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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O indivíduo: egoísmo, altruísmo e sua dívida simbólica, por Marcio Valley

 

O que de fato define a origem pulsional desses sentimentos é a motivação interna de cada um – se orientados para benefício próprio ou do outro –, de modo que são passíveis de serem frutos de ambas as pulsões.

O indivíduo: egoísmo, altruísmo e sua dívida simbólica

por Marcio Valley

A análise do comportamento de um dado conjunto, mecânico ou orgânico, imprescinde da prévia ciência de quais são seus principais elementos constitutivos e como funcionam. Relógio é apenas o nome dado ao conjunto de peças e engrenagens utilizados na fabricação desse objeto; um relojoeiro necessariamente deve saber a função de cada engrenagem na missão de informar a hora, caso contrário, não lhe será possível construí-los, repará-los ou, de modo mais sucinto, entender o seu funcionamento.

Da mesma forma, guardadas as devidas particularidades, o estudo da dinâmica de um agrupamento gregário animal deve partir da compreensão dos movimentos praticados pelas principais peças que o compõem: os indivíduos. Não bastassem as implacáveis vicissitudes da natureza que submete todos os seres, o sucesso ou o fracasso dos bandos animais vinculam-se, também, umbilicalmente, ao resultado do somatório de força e fraqueza de cada um dos indivíduos que a integram. Destaca-se, nessa amálgama de valores, a dimensão individual do espírito colaborativo. A partir dessa perspectiva, tentaremos compreender como se movimentam os indivíduos humanos no coletivo que integram.

A fantástica evolução do conhecimento científico humano e de sua aplicação prática, a tecnologia, parece não se repetir no plano do comportamento, que as evidências demonstram persistir regido por uma psique pré-histórica. O exame do conhecimento que nos chega da pré-história e da antiguidade evidencia que os mais profundos desejos, sentimentos, conflitos humanos, enfim, todos os grandes dilemas existenciais, acompanham a humanidade, com idêntica natureza, desde os tempos mais remotos. Estavam presentes nos caçadores-coletores; persistiram após o surgimento da filosofia clássica grega, que sobre eles refletiram; passaram pelo escrutínio trágico de Shakespeare e chegaram a Freud, talvez quem mais tenha se aproximado de compreendê-los (os dilemas existenciais). Ainda pendem, enigmáticos, nos dias de hoje, basicamente com as mesmas características que apresentavam há milênios, traduzindo-se em tragédias anunciadas, previsíveis e, ainda assim, desprovidas de solução à vista.

A explicação para essa inércia comportamental parte da compreensão de que a humanidade é herdeira do caldo genético primordial que gerou a primeira célula viva. É possível afirmar que, desde sempre, o ser humano se movimenta segundo duas pulsões de origem genética, siamesas e contraditórias, que se digladiam internamente e dão origem a todas as paixões: os sentimentos de egoísmo e de altruísmo. Sua genealogia está vinculada ao acúmulo de impulsos instintuais animais herdados a partir da ancestralidade mais primitivamente imaginável, cuja fonte primária decorre dos instintos de sobrevivência individual (egoísmo) e de perpetuação genética ou manutenção da espécie (altruísmo). Em linhas gerais, para as pretensões limitadas do presente texto, entende-se por egoísmo a inclinação para a satisfação exclusiva do próprio interesse, ainda que com prejuízo de outrem, ao passo que a ação do altruísmo é vocacionada para o atendimento das demandas do outro mesmo que sobrevenha um alto custo próprio. Por outro lado, o assim chamado altruísmo recíproco ou cooperação, a saber, ações de que resultam benefícios mútuos, na verdade corresponde a dois egoísmos individuais em movimento.

O altruísmo sempre será mais intenso quanto maior a proximidade genética, como se verifica entre pais e filhos ou em colônias de insetos sociais, como abelhas, formigas e cupins. Em regra, as abelhas da mesma colmeia possuem 75% de identidade genética, percentual superior ao dos irmãos humanos, cuja similaridade genética é de 50%. Não por outro motivo, as ações altruístas desses insetos são extraordinárias, desvelando-se na abdicação da transmissão genética individual, legado somente à rainha, cuja reprodução, no fim das contas, perpetuará a genética de todo agrupamento, dada a já mencionada identidade genética entre os indivíduos. Mais do que isso, a entrega altruísta comumente chega ao ponto do sacrifício da própria vida em prol da colônia.

Paixões como amor, amizade e bondade em regra podem ser inicialmente enquadradas como facetas do altruísmo, enquanto outras, como ódio, inveja, alegria, tristeza e medo, como projeções do egoísmo. Todavia, o que de fato define a origem pulsional desses sentimentos é a motivação interna de cada um – se orientados para benefício próprio ou do outro –, de modo que são passíveis de serem frutos de ambas as pulsões.

Na vida selvagem, o egoísmo revela-se essencial para o sucesso da sobrevivência individual, suplantando amplamente a ação do altruísmo, cuja ação encontra justificativa regular no contexto familiar/grupal. Por conta disso, o egoísmo se impõe, somente cedendo lugar espontaneamente ao altruísmo ante condições bastante favoráveis à manutenção da própria vida. Fora isso, a atenção dispensada ao outro decorre da força normativa do coletivo ou de imperiosa necessidade, o que remete novamente ao egoísmo. Os limites ou prevalência de um deles na ação realizada é definida caso a caso pelo indivíduo, por vezes no ato mesmo de os realizar, segundo a margem de sucesso prevista para a situação fática vivenciada no momento. Podem mesmo coexistir na mesma ação em diversas situações, com intensidades distintas. Como exemplo, na proteção materna, um sentimento extremamente relevante, a atenção dada às crias é geralmente atribuída ao altruísmo; contudo, pode ser fundada em egoísmo genético como definido pelo biólogo Richard Dawkins[1]. Ainda que fosse um induvidoso caso de altruísmo, observa-se que, via de regra, é uma paixão mais forte em relação ao puro egoísmo quanto mais fraco for percebido o adversário da cria. Uma fêmea defenderá sua cria até a morte se entender, ainda que equivocadamente, que há chance de sucesso na empreitada de lutar contra o agressor; contudo, a abandonará em benefício de si própria ou dos demais rebentos se o fracasso for visto como inevitável. Nesse mesmo exemplo, se a hipótese for de inexistência, para a fêmea, de alternativa ao combate, o sentimento prevalecente é o de egoísmo em estado bruto, pois, na hipótese, trata-se de luta em prol imediato da própria sobrevivência, com benefício apenas mediato para a cria.

