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segunda-feira, 16 de setembro de 2024

“A demanda da polícia passou de desmilitarização para desmilicianização”, diz policial

 

TVGGN debate alternativas para a unificação das polícias, porém a estrutura arcaica da sistema diante da modernidade dos crimes desponta como um dos desafios

Do Jornal GGN:

Crédito: Tânia Rego/ Agência Brasil

As estatísticas relacionadas aos policiais militares chamam a atenção. Em 2019, mais policiais tiraram a própria vida (91) do que foram mortos em serviço (62) durante o serviço em São Paulo, o que demonstra a fragilidade da saúde mental desses profissionais diante da militarização da corporação. 

Outro dado relevante é o aumento de 74% das mortes provocadas pela PM apenas no primeiro semestre de 2024, segundo ano da gestão de Tarcísio Freitas (Republicanos). 

Diante deste panorama, o programa TVGGN Justiça da última sexta-feira (13) recebeu o policial federal e mestre em criminologia, Flávio Werneck, e o historiador e comunicador popular, Jones Manoel, para debater a desmilitarização e a unificação das polícias. 

“Toda campanha a gente escuta o mesmo discurso “eu preciso de mais policial, eu preciso de mais viatura, eu preciso de mais arma”, sendo que o problema da segurança pública brasileira está na construção, na base do artigo 144 da Constituição Brasileira, que divide a segurança pública entre prevenção e investigação”, explica o policial federal. 

Werneck explica. Quando o Banco Central faz uma investigação, ela é enviada para a PF, que vai refazer a investigação e ouvir novamente todos os envolvidos. Por fim, o Judiciário vai refazer todos os processos. 

“Então, nós temos um problema de eficiência cristalizado na estrutura, e essa estrutura acabou gerando poder. Existem pessoas que se beneficiam da falta de efetividade, da falta de uma segurança pública para a sociedade brasileira”, emenda. 

Um dos exemplos em que a estrutura da polícia beneficia poderosos é o chamado combate ao tráfico de drogas, em a grande maioria dos presos é preto e pobre, estereótipo de pessoas que são facilmente cooptadas para o crime. Os financiadores do tráfico, porém, nunca são detidos. E todo este cenário facilita o crescimento do crime organizado brasileiro. 

“O crime organizado cresceu com a tecnologia. Ele sempre existiu no Brasil, mas hoje ele foi catapultado a uma estatura maior, porque hoje nós temos criptomoeda, hoje nós temos os meios digitais, hoje nós temos toda uma estrutura de mídias digitais sem controle algum. Você consegue tirar dinheiro do país e por dinheiro para fora, você consegue mexer com vários bancos que não são bancos, nem autorização do Banco Central têm”, continua Werneck. 

“Você já tinha uma estrutura, que é uma estrutura arcaica de segurança pública, uma estrutura de segurança pública que foi feita para privilegiar certa parcela da sociedade em detrimento das demais”, emenda o policial federal. 

Ineficiência

A manutenção do status quo das polícias em detrimento da necessidade da sociedade é ruim, segundo Werneck, desde 1988, tendo em vista a divisão de ações preventivas e investigativas, além de usar o inquérito policial, alto que só existe no país. 

“Para homicídio, [as polícias] têm uma ineficiência de 8%, de cada 100 homicídios no Brasil, só 8 são realmente resolvidos e a pessoa cumpre pena. Então, nós temos esse claro problema no país e ninguém quer resolver, porque tem gente que ganha muito dinheiro com isso, desde pessoas que desviam dinheiro público e que desviam grandes e vultosas quantias de dinheiro, quanto as pessoas que deixam de pagar imposto, tudo isso nesse país não é punido”, pontua o especialista.

Flávio Werneck comenta ainda que, de acordo com uma tese de mestrado de um colega da Controladoria Geral da União (CGU), apenas 0,5% dos crimes de desvio de dinheiro público são efetivamente punidos no Brasil. 

Modelos

Em relação à discussão sobre novos modelos de polícia, Jones Manoel lembrou que as políticas de governos estaduais progressistas não se destacaram no país, pois além de multiplicarem o encarceramento, também promoveram ações de racismo contra jovens periféricos. 

