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terça-feira, 5 de novembro de 2019

Livro de defensor público sobre as manifestações 2013 apropriadas pela Direita, Operação Lava Jato, Fanatismo, Fake News, Bolsonarismo, Neofascismo e crise política no Brasil é lançado na Bienal em Maceió



"Fanatismo e Manipulação: o esquema da nova colonização do Brasil”, do defensor público Othoniel Pinheiro, será lançado na 9ª Bienal do Livro em Maceió



Jornal GGN O Bolsonarismo, a Operação Lava Jato e o avanço da direita no Brasil são alguns temas incluídos no livro “Fanatismo e Manipulação: o esquema da nova colonização do Brasil”, que será lançado na 9ª Bienal do Livro em Maceió pelo defensor público Othoniel Pinheiro.
De acordo com a editora, o livro traz aspectos históricos e atuais para abordar a formação do reacionarismo no Brasil, a criminalização dos movimentos sociais, os programas policialescos de TV, o discurso de ódio, o fanatismo político, as manifestações de rua em 2013, a demonização da política, a derrota de Aécio Neves em 2014, o impeachment de 2016, o movimento Escola sem Partido, o avanço do obscurantismo religioso, a prisão de Lula, as fake news nas eleições de 2018, ativismo político do Judiciário.
O livro será lançado no dia 5 de novembro na Bienal, no Armazém Usina (Jaraguá), e em palestra no dia seguinte, no Museu da Imagem e do Som, no Jaraguá.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Entre parologismos e sofismas, as falácias de Moro


180116-FaláciasB


Do Outras Palavras:

Principais estudiosos brasileiros de Lógica recomendam livro que disseca sentença do juiz contra Lula, identificando erros primários de raciocínio e intenção deliberada de iludir
Leia a íntegra do manifesto:
Está para ser lançado o livro Falácias de Moro: Análise Lógica da Sentença Condenatória de Luiz Inácio Lula da Silva, de autoria de Euclides Mance, filósofo, professor de Filosofia do Método Científico e de Lógica, ex-docente da Universidade Federal do Paraná e atualmente integrante da coordenação geral do Instituto de Filosofia da Libertação.
O livro, com 276 páginas, será lançado nos próximos dias pela Editora IFIBE, e já está disponível para acesso aqui.
A Lógica é a ciência que estuda a relação de consequência entre proposições, respondendo, assim também, por teorias da argumentação correta nos domínios da linguagem comum e científica. Ciências particulares terão seus conceitos próprios e regras para seus empregos adequados; mas, assim como seus cálculos têm de ser feitos com as regras da aritmética, seus argumentos precisam espelhar relações de consequência válidas, caso contrário serão apenas  instrumentos de uma retórica carente de racionalidade.  Uma sentença jurídica que pretenda ser justa não pode ignorar, assim, os requisitos da inferência válida e correta,  seja ela de natureza abdutiva, indutiva ou dedutiva.
Em seu livro, o professor Mance apresenta uma análise lógica, bem feita, sobre raciocínios e argumentos utilizados pelo juiz Sérgio Moro no corpo da sentença por ele emitida, relativa ao processo em que o ex-presidente Lula figura como réu no caso do apartamento triplex do Guarujá. O filósofo estuda, detalhadamente, a longa sentença – que pretende  provar a culpa do réu e justificar sua condenação – mostrando que o emprego de diversas inferências falaciosas desqualifica as conclusões obtidas.
Nas Considerações Iniciais, o autor, de forma didática, apresenta a definição do conceito de falácia – erro de raciocínio, argumento sem  garantia formal de que a conclusão decorre das premissas; e apresenta algumas noções lógicas básicas, como a de condicional e bicondicional, discutindo quando uma condição é necessária, quando é suficiente, e quando é necessária e suficiente. O domínio do significado destas noções, entre outras, é fundamental, para quem pretende derivar corretamente conclusões a partir de hipóteses ou de premissas verdadeiras.
Mance lembra ainda que, quando cometida de forma involuntária, a falácia se classifica como ‘paralogismo’, mas quando implantada de forma proposital em um raciocínio, visando confundir o interlocutor, é dita um ‘sofisma’. Os sofistas eram professores e intelectuais itinerantes que frequentavam Atenas e outras cidades gregas na segunda metade do quinto século a.C., ensinando a arte de influenciar pessoas através da persuasão retórica. A partir daí, há 25 séculos, sofismar tem sido entendido como procurar influenciar cidadãos, na política e em outras áreas, através de persuasão enganosa.
Na sequência, o livro se divide em duas partes.
Na primeira parte, são discutidos dez trechos da sentença condenatória, onde o autor encontra, e analisa com propriedade, falácias de vários tipos: Apelo à Crença Comum; Circularidade; Argumentum ad HominemNon Sequitur; Apelo à Presciência, ou Falácia dos Mundos Possíveis; Apelo à Possibilidade; Equivocação; Inversão do Ônus da Prova.
Na segunda parte, o filósofo aprofunda sua análise sobre as implicações das falácias discutidas e sobre como elas se articulam na argumentação do juiz para justificar a condenação.
Professores universitários e pesquisadores na área de Lógica, decidimos manifestar publicamente nosso apoio e concordância com a análise e conclusões do colega Euclides Mance. Com efeito, estamos convencidos de que Mance demonstra, com perspicácia e competência, que o juiz Sérgio Moro incorreu em inúmeros erros lógicos no conjunto de raciocínios e argumentações, cometeu equívocos em aplicações de regras de inferência lógica, além de ter várias vezes assumido hipóteses e premissas sem critério de veracidade. Em suma, a sentença do juiz nos surpreende e nos assombra, enquanto profissionais, com a série de argumentos inaceitáveis que apresenta.
É na condição de membros da comunidade de uma área do conhecimento em que o Brasil se destaca no cenário acadêmico internacional que acreditamos ser dever nosso, como cidadãos e profissionais, contribuir com a Justiça de nosso país, visando prevenir que quaisquer réus venham a sofrer condenações injustas, baseadas em conclusões de argumentos, cuja fragilidade, fartamente denunciada desde a antiguidade grega, é amplamente conhecida.
Abílio Rodrigues Filho, doutor em Filosofia e professor de Lógica no Departamento de Filosofia, UFMG
Adolfo Gustavo Serra Seca Neto, doutor em Ciência da Computação, USP, e professor associado no Departamento Acadêmico de Informática, UTFPR
Alexandre Costa-Leite, doutor em Filosofia, Université de Neuchâtel, Suíça e professor de Lógica e Filosofia, UnB
Alexandre Noronha, doutor em Filosofia, UFRGS e professor no Departamento de Filosofia, USP
André Leclerc, doutor em Filosofia, Universidade do Quebec e professor Associado no Departamento de Filosofia, UnB
Andréa Maria Altino de Campos Loparic, doutora em Lógica e Filosofia da Ciência, UNICAMP, professora senior no Departamento de Filosofia, FFLCH-USP
Arley Ramos Moreno, doutor em Logica e Filosofia da Ciência, Université Aix-Provence, França, e professor titular em Filosofia da Linguagem, UNICAMP
Bento Prado de Almeida Ferraz Neto, doutor em Filosofia, USP, professor associado no Departamento de Filosofia, UFSCar
Cezar Mortari, doutor em Filosofia – Área de Lógica, Eberhard-Karls-Universität, Alemanha, e professor associado no Departamento de Filosofia, UFSC – presidente da Sociedade Brasileira de Lógica
Giovanni Queiroz, doutor em Lógica e Filosofia da Ciência, UNICAMP, professor associado no Departamento de Filosofia, UFPB
Gisele Dalva Secco, doutora em Filosofia, PUC-Rio, e professora adjunta no Departamento de Filosofia, UFRGS
Hércules de Araujo Feitosa, doutor em Lógica e Filosofia da Ciência, UNICAMP, e professor no Departamento de Matemática, FC-UNESP/Bauru UNESP
Iole de Freitas Druck, PhD em Lógica, Universidade de Montreal, professora senior no Departamento de Matemática, IME-USP
Itala Maria Loffredo D’Ottaviano, doutora em Matemática, UNICAMP, e professora titular no Departamento de Filosofia, IFCH-UNICAMP
João Vergílio Gallerani Cuter, doutor em Filosofia, USP, e professor livre docente  no Departamento de Filosofia, FFLCH-USP
Juliana Bueno-Soler, doutora em Filosofia-Área de Lógica, UNICAMP, e professora da Faculdade de Tecnologia, UNICAMP
Leandro Oliva Suguitani, doutor em Filosofia-ärea de Lógica, Unicamp, e professor Adjunto, Departamento de Matemática, UFBA
Luciano Vicente, doutor em Filosofia, USP, e professor no Departamento de Filosofia, UFJF
Luiz Carlos Pinheiro Dias Pereira, doutor em Filosofia, Universidade de Estocolmo, professor adjunto no Departamento de Filosofia, UERJ
Marcelo Esteban Coniglio, doutor em Matemática, USP, e professor titular no Departamento de Filosofia, IFCH-UNICAMP
Matias Francisco Dias, doutor em Filosofia, USP, professor titular no Departamento de Filosofia, UFPB
Ricardo Pereira Tassinari, doutor em Filosofia, UNICAMP, professor livre docente no Departamento de Filosofia, UNESP/Marília
Tiago Falkenbach, doutor em Filosofia, UFRGS, professor no Departamento de Filosofia, UFPR
Valéria de Paiva, doutora em Matemática, Universidade de Cambridge, Inglaterra, honorary research fellow, School of Computer Science, Universidade de Birmingham, Inglaterra
Wagner de Campos Sanz, doutor em Filosofia, UNICAMP, e professor da Faculdade de Filosofia, UFG
Walter Alexandre Carnielli, doutor em Matemática, UNICAMP, professor titular no Departamento de Filosofia, IFCH-UNICAMP

