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domingo, 17 de julho de 2016

Luiz Carlos Azenha e o Curso para (se isso fosse possível) "Coxinha Esclarecido"




CURSO PARA O COXINHA ESCLARECIDO

Agora que você conseguiu derrubar uma presidente da República com premissas e argumentos falsos, é hora de sofisticar sua capacidade de debate.

Não seja confundido com um mero seguidor do intelectual pornô Alexandre Frota. Pega mal na turma.

Você certamente é muito mais sofisticado que isso.

Provavelmente você é admirador dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, do Estado Mínimo, escrito assim em maiúsculas para denotar a centralidade deste item na pauta neoliberal.

Nunca confunda uma coisa com outra. Por mais que a Miriam Leitão sugira isso, os Estados Unidos não são um Estado Mínimo.

Palavra de quem morou lá duas décadas e tem duas filhas novaiorquinas (na verdade, de tripla nacionalidade, dentre as quais preferem a brasileira), com direito a tirar proveito do estado de bem estar social dos Estados Unidos.

Você costuma confundir estado de bem estar social com comunismo (como em Bolsa Família, médicos cubanos etc.). Nos Estados Unidos, ele é resultado do anticomunismo.

Preste atenção: quem implantou o estado de bem estar social nos Estados Unidos foi o presidente Roosevelt. O país vinha do crash econômico de 1929. Depressão econômica. Os sindicatos eram fortes.

Para cooptar os sindicatos e evitar a ascensão dos comunistas, Roosevelt resolveu implantar programas sociais e salvar o capitalismo. Portanto, as coisas que ele bolou e implantou eram uma forma de combater o comunismo. Logo, anticomunistas.

Chamar o Roosevelt de comunista é tão absurdo quanto chamar o Lula ou a Dilma ou o PT de comunista. Eles são social democratas.

No Brasil, o partido que tem social e democratas no nome não é nem uma coisa, nem outra.

Voltemos aos Estados Unidos. Por mais que a partir daquele seu grande herói, o Reagan, os EUA tenham dilapidado o estado de bem estar social, os pilares deles subsistem: Social Security, Medicare, Medicaid e Food Stamps.

Pode chamar de Previdência Social, Bolsa Terceira Idade, Bolsa Plano de Saúde e Bolsa Família.

Essa ideia, de que o Estado deve ajudar a cuidar dos mais fodidos, é uma coisa antiga, que surgiu em outro país que você admira muito, a Alemanha. Mas não quero dar overload de informação no seu cérebro.

Basta você registrar isso: por causa dos programas sociais acima — e de outros fatos que apresentarei em seguida — os Estados Unidos não são um Estado Mínimo.

Pelo contrário, os EUA se assentam sobre um Megaestado, muito maior que o brasileiro.

Se você quer alguns exemplos de Estado Mínimo, eu os ofereço: México, Honduras e Paraguai, países que você certamente despreza e nunca utiliza como exemplo para reforçar seus argumentos.

Portanto, sempre que você falar em Estado Mínimo, esqueça os Estados Unidos e diga: “Devemos fazer como lá no Paraguai, que…”

Acrescente, em seguida, os argumentos pelos quais o Brasil deve seguir o mesmo caminho. A gente quer coxinhas sofisticados e intelectualmente honestos!

INTERVENCIONISMO ESTATAL

Caro amigo, você passou com louvor pela primeira aula. Para encarar a segunda, temos de voltar no tempo.

Vamos falar sobre intervencionismo estatal.

Anos 70. Você não tinha nascido. Eu estudava na Old Mill Senior High School, no condado de Glen Burnie, estado de Maryland. Fiz todas aquelas bobagens que você vê nos filmes de escola gringa, inclusive levar a linda Töve, estudante sueca, ao baile de formatura.

Meu pai americano era vendedor de seguros e trabalhava em Baltimore, cidade que visitei algumas vezes.

Os americanos, como a minha família, tinham se mudado em massa para loteamentos distantes, tipo Alphaville.

A indústria de base tinha abandonado o país em busca de salários mais baixos em outros lugares do mundo.

