domingo, 11 de março de 2018

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”, afirma o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han



Do El País:

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, um destacado dissecador da sociedade do hiperconsumismo, fala sobre suas críticas ao “inferno do igual”


Byung-Chul Han
O filósofo Byung-Chul Han em Barcelona  (EL PAÍS)
As Torres Gêmeas, edifícios idênticos que se refletem mutuamente, um sistema fechado em si mesmo, impondo o igual e excluindo o diferente e que foram alvo de um ataque que abriu um buraco no sistema global do igual. Ou as pessoas praticando binge watching (maratonas de séries), visualizando continuamente só aquilo de que gostam: mais uma vez, multiplicando o igual, nunca o diferente ou o outro... São duas das poderosas imagens utilizadas pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem a sociedade hiperconsumista e neoliberal depois da queda do Muro de Berlim. Livros como A Sociedade do CansaçoPsicopolítica e A Expulsão do Diferente reúnem seu denso discurso intelectual, que ele desenvolve sempre em rede: conecta tudo, como faz com suas mãos muito abertas, de dedos longos que se juntam enquanto ajeita um curto rabo de cavalo.
“No 1984 orwelliano a sociedade era consciente de que estava sendo dominada; hoje não temos nem essa consciência de dominação”, alertou em sua palestra no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), na Espanha, onde o professor formado e radicado na Alemanha falou sobre a expulsão da diferença. E expôs sua particular visão de mundo, construída a partir da tese de que os indivíduos hoje se autoexploram e têm pavor do outro, do diferente. Vivendo, assim, “no deserto, ou no inferno, do igual”.
Autenticidade. Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.
Autoexploração. Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.
‘Big data’.”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual... Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças... É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos... Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições... Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.
Comunicação. “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.
Jardim. “Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações... Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto... É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.
Narcisismo. Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.
Os outros. Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo... Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.
Refugiados. Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.
Tempo. É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.

O “MONSTRO” DA UNIÃO EUROPEIA

“Estamos na Rede, mas não escutamos o outro, só fazemos barulho”, diz Byung-Chul Han, que viaja o necessário, mas não faz turismo “para não participar do fluxo de mercadorias e pessoas”. Também defende uma política nova. E a relaciona com a Catalunha, tema cuja tensão atenua brincando:
“Se Puigdemont prometer voltar ao animal original, eu me torno separatista”.
Já no aspecto político, enquadra o assunto no contexto da União Europeia: “A UE não foi uma união de sentimentos, mas sim comercial; é um monstro burocrático fora de toda lógica democrática; funciona por decretos...; nesta globalização abstrata acontece um duelo entre o não lugar e a necessidade de ser de um lugar concreto; o especial é incômodo, gera desassossego e arrebenta o regional. Hegel dizia que a verdade é a reconciliação entre o geral e o particular e isso, hoje, é mais difícil...”. Mas recorre à sua revolução do tempo: “O casamento faz parte da recuperação do tempo livre: vamos ver se haverá um casamento entre a Catalunha e Espanha, e uma reconciliação”.

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Noam Chomsky: "“Os EUA são a origem do problema do tráfico de drogas”


Do El País:

O intelectual ataca a incapacidade da classe política liberal de seu país em se conectar com a classe trabalhadora

Noam Chomsky (c), durante uma entrevista na Cidade do México.

