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sábado, 11 de março de 2017
Mino Carta e Paulo Henrique Amorim discutem o papel da mídia no ataque aos direitos da classe trabalhadora
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
A mídia, a Casa Grande e os vendedores de Fumaça.... Reflexões de Mino Carta
"Certos entendimentos apoiam-se apenas na razão, assim como diferenças insanáveis se estabelecem a partir de percepções opostas, no bem ou, se quiserem, no mal. Quem não mudou de casaca enxerga no ódio de classe o porquê da campanha anti-Lula, incapaz de aceitar um operário nordestino na Presidência da República. E enxerga a distância que separa um país onde ainda permanecem de pé casa-grande e senzala da democracia e da civilização. E enxerga a incompetência dos senhores, inabilitados até ao capitalismo sonhado por Adam Smith: ao cuidarem exclusivamente dos seus interesses, condenaram um país exportador de commodities a viver até hoje uma Idade Média."
EditorialVendedores de fumaça
Um conto de Andersen, A Roupa Nova do Imperador, merece ser adaptado à situação do Brasil de hoje
Um conto de Hans Christian Andersen, entre muitos outros, encantou a minha infância, A Roupa Nova do Imperador. Mas tem condições de encantar também a idade adulta. É a história dos vendedores de fumaça que com ela vestem o soberano, parvo e miseravelmente enganado, pronto a desfilar diante dos súditos aglomerados na praça certo de envergar roupas de seda e veludo. Até que um menino perdido no meio da multidão, voz da inocência, grita: “Ele está nu”. O enredo tornou-se lugar-comum para denunciar quem não consegue se esconder atrás de falácias.
Volta e meia a gente lê ou ouve que o “rei está nu” ao se contar o inútil esforço de algum graúdo pego com a mão na massa apesar dos seus disfarces. Chico Caruso, chargista na primeira página de O Globo, já desnudou os incriminados pela Lava Jato e, em outra charge, achincalhou as duas centenas de advogados, alguns dos réus da operação, que em janeiro passado divulgaram um manifesto para protestar contra irregularidades variadas cometidas ao longo da investigação.
Mauricio Dias em sua Rosa dos Ventos da edição passada criticou o chargista, e este se queixa agora com um texto postado no meu e-mail para defender seu trabalho, sem deixar de admitir que eu poderia ter autorizado “tal ataque”. Nada inspirei, nada autorizei, pelo simples fato de que CartaCapital nunca se permitiu censura interna, ou autocensura. Seus colunistas escrevem o que bem entendem. Chico trabalhou comigo na primeira IstoÉ e gozou do meu respeito e da minha amizade, mantida no decorrer de décadas, desde os tempos em que me apelidou “catapulta de talentos” com chiste amigo, saudável de todos os pontos de vista.
Esta não é uma resposta, é reflexão ampla. Impossível dialogar nas circunstâncias de hoje com quem acredita, como Chico Caruso, que “o Judiciário aponta uma nova direção para a nossa política”. Não está só.
Este gênero de peculiar humorismo é praticado pela larga maioria dos chargistas de jornalões, revistões, programões. As exceções contam-se nos dedos de uma única mão. De chofre, ocorre-me Laerte, artista fiel às suas crenças de sempre, a contradizer a linha do jornal que a publica.
Às vezes me toma o impulso de perguntar aos meus céticos botões como se deu que tantos, outrora a pretender professar ideias tidas pela reação como subversivas, tenham se identificado tão profundamente com as ideias dos seus patrões reacionários? E se, perguntaram por sua vez os botões, eles tivessem passado a compartilhar com total sinceridade o pensamento de quem lhes paga o salário?
Debandada geral. A mudança radical não se dá porque a ex-rapaziada deixou de votar no PT, ou porque se empenha em buscar obsessivamente razões para o impeachment de Dilma e para sepultar de vez qualquer veleidade eleitoral de Lula. CartaCapital sabe, e repete, que no poder o PT portou-se como os demais clubes recreativos envolvidos na arena política. Sabe, porém, e repete, que a tentativa de impeachment é francamente golpista e que os argumentos até o momento trombeteados para incriminar o melhor presidente pós-ditadura por ora o fortalecem de tão inconsistentes.
Certos entendimentos apoiam-se apenas na razão, assim como diferenças insanáveis se estabelecem a partir de percepções opostas, no bem ou, se quiserem, no mal. Quem não mudou de casaca enxerga no ódio de classe o porquê da campanha anti-Lula, incapaz de aceitar um operário nordestino na Presidência da República. E enxerga a distância que separa um país onde ainda permanecem de pé casa-grande e senzala da democracia e da civilização. E enxerga a incompetência dos senhores, inabilitados até ao capitalismo sonhado por Adam Smith: ao cuidarem exclusivamente dos seus interesses, condenaram um país exportador de commodities a viver até hoje uma Idade Média.
Cada qual tem direito a pensar o que quer, livremente. Trato somente de esclarecer a discrepância e a impossibilidade de diálogo. Anoto, também, a generalizada, epidêmica, avassaladora falta de graça. De um senso de humor que outrora conhecemos, de um lado e de outro, de Stanislaw Ponte Preta a Nelson Rodrigues, de Noel Rosa ao Pasquim, de Raymundo Faoro a Gilberto Freyre.
