade é um alerta: lembra-te que és mortal!
Sendo assim, precisa de proteção tanto quanto qualquer um para que seja possível o “desdobramento da liberdade dentro dos limites da coexistência”.[4]
Tiago Braz é graduando do 9° período de Direito da Faculdade Montes Belo.
[1]STECRK, Lenio Luiz.O que é isto — o assustador manifesto contra a bandidolatria?. São Paulo, 2017. Disponível em: . Acesso em 10 de março de 2018.
[2]BARROSO, Luís Roberto. A Dignidade da Pessoa Humana no Direito Constitucional Contemporâneo: A Construção de um Conceito Jurídico à Luz da Jurisprudência Mundial. Belo Horizonte: Fórum, 2014.
Michel Gondry não esconde nenhuma cartada. O cineasta e realizador de videoclipes tem carimbado seu último trabalho, ‘Is the man who is tall happy? (É feliz um homem alto?), com a frase: “Uma conversa animada com Noam Chomsky”. Claramente, é isso o que é: dois encontros em Boston com um dos pensadores e ativistas mais importantes da atualidade, de quem se ouve as respostas enquanto na tela aparecem em animações seus conceitos de forma artesanal. Três horas de conversa que aconteceram em 2010 –em dois encontros separados por seis meses- que deram lugar a um filme de uma hora e meia, apresentado no Festival de Cinema de Berlim (Berlinale), onde o autor faz parte do júri oficial. Um trabalho que só pode vir de alguém como Gondry (Versalles, 1963), sem nenhum problema em fazer animação, cinema, música ou falar um inglês macarrônico que provoca com Chomsky muitos mal entendidos.
“Há uns anos eu estava de visita em Boston, no M.I.T. [o famoso Instituto Tecnológico de Massachussets], quando cruzei com Chomsky. E lhe propus a ideia: poderia fazer um documentário animado sobre seu pensamento que seria gravado com uma velha câmera que dá uma textura oficial? Ele recusou a proposta, e tempo depois insisti e insisti até que ele cedeu”, conta o diretor de Rebobine, por favor e de Brilho Eterno de uma mente sem lembranças.“Reconheço que há dez anos não sabia nada sua obra, na França Chomsky não é muito conhecido”. Como, se ele é o autor mais citado das últimas décadas? “Pois é, não muito. Comecei a ler sua obra e por isso sabia quem era quando o vi no M.I.T.”.
O diretor Michel Gondry.GERHARD KASSNER / BERLINALE
Chomsky vai respondendo as perguntas de Gondry, ou, pelo menos, o que entende de suas questões: em várias ocasiões o francês lhe pede perdão e repensa sua frase porque seu inglês não dá conta. “Não queria manipular muito. Obviamente quando se faz um documentário ele nunca é objetivo, algo de manipulação há. Começando pelo que é perguntado”.
Gondry é apaixonado pelos temas científicos, e se concentra no fato de que o norte-americano, que aos seus 86 anos mantém uma mente brilhante, explique sua paixão por Isaac Newton, “que descobriu forças ocultas que refutavam o conceito do mundo como uma engrenagem mecânica”, explica o filme, ou como o ser humano adquire e desenvolve a linguagem, a gramática generativa, parte de sua aposta em o racionalismo cartesiano, um momento no qual a voz de Chomsky muda e aumenta de firmeza. Por sua vez, Gondry pergunta pela infância dele na Filadélfia, sobre as primeiras lembranças –para relacioná-las com sua ciência-, a adolescência, as primeiras apresentações públicas de suas pesquisas. “Mas não sou bom jornalista, não retruquei o suficiente. Por exemplo, quando ele conta que esteve na prisão durante a Guerra do Vietnã, eu não parei, não perguntei por que nem como era essa época”. Também sofreu outras frustrações. “Há conceitos que me custaram muito animar, sobre as relações cerebrais e as recriações linguísticas do que vemos. Fiz o que pude”.