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Em livro, filósofo aponta falácias de Moro em sentença contra Lula. Por Miguel Martins


Euclides Mance identifica dezenas de equívocos lógicos de magistrado em peça que será julgada pelo TRF-4 em 24 de janeiro

Da Carta Capital:

Marcelo Camargo / Agência Brasil
Moro
Segundo o filósofo, Moro incorre em equívocos de raciocínio dos mais variados tipos
"As declarações de (Léo) Pinheiro Filho soam críveis", assinala Sergio Moro na sentença que condenou Lula a nove anos e meio de prisão, prestes a ser analisada em segunda instância pela Justiça. 
O magistrado diz não vislumbrar motivo para o delator do ex-presidente no processo do tríplex admitir "a prática de um crime de corrupção", no caso, o repasse de propina ao petista na forma do imóvel, e negar "o outro", relativo ao recebimento de vantagens ilícitas para o armazenamento do acervo presidencial.
"Caso sua intenção fosse mentir em Juízo em favor próprio e do ex-presidente, (Pinheiro) negaria ambos os crimes", conclui o magistrado. "Caso a intenção fosse mentir em Juízo somente para obter benefícios legais, afirmaria os dois crimes."
A argumentação do juiz pressupõe que a confirmação de um crime e a negação de outro permitem concluir pela veracidade da narrativa de Léo Pinheiro. Como a tese de Moro não pode ser verificada a partir do raciocínio lógico, sua conclusão pode ser considerada uma falácia de "apelo à crença", de acordo com o filósofo Euclides André Mance.
Assim como os desembargadores do TRF-4, que julgarão em segunda instância a condenação de Lula por corrupção e lavagem de dinheiro, o pesquisador debruçou-se sobre a sentença de Moro contra Lula. Em vez de avaliá-la do ponto de vista jurídico, seu objetivo foi identificar equívocos de raciocínio, ou argumentações sem consistência lógica (confira alguns exemplos). A falácia do apelo à crença é apenas um dos erros lógicos identificados pelo filósofo.
Integrante da coordenação geral do Instituto de Filosofia da Libertação e ex-professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), estado que abriga a força-tarefa da Lava Jato comandada pelo juiz, Mance está prestes a publicar o livro "Falácias de Moro", que estará disponível para compra no site da Editora IFIBE nas próximas semanas.
Na obra, o autor identifica dezenas de equívocos lógicos do magistrado na peça. O estudo não é uma abordagem jurídica ou mesmo política da sentença, mas uma verificação das conclusões do magistrado a partir de suas premissas.
Embora tenha sentido perjorativo no senso comum, uma falácia não é necessariamente um ato de má fé. Se for cometida sem intenção, lembra Mance, trata-se de um paralogismo. Quando realizada de forma proposital, é um sofisma. "Os defensores do autor da sentença, possivelmente, verão nessas falácias apenas paralogismos oriundos da análise lógica de um problema bastante complexo. Seus críticos poderão entendê-las como sofismas politicamente motivados", escreve o filósofo.
Mance diz que, ao ler a sentença de Moro, começou a perceber algumas inconsistências. "Lecionei lógica e filosofia da linguagem por alguns anos e percebi essas particularidades". O filósofo elaborou uma versão preliminar do estudo e solicitou a contribuição de outros professores de filosofia. Ele diz não ter parâmetros para avaliar se a sentença de Moro tem mais erros lógicos que a média das peças jurídicas no País. "É a primeira vez que analiso uma sentença, mas fiquei estarrecido".
Muitas das falácias identificadas estão relacionadas a erros de inconsistência ou equivocação, quando há duas afirmações excludentes sobre um mesmo fato. Para reconhecê-las, o filósofo teve de confrontar passagens que estão a centenas de parágrafos de distância.
Lula
Em seu estudo, o pesquisador notou que Moro trata o apartamento no Guarujá em certa passagem como um duplex, e mais à frente como um tríplex. A ambiguidade é importante, pois Moro afirma que já havia anotações sobre o tríplex em documentos de aquisição de direitos subscritos pela ex-primeira dama Marisa Letícia, quando na verdade o apartamento ainda era um duplex, diz Mance.
O filósofo lembra ainda da afirmação de Léo Pinheiro de que não havia contado a ninguém no interior da OAS sobre as ilicitudes relacionadas ao tríplex. Em seu depoimento, Agenor Medeiros, diretor da empreiteira, contradiz Pinheiro ao afirmar ter ouvido dele numa viagem que os prejuízos com o tríplex seriam abatidos de uma conta de propinas. "Isso revela que um dos dois, ou talvez ambos, tenham faltado com a verdade em juízo."
Conheça outras falácias identificadas por Mance em seu livro.
"Já foi me dito que era do presidente”: Falácia do apelo à crença comum
O primeiro equívoco lógico apontado pelo filósofo está relacionado à afirmação de Léo Pinheiro de que o apartamento no Guarujá era de fato de Lula. No depoimento a Moro, Pinheiro afirma: "Desde o dia em que me passaram para estudar os empreendimentos da Bancoop, já foi me dito que era do presidente Lula e de sua família, que eu não comercializasse e tratasse aquilo como uma coisa de propriedade do presidente".