Um governante habilidoso e demagógico, que soube se conectar com os “medos legítimos” de parte da sociedade, “como Hitler e Mussolini fizeram antes”. Assim Noam Chomsky, o intelectual vivo da esquerda clássica mais importante de seu país, desenhou Donald Trump na quarta-feira, em uma breve entrevista coletiva na Cidade do México.
“Trump é um fenômeno que reflete o momento em que o país se encontra depois de décadas de políticas que concentraram o poder político e econômico em alguns poucos, e que deformaram a capacidade das instituições para servir seus cidadãos”, acrescentou o professor emérito do Massachusetts Institute of Technology (MIT), convidado pela universidade mais emblemática do México, a UNAM, para o ciclo de conferências Los Acosos a la CivilizaciónDe Muro a Muro, organizado em parceria com a Universidade do Estado do Arizona.
A ascensão do magnata republicano é - para o linguista de 88 anos, que começou seu ativismo político contra a Guerra do Vietnã - resultado do vazio, do desamparo e até da humilhação sentida pela classe trabalhadora branca diante do establishment político norte-americano. “Especialmente o Partido Democrata, que se esqueceu de abordar as questões materiais e às vezes tratou essas camadas da sociedade como estúpidas”.
“Trump conseguiu fazê-los sentir que ele é o único político que lhes dá voz, que defende suas tradições e sua cultura, que sentem ameaçadas. Além disso, construiu um inimigo externo: os mexicanos, os asiáticos, os migrantes. É a mesma lógica que Hitler usou com os judeus, embora, obviamente, nem os judeus iriam destruir a Alemanha nem os migrantes farão isso com os EUA”.
Sobre a renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLC), o filósofo interpretou a posição intransigente dos EUA como uma oportunidade para os outros dois parceiros: “México e Canadá deveriam aproveitar para introduzir elementos que favoreçam seus cidadãos, como direitos sindicais”, além de enfatizar que “a origem do problema da droga no México é os Estados Unidos”, lembrando que do vizinho do Norte vem a maior demanda de drogas e a maior oferta de armas.
“O Partido Democrata tratou a classe trabalhadora branca como uma estúpida”
O surgimento dos novos movimentos sociais contra as políticas neoliberais do fim dos anos noventa, conhecidos como antiglobalização, recuperaram a figura do veterano filósofo com títulos como El Miedo a la Democracia ou Como nos Venden la Moto (com Ignacio Ramonet), em que explica, com linguagem simples e vontade pedagógica, os perigos da desregulamentação dos mercados, da entronização das finanças e do enfraquecimento dos sindicatos.
Aplicadas, por exemplo, ao fenômeno do aquecimento global, suas teses ecoaram assim nesta quarta-feira na Cidade do México: “Se você é uma empresa de petróleo, seu único interesse e objetivo é o lucro imediato. Em seus planos operacionais você não concebe que o que está fazendo pode acabar com a vida dos seus filhos. Tudo o que não é benefício é considerado uma externalidade, algo acessório. Esse é o coração da economia capitalista, um sistema destinado à autodestruição”.

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“Ele foi aconselhado a sair para deputado”: a agonia do golpista Aécio, vítima de si mesmo. Por Kiko Nogueira

Do Diário do Centro do Mundo:


Acabou
A história de Aécio Neves é uma fábula moral sobre aonde levam os baixos instintos na política — e, por que não, na vida.
Com todos os sinais à frente de si e o exemplo de Carlos Lacerda no passado, Aécio se atirou numa aventura golpista que acabou por engoli-lo.
Ainda vamos ouvir falar muito dele neste ano. Dificilmente sob um aspecto positivo.
Aécio tenta lutar para concorrer ao Senado, mas esbarra no PSDB. Além, é claro, do desprezo do eleitorado.
A divulgação das conversas com Joesley foram determinantes para seu fim.
“Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação”, disse o jagunço, referindo-se ao primo Fred, mostrando sua verdadeira cara.
No Estadão, o ex-prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda, do PSB, antigo aliado, falou das ambições do Mineirinho.
“Por onde passo em Minas as opiniões são que a imagem de Aécio que ficou, justa ou injustamente, muito prejudicada”, afirma, usando de sutileza mineira.
Segundo Márcio, “as pesquisas mostram uma rejeição muito grande a ele. Tem sido aconselhado a se candidatar a deputado federal. Eu dei essa opinião a Andrea Neves antes dele enfrentar esse problema mais grave da gravação do Joesley”.
Aécio deve desculpas ao país. Ele e a mana Andrea.
Jamais o farão.
O que torna sua agonia ainda mais patética.