As entrevistas distanciaram-se no tempo para que Gondry começasse a animar alguns fragmentos –o faz à mão, como conta no filme, como fez em vários vídeos musicais-. "Chomsky gostou do resultado e continuamos”. Em ‘Is the man who is tall happy? o público assiste à angústia de Gondry para acabar o trabalho antes de uma possível morte de seu entrevistado. “É óbvio que acabei a tempo. Ele gostou do resultado. Mas não o fiz para agradá-lo, não quero contentar ao retratado… Ainda lembro de uma discussão que tive com Thom Yorke [líder da banda Radiohead], quando ele não gostou de um vídeo meu. Atraem-me os documentários, e vejo mais esse tipo de filme do que os títulos de ficção, por seu trabalho de preservação. Encanta-me que me contem essas histórias. Com eles registramos algo para as seguintes gerações”.
De Chomsky fica uma imagem de homem algo cansando, derrotado por ter se tornado viúvo. “Verdadeiro, já não ficam pessoas de sua idade, embora siga viajando, dando conferências. E ele é um dos dois únicos professores do M.I.T. que fizeram recentemente declarações políticas fortes. Ele não se importa perder seu lugar. Sua ética está acima disso”. Ao final, Gondry pergunta a Chomsky: o que te faz feliz? na tela, o intelectual tem dificuldade em responder. O que faz Gondry feliz? “Qualquer trabalho artístico. Não me importo em estar horas e horas fazendo desenhos se ao final do dia posso ver um segundo desse filme em movimento. O processo criativo me apaixona”.
"A “SIGINT Seniors” é uma coalizão entre agências de espionagem que se reúne anualmente para cooperar em questões internacionais de segurança. São duas divisões cuja atuação está concentrada em diferentes partes do mundo: SIGINT Seniors Europa e SIGINT Seniors Pacífico. Ambas são lideradas pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), e contam com representantes de pelo menos outros 17 países. Os membros do grupo trabalham para agências de espionagem que interceptam comunicações, uma prática conhecida como “inteligência de sinais”, ou SIGINT [signals intelligence]." Artigo do The Intercept:
É BEM PROVÁVEL que você nunca tenha ouvido falar de uma das mais poderosas alianças do mundo. Pelo simples fato de sua existência ser um segredo de estado – de vários estados – guardado a sete chaves.
A “SIGINT Seniors” é uma coalizão entre agências de espionagem que se reúne anualmente para cooperar em questões internacionais de segurança. São duas divisões cuja atuação está concentrada em diferentes partes do mundo: SIGINT Seniors Europa e SIGINT Seniors Pacífico. Ambas são lideradas pela Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA), e contam com representantes de pelo menos outros 17 países. Os membros do grupo trabalham para agências de espionagem que interceptam comunicações, uma prática conhecida como “inteligência de sinais”, ou SIGINT [signals intelligence].
Os detalhes das reuniões da SIGINT Seniors foram divulgados em um lote de documentos confidenciais do boletim interno da NSA, o SIDToday, obtidos pelo ex-agente Edward Snowden e publicados por The Intercept. Os documentos trazem à tona a história secreta da aliança, as questões sobre as quais as agências participantes vêm se debruçando recentemente, e os sistemas que permitiram aos países aliados compartilhar entre si informações sensíveis de espionagem.
A SIGINT Seniors Europa foi criada em 1982, em plena Guerra Fria. Naquele tempo, eram nove membros, cujo objetivo principal era descobrir informações militares da União Soviética. Depois do 11 de Setembro, o grupo aumentou para 14 membros e voltou seus esforços para o contraterrorismo.
O núcleo principal da Seniors Europa é formado pelas agências de vigilância dos chamados Cinco Olhos: a NSA e as equivalentes do Reino Unido, da Austrália, do Canadá e da Nova Zelândia. Em abril de 2013, entraram as agências de inteligência da Bélgica, da Dinamarca, da França, da Alemanha, da Itália, da Holanda, da Noruega, da Espanha e da Suécia.
A aliança – à qual a NSA algumas vezes se refere como os “14 olhos” — já atuou em cooperação para monitorar as comunicações durante importantes eventos europeus, como as Olimpíadas de 2004 (na Grécia), as Olimpíadas de Inverno de 2006 (na Itália) e a Copa do Mundo de 2006 (na Alemanha). Entre 2006 e 2007, como parte de uma operação de contraterrorismo, as agências começaram a tentar “tirar proveito da Internet”, o que foi descrito pela NSA como um “enorme avanço” para o grupo, uma vez que alguns dos membros estariam até então “relutantes em reconhecer a importância da Internet”.
Um oficial da Marinha do Canadá a bordo de um helicóptero patrulha as águas costeiras da Somália enquanto escolta um navio do Programa Alimentar Mundial, em 17 de setembro de 2008.
