sábado, 22 de agosto de 2015

Michael Löwy: Quando o capitalismo não rima com Democracia



Para pensamento político tradicional, dois conceitos são complementares. Mas Europa demonstra algo que Max Weber já intuía: liberdade não pode florescer sob leis de mercado

Internacional

Opinião

Quando capitalismo não rima com democracia

por Michael Löwy — publicado 20/08/2015 na Carta Capital, 15h12, última modificação 20/08/2015 16h07
Divulgação
Mario Draghi
Os ‘experts’ que comandam a ‘salvação’ da Europa foram funcionários de um dos bancos diretamente responsáveis pela crise iniciada nos Estados Unidos, em 2008, como Mario Draghi, ex-Goldman Sachs

Vamos começar com uma citação de um ensaio sobre a democracia burguesa na Rússia, escrita em 1906, após a derrota da primeira revolução, de 1905:
“É profundamente ridículo acreditar que existe uma afinidade eletiva entre o grande capitalismo, da maneira como atualmente é importado para a Rússia, e bem estabelecido nos Estados Unidos (…), e a ‘democracia’ ou ‘liberdade’ (em todos os significados possíveis da palavra); a questão verdadeira deveria ser: como essas coisas podem ser mesmo ‘possíveis’, a longo prazo, sob a dominação capitalista?” [1]
Quem é o autor deste comentário perspicaz? Lenin, Trotsky ou, talvez, Plekhanov? Na verdade, ele foi feito por Max Weber, o conhecido sociólogo burguês. Apesar de Weber nunca ter desenvolvido essa ideia, ele está sugerindo aqui que existe uma contradição intrínseca entre o capitalismo e a democracia.
A história do século XX parece confirmar essa opinião: em muitos momentos, quando o poder da classe dominante pareceu ameaçado pelo povo, a democracia foi jogada de lado como um luxo que não pode ser mantido, e substituída pelo fascismo — na Europa, nos anos 1920 e 1930 — ou por ditaduras militares, como na América Latina, entre os anos 1960 e 1970.
Por sorte, esse não é o caso da Europa atual, mas temos, particularmente nas últimas décadas, com o triunfo do neoliberalismo, uma democracia de baixa intensidade, sem conteúdo social, que se reduziu a uma concha vazia. É claro que ainda temos eleições, mas elas parecem ser de apenas um partido, o PMU, Partido do Mercado Unido, com duas variantes que apresentam diferenças limitadas: a versão de direita neoliberal e a de centro-esquerda social liberal.
O declínio da democracia é particularmente visível no funcionamento oligárquico da União Europeia, onde o Parlamento Europeu tem muito pouca influência, enquanto o poder está firmemente nas mãos de corpos não eleitos, como a Comissão Europeia ou o Banco Central Europeu. De acordo com Giandomenico Majone, professor do Instituto Europeu de Florença, e um dos teóricos semioficiais da UE, a Europa precisa de “instituições não-majoritárias”. Ou seja, “instituições públicas que, propositalmente, não sejam responsáveis nem diante dos eleitores, nem de seus representantes eleitos”: essa é a única maneira de nos proteger contra “a tirania da maioria”. Em tais instituições, “qualidades tais quais expertise, discrição profissional e coerência (…) são muito mais importantes que a responsabilidade democrática e direta” [2]. Seria difícil imaginar uma desculpa mais descarada da natureza oligárquica e antidemocrática da UE.
Com a crise atual, a democracia decaiu a seus níveis mais baixos. Em um recente editorial, o jornal francês Le Figaro escreveu que a situação é excepcional, e explica por que os procedimentos democráticos não podem ser sempre respeitados; apenas quando voltarmos aos tempos normais, poderemos restabelecer sua legitimidade. Temos, então, um tipo de “estado de exceção” econômico/político, no sentido que descreveu Carl Schmitt. Mas quem é o soberano que tem o direito de proclamar, de acordo com Schmitt, o estado de exceção?
Por algum tempo, entre 1789 e a proclamação da República Francesa, em 1792, o rei teve o direito constitucional de veto. Não importavam as resoluções da Assembleia Nacional, ou quaisquer que fossem os desejos e aspirações do povo francês: a última palavra pertencia a Sua Majestade.
Na Europa de hoje, o rei não é um Bourbon ou Habsburgo: o rei é o Capital Financeiro. Todos os atuais governos europeus — com a exceção do grego! — são funcionários deste monarca absolutista, intolerante e anti-democrático. Quer sejam de direita, “extremo-centro” ou pseudoesquerda, quer sejam conservadores, democratas cristãos ou social-democratas, eles servem fanaticamente ao poder de veto de Sua Majestade.