sábado, 10 de março de 2018

Bob Fernandes: enquanto a Europa enfrenta instrumentos de manipulação Google, Amazon, Face, Apple. No Brasil retroagente do séc. 21, generais e tanques




Do Canal Jornal da Gazeta:



A expressão GAFA significa Google, Amazon, Facebook, Apple. Se acrescente os chineses Alibaba e Huawei. . Estes gigantes vendem varejo, acessam, conhecem sentimentos, ideias, segredos e desejos de 70% da humanidade. . Valor de mercado desses gigantes? Mais de US$ 4 trilhões. . Referendo na Suíça: 71% querem continuar financiando o Sistema de Mídia Pública, TVs e Rádios. Cada cidadão paga 392 euros/ano. . Na Alemanha pagam 210 euros/ano. Na Inglaterra, 145 libras/ano. . Portugal, França, Espanha, nórdicos, Japão... mundo afora Mídias privadas. E cidadãos, compulsoriamente, financiando Mídias Públicas. . No Brasil, TSE, ABIN e Ministério da Defesa anunciam: combate a Fake News no ano eleitoral. TSE, hoje, leia-se ministro Fux. . A ABIN é do general Etchegoyen. Que manda em todo o Sistema de Inteligência do Brasil. E manda no ministro da Segurança, Jungmann. . E a Defesa? O comandante do Exército, general Villas-Boas, tuitou: "Associo-me aos argumentos do comandante da Marinha, Almirante Leal Ferreira". . O Almirante Leal quer um militar, não mais um civil como ministro da Defesa. . Combate à Fake News no país com 14.350 emissoras de rádio. . Com 4.377 rádios comunitárias; que alugam horários para políticos ou prepostos. Combate à Fake News no país que só no Congresso tem meia centena de donos de Tvs e/ou rádios. . Que tem como donos, ou no contrôle de poderosas Mídias, clãs como... . ...Sarney, Collor, Lobão, Barbalho, Jucá, Alves, do Henrique, Maia, do Agripino, Jereissati, os Franco e os Alves em Sergipe, Coelho, em Pernambuco, ACM na Bahia etc. . A Comissão Europeia de Informação e Comunicação Para os Cidadãos está debatendo: como enfrentar os gigantes GAFA: Google, Amazon, Face, Apple. . E o Brasil, República nascida de golpe militar há 129 anos com escassos 31 anos de "democracia" ininterrupta? . No século 21 o Brasil apenas assiste, sem debate público: . ...generais, tanques Guarani, soldados e fuzis para caçar traficantes... . ...Tornados "Donos" de comunidades pobres ou miseráveis exatamente porque o Estado nunca se fez presente.

domingo, 4 de março de 2018

“Inadmissível” greve dos juízes por auxílio-moradia, diz Conselho dos Tribunais


Em “Carta de Maceió” presidentes dos TJs dos Estados afirmam que são contra a greve de juízes federais 

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(Foto ABr)


Jornal GGNMembros do Conselho dos Tribunais de Justiça, composto pelos presidentes dos TJs dos Estados e do Distrito Federal, criticaram a greve dos juízes federais, marcada para o dia 15 deste para pressionar o Supremo Tribunal Federal na decisão sobre as regras de concessão de auxílio-moradia. 
 
O Conselho, que se reuniu Maceió na última sexta-feira (02) no 113º Encontro de Presidentes, decidiu editar uma nota pública que está sendo chamada de “Carta de Maceió” onde considera inadmissível o setor pressionar os ministros da Corte e prejudicar a sociedade com a paralisação dos trabalhos.
 
“Este Colegiado defende a legitimidade de direitos previstos na Loman [Lei Orgânica da Magistratura] e em Resoluções do CNJ [Conselho Nacional de Justiça], e entende inadmissível pressionar ministros da Suprema Corte com paralisação de atividade essencial à sociedade, devendo prevalecer sempre a autonomia e independência funcionais dos magistrados”, assinam os representantes do CTJ.
 