Sem a grana dos impostos, as áreas metropolitanas tinham entrado em decadência profunda: prédios abandonados, crime, tráfico de drogas.

É óbvio que você, que prega o Estado Mínimo, defenderia para este caso uma solução tocada pela mão invisível do mercado.

Se você condena o BNDES, bote um isordil sob a língua para encarar o que vou te contar.

Os governos americanos enfrentaram o problema despejando bilhões de dólares na recuperação dos centros urbanos, em dinheiro vivo ou deixando de cobrar impostos.

Funcionou mais ou menos assim: os governos reduziram os impostos para empresas que se instalassem em áreas degradadas.

Em alguns casos, exigiram que as empresas contratassem moradores locais.

Com salário garantido, os moradores financiavam apartamentos em prédios reformados com dinheiro público, tipo Minha Casa Minha Vida.

Que horror! Puro dirigismo estatal.

Baltimore ganhou um lindo shopping center bem na marina. Cleveland, Detroit… aconteceu o mesmo num grande número de cidades dos Estados Unidos.

Mais tarde, foi assim no Harlem e no Times Square, em Nova York.

Quando conheci o Harlem, em 1985, parecia um bairro recém bombardeado. Hoje você pode até ir àquela missa gospel recomendada pelos reaças do Manhattan Connection, também defensores do Estado Mínimo (para os outros).

E você que pensou que o intervencionismo estatal nos Estados Unidos fosse coisa da crise de 2008, quando o Obama salvou os bancos e a General Motors!

Portanto, quando você fizer o próximo selfie diante daquele teatro da rua 42, escreva na legenda: “Mamando nas tetas do Estado americano”.

O Lion King só passa lá por conta do intervencionismo estatal com dinheiro público.

MANIPULAÇÃO DO LIVRE MERCADO COM AJUDA BILIONÁRIA AOS MAIS RICOS

Chegamos ao último capítulo: manipulação do “livre mercado”, aquele pelo qual você tem uma admiração quase religiosa.

Sabemos que você abomina o Bolsa Família: distorce a livre competição por mão de obra no mercado de trabalho.

Note, no entanto, que este não é um “problema” exclusivamente brasileiro.

Na tão admirada América — é assim que você chama os Estados Unidos — o número de usuários da versão local do Bolsa Família, os Food Stamps, está próximo de 45 milhões de pessoas.

Sabe por que os Food Stamps sobrevivem na América? Não é apenas por causa da compaixão dos conservadores.

O programa é defendido pela indústria da alimentação! Há restrições ao que pode ser comprado com o cartão, que foca nos produtos da indústria local de alimentos processados. Assim, ela fatura uma enormidade com os pobres.

Portanto, quando o Lula falava que o Bolsa Família fazia girar o comércio e a indústria locais, não é que ele tinha razão?

Mas, na terra do suposto Estado Mínimo, os Food Stamps são um exemplo menor de como o dinheiro público ajuda os mais ricos.

Nem sempre beneficiando os mais pobres.

Você já pensou o que representam para a indústria farmacêutica as compras governamentais dos Estados Unidos?

Elas são tão importantes para os lucros das companhias que o Congresso, cedendo ao lobby das farmacêuticas, proibiu — em alguns casos — o governo de negociar diretamente com as empresas para baixar o preço das drogas oferecidas nos programas públicos.

O Estado Mínimo paga o Preço Máximo!

É uma baita distorção do Livre Mercado, que vai parar direto no bolso de companhia farmacêuticas trilionárias.

Como exemplo final, os subsídios da agricultura. Você sabia que a América gasta U$ 45 bi anuais para bancar o plantio de trigo, algodão, milho, soja e arroz?

Sabia que a grana fica principalmente com as grandes empresas do agribusiness, em vez de ajudar os agricultores mais pobres?

Você, que sempre protesta contra os subsídios da Lei Rouanet, deveria protestar contra o David Rockefeller: o bilionário levou meio milhão de dólares em subsídios agrícolas do Estado Mínimo!

Sabe as consequências do Bolsa Fazendeiro?

