sexta-feira, 4 de março de 2016

O golpe midiático-judicial chega ao seu auge, por Gilson Caroni Filho



   "Uma revista semanal antecipa sua edição para terça-feira.
  "O JN esquece de vez o que é jornalismo, se é que um dia o fez seriamente, e produz uma longa peça partidária. No dia seguinte, de madrugada, a PF faz uma operação de busca e apreensão na casa de Lula e submete o ex-presidente à "condução coercitiva".O golpe midiático-judicial chega ao seu auge. O surrado discurso de que as " instituições estão funcionando normalmente" e " que a justiça é para todos" entra para o anedotário nacional. "
O golpe midiático-judicial chega ao seu auge
Por Gilson Caroni Filho - Jornal GGN
Uma revista semanal antecipa sua edição para terça-feira.
O JN esquece de vez o que é jornalismo, se é que um dia o fez seriamente, e produz uma longa peça partidária.
No dia seguinte, de madrugada, a PF faz uma operação de busca e apreensão na casa de Lula e submete o ex-presidente à " condução coercitiva".
O golpe midiático-judicial chega ao seu auge.
Aos que estão compartilhando felizes o noticiário de hoje, principalmente os mais jovens, um recado: os alvos não são só Lula e o PT. O que está em jogo no Brasil é o Estado Democrático de Direito. O que se tenta, com a Polícia Federal transformada em milícia de um partido e no conluio entre Ministério Público e imprensa, atingirá vocês. Estão limpando o campo para aniquilar de vez direitos civis, trabalhistas e sociais.Entenderam? 
Não há um só "inocente" que desconheça que Aécio, Serra e FHC não resistiriam a 1/10 das denúncias que existem contra eles se não contassem com a blindagem da mídia corporativa e das gentis togas do poder econômico.
O surrado discurso de que as " instituições estão funcionando normalmente" e " que a justiça é para todos" entra para o anedotário nacional.
Tenho muitas restrições ao governo Dilma, mas eu não seria apenas omisso se me calasse neste momento. Estaria mergulhando no mar da tibieza e da canalhice. E deste mergulho ninguém retorna à superfície.
O momento requer união de todas as forças progressistas em defesa da democracia. Divergências táticas não devem se sobrepor a uma convergência programática elementar: o inimigo de classe é o campo reacionário, muito bem articulado por seu principal intelectual orgânico: o cartel midiático e sua incessante produção de narrativas.

Seletividade calculada de "informes", mídia golpista, Casa Grande hipócrita, a delação de Delcídio e a espetacularização para midiotas do jogo sujo de Moro

"A delação, ainda não confirmada a sua veracidade pelo suposto autor, veio a público no mesmo dia que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, tornou-se réu num processo criminal por corrupção e era o sujeito em todas as manchetes. Durante uma sequência de denúncias envolvendo a família Marinho, proprietária das Organizações Globo, em práticas semelhantes as dos acusados na Lava a Jato. Poucos dias após a saída do Ministério da Justiça e também há apenas nove dias para as novas manifestações pelo impedimento da presidente. "