Segundo Mance, o fato de Moro utilizar essa afirmação como evidência de que Lula era o destinatário do imóvel é uma falácia do argumento ad populum,ou de apelo à crença comum. Pinheiro afirma que "já foi me dito que era do presidente Lula", mas a sentença não elucida quem na OAS teria informado Pinheiro do esquema.
Assim, a forma argumentativa de Pinheiro aceita por Moro seria:
Se já foi me dito que o triplex era do presidente, então, o triplex era do presidente. 
A argumentação, diz o filósofo, é semelhante a afirmar que:
Se já foi me dito que um extraterrestre pousou em Varginha, então, um extraterrestre pousou em Varginha.
A Matéria de "O Globo": Falácia de circularidade
Na sentença, Moro cita como um elemento probatório de que o tríplex era de Lula uma matéria do jornal O Globo publicada em 2010. Na reportagem, intitulada "Caso Bancoop: triplex do casal Lula está atrasado", Lula e Marisa são apontados como donos de uma cobertura no Guarujá.
Mance lembra que Moro não questiona a veracidade da matéria jornalística publicada e a valoriza como elemento probatório. Segundo o filósofo, trata-se de uma falácia de circularidade, quando a premissa e a conclusão apresentam um círculo vicioso. A forma argumentativa de Moro, segundo o filósofo, é a seguinte:
A afirmação, publicada na matéria em 2010, de que o ex-presidente é proprietário do imóvel é elemento probatório de que o ex-presidente é proprietário do imóvel. Porque se ele não fosse proprietário do imóvel, não existiria essa afirmação na matéria em 2010
Mance argumenta que a falácia é semelhante à seguinte:
A afirmação, relatada na bíblia, de que Deus criou o mundo é elemento probatório de que Deus criou o mundo. Porque se Deus não tivesse criado o mundo não haveria essa afirmação relatada na bíblia.
“As reformas foram feitas por solicitação do ex-Presidente”: Falácia non sequitur
Leo Pinheiro
Segundo Mance, Moro incorre em falácias ao confiar na narrativa de Léo Pinheiro (Foto: Agência Câmara)
Uma das controvérsias do processo reside sobre Lula eMarisa terem solicitado reformas no imóvel. Segundo Mance, Moro considera que o fato de eles terem autorizado mudanças no apartamento constitui prova de sua propriedade sobre o imóvel. Mance considera esse argumento um falácia no sequitur, quando não há conexão entre as premissas e a conclusão. 
A forma argumentativa de Moro, segundo o filósofo, é:
Se alguém é proprietário de um imóvel, então aprova as reformas.
Ora, o ex-presidente aprova as reformas
Então ele é proprietário do imóvel.
De acordo com Mance, o argumento é falacioso pois não há uma relação necessária e suficiente entre autorizar reformas e ser o proprietário de um imóvel. A forma argumentativa de Moro permitiria também dizer que:
Se alguém é proprietário de um imóvel, então aprova as reformas.
Ora, o arquiteto, o engenheiro e o corpo de bombeiros aprovaram as reformas do imóvel.
Então, o arquiteto, o engenheiro e o corpo de bombeiros são proprietários do imóvel.
“Reformas não seriam pagas”: Falácia de apelo à presciência
Na sentença, Moro argumenta que os gastos das reformas do apartamento "não seriam pagos pelo ex-presidente e por sua esposa", mas seriam consumidas como vantagem indevida em um acerto de corrupção. Mance considera a argumentação falaciosa por utilizar o futuro do pretérito como tempo verbal. Segundo o autor, a afirmação "toma por fato acontecido o que era mera suposição do que poderia ser dar no futuro".
Moro acaba por confiar que Lula "não pagaria" as reformas, mas não tem conhecimento do futuro para saber se os custos ficariam a cargo do ex-presidente ou da OAS. É um argumento que considera apenas um cenário em meio a outros tantos possíveis. Na lógica, esse tipo de presciência sobre o futuro, diz Mance, costuma ser reservado apenas a entidades divinas. No âmbito da teologia, Deus é o único capaz de prever o futuro.
“Foi abatido nesse encontro de contas”: Falácia do argumentum ad hominem
Um dos pontos centrais da argumentação de Moro para condenar Lula reside na declaração de Pinheiro de que a diferença entre o preço do imóvel comprado pelo ex-presidente e Marisa em 2005 e o valor do tríplex reservado ao casal posteriormente teria sido abatido de uma conta de propinas.
Segundo Mance, Moro não investigou o destino do valor supostamente abatido das contas de propina, cerca de 800 mil reais, embora a própria sentença afirme que ele não foi gasto com as reformas. Além disso, o magistrado não comprova, segundo o filósofo, "a real ocorrência daquilo que é afirmado".
Ao tomar como verdadeiro algo que Pinheiro diz sem verificar, Moro incorre, segundo Mance, em uma falácia do tipo argumentum ad hominem, quando reputa-se a condição da pessoa, as circunstâncias em que se encontra ou a sua atitude para confirmar a validade do que ela afirma.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A catilinária aguda de Paulo Henrique, por Mino Carta e Sérgio Lirio



