terça-feira, 5 de setembro de 2017

Advogado espanhol fez pagamentos a Rosangela Moro, por Luis Nassif (atualizado)


"Agora, a informação da Veja traz um componente explosivo, que a revista tratou de amenizar, levantando apenas a consequência menos relevante do furo: o fato de Moro ter que se declarar impedido de julgar Duran:
O juiz Sergio Moro poderia ser impedido de julgar o ex-advogado da Odebrecht Rodrigo Tacla Duran não fosse o Ministério Público, que, estranhamente, ocultou uma resposta da Receita Federal que investigou o acusado.
"Ora, tem muito mais coisa em jogo." - Luis Nassif


Do Jornal GGN:

A nota da seção Radar, da Veja, mostrando página de um relatório da Receita Federal, de advogados que trabalharam para o escritório de Tacla Duran traz um complicador a mais para o juiz Sérgio Moro.
No dia 27 de agosto passado, a colunista Mônica Bérgamo revelou que o advogado Rodrigo Tacla Duran, que trabalhava para a Odebrecht e está foragido na Espanha, acusou o primeiro amigo de Sergio Moro, Carlos Zucolotto Júnior, de tentar intermediar negociações paralelas com a Lava Jato.
Zucolotto e a senhora Sérgio Moro eram sócios em um escritório de advocacia
Segundo Duran, haveria diminuição da multa e da pena que Duran deveria pagar, em um acordo de delação premiada, em troca de um pagamento que seria feito pelo caixa 2 para acertos com membros da Lava Jato.
Segundo Duran, a proposta de Zucolotto era alterar o regime de prisão em regime fechado para domiciliar e redução da multa para um terço do valor, ou seja US$ 5 milhões. A proposta teria sido feita no dia 27 de maio de 2016.
Moro respondeu através de uma nota:
"O advogado Carlos Zucolotto Jr. é advogado sério e competente, atua na área trabalhista e não atua na área criminal;
O relato de que o advogado em questão teria tratado com o acusado foragido Rodrigo Tacla Duran sobre acordo de colaboração premiada é absolutamente falso;
Nenhum dos membros do Ministério Público Federal da força-tarefa em Curitiba confirmou qualquer contato do referido advogado sobre o referido assunto ou sobre qualquer outro porque de fato não ocorreu qualquer contato;
Rodrigo Tacla Duran não apresentou à jornalista responsável pela matéria qualquer prova de suas inverídicas afirmações e o seu relato não encontra apoio em nenhuma outra fonte;
Rodrigo Tacla Duran é acusado de lavagem de dinheiro de milhões de dólares e teve a sua prisão preventiva decretada por este julgador, tendo se refugiado na Espanha para fugir da ação da Justiça;
O advogado Carlos Zucolotto Jr. é meu amigo pessoal e lamento que o seu nome seja utilizado por um acusado foragido e em uma matéria jornalística irresponsável para denegrir-me; e
Lamenta-se o crédito dado pela jornalista ao relato falso de um acusado foragido, tendo ela sido alertada da falsidade por todas as pessoas citadas na matéria."
Há dois anos, em matéria no Conjur, Moro havia alegado que a sociedade da esposa com Zucolotto visava apenas a “partilha de honorários”, o que significa que não atuariam necessariamente no mesmo processo.
Agora, a informação da Veja traz um componente explosivo, que a revista tratou de amenizar, levantando apenas a consequência menos relevante do furo: o fato de Moro ter que se declarar impedido de julgar Duran:
O juiz Sergio Moro poderia ser impedido de julgar o ex-advogado da Odebrecht Rodrigo Tacla Duran não fosse o Ministério Público, que, estranhamente, ocultou uma resposta da Receita Federal que investigou o acusado.
Ora, tem muito mais coisa em jogo.
Vamos entender como a Receita age em circunstâncias semelhantes.
Um escritório de advocacia faz pagamentos a terceiros, outros escritórios ou advogados. A Receita resolve investigar.  E o procedimento inicial é a DIRF (Declaração de Imposto de Renda Retido na Fonte), com a relação de todos os pagamentos efetuados pelo escritório.
A Receita vai até o escritório e pergunta porque pagou. O escritório explica. Seria para acompanhamento de uma ação ou para serviços a ou b. Aí a Receita vai até o prestador de serviços e confere se os serviços foram efetuados.
Se o nome da senhora Moro consta na DIRF, significa que o escritório Tacla Duran efetuou pagamentos ao escritório e aos advogados do escritório.
Ou seja, pagou a senhora Moro.
Aí se entra o território da especulação. Qual teria sido a razão para a investigação da Receita? Pode ser uma explicação mais simples, de conferir se Tacla efetivamente pagou Imposto de Renda. Pode ser explicação mais complexa, sobre a natureza dos trabalhos efetuados. Principalmente porque se sabe que a maior ocupação de Tacla era a de doleiro.
O fato dos procuradores da Lava Jato terem escondido o documento por dois anos permite toda sorte de elucubrações.
Se a Receita mandou o resultado há dois anos, significa que a investigação deve ter dois anos e meio, período em que Rosângela Moro sai do escritório. Ou seja, ela saiu quando recebeu sinais de que a Receita estaria investigando Zucolotto.
Em qualquer hipótese, os pagamentos se referem a fatos contemporâneos, quando a Odebrecht e o próprio Tacla Duran já estavam na mira da Lava Jato. E desmontam as versões de Moro sobre as relações do primeiro-amigo e da primeira-dama com o escritório de Tacla Duran. Segundo a inocente explicação de Moro, Zucolotto teria sido contratado por Duran para tirar cópia de um processo em Curitiba.
Desde o início, estranhava-se que as delações ainda não tivessem chegado ao Judiciário. É possível que essa escrita seja quebrada com o fator Tacla Duran..
O advogado Santos Lima 
Conforme anotou o leitor Francisco de Assis, nos comentários, entre os recebedores está o advogado Leonardo Guilherme dos Santos LIma, também do Paraná, e cujo sobrenome coincide com o do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima
Observação do leitor Francisco de Assis, do GGN:

Sobrenome do buscador Santos Lima também está no doc da Receita

Não só o Moro é suspeito para atuar no caso Tacla Durán: o procurador-barbichinha Santos Lima também parece ser suspeito no caso
No documento da Receita, além do nome da mulher do Moro, associada via Zucolotto ao delator Tacla Durán, consta também o nome do (advogado de Curitiba) Leonardo Guilherme dos Santos Lima, que, pelos dois sobrenomes e a cidade onde atuava e/ou atua, deve ser parente do procurador-barbichinha Carlos Fernando dos Santos Lima, como associado ao delator Tacla Durán, o que poderia indicar suspeição, não só de Moro, mas também do sub-chefete do Dallagnol-Powerpoint na Operação Lavajateira, como se vê na imagem abaixo:

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Do Le Monde Dipomatique: "Os donos do dinheiro que afastaram o PT do governo não deram um golpe para assistir dois anos depois o PT voltar ao Governo. Vem ai um novo golpe?"



O fato de Lula liderar as intenções de voto para 2018 cria um impasse para os donos do dinheiro que afastaram o PT do governo. Eles não deram um golpe para assistir, pouco mais de dois anos depois, à vitória de Lula e à volta do PT. Assim, abre-se um novo leque de possibilidades

claudius-122-2018 VEM AI

Editorial do Le Monde Diplomatique Brasil:


Vem aí um novo golpe?

