Um dos mais influentes e agressivos representantes da mídia elitista nacional já vai mais do que tarde... Embora NÃO TENHA CRIADO a atualmente SUJÍSSIMA REVISTA VEJA, a transformou no esterco direitista que é hoje... Mantinha ótimas relações com as outras famílias magnatas detentoras da mídia nacional, com especial preferência pelos Marinhos da Rede Globo. Fazia questão de impor, na redação da sujíssima, articulistas como Diogo Maynard (antes) e (agora) este outro ilustre representante da "aristocracia":
segunda-feira, 27 de maio de 2013
terça-feira, 21 de maio de 2013
A Direita Golpista e o Boato do Bolsa Família
Altamiro Borges escreveu em http://www.viomundo.com.br/denuncias/altamiro-borges-bolsa-familia-e-os-sabotadores.html:
O boato sobre a suspensão do programa Bolsa Família é criminoso e poderia até ter gerado confrontos mais violentos em várias cidades do país. Neste sentido, a apuracão da Polícia Federal e de outros órgãos sobre a origem desta sabotagem deve ser rigorosa e rápida. Não é segredo que há muita gente no país contra os programas de transferência de renda do governo federal. Na mídia venal, por exemplo, são comuns os comentários elitistas e preconceituosos contra o Bolsa Família — apelidado de bolsa-esmola. A direita nativa encara este programa como a principal causa da perda da sua representatividade partidária.
domingo, 12 de maio de 2013
As Consequências Antidemocráticas da Concentração de Riquezas
Por
Assis Ribeiro
Da Carta
Maior
Enviado por luisnassif, dom, 12/05/2013 - 12:10
Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-crescimento-da-desigualdade-e-a-concentracao-de-rendas
Como é possível que a sociedade seja mais rica e que, em
contrapartida, os filhos vão viver pior que os seus pais? A resposta a esta
pergunta é que o crescimento econômico se distribui muito desigualmente,
concentrando-se nos rendimentos superiores, como resultado das políticas
públicas que se aplicaram na maioria dos países do Atlântico Norte.
Vicenç
Navarro, Espanha
Uma das características da situação dos dois lados do Atlântico
Norte foi o enorme crescimento das desigualdades, com uma grande concentração
dos rendimentos e da propriedade, unida à grande deterioração das instituições
democráticas, causada por esta concentração. As instituições políticas dos
países estão muito influenciadas por poderes financeiros e econômicos e pelos
setores com maior riqueza, que induzem as intervenções públicas a favorecer os
interesses destes poderes e setores à custa dos da maioria da população.
Isto
está a criar uma perda de legitimidade e de apoio popular às instituições
chamadas representativas, junto com a diluição da confiança que a cidadania
tinha no poder do Estado (dirigido pelas autoridades políticas) para garantir
um progresso do desenvolvimento económico do país, de tal maneira que as
gerações novas vivessem melhor que as anteriores. Esta esperança desapareceu.
Na realidade, grandes setores da população, que nalguns países chegam à
maioria, são conscientes de que “os filhos não viverão melhor do que os seus
pais”. Este sentimento ficou muito bem refletido nas declarações do candidato,
mais tarde presidente de França, François Hollande, expressadas durante a campanha
eleitoral naquele país. “Até há pouco – disse Hollande – todos tínhamos a
convicção de que os nossos filhos teriam melhores vidas que nós. Já não é
assim. Esta convicção, que respondia a uma realidade, está a desaparecer”. Esta
situação é paradoxal, pois a riqueza dos países (incluindo a França) continua a
crescer, na medida em que cresce a sua economia, realidade que só se
interrompeu recentemente com a Grande Recessão. Mas esta convicção (e realidade
que a sustenta) já existia antes da recessão, ainda que se tenha acentuado mais
com a crise atual.
Como
é possível que a sociedade seja mais rica e que, em contrapartida, os filhos
vão viver pior que os seus pais?
A
resposta a esta pergunta é que o crescimento econômico se distribui muito
desigualmente, concentrando-se nos rendimentos superiores, como resultado das
políticas públicas que se aplicaram na maioria dos países do Atlântico Norte.
Estas políticas foram iniciadas pelo presidente Reagan nos EUA e pela Sra.
Thatcher na Grã-Bretanha, na década de oitenta do passado século.
No seu artigo “The Rich get Richer. Neo-liberalism and
Soaring Inequality in the United States” na revista de economia norte-americana
Challenge (março-abril de 2013), o autor, Tim Koechlin, detalha a grande
concentração dos rendimentos e da riqueza nos EUA como consequência da
aplicação destas políticas. Em 1979, os 1% da população com maiores rendimentos
(os super ricos) ganhavam 9% de todo o rendimento dos Estados Unidos. Em 2007,
esta percentagem aumentou para 24%, a mais elevada registada desde 1920, quando
se iniciou a Grande Depressão nos EUA.
