Do Canal do Analista Político e Jornalista Investigativo Bob Fernandes:
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"Além da esclarecedora entrevista do professor da PUC-SP, analisemos os principais desdobramentos gerados pela confirmação daquilo que todos suspeitavam – que Moro e a Lava Jato usaram de instrumentos criminosos para favorecer a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República."
A situação dos criminosos da Lava Jato que interferiram na eleição de 2018 só piora. Apesar de os filhos de Bolsonaro tentarem minimizar o escândalo Moro-Dallagnol, a República pega fogo. Centenas de juristas, advogados e juízes querem afastar Moro, o Congresso quer CPI e o STF terá reunião extraordinária nesta terça. A partir dela, pode soltar Lula a qualquer momento.
Convenhamos que tanto os fascistas que exigiram a cabeça do primeiro presidente da história que melhorou a vida do povo quanto os apoiadores dele sabíamos todos que era assim que Moro, Dallagnol e todo o núcleo duro da Lava Jato trabalhavam, ou seja, violando a lei, ignorando provas a favor de Lula e inventando provas contra ele – os tais “indícios”.
Só não havia provas, mas, agora, há muitas.
Para que se tenha uma ideia, segundo o editor do site Intercept Brasil, Glenn Greenwald, ele e sua equipe não analisaram nem 1% do material que têm sobre as relações criminosas entre o então juiz Sergio Moro e o chefe da Lava Jato no MPF, Deltan Dallagnol, entre outros.
O Blog da Cidadania foi consultar o professor de Direito Constitucional doutor Pedro Estevam Serrado, da PUC, sobre o que deve ou não acontecer em relação ao caso em tela.
No vídeo que você assistirá ao fim do texto, há entrevista do Blog da Cidadania com Pedro Serrano, que explica que penalidade Moro pode ou não sofrer por violar o artigo 8 do Código de Ética da Magistratura e os artigos 254 e 264 do Código de Processo Penal. Todos esses dispositivos vetam cabalmente que um juiz tome partido da defesa ou da acusação.
Além da esclarecedora entrevista do professor da PUC-SP, analisemos os principais desdobramentos gerados pela confirmação daquilo que todos suspeitavam – que Moro e a Lava Jato usaram de instrumentos criminosos para favorecer a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República.
1 – O conselho Nacional do Ministério Público vai analisar a conduta de Deltan Dallagnol no âmbito do escândalo da manipulação do processo contra Lula
2 – A ONU irá analisar o escândalo envolvendo o juiz que encarcerou Lula, Sergio Moro, e como a conduta dele viola a lei brasileira, já é dado como certo que o organismo inocentará lula.
3 – Diante do escândalo envolvendo Moro, Bolsonaro mandou suspender campanha publicitária do pacote anticrime do atual ministro da Justiça
4 – A cúpula do Congresso Nacional já vê uma CPI sobre o caso do vazamento de conversas atribuídas a Sergio Moro e a Deltan Dallagnol como “muito provável”
5 – Segundo a Rádio França Internacional, o escândalo envolvendo Moro e a Lava Jato se espalhou pelo PLANETA
6 – Centenas e centenas de juristas e advogados de todo país estão exigindo o afastamento do ex-juiz Sergio Moro do cargo de ministro da Justiça e de Deltan Dallagnol do Ministério Público.
7 – A OAB também quer o afastamento imediato de Moro do cargo de ministro da Justiça
Mas a principal notícia do dia não é essa. O Supremo Tribunal Federal irá se reunir extraordinariamente nesta terça-feira, 11 de junho. E é aí que entra uma informação obtida pelo Blog da Cidadania.
Diante do fato já inquestionável de que Moro e Dallagnol violaram a lei para condenar Lula e interferirem nas eleições de 2018 para beneficiar Jair Bolsonaro, na reunião extraordinária ou nos próximos dias, é provável é que o ex-presidente Lula obtenha um habeas-corpus, pois sua prisão já se configura absolutamente ilegal.
Recentemente, o Papa Francisco mandou uma carta a Lula dizendo a ele que o bem venceria o mal e a verdade venceria a mentira. É impossível atribuir qualquer caráter premonitório às palavras o sumo pontífice da igreja católica, mas que é irônico que poucos dias após essa “profecia” a casa de Moro tenha caído e suas armações reveladas, isso é.