Nesse ponto, chega-se à seguinte conclusão: o egoísmo inato, de natureza evolutiva e que provoca ações pré-reflexivas, puramente instintuais, se sobrepõe ao espírito colaborativo altruísta, constituindo-se em primeiro óbice natural à construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Nos coletivos humanos, o problema parece ser acentuado pelo modelo de sociedade eleito, ampla e historicamente regido por sistemas que privilegiam o acúmulo de poder e riqueza, com benefício para uma inexpressiva fatia da população. Foi assim no passado longínquo, com as ditaduras absolutistas que se apropriavam de toda a terra sob seu domínio e de todos os bens nelas existentes, e continuou assim no mercantilismo e no atual capitalismo, pois neles os burgueses se associam à monarquia absolutista (mercantilismo) ou corrompem o poder político (capitalismo) na exploração econômica. No capitalismo, utiliza-se a apologia do liberalismo econômico para justificar a maximização do egoísmo individual, independentemente do custo social, já que se percebe a livre perseguição individual dos próprios interesses como salutar para o coletivo, percepção essa jamais materializada ao longo da história. Pelo contrário, o filósofo Adam Ferguson (1723-1816) pontifica que o egoísmo da busca pelo interesse próprio mitiga o impulso comunitário de cooperação, que é alicerçado na solidariedade e na cooperação[2]. Modernamente, a humanidade vem experimentando um estilo de vida mais e mais individualizado, atomizado, distanciado das relações de amizade e de vizinhança e dos assuntos coletivos mais imediatos. A consequência é verificada na ausência de senso de identidade comum e de valores compartilhados (confiança, reciprocidade, boa vontade e camaradagem). Na metáfora criada pelo sociólogo americano Robert D. Putnam (1941- ), estamos literalmente jogando boliche sozinhos[3].

A situação somente não é pior porque, após bilhões de anos acumulando instintos, a vida animal, em sua versão humana, engendrou a cultura ou civilização, a partir de cujos princípios buscou estabelecer uma normatividade de ordem ético-moral inclinada ao favorecimento do altruísmo, o qual, embora falso na origem, por compulsório, acaba por produzir resultado similar ao verdadeiro: ações benéficas para a coletividade. Exemplo disso seria a destinação da arrecadação tributária para fins sociais, como educação, saúde e segurança garantidas pelo Estado. O tributo pago pelo abastado, no exemplo, representa o altruísmo compulsório, modelo que não encontra similar na vida selvagem. Outro exemplo seria a destinação de cotas de emprego e na educação para segmentos sociais sub-representados politicamente (minorias políticas), como mulheres, negros, deficientes e pobres.

Todavia, há ainda um longo caminho a percorrer antes que as ações determinadas por bilhões de anos de evolução instintual sejam superadas por aquelas nascidas há parcos milhares de anos a partir da acumulação e internalização de ditames morais civilizatórios. No momento, a ação humana é ainda fundamentalmente instintual. Estudos demonstram que ao menos 95% do que fazemos é oriundo de ação cerebral inconsciente[4]. Em outras palavras, praticamente não pensamos sobre o que fazemos e isso é a definição de instinto.

Ocorre que uma alta renúncia instintual por parte dos indivíduos, não puramente volitiva, mas decorrente de uma normatividade social imposta para além do mínimo necessário, entra em constante choque com o imperativo animal que conduz à utilização irrepressiva e casuística de egoísmo em larga escala e altruísmo em doses homeopáticas. Como não há ganho sem dor (no pain, no gain), os dilemas existenciais daí resultantes são a causa de neuroses tipicamente humanas, inexistentes em animais gregários em estado selvagem. Animais matam outros, inclusive do próprio bando; defecam, eliminam gases e fazem sexo à vista de todos; praticam o incesto; machos estupram fêmeas; fêmeas matam os machos após a cópula e algumas ainda os comem; irmãos matam irmãos para serem beneficiados com maior porção dos alimentos trazidos pelos pais; filhos matam os pais, e vice-versa, por território ou para tomarem a liderança; idosos e rebentos com defeito físico são abandonados, mortos ou expulsos do bando, algumas vezes sendo comidos; além de inúmeros outros comportamentos formalmente inadmissíveis para os humanos (ainda que praticados eventualmente). Os seres humanos são animais e essa premissa os faz carregar em si toda a herança genética instintual que determina tais ações ignóbeis aos olhos da humanidade e que são represadas em função das condições impostas pela vivência grupal.

Animais irracionais não sentem desconforto emocional ou psíquico ao praticarem essas ações, despossuídos que são de limites morais impeditivos de um comportamento que, pelo princípio natural, é dominado pela lógica da sobrevivência individual e da espécie. Essa lógica, embora não se origine na mente animal, pois inscrita no DNA através do processo de temporalidade geológica da seleção natural, emula o cálculo frio do racionalismo utilitarista do êxito e, por vezes, pode ser tão perversa como a ocorrida na Escolha de Sofia[5]. Facilmente se conclui ser menos pior uma morte do que duas, cem ou mil; um animal irracional não titubeia a respeito. Entretanto, quando os conflitos humanos entram em jogo, torna-se muito mais difícil selecionar a vítima dessa conclusão meramente lógico-racional.

