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sábado, 10 de outubro de 2020

Um plano de ação para a Internacional Progressista contra a Extrema-Direita e o Fascismo, por Yanis Varoufakis

 Yanis Varoufakis provoca: crise abre espaço para projeto pós-capitalista. Mas esquerda precisa assumir o combate ao sistema, que os fascistas fingem fazer. Há um leque de alternativas para tanto, desde que se retome a imaginação política


Por Yanis Varoufakis, em seu blog | Tradução de Simone Paz

Nossa era será lembrada pela marcha triunfante do autoritarismo e seu rastro, em que a vasta maioria da humanidade passou por dificuldades desnecessárias e os ecossistemas do planeta sofreram uma destruição climática que podia ter sido evitada. Por um breve período — que o historiador britânico Eric Hobsbawm descreveu como “o curto século 20” — as forças do establishment se uniram para lidar com os desafios à sua autoridade. Foi uma fase rara, em que as elites tiveram que enfrentar um leque de movimentos progressistas, todos buscando mudar o mundo: social-democratas, comunistas, experimentos de autogestão, movimentos de libertação nacional na África e na Ásia, os primeiros ecologistas, radicais, etc.

Cresci na Grécia de meados da década de 1960, governada por uma ditadura de direita estimulada pelos Estados Unidos, sob o comando de Lyndon Johnson (cujo governo foi um dos mais progressistas internamente, mas que não hesitou em apoiar fascistas na Grécia ou em bombardear o Vietnam). O medo e a aversão ao populismo de direita que encontramos hoje estampado nas páginas do New York Times, simplesmente não existiam naquela época.

As coisas mudaram depois de 2008, o ano em que o sistema financeiro ocidental implodiu. Após 25 anos de financeirização sob o manto ideológico do neoliberalismo (entenda mais no artigo de Ann Pettifor sobre o sistema financeiro global), o capitalismo global teve um espasmo semelhante ao de 1929, que quase o deixou de joelhos. A reação imediata dos governos a esta crise, para apoiar as instituições financeiras e os mercados, foi ligar as impressoras dos bancos centrais e transferir as perdas bancárias para as classes trabalhadoras e médias, por meio dos chamados “resgates”.

Essa combinação de um socialismo para poucos e uma rígida austeridade para as massas, desencadeou duas coisas. Em primeiro lugar, deprimiu o investimento real global, pois as empresas sabiam que as massas tinham pouco para gastar em novos bens e serviços. Isso gerou descontentamento entre muitos, enquanto poucos recebiam grandes doses de “liquidez”.

Em segundo lugar, eclodiram inicialmente levantes progressistas — dos Indignados na Espanha e os Aganaktismeni na Grécia, ao Occupy Wall Street e a várias forças de esquerda na América Latina. Esses movimentos, no entanto, tiveram vida relativamente curta e foram tratados de modo eficiente pelo establishment, tanto de forma direta, com o esmagamento da primavera grega em 2015, por exemplo; como indireta, como no enfraquecimento de governos esquerdistas latino-americanos quando caiu a demanda chinesa por suas exportações.

À medida em que as causas progressistas foram sendo eliminadas uma a uma, o descontentamento das massas teve que encontrar uma expressão política. Imitando a ascensão de Mussolini na Itália, que prometeu cuidar dos mais fracos e fazer com que eles se sentissem orgulhosos de serem italianos novamente, testemunhamos a ascensão do que podemos chamar de Internacional Nacionalista, mais claramente expressa nos argumentos de direita alimentando a saída da Grã-Bretanha da União Europeia e nas vitórias eleitorais de nacionalistas de direita: Donald Trump nos Estados Unidos; Jair Bolsonaro no Brasil; Narendra Modi na Índia; Marine Le Pen na França; Matteo Salvini na Itália e Viktor Orban na Hungria.

E assim, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o grande confronto político deixou de ser entre o establishment e os diversos progressismos, para se tornar um conflito entre diferentes partes do establishment. Uma parte aparece como os baluartes da democracia liberal; a outra, como os representantes do movimento anti-liberal.

Evidentemente, esse choque entre o establishment liberal e a Internacional Nacionalista é totalmente ilusório. Na França, o centrista Macron precisou da ameaça do nacionalismo de extrema-direita de Le Pen, sem o qual ele nunca seria presidente. E Le Pen precisou de Macron e das políticas de austeridade do establishment liberal, que geraram o descontentamento que alimentou suas campanhas. Da mesma forma nos Estados Unidos, onde as políticas dos Clinton e dos Obama, que resgataram Wall Street, alimentaram o descontentamento que criou Donald Trump — cuja ascensão reforça, em um círculo sem fim, as defesas de Clinton e Biden contra alguém como Bernie Sanders. Foi um mecanismo de reforço entre o establishment e os chamados populistas, replicado em todo o mundo.

No entanto, o fato do establishment liberal e a Internacional Nacionalista serem co-dependentes, não significa que o choque cultural e pessoal entre eles não seja autêntico. A autenticidade de seu confronto, apesar da falta de qualquer diferença política real entre eles, tornou quase impossível para os progressistas serem ouvidos, devido à cacofonia causada pelas muitas variantes conflitantes do autoritarismo.