Entrego-me à releitura do conto de Andersen: a mídia nativa vende fumaça e, ao cabo, a realidade ficará nua.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
O patético complô da Casa Grande e sua mídia contra Lula, por Mino Carta
foto de Ricardo Stuckert
É pateticamente golpista a busca frenética de motivos para incriminar Lula
Editorial
O patético complô
Suspeitas levantadas para incriminar Lula deveriam provocar gargalhadas, não indicassem desastre intelectual e moral de que não escapam governo e PT
por Mino Carta — publicado 15/02/2016 04h15 - Carta Capital
Dona Marisa Letícia exorbita, não se limita a carregar para o celebérrimo (famigerado?) sítio de Atibaia um barquinho de lata no valor de 4 mil reais, mas lá criou uma horta e ergueu uma pequena estátua de Cristo, quem sabe miniatura do Redentor do Corcovado. Espantoso.
E como se não bastasse, a ex-primeira-dama teve o acinte de organizar no sítio festas familiares. Comes e bebes caseiros, ponche, vale apostar. Parece incrível, está provado, contudo, pelas fotos aéreas tiradas por desassombrados perdigueiros da informação, paladinos da verdade.
Diante desse apavorante conjunto de desmandos, não poderia faltar a intervenção providencial do juiz Sergio Moro, que há dois anos, graças ao Altíssimo, rege o destino do País. E ele convoca a Polícia Federal a se aprofundar na investigação das razões de ser da propriedade rural suspeita, a implicar a possibilidade (probabilidade? certeza?) de incriminar Lula em crime de ocultação do patrimônio. Ou coisa pior.
Raymundo Faoro recomendava: “Mino, não pratique a ironia, eles vão entender que você fala sério”. Apresso-me a sublinhar: exponho uma situação risível até a gargalhada não fosse indicativa também da miséria intelectual e moral em que precipitamos. Se é golpista a tentativa de impeachment de Dilma Rousseff, é por igual pateticamente golpista a manobra urdida em várias frentes na busca frenética de motivos para incriminar Lula.
Por ora, trombeteiam-se motivações inconsistentes. Tal é, porém, a arte da calúnia, haveria de funcionar com a paciência da água mole do ditado. Pergunto aos meus entediados botões: como terminaria o mandato de Getúlio se ele não apanhasse o revólver pousado sobre o criado-mudo?
No caso houve um complicador gravíssimo, o atentado contra o inquisidor Lacerda que resultou no assassínio do major Vaz. Arrisco-me a imaginar que o golpe de 1964 se daria dez anos antes, em um Brasil de 60 milhões de habitantes, e muito diferente do atual não somente por causa do crescimento populacional.
Há regiões que progrediram em todos os sentidos. O Nordeste, por exemplo, outrora dos coronéis e do voto de cabresto, hoje politizado em boa medida. Surgiram também movimentos sociais importantes e uma porção conspícua da Igreja, embora tenha perdido espaço para os evangélicos, já não se prontifica a abençoar a casa-grande.
E quantos brasileiros, efetivamente, são alcançados pela campanha anti-Lula? Não chega aos que vivem no limbo, e são dezenas de milhões, e aos que enxergam em Lula o melhor presidente da República pós-ditadura, e não se enganam.
- Não poderia faltar a intervenção providencial do juiz Sergio Moro (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
A conspiração fermenta debaixo dos nossos olhos, capaz até de desprezar a contribuição dos profissionais da política para conluiar a mídia, verdadeiro partido de oposição, alas da PF e do MP, um ou outro ministro do Supremo (não é preciso declinar nomes) e líderes empresariais de um país que até hoje basicamente exporta commodities.
E quem comove e exalta? Leitores de jornalões e revistões, ouvintes e assistentes dos penosos torquemadas da tevê e do rádio. Não se trata da maioria do povo brasileiro.
O que espanta de verdade, e tolhe a gargalhada que de outra forma mereceria saudar o esforço de quem até o momento furou a água, é a inércia governista e o pífio comportamento do PT, o partido que no poder portou-se como os demais.
O ministro da Justiça imerge-se no vácuo de Torricelli, enquanto Rui Falcão constata algo que define como o “linchamento” do seu líder, quando apenas lhe cabe demolir um castelo de areia. Faltam picardia e senso do ridículo, chiste e graça.
Sobrou o lugar-comum, quase a confissão da impotência, sem falar da apatia de um governo que se deixa acuar. Não são bons sinais, revelam a falta de rumo em um Brasil à deriva. A conspirata se dá antes de mais nada contra o próprio País e são poucos os que escapam à derrocada geral.
A conclusão é inescapável, estamos muito longe da maturidade de uma nação habilitada à democracia. De fato, inexistem na prática os poderes ensinados por Montesquieu, enquanto a crise grassa e fatias da população, beneficiadas pela política social de Lula, descem os degraus galgados nos últimos anos.
Outra conclusão se impõe: se as acusações contra o ex-presidente não passarem das aduzidas até agora, Lula sairá desta refrega extremamente fortalecido. Se quiser, candidato imbatível em 2018.
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
O comportamento da dita "grande mídia" nativa é sintomático da decadência ética da Casa Grande no Brasil
"Vivemos tempos de incompetência desbordante, de irresponsabilidade, de irracionalidade. De decadência moral, de descalabro crescente. Falei em 1954: foi também o ano do suicídio de Getúlio Vargas, alvejado pelo ataque reacionário urdido contra quem dava os primeiros passos de uma industrialização capaz de gerar proletariado, ou seja, cidadãos conscientes de sua força, finalmente egressos da senzala." Mino Carta

Política
Editorial
Isto não é jornalismo
O comportamento da mídia nativa é o sintoma mais preciso da decadência do Brasil
por Mino Carta — publicado 29/01/2016 10h36 na Carta Capital
Ricardo Stuckert
Não é difícil entender que a casa-grande está apavorada com a possibilidade do retorno de Lula à Presidência
Incomodavam-me, em outros tempos, os sorrisos do sambista e do futebolista. Edulcorados pela condescendência de quem se crê habilitado à arrogância. Superior, com um toque de irônica tolerância. Ou, por outra: um sorriso vaidoso e gabola.