“O ex-governador [de Pernambuco] Eduardo Campos (PSB), falecido, na época dele estabeleceu uma política, que eu era adolescente, eu fui vítima dessa política, que era o seguinte: botava a polícia militar para fazer blitz em ônibus que saiam das regiões periféricas em direção ao centro da cidade, para proibir jovens, principalmente negros, que saiam das periferias para chegar no centro. Então a PM parava o ônibus, mandava os jovens descer e voltarem para casa. Isso foi uma política oficial de governo. Eu fui parado quatro vezes, ali no Pernambuco, para quem conhece Recife, foi impedido de chegar no Marco Zero, no Recife Antigo. Essa era a política oficial de governo do Eduardo Campos, parte do Pacto pela Vida, e isso nunca abalou a imagem do sujeito de progressista, de democrático, por aí vai. No Brasil, infelizmente, tanto a direita como a esquerda, ninguém perde voto, ninguém perde apoio, ninguém perde prestígio por defender os racistas”, comenta o historiador.

Existem modelos de que poderiam ser adotados para melhorar a polícia, mas em vez de desmilitarização, a desmilicianização se mostra uma demanda cada vez mais urgente. 

Confira o debate na íntegra:

LEIA TAMBÉM:

sexta-feira, 16 de março de 2018

Vladimir Safatle: “quem matou Marielle Franco sabe que tem carta branca para usar a violência”


Nenhum texto alternativo automático disponível.

Da coluna de Vladimir Safatle na Folha de S.Paulo.
(…)
Esse assassinato é o modo normal de funcionamento do sistema brasileiro. É assim que se governa no Brasil: usando impunemente a violência policial, assassinando políticos quando necessário, atirando contra manifestantes, executando cidadãs e cidadãos pobres e vulneráveis.
Marielle expôs como a polícia brasileira age da mesma forma que a máfia italiana, mas com a inteligência suficiente para concentrar sua atuação de milícia mafiosa em favelas “invisíveis” aos olhos de muitos.
As mesmas favelas que alguns colunistas deste jornal foram capazes de comparar a países estrangeiros controlados por outras forças e, por isso, meritórios de intervenção militar digna de situações de guerra.
Ou seja, intervenção que trate setores da população como habitantes de um país inimigo, pessoas a serem fichadas, submetidas a humilhações cotidianas e temor constante de simplesmente desaparecerem sem traço.
Não por acaso, antes de ser assassinada, Marielle vinha de um evento chamado Jovens Negras Movendo as Estruturas. No Brasil, a cada 21 minutos, um jovem afrodescendente é morto, o que mostra claramente como se trata de um setor “matável” da população.
Morte, normalmente, sem consequência legal e cuja comoção social provocada pela violência será provavelmente menor. O que expõe claramente o circuito de violência que impera na sociedade brasileira.
O que vemos agora é apenas a consolidação de uma estrutura de fato. Um país comandado por uma casta de indiciados e criminosos que se apoia em poder militar anabolizado e em poder policial descontrolado que há muito se degradou à condição de setor organizado do banditismo nacional.
Algo que desde a época do regime militar com seus esquadrões da morte e da extorsão, com seus delegados Fleury faz parte da paisagem local.
Por isso, há de se insistir: esse não é um crime isolado, nem será o último. Ele é a verdadeira expressão do que significa “governar” no Brasil. Pois esse país é, antes de qualquer coisa, uma forma de violência.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Malafaia é levado à PF: o castigo do fariseu moralista, por Fernando Brito