Por Sílvio Caccia Bava

Charge de Claudius

O recurso que deve ser apresentado pelos advogados de Lula ao Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª região, em Porto Alegre, sobre a condenação sem provas de que o ex-presidente seja dono do tríplex do Condomínio Solaris, no Guarujá, pode, eventualmente, anular sua condenação e deixá-lo em condições de disputar as eleições de 2018. Mas, se os juízes Leandro Paulsen, Victor Luiz dos Santos Laus e João Pedro Gebran Neto, tidos como linha-dura e com a mesma perspectiva de Sérgio Moro, reafirmarem a sentença deste último, Lula se tornará ficha-suja e ficará de fora das eleições do ano que vem.
No cenário em que Lula pode ser candidato a presidente nas eleições de 2018, ele tem grandes chances de ganhar se observarmos os dados da última pesquisa Vox Populi/CUT, realizada no fim de julho, que o coloca na liderança das preferências do eleitorado com larga margem de vantagem sobre todos os demais candidatos pesquisados e crescendo em relação à pesquisa anterior. Na sondagem espontânea, isto é, sem apontar candidatos, Lula tem agora 42% da preferência do eleitorado. Bolsonaro, 8%. Marina, 2%. Moro, 1%. Ciro, 1%. Joaquim Barbosa, 1%. Doria, 1%. Alckmin, 1%. Aécio, 0%. Brancos e nulos, 16%. Não sabe/não respondeu, 25%.1 É importante observar o quanto a população está desacreditando nas eleições ou não sabe quem escolher. Se somarmos brancos e nulos e não sabe/não respondeu, teremos 41% dos entrevistados.
Essa situação cria um impasse para os donos do dinheiro que afastaram o PT do governo. Eles não deram um golpe para assistir, pouco mais de dois anos depois, à vitória de Lula e à volta do PT. Assim, abre-se um novo leque de possibilidades. A primeira delas é manter a condenação de Lula de qualquer jeito, mesmo sem nenhum crime, como foi feito com Dilma. Mas isso não assegura que o resultado das eleições mantenha a oligarquia financeira no controle da máquina pública. Mesmo impedido de disputar as eleições, Lula será um grande eleitor, e é preciso considerar que as políticas antipovo do governo Temer e a falta de uma forte liderança de direita levam a população a votar na oposição.
Outra possibilidade, já aventada no Congresso, é que, em nome de uma economia de recursos, a reforma política unifique as eleições municipais com a eleição federal, empurrando tudo para 2020. Os atuais mandatos seriam prorrogados. Mas aí fica o problema do que fazer com Temer, que poderia ser substituído por Rodrigo Maia (DEM-RJ), o atual presidente da Câmara dos Deputados. Na avaliação dos mesmos conservadores, Maia não tem perfil para cumprir essa missão.
A alternativa mais recente é a de Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que encaminhou aos presidentes da Câmara e do Senado proposta para introduzir o parlamentarismo no Brasil. Neste cenário, Lula pode ganhar, mas não governa.
Por fim, resta a via de reforçar o autoritarismo, simplesmente adiando as eleições de 2018, para quando não se sabe.
Todas essas possibilidades, arquitetadas pelas elites endinheiradas e seus representantes na política, não dão conta da complexidade do momento político brasileiro. A polarização produzida pelas políticas antipovo, o verdadeiro ataque aos direitos das maiorias, mudou o cenário. O atual governo não conta com apoio de mais de 5% da população, e não são só os trabalhadores que estão bravos em razão das reformas trabalhista e da Previdência, do corte nas políticas sociais e nos salários; as classes médias estão enfurecidas com a perda de seu poder aquisitivo, com o medo do desemprego, por terem sido manipuladas, embarcado num movimento anticorrupção e terem sido enganadas. Tudo isso até o momento está represado. Essa tensão toda ainda não encontrou seu canal de expressão.
Seria um erro das oposições, daqueles que defendem a democracia e os direitos, apostar todas as fichas na eleição do ano que vem. E se não houver eleições? Outro erro seria manter uma política de conciliação com aqueles que estão esfolando o povo.
O verdadeiro desafio para as oposições é buscar o contato com as pessoas comuns, mergulhar na sociedade e disputar a hegemonia apresentando as alternativas de como podemos sair da crise e construir um Brasil que coloque a economia a serviço do bem-estar de todos, assegure boas condições de vida e apresente um futuro promissor para os jovens, garantindo emprego, salário, saúde e educação.
O esforço de mobilização da sociedade já começou. As caravanas de Lula fazem parte dessa disputa. A iniciativa Vamos!, da Frente Povo Sem Medo, vai no mesmo sentido.2
O jogo está sendo jogado e a participação de cada um será determinante para sabermos o resultado…
Silvio Caccia Bava, diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil
{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 122 – stembro de 2017}

1 Pesquisa Vox Populi/CUT. Disponível em: .
2 Site: .

A hipocrisia dos moralistas: "recebi por fora, e daí?" Artigo de Fernando Brito citando Rubens Valente


"Três entre quatro ministros dos tribunais superiores (STF, STJ, TSE, TST) e do Tribunal de Contas da União recusaram-se a dizer se receberam valores por palestras ou participações em eventos.
"Ou seja, receberam, pois não tendo recebido, problema algum haveria em dizer que não.
"Todos se escudam no fato de ser legal o exercício de uma função de magistério, embora a situação de palestrante seja totalmente diferente da de professor."