É exatamente por isso que precisamos de uma Internacional Progressista — um movimento internacional de progressistas para conter a falsa oposição entre duas variedades do autoritarismo globalizado (o establishment liberal e a Internacional Nacionalista) que nos prendem em uma típica agenda de negócios que destrói as perspectivas de vida e desperdiça as oportunidades de frear a catástrofe climática.

A questão, então, é: o que uma Internacional Progressista faria? Com que propósito? E por quais meios?

Se a nossa Internacional Progressista simplesmente criar espaço para a discussão aberta nas praças das cidades (como fez o Occupy Wall Street há uma década) ou apenas buscar emular esforços como o Fórum Social Mundial, ela acabará novamente fracassando. Para ter sucesso, precisaremos de um plano de ação comum e de uma estratégia de campanha incomum, que incentivem os progressistas ao redor do mundo a implementar esse plano. Por último, mas não menos importante, precisaremos da vontade compartilhada para visualizar uma realidade pós-capitalista.

Permitam-me destrinchar esses três pré-requisitos, um a um:

Pré-requisito 1: Um plano de ação progressista comum

Os fascistas e os banqueiros têm um programa comum. Se você conversar com um banqueiro no Chile ou na Suíça, com um apoiador de Trump nos Estados Unidos ou com um eleitor de Le Pen na França, você ouvirá a mesma narrativa. Os banqueiros dirão que a regulamentação e os controles de capital são prejudiciais ao progresso; que a engenharia financeira aumenta a eficiência com que o capital flui para a economia; que o setor privado é sempre melhor na prestação de serviços do que o setor público; que salários mínimos e sindicatos impedem o crescimento ou que as mudanças climáticas só podem ser enfrentadas pelo setor privado.

Por sua vez, a narrativa Internacional Nacionalista é a seguinte: cercas elétricas nas fronteiras são essenciais para preservar a soberania nacional; os imigrantes ameaçam os empregos locais e a coesão social; os muçulmanos, em particular, não podem ser integrados e precisam ser mantidos pra fora; os estrangeiros conspiram com as elites liberais locais para enfraquecer a nação; as mulheres devem ser incentivadas a criar seus filhos em casa; os direitos LGBTQI+ vêm em detrimento da moralidade básica e, por último, mas não menos importante: “Dê-nos o poder de agir de forma autoritária, que nós faremos com que o país volte a ser grandioso e você orgulhoso”.

Os progressistas também precisam de narrativas compartilhadas. Felizmente, sabemos o que deve ser feito: a geração de energia deve transitar maciçamente de combustíveis fósseis para fontes renováveis, principalmente eólica e solar; o transporte terrestre deve ser eletrificado, enquanto o transporte aéreo e o transporte marítimo devem recorrer a novos combustíveis com zero emissão de carbono (como o hidrogênio); a produção de carne deve diminuir substancialmente, com maior ênfase nas culturas orgânicas; e limites estritos ao crescimento físico desde toxinas até cimento são essenciais.

Também sabemos que tudo isso custará pelo menos 10% da receita global, ou quase 10 trilhões de dólares, anualmente – uma soma que pode ser facilmente mobilizada, desde que estejamos prontos para criar instituições para coordenar as várias ações e redistribuir as receitas entre o Norte e o Sul globais. Para conseguir isso, precisamos invocar o espírito do New Deal original de Franklin Roosevelt — uma política que teve sucesso porque inspirou pessoas que haviam perdido a esperança de que existissem maneiras de direcionar os recursos ociosos ao serviço público.

Nosso Green New Deal Internacional terá de utilizar instrumentos de crédito transnacionais e impostos sobre carbono — de modo que o dinheiro arrecadado com a taxação do petróleo possa ser devolvido aos cidadãos mais pobres que dependem de carros a gasolina, a fim de fortalecê-los de modo geral, permitindo, também, que possam comprar carros elétricos. Para aplicar esses recursos em investimentos ecológicos, é necessária uma nova Organização para a Cooperação Ambiental de Emergência, com o fim de reunir a inteligência da comunidade científica internacional em algo como um Projeto Manhattan verde — que vise, em vez do assassinato em massa, o fim da extinção.

Sendo ainda mais ambiciosos, nosso plano comum deveria incluir uma União de Compensação Monetária Internacional, do tipo sugerido por John Maynard Keynes durante a conferência de Bretton Woods em 1944, apresentando restrições bem elaboradas aos movimentos de capitais. Ao reequilibrar salários, comércio e finanças em escala global, tanto a migração involuntária quanto o desemprego involuntário diminuirão, encerrando assim o pânico moral sobre o direito humano de circular livremente pelo planeta.