O grande problema é que o tempo cultural – no máximo uns 10 mil anos – é praticamente inexistente se comparado ao dos instintos, assados no forno implacável da tentativa e erro por cerca de 3,5 bilhões de anos. A cultura, sob tal medida, representa uma singela gota na dimensão oceânica da existência. Considerados esses números, e imitando Carl Sagan, se o tempo de vida na Terra fosse reduzido ao calendário de um ano, a cultura somente surgiria às vinte e três horas e cinquenta e oito minutos do dia 31 de dezembro, com arrendondamento para cima em favor da experiência civilizatória. Portanto, a humanidade passou o ano inteiro viajando pela estrada larga e fulgurante dos instintos e somente nos últimos dois minutos do último dia do ano vem tateando pelos corredores apertados e quase sempre mal iluminados da cultura. Nesse cenário, não é difícil concluir a norma de conduta que, presente a liberdade, predomina na ação individual, ainda que o discurso moralista hipócrita, da boca para fora, diga o contrário. O egoísmo é rei; o altruísmo, um mendigo.

O conflito entre as imposições instintuais e as barreiras impostas pela criação cultural da moral faz surgir o mal-estar na civilização pontificado por Freud[6], segundo o qual o ser humano criou a civilização em nome da segurança, na pretensão de fugir do sofrimento existencial onipresente na vida nua, em nome do que deveria restringir o gozo da liberdade, exigência que, paradoxalmente, teve como efeito um acréscimo considerável de miséria emocional emergindo das profundezas do ser na forma de neurose. A gênese do mal-estar surge da obrigação de uma renúncia instintual (rectius; mitigação da liberdade) muito mais ampla do que a que seria estritamente necessária para o bom funcionamento da sociedade, em especial por conta de imposições não racionais ou lógicas, sendo exemplo as de ordem religiosa.

Nesse ponto é importante ressaltar, assim como fez Freud em seu opúsculo, que não se pretende discutir ou negar a validade da experiência civilizatória, sendo o único objetivo o de produzir a reflexão crítica quanto ao atual status da sociedade, ou seja, a partir do cotejo entre o que é e o que poderia ser. Um ponto que vale reflexão é sobre a circunstância de que a opressão normativa atinge principalmente a esfera comportamental do ser humano, sendo pouco relevante e menos ainda eficiente no aspecto mais significativo para a sobrevivência digna da pessoa, que é o modo como operará a dinâmica da economia. O propósito de produzir regramentos supérfluos de natureza moral e legal sobre o comportamento é o de evitar discussões sobre uma parte significativa da vida social, que é a maneira pela qual serão distribuídos os bens escassos entre todos. Não há necessidade de muita reflexão para concluir que a felicidade geral de uma coletividade de, por exemplo, cem mil pessoas será pouco impactada pelo fato de duas pessoas do mesmo gênero fazerem sexo entre si; porém, se duas pessoas dessa mesma coletividade conseguirem deter noventa por cento de toda a riqueza, praticamente todos sentirão, uns mais outros menos, os efeitos daninhos dessa apropriação exorbitante: muitos terão que dividir uma ínfima parte da riqueza e a miséria grassará. Ou seja, a maneira como pessoas adultas faz sexo incomoda a todos, enquanto a orgia econômica pornográfica dos ricos nem sequer é assunto, mesmo quando quase quebra completamente a economia, como ocorreu em 2008. Ao fim e ao cabo, porém, e sempre foi assim, a normatização atinge mais violentamente o comportamento, sendo mecanismo diversionista para que o “liberalismo” da boca para fora permita a rapinagem da riqueza pelos poucos eleitos.

De todo modo, não há dúvida de que a agressividade dos instintos deve ser domada como forma de possibilitar a vivência social. A alternativa é o retorno ao estado de natureza. Por outro lado, embora o decréscimo instintual envolva necessariamente a redução da liberdade, deve-se preservar o máximo possível de liberdade residual, vale dizer, aquela que não se atrita necessariamente com a existência da sociedade. Como contrapartida à abdicação da plena liberdade, o indivíduo deve ter respeitado o máximo de liberdade residual (não prejudicial) e, além disso, o seu direito natural à vida, à integridade física e à Terra.

A noção de direito à vida e à integridade física é intuitiva, desnecessitando maiores delongas. O direito à liberdade residual, todavia, revela-se um tema mais complexo, envolvendo a ideia de autonomia da vontade ou autodeterminação, vale dizer, a capacidade de realizar, o mais amplamente possível, aquilo que convém ao indivíduo, no aspecto territorial (locomover-se, indo e vindo pelo planeta, e fixar-se, estabelecendo-se onde desejar), intelectual (exposição de ideias e pensamentos), comportamental (agir como quiser, inclusive quanto à sexualidade), associativo (opção pela vivência em sociedade ou em isolamento) e político (participar ou não da organização da sociedade em que vive).

O direito à Terra materializa-se na ocupação de um determinado espaço de exploração territorial com vistas à conquista de alimento e abrigo, ou seja, o direito à propriedade de uma parte do planeta pelo simples fato de ser humano, sem considerações econômicas, consistindo em direito surgido do simples nascimento.