OFinancial Times, um dos jornais de maior prestígio no mundo, publica hoje extensa reportagem sobre o assassinato de Marielle Franco e afirma que as conexões do clã Bolsonaro com as milícias no Rio de Janeiro precisam ser elucidadas.
O Financial Times, um dos jornais de maior prestígio no mundo, publica hoje extensa reportagem sobre o assassinato de Marielle Franco e afirma que as conexões do clã Bolsonaro com as milícias no Rio de Janeiro precisam ser elucidadas.
O jornal descreve Marielle como a “Alexandria Ocasio-Cortez da política brasileira”, uma referência à deputada do Partido Democrata que é a sensação da política nos Estados Unidos com a sua proposta de “socialismo democrático” .
“Oradora pública articulada e carismática, Marielle Franco era vereadora do partido de esquerda PSOL, cuja campanha contra a corrupção e a violência policial fez dela uma estrela em ascensão da política do Rio de Janeiro – uma conquista improvável para uma mulher negra e gay de uma das favelas da cidade”, diz a reportagem.
Jair Bolsonaro é descrito por suas conexões com a organização criminosa representada pelas milícias.
“Não há nenhuma sugestão de que o Sr. Bolsonaro ou seus filhos tenham qualquer envolvimento no tiroteio de Marielle Franco. Mas uma razão pela qual seu assassinato criou problemas para o presidente é a rede de conexões entre o clã Bolsonaro e as pessoas envolvidas nas milícias ou perto delas”, diz o texto.
O jornalista lembra que, no ano passado, Bolsonaro declarou em uma entrevista de rádio:
“Veja, há pessoas que apóiam as milícias. . . Em lugares onde as milícias são pagas, não há violência”.
O texto também destaca a presença de parentes de milicianos no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e as declarações dele que relativizaram o assassinato da juíza Patrício Acioli, executada em 2011 por policiais militares que tinham envolvimento com milícias.
A reportagem sobre as milícias como um “poder paralelo no Brasil” é cuidadosa na escolha das palavras, e se destaca mais pelo que não diz, mas sugere.
Tem a foto dos três filhos políticos de Bolsonaro e a lembrança de que Fabrício Queiroz, quando citado na investigação sobre movimentação atípica do Coaf, se refugiou em Rio das Pedras, “lar da primeira milícia no Rio de Janeiro.”
A reportagem prejudica a imagem do Brasil e, particularmente, a de Bolsonaro, já muito desgastada pelas muitas declarações que deu sobre direitos das mulheres, dos homossexuais e dos negros.
Soma-se a outras publicações recentes, como a da Fox News, que também destacou a relação de Bolsonaro com os milicianos e, especialmente, o fato do presidente ser vizinho de uma acusados pelo assassinato de Marielle.
Sergio Moro é citado negativamente, como autor de um projeto que permite a juízes rejeitar processos contra policiais que matarem sob “medo desculpável, supresa ou emoção violenta”.
A reportagem lembra que a polícia brasileira já mata muito, e começou a matar mais desde a posse de Bolsonaro. Não cita dados nesse sentido, mas o caso em que 13 pessoas foram assassinadas no Rio de Janeiro, numa operação supostamente destinada a prender traficantes.
O Financial Times, leitura obrigatória para lideranças capitalistas do mundo todo, não se cansava de elogiar Lula, durante seu governo, com editoriais sobre o ambiente positivo para negócios no Brasil.
Foram publicações que ajudaram a atrair investimentos para o país e projetar a imagem do Brasil com destaque entre os países emergentes. Não foi por outra razão que o país foi colocado na vitrine mundial, ao ser escolhido para sediar uma Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Bolsonaro leva o país no sentido contrário.
Quem lê a reportagem do Financial Times vai pensar duas vezes antes de tirar dinheiro no bolso para investir no Brasil.
Um presidente defensor de milicianos assassinos não inspira confiança em ninguém.
Carlos e Flávio Bolsonaro: conexões do clã com as milícias
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Para ler a reportagem do Financial Times, clique aqui.