O silêncio dos moralistas: “por fora, e daí?”

palestramag



Rubens Valente, na Folha, vai na canela dos “campeões da moralidade”.
Três entre quatro ministros dos tribunais superiores (STF, STJ, TSE, TST) e do Tribunal de Contas da União recusaram-se a dizer se receberam valores por palestras ou participações em eventos.
Ou seja, receberam, pois não tendo recebido, problema algum haveria em dizer que não.
Todos se escudam no fato de ser legal o exercício de uma função de magistério, embora a situação de palestrante seja totalmente diferente da de professor.
Mas ética e moralmente, o conflito é mais que evidente.
Claro que ninguém é purista ao ponto de achar que um jurista – supondo que o sejam os integrantes dos tribunais – não possa receber passagens, hospedagem e até mesmo transporte e alimentação para participar de um evento, embora todos eles fossem gritar se um presidente ou ministro fizessem o mesmo.
Mas remuneração de empresas é totalmente incompatível com a função de julgador, como são indecentes estes eventos da magistratura promovido por concessionárias de serviços públicos e bancos atolados em milhares de processos nos tribunais.
Em qualquer país civilizado isso seria um escândalo. Aqui, não, porque juízes são incriticáveis. Aliás, a prevalecer a “jurisprudência” aberta por Gilmar Mendes e Sérgio Moro, seus amigos e padrinhos de casamento também não o são.
Não há razão para  isso seja secreto. Quando se informa, como faz a única ministra – Maria de Assis Calsing, do TST – que informou ter recedido valores modestos (de R$ 300 a R$ 880) por três apresentações, não há o que se possa dizer em seu desfavor.
Ao contrário, ela age corretamente, porque é servidora pública e deve, por isso, satisfações por seus atos.
Isso, porém, é apenas um detalhe do outro valor que, para muitos, tem a cátedra de um tribunal superior: os escritórios de advocacia dos quais são, indiretamente, beneficiários, através de amigos, parentes e ex-sócios.
É óbvio que não é este o grande caminho da corrupção, mas o tema se presta para um grande serviço público: o de expor a hipocrisia e a obscuridade do comportamento dos nossos “campeões da moralidade”, que precisam de pouco ou nada para condenar seus desafetos mas se acham no direito de ocultar os “mimos” que recebem.

domingo, 3 de setembro de 2017

The Intercept: Nível de Cara de pau no Brasil de Temer-Coxinhas se supera a cada dia e merece um novo termo: a pós-mentira


***ARQUIVO - 29.05.2014 - TEMER-DENÚNCIAS - O então vice-presidente Michel Temer e o deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) durante encontro do partido no restaurante Madalosso, em Curitiba, no ano de 2014. (Foto: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press/Folhapress)
Foto: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press/Folhapress

"Há vários exemplos do tipo na História recente do país, mas a prática de simplesmente negar os fatos provavelmente nunca esteve tão em voga quanto neste primeiro ano de governo Temer. E não seria exagero dizer que ela foi institucionalizada após as gravações do Conde com Joesley Batista. Não só por tudo o que o fatídico encontro escancarou, mas principalmente pela reação do nosso mandatário e dos brasileiros no geral."

Artigo de Tomás Chiaverini, para o The Intercept Brasil:




RECENTEMENTE, a humanidade criou um novo termo universal: a pós-verdade. Uma pós-verdade é algo falso ou imaginário, tratado como realidade. O México vai pagar por um muro na fronteira com os EUA, por exemplo. Agora, diante do ambiente político nacional, seria o caso de cunharmos um termo de sentido oposto: a pós-mentira. A pós-mentira se constituiria em algo real, mas tratado como falso ou imaginário.
Há vários exemplos do tipo na História recente do país, mas a prática de simplesmente negar os fatos provavelmente nunca esteve tão em voga quanto neste primeiro ano de governo Temer. E não seria exagero dizer que ela foi institucionalizada após as gravações do Conde com Joesley Batista. Não só por tudo o que o fatídico encontro escancarou, mas principalmente pela reação do nosso mandatário e dos brasileiros no geral.
No dia seguinte à reportagem que revelou o busílis, quando o presidente não-eleito apareceu em rede nacional de televisão, o país deu de barato que ele renunciaria. Até o coleguinha Ricardo Noblat, famoso por ter tido coragem de elogiar o físico de Temer, garantiu que seu ídolo não escaparia daquela vez. Mas, com um brilho acetinado de óleo de peroba a cobrir-lhe as faces, o Conde surpreendeu e disse que continuaria ali mesmo, como se nada de estranho tivesse acontecido.