Agora me pergunto se ainda existem sambistas e futebolistas capazes daquele sorriso. Foi, aos meus olhos, por muito tempo, o sinal de desforra em relação ao resto do mundo, a afirmação de uma vantagem tida como indiscutível. Incomodou-me, explico, considerar que a vantagem do Brasil, enorme, está nos favores recebidos da natureza e atirados ao lixo pela chamada elite, que desmandou impunemente.
Quanto ao sambista e ao futebolista, não estavam ali por acaso. Achavam-se os tais, e os senhores batiam palmas. Enxergavam neles os melhores intérpretes do País e no Carnaval uma festa para deslumbrar o mundo.
O Brasil tinha outros méritos. Escritores, artistas, pensadores, respeitabilíssimos. Até políticos. Ocorre-me recordar a programação do quarto centenário de São Paulo, em 1954, representativa de uma metrópole de pouco mais de 2 milhões de habitantes e equipada para realizar um evento que durou o ano inteiro sem perder o brilho.
Lembro momentos extraordinários, a partir da presença de telas de Caravaggio em uma exposição do barroco italiano apresentada no Ibirapuera recém-inaugurado, até um festival de cinema com a participação de delegações dos principais países produtores.
A passar pela visita de William Faulkner disposto a trocar ideias com a inteligência nativa. Não prejudicaram a importância da presença do grande escritor noitadas em companhia de Errol Flynn encerradas ao menos uma vez pelo desabamento do primeiro Robin Hood de Hollywood na calçada do Hotel Esplanada.
A imprensa servia à casa-grande, mas nela militavam profissionais de muita qualidade, nem sempre para relatar a verdade factual, habilitados, contudo, a lidar desenvoltos com o vernáculo. Outra São Paulo, outro Brasil.
Este dos dias de hoje está nos antípodas, é o oposto daquele. A despeito da irritação que então me causava o sorriso do futebolista e do sambista, agora lamento a sua falta, tratava-se de titulares de talentos que se perderam.
Vivemos tempos de incompetência desbordante, de irresponsabilidade, de irracionalidade. De decadência moral, de descalabro crescente. Falei em 1954: foi também o ano do suicídio de Getúlio Vargas, alvejado pelo ataque reacionário urdido contra quem dava os primeiros passos de uma industrialização capaz de gerar proletariado, ou seja, cidadãos conscientes de sua força, finalmente egressos da senzala.
Não cabe, porém, compararCarlos Lacerda com os golpistas atuais, alojados na mídia, grilos falantes dos barões, a serviço do ódio de classe. Lacerda foi mestre na categoria vilão, excelente de fala e de escrita.
Os atuais tribunos de uma pretensa, grotesca aristocracia, são pobres-diabos a naufragar na mediocridade. Muitos deles, como Lacerda, começaram na vida adulta a se dizerem de esquerda, tal a única semelhança. Do meu lado, sempre temi quem parte da esquerda para acabar à direita.
Os sintomas do desvario reinante multiplicam-se, dia a dia. Alguns me chamam atenção. Leio, debaixo de títulos retumbantes de primeira página, que o ex-ministro Gilberto Carvalho admitiu ter recebido certo lobista.
Veicula-se a notícia como revelação estarrecedora, e só nas pregas do texto informa-se que Carvalho convidou o visitante a procurar outra freguesia. De todo modo, vale perguntar: quantos lobistas passam por gabinetes ministeriais ao praticar simplesmente seu mister? Mesmo porque, como diria aquela personagem de Chico Anysio, advogado advoga, médico medica, lobista faz lobby.
Outro indício, ainda mais grave, está na desesperada, obsessiva busca de envolver Lula em alguma mazela, qualquer uma serve. Tanto esforço é fenômeno único na história contemporânea de países civilizados e democráticos. Não é difícil entender que a casa-grande está apavorada com a possibilidade do retorno de Lula à Presidência em 2018, mesmo o mundo mineral percebe.
Mas até onde vai a prepotência insana, ao desenrolar o enredo de um apartamento triplex à beira-mar que Lula não comprou? A quem interessa a história de um imóvel anônimo? Que tal falarmos dos iates, dos jatinhos, das fazendas, dos Rolls-Royce que o ex-presidente não possui?
Este não é jornalismo. Falta o respeito à verdade factual e tudo é servido sob forma de acusação em falas e textos elaborados com transparente má-fé. Na forma e no conteúdo, amídia nativa age como partido político.
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Grande mídia (Globo, Veja, Folha e suas variantes) e a manipulação da platéia
Na terça 11, o Estadão nos ofertou um exemplo impecável de como a mídia nativa manipula as informações. No primeiro editorial da terceira página, mostra de que forma uma verdade pretensamente definitiva em nada se parece com a verdade factual.
De saída, o editorial cita Mark Twain (com o delicioso cuidado de avisar que se trata de um escritor americano) para afirmar a intocada energia da mídia impressa, a contrariar as previsões da moda que vaticinam seu iminente passamento diante do avanço da internet. Primeira prova da excelente saúde: a credibilidade.
De onde o Estadão extrai esta “verdade”? De uma pesquisa encomendada ao Ibope Inteligência pela própria Secom. Informa o editorial: 53% dos entrevistados confiam nos jornais impressos, “sempre ou muitas vezes”. Confiam menos em rádio e tevê, um tanto menos em revistas, menos ainda em sites e blogs. O Estadão exulta. Deveria chorar, como será provado.
