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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

O calvário da antes toda poderosa Globo, agora vítima dos próprios excessos de arrogância e poder, por Luis Nassif

 

Dia desses vou desenterrar uma coluna que escrevi para a Folha, no final dos anos 90, mostrando como o superpoder transformaria a Globo em um paquiderme acomodado, perdendo toda a vitalidade criativa que marcou a era Bonifácio de Oliveira Sobrinho.

Jornal GGN:

As Organizações Globo continuam em uma corrida insana, na qual os cortes de despesas não têm sido suficiente para compensar a queda de receitas.

São muitas as razões.

Em seu período de quase monopólio da mídia, montou uma operação bastante onerosa, própria de estruturas monopolistas. Mantinha casts permanentes de artistas, embora só utilizasse parte deles em cada temporada. A idéia era simples. Aparecer na telinha da Globo conferia prestígio, transformava a pessoa em personalidade pública, graças à extraordinária audiência que detinha no período áureo. Ela  não queria que concorrentes se beneficiassem do investimento feito em artistas e jornalistas. E tinha bala na agulha para mantê-los a todos como reserva de mercado.

Eram tempos de tanta abundância, que não havia preocupação em identificar sinergia entre os diversos produtos. Jornalistas da Globonews poderiam ser contratados pela CBN, por exemplo, mas como se ambas fossem empresas independentes. Além da alta remuneração, a Globo oferecia ainda o ganho adicional, da abertura para o mercado de palestras, graças à visibilidade proporcionada por sua audiência.

Nesse período, manteve-se absoluta nas novelas e no noticiário. Concorrentes tiveram que cavar espaço em programas populares de auditório ou em uma segunda linha de jornalismo. Concorrentes como Bandeirantes, SBT e Rede TV tiveram que vender espaços para igrejas para conseguir se equilibrar.

Nesse período, a Record foi a mais bem sucedida. Em parte, pelos recursos da Igreja Universal, e pela complementaridade dos negócios. Mas há um ponto interessante na montagem do jornalismo. Em pouco tempo, o R7 se tornou um dos maiores portais de notícias. E o jornalismo conseguiu emplacar programas de domingo para enfrentar o Fantástico e telejornais diários, seguindo o padrão Globo de jornalismo. A montagem dessa estratégia foi de Douglas Tavolaro, que saiu da Record para se tornar sócio da CNN Brasil.

Agora, a análise do modelo CNN, ainda que incipiente, permite identificar melhor as fragilidades do modelo Globo.

No caso da CNN Brasil, há uma intensa integração entre os veículos, uma enorme sinergia que fortalece o conjunto. Por exemplo, entre a rádio CNN (montada em parceria com uma rede nacional), e o jornalismo televisivo. Junto com o jornalismo, a montagem de empresa de eventos, para seminários especializados. Há uma “modernidade”, de disponibilizar repórteres para comerciais, que não cheira bem. Mas é uma exceção. E há o uso intensivo de todas as formas de produtos digitais, endereços nas principais redes, podcasts etc.

A rapidez com que montou seu modelo de negócio mostra uma das grandes vantagens das empresas americanas, a capacidade de montar modelos de negócio eficazes.

Por exemplo, cada passo é tratado com intensa auto-promoção. Celebra por semanas e semanas a contratação de um jornalista conhecido. No final de cada bloco, os apresentadores repetem o slogan de “maior do mundo”. E cada editoria montada é tratada como se fosse uma enorme subsidiária.

Por exemplo, a CNN montou uma editoria de finanças. Deu-lhe o nome pomposo de CNN Business e entregou-a nas mãos competentes de Fernando Nakagawa. Não sei qual a estrutura que tem por trás. Mas o marketing transformou-a em quase um produto independente. Enquanto isto, a Globo controla o principal veículo econômico-financeiro do país, o jornal Valor Econômico, com aproveitamento mínimo no conjunto de veículos do grupo.

Um outro ponto do modelo CNN – aí no plano editorial – é o equilíbrio entre jovens jornalistas e jornalistas seniores. Há uma tecnologia muito bem assimilada de jornalismo.  Todos eles têm um foco permanente na busca de furos e na construção coletiva do fato do momento. Surge determinado tema. Praticamente toda a estrutura de repórteres se mobiliza em torno do tema, contextualizando, trazendo cada peça do quebra cabeças. Repórteres trazem informações. Apresentadores ou acrescentam comentários ou entrevistam os repórteres, procurando arrancar o máximo possível de explicações.