Mais pobreza na África e na América Latina, cujo potencial exportador fica comprometido pelo derrame de dólares em larga escala na produção agrícola da América — os europeus, aliás, fazem igualzinho.

Portanto, em sua próxima viagem a Miami, não esqueça de reservar um dia para protestar. Junte os amigos pelo Facebook.

Sugestão de faixas, direto do Google Translator: “Food Stamps is a factory of floaters”, “Rockefeller suckle the government teats”, “Military intervention already”.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo

domingo, 6 de março de 2016

Fim do mistério da mansão global de Paraty


Agropecuária dona da propriedade e empresa do genro de João Roberto Marinho têm o mesmo endereço

por Luiz Carlos Azenha e TC publicado 02/03/2016 14:59, última modificação 02/03/2016 15:15 via Rede Brasil Atual
CC/ WIKIMEDIA
mansao.jpg
Mansão tríplex em praia de Paraty tem alguns donos, e todos têm ligação com os Marinho
Viomundo – Na página 15 do registro de número 1030822 da Junta Comercial do Estado de Minas Gerais (Jucemg), de 25/10/2010, o empresário Alexandre Chiappetta de Azevedo se declara testemunha da formação de um consórcio. Alexandre era genro de João Roberto Marinho, vice-presidente do Grupo Globo, casado com uma das netas de Roberto Marinho, Paula.
O consórcio formado em Minas Gerais uniu duas empresas. De um lado, a Agropecuária Veine Patrimonial. Está em nome dela a Paraty House, a mansão de concreto construída de forma irregular na praia pública de Santa Rita, no litoral do Rio de Janeiro.
Foi a engenheira florestal Graziela Moraes Barros, do Instituto Chico Mendes, que ligou o "tríplex de Paraty" à família Marinho, em entrevista que deu à Bloomberg, publicada em 8 de março de 2012: "Ricos brasileiros não têm vergonha de construir em área de preservação ambiental".
Em notificação a blogs através de sua advogada, João Roberto Marinho informou que "a notícia é inverídica", pois a casa e as empresas ligadas a ela "não pertencem, direta ou indiretamente, ao notificante ou a qualquer um dos demais integrantes da família Marinho".
Voltando ao consórcio: do outro lado do contrato registrado na Jucemg estava a Santa Amália Administração e Participações Ltda. Ela tem como endereço a rua Margarida Assis Fonseca, 171, na capital mineira.
O Viomundo esteve lá. É a sede da Brasif, que já operou free shops em aeroportos brasileiros e hoje aluga máquinas pesadas. Pertence ao pecuarista e empresário Jonas Barcellos. A Brasif, de Jonas, admitiu recentemente ter contratado a jornalista Mirian Dutra, ex-amante de Fernando Henrique Cardoso, para prestar serviços no exterior.
Mirian, repórter da TV Globo, exilou-se quando, grávida, ouviu do então senador FHC que poderia ter o filho de qualquer um, menos dele, que era casado com a antropóloga Ruth Cardoso e pretendia chegar ao Planalto, como chegou. O caso será investigado pela Polícia Federal, já que FHC ainda ocupava o Palácio do Planalto quando o contrato foi assinado e a Brasif era à época concessionária do governo federal.
O objetivo do consórcio Brasif-Santa Amália-Veine, estabelecido em 2010, foi trazer para o Brasil um helicóptero.
Diz o contrato: "As partes pretendem conjugar esforços para realizar uma operação de arrendamento operacional de um helicóptero Agusta A109E Power, com número de série 11764, com importação da aeronave para o Brasil pelo regime de admissão temporária para utilização da mesma pelas consorciadas e seus executivos".
A mansão de Paraty tem heliporto. Um vôo entre a Lagoa Rodrigo de Freitas — de onde decolam, inclusive, os helicópteros da Globo — ou o aeroporto de Jacarepaguá à Paraty House dura menos de duas horas.
O contrato que formou o consórcio teria duração de cinco anos.
A participação da Veine era de 70%. Por isso, a empresa tinha prioridade no uso do helicóptero, que ficou baseado no Rio de Janeiro.
"Todas as notificações e comunicações feitas de acordo com este Contrato de Consórcio devem ser feitas por escrito", diz o contrato na página 14.
O endereço de entrega da correspondência da Agropecuária Veine, a dona da mansão de Paraty, aparece como: Avenida Borges de Medeiros, 1424, na Lagoa Rodrigo de Freitas.
No documento, Lúcia Cortes Pinto aparece como a sócia da Veine que nomeia uma procuradora.
Lúcia é uma das sócias originais da empresa. Ela teria entrado com 10% das ações. Os outros 90% eram da Blainville, empresa panamenha que tinha como procurador o contador Jorge Lamenza.
Lúcia mora no Grajaú, um bairro de classe média do Rio. Ela desligou o telefone quando consultada se foi mesmo sócia da Veine.