O Brasil não é país de leitores. O que tem explicações óbvias, embora não falte quem não sabe ou quem não quer entender, por ignorância, medo ou interesse. A casa-grande até hoje conseguiu manter a senzala a notável distância, e tal, diria Hannah Arendt, é a verdade factual. Não é por acaso que somos o quarto país mais desigual do mundo.

Para arcar a contento seu papel de porta-voz da casa-grande, a mídia esmera-se na manipulação da sua plateia, graças a recursos de comprovada eficácia, tais como inventar, omitir e mentir. No caso do editorial do Estadão, registre-se a clamorosa omissão de um dado fundamental: apenas 5% dos entrevistados leem os jornais com certa regularidade. Ou seja, 5 milhões de brasileiros.
Não se trata somente dos jornalões, mas também dos jornais regionais e dos chamados populares. É neste universo que trafegam aqueles 53% de leitores mais ou menos confiantes. Ou, por outra, 2,65 milhões de brasileiros. Donde, mais de 197 milhões de cidadãos, conscientes ou não da sua cidadania, não estão nem aí, como se diz.
A pesquisa tem muito valor, mas não é no sentido pretendido pelo Estadão. A rigor, dois fatos emergem e ganham instrumentos de análise de medição mais precisos. O primeiro diz respeito ao Brasil, cujo atraso avulta e dói. O segundo nasce do confronto entre mídia impressa e meios de comunicação já tradicionais, rádio e tevê, e outros precipitados pelo progresso tecnológico. A questão, por aqui, se estabelece com peculiaridades próprias.
Sobre o atraso do Brasil não há por que insistir. Basta cogitar de alguns aspectos. Morrem assassinados, todos os anos há bastante tempo, mais de 50 mil brasileiros. São Paulo e Rio são mais inseguros do que Ramallah. Se quiserem, a nossa mídia ofende diariamente o vernáculo. Ou um estádio no Brasil da Copa custa quatro vezes mais que um na Alemanha. Etc. etc. Não me detenho, a bem do meu fígado.
Passemos ao segundo assunto, tratado neste espaço, data venia, por um jornalista ancião que ainda usa a Olivetti em lugar do computador. Ancião e retrógrado. Dou a minha opinião, ela também se diferencia da verdade factual. Quero acreditar, eis o ponto, e acreditar em extremis válido para mim, que a escrita vai sobreviver dentro das suas possibilidades. Scripta manent, verba volant, a escrita permanece, a fala voa, diziam os latinos.
Desço mais ao fundo. O caminho da mídia impressa tende a ser o da análise qualificada, da lavra de quem tem autoridade para tanto, e do chamado “furo”, a informação exclusiva e reveladora da qual somente você dispõe. É no futuro deste jornalismo impresso de qualidade, ética e estética, que me permito acreditar. Infelizmente, o jornalismo brasileiro escolheu o caminho oposto, vergonhosamente sectário, manipulador da informação, incapaz de qualquer resquício de estilo literário. Não sei o que haveria de acontecer para evitar o desastre final.
Mino Carta
No CartaCapital
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
Mino Carta comenta, em vídeo, as "confissões" de FHC sobre a Petrobrás
Segue o vídeo com o jornalista Mino Carta (um dos fundadores da Veja quando esta parecia prestar) sobre os devios e corrupção nos tempos FHC, com ênfase na Petrobrás (que, aliás, seria transformada em Petrobrax para ser privatizada, não fosse o mído popular quando a pretensão secreta foi descoberta):
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domingo, 13 de setembro de 2015
Ódio no Brasil? Sim, de classe
"Quem não precisa de oculista, percebe, isto sim, que o País é sempre o mesmo e que a situação propicia à casa-grande a oportunidade da revanche depois de 12 anos de batalhas perdidas. O ódio, aquecido pela chance, é o de classe. Ou seja, o de sempre. Na moldura, a chantagem evidente. Dilma fica, vinga, porém, o receituário neoliberal, e o sofrimento da senzala, minorado ao longo de três mandatos petistas, volta a ser aquele que lhe cabe na visão dos senhores." - Mino Carta
Ódio? Sim, de classe
O governo cede às pressões da casa-grande e aceita o naufrágio dos avanços sociais que ele próprio promoveu nos últimos 12 anos
Texto de Mino Carta - extraido da Carta Capital
A crise econômica oferece à casa-grande a oportunidade de impor sua vontade, favorecida pela leniência de quem haveria de resistir. E está claro que, antes de econômica, a questão é política e social, e diz respeito à estrutura medieval da sociedade nativa. Sofre de miopia quem supõe, do ponto de vista político, que tudo se resuma na disputa do poder entre PT e PSDB, acirrada por níveis de ódio nunca dantes navegados, enquanto PMDB ora assiste de camarote, ora joga lenha na fogueira. Que o diga o vice Temer ao vaticinar impávido que Dilma, de tão impopular, não resiste até o fim do mandato.
Quem não precisa de oculista, percebe, isto sim, que o País é sempre o mesmo e que a situação propicia à casa-grande a oportunidade da revanche depois de 12 anos de batalhas perdidas. O ódio, aquecido pela chance, é o de classe. Ou seja, o de sempre. Na moldura, a chantagem evidente. Dilma fica, vinga, porém, o receituário neoliberal, e o sofrimento da senzala, minorado ao longo de três mandatos petistas, volta a ser aquele que lhe cabe na visão dos senhores.