O vazamento de Delcídio e os titereiros, por Jorge Rebolla



Por Jorge Rebolla

Existem provas além das palavras? Tudo pode ser comprovado numa ação penal ou foi feito sob encomenda para um julgamento político? É vingança do ainda senador petista Delcídio Amaral? É tudo mentira? Para mim nada disto importa. O que me interessa é o momento e o instrumento.
A delação, ainda não confirmada a sua veracidade pelo suposto autor, veio a público no mesmo dia que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, tornou-se réu num processo criminal por corrupção e era o sujeito em todas as manchetes. Durante uma sequência de denúncias envolvendo a família Marinho, proprietária das Organizações Globo, em práticas semelhantes as dos acusados na Lava a Jato. Poucos dias após a saída do Ministério da Justiça e também há apenas nove dias para as novas manifestações pelo impedimento da presidente. 
Nunca o deputado Eduardo Cunha esteve tão enfraquecido. O senhor do processo contra a presidente perdeu grande parte do seu poder pessoal. Muitos deputados do baixo clero deixarão de apoiá-lo por temerem o dano à própria imagem, causado pela associação com um acusado em processo penal de grande repercussão. Com este fato novo, embora esperado, a tendência seria o esfriamento do andamento do pedido de cassação contra Dilma Rousseff no Congresso Nacional.
Embora não tenha tido nenhuma cobertura na imprensa industrial, relatos divulgados pelos chamados blogs sujos estão lentamente se espalhando pela rede. Neles práticas comuns nos últimos escândalos de corrupção parecem fazer parte do dia a dia da poderosa família Marinho, dona da Globo. Empresas de fachada, laranjas e operadores em paraísos fiscais para a aquisição de bens de alto valor, como helicópteros e mansões.
O movimento pelo impeachment da presidente devido ao desgaste dificilmente levaria mais manifestantes às ruas, no próximo dia treze, que no último ocorrido durante o mês de dezembro passado. Após mais de um ano os grupos que comandam os protestos arrebanhariam apenas os mais empedernidos antipetistas.
A  proximidade pessoal entre a autora da matéria e o ex-ministro Cardozo demonstra que existe não só uma estratégia organizada para evitar que a temperatura da crise política arrefeça, mas que os seus autores acreditam agora mais do que nunca no próprio sucesso. A certeza é tão grande que decidiram até fazer graça. A jornalista, com a sua reportagem, enlameia quem alguns dizem ser o seu amado, na semana que o seu republicanismo foi elogiado pela oposição e pela imprensa. 
As acusações que constam na suposta delação do senador Delcídio Amaral contra José Eduardo Cardozo, Lula e a Presidente Dilma, possibilitará à oposição exigir celeridade no andamento do processo de impedimento; o novo Ministro da Justiça nada poderá fazer para impedir os crimes de vazamento seletivos de inquéritos e processos sob sigilo para não ser acusado de condutas delituosas; abafa qualquer outro fato que possa ofuscar um pouco os desdobramentos da Lava a Jato; permite a abertura de novos inquéritos contra o ex-presidente e deverá proporcionar o aumento de participantes nas passeatas, devido à possibilidade maior de impeachment.
Este último vazamento deixa claro que uma associação que pretende decidir o nosso futuro está ativa e controla áreas do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal. Manipulam, com o auxílio da mídia, os seus títeres com as informações que lhes interessam ver divulgadas. Estes por sua vez entram num estado de excitação que tolhe a capacidade de analisar a situação com as suas implicações. Nem tudo que o PT fez foi ruim para o país, mas mesmo as coisas positivas irão ser descartadas na purgação que se seguirá ao golpe. Enfraquecerá qualquer projeto para o Brasil que esteja em desacordo com as imposições dos órgãos transnacionais, como o FMI e o Banco Mundial, e dos grandes grupos financeiros que controlam as economias dos EUA e da Europa.

O Golpismo Hipócrita e Fanfarrônico de Sérgio Moro e da Rede Globo




É hora de defender a democracia ameaçada

Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:


Não é hora de atear fogo às vestes.

Os dados estão rolando. Não estamos vivendo um novo 31 de março de 1964.

Não ainda.

A Operação Aletheia – que deveria se chamar Operação Globo – não define nada. Seu mérito maior, se é possível usar essa expressão, é revelar as intenções da Lava Jato e Sergio Moro, sob as bênçãos dos Marinhos e, por extensão, da plutocracia.

O objetivo jamais foi erradicar a corrupção, mas derrubar o governo e acabar com Lula. (No triunfo supremo do cinismo, Aletheia é uma palavra grega que significa busca da verdade.)

A sequência dos acontecimentos é clara quanto a isso: o vazamento pela PF da alegada delação de Delcídio, o Jornal Nacional de ontem com conteúdo assassino e, na manhã desta sexta, um enxame de policiais fortemente armados para capturar Lula.

Tudo isso às vésperas de uma manifestação pró-impeachment.

A grande questão, agora, é como os defensores da democracia – não estamos falando apenas de petistas – reagirão.



A verdade estará nas ruas.

Caso os antigolpistas reajam como vigor – atenção: não confundir com violência – o golpe será abortado. Caso corra sangue de brasileiros, o que seria uma tragédia, todos sabemos de quem é a culpa: dos mentores da ação desta manhã.

Não é hora de lamentar a apatia suicida com que o governo tratou a Lava Jato. Como o ministro da Justiça recém-saído pôde cruzar os braços diante das barbaridades cometidas por Moro e pela PF? Como, em nenhum momento, o PT expôs a face real da Lava Jato? Como os governos Lula e Dilma continuaram a dar verbas bilionárias de publicidade para uma empresa com um histórico notável de golpes contra governos populares?

Isso tudo, as bobagens cometidas no meio do caminho, deve ser analisado depois.