Pré-requisito 2: Uma campanha incomum

Sem isso, nosso plano comum, o Green New Deal Internacional, permanecerá só no rascunho. E aqui vai uma ideia de campanha: precisamos identificar as empresas multinacionais que abusam dos trabalhadores localmente e atacá-las globalmente, utilizando a grande disparidade de custos para os participantes de, por exemplo, boicotar a Amazon por um dia e os custos dos mesmos boicotes para as empresas-alvo. Boicotes de consumidores globais não são novos, mas agora, usando o poder de megaempresas de plataforma, como a Amazon, contra elas próprias, podem ser muito mais eficazes. Especialmente, em uma segunda fase, eles seriam combinados com ações de greve local envolvendo os sindicatos mais importantes. Essa ação global em apoio aos trabalhadores ou comunidades locais tem um alcance imenso. Com comunicação e planejamento inteligentes, eles podem se tornar uma forma popular de as pessoas no mundo todo compartilharem o sentimento de estar ajudando a tornar o planeta um lugar mais livre e justo.

Claro, para que isso aconteça, nossa Internacional Progressista requer uma organização internacional ágil. O problema das organizações que são capazes de uma coordenação global é que elas, sorrateiramente, reproduzem em si burocracias, exclusão e jogos de poder. Como podemos evitar que o neoliberalismo e o nacionalismo autoritário destruam o mundo sem criar nossa própria variedade de autoritarismo? Reconheço que é mais difícil encontrar a resposta certa para essa pergunta sendo progressistas que rejeitamos as hierarquias, as burocracias e as invasões do paternalismo. Mas temos o dever de encontrá-la.

Pré-requisito 3: Uma visão compartilhada do pós-capitalismo

Consideremos o que aconteceu no dia 12 de agosto de 2020, quando foi divulgada a notícia de que a economia britânica havia sofrido a maior queda de sua história. A Bolsa de Valores de Londres deu um salto de mais de 2%! Nunca tinha acontecido nada comparável a isso. Fatos semelhantes ocorreram em Wall Street, nos Estados Unidos.

Efetivamente, quando a Covid-19 se deparou com a bolha gigantesca na qual governos e bancos centrais têm mantido corporações e instituições financeiras vivas como zumbis, desde 2008, os mercados financeiros finalmente se desvincularam da economia capitalista em seu redor.

O resultado destes desenvolvimentos notáveis é que o capitalismo já começou a evoluir para um tipo de feudalismo tecnologicamente avançado. O neoliberalismo é hoje o que o marxismo-leninismo costumava ser durante os anos 80 soviéticos: uma ideologia totalmente em desacordo mesmo com o regime que a invocou. Após o colapso do bloco soviético em 1991, e do capitalismo financeirizado em 2008, estamos numa nova fase, em que o capitalismo está morrendo e o socialismo se recusa a nascer.

Caso eu esteja certo, mesmo aqueles progressistas que ainda nutrem esperanças de reformar ou civilizar o capitalismo devem considerar a possibilidade de olharmos para além do capitalismo — ou, na verdade, de planejar uma civilização pós-capitalista. O problema é que, como meu grande amigo Slavoj Zizek apontou, a maioria das pessoas acha mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Para combater essa falha de nossa imaginação coletiva, em meu livro mais recente, intitulado Another Now: Dispatches from an alternative present (“Outro Agora: despachos de um presente alternativo”), tento imaginar o que ocorreria se minha geração não tivesse perdido todos os momentos cruciais que a história nos apresentou. E se tivéssemos aproveitado o momento de 2008 para uma revolução pacífica de alta tecnologia, que tivesse nos levado a uma democracia de economia pós-capitalista? Como seria?

Haveria mercados para bens e serviços, já que a alternativa — um sistema de racionamento do tipo soviético, que confere poder arbitrário ao pior dos burocratas — é deprimente demais. Mas, para que um novo sistema seja à prova de crises, há um mercado que não podemos nos dar ao luxo de preservar: o mercado de trabalho. Por que? Porque, se que o tempo de trabalho é reduzido a um bem de aluguel, os mecanismos de mercado inexoravelmente empurram seu preço para baixo, enquanto mercantilizam todos os aspectos do trabalho (e, na era do Facebook, até do lazer). Quanto maior a capacidade do sistema para fazê-lo, menor o valor de troca de cada unidade de produção que ele gera, menor a taxa média de lucro e, em última análise, mais nos aproximamos de uma nova crise sistêmica.

Uma economia avançada pode funcionar sem mercados de trabalho? Claro que sim! Considere o princípio de a cada um funcionário, uma ação e um voto. Alterar a legislação societária de modo a transformar cada funcionário em um sócio igual (ainda que não igualmente remunerado), através da concessão de um voto não negociável de uma pessoa-uma ação-um voto, é tão inimaginável e radical hoje quanto o sufrágio universal parecia ser no século 19. Se, além dessa transformação fundamental da propriedade da empresa, os bancos centrais proporcionassem a todos os adultos uma conta bancária gratuita, passaríamos a ter uma economia de mercado pós-capitalista.

Com o fim dos mercados de ações, a alavancagem da dívida associada a fusões e aquisições também se tornaria uma coisa do passado. A Goldman Sachs e os mercados financeiros que oprimem a humanidade, subitamente deixariam de existir — sem nem ser preciso bani-los. Livres do poder corporativo, livres da indignidade imposta aos necessitados pelo estado de bem-estar social, da tirania dos lucros e do cabo de guerra entre lucros e salários, as pessoas e comunidades podem começar a imaginar novas maneiras de empregar seus talentos e criatividade.