Programas implementados por Lula, e por Dilma no seu primeiro mandato, responsáveis pela evolução das classes menos favorecidas, ou melhor, miseráveis, são atacados de rijo, a ponto de questionar, paradoxalmente, a razão de ser de um partido dito dos trabalhadores, a se apresentar na origem como de esquerda. Tentativas de escapar ao retorno, do passado, são frustradas no nascedouro, tanto mais agora que uma das agências de rating escaladas pelo neoliberalismo para arbitrar a sorte do mundo sentencia o Brasil como mau pagador.
Penso no fracasso da proposta de reeditar a CPMF, recomendável de todos os pontos de vista e de seguro efeito. Por que soçobrou muito antes de alcançar a praia? Porque mexe com os interesses do privilégio, por menores que sejam, mínimos para o pessoal graúdo. Em compensação, qualquer corte na Educação, ou na Previdência Social, é recebida com indiferença absoluta pelos usuários do cheque.
Como de hábito, paga a maioria, em um país que alega ser democrático e onde a civilização é confundida com o luxo provinciano e espalhafatoso dos bairros ditos nobres, embora despidos de qualquer nobreza em proveito do exibicionismo vulgar. A situação empurra o praticante do jornalismo honesto a duas conclusões.
A primeira diz respeito ao governo. Da Nação ou da minoria? Ou simplesmente desarmado, acuado pela pressão e incapaz de reação? Ou inadequado à gravidade do momento? Ou súcubo da prepotência da casa-grande? CartaCapital sempre defenderá o legítimo, intocável mandato de Dilma Rousseff contra o golpismo que nem me abalo a definir como reacionário, pois anterior à ideia de reação, bem mais moderna, digamos assim.
No princípio, no nosso miúdo universo, não era o verbo, e sim coabitavam o hábito da prepotência e o hábito da submissão. Para romper com esta turva realidade, resistente até hoje, são indispensáveis ousadia intelectual e desassombro moral. Por exemplo, para levar adiante, tenazmente, a proposta do retorno à CPMF, de mais e mais sacrifício tão pequeno para quem pode contribuir à saída da crise.
O desastre ocorre se também um governo eleito dentro da lei entrega-se ao hábito da submissão. Murmuram sinistramente os meus botões: falta é peito, e também coerência. Por parte do governo, que faz genuflexão aos pés do altar do deus mercado, assim como do PT, ameaçado literalmente de extinção.
Governo e partido parecem incapacitados para a aposta certa, no próprio povo brasileiro, esse bem tão importante quanto as dádivas da natureza. Povo espezinhado, mantido o quanto for possível na senzala material e moral. Se porções da população subitamente conseguem evadir-se, que sejam reconduzidas às condições iniciais como o escravo fugido. Trata-se agora de reduzir os percalços de uns poucos para dilatar o sofrimento de muitos.
A segunda conclusão decorre da primeira, e não leva em conta o confronto entre PSDB e PT, ambos traidores, a seu modo, dos princípios e valores que diziam defender. Cabe dividir os brasileiros, não direi em duas classes, e sim em duas categorias. De um lado, aqueles que só cogitam da felicidade própria e dos seus pares, fechados no mundo do privilégio. Do outro, aqueles que se percebem responsáveis pelo destino do País e da Nação, e enxergam sua terra como sua casa e como iguais os conterrâneos, próximos ou distantes.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2015
A catilinária aguda de Paulo Henrique, por Mino Carta e Sérgio Lirio
"Orgulho-me ao dizer que este é o primeiro livro capaz de tratar Roberto Marinho como ele há de ser tratado. Até agora, só houve livros que foram bajulação rasteira." Paulo Henrique Amorim
Seu País
A catilinária aguda de Paulo Henrique
por Mino Carta e Sergio Lírio — publicado 03/09/2015 - Do site da Carta Capital
Entrevista: um grande jornalista apresenta seu novo livro sobre a mídia nativa
Paulo Henrique Amorim, jornalista de longo curso aos 73 anos, provou seu farto talento no vídeo e no papel impresso. Primeiro correspondente de Veja em Nova York em 1968, editor de Economia da semanal anos depois, diretor de redação na Examequando ainda na Editora Abril, enfim diretor do Jornal do Brasil em tempos de vento favorável a bafejar a baronesa e seu genro Nascimento Brito. No vídeo, como diretor do escritório nova-iorquino da Globo, passou também pela Bandeirantes e agora surge na Record, enquanto produz o blog Conversa Afiada, de grande êxito. No momento, cuida do lançamento do seu último livro, O Quarto Poder – Uma outra história. E é desta história que se fala na entrevista a seguir.
CartaCapital: Do alto da sua larga experiência, selecione as cinco figuras mais daninhas para o País, as mais negativas na história que você viveu, à parte ditadores, torturadores, políticos coniventes etc.
Paulo Henrique Amorim: A mais daninha, levando em consideração também a minha experiência pessoal, é Daniel Dantas. Porque ele conseguiu disseminar o câncer, ele contaminou o tecido de todo o sistema brasileiro, Judiciário, Legislativo e Executivo. Levando também uma boa parte dessa doença, dessa malignidade, ao jornalismo. Outro que eu elegeria é Fernando Henrique Cardoso, porque ele é um caso exemplar de hipocrisia, de tartufismo.
Ele tem o desplante de se transformar em um Catão, a despeito de sua biografia totalmente maculada. Ele saiu da Presidência da República sendo professor aposentado e funcionário público, dono de uma fazenda em Minas Gerais, e tem um imóvel em Higienópolis incompatível com a renda dele. Essa história de que se tornou um palestrante para cobrar 50 mil dólares por conferência, fora o jatinho da secretaria, do segurança, isso tudo pode ser uma boa maneira de lavar dinheiro.