Agora é hora de defender nas ruas não Lula, não o PT, não Dilma – mas a democracia.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Crônica de um abafado escândalo paulista (ou, o que dá no mesmo, PSDBista)

  "O escândalo da merenda escolar foi um ponto fora da curva do PSDB de São Paulo. Por tal, não se entenda o esquema em si, mas o esquema escapando do controle das autoridades do Estado. Por aqui há uma aliança férrea entre governo do Estado, Ministério Público Estadual e jornais. Fernando Capez montou sua campanha sem dispor de uma base de eleitores, regional ou setorial. Valeu-se da imagem de procurador público contra a corrupção para conquistar votos horizontais. Fez uma campanha cara, provavelmente a mais cara do Estado, a julgar pela quantidade de autuações no Tribunal Regional Eleitoral."

Crônica de um escândalo paulista


Vamos a uma pequena crônica da política, vista de São Paulo.
O escândalo da merenda escolar foi um ponto fora da curva do PSDB de São Paulo. Por tal, não se entenda o esquema em si, mas o esquema escapando do controle das autoridades do Estado. Por aqui há uma aliança férrea entre governo do Estado, Ministério Público Estadual e jornais.
A cooperativa de Bebedouro era um propinoduto que alimentava algumas lideranças tucanas, como os deputados Fernando Capez, presidente da Assembléia Legislativa, Duarte Nogueira, Baleia Rossi e o Secretário da Casa Civil Edson Aparecido – um personagem com participação em muitos projetos.
Envolve altos operadores tucanos,  como Luiz Roberto dos Santos, o Moita, tão eficiente que havia sido promovido da Secretaria dos Transportes para a Casa Civil. E Fernando Padula, quadro histórico, há oito anos na chefia de gabinete da Secretaria da Educação.
***
Capez montou sua campanha sem dispor de uma base de eleitores, regional ou setorial. Valeu-se da imagem de procurador público contra a corrupção para conquistar votos horizontais. Fez uma campanha cara, provavelmente a mais cara do Estado, a julgar pela quantidade de autuações no Tribunal Regional Eleitoral.
Durante a campanha, provavelmente enfrentou problemas de financiamento e seus assessores foram pressionar a COAF (Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar), a fonte da corrupção. Havia uma disputa interna, não percebida, as conversas foram gravadas, chegaram até o promotor local que fez a denúncia.
***
Aí entram os jogos de intriga. Capez tinha ambições maiores. Anunciou que participaria das prévias do partido para as eleições municipais. Mandaram não colocar. Decidiu dar apoio a João Dória Júnior.
Quando explodiu o escândalo, alguns viram a mão do senador José Serra. O próprio Capez atribuiu o escândalo ao Secretário de Segurança Alexandre Moraes, um ex-jurista que assimilou tanto a aridez o cargo que passou a extravasar arrogância em todas as audiências na ALESP.
Não fazia sentido. Afinal, pelo tema, o desgaste do governo Alckmin é maior do que no episódio do cartel de trens.
***
A ideia do fogo amigo perdeu força e ganhou corpo a versão da perda de controle mesmo. Tanto que o Ministério Público Estadual (MPE), do qual Capez é integrante, agiu rapidamente.
O Procurador Geral do Estado, Márcio Rosa Elias tratou de montar uma comissão de investigação e conseguiu tirar do inquérito o promotor natural.
A comissão é composta por dois promotores de Bebedouro e dois procuradores de justiça de São Paulo. Os dois procuradores são o próprio Márcio Elias Rosa e Nilo Spínola de Salgado Filho. Na gestão anterior, o PGE anterior, Antônio Araldo Dal Pozzo, criou promotorias especializadas. Uma delas era a de Assuntos Públicos era integrada por Márcio Elias, Nilo Spínola e o próprio Capez.
***
Os dois companheiros irão julgar o terceiro. Segundo parlamentares oposicionistas, Márcio Elias ordenou a quebra do sigilo bancário e fiscal de Capez, sabendo que não tem nada. O problema nas investigações é se bater em 18 empresas em nome de um cunhado, que têm vários problemas de registro na Junta Comercial.
***
No meio do tiroteio, o ex-chefe da Casa Civil de Geraldo Alckmin, Arnaldo Madeira, saiu da toca para atirar no esquema Alckmin.
Madeira caiu em desgraça no segundo governo Alckmin, quando articulou a eleição do presidente da ALESP. Sua chapa foi derrotada com humilhação. Em seguida, o presidente eleito da ALESP, Rodrigo Garcia, procurou Alckmin e ofereceu-lhe a vitória. Madeira caiu em desgraça.
Na campanha  para deputado, Madeira se valia de seu cargo para despejar verbas estaduais para projetos mal explicados tocados por sua esposa na Fundação Seade. Não foi reeleito. Hoje, o espaço político de que dispõe é prestar serviços à adversários de Alckmin.
***
Narro essa crônica paulistana apenas por mostrar o que é o modelo político brasileiro. É o mesmo que o PT, o PPS, o DEM, e outros partidos virtuosos fazem nos espaços que governam.
Por ter saído do controle, acabou com a carreira promissora de Capez. Provavelmente, no plano penal vitimará apenas bagrinhos. Com todas essas vulnerabilidades, permite toda sorte de manobras políticas.
Por isso, quando se ouve o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso bradando pela moralidade, Alckmin deblaterando sobre sítios e pedalinhos, e os procuradores da Lava Jato anunciando a ressurreição geral da virtude, só resta uma reação: decidamente, é o país da hipocrisia.