O soberano absoluto e total hoje, na Europa, é, no entanto, o mercado financeiro global. Os mercados financeiros ditam a cada país os salários e aposentadorias, os cortes em despesas sociais, as privatizações, a taxa de desemprego. Há algum tempo, eles nomeavam diretamente os chefes de governo (Lucas Papademos na Grécia e Mario Monti na Itália), escolhendo os chamados “experts”, que eram servos fiéis.
Vamos olhar mais atentamente a alguns desses tais todos-poderosos “experts”. De onde eles vêm? Mario Draghi, chefe do Banco Central Europeu, é um antigo administrador do banco internacional de investimentos Goldman Sachs; Mario Monti, ex-Comissário Europeu, também é um antigo conselheiro da Goldman Sachs. Monti e Papademos são membros da Comissão Trilateral, um clube muito seleto de políticos e banqueiros que discutem estratégias internacionais.
O presidente desta comissão é Peter Sutherland, antigo Comissário Europeu, e antigo administrador no Goldman Sachs; o vice-presidente, Vladimir Dlouhr, antigo Ministro da Economia tcheco, é agora conselheiro na Goldman Sachs para a Europa Oriental. Em outras palavras, os “experts” que comandam a “salvação” da Europa da crise foram funcionários de um dos bancos diretamente responsáveis pela crise financeira iniciada nos Estados Unidos, em 2008. Isso não significa que existe uma conspiração para entregar a Europa à Goldman Sachs: apenas ilustra a natureza oligárquica dos “experts” de elite que comandam a UE.
Os governos da Europa estão indiferentes aos protestos públicos, greves e manifestações maciças. Não se importam com a opinião ou os sentimentos da população; estão apenas atentos — extremamente atentos — à opinião e sentimentos dos mercados financeiros e seus funcionários, as agências de avaliação de risco. Na pseudodemocracia europeia, consultar o povo em um referendo é uma heresia perigosa, ou pior, um crime contra o Deus Mercado. O governo grego, liderado pelo Syriza, a Coalizão da Esquerda Radical, foi o único que teve coragem para organizar tal consulta popular.
O referendo grego não tinha apenas a ver com questões fundamentais econômicas e sociais, foi também e acima de tudo sobre democracia. Os 61,3% de gregos que disseram não são uma tentativa de desafiar o veto real das finanças. Esse poderia ter sido o primeiro passo em direção à transformação da Europa, de monarquia capitalista a república democrática. Mas as atuais instituições da oligarquia europeia têm pouca tolerância à democracia. Imediatamente puniram o povo grego por sua tentativa insolente de recusar a austeridade. A “catastroika” está de volta à Grécia com uma vingança, impondo um programa brutal de medidas economicamente recessivas, socialmente injustas e humanamente insustentáveis. A direita alemã fabricou este monstro, e forçou ao povo grego com a cumplicidade de falsos “amigos” da Grécia (entre outros, o presidente francês, François Hollande, e o primeiro-ministro da Itália Matteo Renzi).
* * *
Enquanto a crise agrava-se, e o ultraje público cresce, existe uma crescente tentação, por parte de muitos governos, de distrair a atenção pública para um bode expiatório: os imigrantes. Deste modo, estrangeiros sem documentos, imigrantes de países não-europeus, muçulmanos e ciganos estão sendo apresentados como a principal ameaça aos países. Isso abre, é claro, enormes oportunidades para partidos racistas, xenófobos, semi ou completamente fascistas, que estão crescendo, e já são, em muitos países, parte do governo — uma ameaça muito séria à democracia europeia.
A única esperança é a crescente aspiração por uma outra Europa, que vá além das políticas de competição selvagem e austeridade brutal, e das dívidas eternas a serem pagas. Outra Europa é possível — um continente democrático, ecológico e social. Mas não será alcançado sem uma luta comum das populações europeias, que ultrapasse as barreiras étnicas e os limites estreitos do Estado-nação. Em outras palavras, nossa esperança para o futuro é a indignação popular, e os movimentos sociais, que estão em ascensão, particularmente entre os jovens e mulheres, em muitos países. Para os movimentos sociais, está ficando cada vez mais óbvio que a luta pela democracia é contra o neoliberalismo e, em última análise, contra o próprio capitalismo, um sistema antidemocrático por natureza, como Max Weber já apontou, cem anos atrás.