Foto: Simon Maina/AFP/Getty Images
EM 2010, as agências estavam concentradas em localizar suspeitos de terrorismo, compartilhar informações de inteligência sobre pirataria na região do Chifre da África, e atuar em conjunto no desenvolvimento de novas técnicas e ferramentas de monitoramento. De acordo com os documentos, a Seniors Europa tinha sua própria rede de comunicação chamada SIGDASYS, por meio da qual as agências poderiam compartilhar cópias das comunicações interceptadas. O grupo também usava um sistema chamado CENTER ICE, especificamente para as informações de inteligência sobre a guerra do Afeganistão.
Os documentos indicam que a Seniors Europa faz uma conferência anual, cada vez em um lugar diferente. Em 2013, por exemplo, o grupo se reuniu na Suécia; em 2011, no Reino Unido; em 2010, na Alemanha; e em 2009, no Canadá. Em 2013, a NSA manifestou interesse em criar instalações permanentes para hospedar representantes da Seniors Europa em um espaço colaborativo comum. A agência discutiu a ideia com sua equivalente no Reino Unido, o GCHQ (Government Communications Headquarters). De acordo com a NSA, os britânicos estavam “dentro”. Houve, no entanto, “contínua resistência” ao plano por parte de alguns membros não identificados da SIGINT Seniors.
A NSA achava que a melhor localização para as instalações era o Reino Unido, que “seria ideal em termos de maior flexibilidade para ajustar a operação em benefício dos Cinco Olhos”. A agência também sugeriu a França como possibilidade, mas destacou suas restrições a instalar uma central de espionagem na Europa continental. “Alguns países europeus podem ficar receosos de abrigar essas instalações em seu território”, observou a NSA, em parte por “preocupações associadas à legislação europeia de direitos humanos”. (Tanto a NSA quanto o GCHQ se recusaram a se pronunciar sobre esta matéria. O GCHQ emitiu uma declaração afirmando que adere a “um rigoroso enquadramento legal e político, que assegura que nossas atividades sejam autorizadas, necessárias e proporcionais”.)
A divisão do Pacífico da SIGINT Seniors é mais recente que o braço europeu. Foi formada pela NSA em 2005, com o propósito de “estabelecer um esforço conjunto para combater o terrorismo na região da Ásia-Pacífico”. Em março de 2007, a NSA declarou que estava “debatendo ideias para expandir o foco da ação de inteligência [da SIGINT Senior Pacífico] para além do contraterrorismo”.
A NSA estava passando aos indianos material ultrassecreto específico, e a Índia começou a vazar algumas dessas informações de inteligência.
Quem fundou a aliança do Pacífico foram as agências de espionagem dos Cinco Olhos, juntamente com Coreia do Sul, Cingapura e Tailândia. Em 2013, França e Índia já haviam se juntado ao grupo. A NSA estava especialmente interessada na participação da Índia, como parte de um esforço mais amplo do governo dos EUA para estreitar relações com o país, e “acreditava francamente que a participação da Índia no compartilhamento multilateral de informações de inteligência ajudaria a amadurecer as agências indianas de SIGINT, bem como a obter expertise regional [em contraterrorismo]”. Em março de 2008, o então diretor-geral da NSA Keith Alexander liderou uma delegação de agentes — que incluiu representantes de Cingapura e da Nova Zelândia — em visita a Nova Déli, onde convidou as agências de espionagem indianas a unirem forças com o grupo. Três meses depois, os indianos aceitaram o convite.
O grupo do Pacífico usava um sistema chamado CRUSHED ICE para compartilhar informações. Segundo um documento da NSA datado de novembro de 2007, o CRUSHED ICE é uma rede segura que permite o compartilhamento de informações secretas de inteligência sobre contraterrorismo, obtidas por meio de interceptação de comunicações. “O sistema permite a colaboração por meio de voz, troca de arquivos binários/e-mails, análises e relatórios, gráficos e mapeamento, comunidades de interesse, gestão de coleções, e outros aplicativos que venham a ser necessários”, afirmava o documento de novembro de 2007.