terça-feira, 1 de março de 2016

Gregório Duviver sobre o ódio da Casa Grande derrotada nas urnas e a guerra de uma mídia que não mais consegue manipular a TODOS todo o tempo



A pretensa, Sardenberguiana, Waackiana e Leittoana sabedoria econômica que golpistas pensam possuir

"Nos últimos meses, mostrou-se a base quase mítica sob a qual se sustenta o debate econômico em geral, e o brasileiro, em particular. Não apenas porque o desenvolvimento econômico é um tema controverso, capaz de tornar o debate nebuloso, escondendo o essencial de qualquer tipo de discussão, mas, principalmente, por ser inerentemente ideológico, traz em si (e em suas aparentes justificativas) interesses de classes. A suposta neutralidade científica da ortodoxia econômica não cabe no mundo real."


Inflação de demanda: obsessão ou fetiche?

texto de  Jorge Varaschin, doutorando em Economia pela UFRGS, extraído do Brasil Debate

O receituário ortodoxo repete que a solução para a inflação está no tripé macroeconômico. Mas o 'remédio' é pior que a 'doença': mata o paciente, sem tocar nas verdadeiras causas do problema, que tem raízes na própria forma como se construiu o processo de industrialização nacional
  • Share
Nos últimos meses, mostrou-se a base quase mítica sob a qual se sustenta o debate econômico em geral, e o brasileiro, em particular. Não apenas porque o desenvolvimento econômico é um tema controverso, capaz de tornar o debate nebuloso, escondendo o essencial de qualquer tipo de discussão, mas, principalmente, por ser inerentemente ideológico, traz em si (e em suas aparentes justificativas) interesses de classes. A suposta neutralidade científica da ortodoxia econômica não cabe no mundo real.
Apesar da retórica oficial de combate à inflação, a defesa tenaz da austeridade por parte de grupos ligados ao mercado financeiro é carregada de interesses bastante específicos e autorreferentes.
Nessa conjuntura, a questão principal e que deve assumir seu lugar no debate econômico atual, são as causas da inflação brasileira, hoje assentadas, usando alguns termos da psicanálise, na obsessão de parte do mainstream por uma inflação de demanda (para a outra parte tem a estrutura de um fetiche, já que, na interação exclusiva com o objeto parcial, no caso, a inflação, deixa de perceber a totalidade que esta pressupõe, a economia brasileira), cenário no qual o processo inflacionário reflete o aumento da procura de bens e serviços em relação a sua oferta.
Há mais de duas décadas o receituário ortodoxo repete esse mantra para todo país e o conhecido tripé macroeconômico (metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante) baseia-se justamente nessa crença.
No entanto, apresenta-se como um “remédio” pior que a “doença”: mata o paciente, sem tocar nas verdadeiras causas do problema, já que suas raízes são mais profundas, relacionando-se com a própria forma como se construiu o processo de industrialização nacional.
A estrutura produtiva brasileira, associada à grande empresa oligopólica de capital estrangeiro, é majoritária, tendo seus os setores mais dinâmicos nas mãos de algumas poucas empresas capazes de exercer seu poder de monopólio.
Esses agentes conseguem defender suas margens de lucro, mesmo em cenários de baixo crescimento, o que dá nova ênfase à contradição entre lucros e salários.
Com o referido poder de monopólio, que permite concorrência por diferenciação de produto (e não via preços), reduz-se a possibilidade de quedas generalizadas nos custos de produção, fazendo com que a capacidade instalada torne-se estruturalmente pouca afeita ao aumento da produtividade do trabalho, reduzindo, com isso, o potencial dinâmico do crescimento econômico.
Mais do que isso: qualquer aumento nos custos é repassado, em grande parte, via preços, tornando-se essa a variável de ajuste que permite a manutenção ou, pelo menos, a sustentação em níveis razoáveis das margens de ganho.
Nesses cenários, aumentos salariais são também repassados para os preços das mercadorias comercializadas, expondo a seguinte questão: a possibilidade de proteção das taxas de lucro, fruto do poder de monopólio, redefine a problemática lucros-salários: a contradição anterior, central no processo de acumulação de capital, aparece na dicotomia nível de preços-salários, o que, de fato, obscurece a relação contraditória essencial (lucros-salários) por um “problema difícil” (nível geral de preços-salários) no interior do debate sobre a gestão da política econômica, com efeitos diretos na distribuição de renda.