Nem imagino qual seja o trabalho de bastidores, por trás das câmeras, de direção da TV, editores, repórteres apuradores, jornalismo de dados etc. Mas impressiona a sincronização entre os apresentadores, conduzindo os temas, a entrada dos repórteres, as chamadas para novas reportagens, as perguntas feitas pelos apresentadores, que parecem combinadas com o que os repórteres estão trazendo de notícias. Há uma enorme fluidez, passando a sensação de que não existe sequer teleprompter para conduzir as falas.

Tem ciência aí, metodologia das boas. Mas, confesso, não tenho a menor ideia sobre como montaram esse máquina.

Há também, uma boa agilidade na definição das duplas que comandam os diversos horários de programas. Há uma espontaneidade cativante nos jovens apresentadores dos programas matutinos. Depois, gradativamente, uma certa solenidade necessária visando um público mais maduro dos programas da tarde e vespertinos. À noite, a parte analítica pesada, conduzida pelas mãos experientes de William Waack.

Juntar uma redação de jornalistas e dar o devido equilíbrio, entre os mais jovens e os veteranos, a mistura racial e de gênero, não é coisa que se aprende na escola.

Por exemplo, na fase inicial, havia uma preponderância de jovens jornalistas, e algumas âncoras de jornalismo mais experiente, mas apenas nos jornais noturnos. Com o tempo, foram contratados apresentadores seniores para a programação da tarde, para dar equilíbrio ao grupo e refrear um pouco a ansiedade dos mais jovens por uma carreira rápida.

Provavelmente para mostrar que tem feeling jornalístico mais apurado que a concorrência, Tavolaro trouxe dois sólidos jornalistas, desprezados ou mal aproveitados pela Globo, Carla Vilhena e Márcio Gomes. Foi como se dissesse: olha aqui, eu vi o que vocês não viram.

Enquanto isto, a Globonews tenta se repaginar, em cima da competição com a CNN, mas com enorme dificuldade em se reinventar, e enfrentando o esvaziamento da TV aberta, em crise em todo o mundo.

Por aqui, além da nova tendência contrária às TVs abertas, a Globo perdeu a exclusividade do futebol, da Fórmula 1, a preponderância massacrante do jornalismo. Mantém em sua espinha vertebral o modelo das novelas, cada vez mais mexicanizadas, mas vê a TV aberta se esvaindo a cada dia.

Agora, joga todas as fichas no Globoplay. O produto tem o que mostrar. Há um trabalho excepcional feito nos últimos anos no Multishow e GNT, com produtoras nacionais de diversos calibres. Há espaço para parcerias com grandes grupos globais, que disputam mercado com a Netflix. Com o Globoplay, a emissora conseguiu segmentar o público de TV do público de computadores e celulares, exigindo assinatura para assistir os programas da emissora. Mas, pela frente, tem competidores extraordinariamente maiores. E abriu mão, por questões familiares, do executivo que montou a impecável produção dos canais da Globosat.

Sofre, também, uma perseguição implacável de Bolsonaro, com o CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) proibindo os Bônus de Veiculação exclusivamente para ela; a Receita investindo em cima da pejotização dos salários. Justo ela, que sempre conseguiu o que quis de governos tucanos e petistas. E que montava guerras políticas mundiais contra as mínimas medidas que pudessem afetá-la, como a incrível campanha contra a classificação indicativa, ou os petardos contra a Secom, quando se dispôs a desviar migalhas de publicidade oficial para veículos do interior ou independentes, como se fosse propriedade privada exclusiva dos grupos de mídia e, especialmente, dela, Globo..

Além das perseguições bolsonarianas, a Globo tem uma espada de Dâmocles permanente, nos inquéritos que o Ministério Público Federal mantêm engavetados, dos escândalos da compra de direitos da Copa Brasil. Aí se entende a adesão quase obsessiva da Globo à Lava Jato e de se colocar como uma voz tonitruante de combate à corrupção dos outros. Só que, agora, não tem fantasmas bolivarianos, cubanos, para se fortalecer. Sem o álibi bolivariano, terá que enfrentar a ferro frio os verdadeiros adversários – Google, Facebook, Apple, Netflix.