"O diário inglês The Guardian chamou Bolsonaro de “populista de extrema direita” dizendo que ele convenceu os brasileiros de que pode resgatar o país da corrupção virulenta, do aumento do crime e da estagnação econômica."
O discurso de posse de Bolsonaro foi um amontado de baboseiras ideológicas, de insultos a adversários, de falta de educação e de mau-gosto. Não disse um A sobre os verdadeiros problemas do país. O problema da Educação, por exemplo, não é o “socialismo”. Nunca houve “socialismo no Brasil. Por conta dessa cretinice, passamos vergonha diante do mundo.
Na falta do que propor ao país, o novo presidente da República inventou uma enorme baboseira sobre um tal de “socialismo” que jamais existiu por aqui – onde já se viu bancos lucrarem como lucram os brasileiros ou existirem bilionários como os nossos em algum regime “socialista”?
Devido à estupidez desse sujeito e à má-fé de seu discurso – ele sabe que inventou essa conversa fiada sobre “socialismo” –, a imprensa internacional caiu matando, como revela o site da Veja.
Promessa de Bolsonaro de ‘livrar’ o país do socialismo repercutiu forte mundo afora. Sucederam-se na imprensa internacional relatos estupefatos de que o novo presidente brasileiro segurou uma bandeira nacional e disse estar disposto a “dar sangue” para que ela não se torne “vermelha”, em alusão à palavra de ordem de grupos militantes de extrema-direita.
Foi um mico internacional. Os maiores jornais do mundo estamparam a declaração maluca do novo chefe de Estado Brasileiro de que vai livrar o Brasil de algo que jamais existiu por aqui.
O diário inglês The Guardian chamou Bolsonaro de “populista de extrema direita” dizendo que ele convenceu os brasileiros de que pode resgatar o país da corrupção virulenta, do aumento do crime e da estagnação econômica.
O The New York Times, maior jornal do mundo, como todos os outros, destacou a invenção sobre ter existido “socialismo” no Brasil algum dia.
Já o site do diário italiano Corriere della Sera chamou Bolsonaro de “líder da extrema direita” e “populista. O jornal também criticou as “pobres referências” aos programas econômicos do novo governo e destacou que Bolsonaro “admitiu repetidamente não entender nada” sobre economia.
O francês Le Monde também deu destaque às declarações acaloradas de Bolsonaro. O jornal citou as promessas do presidente de livrar o país das “ideologias nocivas” que “destroem nossas famílias”, como as da “teoria do gênero” que abomina, ou “marxismo”, que ele acredita haver nos livros didáticos.
Tudo somado, Bolsonaro não decepcionou. Não propôs absolutamente nada para resolver o mergulho que o país está dando na pobreza e na estagnação econômica e vendeu ao seu eleitorado idiota a bobagem de que um país com tanta desigualdade e tantos multi bilionários teria algum tipo de “socialismo” causando problema.
Essa falta do que dizer se transformará em falta do que fazer em um cenário em que o Brasil está mergulhando em recessão, pobreza, desigualdade e violência. Vai demorar pouco para a bugrada cair na real. E, aí, sai de baixo, Bolsonaro, porque a impopularidade vai ser gigantesca. Aguarde.
"Ele (Mourão) deu o coice que faltava para Jair Bolsonaro alçar-se ao status de cavalgadura internacional, quando chamou as mulheres que criam filhos sós de “fabricantes de desajustados”." Do Tijolaço:
O General Hamílton Mourão pode se orgulhar.
Ele deu o coice que faltava para Jair Bolsonaro alçar-se ao status de cavalgadura internacional, quando chamou as mulheres que criam filhos sós de “fabricantes de desajustados”.
Reavivou todas as fornalhas acesas por Bolsonaro e o elevou a fenômeno de grosseria no The New York Times, em texto da correspondente Sasha Darlington.
Uma campanha de mídia social chamada # EleNão – ou #NotHim – é o exemplo mais recente de como as mulheres no Brasil estão se mobilizando contra um político que chamou publicamente as mulheres de ignorantes , feias demais para estuprar ou indignas do mesmo salário que os homens . Em um discurso, Bolsonaro, pai de quatro filhos e uma filha, disse que ter uma criança do sexo feminino é um “momento de fraqueza”.