O endereço de correspondência:
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O endereço de correspondência da Agropecuária Veine no Rio que aparece no documento de formação do consórcio – avenida Borges de Medeiros, 1.424 – é onde funciona a empresa do genro de João Roberto Marinho, que os cariocas conhecem como Lagoon.
É um controverso empreendimento que montou cinemas, restaurantes e estacionamento no estádio de remo da Lagoa Rodrigo de Freitas. A Lagoa é um dos endereços mais valorizados do Rio.
No dia 22 de setembro de 1997, o governador e o prefeito do Rio, respectivamente Marcello Alencar e Luiz Paulo Conde, concederam ao genro de João Roberto Marinho, sem licitação, o uso do estádio de remo para fins comerciais.
Era para ter sido a "título precário", conforme está escrito no contrato inicial (leia abaixo). Em 2017, o acordo "precário" completará duas décadas.
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O contrato foi renovado por outros governantes, sempre sem concorrência pública. Em 15 de junho de 1998 foi celebrado o primeiro aditivo. Pelo governo do estado assinou Anthony Garotinho. Pela empresa permissionária, Alexandre Chiappetta de Azevedo . Como fiadora, assinou Paula Marinho de Azevedo, a filha de João Roberto Marinho, mulher de Alexandre.
Naquele primeiro aditivo foi mantida a mesma cláusula de compensação financeira: pagamento mensal de 10% do valor faturado ou, no mínimo, R$ 25 mil.
Porém, segundo ação movida pelo Ministério Público Estadual, entre 1997 e 2003, a empresa nunca recolheu o aluguel, tendo dívida calculada então em mais de R$ 3 milhões.
O remo é um esporte muito tradicional no Rio. Tombado pelo patrimônio histórico, o estádio é um ícone para os praticantes. Muitos deles passaram a reclamar que a empresa permissionária se voltou para atividades comerciais desligadas do objetivo de incentivar o esporte.
Em dezembro de 2006, em preparação para os Jogos Panamericanos de 2007, a arquibancada do estádio de remo foi demolida. Um oficial de Justiça levou uma ordem judicial que deveria ter paralisado a implosão, por conta de tratar-se de prédio tombado. Mas os engenheiros foram orientados a prosseguir.
O estado alegou que a ordem deveria ter dado entrada na Procuradoria.
Novas arquibancadas foram erguidas com dinheiro público. Com um detalhe: foram feitas já com a capacidade de abrigar as salas de cinema que hoje funcionam no empreendimento do genro de João Roberto Marinho.
Praticantes do remo ficaram inconformados com as mudanças feitas. Um dos mais ativos é Zezé Barros, neto do arquiteto que projetou o estádio de remo, Benedicto de Barros. Ambos foram remadores. Em um dos desabafos, ele escreveu:
"Hoje, o remo usa quase de favor uma área, sendo cada vez mais espremido. É inacreditável que isto está acontecendo nas nossas caras e não conseguimos impedir esta apropriação indébita. Isto é real e palpável. Não está sendo publicado em nenhum jornal, como se a comunidade do remo não se importasse, como se nem existisse mais. O que fazer?".
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A ação movida pelo MPE para extinguir o contrato foi julgada procedente em 9 de novembro de 2005 pelo juiz Eduardo Gusmão Alves de Brito Neto. Mas a empresa do genro do dono da Globo recorreu.
Ao longo do tempo, o jornal O Globo, da família Marinho, ao tratar de temas relativos ao estádio, nunca mencionou que a empresa concessionária era de Alexandre, o marido de Paula, filha de João Roberto e neta de Roberto Marinho. Nunca denunciou a falta de licitação.
No dia 24 de abril de 2006, um notinha escondida na página 14 tratou de uma manifestação contra as obras da Lagoon.
Terminou com a declaração de uma porta-voz da concessionária, que acusou os manifestantes de serem "ligados a uma outra empresa que não conseguiu emplacar seu projeto no estádio de remo".
Os organizadores do protesto denunciaram a reprodução de uma declaração que disseram ser completamente mentirosa.
O Globo não mencionou que a porta-voz falava em nome da empresa de Alexandre, o genro de João Roberto Marinho, dono do jornal.
Em outubro de 2015, o empresário e a filha de João Roberto se divorciaram. Ela voltou a usar o nome de solteira: Paula Marinho.
Nossas tentativas de encontrar os responsáveis pela Vaine na sede da Lagoon até agora foram infrutíferas.
Abaixo, o helicóptero no aeroporto Roberto Marinho, em Jacarepaguá, no Rio, e a assinatura da neta do magnata como fiadora de concessão obtida sem concorrência pública:
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sábado, 26 de dezembro de 2015