O auxílio-moradia costuma ser pago para magistrados que moram fora da comarca onde trabalham, mas parcela significativa solicita recursos mesmo com casa própria na região onde atuam. Atualmente mais de 17 mil juízes e desembargadores em todo o país recebem o provento, representando 70% dos servidores públicos do judiciário. 
 
A regra foi criada pela Lei Orgânica da Magistratura em 1979, ampliado em 2014 a partir de uma resolução do Conselho Nacional de Justiça e, em novembro daquele mesmo ano, estendido para os juízes federais de todo o país por liminar parcial do ministro do Supremo Luiz Fux. 
 
 
Com o entendimento de Fux, o pagamento de auxílio-moradia aumentou 20 vezes em apenas três anos, ou de R$ 96,5 milhões de janeiro de 2010 a setembro de 2014, para R$ 1,3 bilhão de outubro de 2014, quando o ministro amplio as regras do benefício, até novembro de 2017. 
 
Leia a nota a seguir:
 
CARTA DE MACEIÓ
113° ENCONTRO DO CONSELHO DOS TRIBUNAIS DE JUSTIÇA
 
O Conselho dos Tribunais de Justiça – CTJ, composto pelos Presidentes dos Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal, reunido na cidade de Maceió (AL), ao final do 113º Encontro, no dia 02 de março de 2018, vem a público manifestar posição contrária à deflagração do movimento grevista de juízes federais em razão da designação do julgamento do auxílio moradia, que ocorrerá na sessão plenária do STF no próximo dia 22.
 
Este Colegiado defende a legitimidade de direitos previstos na LOMAN e em Resoluções do CNJ, e entende inadmissível pressionar ministros da Suprema Corte com paralisação de atividade essencial à sociedade, devendo prevalecer sempre a autonomia e independência funcionais dos magistrados.
 
Maceió/AL, 02 de março de 2018.
 

Do DCM: A “cláusula de sucesso” de Marcelo Odebrecht na Lava Jato expõe a farsa da delação. Por Kiko Nogueira


Do DCM:



O acordo de delação premiada de Marcelo Odebrecht tem “cláusula de sucesso” que permite redução de pena, conta Lauro Jardim em sua coluna.
Isso explica o fato de a Lava Jato ter autorizado que ele receba, na prisão domiciliar, uma lista de visitantes que eram considerados seu núcleo duro de atuação.
Eles podem fazer a roda de Marcelo girar.
A turma que pode ver o chefe é formada por Alexandrino Alencar, Benedicto Jr, o ex-presidente da Braskem Carlos Fadiga, o ex-presidente da Odebrecht Ambiental Fernando Reis, o ex-presidente da Odebrecht Engenharia Márcio Faria, o ex-presidente da construtora para a África Ernesto Sá Vieira Baiardi, o ex-presidente da construtora para a América Latina Luiz Mameri e, por fim, Euzenando Prazeres de Azevedo, ex-presidente da construtora para Estados Unidos.
Não é por acaso que os e-mails recentemente apresentados por Marcelo sejam endereçados a esses interlocutores.
As mensagens podem ser verdadeiras, mas não é difícil pegar trechos de conversas, até mesmos as institucionais e republicanas, e descontextualizá-las.
Eles estão combinados com Marcelo.
Nesses encontros, também devem ter descoberto sobre a tal “cláusula de sucesso”, também conhecida como “taxa de eficiência” — e vão querer a sua boquinha.
Em fevereiro, o doleiro Alberto Youssef falou num depoimento que desistiu de receber 1/50 avos do patrimônio recuperado pela força-tarefa no Brasil e no exterior.
Se a Lava Jato recuperasse 2 bilhões de reais, por exemplo, ele meteria a mão em R$ 40 milhões.
Se o sujeito entregar o que quer o Ministério Público, ele ganha seu presentinho. O nome que os procuradores querem começa com lu e termina com la.
Como é possível levar a sério uma operação policial “anticorrupção” montada nesse tipo de esquema com bandidos?