Sábado, por todo o país – e nas áreas de classe média e alta que ainda lhe são celeiros de votos – as ruas vão se encher de mulheres sob a bandeira do “EleNão”.
E quanto mais os “minions” se mobilizam para reagir, mais pioram as coisas.
Protagonizaram, no Recife, o espetáculo dantesco do “têm mais pelos que cadelas” para as mulheres “de esquerda” (tradução, as que não gritam pelo “Mito”). No Rio, ajustaram sua minúscula manifestação em Copacabana para receber uma tropa de centenas de ex-paraquedistas e policiais numa corrida de “calça e coturno, com a parte superior do corpo exposta”, como determinavam seus organizadores.
Só mesmo o torso nu e a pele morena os diferenciavam dos camisas pardas de Hitler.
Candidatos desconhecidos, uma eleição que desperta pouco interesse. O Brasil que marcou a França durante os anos Lula, com uma sucessora apreciada pelos franceses revelou-se uma democracia doente. Esse é o diagnóstico de Frédéric Martel, jornalista da rádio France Culture.
Do DCM:
O jornalista francês Frédéric Martel
Candidatos desconhecidos, uma eleição que desperta pouco interesse. O Brasil que marcou a França durante os anos Lula, com uma sucessora apreciada pelos franceses revelou-se uma democracia doente.
Esse é o diagnóstico de Frédéric Martel, jornalista da rádio France Culture, que me recebeu em sua casa, em Paris, no bairro Le Marais, conhecido por ser frequentado por judeus e pelo público LGBTI. Ativista, ele escreveu diversos livros, dentre eles o Global Gay, livro que traça um perfil dos direitos homossexuais no mundo.
Para ele, os ataques a homossexuais pela extrema direita no Brasil são a típica dinâmica dos políticos demagogos populistas que criam um bode expiatório para cativar uma sociedade em crise. Processos questionáveis contra o principal líder petista, contra a primeira presidenta, contra o atual presidente mostram, na sua visão, um sistema que Lula poderia ter reformado, mas não o fez.
O jornalista acredita que o Brasil precisa de um Winston Churchill, Franklin Roosevelt ou de um Charles de Gaulle, figuras que evoca quando perguntado sobre o ex-metalúrgico. “O Brasil precisa de um Macron”, diz ele.
Em suas estantes, livros e objetos que evocam outras civilizações, obras sobre Fidel Castro. Um interessado na América Latina, ele fala de erros e acertos da história recente do Brasil e suas perspectivas.
DCM: Recentemente, o papa Francisco disse que os pais devem levar as crianças ao psiquiatra se houver demonstração de homossexualidade. Qual o estado dos direitos LGBTI no mundo?
Frédéric Martel: Na verdade, o papa não disse isso. Ataca-se a frase vinda do papa, mas é preciso escutar sua declaração. Ela dura entre quatro e cinco minutos. E ela é muito, muito pró-gay. Ela é extremamente favorável aos gays. Sua declaração, eu diria, em relação a todos os papas anteriores e em relação à grande parte dos cardeais, o papa é gay friendly (simpatizante dos gays). De fato, ele fala de psiquiatria, provavelmente sem querer. A frase foi interrompida na sequência. Sem dúvida, ele queria falar sobre psicologia, psicanálise, o que muda o sentido. Realmente, foi um erro ter usado essa palavra. Mas ele disse essencialmente: “você não deve julgar seu filho ou sua filha. Você deve compreendê-la, respeitá-la, amá-la”, palavras pró-gay que nunca ouvimos da boca de um papa ao longo de toda a história.
Isso que eu retenho do que ele falou, mais do que essa parte muito curta. Não fica claro, talvez ele estivesse pensando que se os pais têm um problema, que talvez eles peçam a ajuda de um psiquiatra, talvez para que o próprio psiquiatra diga a eles que não é um problema. Oficialmente, os psiquiatras não consideram a homossexualidade um problema. Eu não vou defender o papa. Não sou católico, não estou nem aí. Mas isso é a típica situação na qual uma frase é retirada do seu contexto e faz-se dizer – de fato a frase foi dita, foi um erro – faz-se o papa dizer algo que ele não disse, uma mensagem que ele não queria dar. Ele queria dar uma mensagem positiva em relação à família homossexual.