“Sei da correção dos meus atos”

“Não temo nenhuma delação”, disse o homem que, tempos depois, teria de arquitetar um dos maiores toma-lá-dá-cás da história para livrar a própria pele na Câmara. “Sei o que fiz. Sei da correção dos meus atos. Exijo investigação plena e muito rápida para esclarecimento ao povo brasileiro”, disse.
Frente ao absurdo presidencial, as ruas, que no passado haviam se incendiado por causa das tenebrosas pedaladas de Dilma, continuaram livres para o trânsito do brasileiro trabalhador. Menos de um mês depois, Rodrigo Rocha Loures, assessor próximo do Conde, foi gravado em vídeo numa burlesca corridinha com uma mala recheada de R$ 500 mil, dinheiro de provável propina para o presidente. Comoção nacional, paneleiros em polvorosa, coxinhas e mortadelas juntos nas passeatas? Não, nada disso. Temer sapecou mais uma pós-mentira, garantindo que Rocha Loures não tinha nada de corrupto e o país continuou na sua anormalidade usual.
Um dos combustíveis das pós-verdades está no fato de elas serem especialmente saborosas: “o filho de Lula tem uma Ferrari de ouro“, por exemplo. As pós-verdades despertam aquele voyeurismo sádico que todo ser humano esconde. Já as pós-mentiras têm a dura tarefa de justamente refutar verdades mais atraentes. Por isso, para que funcionem bem, o melhor é que tenham algo a mais, um atrativo que as coloque em evidência, acima do fato em si.
Tomemos o exemplo do prefeito de Cuiabá, o peemedebista Emanuel Pinheiro. Diante de acusações de propinas, tornadas públicas na semana passada, ele disse apenas que irá provar não ter feito nada de ilícito. Uma resposta fraca, que não dá conta de sobrepujar a acusação. Claro que o fato de ele aparecer em vídeo enchendo os bolsos com gordos maços de dinheiro também prejudica um tanto a defesa.

O fetiche do bigode

Mas vejamos o exemplo contrário, do também peemedebista, senador Romero Jucá. Alvo de três denúncias de corrupção em uma única semana, ele fez o quê? Disse que é inocente? Sim, mas adicionou a isso todo um brilho de desfaçatez. Afirmou que seu acusador, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deve ter algum fetiche com seu bigode.
Eu diria que pelo menos é uma fixação. Ele até deu declaração sobre o meu bigode. Não sei se é um fetiche ou alguma coisa. Não entendo esse comportamento dele”, afirmou o astuto senador. Pronto. Os brasileiros passaram a imaginar Janot mergulhado em freudianas fantasias e as acusações contra Jucá foram pro segundo plano do noticiário.
Para além dos fetiches, outra forma comum de vitaminar pós-mentiras é aparentar indignação diante dos fatos. Um bom exemplo disso está na reação do casal Gilmar e Guiomar Mendes, à constatação de suas íntimas relações com Jacob Barata Filho, apelidado de “Rei dos Ônibus”.
O casal foi padrinho de casamento da filha do sujeito, que casou com um sobrinho de  Guiomar. O escritório de advocacia onde ela trabalha cuida de casos relacionados ao empresário, que mantém negócios com o cunhado do ministro e teria mandado um valioso arranjo de flores ao casal.
“É uma grande associação de fatos ridículos que não provam nada”
Aí, o sujeito foi flagrado num belo esquema de corrupção e posto em cana. E o que fez o ministro? Tratou de colocá-lo em liberdade. Não uma, mas duas vezes! E quando a imprensa, Janot e todos os indignados do twitter resolveram reclamar, a senhora Mendes não ofereceu uma resposta protocolar qualquer. Ela se indignou. “É uma grande associação de fatos ridículos que não provam nada”, disse. “Não há nada! É espuma”, concluiu enfática.
Para além das espumas e dos bigodes, as pós-mentiras se multiplicam rapidamente. Hoje, permeiam as mais diversas cores ideológicas e ramos de atuação pública. O pós-prefeito de São Paulo, João Doria, por exemplo, garante que não tem intenção de ser candidato à presidência ano que vem, enquanto percorre o país em pré-campanha, deixando a maior cidade dos país à sorte do vice, Bruno Covas.
O ex-presidente Lula ignorou o fato de o senador Renan Calheiros constituir-se em uma das forças mais nocivas da política nacional, e elogiou o colega de palanque, um homem de coragem, segundo o líder petista.
Por fim, vale dizer que nem o juiz Sérgio Moro, bastião da nova moralidade nacional, está livre da prática. Quando teve de lidar com a acusação de que um amigo negociava vantagens na Lava Jato, disse que não se pode confiar na palavra de um acusado. A mesma palavra de acusados, claro, tem sido a espinha dorsal do trabalho de Moro na Lava Jato.
Mas, no mundo de pós-verdades e pós-mentiras, a coerência, assim como os fatos, já não tem mais tanta importância.