"Orgulho-me ao dizer que este é o primeiro livro capaz de tratar Roberto Marinho como ele há de ser tratado. Até agora, só houve livros que foram bajulação rasteira." Paulo Henrique Amorim

Seu País

A catilinária aguda de Paulo Henrique

por Mino Carta e Sergio Lírio — publicado 03/09/2015 - Do site da Carta Capital
Entrevista: um grande jornalista apresenta seu novo livro sobre a mídia nativa

Paulo Henrique Amorim, jornalista de longo curso aos 73 anos, provou seu farto talento no vídeo e no papel impresso. Primeiro correspondente de Veja em Nova York em 1968, editor de Economia da semanal anos depois, diretor de redação na Examequando ainda na Editora Abril, enfim diretor do Jornal do Brasil em tempos de vento favorável a bafejar a baronesa e seu genro Nascimento Brito. No vídeo, como diretor do escritório nova-iorquino da Globo, passou também pela Bandeirantes e agora surge na Record, enquanto produz o blog Conversa Afiada, de grande êxito. No momento,  cuida do lançamento do seu último livro, O Quarto Poder – Uma outra história. E é desta história que se fala na entrevista a seguir.
CartaCapital: Do alto da sua larga experiência, selecione as cinco figuras mais daninhas para o País, as mais negativas na história que você viveu, à parte ditadores, torturadores, políticos coniventes etc.
Paulo Henrique Amorim: A mais daninha, levando em consideração também a minha experiência pessoal, é Daniel Dantas. Porque ele conseguiu disseminar o câncer, ele contaminou o tecido de todo o sistema brasileiro, Judiciário, Legislativo e Executivo. Levando também uma boa parte dessa doença, dessa malignidade, ao jornalismo. Outro que eu elegeria é Fernando Henrique Cardoso, porque ele é um caso exemplar de hipocrisia, de tartufismo.
Ele tem o desplante de se transformar em um Catão, a despeito de sua biografia totalmente maculada. Ele saiu da Presidência da República sendo professor aposentado e funcionário público, dono de uma fazenda em Minas Gerais, e tem um imóvel em Higienópolis incompatível com a renda dele. Essa história de que se tornou um palestrante para cobrar 50 mil dólares por conferência, fora o jatinho da secretaria, do segurança, isso tudo pode ser uma boa maneira de lavar dinheiro.
Outra figura que considero nefanda é José Serra. Ele tem mais de 50 anos de vida pública e nunca teve uma ideia original. Não é engenheiro, não é economista, não é nada, é produto única e exclusivamente da poderosa blindagem que a mídia em São Paulo garantiu aos tucanos. Serra fugiu enquanto muitos outros ficaram por aqui para resistir e alguns foram para a luta armada. Do Chile, onde se asilou na Embaixada da Itália, casou-se com uma Allende, e acabou, por mecanismos que a gente não sabe até hoje, por parar na Universidade Cornell nos Estados Unidos.
CC: Serra teve alguma relação com Daniel Dantas?
PHA: Teve no processo da Privataria Tucana. A irmã de Daniel Dantas é, ou foi, sócia da filha de Serra em Miami, em uma empresa de lobby. Serra está envolvido em todas as atividades suspeitas realizadas pelo tucanato. Segundo depoimento do próprio FHC, foi quem levou o governo tucano a vender a Vale por um valor inferior ao que a empresa tinha em caixa. Agora reeleito senador, a primeira coisa que ele faz é propor a entrega da Petrobras.
CC: Vamos à quarta figura.
PHA: Roberto Marinho. Orgulho-me ao dizer que este é o primeiro livro capaz de tratar Roberto Marinho como ele há de ser tratado. Até agora, só houve livros que foram bajulação rasteira. Meu livro conta que a certa altura da minha carreira na Globo eu denunciei uma roubalheira perpetrada no Instituto Brasileiro do Café (IBC), reduto, aliás, de bandalheiras variadas. E denunciei uma delas, chamada Operação Patricia. Foi uma operação em que o IBC bancava uma cotação do café, e, se essa cotação caísse, os operadores de café não pagavam nada, era o IBC que pagava para eles. Uma safadeza descomunal.
Fiz a denúncia na minha coluna no Jornal da Globo. Uma vez eu disse a Roberto Marinho que tinha uma coluna no Jornal da Globo e ele retrucou: “A coluna não é sua, é do Globo”. Aquela foi apresentada por um repórter que fez a passagem de bloco da seguinte forma: “Paulo Henrique Amorim denuncia um roubo no IBC”.  Eu havia escrito rombo. Roberto Marinho mandou me chamar e pelo telefone me demitiu, porque eu não estava “adaptado ao jornalismo da Globo”. Depois eu soube que ele e um dos seus principais mentores, o Jorge Serpa, tinham interesse no IBC. Mais tarde, averiguei que Roberto Marinho recorrera ao SNI para saber quem tinha sido a minha fonte.
CC: E como se deu o desastre da TV Montecarlo?
PHA: Outra história do livro. Passo por uma entrevista que fiz com Bettino Craxi,
líder do socialismo italiano, que mais tarde seria abatido pela Operação Mãos Limpas. Craxi havia arrumado uma sinecura, passara a formulador da política da ONU para os países endividados, e eu estava fazendo um documentário sobre a dívida externa dos países emergentes. E lá fui, e o Bettino Craxi: “Ahhhh! Você trabalha na Globo! Ahhhh, aqueles meninos queriam enganar o Berlusconi, ma che ingenuità”. Acredita-se que Marinho perdeu ali 100 milhões de dólares...
CC: Falou-se, então, em 120 milhões...
PHA: É, por aí. Alguns dos principais assessores do ministro Dilson Funaro, tempo de Sarney, me contaram que o Roberto Marinho conseguiu do Banco do Brasil um empréstimo vultoso para cobrir a dívida contraída na aventura da Tele Montecarlo, de sorte a descontar os recursos correspondentes pelo dólar paralelo. A Tele Montecarlo saiu de graça para ele, por obra de governo Sarney.
CC: Mas o BNDES já fez coisas parecidas no tempo de FHC...