[1] Max Weber, «Zur Lage der bürgerlichen Demokratie in Russland»,Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik,     Band 22, 1906, Beiheft, p. 353.
[2] Citado in Perry Anderson, Le Nouveau Vieux Monde, Marseile, Agone, 2011, pp. 154,158.

Entre o Papa Francisco e seu discurso humanista e a xenofobia da direita fascista: o Ciclo do Ódio na onda conservadora e a luta pelo humanismo


Preconceito e intolerância dominam o mundo. Aqui se fala do populismo reacionário na Europa, da Alemanha de Schäuble, de Netanyahu. Desafiam a condenação de Francisco


Política

Análise / Wálter Maierovitch

O ciclo do ódio

por Wálter Maierovitch — publicado 21/08/2015 04h42 na Revista Carta Capital

Papa-Francisco

De um lado, Francisco recomenda priorizar o ser humano. Do outro, o odioso discurso da direita europeia


Conta-se que Albert Einstein teria dito ser mais fácil desintegrar o átomo do que acabar com os ódios na sociedade. Basta atentar para os primeiros sete meses de 2015 para lhe dar razão.
Sobre o tráfico de desesperados migrantes para a Europa, comove o relato do sírio Eyas Hasoun, dado ao jornal Corriere della Serano apagar de julho e logo após a morte da sua filha Raghad, de 11 anos.
A menina sofria de diabetes.  A esperança do pai era operá-la na Alemanha, onde ambos pretendiam chegar. Viajantes de um barco precário saído da Líbia, destinado ao tráfico de  seres humanos e  operado por uma das dezenas de organizações criminosas que passaram a deter parte do controle territorial e social do país depois da queda de Muammar Kaddafi, assassinado em 20 de outubro de 2011.
Segundo programado pelos traficantes de seres humanos, o barco chegaria à ilha siciliana de Lampedusa e Hasoun e Raghad fugiriam da Itália  para a Alemanha. Pai e filha enferma pretendiam manter a clandestinidade e, para isso, tentariam evitar o obrigatório registro imigratório, medida geradora de proibição de ingresso em país da União Europeia diverso daquele do desembarque. A esperança de Hasoun virou pó ao cabo da aventura vivida para deixar uma Síria em guerra, evitar as tropas fiéis a Bashar el-Assad e as decapitação por “soldados” fanáticos do Estado Islâmico. Em alto-mar, o traficante no comando da embarcação atirou a mochila de Raghad às águas, embora sabedor de conter toda a medicação necessária a mantê-la viva. Pela falta de insulina, Raghad agonizou e morreu no curso da travessia, sem largar a mão do pai, desesperado e sem alternativas.
Nem essa tragédia conseguiu abrandar a xenofobia europeia, encabeçada por líderes populistas-fascistas, como a francesa Marine Le Pen e o italiano leghista Matteo Salvini. Em cena, na Europa de hoje, duas posturas opostas. De um lado o papa Francisco, que recomenda priorizar o ser humano. Do outro, o odioso discurso da direita europeia pelo fim da migração continental, e a sustentar o enganoso discurso do “ajudar nas próprias casas, nos seus países”, como se fosse possível dissuadir fugitivos e enviar ajuda do Chifre da África à Guiné Equatorial e aportes à Ásia. Fora isso, até a esfinge de Gizé sabe que dirigentes africanos gostam de embolsar ajuda internacional e manter na miséria os seus povos.
Nesta semana, dois barcos saídos da Líbia, ambos à deriva e um deles a fazer água, emitiram o SOS, captado por portos italianos. Houve pronta ajuda e 700 fugitivos foram salvos. Esse episódio, na esteira da tragédia da menina Raghad, e de tantas outras. Desta vez, o secretário da CEI (a CNBB da Itália), monsenhor Galantino à frente, surge em cena para repisar o pensamento do papa Francisco na condenação do ódio aos imigrantes. É um revide claro a campanha da direita europeia, a clamar contra a “invasão” do continente. A ofensiva reacionária conta inclusive com a adesão de Beppe Grillo, ex-cômico, populista e líder do Movimento 5 Estrelas, hoje segundo partido da Itália com tendência ao crescimento.
A solução possível e realista em face do fenômeno imigratório e do combate ao tráfico e exploração de seres humanos ainda não foi encontrado pela União Europeia. O recente sistema de cotas, pelo qual cada país haveria de receber um número determinado de imigrantes, está à beira da falência, pelo simples fato de que chega mais gente do que o planejado. Nada melhor para a direita radical à busca de votos. O ódio assumiu uma função cada vez mais decisiva no mundo, ao sabor do preconceito e da intolerância.
Em matéria, pontifica a Alemanha, tão desmemoriada em relação ao seu próprio passado: campeão na arena, o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble, de fé luterana, protagonista do episódio do “GreExit”. E Schäuble até esqueceu ter sido a reconstrução da Alemanha pós-Hitler bancada pelos vencedores da Guerra. Para o ministro, o caso da Grécia continua sendo de simples condomínio. E a condômina da União Europeia que não cumpre as regras e deixa de pagar os débitos sujeita-se ao despejo. 
Contribuição importante ao ciclo do ódio: o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, proclama o “erro histórico” do acordo com o Irã. 


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Muito além do saber cartesiano





De que forma novas concepções filosóficas estão questionando o que imaginávamos sobre “aquisição” de conhecimentos. Como elas podem transformar a Educação e a Universidade


Werner Heisenberg, físico teórico alemão que desenvolveu, a partir de suas próprias descobertas, o Princípio da Incerteza. Examiná-lo pode ser essencial para enfrentar, de maneira propositiva,  a crise do ensino
Werner Heisenberg, físico teórico alemão que desenvolveu, a partir de suas próprias descobertas, o Princípio da Incerteza. Examiná-lo pode ser essencial para enfrentar, de maneira propositiva, a crise do ensino

De que forma novas concepções filosóficas estão questionando o que imaginávamos sobre “aquisição” de conhecimentos. Como elas podem transformar a Educação e a Universidade
Por Alex Bretas Vasconcelos - extraído do Outras Palavras
Imagine um círculo que contém todo o conhecimento humano:
1-1