Essas contrapartidas são estabelecidas, ao menos principiologicamente, pelo contrato social e, sem a garantia de cumprimento, a sociedade e, portanto, a civilização, está fadada ao fracasso. O psicanalista Joel Birman[7] pontifica que a dívida simbólica que o indivíduo estabelece com a sociedade – aquela que o compele a cumprir as diretrizes societárias – se funda em duas dimensões: (a) ser de fato um trabalhador no campo estritamente econômico; e (b) o gozo do direito de cidadania nos campos social e político. A obrigação individual de reconhecer essa dívida, pois, depende da sociedade quitar a sua parte, ou seja, criar as condições para materialização dessas duas dimensões (trabalho e cidadania). Caso a sociedade não cumpra a sua parte no trato, cabe aplicar o ensinamento contido no brocardo romano exceptio non adimpleti contractus (exceção de contrato não cumprido), segundo o qual um contratante não pode, antes de cumprir a sua obrigação, exigir o implemento da do outro. Observe-se que o cumprimento das obrigações da sociedade para com o indivíduo há de ser material, real, não podendo se restringir ao aspecto formal. Na maior partes dos países, a existência de leis garantindo a justiça distributiva não se traduz em efetiva concretização desse ideal. Em resumo, isso significa que, se a sociedade não garante, no registro da prática, a vida boa, rompe-se o contrato, o indivíduo não se sente obrigado a pagar a sua dívida simbólica e, pelo contrário, vê-se no direito, não somente de sobreviver pautado pelos instintos básicos, mas também de sabotar a própria ordem social. O modo urbano mais comum de vida dominada pelas pulsões instintuais é a criminalidade inscrita no binômio psíquico necessidade-vingança.

A questão sobre a qual se impõe refletir, portanto, diz respeito ao dimensionamento da renúncia instintual exigível em nome do bem viver social sem que disso redunde prejuízo para indivíduo e coletividade. No passado, as famílias produziam grande prole; a certeza da paternidade constituía uma necessidade; a terra, a família e a produção eram controladas monocraticamente pelo pater familias; não havia segurança pública, a defesa era privada, segundo as forças de cada família ou comunidade. Essas e outras circunstâncias impunham uma extensa abdicação instintual. Todavia, hoje, dada a evolução civilizatória, tais condições impositivas são, ou deveriam ser, despiciendas e não mais se justificam, revelando-se, na verdade, contraproducentes. Vale pontuar que a existência da moderna segurança pública, posta indistintamente à disposição do povo, pobres e ricos, torna a atual disseminação da segurança privada protetora das classes privilegiadas um reconhecimento do retorno à barbárie pré-Estado. O motivo? A certeza das classes privilegiadas, conscientes disso ou não, de que o rigor da renúncia instintual, sem o cumprimento do sinalagma pactuado no contrato social (trabalho e cidadania), foi conduzido ao paroxismo, tornando-se um fator relevante para o incremento da criminalidade. Em países mais preocupados com a felicidade individual, a segurança pública é vista como suficiente para todos, sem grande inquietação social a respeito.

Possivelmente, a amplitude da renúncia instintual ainda exigida se deve à circunstância de que a primeira forma de adestramento dos impulsos naturais concretizou-se através da imposição do medo da divindade, ou seja, pela religião, assunto que será objeto do próximo artigo.


[1]DAWKINS, RICHARD. O Gene Egoísta. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, [1976] 2001.

[2]ATKINSON, Sam (editor sênior), O livro da Sociologia, trad. Rafael Longo, São Paulo, Globo Livros, 2015, pág. 21.

[3]Idem, pág. 125.

[4]Matéria no site do GloboNews sobre o físico e escritor Leonard Mlodinow, disponível em http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2012/10/tudo-em-nosso-mundo-e-construcao-da-nossa-mente-diz-fisico.html, em 23/12/2019.

[5]Filme dramático dos Estados Unidos, de 1982, que apresenta o dilema vivido por Sofia, prisioneira de um campo de concentração durante a Segunda Guerra, obrigada a escolher qual dos dois filhos morreria, sob a ameaça de morte de ambos.

[6]FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilizaçãoIn: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

[7]BIRMAN, Joel. Cadernos sobre o mal. Rio de Janeiro: Record, 2009.

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Do Outras Palavras: Redes sociais, ultra-capitalismo, narcisismo, individualismo, consumismo e vidas frustradas, por César Rendueles,




Como a internet, em deriva individualista, ameaça criar um mundo em que afetos, laços de compromisso e política dissolvem-se em consumo e narcisismo. Atenção: o problema é anterior à rede