Antipetistas néscios da Casa Grande, ao estilo Guilherme Junqueira Motta Luiz, “esquecem” oportunisticamente que Fernando Henrique Cardoso recebeu R$ 6,7 milhões via Lei Rouanet


Texto de Luiz Carlos Azenha, no Viomundo

O jovem que se referiu a Chico Buarque como “um merda”, durante um bate boca no Leblon, Rio de Janeiro, certamente não havia nascido quando comecei a trabalhar como repórter-mirim no Jornal da Cidade de Bauru, no interior de São Paulo, em 1972.


Guilherme Junqueira Motta Luiz não pôde testemunhar, portanto, como foi construída a fortuna de sua família, que hoje controla a Usina Açucareira Guaíra, na Fazenda Rosário, perto de Guaíra.


Pelo jeito que ele se referiu a Chico — um mérrrrrrda —, acho que posso dizer que temos em comum o sotaque do interior paulista.


Gullherme aparentemente apagou seus perfis no LinkedIn e no Facebook, mas antes de fazer isso deu para medir qual foi a reação dele diante da repercussão do incidente.


Primeiro ele reproduziu um meme:


guilhermeDepois, um link segundo o qual “Governo liberou, via Lei Rouanet, mais de 800 mil para namorada de Chico Buarque”.


Da última vez que olhei o texto tinha sido compartilhado 172 mil vezes. O que dá a vocês a dimensão de quantos são os analfabetos políticos por aí.


Eles imaginam que Dilma foi pessoalmente entregar a mala de dinheiro.


É uma obsessão dos antipetistas.


Seja através do Bolsa Família ou da Lei Rouanet, eles acreditam que os governos Lula e Dilma compraram apoio.


Como se eles próprios não decidissem seus votos a partir de interesses de classe.


As quatro vitórias eleitorais, portanto, não valem nada.


O que diz mais sobre eles do que sobre os que teriam sido “comprados”.


Revela incapacidade de aceitar que alguém possa pensar — e votar — diferente.


Se não concorda comigo, foi corrompido!


O incidente no Leblon é o passo seguinte: suprimir no grito aqueles com os quais não se concorda.


Milícias digitais já temos. Se a gente conhece um pouco da História, em seguida vão atacar sedes de partidos políticos…


Já aconteceu? Então estamos a caminho dos espancamentos, que precedem a eliminação física.


A não ser que os brucutus sejam isolados politicamente. O que já está acontecendo.


Um arma para fazer isso, acredito, é a informação.


Tenho um colega repórter que acha que Chico Buarque fez sua última obra relevante nos anos 70 e, depois, foi uma decadência só.