Quando você completa o ensino básico, você sabe um pouco:
1-2

Quando você completa o ensino médio, sabe um pouquinho mais:
1-3

Com uma graduação, você sabe um pouco mais e ganha uma especialização:
1-4

Um mestrado te aprofunda naquela especialização:
1-5

Ler e estudar teses te leva cada vez mais em direção ao limite do conhecimento humano naquela área:
1-6

Quando chega lá, você se foca:
1-7

Você tenta ultrapassar os limites por alguns anos:
1-8

Até que um dia os limites cedem:
1-9

Este pequeno calombinho de conhecimento que ultrapassou os limites é chamado de doutorado
(Ph.D.):
1-10

É claro que na sua visão de mundo fica diferente:
1-11
Mas não esqueça da dimensão das coisas:
1-12
Fonte: “The Illustrated Guide to a Ph.D”, de Matt Might.
Esta é a forma que Matt Might, professor da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, encontrou para explicar didática e visualmente o que é um doutorado. Inspirado pelo modelo de Matt, também busquei um jeito de comunicar minha visão a respeito do doutorado informal, da qual falarei no próximo post. Antes de apresentá-la, porém, vale destacar quatro questionamentos que tive enquanto lia a explicação de Matt. Vamos a eles:
Só se aprende na escola ou na universidade?
A sequência de gráficos tende a uniformizar os caminhos de aprendizagem, admitindo implicitamente que somente se adquire conhecimento quem segue o trajeto ensino básico  —  ensino médio  — graduação —  mestrado  — doutorado. Não é porque essa via conteudista ainda seja mais valorizada hoje que outros aprenderes deixem de ter importância.
O caso do mecânico mineiro Alfredo Moser, que inventou as lâmpadas engarrafadas que iluminam a partir da luz do sol, exemplifica quão fundamental é estar atento para as aprendizagens da vida. A partir da necessidade  — a invenção foi feita durante os apagões de 2002 –, Alfredo criou uma forma de se obter luz que não depende da energia elétrica e utiliza apenas água, um pouco de cloro e garrafas pet. Hoje, suas lâmpadas bioeficientes já estão instaladas nas casas de centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo.
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Alfredo Moser e suas lâmpadas de garrafa pet
Somando-se à questão inicial, trago outra pergunta, mais polêmica:
Alguém que fez doutorado tem, necessariamente, mais conhecimentos do que aquela pessoa que não completou o ensino fundamental?
Cada um de nós responderá de acordo com suas crenças e interpretações. Eu acredito que não: isso porque não vejo o conhecimento acadêmico ou científico como superior a nenhuma outra forma de se conhecer. Paul Feyerabend já denunciava o privilégio que a ciência adquiriu historicamente frente a outros campos por um suposto método científico padrão e infalível. Sinceramente, não é porque eu frequentei mais tempo escolas e universidades do que Alfredo Moser que sou mais conhecedor do mundo do que ele  — isso é uma daquelas verdades que às vezes aceitamos sem questionar.
Aliás, a própria construção dessa pergunta já encerra uma crença de que é possível quantificar o aprender, isto é, alguém “ter mais” conhecimentos do que outro. Como se fosse uma competição (infelizmente, muitas vezes ainda é). Falaremos disso mais à frente.
Os conhecimentos humanos existem antes que as pessoas interajam com eles?
A explicação de Matt pressupõe que o conhecimento já existe, e o que as pessoas podem fazer é adquiri-lo e acumulá-lo por meio de sucessivas incursões escolares. A visão de mundo por trás desse raciocínio é o realismo — isto é, há uma realidade objetiva (imutável) e cada um de nós abocanha o que consegue por meio de suas ferramentas cognitivas.
Essa visão ainda é bastante cara a vários nichos da comunidade científica, mas já foi discutida e relativizada exaustivamente pela filosofia. No campo das ciências, alguns físicos quânticos e biólogos (para citar alguns, dentre psicólogos, cientistas sociais e vários outros) começaram a cutucar essa ideia porque suas pesquisas apontavam para evidências incongruentes com o paradigma da qual ela se origina. O princípio da incerteza de Heisenberg, na primeira metade do século XX, e mais recentemente a Biologia do Conhecer de Humberto Maturana são exemplos de achados científicos que sedimentaram o caminho para que alguns cientistas começassem a questionar o materialismo. Em seu lugar, vem à tona a intersubjetividade.
Desta forma, os conhecimentos humanos — tecnologias, métodos, saberes, teorias, invenções e tantos outros  —  passam a existir porque nós nos relacionamos com eles. Mais precisamente, nós os cocriamos continuamente por meio da linguagem. Interagimos com o mundo, com os outros e conosco e a nossa realidade vai surgindo assim, de uma forma diferente para cada pessoa e para cada ser vivo.
É por isso que pressupor uma grande soma de conhecimentos a priori, acessível de modo igual a todos que frequentam determinadas instituições é inconsistente com uma visão de realidade intersubjetiva. Meu aprender vai sendo sempre diferente e único, não dá pra achar que é indústria.
Apenas os doutores podem somar novos conhecimentos à humanidade?