Nesse contexto, as margens de ganho dos capitais investidos estão protegidas com relação ao aumento dos custos de produção em geral, e elevações salariais, em particular.
Dessa forma, possuem um piso, porém não um teto: em momentos de expansão variam mais que proporcionalmente aos salários; em conjunturais recessivas, têm neles uma “variável de ajuste” para baixo.
Fora isso, há sempre a questão dos juros altos: em momentos de baixo crescimento, há a possibilidade de aplicação financeira no mercado de títulos públicos, com elevada taxa de retorno sem os riscos inerentes à atividade produtiva.
Assim, o ajuste fiscal atua sob uma fantasia: o “combate” à inflação é feito à custa do emprego e renda dos trabalhadores, tendo como base um diagnóstico completamente equivocado.
Num cenário de baixo crescimento, como a atual conjuntura da economia brasileira, a capacidade de repasse das elevações de custo para os preços, estabelecendo a defesa das margens de ganhos, mantém a pressão sobre o nível geral de preços, mesmo sem aumento na procura de bens e serviços.
Além disso, a possibilidade de ganhos de tesouraria, isto é, no mercado de títulos, reforça a necessidade da ampliação de investimentos e gastos públicos, capazes de manter a atividade econômica em níveis razoáveis.
Em outras palavras, a falta de investimento privado abre um espaço ocupado pelo orçamento público, tendo em vista uma política contracíclica, a favor da manutenção da atividade econômica.
Aqui se chega a uma inversão ideológica essencial, alardeada como “cânone” de políticas fiscais “sadias” (na lógica ortodoxa, é claro): o mesmo cenário que mantém a pressão de preços num cenário de baixo crescimento reforça o aumento dos gastos públicos, ou seja, não são os gastos governamentais que geram ou aceleram o processo inflacionário; pelo contrário: a pressão sob o nível de preços e a elevação dos gastos públicos são duas faces da mesma moeda num cenário recessivo.
A pressão sob os preços existe, como já explicado, e o aumento dos gastos visa simplesmente a manutenção do nível de atividade.
É por isso que o ajuste fiscal aplicado, no atual estado da economia brasileira, mostra-se desastroso. Além de diminuir ainda mais a atividade econômica, com aumento do desemprego e da renda gerada, não resulta em grande queda no nível geral de preços.
Adicionalmente, seu efeito político faz emergir ainda uma importante questão: se em momentos de expansão econômica é possível compor com o capital industrial, interessado em políticas expansionistas capazes de elevar suas margens de ganho, em conjunturas recessivas ou de baixo crescimento, isso é muito pouco provável, já que adota uma postura explicitamente defensiva, atuando conjuntamente com o capital financeiro por políticas restritivas, que forcem a queda no nível real de salários.
Esse cenário demonstra de maneira notável como a inflação hoje aparece no imaginário nacional como uma condensação de nossos temores dispersos: em nome de seu suposto combate permitem-se políticas cujos efeitos são ainda mais deletérios.
Como qualquer inversão ideológica, sua centralidade no debate atual mais mistifica do que revela suas causas essenciais e é justamente isso que faz com que este não ocorra de maneira efetiva.
Dessa forma, a questão inflacionária atua, no interior da discussão econômica, como uma espécie de interdição: a aparência do debate que o tema supostamente engendra é o elo que impede sua possibilidade real, isto é, a forma como este se desenrola demonstra sua efetiva não ocorrência.
Enfim, cumpre sua função de distorção dentro do discurso econômico ortodoxo, minando as bases de um debate lúcido e genuíno sobre o atual momento da economia brasileira.
Crédito da foto da página inicial: EBC

Para silenciar sobre a violência do Estado, Alckmin baixa decreto para censurar a divulgação de boletins de ocorrência

160229-Polícia

Decreto do governo Alckmin para censurar Boletins de Ocorrência fere a Lei de Acesso à Informação e tenta blindar PM contra denúncias sobre atos brutais