Não sei se está apenas reproduzindo o que leu nas redes sociais, é possível que sim. É jovem. Talvez não conheça a discografia de Chico, não tenha lido os livros dele.


O certo é que o antipetismo carrega uma dose tão grande de ódio de classe que bloqueia o raciocínio, impede a análise dos fatos como eles são e transforma teorias conspiratórias em “verdades absolutas”, de tanto que são repetidas.


Tipo filho do Lula = dono da Friboi. Não, o filho do Lula não é dono da Friboi!


Conheço Chico Buarque apenas da sala-de-espera de uma dentista que frequentamos no Leblon. Sei que ele nunca foi de família pobre. Tem uma longa carreira, mais de 50 anos de sucesso.


É filho de um intelectual que escreveu um livro seminal para entender o país, Raízes do Brasil. E não mudou de posição no espectro ideológico. Ele não se “tornou” de esquerda por oportunismo, depois que Lula assumiu o poder, em 2002.


Faz sentido, portanto, que ele tivesse decidido apoiar governos petistas por causa de dinheiro obtido através da Lei Rouanet? Só um analfabeto político pode acreditar que um artista tão bem sucedido precisa disso.


O que Chico Buarque faz é dar retorno. E, como a Lei Rouanet é basicamente um instrumento de mercado, é fácil encontrar quem banca os projetos dele. Para as empresas, é chique associar sua imagem a alguém respeitado em todo o mundo, que é garantia de casa cheia.


Mas, peraí, os antipetistas não se dizem liberais, que defendem o mercado?


O problema é que são desinformados. E nem se dignam a usar o Google.


Poucos sabem, por exemplo,  que a Lei Rouanet  não foi inventada pelo PT: é de dezembro de 1991.


Leva a assinatura do ministro da Justiça de Fernando Collor, o “comunista” Jarbas Passarinho, coronel reformado do Exército e quadro importante da ditadura militar (minha primeira entrevista na vida, como repórter de um jornal escolar, foi com Passarinho, quando ele era ministro da Educação do governo Médici).


Sim, há muita controvérsia sobre a Lei Rouanet, mas não, ELA NÃO FOI UMA INVENÇÃO DO PT.


Sobreviveu, com ajustes aqui e ali, aos governos Itamar Franco, aos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, aos dois de Lula e ao primeiro de Dilma Rousseff. Milhares de projetos foram aprovados ao longo destes 25 anos!


Numa década foram 10 mil, envolvendo quase R$ 5 bilhões em renúncia fiscal.


E é óbvio que nenhum presidente da República saiu por aí dando dinheiro: Dilma não “deu” 800 mil reais à namorada de Chico Buarque, assim como FHC não foi pegar pessoalmente 500 mil reais nos cofres da Sabesp.


Aliás, se houve um caso controverso foi este, que os antipetistas fazem de conta desconhecer: uma empresa de economia mista, cujo controle é do estado de São Paulo, governado pelo tucano Geraldo Alckmin, abateu 500 mil reais do imposto de renda e os repassou ao instituto de FHC para uma série de projetos.


Aparentemente, cumpriu as regras.


É assim que funciona a Lei Rouanet: o dinheiro vem de pessoas físicas ou jurídicas, autorizadas a abater respectivamente 6% ou 4% do imposto de renda para financiar os projetos, que passam pelo crivo de um corpo técnico do Ministério da Cultura.


O Minc não aplica critério ideológico: analisa a viabilidade do projeto. Tanto que, se você se der ao trabalho de analisar as planilhas de projetos aprovados (está tudo no site do Ministério), vai encontrar de tudo.


Nós mesmos, aqui neste site, já protestamos pelo fato de que R$ 5,2 milhões foram captados para bancar uma temporada do Disney On Ice, em 2011! Em outro episódio que deu o que falar, por causa do preço salgado dos ingressos, uma empresa captou R$ 22,3 milhões para temporadas do Cirque Du Soleil em 2006.