Afrânio Silva Jardim: alguns membros do MPF perderam noção dos limites éticos e jurídicos


"Acho que alguns membros do Ministério Público Federal perderam a noção dos limites éticos e jurídicos. Que valor probatório pode ter um depoimento remunerado?", questiona o professor Afrânio Silva Jardim, referindo-se a acordos como o de Alberto Youssef




Do DCM – O professor associado de Direito Processual Penal da Uerj Afrânio Silva Jardim, que é procurador de justiça aposentado, manifestou estranheza quanto à declaração do doleiro Alberto Youssef (abaixo) de que desistiu da taxa de sucesso de sua delação.
A seguir, a nota de Afrânio, postada em seu Facebook na noite deste sábado:
AGORA JÁ É POSSÍVEL “COMPRAR” DEPOIMENTOS ???
AGORA JÁ É POSSÍVEL FICAR LEGALMENTE COM PARTE DO PROVEITO DO CRIME ???
Acho que alguns membros do Ministério Público Federal perderam a noção dos limites éticos e jurídicos.
Que valor probatório pode ter um depoimento remunerado ???
Vejam que absurdo! Vejam o que é objeto de acordo nas “delações premiadas”. CLÁUSULAS DE DESEMPENHO ???
A lei prevê isto??? Prêmios financeiros ??? O delator pode ficar com parte do produto do crime que praticou ???
Não sabia disso!!! Em alguns acordos de cooperação premiada com o Ministério Público Federal constam cláusulas de valor monetário para o caso de sucesso das “delações” !!!
No caso do vídeo, o delator diz que abriu mão de receber um valor vultoso !!! Tudo muito estranho !!!
Afranio Silva Jardim, professor associado de Direito Processual Penal da Uerj.

O Globo: Livro reúne histórias de crianças presas, torturadas ou exiladas durante a ditadura no Brasil


Crianças filhas de perseguidos pela ditadura militar no Brasil eram fichadas pelo Dops Foto: Reprodução
Crianças filhas de perseguidos pela ditadura militar no Brasil eram fichadas pelo Dops - Reprodução

De O Globo:



POR 


SÃO PAULO - Os cabelos acastanhados desciam pelas costas estreitas até a cintura. Eram a expressão de vaidade da menina Zuleide Aparecida do Nascimento, de quatro anos. E uma das poucas coisas — além de uma boneca de plástico — que Zuleide supunha lhe pertencer quando foi presa por agentes da ditadura militar, em 1970. Talvez por isso a lembrança do corte de cabelo forçado que sofreu no Juizado de Menores seja uma das mais marcantes memórias de Zuleide.

— Aquilo foi uma violência muito forte para mim — afirma ela, aos 49 anos, emocionada.
Zuleide e os irmãos de 2, 6 e 9 anos foram “capturados” no Vale do Ribeira, onde sua família se engajara na luta armada contra o regime. Ali, Carlos Lamarca comandava quadros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Quando o grupo foi preso, as crianças também o foram. Acabaram fotografadas (Zuleide, na imagem ao lado, já com o cabelo cortado), fichadas e tachadas como “miniterroristas” no temido Dops (Departamento de Ordem Política e Social). E foram banidas do Brasil. Ao lado de 40 presos políticos, embarcaram em um avião em direção à Argélia, e depois à Cuba, em uma negociação da esquerda com o governo militar que envolveu o sequestro do então embaixador alemão Ehrenfried von Holleben. O retorno de Zuleide ao Brasil só seria possível 16 anos mais tarde.

— Sou uma pessoa sem identidade. Fui alfabetizada em espanhol. Meus documentos foram cassados, nem sei que dia nasci. Me sinto mais cubana do que brasileira — diz.
A história de Zuleide e de outras 39 pessoas que hoje têm entre 40 e 60 anos e foram crianças durante o regime militar estão contadas no livro “Infância roubada”, recém-lançado pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. O material é uma tentativa de rememorar, a partir dos relatos das vítimas, como o Estado militar tratou os filhos de seus inimigos. São narrativas inéditas de um dos trechos menos conhecidos da história nacional. Em pouco mais de 300 páginas, ilustradas com fotografias e documentos históricos, há depoimentos e contextualizações dos casos.