"Aqui no Brasil, o jornalista Caco Barcellos passou anos investigando os registros policiais esquecidos de uma sala empoeirada do Instituto Médico Legal, entre vidros de formol contendo olhos e fetos deformados. A pesquisa se somou a várias outras fontes de informação e a muita sola de sapato gasta nas ruas para chegar a um levantamento detalhado das circunstâncias de 3.846 mortes executadas pela Rota, tropa dita “de elite” da PM paulista, entre 1970 e 1992, que concluiu: 65% dos assassinados eram inocentes. O livro Rota 66, resultado dessa pesquisa, não serviu para colocar ninguém na cadeia (alguns matadores, ao contrário, se deram bem na carreira política), mas pesou na aprovação da Lei Hélio Bicudo que, em 1996, tirou da Justiça Militar o julgamento de crimes cometidos por PMs, que passou a ser competência da Justiça comum."

Por Fausto Salvadori Filho, na Ponte e no Outras Palavras
Dennis Williams passou 17 anos no corredor da morte em Illinois, nos Estados Unidos, esperando a picada de uma injeção letal por causa de uma acusação de estupro e homicídio. Foi solto em 1996, graças ao corre de um grupo de estudantes de jornalismo que, em vez de estudar a influência da rebimboca da parafuseta à luz de Edgar Morin, resolveu investigar a história de Williams, foi atrás de pistas que a polícia havia ignorado e provou que ele era inocente.
Não faltam Dennis Williams por aí. Tem ONGs nos EUA que cuidam só de tirar inocentes da cadeia. Caso do Projeto Inocência, que, desde 1992, já livrou da cadeia 337 pessoas que haviam sido condenados injustamente pelo sistema de justiça norte-americano (desse povo, 70% pertenciam a alguma minoria racial). Também tem documentários que fazem esse papel: a trilogia Paradise Lost, exibida pelo HBO, ajudou a tirar do xilindró três jovens condenados por homicídio, ao mostrar que nunca houve prova mais substancial contra eles do que o gosto que tinham por heavy metal. Making a Murderer, lançado há pouco pelo Netflix, tenta fazer o mesmo a respeito de uma outra prisão para lá de suspeita.
Aqui no Brasil, o jornalista Caco Barcellos passou anos investigando os registros policiais esquecidos de uma sala empoeirada do Instituto Médico Legal, entre vidros de formol contendo olhos e fetos deformados. A pesquisa se somou a várias outras fontes de informação e a muita sola de sapato gasta nas ruas para chegar a um levantamento detalhado das circunstâncias de 3.846 mortes executadas pela Rota, tropa dita “de elite” da PM paulista, entre 1970 e 1992, que concluiu: 65% dos assassinados eram inocentes. O livro Rota 66, resultado dessa pesquisa, não serviu para colocar ninguém na cadeia (alguns matadores, ao contrário, se deram bem na carreira política), mas pesou na aprovação da Lei Hélio Bicudo que, em 1996, tirou da Justiça Militar o julgamento de crimes cometidos por PMs, que passou a ser competência da Justiça comum.
Essas histórias todas me vêm à cabeça quando vejo o governo Geraldo Alckmin anunciar publicamente a censura aos boletins de ocorrência registrados nas delegacias, agindo como se a Lei de Acesso à Informação não existisse. São historias que servem para lembrar que a proibição de acesso aos registros policiais não prejudica só os jornalistas. O atitude do governo paulista censurou a mim. Censurou você. Censurou todos nós.
A proibição de acesso a boletins de ocorrência impede a fiscalização do trabalho dos homens da lei pelas pessoas comuns, que tanto podem ser jornalistas como estudantes, advogados, pesquisadores universitários, membros de ONGs e coletivos… enfim, aquelas pessoas sem farda que os defensores da violência policial ilegal gostam de chamar de “sociedade hipócrita”. Policiar a polícia – e o Ministério Público, e o Judiciário, e o sistema prisional – é um trabalho que ajuda a corrigir injustiças, libertar inocentes e punir os verdadeiros culpados.
“Informações pessoais” é desculpa
E o governo não desistiu dela. Num primeiro momento, Alckmin anunciou que o acesso aos boletins ficaria inacessível por 50 anos, mas, como essa postura de censura assumida foi detonada até pelo Tribunal de Contas do Estado, o governador fez que recuou. Publicou um decreto que proíbe “a fixação prévia de sigilo”, mas que abre espaço, em seus artigos 12 e 14, para a mesma censura de sempre. Lá, está dito que o acesso a “informações pessoais relativas à intimidade, vida privada, honra e imagem detidas pelos órgãos e entidades” será proibido, a não ser que façam parte de “conjuntos de documentos necessários à recuperação de fatos históricos de maior relevância”.
Razoável? Parece. Mas só se você não souber do histórico do governo de São Paulo nessa questão. A Segurança Pública e a Polícia Militar vêm usando a alegação de “informações pessoais” para proibir o acesso a dados da “maior relevância”, como a lotação e o histórico profissional de policias acusados de execuções de jovens em tiroteios forjados e chacinas. Nós da Ponte apontamos várias censuras do tipo levadas a cabo pela gestão Alckmin no estudo Informação Encarcerada, que fizemos para a Artigo 19. O estudo deixa claro que a tentativa de alegar “informações pessoais” para negar o acesso a dados sobre crimes é uma prática que infringe tanto a Lei de Acesso à Informação como o decreto estadual 58.052/2012, que regulamentou a LAI em São Paulo. Nas duas normas, a regra é clara: a restrição a informações pessoais não vale para dados que forem necessários “à defesa de direitos humanos; ou à proteção do interesse público e geral preponderante”.