PHA: Vamos ver o quinto.  Um dos maiores cretinos com quem tropecei ao longo da minha breve carreira é um senhor chamado Roberto Civita. O livro documenta o papel de Roberto Civita na construção de um grande império que militou e milita até hoje contra o Brasil. Não é à toa que Brizola dizia: “Quantos passaportes tem o senhor Civita...” Ciro Gomes me contou, recentemente, que, depois de deixar o governo do Ceará, foi para Harvard por um ano sabático, na companhia do professor Mangabeira Unger.
Aí ele foi se candidatar à Presidência da República, estava muito bem nas pesquisas, até que o Serra o detonou. Enquanto ainda estava bem, Roberto Civita o chamou para jantar na casa dele. Logo a luz foi reduzida, Ciro conta que lhe pareceu ter aportado a uma boate, era para ter um clima mais íntimo. E Civita perguntou: “Você estudou em Harvard, não é isso?” Ciro respondeu que sim. “Então podemos falar em inglês?”, disse o anfitrião.
CC: Fale de Carlos Lacerda, com quem você conviveu em alguns momentos da sua vida.
PHA: Abri o escritório da Veja em Nova York, em 1968, coincidiu com a eleição à sucessão do Lyndon Johnson. Foi uma luta feroz entre Richard Nixon, que já tinha perdido para John Kennedy, e Hubert Humphrey, líder trabalhista democrata vice-presidente de Johnson, candidato de muito boas qualidades. E aí a revista Realidade contratou Carlos Lacerda para cobrir a eleição como enviado especial. Então, convivemos durante um mês. Àquela altura, a Abril estava nadando em dinheiro e eu pude me deslocar pelos Estados Unidos com Lacerda, e com Alfredo Machado, fundador da Editora Record, amicíssimo do ex-governador.
Conversamos muito, íamos a livrarias juntos, ele dizia que a melhor coisa do mundo era comprar livros, e me contou várias histórias. E aí no fim da campanha, mais ou menos quando já se sabia que Nixon ia ganhar, o quartel-general do republicano era no Waldorf-Astoria, onde outros momentos históricos se deram, como quando Fernando Henrique ganhou o prêmio de personalidade do ano, escolhido por brasileiros que ganham dinheiro a rodo em Nova York e uma vez por ano elegem o homem do ano. E aí os brasileiros vão para lá de smoking, todos eles falando português. Surge então um pequeno problema. Eles alugam o smoking, mas pensam que não é preciso alugar os sapatos. E aí o calçado destoa miseravelmente e denuncia o smoking alugado.
CC: Como foi a cerimônia do anúncio da vitória de Nixon?
PHA: Bem, fomos para uma grande sala do Waldorf, a Ballroom. De repente chega o assessor de imprensa de Nixon, um jovem chamado Ron Ziegler, e diz: “Mister Lacerda, o presidente quer vê-lo”. E aí leva Lacerda lá para cima, para que assista ao anúncio da vitória na suíte presidencial.
CC: E que tal o repórter Carlos Lacerda?
PHA: Incansável. Ótimo faro, ele tinha um fôlego igual ao meu, e àquela altura eu tinha 25 anos.
CC: Paulo Henrique, o que os aspirantes a Carlos Lacerda no Brasil atual
não entenderam de Carlos Lacerda? O que falta para eles?
PHA: Ele era muito sofisticado, leu muito, falava um inglês americano muito bom mesmo. Não sei como, pois nunca morou nos Estados Unidos, era um dom que ele tinha. Nasceu comunista, depois se tornou um líder de direita, um golpista, mas àquela altura ele estava na Frente Ampla, com Jango e Juscelino.
CC: Foi por isso que o Estadão acabou censurado, seguiu o Lacerda até o fim.
PHA: Eu evoco no livro um jantar com Lacerda no restaurante de um hotel suíço. No meio da conversa, eu disse que Jango mancava por causa de um tiro. Aí Lacerda falou: “Não, aquilo ali foi uma gonorreia mal curada”. Aí eu disse: “Mas como, governador?” E ele: “Eu sei, hoje sou amigo do homem”. E aí, emocionado, disse ter passado a admirar Jango, que o recebera em sua casa de Montevidéu, depois de tudo o que ele, Lacerda, fizera para desmoralizá-lo.
Toda essa cortesia exigia um caráter excepcional. Lacerda contou que, durante a visita, Jango chamou os filhos, João Vicente e Denise, para cumprimentar “o governador”. Lacerda já tinha cumprimentado dona Maria Teresa. Aí Jango disse aos filhos para ir lá dentro buscar os cadernos para mostrá-los a Lacerda, e disse: “Veja, governador, meus filhos estão aprendendo a ler em espanhol”. Bom, não é? Muito bom.
CC: Voltemos a Daniel Dantas. Por que continua impune?
PHA: Ele foi capaz de corromper todos os partidos. Acho que Dantas é a prova provada de que a democracia no Brasil é de fachada. Mas ainda ouviremos falar dele.
CC: Por quê?
PHA: Porque ele participou da Privataria Tucana, está comprovado. O livro de Rubens Valente demonstra de forma insofismável que ele tem uma participação decisiva nas decisões do ministro Gilmar Mendes, e que ele chantageou Fernando Henrique Cardoso, quando presidente. Ele manobrou Serra, como esclarece Valente. E chegou ao PT.
No livro de Rubens Valente surge também João Vaccari, na compra da Brasil Telecom pela Oi, e isso vai explodir. Porque a BrOi vai quebrar, e vai ter uma intervenção e o podre vai aparecer. E foi o PT que mudou a lei para a Brasil Telecom poder ser comprada pela Oi. Esses são os documentos da história. Lula mudou a composição da Anatel, Sarney indicou uma pessoa de sua confiança para a diretoria, e com isso mudou a jurisprudência da Anatel que permitiu a BrOi.
CC: E na verdade já era para DD ter aparecido no chamado “mensalão”.
PHA: Pois apareceu. Mas o ministro Barbosa sumiu com Dantas! Ele está no “mensalão” tucano, ele está no “mensalão” do PT, ele está em todos os mensalões, e continua operando.
CC: E o disco rígido do Opportunity, apreendido pela PF por ocasião da Operação Chacal?