Vejamos: só quem chega no “topo” da escalada do conhecimento humano pode agregar novos desdobramentos a ele. Não coincidentemente, esses alguéns são os doutores.
Já vimos porque não se aprende somente na escola ou na universidade e porque não faz sentido, segundo uma visão mais relativizada de mundo, pressupor que os conhecimentos estão dados e existem a despeito de um sujeito que se relaciona com eles. Agora, para responder a esse novo questionamento, gostaria de propor algumas reflexões.
Se a construção do conhecimento não é objetiva e o aprender é com a vida, então todos nós, sujeitos plenamente capazes de interagir com o mundo (cada um à sua maneira) podemos sim fazer descobertas, criar inovações e sustentar novas perspectivas. Pessoas fazem isso o tempo todo e os aprendizados que elas fazem florescer são decisivos para diversas comunidades ao redor do globo, não apenas para a comunidade científica. O exemplo que citei de Alfredo Moser e sua invenção da luz engarrafada ilustra perfeitamente isso.
Cada vez mais, acredito que a humanidade se interessará e precisará de inovações que surjam da cocriação, que atravessem as relações hierárquicas das instituições acadêmicas e escolares e que bebam da aprendizagem intersubjetiva de cada um.
Por outro lado, você poderia me dizer que a sequência de imagens de Matt está se referindo apenas ao campo científico, pelo fato do objeto em questão ser o doutorado acadêmico. Isso invalidaria, de certa forma, o que eu acabei de argumentar. Ainda que, especificamente no domínio da ciência, a regra do doutor como proponente oficial da inovação possa valer, penso que também a comunidade científica poderia ser muito beneficiada caso isso fosse revisto.
Estudantes de graduação e mestrado – e não raro também os doutorandos  — passam anos acreditando não poder criar coisas novas. Como seria a universidade se, desde o primeiro momento de cada estudante, o ambiente estimulasse radicalmente a descoberta e a inovação? Certamente haveria mais erros, e isso seria ótimo, inclusive para o progresso da ciência.
 Todos nós “adquirimos” conhecimento da mesma forma?
Suponha que a sequência explicativa de Matt represente a minha própria trajetória educacional. Uma outra pessoa, ainda que tenha passado pelas mesmas instituições de ensino que eu, teria seu “gráfico de conhecimentos” muito diferente do meu. Na verdade, isso aconteceria mesmo se fôssemos gêmeos idênticos, porque a maneira com que cada um de nós percebe, conhece e se relaciona com o mundo é singular. Pressupor que pessoas diferentes têm o mesmo “nível” de conhecimento ao terminarem o ensino médio, por exemplo, é querer quantificar o que é eminentemente qualitativo e, além disso, desconsiderar as relações distintas que cada um estabelece com os conteúdos e com a vida. A rigidez e a uniformidade que boa parte das escolas e universidades nos impõe tenta nos fazer acreditar que nossas aprendizagens deveriam ser as mesmas… Mesmo assim, no fundo sabemos que não funcionamos assim.
A própria ideia que criamos, de “aquisição” de conhecimentos, como se fossem produtos industrializados que pegamos na prateleira do supermercado, é uma imagem que deriva de uma compreensão estática e objetiva da realidade. O conhecimento não está lá para pegarmos, ele é construído biológica e culturalmente por nós, numa lógica muito mais “toque do chef” do que comida manufaturada. Somos como grandes chefs de cozinha que conseguem transformar simples ingredientes em pratos saborosos e incomparáveis: ao interagirmos com a realidade, produzimos percepções únicas sobre o que distinguimos, isto é, conhecimento.
Pode parecer que eu não gostei do modelo que Matt criou, mas isso não é verdade. A parte final da narrativa é especialmente interessante, pois propõe aos doutores “descerem do salto” e perceberem o tamanho do conteúdo das suas teses em relação a todo o conhecimento existente no mundo. Além disso, partindo de uma proposta calcada no diálogo, não me cabe desqualificar um ponto de vista, tampouco achar que a minha visão é melhor. Mas, cabe sim eu poder expressá-la.
Em suma: a sequência de figuras diz o que é um doutorado, mas é importante dizer segundo quem. Minha visão de mundo vai mais na linha “toque do chef”.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Se tem gente usando da liberdade para pedir a volta da Ditadura e da falta de liberdade, ou da Monarquia e sue hierarquia familiar elitista,. Então, não paremos nisso, vamos radicalizar



Pesquisa realizada pelo grupo Opinião Pública, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) durante o último protesto do dia 16 revela a incoerência dos manifestantes



Manifestantes de BH revelam incoerências sobre golpe e situação econômica do país

Maioria dos que foram ao centro da capital mineira no domingo era de classe A e B. Metade já votou no PT, maioria votou em Aécio Neves no segundo turno de 2014, mas menos de metade votaria de novo

por Rodrigo Gomes, da Rede Brasil Atual RBA publicado 18/08/2015 


WILLIAN MARQUES/PHOTO PRESS/FOLHAPRESS

antipete
Apesar do apelo de que o país está afundando na crise, dois terços dos manifestantes não têm conta atrasada