De
onde procede esta concentração dos rendimentos e da riqueza? A resposta reside
na má distribuição da riqueza criada pelo mundo do trabalho. Os dados
mostram-no claramente. A produtividade do trabalhador durante o período
1973-2008 praticamente duplicou. Isto é, um trabalhador produzia por hora quase
mais duas vezes em 2008 do que o que produzia em 1973. O seu salário, no
entanto, cresceu só 10% durante o mesmo período. Mas os diretores das grandes
empresas viram crescer os seus rendimentos desmesuradamente. Enquanto o CEO
(Chief Executive Officer) de uma grande empresa recebia em 1973 22 vezes mais
que o trabalhador médio da sua empresa, em 2008 esta relação subiu para 231
vezes (segundo Lawrence Mishel, The State
of Working America. A report of the Economic Policy Institute. 2012, table
4.33).
Uma
situação ainda mais acentuada ocorre quanto à distribuição dos elementos da
propriedade que geram renda (tais como terras, ações, bónus, etc.). Entre 1983
e 2010, os 5% da população com maior propriedade viram-na crescer 83%, enquanto
os 80% de toda a população (a grande maioria da cidadania) viam descer a sua
propriedade em 3,2%. Em consequência, os 1% da população com maior riqueza, que
tinham 20% de toda a riqueza em 1971, passaram a ter 35% em 2007. Os 10% dos
super ricos em 2007 tinham 73% de toda a riqueza, enquanto os 40% das famílias
(as classes populares) tinham só 4,2% de toda a propriedade. A concentração da
riqueza atingia níveis ainda mais exuberantes em alguns tipos de propriedade.
Assim, os 10% da população tinham 98,5% de todos os valores financeiros (ações
e outros títulos de crédito), enquanto os 90% restantes tinham só 1,5%.
A
concentração de poder económico e financeiro enfraquece enormemente a
democracia, até o ponto de eliminá-la em muitos países.
Esta
enorme concentração dos rendimentos e da riqueza dificulta e impede o
desenvolvimento democrático de um país, pois os sectores ricos e super ricos da
população exercem uma enorme influência, poderia dizer-se controlo, sobre os
aparelhos dos seus Estados e os seus ramos executivos, legislativas e
judiciais. Mais, estes grupos e setores desenvolvem as suas próprias redes,
associações e conferências (nas quais são incorporados dirigentes políticos de
todas as sensibilidades políticas), promovendo as suas ideologias, que
coesionam e defendem os seus interesses, apresentando-os como os únicos
aceitáveis ou respeitáveis, e as suas políticas (que favorecem os seus
interesses) como as únicas possíveis.
As
alianças destas elites desempenham um papel chave nas realidades políticas. O
casamento entre os super ricos e ricos, por um lado, e os políticos
conservadores e liberais (e de uma maneira crescente algumas personagens da
social-democracia), pelo outro, é uma constante nos sistemas políticos, fonte
de contínua corrupção. Há múltiplos exemplos disso.
A
influência da família que governa um sistema quase feudal, o Qatar, nas
instituições políticas europeias não é menor. O presidente Nicolas Sarkozy deu
amplas vantagens fiscais aos interesses dessa família, que lhe subvencionou as
campanhas eleitorais e mais tarde as suas atividades pós-presidenciais. Tony
Blair é um dos assessores melhor pagos do J.P. Morgan (e é frequentemente convidado
por fundações e grupos de reflexão para dar lições sobre o futuro da
social-democracia). E estou a escrever estas linhas no mesmo dia em que o Sr.
Giuliano Amato foi proposto como Presidente da Itália pelo Partido Democrático
da Esquerda italiana, sendo esse político um assessor bem pago do Deutsche
Bank.
Em
Espanha, a lista de Presidentes, Ministros e autoridades políticas dos partidos
maioritários em grandes empresas e nas suas CEO (Endesa, Telefónica, Repsol,
etc.) é enorme. Não é casualidade que o preço da eletricidade e das chamadas
telefónicas, bem como o do petróleo, sejam dos mais caros da UE. Esta
cumplicidade entre os grupos financeiros e económicos e a classe política
dominante é a característica destes tempos. A imunidade da banca, com os seus
conhecidos paraísos fiscais, baseia-se precisamente nesta cumplicidade.
Não
é preciso dizer que há muitos políticos que não fazem parte desta engrenagem de
cumplicidades. Mas as elites dirigentes estão sim plenamente entrelaçadas com
interesses fáticos que configuram em grande maneira as suas políticas públicas.
Daí que a grande maioria destes super-ricos e ricos não pague impostos, ou
pague muito menos em termos proporcionais, que o cidadão normal e corrente,
coisa que é feita até com a lei na sua mão, sem precisar de comportamentos
ilegais (sem excluir, no entanto, estas práticas, que estão também
generalizadas).
Este
sistema está em profunda crise. O casamento do poder financeiro-econômico com o
poder político é o eixo do descrédito das instituições chamadas democráticas,
que tem a sua origem (causa e consequência) nas enormes desigualdades.
A
excessiva proximidade entre a classe política dominante e as classes sociais
dominantes (as elites financeiras e empresariais e os sectores afins de
rendimentos superiores) mostra-se com toda a clareza na distância existente
entre as elites dirigentes e as suas políticas públicas, por um lado, e as
classes populares, que constituem a maioria da população, pelo outro. Estas
últimas desejam políticas diferentes e opostas às que as primeiras estão a
promover e implementar. Existem múltiplos exemplos disso.