PHA: Sim, durante a Operação Chacal. E teve uma decisão histórica da ministra Ellen Gracie, aquela de lábios delgados, que não deixou abrir o disco rígido, porque Daniel Dantas não é Daniel Dantas, mas Daniel Dantas. Isso, mais do que tudo, é um haicai, é um poema.  E Gilmar Mendes entrou para a história da magistratura universal porque ele deu em 48 horas dois HC cangurus para Dantas depois da Operação Satiagraha. 
O Dantas não é nada, é um pseudobanqueiro, porque o Opportunity não e um banco, Opportunity é um nome fantasia, começa por aí. Então, em 48 horas ele foi direto ao Supremo, passou por todas as instâncias inferiores e conseguiu dois HC. Já o ministro Joaquim Barbosa foi duríssimo com o biliardário Genoino, mas com o Dantas ele foi muito gentil. O Dantas está em toda parte. Uma capa histórica de CartaCapital disse tudo. E ele é ainda o dono do Brasil, mas isso estará em meu próximo livro. Este que estou publicando termina no dia da segunda eleição de Lula, quando o eleito me telefona para dar os parabéns por ter desvendado a maracutaia da edição do Jornal Nacional, foi uma vingança, disse ele, que depois João Santana me explicaria melhor. Assunto: a democratização da mídia. Essa conversa com João Santana jamais ocorreu.
CC: E o próximo livro?
PHA: Estou começando a escrever outro, chama-se Não me Calaram. É a história das minhas batalhas judiciais, porque fui processado tantas vezes, qual é a origem de cada um dos processos.
CC: Ali se falará também do colega Attuch?
PHA: Eu acho que esse rapaz fugiu do Brasil, depois de aparecer na Lava Jato, em uma situação muito complicada. Então talvez esteja velejando entre a Córsega e a Sardenha, que é o roteiro agora da preferência do Fernando Henrique Cardoso.
CC: Com o iate de quem?
PHA: Suspeito que seja de um brasileiro chamado Jovelino. Ele tem um apartamento na Avenue Foch, em Paris, que o Fernando Henrique usa com muita frequência. Jovelino Mineiro, que foi quem ficou com a fazenda do Fernando Henrique em Minas Gerais.
CC: No livro, você fala muito de outro colega, Paulo Francis.
PHA: Ele foi meu colega na TV Globo, em Nova York. Naquela época colunista da Folha de S.Paulo, cobria a negociação da dívida externa. E a Folha dava seguidas manchetes graças a ele. Dizia Francis: “Eu estive com um banqueiro, banqueiro!” O banqueiro com quem ele conversava, eu revelo no livro, é outro colega, o Pimenta Neves, o que matou a namorada. O Pimenta era um personagem subalterno do departamento de imprensa do Banco Mundial, onde militava contra o Brasil. O banqueiro do Francis era o Pimenta. Ou então o Régis, um produtor no escritório da Globo que entendia muito de futebol americano.
Ele ia às coletivas dos comitês dos bancos  e ouvia aqueles negócios de subprime e CAP, aquela linguagem de banqueiros, e de volta cuspia aquilo tudo de uma forma desorganizada. E o Francis: “Estive hoje nos comitês dos bancos credores”. Mas falo de mais colegas. No livro apresento o que chamo de lista de Schindler ao contrário. É o seguinte: no dia 2 de abril de 1964, Roberto Marinho fez um editorial no Globo, dizendo: Ressurge a Democracia. Poucos dias depois, ele publica a lista de Schindler ao contrário. É a relação dos intelectuais que tinham acabado de assinar um manifesto a favor de Jango e Roberto Marinho pede a ação da polícia para impedir a propagação das ideias daqueles homens. Ali estavam Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Paulo Francis etc. etc. Iam ser cremados na Auschwitz de Roberto Marinho.
CC: Alberto Dines não figurava?
PHA: Alberto Dines escreveu um livro memorável que ilustra a literatura política brasileira, enaltecendo o golpe de 64: Os Idos de Março. Título de uma originalidade acachapante.
CC: E agora, como anda o Brasil?
PHA: O Brasil vai viver mais três anos e meio deste governo alquebrado, desfigurado, e a direita vai perder de novo em 2018. Ou é Lula, ou quem ele apoiar. Lula é o árbitro.
CC: Dá para extrair algumas lições importantes dessas marchas todas, sobretudo a do dia 16?
PHA: Olha, Mino, um político carioca, aliás, eu não concordo muito com as ideias dele, mas que teve uma frase muito boa: “O PT tirou a direita do armário”. A direita ficava escondida no armário, não se assumia, era feio dizer que se era de direita, e agora é isso aí. Então, essa última marcha é igual a todas as outras.
CC: Você disse que teve muita dificuldade para publicar este livro, foi isso?
PHA: Eu fiz uma primeira versão, ofereci a seis editores, que não gostaram da ideia, porque provavelmente mexe com Roberto Marinho, e aqui no Brasil só há quatro ou cinco cidadãos que peitam Roberto Marinho. Eu sou do tempo em que a gente anotava à mão. Há anotações muito interessantes. Uma a respeito de Fernando Henrique em visita oficial aos EUA. No último dia, no saguão principal da sala de convenções do hotel em que se hospedava, ele deu uma entrevista coletiva.
Ao centro da mesa, à sua direita, Antonio Carlos Magalhães, presidente das Comissões de Relações Exteriores do Senado, à sua esquerda Franco Montoro, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara. E aí Eliane  Cantanhêde pediu que FHC comentasse a declaração de seu ministro Sérgio Motta, divulgada naquele dia na imprensa brasileira , sobre o Programa Comunidade Solidária, de dona Ruth Cardoso, a primeira-dama.
Sérgio Motta havia dito: “Essa masturbação sociológica me irrita”. Fernando Henrique rodou, rodou, rodou, não disse nada, e a coletiva acabou. A caminho da saída, aproximei-me de ACM e comentei: “Ele não defendeu a mulher”. Aí o ACM, em tom mais elevado para que os jornalistas ouvissem: “Quem é do governo não pode criticar o governo”. Puxou-me pelo braço e me levou em direção à limusine. Já na porta ele recua e diz no meu ouvido: “Você sabe qual é a relação do Serjão com ele, não? É de cafetão”. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