Chegamos a uma bifurcação. O capitalismo está em crise profunda, embora sigamos a caminho da distopia. Somente uma Internacional Progressista poderá ajudar a humanidade a alterar o seu caminho.

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domingo, 8 de março de 2020

Hildegard Angel: Quando olho hoje à minha volta, vejo as múmias do passado, caminhando assustadoramente…



"Não encontro mais em mim a possibilidade do silêncio, não encontro a coragem de ter medo", escreve a jornalista Hildegard Angel, neste Dia Internacional da Mulher, relembrando a ditadura militar




Por Hildegard Angel, para o Jornalistas pela Democracia - Para alguns, são fatos anacrônicos, que não valem ser lembrados. Para mim, foram ontem, hoje pela manhã, e eu os sinto e lembro com tal intensidade que me parece impossível permitir que seja apagado aquele bafo de terror que sufocou nossas vidas, quando só a impetuosidade criativa dos artistas nos possibilitava respirar, sorrir, esperançar e acreditar que a nuvem de chumbo passaria.
E ela passou… deixando em seu rastro cicatrizes, tragédias, lembranças doloridas e nos legando exemplos de heroísmo, coragem, rebeldia.
Quando olho hoje à minha volta, vejo as múmias do passado, caminhando assustadoramente, com passos de ganso, em nossa direção, e não encontro mais em mim a possibilidade do silêncio, não encontro a coragem de ter medo.
Neste Dia das Mulheres, vamos lembrar outra vez a fibra de Zuzu Angel, tudo de belo que realizou, tudo de muito que lutou.
Eis aqui o vídeo produzido pela Casa Zuzu Angel, com o talento de Rubens Ramos, a colaboração de Simone Costa e a contribuição de nossa História aos que nos honram com sua atenção.



segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Bozo e a hipnose fake news fascista, ou se lutar o bicho foge, por Armando Coelho Neto, delegado aposentado da Polícia Federal





Sem embargo das muitas dificuldades, o que estamos observando no chamado “campo progressista” é uma certa paralisia pelo pânico.

Bozo e a hipnose fascista ou Se lutar o bicho foge

por Armando Rodrigues Coelho Neto, no GGN

Este texto, a rigor, não deveria ser assinado por mim. O espírito inquieto por trás dele não pode baixar em terreiro fascista. Aceitem, pois, essa “psicografia” como se minha fosse, pois não posso expor ao ódio “bozofascista” a verdadeira autoria. Desfrutem.
A expansão do neofascismo como alternativa política, no Brasil e no mundo, é alimentada pelo esgotamento do sistema representativo das democracias liberais. É, ademais, perceptível que os pilantras do rentismo (gigolôs do dinheiro alheio) cansaram de investir na cooptação de lideranças do campo “social-democrata” ou “liberal” e passaram a investir na extrema-direita – e, pelo que parece sugerir a recém aprovada “deforma previdenciária”, com lucrativos resultados em detrimento dos mais humildes. Vivenciamos a curiosa situação de os responsáveis pela disfuncionalidade das economias nacionais se valerem das mesmas insuficiências que causam (decorrentes do exaurimento dos recursos públicos em prol do parasitismo financeiro) para se locupletarem diante do caos e da confusão social, agora patrocinados via think tanks e redes sociais, numa torrente de fake news que beneficiam as figuras patéticas que têm tomado conta da cena político-partidária (os blogueiros destrambelhados, os majores fulanos, os delegados cicranos e por aí vai).
Tais circunstâncias criam dificuldades adicionais ao chamado “campo progressista”, pois recai sobre tal grupo de pessoas, mesmo diante de um público cada vez mais descrente e refratário à complexidade das dinâmicas sociais, tentar promover um debate público minimamente profundo, defender a liberdade de expressão e de imprensa (ainda que sob tal escudo a mídia tradicional tenha promovido uma campanha insidiosa contra a esquerda, marcada pelo mais absurdo falso-moralismo), o sistema político (mesmo com todos os seus vícios e inconsistências), a legalidade (ainda que se trate de um Ordenamento Jurídico francamente contrário ao interesse da maioria) e as instituições, inclusive judiciais (mesmo sendo os democratas e nacionalistas brasileiros alvo de sanha punitivista implacável em processos conduzidos de modo parcial e injusto).
Então estamos combinados, tá oquêi? A carne estava barata demais. Acostumem-se ao dólar caro. Pobres não sabem economizar como fazem os ricos. Os trabalhadores precisam optar entre a precarização ou o desemprego. As “reformas” irão redimir a economia, com a mágica do trilhão (“só-que-não”). Os brigadistas voluntários protetores das matas são os responsáveis pelas queimadas perpetradas pelos latifundiários e grileiros. As feministas com suas roupas provocantes e sua atitude de menosprezo à masculinidade estão pedindo para apanhar e para serem molestadas. A escravidão é culpa dos índios preguiçosos e até foi boa para os negros. O racismo é uma ilusão, as políticas afirmativas desnecessárias. No Brasil, só passa fome quem quer. Cristo pregava o amor ao próximo, mas os cristãos, para serem fiéis ao cristianismo, precisam ser violentos e intolerantes. A Terra é plana. E quem achar tudo isso muito estranho que se cuide com a reedição do Ato Institucional número cinco (o “AI-5” de triste memória, que durante a Ditadura serviu para fechar o Congresso Nacional e excepcionar as liberdades constitucionais).
As sucessivas erupções de ignorância parecem abundar como a água que jorra naquelas regiões em que há gêiseres, e aparentemente, não há nada que neutralize o que parece uma poderosa força geológica. Será mesmo assim? Temos nossas dúvidas. E se for tudo um engodo, um grande truque semiótico para que pensemos não ter interesses comuns, estarmos todos separados e correndo cada um por si e que a racionalidade não seja mais válida ou aceitável?
A propósito, calha lembrar que nos rincões do interior rural brasileiro, crê-se que as raposas tenham poderes sobrenaturais sobre as aves. É maneira como, na ausência de uma explicação científica, o saber popular explica, de modo empírico, o fenômeno de imobilidade tônica da galinha (a qual, perturbada pela presença do graxaim, mesmo tendo asas, acaba por cair do poleiro para ser devorada pelo predador silvestre).
Sem embargo das muitas dificuldades, o que estamos observando no chamado “campo progressista” é uma certa paralisia pelo pânico. Ora, é exatamente a impossibilidade total de atender minimamente às imensas demandas sociais (como temos observado em toda a América Latina) que faz com que o neofascismo precise recorrer a tais recursos “hipnóticos”. Ainda há tempo de lutar, e eles sabem disso. Querem precisamente é que não nos organizemos para não reagirmos.
Lógico, tudo isso é muito bonito do ponto de vista teórico, mas precisa se traduzir em atitudes práticas. Coisas simples. Recuperar a capacidade de indignação. Responder com as “armas” da ciência, da dignidade, da verdade e da razão. E unirmo-nos.
Em tempos de hipnose “bozofascista”, não dá para concluir este ensaio com nenhuma certeza ou convicção. Reputo mais valioso encerrá-lo com a seguinte provocação. Já pensou, meu caro leitor, em como abraçar um irmão ou uma irmã em luta contra o neofascismo? Como resistiremos democraticamente, superando o medo e a letargia para recuperarmos o controle popular sobre a política e o nosso destino como Nação?
Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A volta do pêndulo ao fascismo e autoritarismo no Brasil e a indispensável resistência pela democracia e contra esse arbítrio, por Luis Nassif