Por César Rendueles, em entrevista à RT Notícias | Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel | Imagem: Olivia Linn - Fonte: Outras Palavras
César Rendueles (Girona, 1975) é professor do Departamento de Teoria Sociológica da Faculdade de Ciências Políticas e Sociológicas da Universidade Complutense de Madri. É também autor do livro Sociofobia: El cambio político en la era de la utopía digital [Edição em português: Sociofobia: Mudança política na era da utopia digital.Sesc, São Paulo, 2016], onde analisa o efeito das tecnologias digitais de comunicação na realidade política e social.
Seu discurso, nesse sentido, exerce uma espécie de contrapeso, diante do otimismo generalizado que até há pouco vigorava com relação ao mundo digital e às esperanças, provavelmente excessivas, que a sociedade contemporânea depositava nas novas e fulgurantes tecnologias de comunicação.
Rendueles, na sua obra e também nesta entrevista, aponta para a fragilidade dos laços humanos por trás das frenéticas redes sociais e suas multidões de followers (“seguidores”), lamentando, ao mesmo tempo, a enorme quantidade de vidas frustradas e empobrecidas no ambiente consumista e profundamente individualista que caracteriza o capitalismo neoliberal.
A entrevista foi concedida para a agência RT e publicada no seu site em espanhol (RT Noticias). Ei-la:
O que você chama de Utopia Digital? Estaríamos confiando demais na possibilidade da tecnologia digital resolver nossos problemas?
Atribuímos hoje à tecnologia uma capacidade desmesurada para solucionar problemas sociais, políticos e até ecológicos de todo tipo. É incrível! Por exemplo, em praticamente todos os debates sobre a crise ambiental sempre aparece alguém dizendo que a geoengenharia ou a nanotecnologia vão solucionar a crise energética. E é assim com tudo: começa-se acreditando que a crise de legitimidade política vai se resolver com a participação digital; a crise da educação, com mais geringonças tecnológicas nas salas de aula… É alucinante, porque, além de tudo, isso está introjetado tanto na esquerda quanto na direita.
Parece-me que a confiança no digital tem a ver com a ilusão de que essa tecnologia nos exime dos processos deliberativos, nos livra da necessidade de buscar acordo a partir de posições muito diferentes e em conflito, por meio de algo como uma coordenação espontânea e consensual que não passa pela deliberação. Nesse sentido, me parece que tal concepção da tecnologia é herdeira da forma como o mercado é concebido a partir da tradição liberal: a ele se atribuía a capacidade de gerar coordenação social sem recorrer a mecanismos deliberativos, descartando o conflito político.
É claro que hoje, depois de 2008, ninguém mais acredita muito no mercado. Ninguém acredita que ele tenha essa capacidade para resolver os conflitos políticos: ao invés disso, os incrementa, como sempre defenderam os marxistas. Assim, trasladamos do mercado para a tecnologia essa confiança de que surja algum tipo de ordem emergente e espontânea, que não passe pelos processos deliberativos democráticos.
Em certa ocasião você propôs que as redes sociais também cumpririam uma função semelhante à dos antidepressivos…
A era das redes sociais é também a era da fragilização social. Esse é um fato empírico. Vivemos em sociedades muito individualizadas, com vínculos sociais muito débeis, e vínculos organizativos também muito débeis. É nesse contexto que as redes sociais adquiriram tanto protagonismo.
Aí se estabelece um tipo de relação que pode até ser muito abundante, com milhares de followers e “amigos”, mas que é também bastante superficial e frágil, sobretudo porque é um tipo de relação reversível pelo capricho, que não está baseada no compromisso, mas na preferência: se me canso de seguir alguém ou passo a não gostar que me siga, simplesmente o deixo de seguir ou o bloqueio. Os vínculos sociais efetivos não funcionam assim. Não abrimos mão dos nossos amigos porque tenham se tornado chatos em alguma ocasião; não abrimos mão das organizações políticas ou sindicais às quais pertencemos porque não estamos dispostos a comparecer a uma assembleia ou a uma manifestação…
Ao mesmo tempo, as relações digitais, ainda que sejam superficiais e frágeis, nos proporcionam uma certa sensação de conexão, e por isso cheguei a compará-las com o Prozac. Ninguém confundiria a sensação que um antidepressivo produz com uma vida plena ou com a autorrealização pessoal, ninguém seria tão idiota! E, no entanto, o que a ideologia digital conseguiu foi fazer-nos confundir a vida virtual com uma vida não apenas plena mas também superior àquela que tínhamos no mundo analógico.
Como isso afetaria a política? As redes sociais mudaram a maneira de fazer política?
Por um lado, eu não creio que as tecnologias digitais sejam realmente tão importantes, e, por outro, creio que há muito mais continuidade entre o mundo analógico e o digital do que se supõe. Vejo como bastante questionável esse imaginário de ruptura sistemática que cerca o mundo da tecnologia digital.
Nesse sentido, me parece que o que as redes sociais e a tecnologia digital fizeram foi acelerar processos que já estavam em curso. A democracia de auditório, por exemplo, é um fenômeno anterior ao surgimento das redes sociais, e tem a ver, por uma parte, com os processos de despolitização associados ao contexto neoliberal e, por outra, com o uso, nesse contexto, dos meios de comunicação tradicionais, como a televisão, marcado por um progressivo desinteresse da cidadania frente à política. Aí nasceu a democracia de auditório. Ao aterrissarem sobre esse modelo, o que as redes sociais fizeram foi intensificá-lo.
