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segunda-feira, 16 de março de 2020

Eduardo Moreira: Os novos contornos da crise na triste era Bolsonaro. Fim do começo ou começo do fim?



Do Canal do economista Eduardo Moreira:


Bresser-Pereira: Apesar das bravatas midiáticas e da manifestação do seu gado, Bolsonaro sofre hoje de uma dramática perda de poder


 "Mas o problema não é apenas perda de poder, é também não saber usá-lo, como estamos vendo desde que começou há um ano atrás."

Publicado no Facebook do autor
Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP
POR LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Há duas semanas, nesta página pública do Facebook, eu afirmei que o governo Bolsonaro perdera o apoio das elites econômicas e políticas; perdera, portanto, legitimidade social, e não mais governava.
Não estava, assim, com o apoio da sociedade para enfrentar a crise interna caracterizada pelo crescimento do PIB de 1,3% em 2019, e pela disparada do dólar.
Nesta semana somou-se à crise interna o pânico em todas as bolsas do mundo com a recessão que o coronavírus deverá causar. A queda da Bolsa de São Paulo, de 25,9%, porém, foi nesta semana muito maior do que na Bolsa de Nova York, de 16,5%. Por que?
Essencialmente porque, dada essa crise de legitimidade, o governo Bolsonaro sofre hoje de uma dramática perda de poder. Vimos isto nesta semana quando o Congresso rejeitou o veto do presidente ao projeto de lei aumentando para meio salário mínimo o escopo do Benefício de Prestação Continuada.
O poder executivo foi, assim, incapaz de evitar uma despesa adicional sem a respectiva fonte de receita que, apenas neste ano, deverá custar R$ 20 bilhões. Estamos vendo essa perda de poder do governo também na sua incapacidade de reagir adequadamente à pandemia do coronavírus.
Mas o problema não é apenas perda de poder, é também não saber usá-lo, como estamos vendo desde que começou há um ano atrás.
Ao invés de enfrentar o desemprego e a falta de demanda com um grande plano de investimentos públicos, o governo promete que a retomada do crescimento acontecerá assim que for aprovada a próxima reforma.
As reformas acontecem, algumas delas eram necessárias, como a reforma da Previdência, mas o crescimento não vem. E assim a crise econômica se interna soma à crise internacional.
Por quanto tempo isso será suportável? Não sei. Mas de uma coisa estou certo: nunca houve no Brasil um governo que tenha perdido tanto apoio social como esse que está aí.
Um governo que se põe contra praticamente todos os setores da sociedade para ter o apoio de uma extrema-direita populista.
Um governo que aposta no caos para ter mais poder, mas tem cada vez menos poder.

terça-feira, 4 de junho de 2019

Blog da Cidadania: Enquanto o país afunda, Bolsonaro brinca de ditador




Cada ato, decisão ou declaração de membros do governo federal são de responsabilidade do presidente da República. Nesse contexto, o Ministério Público Federal acaba de acusar Bolsonaro de impor censura a estudantes, professores, servidores e famílias. Enquanto ele brinca de ditador, a economia desaba, o desemprego aumenta, o país afunda.
A situação da economia é dramática. Segundo o jornal Valor Econômico, é a 14ª vez, neste ano, que o mercado financeiro revê, para baixo, o crescimento do PIB, se é que haverá crescimento.

A media das projeções do mercado para o crescimento da economia em 2019 caiu de 1,23% para 1,13% na pesquisa semanal Focus, divulgada nesta segunda-feira pelo Banco Central com estimativas coletadas até o fim da semana passada.
O desemprego atinge 13 milhões de brasileiros, o salário médio do trabalhador e o salário mínimo despencam. Sem ministério do Trabalho e com “flexibilização” de direitos trabalhistas, explode o número de empresas que contratam funcionários sem registro em carteira nem qualquer tipo de contrato d e trabalho.