Como a quebra de decoro no Congresso, com ações autoritárias e expressões antidemocráticas, refletem a expansão do fascismo com apoio de setores poderosos nas instituições e o como espalhamento desta violência exige a imediata reação dos democratas


Do Canal TV GGN:


terça-feira, 10 de setembro de 2019

A sociedade começa a reagir contra o autoritarismo obscurantista, por Aldo Fornazieri



Aos poucos surgem sinais significativos de que grupos sociais começam a reagir contra o autoritarismo, contra a fúria destrutiva, aos desmandos de Bolsonaro e de outras figuras públicas identificadas com a extrema-direita. Essas reações também vão ocupando espaços públicos e se transformando em mobilizações e manifestações. Sem líderes e organizações dirigentes, até mesmo grandes mobilizações e revoluções terminam em retrocessos.



A sociedade começa a reagir contra o autoritarismo

por Aldo Fornazieri

Aos poucos surgem sinais significativos de que grupos sociais começam a reagir contra o autoritarismo, contra a fúria destrutiva, aos desmandos de Bolsonaro e de outras figuras públicas identificadas com a extrema-direita. Essas reações também vão ocupando espaços públicos e se transformando em mobilizações e manifestações. De modo geral, essas reações da sociedade têm um caráter espontâneo, no sentido de que não são dirigidas e nem lideradas por partidos políticos.
Com efeito, os partidos políticos de esquerda estão desarticulados, desorientados e sem estratégias. Em 2013 perderam a direção dos movimentos de massa e, de lá para cá, permanecem numa defensiva política e estratégica e, mesmo num momento favorável como agora, não conseguem sair do defensivismo.
Os protestos de 2013 se iniciaram sob a liderança de um movimento autonomista – o Movimento Passe Livre. Os partidos foram barrados nas manifestações e logo a extrema-direita tomou a liderança das mesmas, processo que teve seu desfecho no golpe do impeachment e continuidade com os desmontes promovidos pelo governo Temer, pelos continuados desmandos da Lava Jato e pela eleição de Bonsonaro e sua caminhada de ataques continuados às instituições democráticas e aos direitos do povo. A extrema-direita liderou aquelas mobilizações com organizações políticas de novo tipo, a exemplo do MBL, o Vem Prá Rua, Muda Brasil e alguns grupos bolsonaristas.
Os partidos de esquerda não conseguiram articular movimentos de massa significativos nem contra o impeachment e às várias fases do golpe, nem contra as reformas trabalhista e da previdência, nem em favor de Lula Livre e nem contra as destruições e retrocessos promovidos por Bolsonaro. Não que não tenham ocorrido manifestações. Mas foram manifestações sem envergadura e sem a contundência suficientes para impor uma mudança na correlação de forças. Não foram suficientemente fortes para barrar retrocessos e conquistar vitórias. O período mais tíbio dos partidos de esquerda é esse vivido agora, sob o governo Bolsonaro. Isto porque o governo vem perdendo força e credibilidade, existindo uma opinião pública suscetível a voltar-se contra ele. Mesmo assim as oposições de esquerda não conseguem propor uma plataforma e definir formas de organização capazes de conferir direção política à disponibilidade de massas descontentes.
Os sinais de reação social vêm de várias frentes e de várias formas. Merecem destaque as lutas pela educação, os protestos e mobilizações em defesa da Amazônia e do meio ambiente, o panelaço contra Bolsonaro, os protestos contra o governador Witzel que vem sendo chamado de fascista e assassino em vários eventos, as manifestações na Bienal do Livro no Rio de Janeiro contra a censura, as diversas iniciativas de artistas, intelectuais e juristas em defesa de várias causas democráticas e do Lula Livre e assim por diante. A juventude vem ocupando um papel crescente nessas manifestações e mobilizações e este é um sinal muito positivo.
Essas mobilizações expressam indignação e contestação ao estado de coisas instaurado pelo golpe e pelo governo Bolsonaro. Na medida em que vão ganhando corpo e intensidade poderão superar este momento negativo e de pessimismo social para se transmutarem em entusiasmo e vigor pelas lutas. São manifestações e mobilizações espontâneas que expressam uma consciência latente acerca da necessidade de enfrentar politicamente o autoritarismo, em defesa da democracia, dos direitos, do emprego e do meio ambiente.