A
grande maioria das populações do Atlântico Norte consideram que 1) os
rendimentos do capital deveriam ser taxados na mesma proporção que os
rendimentos do trabalho, sem que isso tenha sido aceito pelos governos; 2) a
fiscalidade deveria ser progressiva, de maneira que os super ricos e ricos
pagassem (na realidade, e não só nominalmente) em impostos tantas vezes mais do
que o cidadão normal e corrente paga quanto seja a diferença de rendimentos e
propriedade entre os super ricos e ricos, e o cidadão normal e corrente; 3)
dever-se-iam eliminar os paraísos fiscais; 4) dever-se-ia estabelecer um máximo
de riqueza e de nível de rendimentos, como mecanismo de redução das desigualdades;
5) dever-se-iam reduzir as desigualdades que (os 78% de cidadãos como média da
UE) consideram excessivas; 6) dever-se-ia eliminar a influência do dinheiro nas
campanhas políticas e na solvência dos partidos políticos; 7) dever-se-ia
romper o casamento entre instituições financeiras e empresariais e o mundo
político; 8 ) um político não deveria poder trabalhar no setor que regulava ou
vigiava na administração pública, nos primeiros cinco anos após deixar o cargo;
9) o Estado deveria intervir no setor financeiro para garantir a
disponibilidade do crédito a famílias, indivíduos e médias e pequenas empresas;
10) deveria haver um salário mínimo que permita uma vida decente e que aumente
de acordo com o aumento dos preços; 11) dever-se-iam garantir os serviços
públicos do Estado de Bem-estar, evitando a sua privatização; e assim um longo
etcétera.
Nenhuma
destas políticas está a ser levada a cabo nestes países. E, a nível
macroeconómico, a maioria da cidadania deseja o fim das políticas de austeridade
e quer políticas de expansão dirigidas a criar pleno emprego. O facto de que
não se realize cada um destes pontos deve-se à excessiva influência que os
grupos que concentram os rendimentos e a riqueza têm sobre o Estado. E aqui
está o problema da democracia. Frente a esta realidade, limitar o debate à
reforma política sobre se devem ou não haver listas abertas, parece-me muito,
mas muito insuficiente.
*Artigo
publicado por Vicenç Navarro na coluna “Domínio Público” do diário PÚBLICO
(Espanha), 9 de maio de 2013. Tradução de Luis Leiria
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Pensamento de Che Guevara
Para uma reflexão em Época de sórdida alienação Rede Globalizada. Veja que as elites põe o circo midiático a desfigurar a realidade de acordo com seus interesses, como o fez em 1964...
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Leonardo Boff: "responsabilidade coletiva face ao futuro da espécie humana"
Numa votação unânime de 22 de abril de 2009 a ONU acolheu a idéia, durante muito tempo proposta pelas nações indígenas e sempre relegada, de que a Terra é Mãe. Por isso a ela se deve o mesmo respeito, a mesma veneração e o mesmo cuidado que devotamos às nossas mães. A partir de agora, todo dia 22 de abril não será apenas o dia da Terra mas o dia da Mãe Terra.
Esse reconhecimento comporta consequências importantes. A mais imediata delas é que a Terra viva é titular de direitos. Mas não só ela, mas também todos os seres orgânicos e inorgânicos que a compõem; são, cada um a seu modo, também portadores de direitos. Vale dizer, cada ser possui valor intrínseco, como enfatiza a Carta da Terra, independentemente do uso ou não que fizermos dele. Ele tem direito de existir e de continuar a existir nesse planeta e de não ser maltratado nem eliminado.
Essa aceitação do conceito da Mãe Terra vem ao encontro daquilo que já nos anos 20 do século passado o geoquímico russo Wladimir Vernadsky (1983-1945), criador do conceito de biosfera (o nome foi cunhado do geólogo austríaco Eduard Suess (1831-1914) chamava de ecologia globalno sentido de ecologia do globo terrestre como um todo. Conhecemos a ecologia ambiental, a politico-social e a mental. Faltava uma ecologia global da Terra tomada como uma complexa unidade total. Na esteira do geoquímico russo, recentemente James Lovelock, com dados empíricos novos, apresentou a hipótese Gaia, hoje já aceita como teoria científica: a Terra efetivamente comparece como um superorganismo vivo que se autoregula, tese apoiada pela teoria dos sistemas, da cibernética e pelos biólogos chilenos Maturana e Varela e pelo físico quântico Fritjof Capra.
Vernadsky entendia a biosfera como aquela camada finíssima que cerca a Terra, uma espécie de sutil tecido indivisível que capta as irradiações do cosmos e da própria Terra e as transforma em energia terrestre altamente ativa. A vida se realiza aqui.
Nesse todo se encontra a multiplicidade dos seres em simbiose entre si, sempre interdependentes de forma que todos se autoajudam para existir, persistir e coevoluir. A espécie humana é parte deste todo terrestre, aquela porção da Terra que pensa, ama, intervem e constrói civilizações.