Há apostas consistentes no mercado que, dentro de algum tempo, a Globo começará a fazer campanha pela abertura do mercado ao capital estrangeiro. Vai ser irônico, principalmente partindo de uma empresa que sempre condenou qualquer defesa de mercado… para os outros.

Dia desses vou desenterrar uma coluna que escrevi para a Folha, no final dos anos 90, mostrando como o superpoder transformaria a Globo em um paquiderme acomodado, perdendo toda a vitalidade criativa que marcou a era Bonifácio de Oliveira Sobrinho.

Agora, está sendo devorada pelo monstro que ela própria ajudou a parir quando, na véspera do cataclisma, se vangloriava de seu poder de derrubar presidentes e reescrever o Brasil.


domingo, 16 de agosto de 2020

Luis Nassif sobre o xadrez do pacto ultraliberal pela espoliação do Brasil com um Bolsonaro domesticado



Julgar que Bolsonaro pode ser eternamente domesticado é a mesma coisa que dar uma dieta vegetariana para uma hiena, e apostar que nunca mais ela voltará a gostar de carniça.

Do GGN:

Premissas – Bolsonaro como um Forrest Gump raivoso

Alguns sinais sobre o novo pacto que se desenha.
Em função da melhoria da popularidade de Jair Bolsonaro, analistas mais apressados apressam-se a reconhecer seu gênio político, sua intuição fenomenal, seu tirocínio. Enfim, um gênio que passou oculto por quatro décadas de política.
Para deixar o Xadrez mais claro, o primeiro passo é repor os fatos: Bolsonaro é uma zebra política, que seguia um roteiro previamente desenhado e quase estragou tudo com sua falta de noção.
Esse roteiro tinha duas pernas. A primeira, a violência radical da ultradireita mundial, desenhada por Steve Bannon. A segunda, o aprofundamento interno das reformas liberais, desenhada pelo arco político montado para o impeachment de Dilma Rousseff.
Agora tenta-se retomar a segunda perna do roteiro, com as instituições monitorando Bolsonaro com choques elétricos, condicionando-o como se fosse um ratinho de Pavlov. E, aí, percebe-se um pacto tácito entre Supremo Tribunal Federal, Forças Armadas, Congresso/Rodrigo Maia e mídia em torno de um novo pacto ultraliberal, fornecendo um tubo de oxigênio para um governo moribundo.
Dadas as premissas, vamos às peças do jogo.