O que quer dizer um papa muito favorável à questão gay, como você diz?
Eu não diria que o papa é pró-gay. Eu diria que ele é ambíguo. Um papa jesuíta, que às vezes diz palavras pro-gay, outras vezes palavras anti-gay, às vezes ambíguas. Talvez também discursos que mudam de acordo com o país, do off, do in. Eu diria que é um papa, sobretudo, conservador sobre essa questão, que foi mais favorável às uniões civis, muito hostil contra o casamento. Mas quando o comparamos com o conjunto de seus predecessores, pelo menos desde Paulo VI, há um papa, em relação a eles, pró-gay. Mas para você e eu, não é um papa pró-gay. Ele permanece conservador, é latino, peronista, com tudo que isso pode significar, como muitos… Eu não diria, como homem de esquerda, porque não tenho certeza de que ele seja um esquerdista.
Mas ele é como muitas figuras de sua geração, não esqueçamos que ele tem 81 anos. Ele cresceu numa forma de marxismo, e com uma certa proximidade como a Teologia da Libertação, o que faz com que, para ele, a noção de classe seja mais importante que a questão de raça ou gênero. Então, eu penso que ele não compreendeu muito bem a complexidade da questão homossexual. No geral, ele faz uma distinção justa, de um lado, de algo que é altamente condenável, que são os abusos sexuais e a pedofilia, tudo que concerne a sexualidade violenta, o que ele condena severamente, ao menos em relação ao que se publica, ao que se sabe. Depois, o sexo entre adultos, consentido, que não defende como sendo o ideal, ele não quer julgá-lo. Sua fórmula é: quem sou eu para julgar? Se compararmos ao que a igreja era e o que ela é hoje, inclusive no Brasil, podemos dizer que ele está na direção certa.
Ele corresponde a uma tendência da igreja católica?
Na maioria dos países da América Latina, há uma forte tensão entre a corrente encarnada pelo Francisco, com nuances, o que no Brasil seria representado pelo cardeal Hummes, progressista, e uma corrente ratzingeriana, mais tradicionalista, de conservadores, com o Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. A batalha que existe entre Hummes e Scherer é a mesma guerra que encontra-se no Vaticano, entre Francisco e Ratzinger, no México, muito fortemente nos Estados Unidos, na Argentina, etc. A batalha entre a Teologia da Libertação, uma corrente da Igreja Católica, que foi importante nos anos 1970 e 1980 e que é mais pós-marxista, de esquerda social, que teve uma imensa influência, notadamente sobre o Brasil, de onde são seus grandes líderes, caso de Leonardo Boff, talvez o mais famoso teólogo da Libertação, com Gutierrez, peruano. Há também outros brasileiros importantes, como Frei Betto, bastante próximo de Fidel Castro, bastante à esquerda. Alguns desses padres foram combater em guerrilhas contra a extrema direita.
Há derivas na política?
Na América Latina, com muitas diferenças e singularidades, as correntes da Igreja são extremamente politizadas, de um lado e do outro. São frequentemente ligadas a forças políticas. Na Colômbia, cardeais e alguns arcebispos eram próximos de paramilitares e fascistas. Uma parte significativa da Igreja chilena era próxima de Pinochet e às vezes ligada a ele. Uma parte da Igreja argentina foi favorável à ditadura. Do outro lado, da extrema esquerda, uma parte dos padres da Teologia da Libertação foi de guerrilheiros ou mortos, com armas na mão. Havia muitos adeptos de Che Guevara na Igreja Católica da América Latina. A Igreja Católica tem todos esses componentes de esquerda, direita, extrema esquerda, extrema direita, mas evidentemente há também os padres de conventos, talvez neutros, que não são engajados na vida política, mas eu acredito que a Igreja latino-americana é extremamente politizada e o papa Francisco é produto disso. E isso explica a tensão que há no mundo em torno desse papa; os conservadores não gostam dele de jeito nenhum, organizando um complô contra ele, ou tentando desestabilizá-lo, fazê-lo abdicar.