A espécie humana possui uma singularidade no conjunto dos seres: cabe-lhe a responsabilidade ética de cuidar, manter a condições que garantam a sustentabilidade do todo.
Como descrevemos no artigo anterior vivemos gravíssimo risco de destruir a espécie humana e todo o projeto planetário. Fundamos, como afirmam alguns cientistas, o antropoceno: uma nova era geológica com altissimo poder de destruição, fruto dos últimos séculos que significaram um transtorno perverso do equilíbrio do sistema-Terra. Como enfrentar esta nova situação nunca ocorrida antes de forma globalizada e profunda?
Temos pessoalmente trabalhado os paradigmas da sustentabilidade e do cuidado como relação amigável e cooperativa para com a natureza. Queremos agora, brevemente, apresentar um complemento necessário: a ética da responsabilidade do filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993) com o seu conhecido Princípio Responsabilidade, seguido pelo Princípio Vida.
Jonas parte da triste verificação de que o projeto da tecno-ciência tornou a natureza extremamente vulnerável a ponto de não ser impossível o desaparecimento a espécie humana. Dai emerge a responsabilidade coletiva, formulada nesse imperativo: aja de tal maneira que os efeitos de tuas ações não destruam a possibilidade futura da vida.
Jonas trabalha ainda com outra categoria que deve ser bem entendida para não provocar uma paralização: o temor e o medo (Furcht). O medo aqui possui um significado elementar, um medo que nos leva instintivamente a preservar a vida e toda a espécie. Há efetivamente o temor de que se deslanche um processo irrefreável de destruição em massa, com os meios diante dos quais não tínhamos temor em construir e que agora, temos fundado temor de que nos podem realmente destruir a todos. Dai nasce a responsabilidade face às novas tecnociências como a biotecnologia e a nanotecnologia, cuja capacidade de destruição é inconcebível. Temos que realmente nos responsabilizar pelo futuro da espécie humana por temor e muito mais por amor à nossa própria vida.
domingo, 5 de maio de 2013
Leonardo Boff escreve sobre a teatralização do atentado de Boston
Teatralização do atentado de Boston: meio de fazer esquecer o eventual fim da espécie
publicado em 03/05/2013
Precisaria ser inumano e sem sentido de solidariedade e de compaixão não se indignar e não condenar o atentado perpetrado em Boston com dois mortos e centenas de feridos. Mas isso não nos dispensa de sermos críticos. Houve uma teatralização mundial do atentado com objetivos ocultos que devem ser desvendados. Atentados ocorrem muitos no mundo, especialmente na Síria, no Afeganistão e no Iraque na presença das tropas nortemaericanas e dos aliados. Sempre com muitos mortos e centenas de feridos. Quase ninguém dá importância ao fato, já naturalizado e banalizado. Muitos pensam: trata-se de gente terrorista ou próxima a eles, incômodos à ocupação ocidental. Que se matem. Convenhamos: são seres humanos como aqueles de Boston. Mas as medidas de avaliação são diferentes. Sabemos o porquê.
Precisamos estar atentos ao significado político-ideológico da espetacularização do atentado de Boston. É uma forma de desviar a atenção mundial de questões muito mais fundamentais: a primeira é o estado de terror que o Estado norteamericano está impondo internamente a seus cidadãos e ao mundo inteiro. Com isso atraiçoa o que de melhor tinha: a defesa dos direitos fundamentais. Não fechou Guantánamo nem ratificou instrumentos internacionais importantes como o Tratado de Roma da Corte Penal Internacional nem a Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José de Costa Rica). Não quer que as violações e atentados que seus agentes perpetram pelo mundo afora para garantir o império sejam levados àqueles tribunais.
Mas pela ininterrupta ocupação das midias mundiais (a nossa Globo estava em peso por lá) a propósito do atentado, os “senhores do mundo” querem desviar a atenção da segunda questão, esta sim, de consequências funestas e que pode afetar a todos: a ameaça do fim da espécie humana. Primeiro, estes “senhores” devastaram durante séculos o planeta a ponto de ele não poder, sozinho, recuperar sua sustentabilidade. Pelos eventos extremos, dá mostras de que os limites foram ultrapassados. Em seguida, no afã de acumular ilimitadamente e dominar o processo de planetização da humanidade, montaram uma máquina de morte que ameaça a vida na Terra e pode trazer o armagedon para a espécie humana.
Notáveis cientistas do mundo e os mais sérios teóricos da ecologia chamaram atenção para esta ameaça real. Apenas não sabemos exatamente quando e como vai ocorrer. Mas mantido o curso atual das coisas, ela será fatal. Michel Serres, renomado filósofo francês da ecologia já o disse: depois de Hiroshima, Nagasaki e agora de Fukushima, a humanidade descobriu um novo tipo de morte: a morte da espécie. Sim, como Gorbachev não se cansa de repetir: podemos destruir toda a espécie humana, sem restar nenhum testemunho, com as armas químicas, biológicas e nucleares que já construimos e estocamos. Segurança? Nunca é absoluta. Lembremos Three Islands, Chernobyl e Fukushima.