Mas as histórias passadas e recentes mostraram à exaustão que, se as lutas espontâneas revelam uma consciência nascente, uma energia, uma potência, possibilidades, disponibilidades e ocasiões propícias, tudo isso pode se esvair em nada ou ser empalmado até mesmo por grupos conservadores se não existir liderança e direção política consistentes, capazes de conferir sentido e rumo a essas lutas. Basta citar os exemplos dos movimentos Occupy Wall Street, os Indignados de Madri e até o MPL. As mobilizações pereceram sem conquistas significativas e nos processos supervenientes se instauraram governos de direita nos três casos.
É preciso ter clareza de que as novas formas de relações políticas definidas pelas redes sociais, pelas exigências de maior horizontalidade, de organizações mais abertas e democráticas, de comunicação ágil e de mensagens legítimas e convincentes e de ativismo participativos dos militantes, tudo isso não contradiz a necessidade de organização e direção políticas. Sem líderes e organizações dirigentes, até mesmo grandes mobilizações e revoluções terminam em retrocessos.
Assim, se o ressurgimento de mobilizações espontâneas representa um momento positivo, uma retomada da esperança, é preciso ter consciência de que se isto tudo não caminhar para força organizada com estratégias definidas, tudo pode se esvair em novas derrotas. Os três principais partidos de esquerda – PT, PCdoB e PSol – suscitam muitas dúvidas de que sejam capazes de sair do seu burocratismo e de sua apatia para conseguir imprimir uma efetiva direção política e programática a essa energia social que carrega a potência de explodir nas ruas.
Em muitos momentos históricos de mudanças, quando as velhas formas partidárias não se mostram capazes de se renovar e de abarcar as novas energias sociais, ocorreu que emergiram novas lideranças e novas formas de organização política e social que carregavam a energia, a potência e as virtudes da luta, do combate e da coragem. Pode ser que este seja o novo momento por que passam as lutas políticas e sociais do Brasil que carregam o sentido da mudança, da igualdade, da justiça e da liberdade. Esta possibilidade, evidentemente, demandaria mais tempo para amadurecer.
Dada a caducidade das velhas formas de liderança e de representação partidárias, as massas, na sua espontaneidade, principalmente a juventude, fariam  brotar e florescer novos líderes e novas organizações. O surgimento do PT combativo do passado foi por via desse processo de esgotamento das velhas representações e de surgimento do novo. Já o PCdoB e o PSol surgiram por processos diferentes: nasceram como partidos de quadros que, de certa forma, permanecem enquistados em si mesmos, sem conseguirem desabrochar como  partidos de massa de forma ampla.
De qualquer forma, os partidos e organizações de esquerda estão desafiados a dar respostas convincentes e consistentes aos desafios postos nesta difícil conjuntura, cheia de riscos de aprofundamento dos retrocessos, mas também portadora de ocasiões propícias para que se inicie um novo processo de lutas e de vitórias por direitos e por democracia. O futuro próximo dirá se os atuais líderes partidários corresponderão ao chamado momento carregado de nuvens sombrias, se serão capazes de superar este período de obscurantismo e de retrocessos, ou se os  seus nomes constarão apenas de forma protocolar nas páginas da história como pessoas que careceram de virtudes e de coragem para enfrentar os brutos que embruteceram estes tempos.
Os partidos de esquerda precisam decidir se querem ser a cauda ou a cabeça na luta contra o bolsonarismo e os seus retrocessos; precisam decidir se preferem permanecer no conforto dos gabinetes, dos cargos públicos e da burocracia ou se se despojam das vaidades e dos pequenos poderes para estar junto do povo e lidera-lo. Não basta dizer que fazem parte deste ou daquele movimento ou frente, que participam deste ou daquele ato. É preciso sair do formalismo e da participação protocolar e das reuniões que circulam em torno de si mesmas. É preciso sair das frentes vazias para colocar-se na frente do povo sofredor, do povo que quer lutar, que quer soluções para as suas carências e para seus dramas.
Aldo Fornaziri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

terça-feira, 26 de março de 2019

Do DCM: Lideranças progressistas definem resistência ao desgoverno Bolsonaro: pela soberania do Brasil. Por Joaquim de Carvalho