Levy Fidelix viu seu número de votos se multiplicar por quatro depois de dizer que aparelho excretor não reproduz. Bolsonaro está em segundo lugar nas intenções de voto. Como se chegou a tal cenário?
Muito fácil quando se é um demagogo populista, de extrema direita, encontrar um bode expiatório e formas de popularidade sobre a amargura das pessoas. Podemos estar em dificuldade financeira, podemos não gostar da maneira como o país é governado, podemos ser vítimas de violência, termos razões objetivas de estarmos amargurados, mas termos uma postura de construir uma política para lutar contra esse problema, baseada em fatos reais e propostas concretas que permitam solucionar os problemas, solucioná-los. OU podemos projetar essa amargura em bodes expiatórios, como os imigrantes na Itália. Na França, os desempregados. Os homossexuais, no caso a que você se refere. Diz-se: damos muitos direitos a eles, eles têm liberdade demais para sua perversão, todo um discurso bastante homofóbico, mas que aparece como sendo coerente, porque cria um bode expiatório.
A totalidade dos problemas do Brasil não vem dos homossexuais e nem dos imigrantes. Mas não conheço muito bem Bolsonaro. Não há correlação a priori entre homossexualidade, roubo e assassinato. Por outro lado, quando você quer tranquilizar as pessoas sobre a família, a fidelidade, uma sexualidade normativa, por mais que eu acredite que isso não existe, basta ver os escândalos de padres pedófilos para perceber que são geralmente aqueles que mais militam pela moral que são seus piores defensores. A ideia de que os homossexuais transmitem a AIDS não é totalmente falsa. Mas a AIDS é transmitida entre todas as orientações sexuais. E são os homossexuais que mais se protegem através das terapias de prevenção. Então, parte-se de um preconceito ou uma ideia que tem algo de verdadeiro para criar um bode expiatório que se radicaliza, vira uma figura assustadora, para assustar as pessoas e fazê-las crer que ali está a origem de seus problemas. Mas o problema, na verdade, não tem relação. Não se é pobre no Brasil porque homossexuais se casam. Tudo isso é estúpido.
Li críticas dizendo que em seu livro, Global Gay, a América Latina tem países com legislações mais avançadas do que a Europa em relação à questão LGBTI. E no Brasil, recentemente, há casos que vão na direção contrária, como, por exemplo, uma peça de teatro censurada porque Jesus Cristo era interpretado por uma transgênero. Há uma contradição?
Eu penso que América Latina é um conceito de europeus que a veem de longe. Eu acredito que em Global Gay eu mostro bem que a América Latina é dividida; há o Chile, uma espécie de nação startup, o que difere completamente da Venezuela, Cuba, México. Há países muito homofóbicos na América Latina, com legislações extremamente violentas, sobretudo na América Central e Guiana. O que eu disse, por outro lado, é que paradoxalmente se levarmos em conta a vitória do casamento gay em países da América Latina como a Argentina, mas também mais recentemente o Uruguai, estiveram à frente na adoção dessa legislação em relação a países como a França ou a Alemanha, ou a Itália, que ainda não tem o casamento gay.
Recentemente no Brasil, membros do Ministério Público pediram à justiça a anulação de casamentos gays. Qual é o quadro do Brasil em relação aos direitos LGBTI?
São questões muito técnicas. Há países na Europa Central, a Índia, que mudaram várias vezes suas leis, descriminalizando a homossexualidade. Ou na Austrália, autorizando aunião civil, depois repenalizando. Foi muito isso nos Estados Unidos, onde cada estado tinha guerras inacreditáveis até que a decisão da Corte Suprema unificasse o direito americano. O Brasil é um estado federal também, que também tem legislações muito complexas por estado. Não conheço as sutilidades do direito brasileiro. Mas eu sou mais otimista, e você pode me criticar. Eu sei que há retrocessos. Mas há um movimento (social) muito forte. E eu digo isso sendo uma pessoa prudente. Não sou um esquerdista de posições radicais.
Eu gostaria de perguntar sobre as propostas LGBTI dos candidatos à presidência no Brasil. Mas antes: eles são conhecidos na França?