Há benefícios óbvios para os países convidados a se integrar ao SIGINT Seniors: eles podem aprender novas técnicas de espionagem com as mais poderosas agências do mundo. Ao mesmo tempo, obtêm informações sobre seus próprios países e regiões, a que talvez não tivessem acesso de outra forma. Nem todos os países convidados a se juntar à aliança, porém, aceitaram o convite. Segundo um documento da NSA de março de 2007, o Japão se recusou a fazer parte do grupo do Pacífico, manifestando a preocupação de que “a divulgação não intencional de sua participação representaria um risco muito alto”.
Uma desvantagem do SIGINT Seniors é o risco de que um dos parceiros não dê tratamento adequado às informações sensíveis. Isso aconteceu em pelo menos um episódio envolvendo a Índia. Quando uma série de ataques terroristas atingiu Mumbai em novembro de 2008, o país já havia se juntado ao grupo do Pacífico. A NSA estava passando aos indianos material ultrassecreto específico, como relatórios de interrogatórios e gravações de ligações telefônicas interceptadas. Nas semanas que se seguiram aos eventos de Mumbai, a Índia começou a vazar algumas dessas informações. “Às vezes, parecia uma ocorrência diária”, reclamou o responsável administrativo da NSA no país. Ainda assim, a agência, que havia enviado analistas para a Índia, permaneceu confiante de que as agências de inteligência do país iriam “amadurecer […] e se tornar os parceiros de que a NSA precisa no sul da Ásia”.
O grupo SIGINT Seniors provavelmente permanece ativo até hoje, e é possível que tenha expandido suas habilidades nos últimos anos. De acordo com o “orçamento negro” de 2013 — uma parcela do orçamento federal dos EUA dedicada ao serviço secreto de inteligência –, a NSA estava trabalhando naquele ano para fortalecer as divisões da Europa e do Pacífico do SIGINT Seniors, e planejava “expandir o nível de cooperação [relativo ao contraterrorismo] e explorar outras áreas potenciais de colaboração”.
As Torres Gêmeas, edifícios idênticos que se refletem mutuamente, um sistema fechado em si mesmo, impondo o igual e excluindo o diferente e que foram alvo de um ataque que abriu um buraco no sistema global do igual. Ou as pessoas praticando binge watching (maratonas de séries), visualizando continuamente só aquilo de que gostam: mais uma vez, multiplicando o igual, nunca o diferente ou o outro... São duas das poderosas imagens utilizadas pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem a sociedade hiperconsumista e neoliberal depois da queda do Muro de Berlim. Livros como A Sociedade do Cansaço, Psicopolítica e A Expulsão do Diferente reúnem seu denso discurso intelectual, que ele desenvolve sempre em rede: conecta tudo, como faz com suas mãos muito abertas, de dedos longos que se juntam enquanto ajeita um curto rabo de cavalo.
“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”, alertou em sua palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), na Espanha, onde o professor formado e radicado na Alemanha falou sobre a expulsão da diferença. E expôs sua particular visão de mundo, construída a partir da tese de que os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. Vivendo, assim, “no deserto, ou no inferno, do igual”.
Autenticidade. Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.
Autoexploração. Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout”. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.
‘Big data’.”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual... Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças... É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos... Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições... Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.
Comunicação. “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.
Jardim. “Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações... Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto... É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.
Narcisismo. Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.
Os outros. Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo... Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.
Refugiados. Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.
Tempo. É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.
O “MONSTRO” DA UNIÃO EUROPEIA
“Estamos na Rede, mas não escutamos o outro, só fazemos barulho”, diz Byung-Chul Han, que viaja o necessário, mas não faz turismo “para não participar do fluxo de mercadorias e pessoas”. Também defende uma política nova. E a relaciona com a Catalunha, tema cuja tensão atenua brincando:
“Se Puigdemont prometer voltar ao animal original, eu me torno separatista”.
Já no aspecto político, enquadra o assunto no contexto da União Europeia: “A UE não foi uma união de sentimentos, mas sim comercial; é um monstro burocrático fora de toda lógica democrática; funciona por decretos...; nesta globalização abstrata acontece um duelo entre o não lugar e a necessidade de ser de um lugar concreto; o especial é incômodo, gera desassossego e arrebenta o regional. Hegel dizia que a verdade é a reconciliação entre o geral e o particular e isso, hoje, é mais difícil...”. Mas recorre à sua revolução do tempo: “O casamento faz parte da recuperação do tempo livre: vamos ver se haverá um casamento entre a Catalunha e Espanha, e uma reconciliação”.