Será que o Guilherme Motta, obcecado pelo Chico Buarque, sabe que a bilionária Rede Globo pagou 81% da minissérie Serra Pelada (R$ 6,8 milhões) com recursos captados pela Lei Rouanet? Que em 2008 a Fundação Roberto Marinho já tinha colocado R$ 6,2 milhões no Museu do Futebol, em São Paulo, usando o mesmo caminho?


A Globo fez um bom negócio com requintes de crueldade: ocupou um espaço físico em um estádio municipal, o Pacaembu, abateu a grana do imposto de renda, “controlou” a História do futebol (não há referências à corrupção no Museu do Futebol da Globo) e associou seu nome ao esporte mais popular no país. Houve protestos dos que agora se levantam contra Chico Buarque?


Veja, clicando aqui, quem o governo Dilma “comprou” na última reunião da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, que tem gente especializada para tomar as decisões: o Catraca Livre, do Gilberto Dimenstein! Mais um petralha…por R$ 2.230.360,00.


Como os antipetistas não entendem ironia, que fique registrado: Dimenstein é crítico do PT.


Os antipetistas amaram disseminar este link, sobre uma peça dirigida por Jô Soares em 2014, com financiamento de quase R$ 2 milhões via Lei Rouanet.


Era a “prova” para explicar uma suposta “mudança de lado”.


Por este raciocínio, Rita Lee e Cláudia Leite também estão no bolso de Dilma. Assim como… Fernando Henrique Cardoso.


Como explicar que o Instituto FHC foi autorizado a captar mais R$ 6,2 milhões pela Lei Rouanet, em 2014, para digitalizar seu acervo? Vai ver que é o motivo para FHC não ter comparecido às manifestações pró-impeachment.


Finalmente, é preciso deixar claro que o atual ministro da Cultura do governo Dilma, Juca Ferreira, acha que a Lei Rouanet, no formato atual, já deu o que tinha de dar. É uma opinião razoavelmente disseminada:
Oitenta por cento do total renunciado vai para (os estados de) Rio e São Paulo. Sessenta por cento, para duas cidades (as capitais), e são sempre os mesmos (proponentes) que recebem: os que dão retorno de imagem às empresas. Não é culpa da empresa. Se criamos um mecanismo para isso, ele pode ser usado. Mas não é parceria público-privada. É outra coisa.

É o quê?

Esse dinheiro corresponde a 80% do que o governo federal tem para financiar atividades culturais no Brasil. Levando em consideração o que eu falei, me diga: é possível desenvolver política pública assim? A Rouanet dá a aparência de parceria público-privada, mas é a empresa decidindo onde vai aplicar o dinheiro, é a privatização de recursos públicos para construir imagens de empresas, algumas delas altamente lucrativas.
Provavelmente — é impossivel assegurar — o ministro estava se referindo entre outros ao Itaú Cultural, que por vários anos liderou o abatimento de impostos via Lei Rouanet (entre 2010 e 2012, R$ 81 milhões).


Não haverá manifestação de antipetistas segunda-feira diante do bilionário Banco Itaú.


Eles jamais vão admitir que a Lei Rouanet é um mecanismo de mercado, “conservador”, pelo qual as empresas abatem impostos e investem na associação de sua imagem a este ou aquele projeto/artista.


Não é o governo Dilma, como não foi o de FHC, quem comanda o jogo. São as empresas, que privilegiam o que dá retorno: Holiday On Ice inclusive.


É um jeito muito mais barato de fazer marketing do que comprar anúncios de 30 segundos que custam 600 mil reais (tabela cheia) no Jornal Nacional.


Este é um debate rico e muito interessante, com diversos pontos-de-vista. Mas os antipetistas não estão interessados nele. Vão continuar recortando a realidade que lhes interessa e usando as pílulas de informação que alimentem o ódio contra Chico Buarque, Jô Soares ou quem lhes aparecer no caminho.


Nossa mídia rasteira não ajuda. Fulanizou a Lei Rouanet. Foca na Maria Bethânia, mas esquece o Itaú Cultural.


Fornece informações descontextualizadas aos analfabetos políticos, que formam uma espécie de exército da ignorância digital. É uma batalha de informação desigual, mas que precisa ser travada.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo

sábado, 12 de dezembro de 2015