sábado, 25 de agosto de 2018

Bresser-Pereira: PSDB é um partido golpista, da direita e absolutamente antinacional


Para Bresser, país passa por crise "construída pelo liberalismo econômico sem ideia de nação" 



ENTREVISTA

Bresser-Pereira: PSDB é um partido golpista, da direita e absolutamente antinacional

Para economista, "5% do PIB é roubado do patrimônio público e entregue a rentistas", enquanto o povo é alvo das reformas

Para Bresser, país passa por crise "construída pelo liberalismo econômico sem ideia de nação" - Créditos: Caros Amigos

“O Brasil não tem uma ideia de nação desde os anos 1990, desde o governo Collor o Brasil se entregou aos interesses, ideias e ao comando estrangeiro, ao liberalismo econômico, que é dominante no Brasil desde então”, diz o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira.
Pensando nisso, ele está redigindo um manifesto intitulado Projeto Brasil Nação, que pretende divulgar no fim do mês.  Nele, “conclama-se os brasileiros a voltarem a se unir em torno da ideia de nação e em torno de um programa econômico viável, responsável, do ponto de vista fiscal e cambial”, afirma.
Projetando as eleições de 2018, Bresser-Pereira acredita que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o líder capaz de fazer compromissos e entendimentos “e voltar a transformar essa sociedade, não digo numa grande nação, mas pelo menos num país que volte a se repensar, com menos ódio e com mais ideia de cooperação e colaboração entre todos”.
Fundador do PSDB, ex-ministro dos governos José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, o economista acredita que a legenda tucana “é o verdadeiro sucessor da UDN no Brasil, e portanto é um partido golpista”.  “O PMDB não é nada, não é um partido. É um conjunto de pessoas, algumas até muito boas, e outras péssimas. Já o PSDB é um partido, como o PT, mas é um partido da direita e da direita absolutamente antinacional e dependente”, diz, em entrevista à RBA.
No final de 2015 o senhor disse que o Brasil tem dois grandes problemas, a “alta preferência pelo consumo imediato” e a perda da “ideia de nação”. Depois do golpe, a ideia de nação se perdeu definitivamente?
Veja, o Brasil não tem uma ideia de nação desde os anos 1990, desde o governo Collor o Brasil se entregou aos interesses, ideias e ao comando estrangeiro, ao liberalismo econômico, que é dominante no Brasil desde então, e liberalismo significa dependência, para nós. Houve nos governos Lula e Dilma uma certa retomada da ideia de nação. Nada muito forte, mas houve um esforço nessa direção. De repente vem o golpe, um golpe ultraliberal, absolutamente contrário à ideia de nação e que agravou profundamente a crise em que nós já estávamos, uma crise provocada por esse liberalismo.
O Brasil está dominado pelo liberalismo econômico desde 1990. Desde aquela época foi feita uma série de reformas que mudaram o regime de política econômica, de um regime desenvolvimentista para um regime liberal, que é inviável no país. De forma que o Brasil vai de mal a pior.
Qual sua avaliação do atual cenário e da conjuntura econômica, do futuro no curto e médio prazo?
Tivemos uma crise que se desencadeia no final de 2014 e que, se fosse contra-atacada com uma política expansiva, feita por um ministro competente, keynesiano, talvez o Brasil estivesse fora dela há bastante tempo. Mas não. Foi ainda a Dilma que chamou o Joaquim Levy e ele adotou uma política que afinal agravou a recessão substancialmente. Veio o Nelson Barbosa e tentou consertar a coisa dizendo: “Não, nós não podemos reduzir investimentos, podemos reduzir despesa corrente, mas em hipótese alguma investimento. Pelo contrário, devemos expandir”.
Foi o que eu também estava dizendo nesse momento, depois de equivocadamente ter apoiado a Dilma no comecinho da segunda gestão dela. Mas veio o golpe e outra vez veio o liberalismo econômico mais radical, a ortodoxia. O câmbio tinha ido para o lugar certo. Eu estava contando com isso para as empresas retomarem os investimentos, tornarem-se competitivas e a economia voltar a crescer. Não aconteceu, o câmbio voltou a se apreciar. Nós já estamos com o câmbio substancialmente apreciado, o consumo só diminui, com esse imenso desemprego. Estamos com mais de 13 milhões de desempregados. Realmente a crise se aprofundou. E é uma crise construída pelo liberalismo econômico, sem ideia de nação.
Se o dólar ideal seria em torno de R$ 3,80, segundo o senhor já disse, estamos muito longe disso…
Dada a inflação que houve aqui no Brasil e lá fora, o dólar que tornaria as empresas competitivas está próximo hoje de quatro reais. Estamos muito longe. Esse é o mal fundamental do Brasil, a irresponsabilidade cambial. Há um outro mal, e aí a esquerda também é useira e vezeira em praticá-lo, que é a irresponsabilidade fiscal. A Dilma foi a última experiência de irresponsabilidade fiscal. Agora, a irresponsabilidade cambial é principalmente da direita, dos liberais. Eles acham que ter déficit em conta corrente é bom porque seria poupança externa, que se transformaria em investimento.  É poupança externa, porque realmente ficamos devendo aos outros, mas essa poupança externa não é para financiar investimento, é para financiar consumo.
Apesar dos erros da Dilma que o senhor mencionou, considerando que a derrubada do governo foi, no mínimo, incentivada  por interesses internacionais, era possível ter evitado o golpe?