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Tomás Chiaverinitchiaverini@​gmail.com@tomaschiaverini

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

The Intercept: 6 vezes em que Temer voltou atrás em um ano


"Nesses 365 dias, os recuos do presidente para tentar driblar sua impopularidade geraram até mesmo um perfil no twitter e um trumbl logo no início do mandato. Só não entendemos ainda por que a mesma lógica do “podemos tirar se achar melhor” ainda não foi aplicada para reverter o índice de 4% de aprovação de seu governo."

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Segue o texto de Juliana Gonçalves, publicado no The Intercept Brasil:
PRIMEIRO, O GOVERNO anunciou que iria acabar com a Reserva Nacional de Cobre e Associado (RENCA) e liberar a exploração mineral na Amazônia. Depois da  repercussão negativa, revogou o decreto e apresentou outro. O fim da reserva acabou mantido, mas algumas regras para a exploração ficaram mais detalhadas e preservando reservas ambientais e indígenas – por fim a justiça revogou qualquer decreto que busque extinguir a reserva. O episódio foi só mais um exemplo do que já virou um clássico do governo Temer.
O movimento de tentar apagar o fogo voltando atrás depois de alguma decisão mal recebida pela opinião pública tem permeado todo o governo que hoje, no último dia de desgosto de agosto, completa um ano oficialmente no poder.
Nesses 365 dias, os recuos do presidente para tentar driblar sua impopularidade geraram até mesmo um perfil no twitter e um trumbl logo no início do mandato. Só não entendemos ainda por que a mesma lógica do “podemos tirar se achar melhor” ainda não foi aplicada para reverter o índice de 4% de aprovação de seu governo.
Relembramos aqui algumas vezes em que essa tática de “podemos recuar foi utilizada pelos homens de Michel Temer ao longo do último ano.

1 – Reforma do Ensino Médio

Em setembro de 2016, o MEC apresentou inicialmente um texto em que as disciplinas de artes, educação física, filosofia e sociologia passariam a ser eletivas, ficando a cargo da escola e do aluno a decisão de cursá-las. Após polêmica porque o texto dava a entender que  a reformulação do Ensino Médio contrariaria a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), governo divulgou nota admitindo o erro e negando a extinção da obrigatoriedade das disciplinas.

2 – Reforma da previdência

Após reuniões e reuniões, em março de 2017, o presidente resolveu que manter os servidores estaduais na reforma da previdência seria invadir a competência dos estados. Além disso, também houve um recuo quanto ao cálculo da aposentadoria.  A priori, a medida seria extinta, mas depois o governo manteve a fórmula de cálculo da aposentadoria pela média dos 80% maiores salários que o contribuinte recebeu ao longo da vida.

3- Exército nas ruas

Em maio deste ano, protestos contra o governo Temer e seu pacote de reformas aconteceram em Brasília. O presidente mandou o exército para as ruas para conter os manifestantes. No dia seguinte, após críticas da oposição, da base aliada e do judiciário recuou e revogou o decreto.

4 – Afastamento de nomes do governo

Temer havia estabelecido uma linha de corte no governo após delações da empreiteira Odebrecht, prometendo o afastamento de integrantes do governo que fossem denunciados. No entanto, após as delações da JBS, Temer decidiu mudar essa política.

5 –  Imposto sobre combustíveis

Governo anunciou em julho, o aumento das alíquotas do PIS/Cofins dos combustíveis. Dias depois, reverteu o aumento, mas somente para o etanol. A alíquotas sobre gasolina e diesel foram mantidas.  