Por enquanto não. Conhecemos Lula. Conhecemos bem Dilma Rousseff, porque ela representava a sucessão de Lula, uma mulher, ex-guerrilheira, presa e torturada, penso que ela foi popular na França, em seu primeiro mandato, e também no segundo. Depois, sua queda, os franceses não entenderam muito bem. Há um carinho dos franceses em relação ao Brasil, é o país que melhor conhecemos na América Latina. Os anos Lula marcaram muito a França, que ofuscaram problemas graves, democráticos, sociais, econômicos. Um país que não ia bem, mesmo sob uma democracia muito mais atrasada do que pensávamos. Por enquanto, devo confessar que a eleição é pouco acompanhada na França. Como é em outubro, penso que começará a haver mais notícias sobre.
Nem Marina Silva é conhecida?
Sim. Mas, se você perguntar na rua, não acredito que vão dizer conhecê-la. Sei que ela foi ministra de Lula, que foi uma grande figura do meio ambiente, da Amazônia, creio que ela estuprada, que foi uma mulher que sofreu violência, etc. Quando a gente olha para a história, teria sido melhor que ela tivesse sido eleita no lugar de Dilma Rousseff. A alternância é a chave. O que aconteceu com Lula foi a recusa da alternância. Num dado momento, é preciso haver alternância, que uma nova família política chegue ao poder. Você nem sempre tem razão. Se as medidas que você tomou fracassaram, outros vão corrigir. Uma alternância moderada, talvez não fosse moderada, mas pacífica, como houve na França. Não sou adepto de Sarkozy, Chirac ou Macron.
Mas acho que depois de Hollande, é bom ter outra coisa. E se gostarmos, voltemos à esquerda. E no caso do Brasil, a direita, mesmo que seu candidato tenha morrido num helicóptero, eu estava no Brasil no dia em que ele morreu, Marina Silva, do lado mais verde, ambientalista, de esquerda, eu não sei se ela teria sido uma boa presidente. Mas se ela tivesse sido eleita, teria evitado que Dilma Rousseff tivesse caído dessa forma lamentável. Precisa haver contrapeso, uma corte constitucional, câmaras parlamentares eleitas em diferentes momentos, executivos locais fortes, a ação de sindicatos, etc. O Brasil nos parecia ser uma verdadeira democracia. E hoje, ainda que continue sendo uma democracia, vemos que é uma democracia doente e que precisará da ajuda de alguém.
Esse alguém seria Lula?
Eu não sei, não conheço os outros candidatos. Por que Macron foi eleito? Eu votei nele no segundo turno contra Marine Le Pen. Ele encarnava a ideia de modernizar a França de modo não muito extremo, nem do ponto de vista da União Europeia, nem do islamismo, nem da globalização, alguém bastante moderado, uma renovação, uma juventude, novos valores, liberal, moderno, um dos raros presidentes que trabalhou, é um filósofo, nem todo mundo fez pesquisas sobre Maquiavel e Hegel. Eu espero que o Brasil tenha seu Macron.
O que significa para um país do tamanho do Brasil que seu único candidato conhecido internacionalmente esteja preso?
Nós o conhecemos não porque ele é candidato nesta eleição, mas porque ele foi presidente durante dois mandatos. Não falamos português na França, nem o espanhol. A América Latina é um continente do qual a França está muito distante. Mesmo que muita gente conheça Copacabana e Ipanema, é na verdade um país muito distante. Não temos muito conhecimento sobre esse país. Temos muitos preconceitos e ideias falsas a respeito, sejam positivas ou negativas. Houve uma época de proximidade muito grande com a América Latina, notadamente os anos 1970, por causa da tensão entre os regimes militares e os exilados, que vieram para a França. Muitos brasileiros, argentinos, chilenos, cubanos. Hoje, há uma migração brasileira relativa, menor do que de outros países. A ligação (entre Brasil e França) se atenuou. Eu vou cada ano ao Brasil, onde passo bastante tempo.
Por quê?