“Infância roubada” tem valor historiográfico por sugerir um certo padrão de tratamento dispensado pelos militares às crianças. Além de serem banidas, ficaram presas com os pais, participaram de sessões de tortura das mães, como espectadores ou como alvos das sevícias. E tiveram a própria existência ameaçada. É o que relata Paulo Fonteles Filho, nascido em 1972, em um hospital militar. Seus pais foram presos por atividades comunistas. Fonteles conta que o pai assistiu a torturas da mãe, Hecilda, grávida de cinco meses. Antes do nascimento da criança, os agentes teriam dito a ela que “filho dessa raça não deve nascer”. Depois do parto, os militares teriam demorado a entregar o bebê para a família de Hecilda porque não encontravam algemas que coubessem nos pulsos do recém-nascido. “Eles deviam me achar bastante perigoso!”, ironizou Fonteles em seu depoimento.
Zuleide partilha com Fonteles a mesma impressão:

— Tratavam-nos como se o comunismo fosse uma doença hereditária, sem cura. Como se fosse uma praga que pudesse se espalhar pela sociedade. Éramos um risco.
Apesar das semelhanças entre os regimes militares brasileiro e argentino, as narrativas sugerem uma diferença fundamental entre eles no tratamento dispensado às crianças. Se, na Argentina, os militares entendiam os filhos de inimigos como uma espécie de riqueza nacional, uma matéria bruta valiosa a ser moldada para a construção da sociedade que desejavam, no Brasil, o Estado, de inspiração fortemente positivista, foi para o lado oposto. As argentinas presas grávidas eram tratadas com cuidado até o nascimento da criança. Casos de aborto eram raros e acidentais. Depois de nascidos, os bebês eram entregues a famílias da elite militar ou a seus apoiadores. O resultado foi mais de 500 crianças sequestradas e adotadas ilegalmente.

Já as forças repressivas brasileiras parecem ter revivido uma inspiração lombrosiana. O cientista italiano Cesare Lombroso fez sucesso entre a polícia nacional nos séculos XIX e XX ao defender que características físicas hereditárias — tais como o formato da orelha — eram capazes de predizer se um sujeito era louco ou bandido. Ao tratar o comunismo quase como doença congênita, os militares parecem ter flertado com a estapafúrdia teoria. Esta hipótese, discutida por especialistas, ainda demanda estudos mais profundos para ser comprovada ou descartada. A tarefa deve ser facilitada quando forem publicados os relatórios das comissões da verdade em curso.

O segundo trunfo de “Infância roubada” é dar voz a pessoas cuja dor nunca havia sido abordada. Muitos dos que se dispuseram a falar jamais tinham revelado completamente seu passado. É o caso de Eliana Paiva, cujo pai, o ex-deputado Rubens Paiva, foi morto em tortura pela ditadura. Eliana passou 24 horas presa. Durante metade do tempo, teve que usar “um capuz fedorento” que a sufocava. Aos 15 anos, foi chamada de comunista, levou cascudos na cabeça, apertões nos seios.

— Conforme o tempo passava, os agentes diminuíram a agressividade no interrogatório. Intuí que meu pai já estava morto — conta.

Sua prisão, o desaparecimento do pai e o sofrimento contínuo da mãe marcaram sua vida:
— Nunca tinha conseguido contar tudo sobre a prisão. Nem para marido, nem para terapeuta. Mas, aos 59 anos, quero resolver algumas coisas. Falar pode ajudar.


Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/livro-reune-historias-de-criancas-presas-torturadas-ou-exiladas-durante-ditadura-no-brasil-14496104#ixzz58nE42QmJ 
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