Pode-se entender melhor o que as redes sociais operaram se as vemos como televisores pequenininhos dentro do nosso celular, e não como um paradigma completamente novo. Fala-se muito sobre como Donald Trump utiliza as redes sociais, mas frequentemente se esquece que ele mesmo se tornou famoso com um reality show de televisão. O uso que Trump faz das redes sociais se parece muito mais a estratégias tradicionais de propaganda de massa que a um tipo novo de estratégia reticular digital supersofisticada. É a propaganda de sempre, massiva e baseada diretamente na manipulação. Por isso, insisto que há muito mais continuidade do que parece entre o passado analógico e o presente digital.
Há quem observe que o funcionamento mesmo das redes e dos sites de busca faz com que o usuário acabe em uma bolha, tendo acesso a conteúdos previamente selecionados conforme suas preferências, por meio de um filtro pessoalizado definido pelos servidores. Isso não faz com que estejamos mais isolados que conectados? E também não afeta a política, no sentido mais clássico e amplo do termo?
Esse mundo é curioso porque nele ocorrem duas dinâmicas contrapostas. É verdade que a quantidade de informação e de opiniões diversas é infinitamente maior do que no mundo analógico, mas nós somos seres limitados e com uma capacidade limitada de processamento — o que geralmente esquecemos. A oferta está aí, mas nós somos seres neolíticos, de capacidade limitada. Então, relacionamo-nos com pacotes limitados de informação, mas acreditamos que eles procedem de uma esfera pública infinita, onde todas as opções estão disponíveis, e que escolhemos com inteira neutralidade.
O efeito disso é bastante perverso, porque não apenas opera aí esse filtro de bolha (que seguramente já existia antes, quando se escolhiam os jornais e canais mais afins para se informar), mas que agora traz algo mais: a ideia de que a informação procede da mais absoluta livre escolha e de um crivo crítico isento. Isso é o mais característico desses tempos: não tanto que haja uma tendenciosidade pronunciada nos meios de comunicação — isso permanece mais ou menos como sempre —, mas que agora nós nos achamos agentes críticos supersofisticados. E isso tem um efeito pernicioso.
Você comentou certa vez que quando trabalhava no seu livro Sociofobia, o que você queria realmente era escrever sobre a ideia de fraternidade, e não sobre tecnologias digitais de comunicação. É muito ingênuo pensar que as redes sociais possam contribuir para uma maior fraternidade social?
No fundo, eu nunca me interessei muito pela tecnologia digital. O que acontece é que acabei arrastado para estudar isso porque, em muitos dos problemas que me interessavam, eu detectava que se recorria à tecnologia digital como uma solução que me parecia fictícia, tanto em questões da educação como da política, e em especial no que respeita aos processos de política emancipatória.
Um dos problemas que temos observado nas últimas décadas, a partir da filosofia política e da sociologia crítica, é que, de alguma forma, os processos emancipatórios exigem condições não apenas materiais e políticas, mas também sociais, no sentido da necessidade de uma certa urdidura de relações para que eles aconteçam. Aprofundar a democracia torna-se muito complexo quando se está em uma sociedade muito atomizada e muito individualista.
Creio que os que veem com mais otimismo o auge do paradigma digital tendem a pensar que aí se oferece uma solução aos dilemas contemporâneos da sociabilidade, e que esse paradigma aportaria potencialidades críticas [N. do T.: Esse é exemplarmente o caso da assim chamada corrente “aceleracionista”, inspirada pelos trabalhos de Gilles Deleuze e Felix Guattari, amadurecida por Antonio Negri e Michael Hardt, e que encontra em Steven Shaviro, Alex Williams e Nick Srnicek seus “gurus” atuais. No Brasil, foi recepcionada sobretudo pelo “pós-tudismo” do coletivo Universidade Nômade]. Eu vejo o contrário: creio que só quando saibamos solucionar ou superar essa fragilização das relações sociais, encontraremos usos para as tecnologias da comunicação que hoje sequer imaginamos.
Enquanto isso, o que se vê nas redes sociais é que esse estado de fragilização social e atomização pode torná-las muito destrutivas. Nelas, nos insultamos continuamente e produzimos essas dinâmicas de linchamento tão perniciosas [N. do T.: Para uma abordagem do fenômeno dos linchamentos virtuais e da “pós-censura”, veja-se o instigante ensaio de Juan Soto Ivars, publicado pela editora Debate, de Barcelona, em 2017: Arden las redes. La poscensura y el nuevo mundo virtual]. No momento resta muito pouca fraternidade.
Você crê que as redes sociais seriam antes de mais nada uma armadilha para controlar mais as pessoas ou para obter informação para uso comercial? Estariam na realidade mais a serviço do chamado Big Data que das relações interpessoais?
Aqui também vejo uma grande continuidade entre os processos de controle social que estamos vivendo agora e os que se viveram no passado. É verdade que agora a Audiência Nacional [N. do T.: Tribunal de terceira instância na Espanha, que zela, também, pela aplicação da assim chamada Lei Mordaça, aprovada pelo governo do Partido Popular (direita), e que, desde 2017, restringe arbitrariamente as liberdades de reunião, expressão e informação no país] se dedica a vigiar o Twitter e as redes sociais, para botar as pessoas na cadeia. Mas é igualmente verdade que ela vem encarcerando gente e fechando meios de comunicação por conta de suas opiniões há muito tempo.
Hoje todos conhecem Pablo Hasél [N. do T.: rapper comunista espanhol, condenado judicialmente em 2014 por “apologia ao terrorismo”, por suas letras em defesa de grupos armados de extrema esquerda da década de 70] e Edward Snowden, que são associados ao ambiente digital… Mas menos gente se lembra do diretor do jornal vasco Egunkaria, Martxelo Otamendi, que em 2003 foi torturado por forças policiais sob a supervisão de um juiz da Audiência Nacional [N. do T.: Uma vez denunciadas as torturas, o caso foi habilmente acobertado pela justiça espanhola, o que levou a Corte Europeia de Direitos Humanos (ou Tribunal de Estrasburgo) em 2012 a condenar o Estado espanhol a uma indenização de 48 mil euros em favor de Otamendi, por prevaricação e danos morais].