Enquanto isso, em vez de o Ministério da Educação elaborar políticas públicas para aumentar o nível de empregabilidade dos brasileiros aprimorando o ensino público e suprindo a gigantesca carência das escolas públicas, empenha-se em cortar recursos da Educação enquanto divulga ameaças CRIMINOSAS contra estudantes, alunos, famílias dos alunos…
Não é à toa que o Ministério Público teve que adotar uma medida absolutamente inédita: deu prazo de dez dias para que o Ministério da Educação cancele a Nota Oficial emitida pela pasta no dia 30 de maio na qual ‘desautoriza’ pais, alunos, professores e funcionários a divulgarem ou estimularem protestos pelo direito à educação.
A medida consta em uma recomendação encaminhada na sexta, 31, ao ministro Abraham Weintraub. O texto solicita que o MEC promova IMEDIATA RETRATAÇÃO PÚBLICA quanto à publicação e divulgação da nota.
O ultimato do MPF ao ministro da Educação impressiona por pedir que O GOVERNO DO BRASIL pare de ameaçar cidadãos. O documento exige que o MEC:
Abstenha-se de cercear a liberdade dos professores, servidores, estudantes, pais e responsáveis, pela prática de manifestação livre de ideias e divulgação do pensamento nos ambientes universitários, de universidades públicas e privadas e Institutos Federais, incluindo análise, divulgação, discussão ou debate acerca de atos públicos, seja através de NOTA OFICIAL ou pela prática de qualquer outro ato administrativo
Note bem: o MPF exige que o governo do país pare de censurar e ameaçar a sociedade à qual deveria servir. E governo que censura e ameaça cidadãos tem um nome: ditadura. Porém, até aqui as instituições estão funcionando. Bolsonaro e sua trupe de ministros-palhaços estão apenas brincando de ditadores. Enquanto o país afunda como o Titanic.
Confira a  matéria em vídeo

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Luis Nassif: O (des)governo decrépito de Bolsonaro se aproxima da hora da verdade



Hoje em dia, a crise fiscal – que se aprofunda – é função direta da queda da atividade econômica. E Guedes não tem a menor noção sobre políticas anticíclicas.


Do Jornal GGN:



Não há que se surpreender com Paulo Guedes, assim como não havia razões para esperar algo diferente de Jair Bolsonaro.
Desde o começo se sabia que Guedes era um gestor atrapalhado. É muito mais fácil comandar uma equipe de analistas, do que uma equipe multidisciplinar como o super-ministério que ele assumiu.  No caso do banco de investimento, o objeto é um só, assim como o nível de conhecimento e de analise. Mesmo assim, Guedes foi um desastre, criando conflitos desnecessários com seus sócios e suas equipes, não demonstrando capacidade de convivência e de liderança. Sempre foi um grande desorganizado – e nem se tome como ofensa, porque é a característica dos intelectuais.
Se não dava certo em ambientes de conhecimento homogêneo, no governo foi pior, ainda mais com essa loucura do super-ministério colocado sob seu comando. O problema central é a recessão continuada da economia, seus impactos sobre emprego, criminalidade e contas públicas.
Hoje saiu a PNAD Trimestral (Pesquisa Naciional de Amostra de Domicílios), mostrando o tamanho da crise. Em geral, se mede o desemprego apenas no universo das pessoas que estão trabalhando ou procuraram emprego no curto prazo. O PNADT vai além. Ele investiga também aqueles que desistiram de buscar emprego e estão fora do mercado de trabalho.
O quadro é dantesco.
Em Alagoas se somar trabalhadores desocupados, mais os que estão fora do mercado, há 66% pessoas a mais do que os trabalhadores ocupados. No total Brasil, essa relação é de 82%.
No penúltima PNADT, mediu-se o tempo que dura esse desemprego. Os que buscam emprego há mais de 2 anos chegam a quase 20%
Hoje em dia, a crise fiscal – que se aprofunda – é função direta da queda da atividade econômica. E Guedes não tem a menor noção sobre políticas anticíclicas. Menos ainda sobre o ferramental que tem à sua mão, bancos públicos, gastos públicos, destravamento de concessões.
Ele está totalmente travado. Não conseguiu desenvolver uma política setorial sequer. Foi incapaz de definir estratégias de redução da inadimplência, melhorar a situação do crédito, acelerar os processos de concessão. Todo seu trabalho consiste em cumprir ao pé da letra as restrições fiscais, cujo buraco aumenta em função direta da queda de receita – fruto da recessão.
Cria-se o moto contínuo do desastre. Efetua cortes brutais no orçamento, a demanda cai mais ainda, derrubando mais ainda as projeções de crescimento do PIB. A reação são mais cortes, mais desaquecimento, mais queda da receita. E joga todas as expectativas na tal reforma da Previdência que, mesmo saindo, não resolverá a questão crônica da falta de demanda.
O país se aproxima rapidamente de uma situação de impasse, com desfechos radicais no front político.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Um país aprisionado entre um par de aspas, por Jose Bulcão