hipocritamalafa
Silas Malafaia bateu palmas e soltou os seus “Oh, Glória!” enquanto os que eram vítimas do arrastão policial-judicial que, sob o nome de “condução coercitiva” levava as pessoas nos camburões da PF antes mesmo de terem sido chamadas a depor sobre aquilo de que estavam sendo acusadas.
Agora, o mesmo acontece com ele, acusado de ajudar a lavar o dinheiro que o atual diretor de Arrecadação do Departamento Nacional de Produção Mineral, Márcio Valadares Moreira, através da empresa  LCM – Consultoria Financeira Especializada em Municípios Ltda, de propriedade de sua irmã, Lilian.
Quer que alguém defenda o direito que ele tem de se defender?
Mesmo que não o mereça, terá. Mas justo naqueles que ele xingava nos seus acessos.
Os fariseus, os hipócritas, as vestais que acusaram a todos de tudo estão provando do próprio veneno.
Eduardo Cunha foi o primeiro, mas, um a um, seus comparsas no impeachment de Dilma estão provando o gosto amargo da hipocrisia.
Aliás, em consequência do que se disse, posto os tweets que Malafaia fez, desde São Paulo, depois que a PF foi (?) buscá-lo em casa.
Fernando Brito, no Tijolaço.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Jornal do Brasil: Violência policial em protestos contra Temer repercute no exterior

Jornal do Brasil
Os protestos contra o presidente Michel Temer neste domingo (4) repercutiram na imprensa estrangeira. O Deutsche Welle, em matéria com o título "Protesto contra Temer em SP termina com violência policial" (na versão do portal em português), chamou a atenção para a ação da PM paulista contra o protesto que tinha transcorrido de forma pacífica, com a presença de crianças e idosos. A polícia atirou bombas de efeito moral, jatos d'água e balas de borracha "logo após fim da marcha que reuniu 100 mil pessoas", por "suposta ação de vândalos".
"O maior protesto contra o presidente Michel Temer desde o impeachment de Dilma Rousseff terminou com violência policial neste domingo (04/09) em São Paulo. Segundo relatos de manifestantes e jornalistas que cobriram a passeata, policiais lançaram bombas de gás lacrimogêneo, jatos d'água e atiraram balas de borracha contra a multidão no fim do ato", diz a matéria do DW.
O portal alemão destacou a fala de uma das manifestantes. "Eles [policiais] querem causar a imagem de que nós, manifestantes, somos os ruins. Mas eles que começam". A estudante estava no ato com o avô de 90 anos. "Moramos aqui perto e viemos porque estava pacífico. Eles jogaram bomba e meu avô tem dificuldade de locomoção."
"Protesto contra Temer em SP termina com violência policial" (na versão do portal em português)
"Protesto contra Temer em SP termina com violência policial" (na versão do portal em português)
Os efeitos da ação policial também ganharam destaque no DW, como o caso de cinco pessoas que tiveram intoxicação por gás, incluindo uma pessoa com câncer de pulmão, além de feridos por estilhaços de bomba e tiros de borracha. 
"O motorista de um ônibus coletivo foi atendido por irritação nos olhos devido às bombas de efeito moral e uma passageira entrou em pânico. Entre os feridos estão dois jornalistas", escreveu o DW. "Um repórter da BBC Brasil que filmava agentes lançando bombas contra manifestantes no bairro de Pinheiros sofreu golpes de cacetete no braço, mão, peito e perna direita e foi chamado de 'lixo'."
A emissora canadense CTV News e o Miami Herald publicaram nota da The Associated Press, destacando o confronto dos policiais contra manifestantes, após a saída de Dilma Rousseff do comando "da maior nação da América do Sul". 
O mexicano La Jornada, em matéria intitulada "Decenas de miles exigen en Sao Paulo y Río de Janeiro la renuncia de Temer", noticiou que a PM de São Paulo utilizou gás lacrimogênio para dispersar os manifestantes e que as autoridades não divulgaram números de participantes dos atos. 
Vídeo com destaque na capa do The Huffington Post falava sobre os protestos violentos que ocorrem no Brasil desde o impeachment de Dilma Rousseff. As imagens mostram manifestantes caminhando, gritando palavras de ordem como "É golpe" até que aparecem barulhos de bomba e correria. 
O jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung também falou sobre os protestos contra Michel Temer, destacando que o de São Paulo atraiu milhares de pessoas. 
Destaque dos protestos contra Michel Temer no 'Frankfurter Allgemeine Zeitung'
Destaque dos protestos contra Michel Temer no 'Frankfurter Allgemeine Zeitung'