Entre os dois âmbitos (o digital e o analógico) há uma considerável continuidade. Fala-se do controle biométrico que as redes sociais podem introduzir, mas na Espanha o controle biométrico existe há décadas e se chama carnê de identidade. Aos catorze anos todos são obrigados a registrar suas digitais, algo que, para os de fora da Espanha, parece um pesadelo orwelliano, enquanto na Espanha sempre pareceu algo absolutamente normal [N. do T.: O mesmo se diga da recente identificação biométrica compulsória feita pela Justiça Eleitoral brasileira, que obrigou os eleitores a registrarem eletronicamente todas as suas digitais, ao invés, funcionalmente, de apenas um dedo (como nos bancos). Por que razão tal zelo de controle? por qual funcionalidade eleitoral?…]. Desse modo, também é preciso refletir sobre a tolerância que tivemos no passado a respeito dessas formas de repressão e se perguntar por que só quando entram as redes digitais isso começaria a nos preocupar.
E quanto ao tema do Big Data, o único que ele fez, mais uma vez, foi acelerar tendências já em curso. É verdade que o desenho que configurou o ambiente digital nas últimas décadas, regido por uma perspectiva radicalmente mercantil, facilitou a emergência desse fenômeno. Se o ambiente digital tivesse sido regulado por instituições públicas, teria sido mais fácil impedir os abusos desse processo de exploração mercantil, mas como todo seu desenvolvimento foi privado, agora sai mais caro correr atrás do prejuízo que a semente mercantil plantou.
Também é verdade que, na exploração do Big Data para o desenvolvimento de ferramentas repressivas se sobrepõe uma tradição de políticas punitivas no contexto neoliberal. Pensar essas coisas apenas em termos de um Grande Irmão digital é não entender toda a sua extensão.
O mesmo acontece com o extrativismo digital, ou seja, todo esse conjunto de ações destinado a converter nossas relações sociais em fonte de lucro para as grandes empresas. Nosso capital social e relacional, que serve, por exemplo, para pôr em aluguel uma acomodação no AirBnB ou ser motorista em um serviço de transporte, é explorado por uma empresa que não faz nada mais senão dispor uma mínima estrutura digital. Isso me parece ter um parentesco muito próximo com os processos prévios de financeirização, que existem desde o começo dos anos 80, e pelo qual as maiores fortunas são geradas a partir de não produzir basicamente nada. Essas dinâmicas extrativas exploram novos territórios. Uma vez esgotado o mundo real, o mundo digital passa a ser o novo terreno a colonizar.
Em suma, pode-se dizer então que a eclosão das tecnologias digitais serviu principalmente para acelerar ou intensificar processos sociais que já estavam em curso, mas que, em essência, não revolucionou nada…
Exatamente. Eu sou um marxista e um materialista bem clássico, e os marxistas servimos para ser chatos, para dizer sempre o mesmo. E às vezes isso é útil. Algumas vezes somos apenas chatos, e não servimos para nada, mas em outras vezes, quando todo mundo está insistindo no novo, que estamos em um contexto novo e que isso é uma nova fronteira, eu creio que os chatos somos úteis, porque lembramos que nas nossas sociedades muitas vezes as continuidades pesam mais que as rupturas.
Certa vez você afirmou que o consumismo faz com que as pessoas tenham vidas frustradas, estragadas [no original: “vidas dañadas”]. De que modo esse sistema estraga ou prejudica a vida das pessoas?
O consumismo não consiste apenas em comprar muito. O consumismo é, antes, um ideal de vida boa e de autorrealização no mercado, através da compra e venda, e é um modelo de vida muito disseminado no qual todos, por desgraça, participamos em alguma medida.
E é um modelo que produz vidas frustradas porque impede a você ter um projeto de vida boa minimamente coerente. Você fica entregue aos caprichos do mercado, como se fosse um hamster perseguindo a última novidade, a tendência que esteja na moda.
Aspirar a ter uma vida boa exige ter também um certo projeto moral de vida, exige pensar que tipo de pessoa você pretende ser, trabalhar nessa construção e assumir que às vezes também fracassamos. Eu creio que o consumismo dinamita isso, porque atomiza completamente a sua vida e torna você tão simplesmente um eleitor racional que passa a ter como única perspectiva de vida o agora. Você não tem nem passado nem futuro. Suas únicas perspectivas são suas preferências presentes, que amanhã vão mudar e já serão diferentes das de ontem. Eu creio que, durante períodos curtos de vida, isso até possa ser excitante ou interessante, mas no médio prazo… são vidas terríveis! São vidas completamente vazias, seguramente porque são inconsistentes com nossa natureza humana. Não somos assim. Somos seres que precisamos articular um passado e ter projetos de futuro, em geral compartilhados.
Se você tivesse que apontar qual a carência ou problema mais importante do nosso atual estilo de vida, qual apontaria?
A desigualdade. Estou cada vez mais convencido de que a falta de igualdade é o motivo mais profundo das vidas frustradas que levamos. Sei que é um valor muito controvertido, e é o aparentemente mais feio do binômio liberdade-igualdade [N. do T.: para um pequeno excurso sintético sobre o tratamento que Norberto Bobbio deu à relação lógica entre liberdade e igualdade, consulte-se a entrevista dada por este tradutor]. Além disso vivemos em um momento de tremenda exuberância da liberdade: atualmente a liberdade é um valor cotado em alta, enquanto a igualdade é vista com suspeita. Reconhece-se a igualdade de oportunidades, mas isso é uma degeneração absoluta do ideal igualitário. A igualdade de oportunidades é pura meritocracia. E isso não tem nada a ver com a igualdade. A igualdade tem a ver com a chegada, não com o ponto de partida. Estou absolutamente convencido de que, sem uma recuperação de um modelo de igualdade forte, é completamente impossível recuperar os ideais emancipatórios ilustrados.