Sem dúvida que podia ter sido evitado. Foi uma decisão lamentável do Congresso, foi uma manobra de um grupo de oportunistas do PMDB, na qual o PSDB embarcou docemente, demonstrando que é um partido liberal, o verdadeiro sucessor da UDN no Brasil, e que portanto é um partido golpista como era a UDN. Que o PMDB seja golpista… O PMDB não é nada, não é um partido. É um conjunto de pessoas, algumas até muito boas, e outras péssimas. Já o PSDB é um partido, como o PT, mas é um partido da direita e da direita absolutamente antinacional e dependente. Isso ficou demonstrado quando eles se associaram ao golpe, que não os adiantou em nada.
Uma coisa muito curiosa é o seguinte: agora já começam a discutir quem serão os candidatos na próxima eleição. A Cristina Fernandes, do Valor, relatou uma festa na coluna dela em que os milionários do Brasil estavam lá reunidos, e mais os políticos de direita, e então conversava-se sobre quem seria o novo presidente. Quem enfrentaria o mal maior, que é o Lula? E chegaram à conclusão que era o (João) Doria, que é uma coisa quase ridícula.
O que aconteceu no Brasil, um pouco por culpa da Dilma e muito por culpa de uma direita ressentida, é que uma classe média de direita ressentida não se sentiu apoiada pelo governo; os ricos ficavam mais ricos, os pobres eram apoiados pelo governo e essa classe média ficava solta no ar. E aí houve uma  radicalização muito violenta na sociedade brasileira, e passou a haver no Brasil uma coisa que nunca tinha visto, que foi o ódio. Estamos nessa situação, semelhante, aliás, à triste situação em que estão os Estados Unidos também, completamente divididos. Não há nada pior para uma sociedade do que isso. Mas vamos ter eleição em 2018…
Se é que vai ter…
Vai ter. E o Lula possivelmente vai ser candidato. Não creio que eles consigam impedir que ele seja candidato. Digamos que o outro seja o Doria. Quem desses candidatos tem capacidade de reunir a sociedade brasileira? Quem tem capacidade de fazer os compromissos, entendimentos etc., e voltar a transformar essa sociedade, não digo numa grande nação, mas pelo menos num país que volta a se repensar, com menos ódio e com mais ideia de cooperação e colaboração entre todos? Certamente não é um Doria. E a meu ver, o Lula tem todas as condições para isso.
O Paulo Sérgio Pinheiro me enviou um manifesto que foi assinado em 1989 por um conjunto de intelectuais que não eram de partido e apoiavam o Lula, com essa ideia, de o Lula poder representar uma união nacional. Isso pode ser o destino dos grandes líderes. O Lula é um grande líder, não há dúvida. Vamos ver.
O Temer está introduzindo algumas reformas extremamente perversas, como a da Previdência. Diante da retirada de direitos e da enorme impopularidade, esse governo resiste até o fim?
Não nos termos em que foi colocada, mas acho que uma reforma da Previdência é necessária. É preciso fazer alguma coisa nessa direção. É preciso estabelecer uma idade de aposentadoria mais alta, é impossível se manter no Brasil pessoas se aposentando tão cedo. E é preciso igualizar o sistema público ao privado. Na minha opinião, há três grupos privilegiados no Brasil: o grupo dos rentistas, que vivem de juros e recebem quase 7% do PIB, quando deviam receber no máximo 2%. Tem 4%, 5% do PIB, uma barbaridade de dinheiro, que é roubado do patrimônio público e entregue a rentistas e financistas. O segundo grupo é o dos altos burocratas, que têm salários altos demais e aposentadorias excessivas. E o terceiro é o grupo dos interesses estrangeiros, porque tudo é feito aqui no Brasil em função dos interesses estrangeiros, e vamos nos  transformando aos poucos em meros empregados dos países ricos.
Agora, o governo que está aí é uma maravilha de governo, porque há um quarto grupo de privilegiados e esse é o objeto fundamental: é o povão, os pobres, os trabalhadores. Esses é que são os privilegiados, segundo o governo e segundo o PSDB. Segundo os liberais.
A questão da Petrobras, a entrega do pré-sal é simbólico disso?
Queremos ter déficit em conta corrente, porque achamos que isso é bom, lá no norte nos ensinam que é bom. Em Nova York, em Washington, em Londres e Paris eles dizem: “vocês precisam ter déficit em conta corrente porque isso permite que nós os ajudemos financiando vocês”. Nós acreditamos nisso, consumimos muito, ficamos devendo muito, não investimos, e aí precisamos começar e vender tudo o que temos. Já que não produzimos, a gente vai vendendo o que tem. É isso que estamos fazendo no Brasil há muito tempo.
O que dizer às pessoas hoje desiludidas, de várias gerações, que passaram a acreditar que o país podia ser autônomo, ter soberania, mas outra vez sofreu um golpe?
Não há nada mais importante do que isso. Devemos lançar até o final do mês um manifesto que chamo de Projeto Brasil Nação, e espero que seja seriamente lido, estudado e apoiado pelas pessoas, porque conclama-se os brasileiros a voltarem a se unir em torno da ideia de nação e em torno de um programa econômico viável, responsável, do ponto de vista fiscal e cambial.
As pessoas no Brasil estão se sentindo sem rumo. Vamos tentar nesse manifesto apontar um rumo. Não é nenhuma tábua de salvação, nenhuma solução mágica, mas é um programa mínimo, básico, na área econômica, em alguns valores fundamentais, que ou uma nação os partilha, ou não. Eu estava falando que era preciso refundar a nação, e minha filha me disse: “não, pai, a nação brasileira já foi fundada em 1822”. Eu falei: formalmente sim. Um grande ensaísta e filósofo francês, Ernest Renan, que no século 19 fez uma maravilhosa conferência sobre o que é uma nação, dizia que nação é um desafio e um projeto que a gente renova todos os dias. A nação você refunda todos os dias. A nossa nação se enfraqueceu muito a partir de 1990, a partir da crise da dívida externa e da crise do Plano Cruzado, e precisamos recuperá-la. 
Edição: Rede Brasil Atual