São Paulo – Pesquisa realizada pelo grupo Opinião Pública, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), durante os protestos pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no último domingo (16), em Belo Horizonte, revela, por exemplo, incoerência dos manifestantes quando se posicionam sobre um golpe militar para tirá-la do poder ou quanto à piora nas condições de vida. Como em abril, a pesquisa de agora constata que é grande a aversão aos programas sociais do governo federal, como o Bolsa Família, as cotas raciais e o Mais Médicos. Novos dados trabalhados foram os sentimentos de aversão, raiva e tristeza relacionados ao PT.
Embora o discurso mais aguerrido de defesa de uma intervenção militar tenha se reduzido em relação às primeiras manifestações, apenas 13% dos manifestantes entrevistados ainda dizem que esta seria "a melhor saída" neste momento. Porém, quando questionados sobre qual seria a melhor ação para livrar o país de uma situação de desordem social, 46,8% são favoráveis à intervenção militar – demonstração de que, embora não defendam diretamente, muitos também não se opõem a um golpe de Estado para tirar o PT do poder.
A mesma incoerência é registrada quando o assunto é a crise econômica: 93,1% dos entrevistados consideram que a situação do país está ruim ou péssima. Perguntados sobre como está a situação financeira pessoal, comparada com dez anos atrás, 66,6% responderam que está pior. No entanto, quando questionados se têm alguma conta em atraso, há pelo menos 30 dias, 67,5% dizem não ter nenhuma dívida atrasada.
"O que percebemos é que, apesar da alta renda e do grau de instrução, os manifestantes não têm coerência ao apontar problemas ou soluções. Está tudo ruim, mas as contas estão em dia. Não aceitam a pecha de golpistas, mas são favoráveis a intervenção militar se houver 'desordem'", destacou a professora Helcimara de Souza Telles, do programa de pós-graduação em Ciência Política da UFMG.
Os manifestantes também se mostraram indecisos quando o assunto é o direito à terra rural. Quando questionados sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os defensores do impeachment foram majoritariamente avessos à entidade: 78,6%. Ao mesmo tempo, 57,7% se disseram favoráveis à reforma agrária, principal objetivo da luta do MST. Para a professora, o que pesa neste caso é que os sem terra são frequentemente associados, pela mídia tradicional, ao PT e à baderna, representada no imaginário dos entrevistados pela ocupação de propriedade privada, sem considerar o fim social da terra. "Mas a reforma agrária ampliaria a possibilidade de obter propriedade, o que é bem visto por eles", explica a professora.

Perfil

Os pesquisadores realizaram 434 entrevistas durante todo o dia, na Praça da Liberdade, centro da capital mineira, onde pelo menos 7 mil pessoas realizaram um dos protestos pelo impeachment da presidenta Dilma.
O recorte socioeconômico medido foi semelhante ao da manifestação de abril, com 56,6% dos manifestantes com renda superior a cinco salários mínimos, enquanto 30,6% têm renda superior a dez mínimos. Quanto ao grau de instrução, 52,3% tinham ensino superior completo e 12,2% ingressaram neste nível sem terem completado os estudos.
Pelo menos um terço deles participava pela primeira vez de uma manifestação organizada pela direita após as eleições do ano passado. Do total, 29% disseram protestar contra a corrupção e 41,7% tinham como alvo direto o governo petista. Para 77,2% dos manifestantes, a melhor saída para o país seria a renúncia ou o impeachment de Dilma. Outros 73,3% consideram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "um dos maiores malfeitores do Brasil".
Embora a manifestação fosse claramente contra o PT, Helcimara destacou que 53,7% dos manifestantes declararam ter votado no partido de Lula pelo menos uma vez. E uma proporção muito próxima, entre 53% e 56%, dão nota máxima, em uma escala de zero a dez, aos sentimentos de "aversão", "raiva", e "tristeza" em relação à legenda.
A mesma relação se aplica quando o questionamento envolve a presidenta Dilma. "É possível que muitos tenham votado em Lula para presidente. Isso me parece um alerta ao PT. As pessoas demonstram se sentir traídas", afirma a professora.
De acordo com a pesquisa, os principais motivos de oposição ao PT entre os manifestantes de Belo Horizonte são os programas sociais. Para 74,5% deles, o Bolsa Família deixa as pessoas preguiçosas. Outros 61,3% são contra a vinda de médicos cubanos ao país. E 64,7% defendem a extinção das cotas raciais.
Além disso, os pesquisadores observaram um sentimento de superioridade quanto a outras classes ou regiões do país. Para 52,1%, "os nordestinos têm menos consciência política na hora de votar do que as pessoas de outras regiões do país" e para 74% "os pobres são mais desinformados na tomada de suas decisões políticas".
Apesar do perfil conservador, os manifestantes também se mostraram divididos quando perguntados sobre porte de armas para "cidadãos honestos" (53% favoráveis), legalização do aborto (46,5% favoráveis), pena de morte (41,5% favoráveis).
Os itens em que o posicionamento foi mais definido entre os manifestantes mineiros foram a redução da maioridade penal (74,5% favoráveis), a liberação do consumo de maconha (67,5% contrários) e casamento entre pessoas do mesmo sexo (61,1% favoráveis).
Já em relação à reforma política, houve expressivo apoio ao fim do financiamento privado de campanhas eleitorais (61,3%) e ao fim da reeleição (73,9%). Quanto à chamada Agenda Brasil, 60,3% se mostraram contrários ao aumento do tempo de trabalho para a aposentadoria, mas 43% se disseram favoráveis à cobrança no Sistema Único de Saúde para os mais ricos.
Mesmo estando presente na manifestação – também pela primeira vez –, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) já não encanta tanto os manifestantes mineiros, segundo dados colhidos pelos pesquisadores.
Dos entrevistados, 78,6% dizem ter votado no tucano no segundo turno da última eleição, mas somente 48,6% afirmam que votariam nele hoje. Entre os demais, 6% disseram que votariam no ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa e outros 6,7% no deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ). E 19% não têm candidato.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