Outra figura que considero nefanda é José Serra. Ele tem mais de 50 anos de vida pública e nunca teve uma ideia original. Não é engenheiro, não é economista, não é nada, é produto única e exclusivamente da poderosa blindagem que a mídia em São Paulo garantiu aos tucanos. Serra fugiu enquanto muitos outros ficaram por aqui para resistir e alguns foram para a luta armada. Do Chile, onde se asilou na Embaixada da Itália, casou-se com uma Allende, e acabou, por mecanismos que a gente não sabe até hoje, por parar na Universidade Cornell nos Estados Unidos.
CC: Serra teve alguma relação com Daniel Dantas?
PHA: Teve no processo da Privataria Tucana. A irmã de Daniel Dantas é, ou foi, sócia da filha de Serra em Miami, em uma empresa de lobby. Serra está envolvido em todas as atividades suspeitas realizadas pelo tucanato. Segundo depoimento do próprio FHC, foi quem levou o governo tucano a vender a Vale por um valor inferior ao que a empresa tinha em caixa. Agora reeleito senador, a primeira coisa que ele faz é propor a entrega da Petrobras.
CC: Vamos à quarta figura.
PHA: Roberto Marinho. Orgulho-me ao dizer que este é o primeiro livro capaz de tratar Roberto Marinho como ele há de ser tratado. Até agora, só houve livros que foram bajulação rasteira. Meu livro conta que a certa altura da minha carreira na Globo eu denunciei uma roubalheira perpetrada no Instituto Brasileiro do Café (IBC), reduto, aliás, de bandalheiras variadas. E denunciei uma delas, chamada Operação Patricia. Foi uma operação em que o IBC bancava uma cotação do café, e, se essa cotação caísse, os operadores de café não pagavam nada, era o IBC que pagava para eles. Uma safadeza descomunal.
Fiz a denúncia na minha coluna no Jornal da Globo. Uma vez eu disse a Roberto Marinho que tinha uma coluna no Jornal da Globo e ele retrucou: “A coluna não é sua, é do Globo”. Aquela foi apresentada por um repórter que fez a passagem de bloco da seguinte forma: “Paulo Henrique Amorim denuncia um roubo no IBC”. Eu havia escrito rombo. Roberto Marinho mandou me chamar e pelo telefone me demitiu, porque eu não estava “adaptado ao jornalismo da Globo”. Depois eu soube que ele e um dos seus principais mentores, o Jorge Serpa, tinham interesse no IBC. Mais tarde, averiguei que Roberto Marinho recorrera ao SNI para saber quem tinha sido a minha fonte.
CC: E como se deu o desastre da TV Montecarlo?
PHA: Outra história do livro. Passo por uma entrevista que fiz com Bettino Craxi,
líder do socialismo italiano, que mais tarde seria abatido pela Operação Mãos Limpas. Craxi havia arrumado uma sinecura, passara a formulador da política da ONU para os países endividados, e eu estava fazendo um documentário sobre a dívida externa dos países emergentes. E lá fui, e o Bettino Craxi: “Ahhhh! Você trabalha na Globo! Ahhhh, aqueles meninos queriam enganar o Berlusconi, ma che ingenuità”. Acredita-se que Marinho perdeu ali 100 milhões de dólares...
líder do socialismo italiano, que mais tarde seria abatido pela Operação Mãos Limpas. Craxi havia arrumado uma sinecura, passara a formulador da política da ONU para os países endividados, e eu estava fazendo um documentário sobre a dívida externa dos países emergentes. E lá fui, e o Bettino Craxi: “Ahhhh! Você trabalha na Globo! Ahhhh, aqueles meninos queriam enganar o Berlusconi, ma che ingenuità”. Acredita-se que Marinho perdeu ali 100 milhões de dólares...
CC: Falou-se, então, em 120 milhões...
PHA: É, por aí. Alguns dos principais assessores do ministro Dilson Funaro, tempo de Sarney, me contaram que o Roberto Marinho conseguiu do Banco do Brasil um empréstimo vultoso para cobrir a dívida contraída na aventura da Tele Montecarlo, de sorte a descontar os recursos correspondentes pelo dólar paralelo. A Tele Montecarlo saiu de graça para ele, por obra de governo Sarney.
CC: Mas o BNDES já fez coisas parecidas no tempo de FHC...
PHA: Vamos ver o quinto. Um dos maiores cretinos com quem tropecei ao longo da minha breve carreira é um senhor chamado Roberto Civita. O livro documenta o papel de Roberto Civita na construção de um grande império que militou e milita até hoje contra o Brasil. Não é à toa que Brizola dizia: “Quantos passaportes tem o senhor Civita...” Ciro Gomes me contou, recentemente, que, depois de deixar o governo do Ceará, foi para Harvard por um ano sabático, na companhia do professor Mangabeira Unger.
Aí ele foi se candidatar à Presidência da República, estava muito bem nas pesquisas, até que o Serra o detonou. Enquanto ainda estava bem, Roberto Civita o chamou para jantar na casa dele. Logo a luz foi reduzida, Ciro conta que lhe pareceu ter aportado a uma boate, era para ter um clima mais íntimo. E Civita perguntou: “Você estudou em Harvard, não é isso?” Ciro respondeu que sim. “Então podemos falar em inglês?”, disse o anfitrião.
CC: Fale de Carlos Lacerda, com quem você conviveu em alguns momentos da sua vida.