Violência, fundamentalismo e fascismo apaixonado: o apelo do culto ao "líder" da extrema direita brasileira. Por Kiko Nogueira



"Algumas coisas chamam a atenção na legião de seguidores de Jair Bolsonaro.
"A primeira, óbvia, é o fanatismo. Bolsomito, como eles chamam, é incorruptível, infalível, inteligente, a encarnação do Profeta.
"A segunda é a truculência. Eles gostam de porrada, de testosterona, eles atropelam o que vêem pela frente, especialmente se as vítimas forem mais fracas.
"A terceira, e esta é a mais interessante, é que são todos homens. Não propriamente homens — meninos. Há raríssimas fãs do sexo feminino." - Kiko Nigueira, jornalista
Resultado de imagem para fascismo bolsonaro

Violência e paixão: o apelo homoerótico do culto a Bolsonaro. Por Kiko Nogueira

 

Bolsonaro em comício: só rapazes

Algumas coisas chamam a atenção na legião de seguidores de Jair Bolsonaro.
A primeira, óbvia, é o fanatismo. Bolsomito, como eles chamam, é incorruptível, infalível, inteligente, a encarnação do Profeta.
A segunda é a truculência. Eles gostam de porrada, de testosterona, eles atropelam o que vêem pela frente, especialmente se as vítimas forem mais fracas.
A terceira, e esta é a mais interessante, é que são todos homens. Não propriamente homens — meninos. Há raríssimas fãs do sexo feminino.
Os rapazes idolatram o jeito de ele falar, a boca torta num esgar que fica mais estranho quando está nervoso, o jeito de ele andar, o jeito de ele ser.
Bolsonaro gosta de ficar entre esses machos e os machos gostam de ficar com Bolsonaro.
A cada artigo sobre ele no DCM, essa garotada aparece aos magotes, revoltadíssima com qualquer coisa que conspurque a imagem de seu ídolo, um sujeito imaculado de alma e corpo.
Ele é um pop star do extremismo político, o homem dos sonhos para eles.
“Eu amo ele, sim!”, escreveu um bolsominion em resposta a um artigo.
Bolsonaro exerce um intenso apelo homoerótico sobre seu eleitorado. É o fascínio homossexual do fascismo, disfarçado sob a homofobia.
Os jihadistas de JB gostam de ficar entre si, de se amassar nos eventos do mito. Eles suam e se roçam e gritam em louvor ao chefe.
Dispensam namoradas e esposas. Parte é misoginia, mas outra parte enorme é vontade mesmo de estar apenas entre homens exaltados.
Após a Segunda Guerra, a parafernália nazifascista foi adotada por praticantes do sado masoquismo.
Artistas embarcaram nisso. David Bowie, em sua fase gay no início dos anos 70, chegou a colecionar uniformes de oficiais da SS e foi preso na Polônia com eles.
Os membros da Escola de Frankfurt descreveram um “tipo de personalidade homossexual” entre os nazifascistas. As tendências de submissão masoquistas desse tipo o tornaram vulnerável ao apelo sedutor da causa.
Na Alemanha de Hitler, uma elite de homens firmemente unidos, aduladores de um deus de bigode esquisito, era a condição necessária para uma nação forte, pura, honesta e viril.
Segundo a professora Elizabeth D. Heineman, era o “Mannerbund” — que pode ser traduzido como “coletivo do sexo masculino” —, a união de homens disciplinados física e mentalmente, sem distrações femininas, transformando seus laços profundos uns com os outros e com seu líder em potência.
O eventual sexo entre eles era considerado um vínculo a mais.