domingo, 11 de novembro de 2018

Pasolini e o "novo" fascismo: o consumismo do individualista refratário ao bem coletivo




Como Pasolini enxergou, desde 1968, que a ameaça já não estava nos Estados totalitários — mas no homem-consumidor individualista, refratário ao coletivo, entregue à mercantilização. O que isso tem a ver com o Brasil de 2018
Por Fran Alavina no Outras Palavras 
Fascismo, teu nome é consumismo
Mesmo após sua morte atroz, em novembro de 1975, Pasolini não deixou de incomodar. Uma de suas últimas polêmicas, expressa nos seus textos (Scritti Corsari e Letterre Luterane), bem como no seu último filme Salò, era a afirmação do nascimento de um novo tipo de fascismo. Desta nova forma de totalitarismo disfarçado, o pensador italiano estava bem certo. Exatamente por isso, ocupava uma posição de deslocamento entre os intelectuais de seu tempo. Os contemporâneos viam seu diagnóstico do presente como algo exagerado. Uma visão que, segundo eles, diria muito mais sobre a personalidade de Pasolini, do que sobre seu próprio tempo.
Enquanto todos se contentavam com os avanços do estado de bem-estar social e estavam inebriados com o maio de 68, dificilmente poderiam compreender que Pasolini não se reportava aos riscos da volta do fascismo histórico, como aquele de Mussolini. Tratava-se, na verdade, de uma mutação do fascismo histórico, cuja gênese estava justamente naquilo que o estado de bem-estar social comportava em seu interior e que era um dos motivos de sua expansão: o consumismo. Ao mesmo tempo em que surgia uma nova cidadania, das benesses da social democracia, esta também ensejava um novo modelo de homem e mulher: o consumidor.
Hoje, com a volta da extrema direita e sua chegada ao poder em alguns países, os ambientes intelectuais ora se veem imóveis, incapazes de diagnosticar com precisão um fenômeno que aparece dramaticamente como algo inesperado, ora se movimentam para atestar sua existência — mas buscam compreendê-lo segundo o parâmetro do fascismo histórico. Logo, deixam escapar os novos elementos e as novas determinações.
É claro que o fascismo histórico não pode ser esquecido, pois é o modelo mais acabado do que foi um estado fascista, institucionalmente falando. Ocorre que, como apontava Pasolini, o novo fascismo não é, em primeiro lugar, institucional — mas sim uma nova forma de vida jamais vista, e por isso mais difícil de ser combatida. Ele esconde dentro de si uma nova lógica de poder, está mais arraigo nos indivíduos que em instituições ou oficialidades declaradas. Por isso, Pasolini referia-se a uma nova forma de poder: “anárquico”, sem centro específico e sem uma estética que pretensamente expresse identidade homogênea — ao contrário do que foi o fascismo histórico.
A negação da diferença não seria, advertiu o pensador italiano, feita pela força bruta. Decorreria da não aceitação de qualquer forma de vida individual ou social que não pudesse ser transformada em mercadoria — isto é, que não se adaptasse ao consumo. Como era necessário que o consumo acompanhasse o aumento da produção, o novo cidadão do estado de bem-estar social deveria ser levado cada vez mais à mercantilização da vida.
Daí que durante as ocorrências do maio de 68 pela Europa, Pasolini já denunciava seus limites e a acomodação do espírito de rebeldia pelo mercado. A própria rebeldia perdia sua valência política e tornava-se uma marca, um slogan. As novas formas de comportamento, quanto mais possam parecer novas, mais se acomodam ao consumo que já faz de si mesmo a imagem da única novidade possível. Este novo fascismo, que ao que parece só Pasolini conseguia ver, seguia os passos do fascismo histórico, pois instaurava uma nova linguagem: pobremente denotativa, como fora aquela que se materializava nos discursos de Mussolini.
Assim, o novo fascismo trazia consigo um novo gestual que, segundo as palavras de Pasolini, impedia que se pudesse diferenciar, na Europa, um jovem das classes populares de um jovem burguês. Os dois já falavam do mesmo jeito, já gesticulavam do mesmo modo: enfim, todo o campo da expressividade havia se tornado único. Desfazendo, desse modo, qualquer referência às diferenças entre classes sociais. Ora, não era o sonho do fascismo histórico produzir um tipo de sociedade radicalmente homogênea?
Não parece, pois, ser mera coincidência que hoje os gestos e a linguagem da extrema direita tenham se tornando tão aderentes nas redes sociais. Também sendo pobremente denotativa, a linguagem das redes sociais levou o consumo ao seu ponto máximo: já não se consumem coisas, pode-se consumir pessoas. A transformação das subjetividades em algoritmos impõe um novo padrão de homogeneidade. Aqueles que já não falam a língua das redes, mesmo fora delas, tendem a desaparecer, pois só aqueles que falam a língua do consumo imediato permanecem. Não é pura ocasionalidade que os políticos de extrema direita falem como se youtubers fossem. Trump não discursa como se estivesse no twitter? Mas essa nova linguagem pressupõe aderência entre os falantes: portanto, supõe que os falantes já se identifiquem apenas como consumidores.
Também não é mera coincidência que o atual estado de coisas a que chegamos no Brasil tenha sido precedido por uma ascensão e crise das classes populares ao consumo. A classe trabalhadora, falsamente identificada como nova classe média, passou a ver a si mesma como consumidora, mais do que com qualquer outra identidade. O mesmo movimento se deu naqueles países europeus mais afetados com a crise econômica de 2008.
Os antigos consumidores jogados para fora dos padrões de consumo não se voltam mais, como outrora, aos partidos trabalhistas ou de centro esquerda (pois foram estes os principais fiadores da social democracia e seu estado de bem-estar). Não se veem mais como trabalhadores expropriados, mas como consumidores incapazes de consumir. A afirmação da identidade de classe foi perdida. Por isso, no caso brasileiro, por exemplo, não aparece como contradição seguir um discurso que promete a volta dos empregos por meio de uma agenda neoliberal extremada e que ao mesmo tempo retira direitos dos trabalhadores.
Se o fascismo histórico se guiava pela noção de um aparelho estatal grande e forte, o novo fascismo pode aderir ao estado mínimo justamente por não se tratar mais de instituições, mas de formas de vida que consomem a si mesmas. Logo, a aderência do discurso da meritocracia, que cria a imagem da sociedade como um grande aglomerado de indivíduos em eterna concorrência. Incapaz de engendrar qualquer forma de solidariedade social, esta noção consumista e individualista de si mesmo é um prato cheio para discursos do culto da força, pois a violência já internalizada pelos indivíduos concorrentes torna-se completamente naturalizada.
Não por outro motivo, Pasolini apontava que o novo fascismo era muito mais perverso que o fascismo histórico. “Estamos todos em perigo!”, dissera ele, nem tanto aos seus contemporâneos, mas a nós, 40 anos depois de seu assassinato. É porque estamos todos em perigo que precisamos vencê-lo. Não apenas pela resistência e uma nova superação eleitoral das forças políticas que encarnam o novo fascismo, pois trata-se mesmo da criação de uma nova forma de vida. Afinal, nunca se pode esquecer que a democracia não é simplesmente uma forma de governo, porém uma forma de vida: talvez a única que se possa dizer plenamente vida.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Leandro Karnal em uma reflexão sobre Bauman, mundo líquido, individualismo exarcerbado e um mundo transitório cada vez mais descartável




Leandro Karnal, professor da UNICAMP, é um historiador brasileiro, titular, na universidade citada da cátedra na área de História da América. Trabalha com temas como memória, alienação, arte e modernidade. Foi também curador de diversas exposições, como A Escrita da Memória, em São Paulo, tendo colaborado ainda na elaboração curatorial de museus, como o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e doutor pela Universidade de São Paulo, Karnal tem publicações sobre o ensino de História, bem como sobre História da América e História das Religiões.

Apresentamos, a seguir, uma parte, em vídeo, da palestra de Leandro Karnal no 3° Congresso sobre Gestão de Pessoas do Setor Público Paulista. 

Karnal aponta alguns transformações marcadas pela velocidade nas dinâmicas sociais.  (fonte: Youtube)