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Temer e seus ministros – O ódio aos direitos e o monopólio ilegítimo da violência

São Paulo - Os estadantes que estavam na Ocupação do Centro Paula Souza foram para a Ocupação da ETESP, na Luz. (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil
Texto de Bajonas Teixeira de Brito Junior, colunista do Cafezinho
Uma coisa que se nota à primeira vista, ao primeiro olhar, é que o governo Temer não é nada ficha limpa. Ao contrário, vários de seus membros estão em sérios apuros com as leis.  Além disso, no transcorrer dos primeiros dias, depois de várias declarações de seus ministros (para reduzir o SUS, aumentar a idade da aposentadoria, desmontar programas sociais, rejeitar as escolhas do MPF), firmou-se a certeza de que é um governo inimigo declarado de todos os direitos.
E é também um governo que não gosta das mulheres, porque além de excluí-las dos ministérios pretende iguala-las aos homens, aumentando em cinco anos a idade mínima delas (só delas) se aposentarem (35 anos). Não será uma punição por estarem questionando tão frequentemente o patriarcalismo e reivindicando direitos? Ou seja, as mulheres que esse governo odeia, são as que não se deixam mais manipular, que não são recatadas e do lar.
Mas também os movimentos sociais despertam o ódio insensato dos homens de Temer. Usando um simulacro de interpretação legal, um frankenstein jurídico, começou-se a desocupar pelo Brasil afora sem mandado judicial. Primeiro nas escolas de São Paulo, ontem (madrugada de sábado, 21) na sede da Secretaria de Educação do RJ. É a colocação em prática da erradicação do estado democrático de direito, base efetiva do golpe, cuja finalidade é extinguir a democracia.
Vale a pena observar, diante de tantas evidências de abusos, as trajetórias que a imprensa vem apontando nesse governo, algumas biografias que se chocam com as leis e algumas práticas que são claramente hostis aos direitos adquiridos. Feito isso, poderemos ver como nos aproximamos rapidamente de um Estado baseado na violência ilegítima. Vejamos.
O fiel escudeiro de Temer, Moreira Franco, foi chamado de “camaleão político” pela Folhaem longa matéria em estilo memorial, em que episódios e mais episódios reveladores são recordados. Num deles, entra o conhecido jornalista Jânio de Freitas que, informado de que mais uma licitação, orçada na bagatela de 1 bilhão de dólares, seria fraudada durante o governo de Moreira Franco no Rio de Janeiro, e já de posse do resultado,  publicou um anúncio cifrado com o nome dos vencedores.
Confirmado o resultado, Jânio escreveu a manchete da Folha (09 de abril de 1989): “Outra concorrência fraudada rende UR$ 1bi a empreiteira”. Moreira Franco terminou anulando a licitação. A mesma matéria informa que na época do governo FHC, circulava que o próprio Fernando Henrique teria dito não confiar em Moreira Franco para cargos que tivessem cofre. FHC nega que tenha dito isso, afirmando que é mentira. Mas se for, é uma mentira teimosa, já que continua viva após vinte anos de desmentidos.
Já o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, tem se notabilizado por ataques frontais aos direitos e às garantias constitucionais e vem repetindo que “não existe direito absoluto”. Ele não só vem reprimindo manifestantes, garotos e garotas, mas despejando munição pesada sobre as  leis, ao ponto de ser duramente criticado por um juiz de São Paulo e ter seus métodos reprovados pelo TJ-SP. É esta linha dura que prevalece no governo Temer, retomada pelo ministro da fazenda Henrique Meirelles que também tem se dedicado a questionar o conceito de direito adquirido.