Vou a cada ano ao México, a Cuba. Eu acho que o Brasil é interessante como laboratório de uma grande democracia doente. Quando olhamos hoje para a Itália, para a Espanha, a Inglaterra, nem estou nem falando da Hungria e da Polônia, está-se diante de democracias doentes. Eu não posso dizer se é certo ou errado que Lula esteja na prisão, se ele errou ou tem razão. Mas eu penso que seu processo, assim como o processo contra Dilma Rousseff, os outros processos envolvendo o atual presidente, o presidente do Senado, outros líderes políticos brasileiros, mostrou que é uma democracia muito doente. Que é preciso que o sistema seja rapidamente retomado, para criar contra-poderes, meios de controle financeiro, para evitar que esses escândalos se reproduzam, que concernem todo mundo, todas as forças políticas, mas sem cair num populismo cujo resultado será o pior.
Qual?
O resultado de uma eleição de um líder de extrema direita será pior do que o resultado dos governos anteriores.
Pior que Temer?
Não. Talvez. Não acompanhei suficientemente. Mas eu falo em relação a Dilma Rousseff e Lula, que podemos criticar fortemente, mas que foi, pelo menos a primeira época de Lula, foi um momento positivo para o Brasil.
Qual seria a consequência de uma eventual vitória de um governo de extrema direita?
A questão se impõe hoje à Itália, cujo governo, na verdade é misto. Mesmo o Brexit é o mesmo problema, uma reação de tipo nacionalista-populista. E também Trump, uma direita extrema.
Mas Trump diz que seu mérito é ter apresentado bons resultados para a economia americana. Por outro lado, é fato que, com o Brexit, há um déficit.
Trump está no governo há mais de um ano. Julga-se o resultado de uma presidência a longo prazo, não sobre um ano, pela macroeconomia, não pela micro. Precisa-se considerar a influência americana, do modelo americano, dos efeitos de imigração. Não tenho certeza que o resultado seja positivo.
Voltando ao que você disse, o que significa “retomar o sistema” no Brasil? Retomar a democracia? Isso passa pela decisão da Comissão da ONU, que recomendou que Lula possa se candidatar à presidência?
Não conheço objetivamente o processo. Mas a sua questão é muito boa. Precisa-se de um grande homem. Não quero pensar que uma eleição é que vai mudar tudo. Mas vemos bem que quando há um Churchill (primeiro-ministro inglês durante a II Guerra Mundial), um Roosevelt (presidente americano de 1933 a 1945), em períodos de grande dificuldade, um De Gaulle (presidente francês durante e após a II Guerra)… Em todo caso, é preciso que novas regras sejam fixadas e que sejam capazes de mudar um sistema truncado. Quando falamos de homossexualidade, não é isso que vai resultar no sucesso da extrema direita, mas o contexto é tão negativo que as pessoas acreditam que é aí que está a solução. Trump não é uma solução para a América.
Felizmente, a democracia americana é muito forte, muito sólida. Penso que a democracia americana é mais forte do que Trump. Essa é a força desse país, como também penso ser o caso da França, o que não é o caso do Brasil. Há um problema de instituições, de leis constitucionais, de moral política. Ai Lula também cometeu erros. Além do que é verdade ou falso nas acusações que são feitas contra ele, ele teve o poder, era popular; ele tinha muita capacidade para mudar as coisas; ele deveria ter reformado o sistema. Um outro exemplo: quando falamos de Mateo Renzi (ex-premiê italiano), que diz ser trágica a chegada da extrema direita, do Movimento 5 estrelas, mas a maneira como ele fez a reforma não funcionou. Então ele é responsável. Lula é responsável. Eu não conheço as leis, as regras constitucionais de financiamento da campanha eleitoral. Se ele tivesse reformado esse sistema, teria o mérito hoje a seu favor. Então, essas práticas eram toleradas. Não haveria o que dizer. Vemos a necessidade de alguém que seja capaz de mudar tudo isso.
Frédéric Martel e o colaborador do DCM, Willy Delvalle
Formou-se em jornalismo na Unesp e cursa mestrado em Filosofia Política e Sociologia na Universidade Paris 7, na França. Foi professor voluntário de português para imigrantes e refugiados em São Paulo. Realizou o documentário "Entre o Cavaco, Cavalo e o Portão"