Temos um “presidente” “eleito” por uma “maioria” de 29 porcento dos eleitores, que ganhou fazendo uma “campanha” sórdida, toda baseada em mentiras escabrosas via whatsapp


Um país aprisionado entre um par de aspas

por Jose Bulcão

As aspas são um sinal gráfico com múltiplas funções linguísticas. As mais usuais, creio eu, são as de (a) dar ênfase a um termo, expressão ou a uma frase completa, apesar de que, muitas vezes, esse destaque é melhor representado tipograficamente pelo negrito, e (b) fazer uma citação literal sobre algo dito, não pela pessoa que narra o texto, mas por uma terceira pessoa. Há algumas outras finalidades para as aspas, mas acho que essas duas são as mais comuns na linguagem escrita.
No entanto há uma outra forma que denota uma certa ironia, que é quando se usa uma palavra ou expressão querendo dar-lhe o sentido oposto ou bem distinto daquele que o termo significa literalmente. Essa forma é também bastante comum na comunicação verbal, onde certas pessoas, geralmente meio pedantes, exageram no emprego do gestual de dobrar os dedos indicador e médio das duas mãos simultaneamente quando querem enfatizar, de forma debochada, uma ação, um aspecto pessoal ou uma característica inexistente de uma terceira pessoa.
Dada a situação surreal que temos vivido na atual conjuntura, em que uma certa distopia tragicômica é o que impera desde o primeiríssimo dia do ano, o Brasil só pode ser mesmo explicado e compreendido pelo deboche.
São as aspas que comandam o discurso, dominam a linguagem de tal forma que já não tem sido nada fácil identificar claramente o significado das coisas. Tudo anda difuso, beirando o ridículo. Nos tornamos uma sociedade caricata, uma piada autoreferenciada. Senão vejamos.
Temos um “presidente” “eleito” por uma “maioria” de 29 porcento dos eleitores, que ganhou fazendo uma “campanha” sórdida, toda baseada em mentiras escabrosas via whatsapp onde “kits gays”, “mamadeiras de pinto” e inimigos imaginários como os “vermelhos”, os “comunistas”, “a ditadura gayzista”, “a corrupção do PT” e mais uma série de bobagens dignas de um folhetim de péssimo gosto desses que ninguém lê, mas que só o fato de saber que existem, diverte a todos.
O problema aqui reside no fato de que todos esses absurdos foram cinicamente tratados por “eleitores” como se fossem verdade. Sendo assim, os partidários do bolsonaZismo, convenientemente, “acreditaram” nessas mentiras, com o argumento de que era preciso “varrer os comunas do PT”, partido que nunca se postulou comunista e que sequer governava o país na ocasião.
O resultado é que esse “chefe da nação” hoje “governa” o país rodeado por um conjunto de tutores militares decrépitos, em seus pijamas quatro estrelas e suas pantufas-coturno, enquanto ele, o “mito”, seus filhotes abilolados e seus “ministros” disfuncionais escandalizam o Brasil e o mundo com suas respectivas “inteligências brilhantes e acima da média”, todos regidos pela batuta de um “filósofo” decadente e rancoroso, que acredita que a terra é plana.
E o pior é que ainda há quem diga que aqueles que criticam e condenam esse festival de demências consentidas está “torcendo contra”.
O resumo da ópera é que nos tornamos um país refém da mentira e do deboche, aprisionado, limitado e restringido por inteiro entre um par de aspas.
Esse é o “Brasil”.


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

GGN: Corrupção, oposição e impopularidade: desafios de Bolsonaro para aprovar Previdência



Proposta de Bolsonaro ainda não foi enviada à Câmara, mas gera articulação de oposição e divide conservadores
Protesto em Uberlância (MG) contra reformas do governo de Michel Temer (MDB) / Mídia Ninja

do Brasil de Fato

Corrupção, oposição e impopularidade: desafios de Bolsonaro para aprovar Previdência

Cristiane Sampaio

A tradicional rejeição popular em relação a pautas de retirada de direitos faz com que o governo Bolsonaro pise num terreno movediço quando o assunto é a reforma da Previdência, apesar de ter maioria no Congresso Nacional. As denúncias de corrupção envolvendo o PSL, seu partido, aumentam ainda mais os desafios do ex-capitão e de seu ministro Paulo Guedes.
O governo tem esbarrado em dificuldades de articulação política com partidos mais conservadores. Na semana passada, líderes de legendas como o PP, por exemplo, queixaram-se do problema da corrupção, que se delineia em meio à primeira crise da gestão, hoje alfinetada por escândalos envolvendo supostos laranjas.
Aliados de Bolsonaro acusados desse tipo de prática negam as acusações, mas, para opositores, o debate sobre o tema da corrupção em torno do seu governo pode reduzir o apoio popular à gestão. Com isso, tende a fazer com que o terreno no Poder Legislativo fique menos fértil para sua base em termos de aceitação da reforma.
“Acho que o governo dele tem cada vez menos espaço político pelo nível de contradição que eles já estão apresentando. Eles estão com cara de fim, e não de início de governo, mas obviamente que a gente não subestima. Máquina de governo é máquina de governo, e eles têm vários partidos na base. No entanto, esse tema é muito sensível na sociedade brasileira”, pontua a líder da minoria, Jandira Feghali (PCdoB-RJ).
Em entrevista ao Brasil de Fato, o líder do PSOL, Ivan Valente (SP), disse acreditar no peso da antipatia dos segmentos populares em relação à medida, assim como ocorreu no governo de Michel Temer (MDB), quando outra proposta de reforma foi apresentada.
“É preciso pensar que qualquer pesquisa de opinião mostra que quase 70% da população é contra a reforma da Previdência. Em segundo lugar, o Bolsonaro não foi eleito com essas bandeiras. Na minha de opinião, a lua de mel do governo [com sua base eleitoral] começa a ser desgastada, ferida com a reforma da Previdência”, afirma
Diante desse cenário, o campo popular segue atento aos movimentos do governo e se sustenta na importância da Previdência social para articular uma ampla oposição à pauta, segundo afirma Leidiano Farias, da coordenação nacional da Frente Brasil Popular (FBP).
“Nós sabemos que a Previdência Docial no Brasil é o principal instrumento de distribuição de renda. Os pequenos municípios, a população mais pobre precisam dela e de direitos que foram historicamente conquistados, então, tem um grande potencial aí de construir uma resistência”, acredita.
Divisão
Apesar de ainda não ter sido oficialmente encaminhada ao Congresso Nacional, a reforma da Previdência do governo de Jair Bolsonaro (PSL) causa reações adversas nos âmbitos institucional e popular.
Na Câmara dos Deputados, para onde a proposta deverá ser enviada em breve, partidos de esquerda acreditam que a pauta poderá ser um ponto de favorecimento na união dos diferentes grupos desse espectro, algo que até agora não aconteceu de forma plena. É o que afirma, por exemplo, o líder da bancada do PCdoB, deputado Orlando Silva (SP).
“O governo vai encontrar uma oposição determinada a derrotá-lo. Acredito que os partidos de oposição – PCdoB, PSB, PT, PDT, PSOL –  vão ter uma posição muito decidida de enfrentamento com relação a essa proposta”.
Para o deputado, a reforma, que já é alvo de comentários nos bastidores da Casa, tem ainda o potencial de aglutinar outras forças ao grupo que deverá fazer frente à medida no Poder Legislativo. O caráter impopular desse tipo de proposta e a memória traumática da população em relação ao tema seriam, para ele, possíveis motores de uma articulação de maior amplitude.
“Acredito que muitos parlamentares de partidos da base do governo podem se somar a nós. Eu creio que o cenário vai ser de muita dificuldade por parte do governo, até porque a experiência passada, a reforma trabalhista, mandou um recado muito forte aos deputados: a maioria dos que votaram favoravelmente não foi reeleita”, exemplifica Orlando Silva.
A reforma
As informações divulgadas pelo governo Bolsonaro sobre a proposta de reforma ainda são preliminares, mas, segundo o que foi divulgado na última quinta-feira (14), a medida deverá contar com regras como: idades mínimas de 65 anos para homens e 62 para mulheres para requerer aposentadoria; e período de transição de 12 anos para a adoção total da regra.
A matéria deverá ser apresentada por meio de uma proposta de emenda constitucional (PEC), tendo a Câmara dos Deputados como porta de entrada. Para ser aprovada, a medida precisa ter o aval da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e de um colegiado especial que deve ser criado para analisar a proposta.
Também dependerá de votação no plenário da Casa em dois turnos diferentes, necessitando de 308 em cada um deles, o que corresponde a três quintos do total de deputados. Caso seja aprovada ao final, a proposta será encaminhada ao Senado.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Luis Nassif: o Xadrez do esperto Mourão, o general que desejou novo golpe militar e que, infelizmente, irá para o lugar de Bolsonaro


"A dúvida que fica é sobre a natureza de um eventual governo Mourão. 
"Do ponto de vista de mercado, significaria dar chão firme para as formulações econômicas de Paulo Guedes. No plano internacional, significaria tirar o país do centro da galhofa mundial. Mas não se espere nenhum compromisso mais aprofundado com valores democráticos."


Do GGN:



Nas próximas semanas, o grande trabalho da opinião pública será decifrar o general Hamilton Mourão. A probabilidade de substituir Jair Bolsonaro na presidência da República é cada vez maior. Repito: a única incógnita é o prazo para a queda de Bolsonaro.
São vários os fatores de desgaste de Bolsonaro.
Fator 1 - a dinâmica das denúncias
Os indícios contra a família Bolsonaro eram antigos e conhecidos. Mas havia uma espécie de linha divisória psicológica impedindo a mídia de avançar além de certas ilações. O excesso de evidências contra Flávio Bolsonaro fez a imprensa atravessar o Rubicão e aponta-lo como ligado às milícias. Agora, se tornou uma caça ao alvo.
Há várias frentes de denúncias apertando o torniquete no pescoço da família Bolsonaro - por suas relações com as milícias.
A principal delas são os trabalhos do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro - que deverão ser retomados a partir do dia 1o, quando o STF (Supremo Tribunal Federal) voltar do recesso e o Ministro Marco Aurélio de Mello desfizer o pacto carioca de blindagem, encabeçado por seu colega Luiz Fux. Nos próximos dias, o filho Flávio Bolsonaro e o motorista Fabrício Queiroz serão convocados a depor.
No momento, há uma caçada ampla da Polícia Federa, Interpol e outros agentes ao capitão Adriano Magalhães Nóbrega, principal suspeito do assassinato da vereador Marielle. Flávio Bolsonaro não apenas conferiu a Adriano a Medalha Tiradentes - quando ele já estava preso, sob suspeita de outro assassinato -, como empregou mãe e esposa na Assembleia Legislativa.
A tentativa do governo, de reduzir a área de atuação dos órgãos de controle deflagrará uma nova onda de vazamentos do lado do COAF (Conselho de Controle das Atividades Financeiras), Receita e CGU (Controladoria Geral da União). Recorde-se que a primeira dama, Michele Bolsonaro, entrou na linha de tiro devido ao cheque de R$ 24 mil que recebeu de Fabricio Queiroz, o motorista dos Bolsonaro.
As informações divulgadas nos últimos dias não deixam nenhuma margem a dúvidas de que Queiroz é elo direto da família Bolsonaro com a milícia do Rio das Pedras.
O jogo de assessores indo do gabinete do filho para o pai, a troca de cheques, o fato de Queiroz ser amigo do pai, todos esses fatores tornarão impossível qualquer ginástica para isolar o pai dos malfeitos do filho.
Fator 2 - o desastre internacional
As notícias sobre as relações dos Bolsonaro com as milícias já ganharam mundo. Le Monde, Financial Times, The GuardianThe New York Times.
E não apenas pelas milícias. Diz o NYTimes:
“Três ministros, bem como alguns diretores de nível médio implicados em investigações de corrupção, foram contratados pela administração, apesar da política declarada de tolerância zero de Bolsonaro. O filho do vice-presidente foi promovido e recebeu um triplo aumento em um banco estatal. Mesmo uma multa aplicada contra Bolsonaro pela pesca em águas protegidas em 2012 foi anulada pelas autoridades.
Bolsonaro e seus aliados também continuaram usando privilégios políticos legais, mas muito desprezados, como aceitar as concessões móveis concedidas a legisladores e funcionários federais - mesmo quando eles já moram na capital”_.
O encontro de Davos foi um fracasso retumbante, pela falta de propostas, mas, sobretudo, pela falta de postura de Bolsonaro, descrito de modo fulminante pelo diário italiano La Reppublica:
“O 'duro' da ultra-direita sul-americana, o presidente homofóbico e xenófobo dos tons marciais e a paixão pelas armas, de repente parece um cordeirinho na frente do público rico e poderoso”.
O otimismo do mercado com o Brasil se agarrava na possibilidade do Ministro da Economia, Paulo Guedes, conseguir fazer alguma coisa, apesar do presidente Bolsonaro, de acordo com Brian Winter, correspondente do Americas Quarterly.
Depois de tecer loas a “um homem que parece destinado a mudar o Brasil para melhor”, esclarece que se trata de Paulo Guedes.
Não se esqueça, porém: ele não é o presidente.
Esse seria  Jair Bolsonaro (…)  Desde que assumiu o cargo, em 1º de janeiro, ele cometeu uma série de  gafes e reversões de políticas  em tudo, desde cortes de impostos até uma  oferta  (rapidamente retirada) dos EUA para construir uma base militar em solo brasileiro. Sua família é subitamente  enredada em um escândalo de corrupção  com consequências imprevisíveis e potencialmente terríveis. Bolsonaro e seus aliados parecem mais focados em atacar inimigos imaginários ou irrelevantes - “ marxismo cultural ” , “ ideologia de gênero ”,  globalismo  e imprensa, entre outros - do que oferecer soluções viáveis para os reais problemas do Brasil. As poucas políticas que ele apresentou incluem um afrouxamento do controle de armas  em um país que já tem  mais mortes por arma do que qualquer outro,  movimentos que podem permitir  um desmatamento mais rápido da Amazônia, e um  decreto  para “supervisionar, coordenar e monitorar” ONGs internacionais que operam no Brasil.
Simultaneamente, ganhavam mundo também os diversos aloprados indicados para Ministérios. Em Davos, o chanceler Ernesto Araújo enredava o país nas confusões da Venezuela, mostrando o risco de se manter um estúpido em cargo chave. Por sua vez, a Ministra dos Direitos Humanos escandalizava os holandeses ao sugerir, nas pirações evangélicas pré-governo, que o país estimulava masturbação de bebês.
A semana terminou com a segunda tragédia de Minas Gerais, no início de um governo que se propôs a desmontar os sistemas de fiscalização do meio ambiente.
Além de esvaziar a pasta de Meio Ambiente, indicou para o Ministério pessoa acusada de improbidade visando atender a interesses de mineradoras em áreas de preservação.
Ou seja, não se trata apenas de um presidente de ultradireita, mas de um personagem desqualificado para as funções públicas, que está envergonhando o Brasil perante o mundo.
É aí que entra o fator Hamilton Mourão.
Peça 3 - o fator Hamilton Mourão
Durante a transição, Mourão se tornou o interlocutor preferencial dos empresários pelo fato de ser dos poucos focos de (alguma aparência de) racionalidade dentro do governo.
Teve o bom senso de desqualificar as maluquices de Bolsonaro com a tal missão militar norte-americana, com as pretensões lunáticas do chanceler de invadir a Venezuela. Ou a intenção  de mudar a embaixada de Israel para Jerusalém.
Após o anúncio da desistência  do deputado Jean Willys de assumir o mandato, devido às ameaças recebidas, proclamou que a ameaça a um deputado é atentado contra a própria democracia.
Imediatamente ganhou status de presidenciável junto aos setores mais racionais.
Mas, ao mesmo tempo, foi o interino que assinou um decreto que, na prática, acaba com a Lei da Transparência. O decreto faculta a qualquer funcionário comissionado (isto é, indicado pelo governante de plantão) decretar sigilo para informações requeridas. Hoje em dia, a responsabilidade pelos dados é de Ministros. Estendendo a todos os comissionados, ficará fácil o jogo das gavetas, esconder informações com a censura sendo diluída por vários responsáveis.
Alegou que pretendia apenas desburocratizar. E que a responsabilidade final seria do Ministros. Aventou-se também a hipótese de que eram demandas antigas do Itamaraty e das Forças Armadas. Nenhuma desculpa convincente e todas elas sem respaldo no texto do decreto.
Ao mesmo tempo, surge a proposta do Banco Central de afastar o monitoramento, pela COAF, de parentes de políticos. Mais uma vez, desculpas inverossímeis, de que a medida visava adaptar o país a práticas internacionais contra corrupção. Ora, os parentes são os candidatos naturais a laranjas dos corruptos.
Essas medidas foram anunciadas depois do escândalo Flávio Bolsonaro, passando a suspeita de que Mourão poderia estar se envolvendo para além da prudência na blindagem do primeiro filho de Jair.
Será quase inevitável a substituição de Bolsonaro por Mourão em um ponto qualquer do futuro. Enquanto, em público, Bolsonaro parece um lagarto assustado, Mourão é senhor de si.
A dúvida que fica é sobre a natureza de um eventual governo Mourão. 
Do ponto de vista de mercado, significaria dar chão firme para as formulações econômicas de Paulo Guedes. No plano internacional, significaria tirar o país do centro da galhofa mundial. Mas não se espere nenhum compromisso mais aprofundado com valores democráticos.