Peça 1 – o roteiro Steve Bannon

A ultradireita mundial criou um roteiro para os candidatos a novos ditadores.
O tema foi abundantemente explorado aqui no GGN.
As redes sociais trazem uma nova realidade política e social. Elimina os fatores de contenção social, construídos pela canalização dos anseios individuais para mídia, partidos políticos, sindicatos. Cria-se uma nova instititucionalidade caótica, em que as demandas passam a ser condicionadas por estratégias articuladas junto às redes sociais, visando explorar os caminhos da democracia, de  tomada de poder pelo voto, para posterior destruição do regime democrático,
Steve Bannon é dos primeiros profetas da nova era a perceber o potencial agregador/desagregador das redes e a capacidade de tirar do armário os sentimentos de ódio, preconceito, que habitam o coração de parte da classe média, e que eram contidos por regulações e princípios de convivência social, canalizando-os para o novo jogo político.
Não é à toa que os primeiros profetas do ódio, no Brasil, começaram sua pregação atacando o “politicamente correto”.
A estratégia Bannon teve três pernas.
A primeira, a montagem do discurso de ódio, em torno dos princípios religiosos-nacionalistas dos movimentos da América branca, do novo pentecostalismo, das reações contra os métodos de contenção dos abusos.
A segunda, os financiadores, entre grupos empresariais que atuam nos limites da legalidade, que operam como pontes entre a economia formal e a economia do crime: indústria de armas, cassinos, indústria do lixo, mineração, e outros grupos cuja expansão é contida por dispositivos sanitários, regulações, leis.
Tendo o know how da desestabilização da democracia, e os financiadores, Bannon passa a apostar em vários candidatos a ditadores e consegue avançar em dois políticos estratégicos: Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil, este já sendo parte integrante do submundo político-econômico, com suas ligações com as milícias.
Trump habita um universo de empresários interessados em explorar mineração em terra indígenas de países atrasados, como o Brasil; de empreiteiras fomentadoras de guerra, do jogo em resorts, de atividades que são contidas pelos avanços da regulação.
A terceira, a aliança com o ultraliberalismo, interessado em desconstruir as regulações criadas ao longo das últimas décadas, mas empenhado em manter o regime democrático, aquele em que mais facilmente controla, com sua influência sobre partidos políticos, Judiciário e mídia.
É nessa dicotomia ditadura x democracia tradicional que se instala pontos futuros de conflito entre liberalismo e ultradireita, como se tentará explicar ao longo deste Xadrez.
A lógica de Bannon não consiste em consolidar a ultradireita como um partido do jogo democrático, mas claramente empenhada em derrubar o regime e consolidar a ditadura.
Graças ao primarismo dos Bolsonaro, essa estratégia foi explicitada desde o primeiro momento, com os filhos divulgando mensagens claras de defesa da população armada, e não das Forças Armadas, como garantidoras do projeto político da família.
Esse movimento golpista foi em um crescendo até ser contido por três poderes: a Justiça,  através dos inquéritos abertos por Alexandre de Morais, do Supremo Tribunal Federal, e as investigações sobre a rachadinha pelo Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro; as Forças Armadas, não endossando a tentativa frustrada de golpe de Bolsonaro, semanas atrás; a Câmara, de Rodrigo Maia, derrubando seguidamente vetos de Bolsonaro; e as Organizações Globo, denunciando as mazelas do governo. Note-se: quatro instituições com papel central no movimento que levou ao impeachment de Dilma Rousseff.
Estes são os personagens do próximo tempo do jogo: Supremo, Forças Armadas, Rodrigo Maia e Globo. E, para seus projetos, interessa manter no poder um Bolsonaro domesticado.

Peça 2 – o papel do sistema de justiça

Na última década, a bancada política do Supremo – Gilmar Mendes, Luis Roberto Barroso, Luiz Fux, Dias Toffoli – divergiam nos meios e concordavam nos fins.
Por “fins” entenda-se uma visão ultraliberal da economia, com redução dos gastos sociais, desmontagem do sistema sindical, destruição da Consolidação das Leis do Trabalho. Por “meios” compreenda-se o punitivismo virulento da Lava Jato.
O conflito entre os dois grupos – os “ garantistas” e os “punitivistas” – ficou nítido depois que a Lava Jato completou o trabalho sujo de inviabilizar um governo e um partido político e pretendeu preservar o poder avançando sobre outros partidos. Ali se deu o racha em torno da Lava Jato, mas não em torno do ultraliberalismo.
No último ano, o Supremo teve papel chave no desmonte das estatais, ao  contornar a proibição constitucional de venda das estatais sem aprovação do Congresso, liberando a venda de empresas controladas, em um processo irresponsável de destruição de valores da empresa-mãe. Nesses períodos de ideia fixa no lavajatismo, pelo Supremo passaram várias boiadas de desmonte do modelo de Estado.
Com o avanço das pretensões ditatoriais de Bolsonaro, e a saída de Sérgio Moro, abriu-se espaço para uma reorganização dos Ministros em torno do ultraliberalismo. Gilmar Mendes e Luis Roberto Barroso se aproximaram, aliança celebrada em uma palestra de Barroso em uma live do IDP, universidade de Gilmar.
Ao mesmo tempo, houve sintonia total de medidas tomadas por vários Ministros contra as pretensões de Bolsonaro, assim como uma aproximação cada vez maior com Rodrigo Maia, presidente da Câmara, também do front ultraliberal.
Ontem, a decisão de Gilmar Mendes de conceder uma liminar para devolver à prisão domiciliar não apenas Fabricio Queiroz, mas a esposa – que foi detida quando estava foragida – sela definitivamente a nova pax com Bolsonaro domesticado.
Na sexta-feria, a participação de Gilmar Mendes na live do MST (Movimento Sem Terra) deu o tom do novo modelo, ultraliberal, sim, mas sem a selvageria do período anterior. Explica-se da mesma maneira sua aproximação com setores progressistas do meio jurídico (lembra um pouco o pacto dos farrapos com a Coroa, nos dizeres de um de seus líderes: “com o sangue do primeiro paraguaio que invadir o Brasil assinaremos a paz com a Coroa”. O sangue, no caso, será dos deslumbrados da Lava Jato).
Agora, vai-se prosseguir no modelo clássico liberal, de destruir os direitos coletivos da população (que implica em gastos orçamentários ou em fortalecimento de movimentos e associações) e  promover novo pacto em torno dos direitos individuais, investindo contra esbirros autoritários contra pessoas.
É essa a característica da nova pax: doma-se o bolsonarismo, sem desmanchar o pacto ultraliberal que o levou ao poder. Nesse novo desenho, há possibilidade de se votar pela suspeição de Sérgio Moro e reabilitar politicamente Lula, confiando que haja a legitimação democrática que garanta a reeleição de Bolsonaro.
Com Bolsonaro, trata-se de um casamento de conveniência que pode durar apenas o prazo necessário para o Congresso completar seu trabalho de desmonte do Estado; ou ser prorrogado se Bolsonaro conseguir convencer os novos aliados de que perdeu definitivamente as garras.
A conclusão da Polícia Federal sobre a delação de Antonio Palocci completa o quadro. O inquérito concluiu que Palocci incriminou Lula e André Esteves do BTG com base em notícias pesquisadas no Google. A delação foi peça central para a campanha eleitoral de Bolsonaro, quando Moro liberou um trecho para uso político na véspera das eleições.
Pode ser que Lula seja apenas um subproduto de uma operação para garantir a blindagem do BTG Pactual. De qualquer forma, é um tiro a mais na moribunda Lava Jato.,

Peça 3 – o papel das Forças Armadas

Há duas características explícitas na elite das Forças Armadas, formada nos institutos militares: o alinhamento com os Estados Unidos e a visão liberal da economia, com uma completa ignorância sobre projeto de país.
Em relação aos EUA, há uma semelhança e uma diferença das Forças Armadas em relação a Bolsonaro.
A semelhança é a completa submissão aos Estados Unidos. A diferença é a postura: a paixão de Bolsonaro por Trump é quase pornográfica; já a das Forças Armadas pelos Estados Unidos tem o formalismo da institucionalidade.
Desde que o Brasil abriu mão de ter uma indústria militar de defesa autônoma, aumentou essa submissão. A sabedoria secular dos EUA cooptou procuradores conferindo-lhes instrumentos de poder; e militares dando-lhes acesso a treinamento em novas tecnologias.
Para as FFAAs, Bolsonaro no poder é o melhor dos mundos.
De um lado, conseguem regalias para a corporação, como aumento de verbas, blindagem na reforma da Previdência, abertura de cargos no setor civil. Ao não haver identificação formal com Bolsonaro, livram-se da pecha de interferência no poder civil e não se contaminam com as barbaridades terraplanistas do governo.
Os esbirros primário-autoritários de Bolsonaro atrapalharam esse pacto. Enquadrado agora, os generais no poder voltam à sua missão original de conferir um mínimo de racionalidade ao governo.
Mudaram a comunicação, aproximaram-se do Centrão e desenham um plano de salvação, o tal Pró-Brasil, que, no entanto, esbarra na irracionalidade ideológica de Paulo Guedes. Voltam a se apresentar como os garantidores da racionalidade, inclusive perante seus colegas da ativa.

Peça 4 – o papel de Rodrigo Maia

É essa mesma lógica que explica a entrevista de Rodrigo Maia ao Roda Viva, defendendo o mandato de Jair Bolsonaro.
Com a nova linha imprimida ao governo, e aproximação com o Centrão, Maia garante sua reeleição e a manutenção do projeto ultraliberal das reformas, com precarização ainda maiores dos serviços públicos e restrições maiores aos gastos sociais. O sucesso de Maia depende dos abusos de Bolsonaro.
É uma ofensiva com várias frentes. Esta semana, o governador de São Paulo João Dória Jr encaminhou à Assembleia Legislativa o projeto de lei nº 529/2020, pelo qual pretende extinguir, entre outros, o Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (IAMSPE), a Fundação para o Remédio Popular “Chopin Tavares de Lima” (FURP); Fundação Oncocentro de São Paulo (FOSP); Instituto Florestal; Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo (CDHU); Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo S. A. (EMTU/SP); Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN); Instituto de Medicina Social e de Criminologia (IMESC); Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (DAESP); Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo “José Gomes da Silva” (ITESP).
Agora mesmo, fala-se em um projeto de lei, encaminhado por Paulo Guedes, para acabar com a gratuidade da Justiça.

Peça 5 – o papel da mídia

A pesquisa DataFolha, identificando a melhoria na avaliação de Bolsonaro pela população reflete a mudança de tom do governo, a domesticação provisória do Ogro. A enorme divulgação aos resultados, inclusive com cobertura maciça do Jornal Nacional, está longe de demonstrar a isenção do veículo. A intenção óbvia é reforçar uma nova aposta em Bolsonaro domesticado, para não interromper o rush ultraliberal.
Nos últimos dias, comentaristas políticos e econômicos parecem obedecer a uma ordem unida, de criminalizar qualquer gasto público, satanizar o funcionalismo, criar falsas expectativas de um futuro radioso se o Estado for desmontado ou, pelo contrário, prever o fim do mundo se a Lei do Teto for revogada. Tudo preto no branco, em cima de bordões primários, típicos de efeito manada de redes sociais, sem nenhuma nuance.
Não se trata de um surto de bobeira coletiva, mas de uma clara ordem unida.

Peça 6 – o futuro da nova aliança

Cenários são apostas sobre o futuro, encaixando uma quantidade específica de fatos políticos do momento. Mudam os fatos, mudam as correlações de força, há os movimentos imprevisíveis de opinião pública.
Fato: o pacto atual com Bolsonaro domesticado, para uma ofensiva ultraliberal maciça. Conjeturas: os desdobramentos desse pacto e as consequências futuras de um Bolsonaro para a democracia, de um Bolsonaro fortalecido.
Julgar que Bolsonaro pode ser eternamente domesticado é a mesma coisa que dar uma dieta vegetariana para uma hiena, e apostar que nunca mais ela voltará a gostar de carniça.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

A Globo, de histórico golpista e colocações contraditórias, defende ideais neoliberais do Instituto Millenium, onde o dinheiro público deve ir para os interesses finaceros de uma minoria e a população deve ficar à míngua




O Estado brasileiro pode ainda ser menor do que é? Como pode ser menor se nas periferias e grotões ele quase já não existe e todo o dia o telejornal se queixa disso?
GGN:
Por Wilson Gomes
Jornal Nacional faz matéria encomendada por instituto neoliberal
Com a matéria-encomenda do Instituto Millenium de ontem o Jornal Nacional volta a militar pelas políticas públicas prediletas do patrão (perdão pela aliteração). Quando se trata disto, adeus jornalismo, objetividade, diversidade de fontes, análises complexas, apuração isenta, responsabilidade. A este ponto vale propaganda, parcialidade, enganos e manipulação.
Os “dados” apresentados são só do Instituto Millenium, um “think tank” de advocacia de interesses. O enquadramento é uma grotesca manipulação: Por que comparar duas grandezas incomparáveis como “servidores” e “serviços públicos”? É possível a entrega de serviços públicos sem servidores? Servidores da área de educação não são custo educacional? E os da saúde? Não estavam faltando pessoas na Previdência um dia desses, para escândalo do próprio Jornal Nacional, para analisar demandas e entregar um serviço público ao cidadão? Não é o mesmo telejornal que repete todos os dias que faltam fiscais ao Ibama, auditores à Receita, médicos nos postos de saúde, defensores públicos e professores nas escolas? Afinal, faltam ou sobram?
E a complexidade sumiu. O Estado brasileiro pode ainda ser menor do que é? Como pode ser menor se nas periferias e grotões ele quase já não existe e todo o dia o telejornal se queixa disso? Qual o custo social, sobretudo para um país em que a maior parte da população é pobre, se o Estado diminuir mais ainda? Diminuir o número servidores significa diminuir serviços públicos: é desejável isso num Estado já com déficit em prestação? Diminuir salário de servidores implica em recrutar mal, uma fórmula que já destruiu a educação pública fundamental e média e as polícias. Se quer mesmo generalizar o modelo?
O Jornal Nacional em particular e o jornalismo da Globo em geral têm isso. São capazes de fazer grande jornalismo, mas só quando os seus editores permitem e sobre certos temas. Quando, entretanto, se trata de outros temas viram basicamente meios de promoção de determinados pontos de vista, hiperparciais, sem problema algum com o uso de informação inexata, dados enviesados e aquela seleção malandrinha dos especialistas que darão as sonoras para parecer que não é um editorial, mas uma matéria factual. Um passinho mais para a direita e é fake news. Rá!
Parabéns, ao board do Instituto Millenium, que deve ter feito reservas no Figueira Rubaiyat para a festa da firma hoje. Deve ser uma delícia ser “think tank” e lobista de interesses particulares e ter todo o jornalismo da Globo à disposição. Lobismo, não “parceria”. Lobby 7 x 1 Jornalismo.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Paulo Ghiraldelli: Em explícita montagem com vistas à manipulação pública, a Globo, por meio do Jornal Nacional, e por seus interesses apresenta Paulo Guedes como "herói" da reforma da Previdência



Do Canal de Paulo Guedes, sobre a gritante (mas não a primeira vez feita) manipulação da Rede Globo a favor da Reforma da Previdência distorcendo explicitamente o debate ocorrido no CCJ da Câmara dos Deputados em que Guedes foi, para todos os analistas sérios, vencido....


domingo, 20 de janeiro de 2019

Os 7 milhões de Queiroz do moralista Flávio Bolsonaro na análise bem-humorada, mas séria, de Aquias Santarém






Novo escândalo envolvendo a família Boldonaro. Queiroz movimentou 7 milhões em 3 anos e continua pobre.


Gilberto Dimenstein sobre a cobertura do JN sobre os 7 milhões movimentos por Fabrício Queiroz dos Bolsonaros


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"Eles deram um furo gigantesco ao mostrar, com base em documentos, a movimentação suspeita nas contas de Flávio Bolsonaro, quase provando que Fabrício Queiroz era mesmo um laranja." - 

Do Catraca Livre, com vídeo:


A cobertura do Jornal Nacional sobre o caso Queiroz é uma surra de jornalismo na família Bolsonaro.
Eles deram um furo gigantesco ao mostrar, com base em documentos, a movimentação suspeita nas contas de Flávio Bolsonaro, quase provando que Fabrício Queiroz era mesmo um laranja.
Ao mesmo tempo em que o Jornal Nacional mostra os documentos, Flávio era docilmente entrevistado ao vivo pela Record.
A reportagem foi isenta e mostrou todos os lados envolvidos.
Não há uma frase ali que possa ser acusada de inapropriada.
Como os Bolsonaros se elegeram com a bandeira da honestidade, a suspensão da investigação determinada pelo STF a pedido de Flávio Bolsonaro era um fato explosivo – e merecia mesmo todo esse destaque.
Essa é a estratégia para se diferenciar da TV Record e SBT – as duas alinhadas com com Bolsonaro. Mostrar independência é um bom negócio a longo prazo.
A direção das Organizações sabe o custo de se alinhar com os governos em sua imagem e já pagou um preço alto pelo alinhamento ao regime militar.
Existem até suspeitas de que a CNN Brasil, que será dirigida por aliados de Bolsonaro e da Record, venha justamente para criar uma linha jornalística a favor do governo em contraposição à Globo.
Interessante notar que a esquerda e os petistas que acusavam a Globo de parcialidade nas investigações da Lava Jato, agora festejam sua excelência jornalística.
Veja a reportagem do JN:

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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Assessor de Flávio Bolsonaro “ganhou” R$ 86 mil em 16 meses, mas passou metade do tempo em Portugal. Artigo de Conceição Lemes






Publicado no Viomundo e no Contexto Livre
O Jornal Nacional desta noite mostrou que um assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, agora senador eleito, recolheu mais de R$ 86 mil em dinheiro público como funcionário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj, embora tenha passado metade do tempo em Portugal.

É um novo indício de que funcionários podem ter sido contratados sem trabalhar repassando parte do dinheiro para a família Bolsonaro.

Wellington Sérvulo Romano da Silva é tenente-coronel da Polícia Militar do Rio. Trabalhou duas vezes com Flávio. Primeiro como assessor da vice-liderança do PP, partido ao qual o deputado pertencia em 2015, depois no gabinete do filho do presidente eleito.

De acordo com o JN, a “Alerj informou que, durante todo o período em que ele esteve na casa, nunca tirou licença. Em um ano e quatro meses em que trabalhou para Flávio, Wellington ficou fora do país por 248 dias — a metade do período”.

Como o salário de Wellington, com gratificações, era de R$ 5.400,00 mensais, isso significa que ele recebeu sem trabalhar R$ 43.200,00. No total, foram R$ 86.400,00.

Wellington está na lista de nove assessores e ex-assessores de Flávio e Jair Bolsonaro que repassaram dinheiro para a conta de Fabrício Queiroz, motorista de Flávio Bolsonaro. Foram R$ 1.800,00.

[Ver íntegra do documento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, no pé do post]

Muitos repasses para a conta de Queiroz foram feitos no mesmo dia do pagamento de salários da Alerj.

Queiroz, também policial militar, é íntimo da família Bolsonaro e despertou a atenção de investigadores depois de movimentar R$ 1,2 milhão em um período de um ano, apesar de receber um total de R$ 23 mil mensais em dois empregos.

Em sua conta bancária, Queiroz também recebeu depósitos de parentes. Ele empregou a ex-mulher, a atual e duas filhas nos gabinetes de Flávio e Jair Bolsonaro.

Nathalia, uma das filhas, morando no Rio de Janeiro era contratada como assessora de Jair Bolsonaro na Câmara Federal, em Brasília.

Não se sabe se de fato ela prestava serviços ao deputado federal. Porém, tinha ao mesmo tempo um segundo emprego no Rio, como funcionária de uma academia, como mostrou o repórter Marcelo Auler.

A suspeita é de Queiroz operava uma conta ônibus, utilizada para transferir dinheiro de forma a esconder origem e destino.

Chamou a atenção dos investigadores o fato dele fazer saques em dinheiro, muitas vezes mais de um por dia, no valor de R$ 5 mil.

Teria sido uma forma de não chamar a atenção de autoridades encarregadas de monitorar lavagem de dinheiro.

Uma das transferências feitas por Queiroz foi para a futura primeira dama Michelle Bolsonaro, de R$ 24 mil.

O presidente eleito disse que foi parte do pagamento de um empréstimo de R$ 40 mil que Bolsonaro teria feito ao motorista e amigo.

Jair Bolsonaro argumentou que não recebeu o pagamento em sua própria conta bancária por ter dificuldades de ir ao banco.

Nem Queiroz, nem a futura primeira dama falaram sobre o caso.

Hoje o Jornal Nacional localizou um terceiro endereço de Fabrício, num bairro de classe média do Rio. O porteiro disse que é lá que mora o ex-policial militar.


O PM Queiroz e a filha Nathalia se afastaram dos gabinetes de Flávio e Jair Bolsonaro no mesmo dia, em outubro, antes da deflagração da operação.

O afastamento aconteceu entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial.

Curiosamente, no mesmo período, o juiz Sérgio Moro arranjou uma forma de vazar a delação do ex-ministro Antonio Palocci, que comprometia lideranças do Partido dos Trabalhadores.

Posteriormente, Moro foi indicado para um turbinado Ministério da Justiça do candidato que ajudou a eleger.

Moro disse que Jair Bolsonaro já explicou o que teria de explicar sobre o caso.

Na Furna da Onça, a PF prendeu seis deputados estaduais: Marcos Vinicius Neskau (PTB), Marcos Abrahão (Avante), Coronel Jairo (SD), Chiquinho da Mangueira (PSC), Andre Correa (DEM) e Luiz Martins (PDT). Também envolvidos no esquema estavam os deputados Paulo Melo, Jorge Picciani e Edson Albertassi, todos do MDB, que já estavam presos. O ex-deputado Marcelo Simão (PP) foi proibido de frequentar a Alerj.

Os deputados davam apoio a Sergio Cabral na Alerj em troca de mensalinhos e de indicar apaniguados para cargos públicos.


Conceição Lemes
No Viomundo