Então: a nossa espécie realmente se mostrou o Satã da Terra: aprendeu a ser homicida (mata seus semelhantes), etnocida (quantos povos originários não foram liquidados?), ecocida (devastou ecossistemas inteiros) e agora pode ser especiecida (leva a própria espécie ao suicídio).
O sistema imperial vive buscando bodes expiatórios (antes eram os comunistas, depois os subversivos, agora os terroristas, os inimigrantes..quem mais?) sobre os quais recai o desejo mimético e coletivo de vingança. E assim se autoexime de culpas e de erros. Mas principalmente faz de tudo para que esta ameaça letal sobre a espécie humana não seja lembrada e se trasnforme numa consciência mundial perigosa.
Ninguém aceita passivamente um veredito de morte. Vai lutar para garantir a vida e o futuro comum. Este deveria ser o objetivo de uma governança global que exige a renúncia de uma vontade imperial que pensa só em sua perpetuação em vez de pensar no Bem Comum da Mãe Terra e da Humanidade. Por mais que se manipule o atentado de Boston, por quanto tempo, os poderosos ocultarão a situação dramática que pesa sobre nós? Oxalá acordemos todos, simplesmente porque não queremos morrer, mas viver e irradiar.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
No dia Primeiro de Maio, o trabalho que deveria dignificar o homem se tornou em uma escravidão degradante
O trabalho, fator de dignificação do ser humano, é transformado cada vez mais em instrumento de submissão, alienação, exclusão e escravização do homem pelo capitalismo.... Não é à toa que no mundo inteiro, onde o Primeiro de Maio é comemorado como o Dia do Trabalho, não o seja nos Estados Unidos...
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Mauro Santayana: "A crucificação de Cristo, o Suicídio e a rebelião em Atenas"
A CRUCIFICAÇÃO DE CRISTO, O SUICÍDIO E A REBELIÃO EM ATENAS
por Mauro Santayana, Jornal do Brasil
O homem que prenderam, interrogaram, torturaram, humilharam, escarneceram e crucificaram, na Palestina de há quase dois mil anos, foi, conforme os Evangelhos, um ativista revolucionário. Ele contestava a ordem dominante, ao anunciar a sua substituição pelo reino de Deus. O reino de Deus, em sua pregação, era o reino do amor, da solidariedade, da igualdade. Mas não hesitou em chicotear os mercadores do templo, que antecipavam, com seus lucros à sombra de Deus, o que iriam fazer, bem mais tarde, papas como Rodrigo Bórgia, Giullio della Rovere, Giovanni Médici, e cardeais como os dirigentes do Banco Ambrosiano, em tempos bem recentes. O papa reinante hoje, tão indulgente com os gravíssimos pecados de muitos de sua grei, decidiu, ex-catedra, que as mulheres não podem exercer o sacerdócio.
Ao longo da História, duas têm sido as imagens daquele rapaz de Nazaré. Uma é a do filho único de Deus, havido na concepção de uma jovem virgem, escolhida pelo Criador. Outra, a do homem comum, nascido como todos os outros seres humanos, em circunstâncias de tempo e lugar que o fizeram um pregador, continuador da missão de seu primo, João Batista, decapitado porque ameaçava o poder de Herodes Antipas. Tanto João, quanto Jesus, foram, como seriam, em qualquer tempo e lugar, inimigos da ordem que privilegiava os poderosos. Por isso – e não por outra razão – foram assassinados, decapitado um, crucificado o outro.
Um e outro tiveram dúvidas, segundo os evangelistas. João Batista enviou emissário a Jesus, perguntando-lhe se era mesmo o messias que esperava, e Cristo, na agonia, indagou a Deus por que o abandonava. Os dois momentos revelam a fragilidade dos homens que foram, e é exatamente nessa debilidade que encontramos a presença de Deus: os homens sentem a presença do Absoluto quando as circunstâncias o negam. João Batista sentia-se movido pela fé, ao anunciar a vinda do Salvador.
Era um ativista, pregando a revolução que viria, chefiada por outro, pelo novo e mais poderoso dos profetas. Ao saber que Cristo pregava e realizava milagres, supôs que ele poderia ser aquele que esperava, mas duvidou. Nesse momento, moveu-se pela esperança de que o jovem nazareno fosse o Enviado – o que confirmaria a sua fé. Cristo, na hora da morte, talvez levasse a sua dúvida mais adiante, e se perguntasse se a sua morte, que previra e esperara, serviria realmente à libertação dos homens – desde que salvar é libertar. O Reino de Deus, sendo o reino da justiça, é a libertação. Daí a associação entre essa felicidade e a vida eterna, presente em quase todas as religiões. Na pregação de Cristo, a libertação começa na Terra, na confraternização entre todos os homens. Daí o conselho aos que o quisessem seguir, e ainda válido – repartissem com os pobres os seus bens, como fizeram, em seguida, os seus apóstolos, ao criar a Igreja do Caminho. Se acreditamos na vida eterna, temos que admitir que a vida na Terra é uma parcela da Eternidade, que deve ser habitada com a consciência do Todo. Assim, a vida eterna começa na precariedade da carne.