Para nos confundir, Meirelles diz que uma coisa é a “expectativa de direito”, outra é o “direito adquirido” e outra é o “direito claramente adquirido”. E tem ainda mais outra, que é “o maior direito”, no caso, o do trabalhador receber a aposentadoria. Na verdade, essa multiplicação dos tipos de direito é uma ficção para que o governo Temer possa subtrair direitos reais, e pilhar o interesse público para o bem dos empresários e do agronegócio. Ao não cobrar nenhum esforço dos ricos (impostos, taxas, contribuições) para resolver a crise econômica, esse governo terá que depenar os pobres para encher os cofres públicos, para isso direitos só atrapalham.
Em tudo, aliás, o direito parece ser um estorvo para eles. Prevalece a impressão de que há uma incompatibilidade genuína entre essa camarilha e as leis do país, em especial as do código penal. Por exemplo: como se não fosse desconcertante um ministério sem mulheres, somos informados ainda que o suplente de um dos ministros está preso por estupro. Preso mas eufórico porque, como o titular virou ministro, ele já se diz pronto para ocupar a vaga e assumir suas funções lá na Casa das Leis.
Por mais ofensivo que sejam esses fatos ao nosso respeito pelas leis e ao direito, a liberdade jurídica dos novos mandatários não para por aí.  O líder do governo, por exemplo, é acusado de tentativa de homicídio. E, como quem é líder tem que dar o exemplo, ele não fica só nisso: além de ser acusado de encomendar uma execução, acumula diversas outras suspeitas de investidas contra os direitos. Como detalha oCongresso em Foco:
“Suspeita de tentativa de homicídio, de empregar funcionários fantasmas e comprar alimentos e bebidas ilegalmente com dinheiro público e réu no Supremo Tribunal Federal (STF). Suspeita, ainda, de receber recursos do esquema de corrupção na Petrobras. Este é o currículo mais recente do deputado André Moura (PSC-SE), escolhido pelo presidente interino Michel Temer para ser o novo líder do governo na Câmara. Ele também teve que recorrer à Justiça para concorrer nas últimas eleições porque tinha sido barrado pela Lei da Ficha Limpa.”
Matéria do UOL informa que André Moura responde no STF por crime de responsabilidade, formação de quadrilha ou bando e improbidade administrativa. Como vamos mostrar em outro artigo, há uma ligação estreita entre o desprezo desses políticos pela lei e o peso do patriarcalismo, ou melhor, de um hiperpatriarcalismo, que se expressa no governo Temer. Por ora, vale apenas observar que a violência com que nesse governo se trata os domínios das leis e o da sociedade – a exclusão de mulheres, negros e gays –, é a expressão de um desejo de fazer a sociedade brasileira recuar meio século para o passado.
Não se trata de fazer o país recuar 50 anos em todas as direções. Não certamente quanto à tecnologia, aos lucros do agronegócio, às complexas estruturações da engenharia bancária, e a tudo que diga respeito aos lucros e ao capital. Nessa direção está tudo bem. Aceita-se a modernização instrumental e até se quer mais. Mas não se tolera a modernidade social, isto é, a mudança em quase todas as outras frentes – na política, no comportamento, nas garantias do direito, nas conquistas sociais, na cultura, nos projetos de inclusão, etc.
Em todas essas direções o governo Temer odeia os direitos porque eles são sinais dos tempos, isto é, porque expressam mudanças ou desejos de mudança na sociedade, a emergência de novos grupos sociais e de novas forças sociais, e a representação dessas forças nos movimentos sociais. O núcleo de seu ministério, como indicamos em outro artigo, foi projetado para funcionar como um aparato de repressão, construído como um instrumento de tortura, para causar dor e sofrimento físico àqueles que contestem a ordem que pretende engendrar.