New York Times faz duro editorial contra o golpismo no Brasil


Jornal GGN - Em editorial publicado ontem (17), o jornal norte-americano The New York Times analisa a crise política do Brasil e afirma que forçar a presidente Dilma Rousseff a deixar o cargo sem evidências concretas de erros causaria um grave dano para a democracia brasileira, que vem se reforçando há 30 anos. “Nada sugere que os líderes à espreita fariam um melhor trabalho na economia”, considera o editorial.
O jornal também fala que a força das instituições brasileiras é uma “boa notícia”, já que os procuradores que investigam a corrupção não foram dissuadidos por posições hierárquicas, e que Dilma, “admiravelmente”, não se esforçou para influenciar as investigações.
Leia o editoral no site do New York Times aqui.
Do UOL
O Brasil está em frangalhos. A economia enfrenta uma recessão que se aprofunda: na última terça-feira (11), a agência Moody's rebaixou a nota de crédito do país para praticamente lixo. Um enorme escândalo de corrupção ligado à companhia nacional de petróleo, Petrobras, envolveu dezenas de políticos e empresários.O legislativo está em revolta. O índice de popularidade da presidente Dilma Rousseff, menos de um ano após sua reeleição, caiu para apenas um dígito, eprotestos em todo o país no domingo (16) reverberaram com pedidos de impeachment.
Em toda essa turbulência, é fácil não ver a boa notícia: a força das instituições democráticas brasileiras. Ao processar a corrupção na Petrobras, os promotores federais de uma unidade especial anticorrupção do Ministério Público não foram dissuadidos por posições hierárquicas, aplicando um golpe na forte cultura da impunidade entre as elites do governo e empresariais.
Antigos executivos da Petrobras foram presos, assim como o rico executivo-chefe da gigante da construção Odebrecht, Marcelo Odebrecht, e o almirante que supervisionava o programa nuclear secreto do Brasil. Muitos outros enfrentam escrutínio, incluindo o antecessor e mentor de Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Embora as investigações tenham criado enormes problemas políticos para Rousseff e levantado questões sobre seu período de sete anos na presidência [do Conselho de Administração] da Petrobras, antes de se tornar chefe de governo, ela, admiravelmente, não se esforçou para constranger ou influenciar as investigações.
Pelo contrário, constantemente enfatizou que ninguém está acima da lei e apoiou um novo mandato para o promotor-geral encarregado do processo da Petrobras, Rodrigo Janot.
Até agora, as investigações não encontraram provas de atos ilegais de sua parte. E embora Rousseff seja sem dúvida responsável pelas políticas e grande parte da má administração que derrubaram a economia brasileira, estas não são ofensas que levem a um impeachment.
Forçar Rousseff a deixar o cargo sem evidências concretas de erros causaria grave dano à democracia que vem se reforçando há 30 anos, sem qualquer benefício compensatório. E nada sugere que os líderes à espreita fariam um melhor trabalho na economia.
Não há dúvida de que os brasileiros enfrentam tempos difíceis e frustrantes, e as coisas provavelmente vão piorar antes de melhorar. Rousseff também deverá sofrer muito mais críticas e problemas. Mas a solução não deve ser minar as instituições democráticas, que, afinal, são as garantias de estabilidade, credibilidade e governo honesto.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


A marcha machista dos facistas e as panelas da Casa Grande


"O desrespeito à história de luta por democracia e superação das desigualdades tem sido a marca dos protestos da direita brasileira. E o machismo se esmera para demonstrar seu deboche pela presença de uma mulher no poder. Os pintos caem mas a natureza dos estupradores permanece em alta." - Rita Freire


