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terça-feira, 10 de novembro de 2020

Os enormes abusos de Sergio Moro (acobertados e incentivados pela Globo) na Lava Jato em 12 pontos, por Cíntia Alves

 

Grampear advogados, usurpar o Supremo, auxiliar a acusação e tirar armas da defesa, prender usando notícia de jornal para obter delações. Há mais de 5 anos, o método Moro é conhecido e denunciado


Foto: Agência Brasil

Jornal GGN – Quando as mensagens de Telegram trocadas entre Sergio Moro e procuradores da Lava Jato começaram a vir à tona, em junho de 2019, uma pequena parcela dos brasileiros certamente ficou estarrecida, mas não totalmente surpresa. Grampear advogados, usurpar funções da Suprema Corte, dissimular o envolvimento de políticos nas investigações, auxiliar a acusação e tirar armas da defesa, decretar prisões longas e de fundamentação frágil, intervir na cena política com vazamentos seletivos de grampos e delações premiadas. O “método Moro” é conhecido, discutido e denunciado às autoridades competentes há 5 anos, desde o começo da operação. O GGN – que prepara uma série especial sobre o passado de Moro – resgata alguns dos abusos que marcaram sua trajetória.

Em 12 pontos:

  1. Prisões prolongadas para obter delação: As prisões preventivas estão entre as principais críticas à conduta de Moro na Lava Jato ao menos desde 2015. São dois os pontos mais problemáticos, segundo os advogados: primeiro, prender indefinidamente para alcançar delação premiada; segundo, prender usando argumentos frágeis. Em alguns casos, o Supremo Tribunal Federal reagiu a esse expediente. O ministro Teori Zavascki abriu caminho para uma série de revogações de prisões preventivas. Começou derrubando aqueles decretos em que Moro argumentou que o investigado teria condições de fugir do País, sem apresentar os indícios. Em 2016, julgando um dos recursos, Gilmar Mendes mandou um recado: “O clamor público não sustenta a prisão preventiva”.