Os estudantes de São Paulo estão sendo pioneiros na experiência desse novo aparato de violência, na forma da revisão dos direitos que seu grande mentor, Alexandre de Moraes, professor da USP, tem implementado. Ele deixou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo com duas inovações nessa área: 1) a prática (posta em cena na desocupação do Centro Paula Souza) de passar por cima do estado democrático de direito, transformando o mandado judicial em mero pedaço de papel sem serventia e 2) a utilização de pareceres casuístas para justificar a violência policial direta, sem qualquer fundamento aceitável.
Assim, um parecer da Procuradoria do governo de SP, de certo solicitado por ele, garantiu que podia-se desocupar prédios públicos sem mandado desde que se usasse a violência policial no tempo mais breve possível. Para isso, se tomou por base o direito de “autotutela” da posse, que está previsto na legislação e que é aquele em que, por exemplo, quando uma pessoa é assaltada e reage contra o ladrão, tomando de volta um objeto que lhe foi retirado, está amparada pela lei. A mesma coisa ocorre se alguém, ao ser expulso de sua moradia por um invasor, consegue de imediato reverter a situação usando a força. Ela não será punida por agir para recuperar, de imediato, pressionado pelas circunstâncias, seu imóvel.
Esse é um caso de uso privado da força que só excepcionalmente, e de forma moderada, é aceito como legal.  Outra coisa: são ações que não podem ser delegadas a outrem, a vítima é quem tem que reagir. Mas o caso do prédio público, quem é a vítima? O batalhão de choque que faz a desocupação? Evidentemente, que não. O governador? Não, porque ele não é dono do bem público, é apenas um agente que ocupa temporariamente um cargo executivo. E mais, age por delegação que recebe de seus eleitores. Portanto, não pode desocupar pela auto-tutela, porque esta não pode ser delegada.
Levar uma lei dessas para uma instância completamente diversa, pública, é inteiramente abusivo. Porque nessa lei se entende o ato imediato, não reflexivo e não calculado, pelo qual o indivíduo lesado reage no calor da hora. No caso do estado – pense-se na situação concreta do governo de São Paulo expulsando estudantes que ocupam escolas –, este procedimento não é espontâneo, mas já está integrado em ações calculadas e pré-definidas, orientadas por táticas de emprego da violência. E isso trai totalmente o sentido da lei, que é o de acolher o resultado de um impulso momentâneo e legítimo do indivíduo que tem sua propriedade atacada.
No fundo, distorcer esta lei serve para legitimar um ataque ao estado democrático de direito moderno. O estado moderno se baseia no monopólio da violência legítima. O estado possui (e só ele pode possuir, por isso é um monopólio) os meios de violência (polícia, exército, guardas rodoviários, etc.) e os deve usar em estrito acordo com a lei, o que torna esse monopólio legítimo. O que se está tentando introduzir é o “monopólio da violência ilegítima”. Ou seja, violência que viola também as leis. Ocorre que a violência ilegítima, por ser ilegítima, não pode ser monopolizada – isto é, sempre, e a qualquer momento, a violência ilegítima pode ser praticada por qualquer criminoso. O que acontece com o estado que se baseia na violência ilegítima – como foi o caso do estado nazista -, é que ele se torna uma organização criminosa. Mas não uma organização criminosa qualquer. Como possui um grande arsenal de meios e recursos para a prática da violência, ele se torna uma superorganização criminosa.
É esse o perigo que o ódio aos direitos está tornando cada vez mais próximo do nosso cotidiano hoje. Primeiro foram estudantes. Depois serão os manifestantes, os ocupantes dos prédios do Minc pelo país. E, no fim, todos os que denunciarem a natureza ilegítima e usurpadora do governo Temer.
Bajonas Teixeira de Brito Júnior – doutor em filosofia, UFRJ, autor dos livros “Lógica do disparate”, “Método e delírio” e “Lógica dos fantasmas”. É professor do departamento de comunicação social da UFES