É evidente que não há problema algum no hemoerotismo dos bolsonaristas. Ninguém tem nada a ver com isso. A questão é a histeria homofóbica deles e como esse caldo é transformado em virulência, intolerância e apologia à tortura.
Bolsonaro, seus mancebos e o país que querem salvar só têm a ganhar quando se aceitarem como são.

Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Fernando Brito: "Bolsonaro não é caso para TSE ou STF. É para o Juizado de Menores."


"Jair Bolsonaro é, não há outra palavra, um imbecil perigoso." - Fernando Brito



Publicado originalmente no Tijolaço
POR FERNANDO BRITO, jornalista e editor do blog Tijolaço
Está cada vez mais difícil suportar o grau de retrocesso mental que vive a classe média brasileira.
Não há explicação plausível para que aceitem e prestigiem um energúmeno que diz e faz o que disse e fez ontem Jair Bolsonaro, em Araçatuba.
Mas aceitam e aplaudem que diz que criança não pode ver nudez artística, mas pode “brincar” e treinar com um “trezoitão”.
Falar o que falou (está aí em cima, na reprodução do Estadão) a uma criança de cinco anos de idade – e dizer, também, que, nesta mesma idade, punha seus filhos para atirarem com armas “de verdade” (arma real, “não é de ficção, não, nem de espoleta”) não é opinião,  é crime.
É criar uma exposição a pequenas crianças, naturalmente sem discernimento entre fantasia e realidade, a produzirem tragédias. Qualquer pai que, por necessidade ou opção, tenha uma arma e filhos nesta idade sabe que elas tem de ser tratadas como tabu – algo que nunca se deve tocar.
Num país em que o Ministério Público chega a revirar latas de lixo atrás de algo que possa servir para acusar candidatos de esquerda, há um estranho silêncio de suas excelências diante deste tipo de crime.
Não é, repito,  é um “delito de opinião”. O porte, posse ou uso de armas de fogo por crianças é crime e é criminoso (artigo 286 do Código Pena,) quem ” incitar, publicamente, a prática de crime “. E o Ministério Público tem a obrigação legal de agir.
Para a sorte de Bolsonaro, o crime que cometeu com seus filhos, dando-lhes uma arma de verdade para que atirassem aos 5 anos de idade, já prescreveu porque seria mais um (este, o do artigo 242 do Estatuto da Criança e do Adolescente – “vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de qualquer forma, a criança ou adolescente arma, munição ou explosivo” – que o candidato diz que vai jogar na latrina).
Jair Bolsonaro é, não há outra palavra, um imbecil perigoso.

Nelson Jobim: “se impedirmos Lula de ser candidato, faremos como os militares e isso se voltará contra nós”



Do DCM:

Jobim: “se impedirmos Lula de ser candidato, faremos como os militares e isso se voltará contra nós”

 
​
​
​
​
Nélson Jobim foi presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff.

“É direito de Lula ser eleito”, dizem juristas internacionais em carta enviada a Temer


"Em entrevista à RFI, o advogado francês William Bourdon, que encabeça a lista de signatários, afirma que, ao desrespeitar a decisão do comitê da ONU, o Brasil dá razão àqueles que desvalorizam o princípio da ordem mundial. “Há países no mundo que desprezam a ONU e as decisões das instituições das Nações Unidas. Não podemos pensar que o Brasil, grande país democrático, possa se alinhar ao cinismo desses países, quase sempre tirânicos e despóticos, que não cumprem suas obrigações internacionais”, defende o jurista, conhecido como um dos advogados mais influentes da França."