PHA: Abri o escritório da Veja em Nova York, em 1968, coincidiu com a eleição à sucessão do Lyndon Johnson. Foi uma luta feroz entre Richard Nixon, que já tinha perdido para John Kennedy, e Hubert Humphrey, líder trabalhista democrata vice-presidente de Johnson, candidato de muito boas qualidades. E aí a revista Realidade contratou Carlos Lacerda para cobrir a eleição como enviado especial. Então, convivemos durante um mês. Àquela altura, a Abril estava nadando em dinheiro e eu pude me deslocar pelos Estados Unidos com Lacerda, e com Alfredo Machado, fundador da Editora Record, amicíssimo do ex-governador.
Conversamos muito, íamos a livrarias juntos, ele dizia que a melhor coisa do mundo era comprar livros, e me contou várias histórias. E aí no fim da campanha, mais ou menos quando já se sabia que Nixon ia ganhar, o quartel-general do republicano era no Waldorf-Astoria, onde outros momentos históricos se deram, como quando Fernando Henrique ganhou o prêmio de personalidade do ano, escolhido por brasileiros que ganham dinheiro a rodo em Nova York e uma vez por ano elegem o homem do ano. E aí os brasileiros vão para lá de smoking, todos eles falando português. Surge então um pequeno problema. Eles alugam o smoking, mas pensam que não é preciso alugar os sapatos. E aí o calçado destoa miseravelmente e denuncia o smoking alugado.
CC: Como foi a cerimônia do anúncio da vitória de Nixon?
PHA: Bem, fomos para uma grande sala do Waldorf, a Ballroom. De repente chega o assessor de imprensa de Nixon, um jovem chamado Ron Ziegler, e diz: “Mister Lacerda, o presidente quer vê-lo”. E aí leva Lacerda lá para cima, para que assista ao anúncio da vitória na suíte presidencial.
CC: E que tal o repórter Carlos Lacerda?
PHA: Incansável. Ótimo faro, ele tinha um fôlego igual ao meu, e àquela altura eu tinha 25 anos.
CC: Paulo Henrique, o que os aspirantes a Carlos Lacerda no Brasil atual
não entenderam de Carlos Lacerda? O que falta para eles?
não entenderam de Carlos Lacerda? O que falta para eles?
PHA: Ele era muito sofisticado, leu muito, falava um inglês americano muito bom mesmo. Não sei como, pois nunca morou nos Estados Unidos, era um dom que ele tinha. Nasceu comunista, depois se tornou um líder de direita, um golpista, mas àquela altura ele estava na Frente Ampla, com Jango e Juscelino.
CC: Foi por isso que o Estadão acabou censurado, seguiu o Lacerda até o fim.
PHA: Eu evoco no livro um jantar com Lacerda no restaurante de um hotel suíço. No meio da conversa, eu disse que Jango mancava por causa de um tiro. Aí Lacerda falou: “Não, aquilo ali foi uma gonorreia mal curada”. Aí eu disse: “Mas como, governador?” E ele: “Eu sei, hoje sou amigo do homem”. E aí, emocionado, disse ter passado a admirar Jango, que o recebera em sua casa de Montevidéu, depois de tudo o que ele, Lacerda, fizera para desmoralizá-lo.
Toda essa cortesia exigia um caráter excepcional. Lacerda contou que, durante a visita, Jango chamou os filhos, João Vicente e Denise, para cumprimentar “o governador”. Lacerda já tinha cumprimentado dona Maria Teresa. Aí Jango disse aos filhos para ir lá dentro buscar os cadernos para mostrá-los a Lacerda, e disse: “Veja, governador, meus filhos estão aprendendo a ler em espanhol”. Bom, não é? Muito bom.
CC: Voltemos a Daniel Dantas. Por que continua impune?
PHA: Ele foi capaz de corromper todos os partidos. Acho que Dantas é a prova provada de que a democracia no Brasil é de fachada. Mas ainda ouviremos falar dele.
CC: Por quê?
PHA: Porque ele participou da Privataria Tucana, está comprovado. O livro de Rubens Valente demonstra de forma insofismável que ele tem uma participação decisiva nas decisões do ministro Gilmar Mendes, e que ele chantageou Fernando Henrique Cardoso, quando presidente. Ele manobrou Serra, como esclarece Valente. E chegou ao PT.
No livro de Rubens Valente surge também João Vaccari, na compra da Brasil Telecom pela Oi, e isso vai explodir. Porque a BrOi vai quebrar, e vai ter uma intervenção e o podre vai aparecer. E foi o PT que mudou a lei para a Brasil Telecom poder ser comprada pela Oi. Esses são os documentos da história. Lula mudou a composição da Anatel, Sarney indicou uma pessoa de sua confiança para a diretoria, e com isso mudou a jurisprudência da Anatel que permitiu a BrOi.
CC: E na verdade já era para DD ter aparecido no chamado “mensalão”.
PHA: Pois apareceu. Mas o ministro Barbosa sumiu com Dantas! Ele está no “mensalão” tucano, ele está no “mensalão” do PT, ele está em todos os mensalões, e continua operando.
CC: E o disco rígido do Opportunity, apreendido pela PF por ocasião da Operação Chacal?
PHA: Sim, durante a Operação Chacal. E teve uma decisão histórica da ministra Ellen Gracie, aquela de lábios delgados, que não deixou abrir o disco rígido, porque Daniel Dantas não é Daniel Dantas, mas Daniel Dantas. Isso, mais do que tudo, é um haicai, é um poema. E Gilmar Mendes entrou para a história da magistratura universal porque ele deu em 48 horas dois HC cangurus para Dantas depois da Operação Satiagraha.