Tudo indica que o governo vai continuar a impedir o acesso de jornalistas e outros pesquisadores aos boletins de ocorrência. Não é novidade. O governo já adota essa política pelo menos desde 2002, nos tempos do primeiro governo Alckmin, quando ainda nem havia Lei de Acesso à Informação e censurar registros policiais ainda não era ilegal . Dá uma olhada nos trechos de uma reportagem que escrevi anos atrás para a Revista Adusp, em que comentava o jeitinho de Alckmin e do secretário da Segurança Pública da época, Saulo de Abreu Castro Filho, de lidar com jornalistas:
Para tentar conquistar a opinião pública, a gestão Alckmin-Saulo adotou o controle da informação como uma peça importante da política de segurança. Com a colaboração de Nizan Guanaes e de outros marqueteiros tucanos, o governo criou um plano de comunicação para reforçar a idéia de guerra contra o crime, no “velho estilo do bem contra o mal”. Para encarnar a contento o papel do bem, a Secretaria da Segurança Pública começou a barrar o acesso dos jornalistas a todas as fontes que não fossem a sua assessoria de imprensa. (…) O acesso da imprensa a boletins de ocorrência e outros documentos públicos nas delegacias foi proibido. Todas as informações sobre ocorrências policiais passaram a ser fornecidas exclusivamente pelo atendimento telefônico da assessoria de imprensa. Autoridades policiais foram proibidas de dar entrevistas sem o consentimento e a orientação da Secretaria da Segurança Pública.(…)
Não quer dizer que houvesse uma política clara de acesso a boletins de ocorrência antes de Alckmin. Sempre foi a zona da informalidade. Se o delegado fosse com a cara do jornalista, liberava acesso aos documentos. Se não, expulsava-o da delegacia e podia até prendê-lo se começasse a fazer perguntas demais.
A novidade do primeiro governo Alckmin, que continua valendo até hoje, foi uniformizar os procedimentos. Via de regra, o jornalista que vai a uma delegacia para ler um B.O. bate com a cara na porta e é informado pelas autoridades de que as informações devem ser obtidas, por telefone, via assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública. O jornalista telefona e, do outro lado da linha, um assessor passa uma versão bem resumida do documento, condensando quatro páginas de informações num blablablá de cinco minutos, que volta e meia omite eventuais merdas feitas pelas tais autoridades. Se o delegado fez a sacanagem de chamar um menino baleado nas costas de “roubador” num B.O. que não fala de roubo, por exemplo, isso não vai aparecer na versão resumida que o assessor passa por telefone.
Na prática, é uma censura gourmetizada.
Histórias que interessam
Numas de confundir a opinião pública, Alckmin saiu em defesa dos fracos e oprimidos e deu a entender que a censura ajuda a impedir que jornalistas malvados exponham na mídia o nome de vítimas indefesas. “Já é vítima e vai ter o nome publicizado?”, perguntou o governador. Pura tática de desinformação. Jornalistas trabalham com dados pessoais o tempo todo. Conseguimos nomes, endereços e telefones de um monte de gente nas mais diversas fontes, que incluem cartórios, folhas de processos judiciais, Junta Comercial e por aí afora. Não significa que vamos publicar esses dados. Para o bom jornalista, a informação pessoal é uma parte da manufatura da reportagem, que não vai fazer parte do produto final a não ser que seja necessária.
Ah, mas não tem jornalistas que não está nem aí e expõem informações que não deveriam? Vixe, é o que mais tem. Mas eles podem e devem ser responsabilizados quando cometerem abusos. O governo não pode proibir o acesso a informações públicas partindo do princípio de que os jornalistas são todos filhos da puta que irão usá-las para ferrar com a vida das pessoas.
Mas não se engane. Quando o governo Alckmin impede o acesso à íntegra de boletins de ocorrência, não faz isso pensando nos direitos das vítimas, como alega. Na real, quem gosta de transparência é vidraceiro. O poder prefere a opacidade. Vale para todos os que estão por cima da carne seca e do queijo brie, sejam empreiteiros, executivos da Samarco ou um governador conivente com a violência ilegal da polícia.
Quando um jornalista tem acesso a íntegra de um boletim de ocorrência, pode visitar local do crime, ouvir testemunhas, confrontar versões… Enfim, fazer o trabalho que a polícia ou os promotores deveriam ter feito. Nessa brincadeira, a gente pode acabar descobrindo que o fulano registrado como vítima pela polícia é na verdade o assassino. Pode descobrir que um tiroteio foi forjado para disfarçar uma execução. Pode, enfim, contar histórias que não interessam ao governo, apenas à sociedade. E governos não costumam gostar disso.