  2. Prisões com fundamentação frágil: Uma das derrotas sofridas por Moro no TRF-4 foi a revogação da prisão de executivos da Camargo Corrêa e da UTC, decretada por ele, de ofício, usando notícia de jornal sobre encontro de advogados da Lava Jato com o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. João Gebran Neto revogou a prisão por não vislumbrar ilegalidade. “Não se tem conhecimento do teor da conversa entre os advogados e o ministro da Justiça. (…) Do encontro, não há narrativa de nenhuma interferência efetiva no processo”, afirmou.
  3. Vazamentos seletivos: O vazamento seletivo de delações premiadas, mensagens e conversas grampeadas foi uma constante na Lava Jato. Talvez o vazamento mais emblemático seja o que atingiu Lula e Dilma às vésperas da posse do petista na Casa Civil, em março de 2016. Ao longo do processo, vazaram também conversas irrelevantes para as ações penais, mas que geravam manchetes para a imprensa aliada, como ocorreu com Marisa Letícia e filhos. Em 2014 se deu o primeiro grande vazamento com objetivos eleitorais, com a delação de Alberto Youssef estampando capas de revistas às vésperas da reeleição de Dilma. Em 2018, a seis dias do primeiro turno, Moro divulgou a delação de Antonio Palocci. Ao CNJ, o ex-juiz admitiu o caráter político de sua decisão ao dizer que “se o depoimento, por hipótese, tem alguma influência nas eleições, ocultar a sua existência representa igual interferência”.
  4. Juízo universal: O Supremo também tentou colocar freio em Moro ao “fatiar” os processos da Lava Jato e determinar a distribuição para os juízos competentes. O ministro Dias Toffoli, em 2015, argumentou que “nenhum órgão jurisdicional pode se arvorar de juízo universal de todo e qualquer crime relacionado a desvio de verbas para fins político-partidários, à revelia das regras de competência”. Mais tarde, o fato de Moro monopolizar os grandes casos da Lava Jato, mesmo quando os fatos narrados não tinham raízes no Paraná, foi reclamado pela defesa de Lula. “Atenta contra o devido processo legal e a todas as garantias a ele inerentes o fato de Moro haver se tornado juiz de um só caso”, disseram.
  5. Usurpar função do Supremo: Moro também arvorou-se em usurpar funções do Supremo. Mais precisamente, desmembrando processos por conta própria, depois que constatou a presença de deputados no meio das investigações. Para evitar que a operação saísse do controle da “República de Curitiba”, ele desmembrou a ação envolvendo o então deputado federal André Vargas e o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa. Zavascki apontou que Moro, como juiz de primeiro grau, não estava autorizado a substituir a “Suprema Corte, promovendo, ele próprio, deliberação a respeito do cabimento e dos contornos do referido desmembramento.”Em outro caso, envolvendo a Eletronuclear, a mesma situação: “cabe apenas ao Supremo Tribunal Federal, e não a qualquer outro juízo, decidir sobre a cisão de investigações envolvendo autoridade com prerrogativa de foro na Corte”, avisaram.
  6. Dissimular investigação de políticos: O desmembramento do processo de André Vargas lembra outro episódio que demonstra como Moro se esforçava para continuar como o maestro da operação. No começo da Lava Jato, alguns advogados denunciaram que Youssef foi flagrado nas escutas da Polícia Federal conversando com Luiz Argolo, que tinha foro privilegiado. A PF os monitorava desde setembro de 2013, mas afirmou que só descobriu a identidade de Argolo em maio de 2014, uma afirmação não parecia “crível” para os advogados. Enquanto isso, réus como Youssef e Paulo Roberto Costa foram “proibidos” por Moro de citar “nomes com prerrogativa de foro” durante audiências. “Para defensores, isso mostra como ele tentou impedir a remessa dos feitos ao Supremo”.
  7. Disparidade de armas: Segundo os relatos de advogados, Moro desequilibrava o jogo ao privilegiar o Ministério Público e a Polícia Federal em detrimento dos pedidos feitos pela defesa dos réus. Tratamento desigual nos prazos e pedidos de diligências, ausência nos autos de delações e outras provas, dificuldade de localizar documentos citados nas denúncias. Certa vez, em 2015, Moro levou dois meses para franquear aos advogados acesso aos termos de uma delação premiada. No mesmo período, atendeu a um pedido da PF para prorrogar uma prisão em, literalmente, 14 minutos.
  8. Auxiliar de acusação: Moro funcionava como auxiliar de acusação do Ministério Público Federal nas audiências. No caso triplex, ele permitiu, por exemplo, que delatores acusassem Lula de crimes não pertinentes à ação penal, violando o artigo 212 do Código de Processo Penal, que determina que “perguntas serão formuladas pelas partes diretamente à testemunha, não admitindo o juiz aquelas que puderem induzir a resposta, não tiverem relação com a causa (…)”. A Vaza Jato, depois, mostrou que a assessoria de Moro aos procuradores não parava por aí.
  9. Conduções coercitivas: Na esteira da espetacularização do processo penal, Moro era mestre em determinar conduções coercitiva acompanhadas pela imprensa. Foi o que fez contra Lula, em março de 2016. “Uma condução coercitiva somente se justificaria na hipótese de Lula não haver atendido uma intimação anterior, o que jamais ocorreu”, afirmou a defesa.
  10. Grampos em advogados: No dia da condução coercitiva de Lula, aliás, seu advogado, Roberto Teixeira, estava grampeado, o que para a defesa classificou como “grave atentado às garantias constitucionais da inviolabilidade das comunicações telefônicas e da ampla defesa e, ainda, clara afronta à inviolabilidade telefônica garantia pelo artigo 7º, inciso II, do Estatuto do Advogado (Lei nº 8.906/1994).”
    O grampo irregular, aliás, não ficou restrito a Teixeira. Um total de 25 advogados do escritório que defende Lula foi monitorado pela Lava Jato, que fez o encaminhamento da ação de forma “dissimulada”.
  11. Violações aos Direitos Humanos (ONU/Interpol): A conduta de Moro o fez ser denunciado por Lula na Comissão de Direitos Humanos da ONU e também marcou uma derrota no processo envolvendo o ex-advogado da Odebrecht, Rodrigo Tacla Duran. A defesa dele conseguiu retirar seu nome da lista da Interpol alegando que Moro era um juiz parcial.
  12. Violações ao Código de Ética da Magistratura: Ao aparecer na imprensa fazendo juízo de valor contra Lula e governos petistas, ao mesmo passo em que posava sorridente em fotos ao lado de tucanos, Moro feriu diversos dispositivos do Código de Ética da Magistratura. Entre eles:Art. 8: “O magistrado imparcial é aquele que evita todo o tipo de comportamento que possa refletir favoritismo, predisposição ou preconceito.”

    Art. 13: “O magistrado deve evitar comportamentos que impliquem a busca injustificada e desmesurada por reconhecimento social, mormente a autopromoção em publicação de qualquer natureza.”

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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Juiz admite prática de vazamentos da Lava Jato, mas omite seletividade e intenções políticas claras. Reportagem de Patrícia Faermann



Bonat disse que não foi Sergio Moro, mas a PF, que deixou de incluir alguns áudios nos autos do processo, confirmando a responsabilidade de Moro nos vazamentos






Jornal GGN A explicação dada pelo juiz federal Luiz Antonio Bonat, o sucessor de Sergio Moro na Lava Jato de Curitiba, para não incluir algumas conversas interceptadas do ex-presidente nos autos em sigilo foi do risco de tais mensagens pessoais serem vazadas. Entretanto, além de o próprio juiz Sérgio Moro ter admitido a irregularidade no grampo de Lula, foram vazadas à imprensa durante todo o período da Lava Jato mensagens pessoais, boa parte delas sem nenhuma relação jurídica ou política.
Não foram incluídas no processo que tramita em sigilo as conversas trocadas entre o ex-presidente Lula e Dilma Rousseff, então presidente, sobre a entrega a ele do termo de posse como ministro da Casa Civil. A conversa foi vazada pelo próprio ex-juiz Sergio Moro, em 2016, que foi confrontado no Supremo Tribunal Federal (STF) da ilegalidade, chegando o magistrado a admitir o erro.
Os próprios advogados de Lula também foram grampeados e feito o monitoramento ilegal das conversas, prática que foi questionada por organismos de direito e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A quebra do sigilo das mensagens foi feita diretamente pelo ex-magistrado Moro, em determinação no dia 16 de março de 2016, vazando as mensagens pessoais de Lula, Dilma, então sob foro privilegiado e dos advogados do ex-presidente.
A justificativa dada pelo então juiz era que os advogados poderiam estar envolvidos em supostas ilegalidades do ex-presidente Lula e que ele não havia identificado “com clareza a relação cliente/advogado a ser preservada entre o ex-presidente e a referida pessoa [Roberto Teixeira]”. Sobre os vazamentos de Dilma, Moro havia dito simplesmente que as captações foram ao acaso, fortuitas.
As mensagens de Dilma liberadas por Moro à época tampouco continham relação com a coleta de provas a que se destinava os grampos realizados no telefone do ex-presidente Lula. O caso específico da mensagem sobre a entrega do termo de posse de ministro a Lula, visivelmente vazado com motivações políticas e não jurídicas, recentemente foi confirmado por reportagem do The Intercept Brasil com a Folha de S.Paulo.
Segundo a matéria, do dia 8 de setembro, os procuradores da Lava Jato, incluindo Deltan Dallagnol, estavam cientes da ilegalidade de vazar o áudio da conversa entre o ex-presidente Lula e Dilma. O objetivo era justamente barrar a nomeação de Lula como ministro da Casa Civil e a força-tarefa de Curitiba sabia que era um ato ilegal. “A questão jurídica é filigrana dentro do contexto maior que é político”, havia admitido Dallagnol, na mensagem no Telegram obtida pelo The Intercept na chamada Vaza Jato.
E não somente o teor político foi vislumbrado no caso dos vazamentos das mensagens sigilosas como também de maneira pejorativa contra a ex-presidente Dilma e Lula. É o caso, por exemplo, da reportagem no blog de Fausto Macedo, no Estadão, intitulada “Em áudio, dona Marisa manda adeptos dos panelaços enfiarem panelas no c…”.
A reportagem do blog de Fausto Macedo tomou como base o trecho do grampo captado pela Polícia Federal e vazado por Sergio Moro em que mostra conversas pessoais de dona Marisa Letícia, falecida esposa de Lula, criticando a oposição. As conversas eram de Marisa com seus filhos.
Após a informação divulgada pelos próprios procuradores da força-tarefa de Curitiba, nas mensagens obtidas pelo The Intercept Brasil, foi que o ministro relator da Lava Jato no Supremo, Edson Fachin, solicitou explicações à primeira instância de Curitiba.
Não mais sob o comando de Moro, o substituto juiz federal Luiz Antonio Bonat afirmou que parte das conversas havia sido deixada de fora dos processos em sigilo porque justamente poderiam ocorrer vazamentos. Além de admitir a prática, Bonat disse que não foi Moro, mas a Polícia Federal quem grampeou as conversas, omitindo a abertura e quebra dos sigilos determinados pelo ex-magistrado naquele 16 de março de 2016.
Entretanto, o juiz disse que não foi Sergio Moro, mas a PF, que deixou de incluir alguns áudios nos autos do processo, o que acabou confirmando a responsabilidade de Moro nos vazamentos, e que os investigadores retiraram os trechos de conversas pessoais do ex-presidente por “respeito à intimidade” de Lula.
Justificou, por outro lado, que os grampos feitos em pessoas que detinham foro privilegiado, no caso de Dilma, ocorreram de forma “fortuita”, uma vez que a investigação era direcionada contra Lula.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Seletividade calculada de "informes", mídia golpista, Casa Grande hipócrita, a delação de Delcídio e a espetacularização para midiotas do jogo sujo de Moro

"A delação, ainda não confirmada a sua veracidade pelo suposto autor, veio a público no mesmo dia que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, tornou-se réu num processo criminal por corrupção e era o sujeito em todas as manchetes. Durante uma sequência de denúncias envolvendo a família Marinho, proprietária das Organizações Globo, em práticas semelhantes as dos acusados na Lava a Jato. Poucos dias após a saída do Ministério da Justiça e também há apenas nove dias para as novas manifestações pelo impedimento da presidente. "

O vazamento de Delcídio e os titereiros, por Jorge Rebolla



Por Jorge Rebolla

Existem provas além das palavras? Tudo pode ser comprovado numa ação penal ou foi feito sob encomenda para um julgamento político? É vingança do ainda senador petista Delcídio Amaral? É tudo mentira? Para mim nada disto importa. O que me interessa é o momento e o instrumento.
A delação, ainda não confirmada a sua veracidade pelo suposto autor, veio a público no mesmo dia que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, tornou-se réu num processo criminal por corrupção e era o sujeito em todas as manchetes. Durante uma sequência de denúncias envolvendo a família Marinho, proprietária das Organizações Globo, em práticas semelhantes as dos acusados na Lava a Jato. Poucos dias após a saída do Ministério da Justiça e também há apenas nove dias para as novas manifestações pelo impedimento da presidente. 
Nunca o deputado Eduardo Cunha esteve tão enfraquecido. O senhor do processo contra a presidente perdeu grande parte do seu poder pessoal. Muitos deputados do baixo clero deixarão de apoiá-lo por temerem o dano à própria imagem, causado pela associação com um acusado em processo penal de grande repercussão. Com este fato novo, embora esperado, a tendência seria o esfriamento do andamento do pedido de cassação contra Dilma Rousseff no Congresso Nacional.
Embora não tenha tido nenhuma cobertura na imprensa industrial, relatos divulgados pelos chamados blogs sujos estão lentamente se espalhando pela rede. Neles práticas comuns nos últimos escândalos de corrupção parecem fazer parte do dia a dia da poderosa família Marinho, dona da Globo. Empresas de fachada, laranjas e operadores em paraísos fiscais para a aquisição de bens de alto valor, como helicópteros e mansões.
O movimento pelo impeachment da presidente devido ao desgaste dificilmente levaria mais manifestantes às ruas, no próximo dia treze, que no último ocorrido durante o mês de dezembro passado. Após mais de um ano os grupos que comandam os protestos arrebanhariam apenas os mais empedernidos antipetistas.
A  proximidade pessoal entre a autora da matéria e o ex-ministro Cardozo demonstra que existe não só uma estratégia organizada para evitar que a temperatura da crise política arrefeça, mas que os seus autores acreditam agora mais do que nunca no próprio sucesso. A certeza é tão grande que decidiram até fazer graça. A jornalista, com a sua reportagem, enlameia quem alguns dizem ser o seu amado, na semana que o seu republicanismo foi elogiado pela oposição e pela imprensa. 
As acusações que constam na suposta delação do senador Delcídio Amaral contra José Eduardo Cardozo, Lula e a Presidente Dilma, possibilitará à oposição exigir celeridade no andamento do processo de impedimento; o novo Ministro da Justiça nada poderá fazer para impedir os crimes de vazamento seletivos de inquéritos e processos sob sigilo para não ser acusado de condutas delituosas; abafa qualquer outro fato que possa ofuscar um pouco os desdobramentos da Lava a Jato; permite a abertura de novos inquéritos contra o ex-presidente e deverá proporcionar o aumento de participantes nas passeatas, devido à possibilidade maior de impeachment.
Este último vazamento deixa claro que uma associação que pretende decidir o nosso futuro está ativa e controla áreas do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal. Manipulam, com o auxílio da mídia, os seus títeres com as informações que lhes interessam ver divulgadas. Estes por sua vez entram num estado de excitação que tolhe a capacidade de analisar a situação com as suas implicações. Nem tudo que o PT fez foi ruim para o país, mas mesmo as coisas positivas irão ser descartadas na purgação que se seguirá ao golpe. Enfraquecerá qualquer projeto para o Brasil que esteja em desacordo com as imposições dos órgãos transnacionais, como o FMI e o Banco Mundial, e dos grandes grupos financeiros que controlam as economias dos EUA e da Europa.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Existe limite para a atuação parcial e aética da "grande" mídia?

 A crise política, um Congresso Nacional predominantemente conservador e orientado por interesses fisiológicos, combinados com a estratégia seletiva da “Mani Pulite” utilizada pela da Operação Lava Jato e o comprometimento descarado dos oligopólios de mídia, constituem um conjunto de circunstâncias inédito que assusta e amedronta. Se torna claro o objetivo de construir uma opinião pública favorável a alguns políticos e partidos e desfavorável a outros políticos e partidos.


Existe limite para a atuação da mídia?


Artigo de Venício A. de Lima

Tornou-se clássica a intervenção corajosa de Miguel de Unamuno, então reitor da Universidade de Salamanca, durante uma solenidade com a presença de importantes figuras do fascismo, na Espanha de 1936. Diante de oradores e de plateia hostil e predominante fascista, Unamuno tomou a palavra e iniciou sua fala em defesa da razão e da liberdade com a seguinte frase: “Todos me conhecem. Sabeis que sou incapaz de me calar. Há momentos em que permanecer calado é mentir. O silêncio pode ser interpretado como aquiescência”.

Unamuno foi imediatamente expulso da universidade e veio a falecer, menos de três meses depois, cumprindo prisão domiciliar. A Espanha, por sua vez, mergulhou numa Guerra Civil que passou para a História como um dos eventos mais traumáticos anteriores à II Grande Guerra.

Não se trata aqui, por óbvio, de qualquer comparação com o grande filósofo cristão e, claro, não chegamos (ainda?) à beira de uma Guerra Civil. Mas, certamente, o clima de intolerância e ódio que estamos atavessando nos permite evocar o exemplo espanhol.

Conluio explícito

Desde o início do processso eleitoral de 2014 e, sobretudo, depois que foram proclamados os resultados das últimas eleições presidenciais, instalou-se no Brasil uma crise política cujo ritmo e pauta pública são seletivamente determinados por um conluio explícito entre segmentos do Ministério Público, da Polícia Federal, do Judiciário e oligopólios de mídia que, em torno da justa causa do combate à corrupção, se uniram no objetivo não declarado — mas evidente — de destruir qualquer vestígio de ética e moralidade pública que possa existir no Partido dos Trabalhadores, seus lideres e militantes.

Trata-se de questão delicada, por isso mesmo difícil de ser enfrentada. Não se insinua aqui que não deva haver, como aliás tem havido, diga-se, sem qualquer interferência do Poder Executivo, combate diuturno à corrupção. Não. Trata-se de denunciar a estratégia política seletiva (e até mesmo, partidária) de fazer parecer que a corrupção no Brasil é prática que tem suas origens nos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores e que, ele, e somente ele, enfrenta acusações de corrupção.

Os vazamentos seletivos de informação sigilosa

Dito isso, não há qualquer segredo em relação a estratégia de vazamentos seletivos de informações sigilosas para imprensa executada pela Operação Lava Jato. Vale reproduzir aqui trecho de artigo sobre a Operação Mani Pulite, na Itália, do juiz Sergio Fernando Moro, publicado ainda em 2004.

Moro cita texto de Mark Gilbert [Mark Gilbert. The italian revolution: the end of politics, Italian style? Colorado: Westview Press, 1995. P. 138-140] sobre a estratégia na Itália assim:
“Os responsáveis pela operação mani pulite ainda fizeram largo uso da imprensa. Com efeito: Para o desgosto dos líderes do PSI, que, por certo, nunca pararam de manipular a imprensa, a investigação da “mani pulite” vazava como uma peneira. Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no “L’Expresso”, no “La Republica” e outros jornais e revistas simpatizantes. Apesar de não existir nenhuma sugestão de que algum dos procuradores mais envolvidos com a investigação teria deliberadamente alimentado a imprensa com informações, os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva. ” (...)
Em seguida Moro comenta:
“A publicidade conferida às investigações teve o efeito salutar de alertar os investigados em potencial sobre o aumento da massa de informações nas mãos dos magistrados, favorecendo novas confissões e colaborações. Mais importante: garantiu o apoio da opinião pública às ações judiciais, impedindo que as figuras públicas investigadas obstruíssem o trabalho dos magistrados, o que, como visto, foi de fato tentado.

Há sempre o risco de lesão indevida à honra do investigado ou acusado. Cabe aqui, porém, o cuidado na desvelação (sic) de fatos relativos à investigação, e não a proibição abstrata de divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que não podem ser alcançados por outros meios.

As prisões, confissões e a publicidade conferida às informações obtidas geraram um círculo virtuoso, consistindo na única explicação possível para a magnitude dos resultados obtidos pela operação mani pulite. ”
Os vazamentos e o seu timing, no Brasil, parecem — e muito provavelmente são — cuidadosamente planejados para provocar reações no Congresso Nacional, mas, sobretudo, para “manter o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva”. Por outro lado, tamanha é a seletividade das informações sigilosas que são vazadas e tamanha é a incapacidade do Ministério da Justiça e da Polícia Federal em identificar a origem de tais vazamentos, que se torna claro o objetivo não só de “manter o interesse”, mas de construir uma opinião pública favorável a alguns políticos e partidos e desfavorável a outros políticos e partidos.

A Carta Aberta dos advogados

Apesar da tentativa de membros da Justiça e, sobretudo, dos oligopólios de mídia de desacreditá-la e de reduzir sua significação à mera estratégia de defesa de um dos réus, a Carta Aberta assinada por 104 advogados e divulgada no dia 15 de janeiro adverte:

No plano do desrespeito a direitos e garantias fundamentais dos acusados, a Lava Jato já ocupa um lugar de destaque na história do país. (...) O desrespeito à presunção de inocência, ao direito de defesa, à garantia da imparcialidade da jurisdição e ao princípio do juiz natural, o desvirtuamento do uso da prisão provisória, o vazamento seletivo de documentos e informações sigilosas, a sonegação de documentos às defesas dos acusados, a execração pública dos réus e o desrespeito às prerrogativas da advocacia, dentre outros graves vícios, estão se consolidando como marca da Lava Jato, com consequências nefastas para o presente e o futuro da justiça criminal brasileira [negrito meu].

Referindo-se a recente matéria de capa da revista Veja, a Carta Aberta dos advogados afirma:

Trata-se, sem dúvida, de mais uma manifestação da estratégia de uso irresponsável e inconsequente da mídia, não para informar, como deveria ser, mas para prejudicar o direito de defesa, criando uma imagem desfavorável dos acusados em prejuízo da presunção da inocência e da imparcialidade que haveria de imperar em seus julgamentos — o que tem marcado, desde o começo das investigações, o comportamento perverso e desvirtuado estabelecido entre os órgãos de persecução e alguns setores da imprensa.

Ainda que parcela significativa da população não se dê conta disso, esta estratégia de massacre midiático passou a fazer parte de um verdadeiro plano de comunicação, desenvolvido em conjunto e em paralelo às acusações formais, e que tem por espúrios objetivos incutir na coletividade a crença de que os acusados são culpados (mesmo antes deles serem julgados) e pressionar instâncias do Poder Judiciário a manter injustas e desnecessárias medidas restritivas de direitos e prisões provisórias, engrenagem fundamental do programa de coerção estatal à celebração de acordos de delação premiada [negrito meu].

O que está em jogo

Não é novidade para ninguém o comprometimento histórico dos oligopólios de mídia brasileiros com os golpes de estado e os regimes ditatoriais. O que talvez constitua novidade é a aparente ausência de limites para a ação destes oligopólios em conluio com segmentos do Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário.

Diante da ridícula circulação/dia que os chamados jornalões atingiram no nosso país [Folha de São Paulo, 175.441; O Globo, 183.404; Estado de São Paulo, 149.241; dados para dezembro de 2014] parece estar em andamento uma estratégia de sobrevivência empresarial cuja opção é seduzir, ainda mais, nichos da direita do espectro político, sobretudo a classe média urbana. E aposta-se tudo para que o desfecho da crise — seja ele qual for — entregue o comando do país a forças e interesses aliados, vale dizer, aos partidos que hoje fazem oposição ao Planalto. Os sinais nesse sentido são evidentes.

A crise política e econômica, um Congresso Nacional predominantemente conservador e orientado por interesses fisiológicos, combinados com a estratégia seletiva da “Mani Pulite” utilizada pela da Operação Lava Jato e o comprometimento descarado dos oligopólios de mídia, constituem um conjunto de circunstâncias inédito que assusta e amedronta.

Há um limite para tudo isso? Não seria hora de setores democráticos em posição institucional de decisão, aliados a movimentos sociais populares se darem conta de que os destinos da democracia brasileira estão sendo conduzidos pela lógica de um conluio entre segmentos do Ministério Público, da Polícia Federal, do Judiciário e os oligopólios de mídia?

Na reabertura dos trabalhos dos poderes Legislativo e Judiciário reside também alguma esperança de que a razão e o bom senso afinal prevaleçam. Ou, talvez, já seja tarde demais.

A ver.

Venício A. de Lima

No Carta Maior