As relações de Fernando Henrique Cardoso com a CIA e a Espionagem americana no Brasil com a cumplicidade da grande mídia são discutidos em vídeo de Bob Fernandes e em livro da escritora investigativa Frances Stonor Saunders




  Segue vídeo (com sua trascrição textual) de julho de 2013, onde o comentarista político Bob Fernandes discute a Espionagem da CIA, FBI, DEA, NSA...e o silêncio no Brasil na era FHC, seguido do registro do lançamento do livro de Frances Stonor Saunders que demonstra o envolvimento de Fernando Henrique Cardoso com a CIA e os interesses do governo norte-americano (já confirmando pelos documentos repassados por Edward Snowden e Glenn Greenwald), e que já se esgotou em algumas livrarias:


  O ex-presidente Fernando Henrique diz: "Nunca soube de espionagem da CIA" no Brasil. O governo atual cobra explicações dos Estados Unidos, e a presidente Dilma trata do assunto com a cúpula do Mercosul no Uruguai. O Congresso envia protesto formal ao governo de Obama.

  Vamos aos fatos. Entre Março de 99 e abril de 2004, publiquei 15 longas e detalhadas reportagens na revista Carta Capital. Documentos, nomes, endereços, histórias provavam como os Estados Unidos espionavam o Brasil.


  Documentos bancários mostravam como, no governo FHC, a DEA, que combate o tráfico de drogas, pagava operações da Polícia Federal. Depositava na conta de delegados. Tempo em que a PF não tinha orçamento para bancar todas operações.


  A CIA, via Departamento de Estado, pagou uma base eletrônica da PF em Brasília, até os tijolos.Para trabalhar nessa base, até o inicio da gestão do delegado Paulo Lacerda, agentes e delegados da PF eram submetidos ao detector de mentiras nos EUA. Em hotéis em Washington.


  Isso até que viessem a gestão do ministro Marcio Thomas Bastos e do delegado Paulo Lacerda e orçamento adequado. Essa base na PF chamava-se CDO. Publicadas as reportagens, tornou-se SOIP, depois COE. Hoje é a DAT, Divisão Antiterrorismo.


 Chefiou o FBI no Brasil por 4 anos. Em entrevista de 17 páginas, revelou: serviços de inteligência dos EUA haviam grampeado o Itamaraty. Empresas eram espionadas. Nem o Palácio da Alvorada escapou.


  Pelo menos 16 serviços secretos dos EUA operavam no Brasil. Às segundas-feiras, essas agências realizavam a "Reunião da Nação", na embaixada, em Brasília.


  Tudo isso foi revelado com riqueza de detalhes: datas, nomes, endereços, documentos, fatos. Em Abril de 2004,publicamos os nomes daqueles que, disfarçados de diplomatas, como é habitual, chefiavam CIA, DEA, NSA e demais agências no Brasil.


  Chellotti, diretor da PF, caiu depois de reportagem, em março de 99. Isso no governo de FHC, que diz desconhecer ações da CIA. Renan Calheiros, seu ministro da Justiça, foi convocado pelo congresso. Em público, se esquivou. A mim, disse: "Isso é assim mesmo, é do jogo".



 Carlos Costa, que chefiara o FBI no Brasil, foi ouvido em sessão secreta do Congresso, já em 2004. E confirmou tudo o que dissera na entrevista. Sobre a presença do seu FBI, da CIA, DEA, NSA, e sobre a espionagem em geral.


  Tudo isso sob quase absoluto e estrondoso silêncio. Um silêncio assustador à época. Tão assustador quanto a suposta perplexidade ao "descobrir", só agora, que os Estados Unidos, e não apenas eles, espionam o Brasil e o mundo. 



Livro que relata envolvimento de FHC com a CIA esgota edição

Artigo extraído do Portal Metrópole:





  FHC é citado por três jornalistas quanto ao seu envolvimento com a espionagem dos EUA

Por Redação - do Rio de Janeiro

 Está esgotado nas duas maiores livrarias do Rio o livro da escritora Frances Stonor Saunders "Quem pagou a conta? A CIA na Guerra Fria da cultura", no qual o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é acusado, frontalmente, de receber dinheiro da agência norte-americana de espionagem, para ajudar os EUA a “venderem melhor sua cultura aos povos nativos da América do Sul”. O exemplar, cujo preço varia de R$ 72 a R$ 75,00, leva entre 35 e 60 dias para chegar ao leitor, mesmo assim, de acordo com a disponibilidade no estoque. O interesse sobre a obra da escritora e ex-editora de Artes da revista britânica The New Statesman, no Brasil, pode ser avaliado ao longo dos cinco anos de seu lançamento.

 Quem pagou a conta?, segundo os editores, recebeu “uma ampla cobertura pela mídia quando foi lançado no exterior, em 1999. Na obra, Frances Stonor Saunders narra em detalhes como e por que a CIA, durante a Guerra Fria, financiou artistas, publicações e intelectuais de centro e centro-esquerda, num esforço para mantê-los distantes da ideologia comunista. Cheia de personagens instigantes e memoráveis, entre eles o ex-presidente brasileiro, “esta é uma das maiores histórias de corrupção intelectual e artística pelo poder”.

 “Não é segredo para ninguém que, com o término da Segunda Guerra Mundial, a CIA passou a financiar artistas e intelectuais de direita; o que poucos sabem é que ela também cortejou personalidades de centro e de esquerda, num esforço para afastar a intelligentsia do comunismo e aproximá-la do American way of life. No livro, Saunders detalha como e por que a CIA promoveu congressos culturais, exposições e concertos, bem como as razões que a levaram a publicar e traduzir nos Estados Unidos autores alinhados com o governo norte-americano e a patrocinar a arte abstrata, como tentativa de reduzir o espaço para qualquer arte com conteúdo social. Além disso, por todo o mundo, subsidiou jornais críticos do marxismo, do comunismo e de políticas revolucionárias. Com esta política, foi capaz de angariar o apoio de alguns dos maiores expoentes do mundo ocidental, a ponto de muitos passarem a fazer parte de sua folha de pagamentos”.

  As publicações Partisan Review, Kenyon Review, New Leader e Encounter foram algumas das publicações que receberam apoio direto ou indireto dos cofres da CIA. Entre os intelectuais patrocinados ou promovidos pela CIA, além de FHC, estavam Irving Kristol, Melvin Lasky, Isaiah Berlin, Stephen Spender, Sidney Hook, Daniel Bell, Dwight MacDonald, Robert Lowell e Mary McCarthy, entre outros. Na Europa, havia um interesse especial na Esquerda Democrática e em ex-esquerdistas, como Ignacio Silone, Arthur Koestler, Raymond Aron, Michael Josselson e George Orwell.

 O jornalista Sebastião Nery, em 1999, quando o diário conservador carioca Tribuna da Imprensa ainda circulava em sua versão impressa, comentou em sua coluna que não seria possível resumir a obra em tão pouco espaço: “São 550 páginas documentadas, minuciosa e magistralmente escritas”, afirmou.