Da Agência Reuters e RFI - por Leonardo Benassato


media


Um grupo de magistrados de vários países enviou nesta quinta-feira (23) uma carta ao presidente brasileiro, Michel Temer, em defesa de Luiz Inácio Lula da Silva. Os signatários solicitam que seja respeitada a decisão da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, que pediu na semana passada que o petista possa concorrer nas eleições de outubro.

A carta foi redigida pelo escritório de advocacia francês Bourdon & Associés e conta com a assinatura de 11 juristas de renome, como Baltasar Garzón, da Espanha, Luigi Ferrajoli, da Itália, ou ainda Emílio García Mendez, presidente da Fundação Sul Argentina, Wolfgang Kaleck, secretário-geral do Centro Europeu pelos direitos constitucionais e os direitos humanos (ECCHR), e o presidente de honra da Liga de Direitos Humanos (LDH), Henri Leclerc. O mesmo grupo já havia enviado, no dia 9 de agosto, outra missiva ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral do Brasil, contestando o desenrolar do processo de Lula e sua detenção.

Mas desta vez, os juristas reagem à decisão anunciada pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU que pediu, na sexta-feira (17), que as autoridades brasileiras permitam a participação do líder petista nas eleições presidenciais. “É direito do Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, sem discriminação e sem restrições irrazoáveis, de participar na condução dos assuntos públicos, de votar, de ser eleito e acessar funções públicas eletivas em seu país em condições de igualdade com os demais candidatos”, pode-se ler na carta, redigida em francês, inglês e português.

Uma cópia do documento foi enviada para Michel Temer e aos ministros brasileiros da Justiça, Torquato Jardim, das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, o presidente do Senado, Eunício de Oliveira, e à presidente do Supremo Tribunal, Carmen Lúcia.

Risco de “politização da Justiça” no Brasil

Em entrevista à RFI, o advogado francês William Bourdon, que encabeça a lista de signatários, afirma que, ao desrespeitar a decisão do comitê da ONU, o Brasil dá razão àqueles que desvalorizam o princípio da ordem mundial. “Há países no mundo que desprezam a ONU e as decisões das instituições das Nações Unidas. Não podemos pensar que o Brasil, grande país democrático, possa se alinhar ao cinismo desses países, quase sempre tirânicos e despóticos, que não cumprem suas obrigações internacionais”, defende o jurista, conhecido como um dos advogados mais influentes da França.

Segundo o francês, a comunidade internacional está acompanhando de perto a situação brasileira, como prova a mobilização imediata de outros juristas, que temem uma “politização da Justiça” no Brasil. “Nas minhas recordações de advogado, nunca vi se reunir assinaturas tão prestigiosas em tão pouco tempo”, disse ele, em alusão à lista de personalidades que apoiou a correspondência.

Dúvidas sobre a imparcialidade na condenação de Lula

Bourdon explica que o primeiro destinatário da carta é Michel Temer pois, como presidente da República, ele é “a primeira pessoa que deve garantir o respeito pelo Brasil de suas obrigações internacionais, entre elas a de aceitar a decisão anunciada pelo Comitê dos Direitos Humanos”.

De acordo com a correspondência enviada a Temer, a decisão de excluir Lula da corrida eleitoral “dá crédito a todos e, claro, aos signatários desta carta, que expressaram sérias dúvidas sobre a imparcialidade do processo que deu origem à condenação do candidato e, portanto, à própria legalidade e legitimidade das consequências resultantes das eleições vindouras”.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Com “fake news”, candidato extremista do partido Patriota incentivou as ofensivas contra venezuelanos em Roraima



"Com a chapa em temperatura máxima, bastou a ignição ser dada para a cidade entrar em convulsão. O responsável por acender o fósforo? Um candidato a deputado pelo Patriota. Ezequiel Calegari é seu nome." - Mauro Donato, jornalista

Do Justificando:
Com “fake news”, candidato do Patriota incentivou as ofensivas contra venezuelanos em Roraima

Terça-feira, 21 de agosto de 2018

Com “fake news”, candidato do Patriota incentivou as ofensivas contra venezuelanos em Roraima