O Dantas não é nada, é um pseudobanqueiro, porque o Opportunity não e um banco, Opportunity é um nome fantasia, começa por aí. Então, em 48 horas ele foi direto ao Supremo, passou por todas as instâncias inferiores e conseguiu dois HC. Já o ministro Joaquim Barbosa foi duríssimo com o biliardário Genoino, mas com o Dantas ele foi muito gentil. O Dantas está em toda parte. Uma capa histórica de CartaCapital disse tudo. E ele é ainda o dono do Brasil, mas isso estará em meu próximo livro. Este que estou publicando termina no dia da segunda eleição de Lula, quando o eleito me telefona para dar os parabéns por ter desvendado a maracutaia da edição do Jornal Nacional, foi uma vingança, disse ele, que depois João Santana me explicaria melhor. Assunto: a democratização da mídia. Essa conversa com João Santana jamais ocorreu.
CC: E o próximo livro?
PHA: Estou começando a escrever outro, chama-se Não me Calaram. É a história das minhas batalhas judiciais, porque fui processado tantas vezes, qual é a origem de cada um dos processos.
CC: Ali se falará também do colega Attuch?
PHA: Eu acho que esse rapaz fugiu do Brasil, depois de aparecer na Lava Jato, em uma situação muito complicada. Então talvez esteja velejando entre a Córsega e a Sardenha, que é o roteiro agora da preferência do Fernando Henrique Cardoso.
CC: Com o iate de quem?
PHA: Suspeito que seja de um brasileiro chamado Jovelino. Ele tem um apartamento na Avenue Foch, em Paris, que o Fernando Henrique usa com muita frequência. Jovelino Mineiro, que foi quem ficou com a fazenda do Fernando Henrique em Minas Gerais.
CC: No livro, você fala muito de outro colega, Paulo Francis.
PHA: Ele foi meu colega na TV Globo, em Nova York. Naquela época colunista da Folha de S.Paulo, cobria a negociação da dívida externa. E a Folha dava seguidas manchetes graças a ele. Dizia Francis: “Eu estive com um banqueiro, banqueiro!” O banqueiro com quem ele conversava, eu revelo no livro, é outro colega, o Pimenta Neves, o que matou a namorada. O Pimenta era um personagem subalterno do departamento de imprensa do Banco Mundial, onde militava contra o Brasil. O banqueiro do Francis era o Pimenta. Ou então o Régis, um produtor no escritório da Globo que entendia muito de futebol americano.
Ele ia às coletivas dos comitês dos bancos e ouvia aqueles negócios de subprime e CAP, aquela linguagem de banqueiros, e de volta cuspia aquilo tudo de uma forma desorganizada. E o Francis: “Estive hoje nos comitês dos bancos credores”. Mas falo de mais colegas. No livro apresento o que chamo de lista de Schindler ao contrário. É o seguinte: no dia 2 de abril de 1964, Roberto Marinho fez um editorial no Globo, dizendo: Ressurge a Democracia. Poucos dias depois, ele publica a lista de Schindler ao contrário. É a relação dos intelectuais que tinham acabado de assinar um manifesto a favor de Jango e Roberto Marinho pede a ação da polícia para impedir a propagação das ideias daqueles homens. Ali estavam Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Paulo Francis etc. etc. Iam ser cremados na Auschwitz de Roberto Marinho.
CC: Alberto Dines não figurava?
PHA: Alberto Dines escreveu um livro memorável que ilustra a literatura política brasileira, enaltecendo o golpe de 64: Os Idos de Março. Título de uma originalidade acachapante.
CC: E agora, como anda o Brasil?
PHA: O Brasil vai viver mais três anos e meio deste governo alquebrado, desfigurado, e a direita vai perder de novo em 2018. Ou é Lula, ou quem ele apoiar. Lula é o árbitro.
CC: Dá para extrair algumas lições importantes dessas marchas todas, sobretudo a do dia 16?
PHA: Olha, Mino, um político carioca, aliás, eu não concordo muito com as ideias dele, mas que teve uma frase muito boa: “O PT tirou a direita do armário”. A direita ficava escondida no armário, não se assumia, era feio dizer que se era de direita, e agora é isso aí. Então, essa última marcha é igual a todas as outras.
CC: Você disse que teve muita dificuldade para publicar este livro, foi isso?
PHA: Eu fiz uma primeira versão, ofereci a seis editores, que não gostaram da ideia, porque provavelmente mexe com Roberto Marinho, e aqui no Brasil só há quatro ou cinco cidadãos que peitam Roberto Marinho. Eu sou do tempo em que a gente anotava à mão. Há anotações muito interessantes. Uma a respeito de Fernando Henrique em visita oficial aos EUA. No último dia, no saguão principal da sala de convenções do hotel em que se hospedava, ele deu uma entrevista coletiva.
Ao centro da mesa, à sua direita, Antonio Carlos Magalhães, presidente das Comissões de Relações Exteriores do Senado, à sua esquerda Franco Montoro, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara. E aí Eliane Cantanhêde pediu que FHC comentasse a declaração de seu ministro Sérgio Motta, divulgada naquele dia na imprensa brasileira , sobre o Programa Comunidade Solidária, de dona Ruth Cardoso, a primeira-dama.
Sérgio Motta havia dito: “Essa masturbação sociológica me irrita”. Fernando Henrique rodou, rodou, rodou, não disse nada, e a coletiva acabou. A caminho da saída, aproximei-me de ACM e comentei: “Ele não defendeu a mulher”. Aí o ACM, em tom mais elevado para que os jornalistas ouvissem: “Quem é do governo não pode criticar o governo”. Puxou-me pelo braço e me levou em direção à limusine. Já na porta ele recua e diz no meu ouvido: “Você sabe qual é a relação do Serjão com ele, não? É de cafetão”.
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