A marcha e as panelas da Casa Grande, por Rita Freire

Por Rita Freire
O desrespeito à história de luta por democracia e superação das desigualdades tem sido a marca dos protestos da direita brasileira. E o machismo se esmera para demonstrar seu deboche pela presença de uma mulher no poder. Os pintos caem mas a natureza dos estupradores permanece em alta.
Pelada ou de verde-amarelo, a elite reacionária está desfilando em redes e ruas, pedindo atraso com um "q" de nostalgia. No fim, essas passeatas estão deixando bem claro o que empurra o país para baixo. Interessante é o gostinho que parcela da classe média experimenta de atender a convocatória das redes, por sua vez ocupada pelo discurso da grande mídia, e sair à campo para disputar as ruas.
Do ponto de vista midiático, a horda já sai do estacionamento para o asfalto com muitos pontos a favor em relação aos que usam as ruas para reivindicar direitos. As cem mil margaridas do campo que floriram Brasília na semana passada não valem para a mídia privada a imagem de uma dondoca lamentando que Dilma esteja viva.
O efeito facebook no Brasil traz maior alegria aos que gozam de conexão rápida, do notebook ao smartphone, e se arrogam a ilusão de falar em nome do povo ( e a banda larga, cadê?). Esse direito de expressão democratizado está longe das sinalizações do governo e do Congresso. Se a internet chegar à favela, será dentro dos cercadinhos do sr. Mark Zuckerberg, em projetos do tipo internet.org. E ele sabe usar. Até outro dia, era regra do facebook não permitir mudanças no título de um evento que já tivesse mais de 500 seguidores. De hora para outra a regra mudou. E um chamado contra Aécio Neves, com milhares de adesões, foi transformado em evento contra o PT, com pencas de mineiros que odeiam o ex-governador engrossando o caldo involuntariamente. Distraído nesses casos, parece que o facebook afrouxa as regras.
Tirando os truques e a generosidade da mídia com as panelas, que em 6 de agosto bateram sem alma, nem beleza, nem a sinceridade do lamento, nem um pouco da rebeldia das latas e tambores do Brasil, há algo a notar. Em cenas de envergonhar descendentes por várias gerações, os canarinhos da direita estão aos poucos se isolando em si mesmos, deixando por rastro um espetáculo de horror.
Os manifestantes deste domingo escancararam que não dão a mínima para a criminalidade ou a corrupção que faz grande parte da esquerda se envergonhar diante dos dedos em riste dos juizes e da premiação espetacular aos delatores. A dignidade da denúncia sucumbiu diante da nova autoridade midiática conferida aos alcaguetes. Entre a necessidade da autocrítica e da resistência aos ataques, a esquerda e simpatizantes, até outro dia, do ciclo petista, agora se paralisam. Não há defesa cega que permita incluir a corrupção como parte da regra do jogo. E não há como encher as panelas dos que acreditam em soluções higienistas.
A esquerda deveria barrar o repasse da conta da crise econômica aos trabalhadores e levantar-se contra os ajustes. . Mas quem quer saber do que de fato está em jogo? Onde é possível o debate aberto e comprometido sobre o futuro do País?
Aliados do governo que se perguntam onde estão as bases organizadas e mobilizadas que alçaram o PT ao terreno da disputa pelo poder,quase também não encontram pistas, desde que o próprio PT desvencilhou-se o mais que pode destas bases para completar o percurso até o Planalto. Em algum lugar do caminho, a tentação da trilha mais curta minimizou o preço das concessões ao carrasco, que agora apresenta fatura alta. Há um grande debate a ser feito. Mas o caso dos manifestantes batedores de panelas é outro.
Não há decência no discurso das ruas de domingo. Manifestantes assumem sem pudor que são " todos Cunha", o ícone da corrupção instalada no Congresso, e que matariam, se pudessem, os que resistiram à tortura. Ignoram as chacinas, aplaudem linchadores, desdenham da população negra que clama contra a matança de sua juventude. Querem mandar os jovens mais cedo para as cadeias, e lavar as mãos quanto ao seu futuro. Não há civilidade em querer caçar o direito do voto das famílias beneficiárias dos programas sociais ou em reivindicar a sonegação como direito. Não há seriedade em manter o financiamento empresarial das campanhas, que mantem o poder público sob o jugo dos interesse privados.
O que de fato anima os manifestantes e faz bocas salivarem é a perspectiva de um golpe que restitua seu papel de elite abraçada ao poder. A história da resistência aos demandos da ditadura de fato não interessa. Jovens enfileirados e em pose de servidão facista metem novo 7X0 na autoestima do povo brasileiro, que precisou lutar muito mais por democracia, do que pelos títulos da seleção.
Bundas expostas revelaram machos decadentes que não concebem a idéia de uma mulher no poder, sem achar que é seu papel baixar as calças em cerco coletivo. Os pintos caem mas a natureza dos estupradores permanece em alta.
À luz do dia, e no foco narcisista dos selfies, não é tão ruim que o diabo se mostre em toda sua mesquinharia. Só assim dá pra assistir a lenta e encabulada deserção dos desavisados e mandar o recalque de volta para o seu destino: a força que empurra as paredes das senzalas no Brasil, é a que vai abater, sem dó, essa arrogância vexatória da Casa Grande.