6 – Imposto de renda

Um dia depois de anunciar estudos sobre o aumento da alíquota sobre o imposto de renda, Temer anunciou que não haveria aumento e pediu aplausos da plateia. O governo recuou após a repercussão negativa entre os aliados em agosto deste ano.
Lembra de mais alguma outra ocasião em que o governo Michel Temer usou essa tática? Manda para gente.

ENTRE EM CONTATO:

Juliana Gonçalvesjuliana.goncalves@​theintercept.com@jollyxx

Cantanhêde, a colunista da elite hipócrita, revoltadinha com a queda de popularidade de Moro, por Fernando Brito


cheirosa

Um dos problema do preconceitos é que, como a água, mesmo que se os represe, acabam dando um jeito de escapar.
A colunista da “massa cheirosa”, Eliane Cantanhêde, deixou vazar os seus hoje, ao reagir, indignada, à queda de credibilidade de Sérgio Moro registrada na pesquisa Ipsos-Estadão onde , segundo ela, o juiz ” perdeu pontos justamente no Norte, no Nordeste e nas classes D e E.”
Inconformada, ela brada: “Aí tem!”
É justamente no Norte e no Nordeste que o PT e particularmente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva são campeões de voto e têm os mais fiéis seguidores, cegos, surdos e mudos para quaisquer revelações da Lava Jato, que opõem Moro a Lula. Ali, a versão de Lula vale mais do que os fatos de Moro.
E estão nas classes D e E os cidadãos e cidadãs com menor escolaridade e maior ingenuidade, menor nível de informação e maior crença no que Lula diz. Aliás, ele está percorrendo o Nordeste, num périplo que o PT chama de “Caravana pelo Brasil” e seus críticos apelidaram, ironicamente, de “Caravana da Saudade, ou da Despedida”
Segundo ela, nortistas, nordestinos e pobres em geral estão sendo atingidos por “contrainformação”. Como não se tem notícia de alguma TV, rede de rádio ou jornal que ouse atacar Moro e só aqui e alo se vê algum espaço sendo dado aos seus críticos, não se consegue atinar que tipo de “contrainformação”  está atingindo o “Santo da Mídia” (não confundir com o outro “Santo”, o da lista da Odebrecht).
Ninguém é perfeito. Sérgio Moro não é perfeito. Mas é incrível como podem conferir 37% de desaprovação para o símbolo de uma operação que escarafunchou a corrupção como nunca antes no País, revelou roubalheira de bilhões de reais e está mostrando que a Justiça finalmente não só deve como pode ser igual para todos. Logo, o juiz está enfrentando contrainformação.
Cantanhêde, que há poucos meses se derramava em elogios a Michel Temer ( “de romance, ele entende”) – como fazia antes a Aécio e Serra – não escapa sequer dos comentários do seus leitores, onde acha que ainda vai encontrar tucanos, dos quais foi muda por certo tempo.
Qual nada: o grande protesto nos comentários é porque ela não elogia Jair Bolsonaro, o candidato de boa parte de seus atuais leitores.
Um cheiro nada agradável que emanou dos apetites justiceiros do Doutor Moro.

Temer, o entreguista, recua e desiste por hora de entregar/extinguir reserva na Amazônia


A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e atividades ao ar livre

Do Tijolaço:


reserdatemer

Michel Temer decidiu revogar o decreto que extinguiu a Renca (Reserva Nacional de Cobre e Associados), anuncia a coluna de Lauro Jardim, agora à noite.
Não a revogação “meia-boca”, que havia feito antes, sem mudar, no essencial, o acesso de mineradoras à antes Reserva Nacional de Cobre e Associados, um território de 46 mil km² – equivalente quase à soma de Alagoas e Sergipe – entre os estados do Pará e Amapá.
Além de entreguista, um imbecil, que colheu desgaste onde pretendia recolher aplauso do capital.
Diz Jardim que uma nota do Ministério das Minas e Energia indicará um prazo de 120 dias para apresentar “estudos” sobre o assunto.
Ou seja, nem tão cedo, porque estes 12o dias duram até a eternidade.
Se você fosse dirigente de uma mineradora gringa ia querer fazer negócios  com um sujeito destes, que treme que nem vara verde quando tem de “peitar” a oposição da sociedade?
Obvio que não.
Para o capital internacional isso é a tal de “falta de segurança jurídica”: a decisão de hoje não é mais a mesma amanhã e depois de amanhã já não é decisão alguma.
Nem para entreguista este traste serve direito.