Quarta-feira passada – quando em São João del Rei, em Minas, a Igreja celebrou o Ofício das Trevas no rito antigo – um grego, Dimitris Christoulas, chegou pela manhã à Praça Syntagma, diante do Parlamento Grego, buscou a sombra de um cipreste secular, levou o revólver à têmpora, e disparou. Em seu bilhete de suicida estava a razão: aos 77 anos, farmacêutico aposentado, teve a sua pensão reduzida em mais de 30%, ao mesmo tempo em que se elevou brutalmente o custo de vida. As medidas econômicas, ditadas pelo empregado do Goldman Sachs e servidor do Banco Central Europeu, nomeado pelos banqueiros primeiro ministro da Grécia, Lucas Papademos, não só reduziram o seu cheque de aposentado, como o privaram dos subsídios aos medicamentos. “ Quero morrer mantendo a minha dignidade, antes que me veja obrigado a buscar comida nos restos das latas de lixo” – escreveu em seu bilhete de despedida, lido e relido pelos que tentaram socorrê-lo, e que se reuniam na praça.
“Tenho já uma idade idade que não me permite recorrer à força – mas se um jovem agora empunhasse um kalashinov, eu seria o segundo a fazê-lo e o seguiria”.
No mesmo texto, Christoulas incita claramente os jovens gregos sem futuro à luta armada, a pendurar os traidores, na mesma praça Syntagma, “como os italianos fizeram com Mussolini em Milão, em 1945”. O tronco do cipreste se tornou painel dos protestos escritos. Em um deles, o suicídio de Christoulas é definido como um “crime financeiro”.
A morte de Christoulas, em nome da justiça, pode trazer nova esperança ao mundo, como a de Cristo trouxe. Não importa muito se ainda não foi possível construir o reino de Deus na Terra, e tampouco importa que o nome de Cristo tenha sido invocado para justificar tantos e tão repugnantes crimes. No coração dos homens de boa vontade, qualquer que seja o seu calvário – porque todos os homens justos o escalam, onde quer que nasçam e morram – a felicidade os visita quando comungam do sentimento de amor de Cristo pela Humanidade. Nesses momentos, ainda que sejam apenas segundos fugazes, habitamos o Reino de Deus.
Nunca, em toda a História, tivemos tanto desdém pela vida dos homens, como nestes tempos de ditadura financeira universal. Estamos vivendo vésperas densas de medo, mas dentro do medo, há centelhas de esperança. A morte do aposentado, quarta-feira de trevas, em Atenas, é, com toda a carga trágica de seu gesto, partícula de uma dessas centelhas.
Estamos cansados de sangue, mas o que está ocorrendo hoje – teorizem como quiserem economistas e sociólogos – é a etapa seguinte do grande projeto dos neoliberais, que vem sendo executado sistematicamente pelos que realmente mandam no mundo e que assumiram sua governança (para usar o termo de seu agrado), mediante a Trilateral e o Clube de Bielderbeg, controlados, como se sabe, por meia dúzia de poderosas famílias do mundo. Esse projeto é o de dizimar, por todos os meios possíveis, a população, e transformar a Terra no paraíso dos 500.000 mais poderosos, ricos e eleitos, em oposição à utopia cristã. Mas é improvável que os pobres, que são a maioria, não identifiquem seu real inimigo, e se sacrifiquem, sem resistência, ao Baal contemporâneo – esse sistema financeiro que acabou com a antiga sacralidade da moeda, ao emitir papéis sem nenhuma relação com os bens reais do mundo, nem com a dignidade do trabalho. A força da mensagem do nazareno deve ser retomada: os oprimidos – negros, brancos, mestiços, muçulmanos, cristãos, budistas e ateus – devem compreender que os habita o homem, e não animais distintos, destinados à violência em proveito dos promotores da barbárie.
Ao expirar, depois de torturado, ultrajado seu corpo, humilhado, escarnecido, Cristo se tornou a maior referência de justiça. Aos 77 anos, o aposentado grego, ao matar-se, transformou-se em bandeira que ameaça iniciar, na Grécia, novo movimento em favor da igualdade – a mesma idéia que levou Péricles a fundar o primeiro estado de bem-estar social, ao reconstruir Atenas, empregar todos os pobres, e dotar os marinheiros do Pireu do pioneiro conjunto de casas populares da História.
Vinte séculos podem ter sido apenas rápido intervalo – um pequeno descanso da razão.