Dilma no meio de um congresso "sem chantagem" e com "homens probos e responsáveis" como Aécio, Cunha, Renan e Serra

"Com o enfraquecimento do poder presidencial, três dos mais notórios operadores do Senado – Renan Calheiros, Romero Jucá e José Serra – se uniram para recriar o “centrão” – o grande balcão de negócios que, em alguns momentos de vácuo político no país, é constituído para barganhar favores com presidentes fracos."


Dilma do reino dos homens probos do Congresso


Cena 1: o presidencialismo de coalizão


A votação no Senado da PL do pré-sal revelou, em toda crueza, o nível atual do poder presidencial. A presidente está literalmente refém de chantagem política.
Com o enfraquecimento do poder presidencial, três dos mais notórios operadores do Senado – Renan Calheiros, Romero Jucá e José Serra – se uniram para recriar o “centrão” – o grande balcão de negócios que, em alguns momentos de vácuo político no país, é constituído para barganhar favores com presidentes fracos.
O pote de ouro mais disputado é o da flexibilização do sistema de partilha no pré-sal. O recuo de Dilma Rousseff na última hora deveu-se a ameaças explícitas de Renan e Jucá de engrossarem o coro do impeachment.
Com isso conseguiram aprovar no Senado o Projeto de Lei de Serra que não mais obriga a Petrobras a ser operadora de todos os poços, com participação de 30%.
A reação do presidente da Câmara Eduardo Cunha foi imediata, despudorada como todos seus atos públicos, escancarando o leilão: garantiu que irá sepultar a PL do Senado e oferecer aos patrocinadores da mudança o cálice de ouro: a revogação total do sistema de partilha.
Já se chegou a um nível tal que se abre mão até do pudor.

Cena 2: as ações contra Eduardo Cunha

Amanha, dificilmente o STF (Supremo Tribunal Federal) decidirá pelo afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara. Apesar da enorme capivara de Cunha, trata-se de medida extrema contra o presidente de outro poder. Segundo avaliações internas do STF, até agora o Procurador Geral da República não logrou apresentar evidências sólidas sobre as interferências de Cunha nas investigações, valendo-se de suas prerrogativas de presidente da Câmara.
É um quadro complicado no qual os negócios políticos adquiriram uma desfaçatez própria da decadência moral que caracteriza os fins de ciclo.

Cena 3: entre a irresponsabilidade de Aécio e a abulia de Dilma


Tem-se uma presidente politicamente manietada, refém do pior fisiologismo do Congresso e incapaz de uma reação. Em posição confortável, os líderes do “centrão” garantirão o mandato de Dilma.
A alternativa a ela é um dos políticos mais medíocres das últimas legislaturas, Aécio Neves, de uma ignorância absurda sobre qualquer tema contemporâneo.
Fica-se, então, nesse dilema político: ou um candidato cuja única palavra de ordem é o discurso do confronto, ou uma presidente cedendo as coroas da corte para não perder o cargo e incapaz de reagir à crise.

Cena 4: a rebelião das corporações


Para completar o mapa, corporações relevantes, como a Polícia Federal, tornaram-se poder dentro Estado, graças ao desempenho de José Eduardo Cardozo, provavelmente o mais fraco Ministro da Justiça da história, não apenas pela falta de autoridade, mas por não ter cumprido nenhuma de suas atribuições em relação aos grandes temas da pasta.
Diz-se que das grandes crises saem as grandes soluções. Até agora nenhuma apareceu no horizonte político. No protagonismo, apenas velhas raposas instruídas na arte da chantagem.