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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Xadrez do desmonte da Receita por Guedes e Bolsonaro, peça final para a destruição do estado nacional, por Luis Nassif



A destruição desse modelo instituiria definitivamente a lei das selvas no país, o vale-tudo sem regras, sem limites para a ação predatória de grupos econômicos e do crime organizado.

Peça 1 – as implicações fiscais dos atrasos do INSS

O Brasil está submetido a um terraplanismo-ideológico fatal. Do lado de Bolsonaro, a volta do fundamentalismo religioso. Do lado de Paulo Guedes, um ideologismo cego, cujo objetivo final será o desmonte total do Estado brasileiro, uma loucura jamais imaginada nem pelo mais tresloucado dos liberais.
Não se imagine que a enorme fila de atrasados do INSS signifique apenas incompetência gerencial do governo Bolsonaro. A ideia de chamar militares aposentados para ajudar a resolver a pinimba é apenas um dos inúmeros factoides da administração Bolsonaro
O atraso faz parte de uma estratégia política não apenas de preservar a Lei do Teto, mas de desmonte do Estado, cujo alvo final é a própria Receita Federal.
A proposta de Guedes é reduzir a carga fiscal de 33/34% para 20% ao ano. E se funda em dois princípios: desmonte de toda a estrutura de gastos; e desmonte da estrutura de arrecadação.
A formação dos estados nacionais modernos se deu com a constituição de uma burocracia administrativa, da força militar e do sistema fiscal, construído para sustentar as despesas públicas.
A destruição desse modelo instituiria definitivamente a lei das selvas no país, o vale-tudo sem regras, sem limites para a ação predatória de grupos econômicos e do crime organizado.

Peça 2 – o desmonte da Receita

Todo ajuste fiscal tem o lado das despesas e da receita. O mesmo governo que se esmera em desmontar todas as políticas e gastos sociais também tem atuado fortemente para desmontar o sistema de arrecadação fiscal do país.
Para 2020, o Ministro da Economia Paulo Guedes impôs uma restrição orçamentária de 30% ao órgão. Peças essenciais na fiscalização, Dataprev e Serpro também estão submetidos a restrições e orientação de redução de cargos. O Serpro praticamente cessou a prestação de serviços para a Receita Federal.
Não há manutenção dos sistemas. Em várias delegacias e agências a internet deixou de funcionar e os servidores não podem acessar os sistemas para realizar seus trabalhos.
Em vários locais, os centros de atendimento dos contribuintes da Receita Federal não conseguem sequer emitir as Certidões Negativas de Débitos- CND, causando sérios transtornos principalmente para pessoas físicas e pequenas empresas que dependem desses serviços.
A Receita era uma das instituições que tinham atingido nível de excelência em tecnologia da informação, sendo premiada no Brasil e no exterior. Com os cortes, setores técnicos avaliam, preliminarmente, que a Receita irá regredir uma década.
Com o desmonte promovido, em várias delegacias e agências os servidores do Serpro foram removidos, deixando a Receita sem suporte algum.

Peça 3 – incompetência ou objetivo político?

Há duas forças impulsionando a queda na arrecadação.
Do lado do mercado, Paulo Guedes, com o objetivo de reduzir a carga fiscal para 20%. Segundo ele, a redução será facilmente atingida se conseguir controlar o crescimento nominal das despesas. “Em dois anos, o trabalho está feito”, disse ele. Não conseguindo controlar o crescimento dos gastos, apelará para a Lei do Teto e a PEC do Pacto Federativo. “Basta o governo não fazer nada. Nenhuma crise no orçamento dessa forma dura mais do que um ano em meio. Basta que, na dúvida, repete o orçamento do ano passado. Se não destravar, fica mais um ano congelado”, afirmou.
A segunda força é a base de apoio político de Bolsonaro. Hoje em dia, a espinha dorsal do bolsonarismo está nessa base, de milícias e crime organizado às Igrejas neopentecostais, todas território fértil para lavagem de dinheiro. As “rachadinhas” de Flávio Bolsonaro não teriam sido identificadas sem o trabalho da Receita e do COAF. É só relembrar a pressão de Bolsonaro sobre a Receita, para tirar a fiscalização do porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, porta de entrada do contrabando de armas no país.
A Receita é elemento essencial para sustentar o nível de despesas e blindar a economia informal da invasão pelos agentes da zona cinzenta da economia e pelo crime organizado.
O desmonte da Receita se encaixa na lógica Bolsonaro-Guedes, de promover um novo ciclo de acumulação capitalista em cima dos direitos sociais dos mais pobres, além de permitir a expansão da economia das milícias e do crime organizado.
Em agosto passado, Bolsonaro publicou um vídeo em seu Facebook incitando violência contra fiscais do trabalho.
No dia 11 de dezembro passado, para empresários reunidos na Confederação Nacional da Indústria, Bolsonaro sustentou a necessidade de menos poder aos fiscais, para evitar a aplicação de multas no agronegócio, nas indústrias e nas Igrejas.
“Tenho falado com meus ministros quando se fala em multas. Se eu não me engano, há questão de 40 anos, a Inglaterra tirou o poder de seus fiscais. Porque chegou a um ponto que aquele modelo adotado atrapalhava quem queria produzir”, disse ele.

Peça 4 – o desmonte final do Estado brasileiro

Afirmação como a de Bolsonaro, ou ações como a de Guedes, certamente fazem revirar no túmulo os gurus do liberalismo brasileiro, de Roberto Campos a Octávio Gouvêa de Bulhões – que focaram na reestruturação da Receita, nos anos 60, os fundamentos para o crescimento posterior da economia.
  1. O PT foi acusado de tentar transformar o Brasil em uma nova Venezuela, e essa acusação era falsa.
  2. Bolsonaro está sendo acusado de levar o Brasil para um golpe de Estado com apoio das milícias.
  3. Como a afirmação 1 era falsa, logo a afirmação 2 também é falsa, pouco importam as atitudes de Bolsonaro, as declarações sucessivas contra a democracia, a imprensa e o próprio conceito de Nação.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A conta do golpe é no lombo dos pobres, por Fernando Brito



contapobres
Do insuspeitíssimo Valor, sobre como os pobres estão pagando a conta da crise e dos “cortes”:
Antes usado como vitrine em campanhas eleitorais, programas sociais como Luz para Todos, Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Minha Casa, Minha Vida estão praticamente desaparecendo em meio à restrição fiscal. Diante do sucessivo aumento das despesas obrigatórias, puxado pela Previdência Social, há cada vez menos espaço no orçamento para essas ações.
No caso do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, os pagamentos chegaram à marca de R$ 20,7 bilhões em 2015, recuaram para R$ 7,9 bilhões em 2016 e somam apenas R$ 1,8 bilhão de janeiro a agosto deste ano. O PAA, que permite a compra de produtos da agricultura familiar pelo governo federal, teve desembolsos de R$ 41 milhões neste ano (até junho), uma redução de 91% nos pagamentos contra 2016 todo.
Já o Luz Para Todos, que dá acesso à energia elétrica para a população rural, tem recuo de 79% no período (para apenas R$ 44 milhões neste ano). Os números foram compilados pelo Valor a partir de dados do governo e do Congresso.
O gráfico é do jornal, ao qual acrescentei os números contidos na matéria sobre o “Minha Casa, Minha Vida”.
Claro, a “culpa” é sempre da previdência, este nababesco valor de um salário mínimo pago à imensa maioria.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Bob Fernandes: Brasil, qual é o teu negócio? Qual o nome do teu sócio?








Brasileiros ricos, sejam ou não celebridades, estão com problemas. Problemas com fortunas, bens, ou transações no exterior.
A Receita ameaça autuar 2.100 brasileiros que têm imóveis em Miami. Por não terem declarado ou terem subavaliado seus imóveis.
Brasileiros com casas, salas ou apartamentos em Miami são 4.765. E 44% deles estão na mira do Leão. Que anuncia mordidas para a partir de Agosto.
Já um milionário brasileiro está com problemas bem maiores: é Ricardo Teixeira, que presidiu a CBF por 23 anos.
A justiça espanhola pediu a prisão de Teixeira por lavagem de dinheiro. Ricardo Teixeira já foi denunciado também nos Estados Unidos...
...Lá acusado de ser um dos comandantes de esquema de lavagem de dinheiro. E por receber propina na venda de torneios e Copas organizadas pela FIFA.
Teixeira foi genro do falecido João Havelange. Que comandou a CBF por 17 anos e a FIFA por outros 24 anos. Havelange e Teixeira foram acusados de corrupção.
Havelange teve que renunciar ao Comitê Olímpico Internacional e à presidência de Honra da FIFA.
Ricardo Teixeira também teve que renunciar: à CBF e FIFA. Ele hoje vive no Brasil.
Assim como Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, Teixeira não sai do Brasil para não ser preso.
Nos EUA está preso José Maria Marin, ex-presidente dessa mesma CBF.
Este é um resumo da história político-policial de 60 anos do futebol brasileiro e seus dirigentes...
Alguns fatos impressionam.
Primeiro que, assim como na Política, tenham demorado tanto para chamar a Polícia, a Justiça... E não a do Brasil, onde sempre se soube e se sabe dos negócios. E dos sócios...
...Assim como na Política, se existem corruptos existem também os corruptores.
Em meio a tantas compras e vendas de torneios e copas esses senhores, e seus sócios, nunca foram investigados pra valer... Só em CPIs de araque.
Impressiona tal descaso, ou temor, tendo a dimensão que têm o futebol e seus negócios no Brasil.
Anuncia-se que, enfim, o ministério público vai investigar. Veremos...

Le Monde Diplomatique: Há lógica no aumento de impostos de Temer sobre os Combustíveis?


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O mito das “contas que não fecham”, sem dizer por quê, ou colocando a culpa em uma irresponsabilidade abstrata de governos anteriores, é o instrumento subjetivo que pacifica o povo diante de tamanha extorsão em favor de poucos privilegiados que já detém fortunas inimagináveis.

Do Le Monde Diplomatique:



DE GOLPE EM GOLPE
Há lógica no aumento dos impostos sobre combustíveis?



O Governo anunciou o aumento de impostos sobre combustíveis sob o pretexto de que essa medida tinha como objetivo o “equilíbrio das contas públicas”. O discurso foi repetido insistentemente pela mídia. Inclusive pela Globo, que resolveu fazer oposição ao Governo que ela mesma ajudou a chegar ao poder sem o voto popular. O conteúdo opinativo e jornalístico da emissora, apesar de rompido com o atual mandatário do Executivo, continua perfeitamente afinado com os interesses dos que promoveram o impeachment.
Ninguém gosta de ter as contas desequilibradas. Por isso, muitos aceitam o que é mostrado como um “remédio amargo” para curar a doença que os fizeram acreditar acometidos. Reclamam, mas não se revoltam.
Poucos, porém, se perguntam que contas são essas e por que estão desequilibradas. Não porque não queiram saber. Mas porque o braço educativo e formador de opiniões dos que realmente governam o mundo (as corporações de mídia) já construiu e disseminou a resposta: o Governo deposto gastou demais e gerou um rombo que precisa ser compensado com austeridade fiscal e aumento de receita. Em outras palavras, criou-se a ideia (quase uma verdade absoluta) de que o governo anterior gastou mais do que arrecadou e levou o país para o buraco. Uns culparam até os programas sociais pelos “gastos excessivos”.
Se o governo Dilma soube ou não administrar as contas do Estado, não é caso para se discutir aqui. Essencial é saber quem realmente está por trás do rombo nas contas públicas, quem o Governo atual deseja sacrificar para tapá-lo e em nome de que tipo de interesses se pretende fazer o equilíbrio fiscal.
Ladislau Dowbor, em seu artigo Quem quebrou o Estado brasileiro (http://outraspalavras.net/brasil/ladislau-quem-quebrou-o-estado-brasileiro/), revela os verdadeiros responsáveis pela crise fiscal brasileira com dados do próprio Banco Central. A tabela abaixo, copiada de seu texto, mostra que de 2010 a 2013, os gastos primários do Governo (que não inclui o serviço da dívida) foram menores do que a arrecadação. Ou seja, se não se contabiliza o dinheiro gasto com juros para pagar bancos e detentores de títulos públicos (os agiotas legais que vivem da usura), os resultados mostram superávit nas contas públicas.
IX Resultado Primário do Governo Central
2010
2011
2012
2013
2014
2015
78.723,3
93.035,5
86.086,0
75.290,7
-20.471,7
-116.655,6
2%
2,1%
1,8%
1,4%
-0,4%
-2%
www.tesouro.fazenda.gov.br/pt_PT/resultado-do-tesouro-nacional
Programas sociais, previdência, gastos com a máquina administrativa ou investimentos não pesaram negativamente no equilíbrio das contas. Se foram bem feitos ou não é outra história. Só não foram a causa do problema.
Em 2014 houve um pequeno déficit e em 2015 ele chega a 2% do PIB. Não se trata de nenhum rombo. Dowbor nos esclarece que para a União Europeia um déficit de até 3% é considerado normal.
Mas isso não significa que as contas públicas estiveram equilibradas. Pois o rombo existe. Só não dissemos ainda sua origem. Importou até aqui apenas desfazer a ideia de que os gastos do Governo com a sua manutenção (a história repetida dos “muitos ministérios”), com programas sociais, previdência e diferentes investimentos constituíram-se uma “farra com dinheiro público” ou uma “gastança irresponsável”. Os números do Banco Central provam que todos foram feitos dentro do que era possível no orçamento e com sobra (até 2013) ou com um déficit tolerável.
Quando, porém, se contabilizam os gastos com os juros da dívida com o setor financeiro (que agigantou-se desde o plano Real e a política econômica financista que o sustentou, mantida por todos os governos até o presente), o verdadeiro rombo aparece.
A outra tabela exposta no artigo de Dowbor, com dados do Banco Central, mostra o quanto foi transferido de nossas riquezas para o setor financeiro apenas com o pagamento de juros e o que isso representa de déficit nas contas públicas.
X Juros nominais
2010
2011
2012
2013
2014
2015
-124.508,7
-180.533,1
-147.267,6
-185.845,7
-251.070,2
-397.240,4
-3,2%
-4,1%
-3,1%
-3,5%
-4,4%
-6,7%
www.tesouro.fazenda.gov.br/pt_PT/resultado-do-tesouro-nacional
O aumento ou diminuição dos montantes pagos com juros estão diretamente relacionados às variações da taxa de juros para cima ou para baixo. Sob pressão do setor financeiro e com representantes dos banqueiros cuidando da economia a partir de 2014 (com a ida de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda), o Governo Dilma permitiu o aumento do rombo ao elevar a taxa de juros e tentou saciar a fome voraz de banqueiros e especuladores no período de crise. O resultado aparece na tabela.
A pressão das finanças sobre os governos, por todos os meios possíveis, que vão desde a cooptação dos eleitos a ameaças à governabilidade (pelo controle dos parlamentos e dos judiciários), é o que caracteriza o exercício real do poder. Não é por acaso que os bancos e agentes financeiros continuam lucrando bilhões mesmo em períodos de retração da economia, queda do PIB e aumento da pobreza da população.
Somente com essa (aí, sim) “farra” dos bancos e agentes financeiros com a riqueza gerada pelos que trabalham e produzem é que o rombo aparece, ou seja, que a “gastança” do governo se revela em forma de déficit. No resultado final das contas, soma-se o resultado primário com o resultado dos juros. O superávit primário é engolido pelos juros e vira déficit nominal
IX – Resultado Nominal do Governo Central
2010
2011
2012
2013
2014
2015
-45.785,5
-87.517,6
-61.181,7
-110.554,9
-271.541,9
-513.896,0
-1,2%
-2%
-1,3%
-2,1%
-4,8%
-8,7%
www.tesouro.fazenda.gov.br/pt_PT/resultado-do-tesouro-nacional
A causa do rombo, portanto, não foi aumento de gastos, mas aumento de juros para aplacar a ganância dos bancos e compradores de títulos públicos. Ou seja, a crise fiscal não é causa, mas consequência da política econômica financista mantida pelos Governos FHC, Lula e Dilma.
Contudo, não se sacia uma fome insaciável. Apenas o aumento das taxas de juros, o corte de alguns gastos e o anúncio de “austeridade” do Governo Dilma não servia a mesa da banca. Com a economia mundial em crise, a expectativa de lucro do setor financeiro, para concretizar-se, depende da mobilização de todos os recursos do país, ou seja, precisa sugar a maior parte da riqueza dos que realmente participam das atividades fins da economia (trabalhadores e empresários). Depende de que toda a arrecadação feita sobre os produtores de riqueza seja transferida para seus cofres, sob a forma de pagamento de juros, e não para os programas sociais ou áreas como previdência social, saúde, educação, reforma agrária, habitação, etc. Depende, inclusive, de que não exista mais programas sociais ou aposentadorias.
Para isso, um outro governo era necessário. Menos escrupuloso e com menos sensibilidade social. Dilma não servia mais.
Com o novo Governo, o dreno que transferiria todos os recursos da produção para a remuneração do capital financeiro deveria ser colocado nos que, de uma forma ou de outra, tocam a economia produtiva, ou seja, empresários e trabalhadores. Para servir à banca, o governo poderia, além de congelar o orçamento, acabar com programas sociais e destruir a previdência, aumentar a arrecadação com o aumento de impostos sobre o setor produtivo.
O problema é que grandes empresários desse setor (organizados em entidades como CNI, FIESP, etc.) também participaram da conspiração que destituiu o Governo eleito. Além de conseguirem o fim da CLT e anistia de dívidas milionárias, também querem que não haja aumento de tributos que possam reduzir sua participação no botim, ou seja, de impostos que possam incidir sobre o lucro, herança, grandes fortunas, etc.
A solução, então, é o aumento de impostos que são repassados aos preços, transferindo os impactos, mais uma vez, para a população, como é o caso do aumento do imposto sobre os combustíveis. Esse tipo de imposto não é pago por produtores e comerciantes, mas pelos consumidores, pois são embutidos nos preços. Inclusive, até antes de impactarem realmente os custos de comerciantes e produtores. Certamente outros virão.
Esse tipo de medida que aumenta o volume de recursos a serem transferidos para o setor financeiro na forma do pagamento de juros também não é o ideal para o setor produtivo, pois faz cair o consumo, dificulta o crédito e estanca a produção. Mas quem manda de verdade na conjuntura atual do capitalismo são as finanças. Então, a batalha é para ver como se perde menos para se continuar ricos. Por isso eles se unem em um complexo financeiro-empresarial, em nome do capital.
O mito das “contas que não fecham”, sem dizer por quê, ou colocando a culpa em uma irresponsabilidade abstrata de governos anteriores, é o instrumento subjetivo que pacifica o povo diante de tamanha extorsão em favor de poucos privilegiados que já detêm fortunas inimagináveis.
Conhecer as raízes das medidas e divulgá-las é tarefa que pode gerar a indignação e resistência necessárias para o enfrentamento da poderosa banca que domina o mundo por meio de seus representantes na política local.
Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Aumento de imposto de Temer e Meirelles poupa bancos e aprofunda recessão, por J. Carlos de Assis


"O aumento anunciado de impostos sobre a gasolina é absolutamente inútil. Reduzirá a massa de lucro ou, mais provavelmente, a massa salarial. Em ambos os casos, serão novos elementos de contração da economia, que continuará em depressão pelo terceiro ano consecutivo.  Se  não implicasse mais desemprego e mais queda de renda real, a medida anunciada seria um bom motivo para festejar o eventual “remorso” das classes dominantes em ter forçado o impeachment dois anos atrás."



Aumento de imposto poupa bancos e aprofunda recessão
por J. Carlos de Assis

GGN. - O aumento de impostos para reduzir o déficit público é uma dessas demonstrações de estupidez da política econômica neoliberal que mostra o descompasso entre classes dominantes, donas dos meios de produção, e as elites dirigentes, que governam em seu nome. Uma política econômica progressista admitiria sem maiores problemas crescimento de déficit público e rejeitaria o aumento de impostos. A estupidez neoliberal propõe o oposto.
É muito importante que as elites dirigentes continuem estúpidas. A receita keynesiana para superação do desastre econômico em que nos encontramos pressupõe o gasto público deficitário, convertido em compras reais de bens e serviços pelo governo. Busca-se, com isso, estimular a economia, a demanda, o investimento, o emprego. Entretanto, esse déficit será inútil para o crescimento se for “queimado” na ciranda financeira.
Nossa sorte é que o contador Henrique Meirelles, tão ignorante de economia como o próprio Michel Temer, esteja afogado em ideologia neoliberal de tal forma que acredita que o déficit público é sempre prejudicial. Bom mesmo é o equilíbrio orçamentário, diz ele, que para isso fez a emenda do congelamento dos gastos públicos por 20 anos. A partir dele o empresariado adquire “confiança” no governo e, em seguida, começa a recuperação econômica. Acreditar nisso é como acreditar em Branca de Neve e nos Sete Anões.
Esse tipo de crença ideológica nos pressupostos neoliberais tem suas vantagens para a cidadania. Se acreditasse no déficit público para reverter a recessão, como fazemos nós, keynesianos, Meirelles poderia tomar o caminho de aumentá-lo, porém em lugar de destinar os recursos para a economia real, de forma a puxar os investimentos e o emprego,  poderia destiná-lo exclusivamente à especulação financeira com a dívida pública, como já faz com o déficit de 139 bilhões de reais previsto para este ano.
O aumento anunciado de impostos sobre a gasolina é absolutamente inútil. Reduzirá a massa de lucro ou, mais provavelmente, a massa salarial. Em ambos os casos, serão novos elementos de contração da economia, que continuará em depressão pelo terceiro ano consecutivo.  Se  não implicasse mais desemprego e mais queda de renda real, a medida anunciada seria um bom motivo para festejar o eventual “remorso” das classes dominantes em ter forçado o impeachment dois anos atrás.
O tipo de imposto escolhido por Meirelles para ser aumentado poupa o sistema financeiro. Este ponto  infelizmente é pouco percebido pelo empresariado produtivo. Este se comporta ideologicamente como escravo da financeirização. Os sintomas dessa escravidão são remotos. Há décadas toleramos  as taxas básicas  de juros mais altas do mundo. Em parte por ser sócio menor da financeirização, o empresário produtivo tem medo de atacar, por solidariedade de classe, os assaltos explícitos do setor financeiro. Entretanto, ao perceber o peso de um tributo que ficará à margem dos bancos, o empresariado produtivo poderá vir a ser um aliado do povo nessa batalha econômica contra o deus Mamon, o dinheiro - conforme denunciado pelo senador Roberto Requião seguindo a linha do Papa Francisco.