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Marcondes Perillo, governador de Goiás, confirma a tática do PSDB para Educação já mostrada por Richa e Alckimin: usar a PM para agredir estudantes e professores


ESTUDANTES FAZEM SEGUNDO CADEIRAÇO EM GOIÂNIA
Na tarde desta segunda-feira (04), os estudantes secundaristas de Goiânia mostraram para o governo como será o ano de 2016. Importantes vias da cidade foram paradas com um cadeiraço, como a Avenida Perimetral Norte e o Eixo Anhanguera, por exemplo.
A repressão veio forte, na forma de policiais infiltrados. Um deles roubou uma cadeira e uma câmera dos estudantes. Armado, o policial apontou a arma e ameaçou atirar nos estudantes diversas vezes caso não intregassem os objetos que desejava levar. Já os policiais fardados agrediram alguns estudantes com socos e empurrões, tentando evitar que obstruíssem a passagem de uma pequena rua. A polícia também prendeu o carro de som que acompanhava a manifestação, sem nenhum motivo plausível, apenas com a "justificativa" de que o carro estava no protesto. Os policiais esperaram os estudantes se dispersarem para seguirem o carro de som até um local propício e evitar que ninguém pudesse ver a ação.

Apesar de tudo isso, os estudantes não abaixaram a cabeça e percorreram diversas ruas e avenidas da região noroeste de Goiânia, dialogando com a população e deixando claro que os estudantes estão firmes e não vão recuar.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A Anistia Internacional critica violência da PM, à mando de Beto Richa, do PSDB, contra professores no Paraná - Artigo do El País





Anistia critica violência da polícia contra professores no Paraná

Entidade cobra responsabilidade do Estado por repressão, e cita suposta prisão de policiais



Manifestante é carregado por colegas durante protesto. / LEONARDO SALOMAO (AFP)

A Anistia Internacional, entidade que é referência mundial em questão de Direitos Humanos, criticou a ação da Polícia Militar do Paraná durante protesto de professores realizado ontem em frente à Assembleia, em Curitiba. “O governador do Estado, Beto Richa, e o comando da PM precisam assumir total responsabilidade pela repressão violenta à manifestação de professores”, afirmou a organização em nota. “Isso é um agressão à liberdade de expressão e ao direito à manifestação pacífica”, disse Atila Roque, diretor executivo da Anistia no Brasil.
A entidade criticou também a reação das autoridades após a ação da polícia. O governador Beto Richa acusou black blocs e o PT de estarem por trás da manifestação, e um porta-voz da PM disse à BBC que “desproporcional seria usar armas letais”, numa referência ao fato da tropa ter usado balas de borracha e bombas de gás. “A polícia não age por conta própria, e as falas das autoridades mostram que para o Governo a ação policial foi adequada”, diz a nota.
No texto divulgado a Anistia cita os 17 PMs que supostamente foram presos por terem se recusado a disparar contra manifestantes. O EL PAÍS ouviu de policiais que não quiseram se identificar que mais de 50 colegas estão presos e já passam por processo de exoneração por terem desobedecido as ordens do comandante da operação. A assessoria de imprensa da corporação nega. O sub comandante geral da PM, Cel. Nerino Mariano de Brito reiterou ao El País que as informações são falsas. "Até o presente momento não existem prisões. Se essas informações fossem verdadeiras seria fácil desmentir pelo 'princípio legal da publicidade', processos de prisão e exoneração precisam gozar de transparência e legalidade", afirmou pelo telefone.
A Secretaria de Segurança Pública (SESP), que nesta quarta-feira enviou nota oficial contabilizando apenas quatro manifestantes feridos e depois alterou o número para 44, explicou que só levou em conta feridos encaminhados para hospitais, e por isso os números do serviço de saúde municipal divulgou balanço tão diferente - 217. Além dos manifestantes, a SESP contou 21 policiais atendidos.
O ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, disse à revista Época que “a violência, praticada por qualquer parte, prejudica a todos, estudantes, professores, pais e sociedade”. Ele se colocou à disposição para intermediar o impasse entre Governo e professores.
O cenário de guerra na praça Cívica começou perto das 15 horas, quando manifestantes, aos gritos de “sem violência” e “ei, polícia, prende o Beto Richa” começaram a forçar grades que faziam o isolamento da Assembleia, enquanto os deputados estaduais começaram a sessão para votar o projeto de lei que altera a Paraná Previdência, e que, segundo os professores, acarretaria perda de benefícios. Agressões com cassetete e jatos de spray de pimenta foram registradas. Alguns dos atingidos revidaram contra a polícia, atirando copos de água vazios. A resposta veio com uso de bombas e balas de borracha, que continuaram a ser lançados de forma ininterrupta durante mais de uma hora. Uma creche localizada na região foi atingida, e funcionários e crianças presentes precisaram ser retirados às pressas.