Os ex-candidatos a presidente Fernando Haddad e Guilherme Boulos se reuniram com Sônia Guajajara, candidata a vice na chapa de Boulos, o governador Flávio Dino e o ex-governador Ricardo Coutinho para definir estratégia de resistência ao desgoverno Bolsonaro. Leia a nota:



Haddad, Boulos,,Sônia Guajajara, Flávio Dino e Ricardo Coutinho

Nota à Imprensa
Brasília, 26 de março de 2019
Reunidos nesta manhã em Brasília, realizamos um debate sobre o atual momento nacional, especialmente considerando o rápido e profundo desgaste do Governo Bolsonaro. Destacamos alguns pontos para reflexão de toda a sociedade:

1. Estamos atentos e mobilizados para evitar agudos retrocessos sociais, trazidos por esse projeto de Reforma da Previdência, centrado no regime de capitalização e no corte de direitos dos mais pobres.
2. Do mesmo modo, convidamos para a defesa da soberania nacional. Consideramos que por trás do suposto discurso patriótico do atual governo há, na prática, atitudes marcadamente antinacionais, como vimos na recente visita presidencial aos Estados Unidos.
3. Em face da absurda decisão do Governo Bolsonaro de “comemorar” o Golpe Militar de 1964, no próximo dia 31 de março, manifestamos nossa solidariedade aos torturados e às famílias dos desaparecidos. Sublinhamos a centralidade da questão democrática, que se manifesta na defesa do Estado de Direito, das garantias fundamentais e no repúdio a atos de violência contra populações pobres e exploradas, a exemplo das periferias, dos negros e dos povos indígenas. Não aceitamos a criminalização dos movimentos sociais, uma vez que eles são essenciais para uma vivência autenticamente democrática.
Nesse contexto, é urgente assegurar ao ex-presidente Lula seus direitos previstos em lei e tratamento isonômico, não se justificando a manutenção de sua prisão sem condenação transitada em julgado.
Por fim, essa reunião expressa o desejo de ampla unidade do campo democrático para resistir aos retrocessos e oferecer propostas progressistas para o Brasil.
Fernando Haddad
Ex-candidato a presidente da República
Guilherme Boulos
Ex-candidato a presidente da República
Flávio Dino
Governador do Maranhão
Sonia Guajajajra
Ex-candidata a vice-presidente da República
Ricardo Coutinho
Ex-governador da Paraíba
Fonte: DCM

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Feliz Ano Novo de Resistência, por Henrique Vieira



  O autoritarismo e o elitismo dos poderosos não toleraram discursos e práticas de valorização da pessoa humana e das minorias.... A mesma mentalidade persecutória e elitista matou Jesus, encarcerou e depois estimulou a execução de Gandhi, assassinou Martin Luther King e Chico Mendes.... Mas eles ajudaram a mudar o mundo.... pela resistência à opressão.... Façamos nossa parte a partir de seus exemplos... Assistam o vídeo abaixo do pastor progressista Henrique Vieira e boas reflexões...  Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Do Canal Mídia Ninja:




sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A censura às universidades quer produzir medo, mas a democracia prevalecerá sobre o fascismo. Por Kiko Nogueira



"A censura às universidades busca produzir, na melhor das hipóteses, medo e, na pior, um cadáver. Um novo Cancelier.
"O repúdio é necessário. A solidariedade a estudantes e professores é fundamental."
Do DCM:


Resistência na Faculdade de Direito da UFPR

A censura às universidades busca produzir, na melhor das hipóteses, medo e, na pior, um cadáver. Um novo Cancelier.
O repúdio é necessário. A solidariedade a estudantes e professores é fundamental.
Nos últimos dias, ao menos 35 instituições foram alvos de operações da Justiça Eleitoral para fiscalizar suposta prática de propaganda.
Houve ações em eventos com temas como fascismo, democracia e ditadura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e na da Grande Dourados, no Mato Grosso do Sul.
A faixa com os dizeres “Direito UFF Antifascista” teve de ser retirada da escola de direito da UFF, em Niterói.
Na Paraíba, ocorreu uma inspeção do TRE em aulas da Universidade Federal de Campina Grande e apreensão de material. 
É um ataque frontal à liberdade de expressão e à autonomia universitária. 
Noves fora o fato de que ele Jair Bolsonaro veste definitivamente a carapuça de fascista ao buscar reprimir. Um aperitivo do que pode vir.
O Ministério Público Federal se posicionou de maneira firme, declarando que medidas para impedir a livre manifestação são incompatíveis com o regime constitucional.
“É lamentável que, em uma disputa tão marcada pela violência física e simbólica, pelo engano e pela falsificação de fatos, o ataque do sistema de justiça se dirija exatamente para o campo das ideias”, diz a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão.
‘Polícia só deve entrar em universidade se for para estudar’, apontou o ministro do STF Luís Roberto Barroso.
Para seu colega Marco Aurélio Mello, a interferência é “incabível”. A reação é tardia? Pode ser. Mas antes tarde que mais tarde.
Na sexta, dia 26, um corpo foi encontrado dentro de um carro com marcas de tiro na Faculdade de Direito da UFRJ. A vítima estava no banco do carona. 
Uma postagem do centro acadêmico registrava a presença do Sendero branco durante uma aula pública.
O homem não era ligado à faculdade — mas não é esse o ponto. O recado dos bandidos é que pode vir a ser.
A polícia está apurando o caso, mas é evidente que não vai dar em nada.
O bolsonarismo saiu do armário e seus capangas estão agindo à luz do dia.
Em nome de Luiz Carlos Cancelier e dos alunos e mestres brasileiros, é hora de resistir.
Em nome de nós e de nossos filhos, o pensamento livre e a democracia vão prevalecer.
Em post do Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da UFRJ, vê-se o carro onde foi encontrado o cadáver enquanto uma aula pública era realizada

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Um gosto amargo de juventude na boca, por Mauro Lopes


"A morte de Herzog foi um dos maiores eventos de minha juventude. Vladimir Herzog. Vlado,  foi torturado e assassinado numa cela do DOI-CODI na sede do II Exército em 1975, quando eu tinha 15 anos de idade. Foi um marco no processo que me levou à união com milhares de outros jovens na luta contra a ditadura."

Segue o texto de Mauro Lopes publicado no Brasil 247



Sinto um gosto amargo de juventude na boca. É um gosto inesperado. Pode soar estranha a afirmação, pois, diz a regra, na medida em que envelhecemos cultivamos nostalgia dos tempos do pleno vigor -apesar de esta “regra” ser mais um lugar comum que propriamente uma regra da vida. Mas, vá lá. O fato é: este e não outro é o gosto desta hora, quando estamos às vésperas de 28 de outubro e a possibilidade de vitória de Bolsonaro não pode ser ignorada ou menosprezada.
A morte de Herzog foi um dos maiores eventos de minha juventude. Vladimir Herzog. Vlado,  foi torturado e assassinado numa cela do DOI-CODI na sede do II Exército em 1975, quando eu tinha 15 anos de idade. Foi um marco no processo que me levou à união com milhares de outros jovens na luta contra a ditadura.
A geração à qual pertenço recebeu o bastão de uma geração de jovens que enfrentou o combate mais duro com o preço de muita prisão, tortura e morte e o passamos para outros que viveram o encerramento da ditadura.
Foi uma juventude intensa, de momentos de grande alegria, encontros e relações carregadas de significado; ao mesmo tempo, reuniões e atividades clandestinas, de convivência com o medo, o risco da prisão, de apanhar na rua da PM a cada protesto, a cada passeata.
O clima era de tanto medo em função da violência da ditadura que nos  encontrávamos com os dirigentes partidários nos “pontos”, lugares pré-estabelecidos numa esquina ou qualquer outro ponto de referência público e a conversa acontecia andando, enquanto  discretamente olhávamos ao redor, a saber se não estávamos sendo seguidos. Se o dirigente não aparecesse no “ponto”, era sinal de que podia ter sido preso. Se não aparecesse no “ponto” seguinte, era dada como certa sua prisão e todos os militantes a ele vinculados cuidavam de mudar suas rotinas, por vezes mudavam de casa.
Vivíamos assim, sobressaltados. Nosso pão era a utopia e o desejo de liberdade.
Essas gerações de jovens que vivenciaram o confronto com a ditadura acabaram por entregar a seus filhos um país diferente. Filhos e filhas que só experimentaram democracia; como jovens, elegeram Lula e viveram sem medo -em que pese o medo de sempre do massacre nas periferias, no campo, das pessoas que se descobriram LGBTI. Gerações que imaginaram serem os governos do PT o patamar mínimo civilizatório do país e olhavam com esperança para o futuro, imaginando avanços ainda maiores.
Mas há uma sombra que encobre a esperança, o medo volta a rondar e dessa vez assalta os sobreviventes da luta contra a ditadura e os filhos, filhas, netos e netas que saborearam democracia e paz na juventude e no ingresso à vida adulta.
É mesmo um gosto amargo esse de juventude que sinto agora.
Mas, aviso. Não nos sentíamos derrotados mesmo com as prisões e as torturas que nos roubavam pessoas queridas. Lutávamos o bom combate, fazíamos nossa corrida, guardávamos a esperança e a fé num tempo novo.
Não será portanto este gosto amargo que sobe à boca com as pesquisas e as ameaças dos fascistas que irão nos amedrontar.
Avós, pais e mães, filhos e netos estão por todos os cantos lutando. Lado a lado.
Venceremos?
Impossível saber agora. As condições são duras. Mas os que lutam pela liberdade e a paz não o fazem pela certeza da vitória. O que nos move é a justiça de nossa causa.