Dinheiro para FHC

 “Numa noite de inverno do ano de 1969, nos escritórios da Fundação Ford, no Rio, Fernando Henrique teve uma conversa com Peter Bell, o representante da Fundação Ford no Brasil. Peter Bell se entusiasma e lhe oferece uma ajuda financeira de US$ 145 mil. Nasce o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)”. Esta história, que reforça as afirmações de Saunders, está contada na página 154 do livro Fernando Henrique Cardoso, o Brasil do possível, da jornalista francesa Brigitte Hersant Leoni (Editora Nova Fronteira, Rio, 1997, tradução de Dora Rocha). O “inverno do ano de 1969″ era fevereiro daquele ano.
 Há menos de 60 dias, em 13 de dezembro, a ditadura militar havia lançado o AI-5 e elevado ao máximo o estado de terror após o golpe de 64, “desde o início financiado, comandado e sustentado pelos Estados Unidos”, como afirma a autora.

  Centenas de novas cassações e suspensões de direitos políticos estavam sendo assinadas. As prisões, lotadas. O ex-presidente Juscelino Kubitcheck e o ex-governador Carlos Lacerda tinham sido presos. Enquanto isso, Fernando Henrique recebia da poderosa e notória Fundação Ford uma primeira parcela para fundar o Cebrap. O total do financiamento nunca foi revelado. Na Universidade de São Paulo, por onde passou FHC, era voz corrente que o compromisso final dos norte-americanos girava em torno de US$ 800 mil a US$ 1 milhão.

Segundo reportagem publicada no diário russo Pravda, um ano após o lançamento do livro no Brasil, os norte-americanos “não estavam jogando dinheiro pela janela”.

  “Fernando Henrique já tinha serviços prestados. Eles sabiam em quem estavam aplicando (os dólares)”. Na época, FHC lançara com o economista chileno Faletto o livro Dependência e desenvolvimento na América Latina, em que ambos defendiam a tese de que países em desenvolvimento ou mais atrasados poderiam desenvolver-se mantendo-se dependentes de outros países mais ricos. Como os Estados Unidos”. A cantilena foi repetida por FHC, em entrevista concedida ao diário conservador paulistano Folha de S. Paulo, na edição da última terça-feira, a última de 2013.

 Com a cobertura e o dinheiro dos norte-americanos, FHC tornou-se, segundo o Pravda, “uma ‘personalidade internacional’ e passou a dar ‘aulas’ e fazer ‘conferências’ em universidades norte-americanas e européias. Era ‘um homem da Fundação Ford’. E o que era a Fundação Ford? Uma agente da CIA, um dos braços da CIA, o serviço secreto dos EUA”.

Principais trechos da pesquisa de Saunders:


 1 – “A Fundação Farfield era uma fundação da CIA… As fundações autênticas, como a Ford, a Rockfeller, a Carnegie, eram consideradas o tipo melhor e mais plausível de disfarce para os financiamentos… permitiu que a CIA financiasse um leque aparentemente ilimitado de programas secretos de ação que afetavam grupos de jovens, sindicatos de trabalhadores, universidades, editoras e outras instituições privadas” (pág. 153).

2 – “O uso de fundações filantrópicas era a maneira mais conveniente de transferir grandes somas para projetos da CIA, sem alertar para sua origem. Em meados da década de 50, a intromissão no campo das fundações foi maciça…” (pág. 152). “A CIA e a Fundação Ford, entre outras agências, haviam montado e financiado um aparelho de intelectuais escolhidos por sua postura correta na guerra fria” (pág. 443).

3 – “A liberdade cultural não foi barata. A CIA bombeou dezenas de milhões de dólares… Ela funcionava, na verdade, como o ministério da Cultura dos Estados Unidos… com a organização sistemática de uma rede de grupos ou amigos, que trabalhavam de mãos dadas com a CIA, para proporcionar o financiamento de seus programas secretos” (pág. 147).
4 – “Não conseguíamos gastar tudo. Lembro-me de ter encontrado o tesoureiro. Santo Deus, disse eu, como podemos gastar isso? Não havia limites, ninguém tinha que prestar contas. Era impressionante” (pág. 123).

5 – “Surgiu uma profusão de sucursais, não apenas na Europa (havia escritorios na Alemanha Ocidental, na Grã-Bretanha, na Suécia, na Dinamarca e na Islândia), mas também noutras regiões: no Japão, na Índia, na Argentina, no Chile, na Austrália, no Líbano, no México, no Peru, no Uruguai, na Colômbia, no Paquistão e no Brasil” (pág. 119).

6 – “A ajuda financeira teria de ser complementada por um programa concentrado de guerra cultural, numa das mais ambiciosas operações secretas da guerra fria: conquistar a intelectualidade ocidental para a proposta norte-americana” (pág. 45).

 Espionagem e dólares

 Não há registros imediatos de que o ex-presidente tenha negado ou admitido as denúncias constantes nos livros de Sauders e Leoni. Em julho do ano passado, no entanto, o jornalista Bob Fernandes, apresentador da TV Gazeta, de São Paulo, publicou artigo no qual repassa o envolvimento do ex-presidente com os serviços de espionagem dos EUA, sem que tivesse precisado, posteriormente, negar uma só palavra do que disse. Segundo Fernandes, “o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diz que ‘nunca soube de espionagem da CIA’ no Brasil. O governo atual cobra explicações dos Estados Unidos”.

  “Vamos aos fatos. Entre março de 1999 e abril de 2004, publiquei 15 longas e detalhadas reportagens na revista CartaCapital. Documentos, nomes, endereços, histórias provavam como os Estados Unidos espionavam o Brasil.Documentos bancários mostravam como, no governo FHC, a DEA, agência norte-americana de combate ao tráfico de drogas, pagava operações da Polícia Federal. Chegava inclusive a depositar na conta de delegados. Porque aquele era um tempo em que a PF não tinha orçamento para bancar todas operações e a DEA bancava as de maiores dimensão e urgência”, garante Fernandes.

  Ainda segundo o jornalista, o mínimo de “16 serviços secretos dos EUA operavam no Brasil. Às segundas-feiras, essas agências realizavam a ‘Reunião da Nação’, na embaixada, em Brasília”.

  Bob Fernandes, que foi redator-chefe de CartaCapital, trabalhou nas revistas IstoÉ (BSB e EUA) e Veja, foi repórter da Folha de S.Paulo e do Jornal do Brasil, afirma ainda que “tudo isso foi revelado com riqueza de detalhes: datas, nomes, endereços, documentos, fatos. Em abril de 2004, com a reportagem de capa, publicamos os nomes daqueles que, disfarçados de diplomatas, como é habitual, chefiavam CIA, DEA, NSA e demais agências no Brasil. Vicente Chellotti, diretor da PF, caiu depois da reportagem de capa Os Porões do Brasil, de 3 de março de 1999. Isso no governo de FHC, que agora, na sua página no Facerbook, disse desconhecer ações da CIA no país”.