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quarta-feira, 24 de abril de 2013
De grão em grão, a teocracia hiper conservadora e fascista avança
Segue texto extraído do site da Revista Carta Capital em
http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/de-grao-em-grao/
Rodrigo Martins e Willian Vieira
De grão em grão
Na última sexta-feira 12, na sede da
Primeira Igreja Batista de Campo Grande (MS), um exército de homens de terno e
gravata com Bíblias a tiracolo se reuniu para um evento. Não era propriamente
um culto. Entre os 350 pastores havia 25 parlamentares, como a vereadora Rose
Modesto (PSDB), liderança da bancada evangélica local e autora da lei que obriga o poder público a apoiar eventos evangélicos. Herculano Borges (PSC),
que aprovou projeto para proibir a instalação de máquinas de preservativos nas
escolas, e Alceu Bueno (PSL), opositor do reconhecimento de uma associação de
travestis como de utilidade pública, também vieram. Mas o nome mais aguardado
era o do pastor Wilton Acosta. Ali para abrir o Encontro Estadual de Lideranças
Evangélicas, o presidente do Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e
Política (Fenasp) prestigiava ao mesmo tempo a criação da Frente Parlamentar
Evangélica da cidade. Daí os melhores pastores locais estarem dispostos em
fila, como soldados da batalha maior:
“Alinhar os evangélicos para disseminar valores cristãos por meio de leis
políticas públicas”.
Atraso. A agenda moralista ganha força nas periferias, onde as igrejas são mais atuantes. Foto: bFábio Motta/ Estadão Conteúdo
O evento é sinal de
um fenômeno bem maior. Enquanto os holofotes da sociedade civil e da imprensa
focam na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, desde
o mês passado presidida por um pastor, Marco Feliciano (PSC-SP), que já fez declarações
homofóbicas, racistas e machistas, um processo mais silencioso se alastra pelo
País. Nos moldes da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso, com seus 73 parlamentares, o número de bancadas evangélicas
em assembleias legislativas e câmaras municipais, em capitais e cidades do
interior, tem disparado. Já há frentes parlamentares evangélicas (FPEs)
organizadas em 15 estados brasileiros, a maioria criada desde 2012. São mais de
cem os deputados estaduais evangélicos organizados. Já o número de FPEs nos
municípios é difícil de calcular. “A expectativa é passar de 10 mil vereadores
evangélicos”, garante Acosta.
Espécie de tutor do
movimento, o pastor coordena um levantamento dos parlamentares ligados à causa
em todo o Brasil. Prestes a entrar num voo para o Acre, ele afirma: “O objetivo
é verticalizar a pauta parlamentar nacional, aprovando leis em todas as
assembleias e câmaras. Todas”. Com oratória fluida e vertida em termos
jurídicos, Acosta explica como deve instalar um braço da Associação de Parlamentares
Evangélicos do Brasil (Apeb) em cada cidade. “Já temos 15 coordenações
estaduais. Logo serão 28. Cada coordenador tem a missão de instalar uma unidade
em toda cidade de seu estado. Hoje, quando detectamos um projeto contra nossos
valores, contatamos o parlamentar para agir. Mas leva tempo. No futuro será
automático.”
*Leia matéria completa na Edição 745 de
CartaCapital, já nas bancas
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terça-feira, 23 de abril de 2013
Leonardo Boff: "Cada um é São Jorge, cada um é Dragão"
Texto de Leonardo Boff
Em janeiro deste ano, a propósito da novela “Salve, São Jorge”, publiquei algumas reflexões sobre o significado profundo, quase sempre inconsciente, destas duas figuras: o santo guerreiro São Jorge e o terrível dragão. Como celebramos no dia 23 de abril a festa do santo, até com um feriado na cidade do Rio de Janeiro, é oportuno voltar ao tema de forma mais resumida.
Sabemos que a figura do dragão é um tema recorrente em várias culturas, com significados até opostos. Assim no Ocidente é negativo: representa o mal e o mundo ameaçador ds sombras. No Oriente é positivo: é símbolo nacional da China, senhor das águas e da fertilidade. Entre os aztecas era a serpente alada (Quezalcoatl), expressão de sua identidade cultural. Não raro os pobres entre nós dizem: “para me manter, tenho que matar um dragão por dia”, pois assim o exige a dureza da vida.
Muitos antropólogos e psicólogos que trabalham sobre o tema dos arquétipos, como Carl Gustav Jung (1875-1961), afirmam que o dragão representa uma das figuras transcultuais mais ancestrais da história humana. É a percepção de que a nossa identidade profunda, o nosso eu, não nos é dado simplesmente pelo fato de sermos humanos. Ele tem que ser conquistado numa luta diuturna, marcada por ameaças e lutas.
Esta situação é representada pelo dragão, nosso inimigo principal. Ele quer devorar o eu ou impedir que se liberte e faça o seu caminho de autonomia e de liberdade. Só assim seríamos plenamente humanos.
Por isso, junto com o dragão sempre vem o cavaleiro São Jorge que com ele se confronta numa luta renhida. Qual é o signficado do dragão e de São Jorge? À luz dos estudiosos referidos acima, tanto um como o outro são partes de nossa realidade humana. Cada um de nós carrega um dragão e um São Jorge dentro de si.
Isso é assim porque a nossa vida é sempre feita de luz e de sombras, do dia-bólico (aquilo que separa) e do sim-bólico (aquilo que une). Quem vai triunfar São Jorge ou o dragão? A luz ou a sombra? A nossa melhor parte ou a nossa parte pior? Ambas coexistem e sentimos a sua presença em cada momento: às vezes na forma e raiva ou de amor ou de violência ou de bondade e assim por diante.