Imagem: EBC
Ao restante do Brasil foi apresentada, nesta semana, a cidade de Pacaraima (RR). Uma cidade que nada mais é que uma invasão dentro de uma reserva indígena e que tem no comando ‘informal’ do município – quem de fato manda no pedaço – latifundiários (que fazem um imenso lobby pela extinção da reserva, por óbvio).
Um lugar onde o saneamento básico não chega para 80% da população e que não é interligado ao sistema elétrico nacional. A energia vem de onde? Da Venezuela. Irônico, não?
Com meros 12 mil habitantes e instalações precárias, a cidade teve, em poucos meses, um acréscimo de mais de 15% na população, por conta de refugiados venezuelanos. Era previsível que entraria em desequilíbrio em decorrência de um adensamento repentino.O instinto de sobrevivência fala mais alto nessas horas.
Soma-se a esse quadro o estado de espírito atual de parte da sociedade que saiu do armário: a extrema direita, resolvida a fazer justiça com as próprias mãos (e nesse cenário a Venezuela e venezuelanos representam o ‘comunismo’ para essa turma disposta a agredir até mulheres e crianças).
Com a chapa em temperatura máxima, bastou a ignição ser dada para a cidade entrar em convulsão. O responsável por acender o fósforo? Um candidato a deputado pelo Patriota. Ezequiel Calegari é seu nome.
Foi Ezequiel quem botou pilha nos revoltados por ocasião do assalto sofrido por um comerciante de Pacaraima, na última sexta-feira. Bem verdade que houve agressão ao comerciante, mas o patriota Ezequiel (que administra uma página anti-imigrantes), fez uma postagem mentirosa e exagerada, afirmando que a vítima havia sido esfaqueada, espancada e estava em coma, “entre a vida e a morte”.
Poucos dias antes, Ezequiel Calegari já tinha disseminado outra lorota. O candidato espalhou que uma grávida brasileira havia sido expulsa da maternidade em Roraima para dar lugar a uma imigrante venezuelana gestante. Nada disso era verdade. A moça não foi expulsa, saiu depois de dar a luz; O comerciante não tomou facada nenhuma e nunca esteve em coma. Mas aí já era tarde. Após o assalto, a população já estava eriçada graças às fake newse saiu para o confronto.
O Patriota é o partido pelo qual Bolsonaro tencionou candidatar-se. O capitão mudou de ideia, mas a legenda encontrou um clone: Cabo Daciolo. É, portanto, uma sigla que encampa os mesmos ‘valores’ bolsonaristas que agora deram para propagandear a versão brasileira do “Make America Great Again” de Donald Trump. Já se vê seguidores trajando camisetas ou bonés com “Faça o Brasil grande de novo”. Para esses lobotomizados, ‘expulsar o invasor’ é o que lhes cabe fazer.


Ainda que a governadora de Roraima, Suely Campos, tenha demonstrado xenofobia e pedido logo de cara o fechamento da fronteira, o alerta de que a situação caminhava para o caos estava dado há muitos meses. Michel Miguel Temer viu ali uma oportunidade de recuperar 0,0001% de popularidade e fez um discurso humanista, surfou na solidariedade aos refugiados, recusando-se a atender o pedido. Postura correta, mas nada mais fez. Não tomou providência alguma. Então agora age como dez em dez governantes brasileiros: nada fez preventivamente e depois das fezes federem envia forças policiais.
Temer é um espantalho inútil, espetado e imóvel, que mesmo com sua cara de vampiro não assusta ninguém. Após seu pronunciamento, um juiz de Roraima entrou com uma liminar e mandou fechar mesmo assim. Foi preciso o TRF entrar em campo para revogar a decisão.
Pobres irmãos venezuelanos, que atravessaram a fronteira fugindo da crise e tiveram o desgosto de encontrar uma outra venezuela (com ‘v’ minúsculo mesmo) em Pacaraima, onde não há Estado, onde as pessoas também andam com porretes para defender um pedaço de pão.

Mauro Donato é Jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo

Sobre os heróis terceirizados e os juízes mitológicos, por Fábio de Oliveira Ribeiro




 "O que ocorrerá caso a maioria dos Ministros do STF decidir rasgar de vez a CLT? Em pouco tempo empresas terceirizadas (cuja atividade fim é a locação de mão de obra) começarão a locar mão de obra de outras empresas terceirizadas para cedê-las aos seus clientes. O lucro da prestação de serviços dos trabalhadores nestes casos será embolsado por dois ou mais intermediários de mão de obra. Os trabalhadores, cujos salários serão inevitavelmente pressionados para baixo ficarão, cada vez mais distantes juridicamente dos empresários que se beneficiam dos seus serviços."