É aqui que entra a importância de uma identidade forte, de um eu vigoroso, um São Jorge, que possa enfrentar as nossas sombras e maldades, o dragão, e fazer triunfar nossa parte melhor.
Sabemos que o caminho da evolução leva a humanidade do insconsciente para o consciente, da fusão cósmica com o Todo para a emergência da autonomia do eu livre e forte. Essa passagem é sempre dramática, tem que ser levada avante ao largo de toda a vida, porque os mecanismos que querem manter cativo eu e impedir a emergência de nossa identidade permanentemente estão ativos. E é preciso esforço e coragem para libertar o eu e conquistar a própria identidade e também a liberdade pessoal.
São Jorge é o que nos mostra como, nessa luta, podemos ser guerreiros e vencedores. Ele enfrentou o dragão: mostra a força do eu, da própria identidade, garantindo a vitória.
Mas esta vitória não se conquista uma vez por todas. Ela tem que ser renovada a cada momento, na medida em que as amarras vão surgindo. Dai a importância uma ligação com São Jorge, como uma fonte de energia e de força, capaz de nos assistir na luta até alcançar a vitória.
Há, contudo, um drama do qual não nos podemos furtar. Não se trata de um defeito de construção. Mas é uma marca da nossa existência no espaço e no tempo. Por mais que lutemos e vençamos, o dragão está sempre aí nos espreitando. Ele nos acompanha. Mas ainda: é uma parte de nós mesmos, de nosso lado obscuro, mesquinho, menor que nos impede de sermos plenamente humanos. Mas também somos acompanhados por São Jorge que nos assiste na luta.
Por esta razão, nas muitas lendas existentes sobre São Jorge ele não mata o dragão, mas o vence mantendo-o domesticado, amarrado e submetido aos imperativos do eu e da indentidade pessoal. Ele não pode ser negado e eliminado, apenas integrado de tal forma que perca seu lado ameaçador e destruidor. Pode até nos ajudar a sermos humildes e evitarmos a demasiada autoconfiança. Dai a vigilância e a referência a São Jorge que não só compensa a nossa falta de energia, mas nos pode valer poderosamente.
É interessante observar que em algumas representaçõe, especialmente uma famosa de Barcelona (é seu patrono da Catalunha), o dragão aparece envolvendo todo o corpo de São Jorge. Numa gravura de Rogério Fernandes, artista brasileiro, o dragão aparece envolvendo o corpo de São Jorge; este o segura pelo braço colocando o rosto do dragão, nada ameaçador, na altura de seu rosto. É um dragão humanizado, formando uma unidade com São Jorge.
Noutras (no Google há 25 páginas de gravuras de São Jorge com o dragão) o dragão aparece como um animal manso sobre o qual São Jorge de pé o conduz, sereno, não com a lança pontiaguda mas com um bastão.
A pessoa que não renega o dragão, mas o mantem sob seu domínio conseque uma síntese feliz dos opostos presentes em sua vida. Deixa de se sentir dividido; encontrou a justa medida pois alcançou a harmonização do eu e de sua identidade luminosa com o dragão sombrio, o equilíbrio dinâmico do consciente com o inconsciente, da luz com a sombra, da razão com a paixão, do racional com o simbólico, da ciência com a arte e da arte com a religião. Esta pessoa emerge como um ser humano mais rico, mais sereno, mais compreensivo, tolerante e compassivo, irradiando uma aura boa ao seu redor.
A confrontação com as oposições, do dragão com o São Jorge, e a busca da síntese, constitui a característica de personalidades exemplares que encontramos tantas por ai. Tais são figuras de Gandhi, de Luther King Jr. de Dom Helder e, parece tambem, do atual Papa Francisco.
Repetimos: importa reconhecer que o dragão amedrontador e o cavaleiro heróico São Jorge são duas dimensões de nós mesmos. Nosso desafio é fazer que São Jorge tenha a primazia e não deixe qu o dragão nos derrote e tire o sentido e o gosto de viver.
Muitos brasileiros, especialmente, os cariocas tem grande veneração por São Jorge; ela é tão forte quanto a de São Sebastião, patrono oficial da cidade. Mas este possuui um inconveniente: é um guerreiro, cheio de flechas, portanto “vencido”. O povo sente a necessidade de um santo guerreiro corajoso “vencedor”. Ai São Jorge representa o santo ideal. Na novela “Salve Jorge”ele é o herói que salva as mulheres traficadas contra o dragão do tráfico internacional de mulheres.
Por fim cabe uma observação de ordem filosófica: seguramente aqueles que veneram São Jorge não saibam nada disso que explanei acima acerca da coexistência dos dois em nossa vida. Nem precisam saber. Basta que tenham consciência de que a vida é uma permanente luta entre o que é bom para mim e para os outros e entre o que é mau que deve ser evitado e combatido. E acreditar que a virtude é preferível ao vício e que a palavra final terá São Jorge e não o dragão.
Nessa fé saimos todos fortalecidos para os embates que ocorrerão pela vida afora com a asistência ponderosa do guerreiro vencedor São Jorge.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo, pesquisador e escritor.
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