Do Jornal GGN:



Sobre os heróis terceirizados e os juízes mitológicos
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Hércules foi um herói extremamente popular entre os gregos e romanos. Mas ele não se destacou pela sua inteligência, beleza ou perspicácia. Filho de Zeus com uma mortal, Hércules tinha uma força sobre humana e realizou 12 trabalhos.
Os trabalhos realizados por Hércules são muito diferentes. Sempre que concluía uma tarefa ele rumava para novo outro local a fim de enfrentar outra. O que chama mais atenção na carreira de Hércules é que ele foi obrigado a perambular pelo mundo. Portanto, levando em conta o Direito do Trabalho vigente no Brasil atualmente poderíamos dizer que esse herói prestou serviços terceirizados sem qualquer vínculo permanente. Seu final foi trágico. 
Trágica também está sendo a vida dos operários terceirizados brasileiros. Primeiro o STF decidiu que eles não podem cobrar verbas trabalhistas da União, Estados, Municípios e órgãos da administração pública direta aos quais prestaram serviços caso tenham sido lesados pelos seus empregadores. Agora aquele Tribunal parece estar inclinado a admitir a terceirização na atividades fim dos tomadores de serviços. Isso certamente acarretará uma precarização maior do mercado de trabalho no país.
O que ocorrerá caso a maioria dos Ministros do STF decidir rasgar de vez a CLT? Em pouco tempo empresas terceirizadas (cuja atividade fim é a locação de mão de obra) começarão a locar mão de obra de outras empresas terceirizadas para cedê-las aos seus clientes. O lucro da prestação de serviços dos trabalhadores nestes casos será embolsado por dois ou mais intermediários de mão de obra. Os trabalhadores, cujos salários serão inevitavelmente pressionados para baixo ficarão, cada vez mais distantes juridicamente dos empresários que se beneficiam dos seus serviços.
Quem irá reparar o dano causado a milhões de pessoas por uma única decisão estúpida do STF? Qual será o efeito no comércio, na indústria e na arrecadação fiscal da redução em massa dos salários? O sistema constitucional brasileiro, cujos fundamentos principais são construir uma sociedade justa e solidária, garantir o desenvolvimento nacional, erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades sociais e regionais e promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor idade e classe (art. 3º, da CF/88), será capaz de sustentar um Estado que se esforça para garantir concentração de renda e proporcionar a exclusão dos trabalhadores dos benefícios da atividade econômica?
Ao se submeter à lógica neoliberal, o STF está obrigando cada trabalhador terceirizado a se transformar num herói grego. No entanto, a fragilidade da população do Brasil é evidente. Um único juiz federal foi capaz de destruir quase totalmente a economia brasileira. Sérgio Moro é o principal responsável pelo aumento do desemprego. E por mais que alguns Ministros do STF acreditem que os operários brasileiros são fortes como Hércules, isolados ou juntos eles nada podem contra os juízes que se comportam como se fossem Leões de Nemeia, Hidras de Lerna, Corças da Cerineia, Javalis de Erimanto, Touros de Creta, Monstros do Lago Estínfalo, Guerreiras Amazonas e Gigantes Geriões quando se trata de garantir e de ampliar seus privilégios salariais, senhoriais e medievais.
Certa feita Hércules substituiu Atlas e sustentou nos ombros o peso do céu. Os trabalhadores não suportarão sozinhos o peso do Brasil e/ou o custo assustadoramente crescente de um Poder Judiciário que se distancia cada vez mais de sua missão de proteger os interesses de longo prazo da nação.
Menos neoliberalismo e mais responsabilidade social senhores Ministros do STF! Se vocês continuarem agindo como militantes políticos que odeiam os trabalhadores e a CLT em breve os brasileiros serão reduzidos à condição de escravos e tratados a chicotadas pelos empresários. E quando os brasileiros não tiverem nada a perder senão as correntes que estão sendo forjadas pelo STF o país será sacudido por escravos rebelados dispostos a fazer Cérbero devorar todos os juízes na entrada do Hades.

O silêncio seletivo da mídia cúmplice....


Resultado de imagem para Mídia golpista

"No tempo veloz das redes sociais e da ignorância planejada da mídia sobre o que não interessa ser exposto, a seletividade é a norma. " - Tânia M. S. Oliveira

Do Jornal GGN:



O silêncio dos cúmplices, por Tania M. S. Oliveira
No tempo veloz das redes sociais e da ignorância planejada da mídia sobre o que não interessa ser exposto, a seletividade é a norma. O mundo dos jornais, revistas e, sobretudo, da TV, permite-se descolado da realidade social de tal modo que, no Brasil, é permitido aos grandes meios de comunicação ignorar que há 23 dias 7 pessoas,militantes de movimentos populares, estão em greve de fome, pedindo que o Supremo Tribunal Federal paute uma ação que julga o princípio constitucional da presunção de inocência.
Seria chover no molhado se a poça fosse de água imaginar que a submissão de seres humanos a um sacrifício limite possa merecer um silêncio cúmplice e vil, como a dizer que suas vidas podem ser dispostas e sua dor pode ser enxergada como algo que se vê em uma vitrine, que não se precisa tocar, uma paisagem distante vista de uma janela, um pensamento que ocorre mas não se fixa como relevante. A poça, contudo, é de sangue.
 23 dias de fome de justiça.
A iminência de uma tragédia de vidas perdidas por uma causa que não lhes pertence individualmente - senão como cidadãos de um país que perdeu seus referenciais jurídicos e de democracia - possui algo de muito dramático que não diz respeito a eles, mas às autoridades a quem se dirigem, e que se recusam a recebê-los, bem assim aos donos dos meios de comunicação que lhes negam a publicização de seu sacrifício: torna-os cúmplices do desfecho qualquer que seja ele. Mostra a faceta de homens e mulheres de um país órfão de solidariedade, onde a vida está completamente banalizada.
23 dias de fome de liberdade.
Pedindo que a Suprema Corte cumpra com sua obrigação de fazer a prestação jurisdicional e julgue uma matéria. Um pedido obsceno não em si mesmo, mas pela necessidade de ser feito, exigido, miseravelmente solicitado, colocando a morte na contrapartida, com a mansa passividade de um martírio.
Como instrumento de luta, as greves de fome são historicamente consideradas como significativas formas de resistência e protesto político e social, desde Gandhi. Mulheres e homens fazem da ausência de uma necessidade vital à sobrevivência a marca de sua luta. No caso presente, no outro extremo, os destinatários da exigência firmam um silencioso e cúmplice pacto com os donos da comunicação: fingem não ver, não saber, não compreender, evidenciando um distanciamento inaceitável do outro, que coloca em questão a própria ideia de humanidade.
A Ministra Carmem Lúcia recebeu militantes, juristas e artistas em audiência no dia 14 de agosto de 2018, entre eles Frei Sérgio Gorgen, um dos grevistas. Disse-se sensibilizada pela pauta, comprometeu-se a visitar os demais. Não o fez e recusou-se a recebê-los ao ser solicitada.  Apareceu na redes no dia 20 de agosto, em um evento, cantando e dançando samba, com um grupo de mulheres que exercem altos cargos públicos e a cantora Alcione. Na aparente leveza de sua vida de eventos, não deixa transparecer o grande paradoxo entre o discurso e sua prática, que efetiva a legitimação do esquecimento. Esquecimento não apenas de uma pauta, uma promessa, mas do conteúdo humano que porta. Fora do foco, ela administra o mundo de um poder sombrio, sem pandeiro ou tamborim. As rimas são pobres e o ritmo se afina com o descaso com as reivindicações de uma sociedade, exposta à esquizofrenia de um sistema de justiça que nem mais se reconhece no nome. Falta colocar amor na cadência, como pedia Vinicius.
Lembrando o ator Osmar Prado em sua emocionante intervenção na reunião no STF: quantos mortos ainda serão necessários para que se tome uma atitude republicana e correta? Quantos suportaremos? Respondo eu: depende de quantos morram sem causar alarde. Depende do quanto de silêncio possa ser produzido pelo pacto mortal de vilania e ignorância, com a certeza da impunidade.


Sub procurador geral da República protesta em carta aberta dirigida à IAP, International Association of Prosecutors contra premiação da Lava Jato na África do Sul

“A verdade não é o que importa numa delação, e sim a incriminação de indivíduos que a equipe da Lava Jato já estabeleceu previamente como culpados”, diz Carlos Eduardo Vasconcelos


Resultado de imagem para Farsa a Jato

Do DCM:


O subprocurador-geral da República Carlos Eduardo Vasconcelos, aposentado, enviou uma carta à IAP, International Association of Prosecutors, manifestando sua discordância quanto à concessão do prêmio Special Achievement Award à “força tarefa” da Lava Jato.
A honraria deve ser concedido no congresso anual da entidade, previsto para ocorrer nos primeiros dias de setembro em Joanesburgo, na África do Sul. 
“A verdade não é o que importa numa delação, e sim a incriminação de indivíduos que a equipe da Lava Jato já estabeleceu previamente como culpados”, diz.
“E se o suspeito ou acusado em questão se recusa a incriminar os alvos pretendidos, mesmo a despeito de prisão, ou se ele reconsidera suas declarações alegando que as prestara sob pressão, ele termina sendo condenado a penas desproporcionalmente longas a fim de desencorajar outros a tomarem a mesma atitude”.
Eis a missiva: