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quinta-feira, 16 de julho de 2020

Desesperado pelo aumento da sua rejeição pública e com a possibilidade de Trump perder as Eleições nos EUA, Bolsonaro quer ir à Guerra contra Venezuela para reverter o quadro. Artigo do jornalista José Reinado de Carvalho




Governo Bolsonaro quer ir à guerra contra a Venezuela



   "O texto da Nova Política de Defesa será oficialmente apresentado ao Conselho de Defesa, em reunião no Palácio do Planalto, com a presença dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, e, em seguida, enviado ao Congresso, no próximo dia 22. Vale uma interpelação parlamentar, um amplo debate sobre o tema, a contestação das diretrizes belicistas que contém e a mobilização da sociedade em nome da paz", escreve o jornalista José Reinaldo Carvalho, editor internacional do Brasil 247

Donald Trump, Jair Bolsonaro e Nicolas Maduro
Donald Trump, Jair Bolsonaro e Nicolas Maduro (Foto: PR | Reuters)


Por José Reinaldo Carvalho, do Jornalistas pela Democracia - O Brasil foi surpreendido nesta quinta-feira, 16 de julho, com a notícia de que o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro e as Forças Armadas estão elaborando uma nova política de defesa que incorpora a possibilidade de guerra contra países vizinhos. O texto não menciona o alvo, mas o contexto demonstra que se trata de uma trama, mancomunada com o imperialismo estadunidense, para atacar a Venezuela. 
Trata-se de uma mudança chocante de orientação, porquanto documentos anteriores elaborados sob a coordenação do Ministério da Defesa traçando linhas para a atuação das armas nacionais, suas relações com a política externa e os objetivos permanentes do Estado nacional - documentos que no período dos governos progressistas se aperfeiçoaram como peças democráticas e expressão da soberania - foram concebidos com uma visão defensiva e solidária com o entorno geográfico do Brasil. 
Ressalvadas algumas situações históricas peculiares, em que vigoraram concepções militares de aliança com o inimigo da pátria, vinculação com a Escola das Américas estadunidense e a visão de segurança hemisférica e guerra fria, a tradição brasileira sempre foi a defesa da paz na região, sobretudo na América do Sul. 
Nos tempos republicanos, em apenas uma ocasião, em 1965, o Brasil praticou o desonroso ato de enviar tropas a outro país, a República Dominicana, obedecendo aos desígnios dos Estados Unidos. Pouco mais de uma década antes, houve a tentativa malograda de enviar tropas à guerra na Coreia, o que suscitou uma campanha nacional em sentido contrário, dirigida pelo Partido Comunista do Brasil.  
Em tempos mais recentes, quando as preocupações estratégicas e militares incorporaram também um sentido de coordenação externa, o signo era positivo e progressista. Foi quando o Brasil se somou ao apelo de nações fraternas do subcontinente e constituiu, em 15 de dezembro de 2008, o Conselho de Defesa Sul-Americano, na cúpula extraordinária da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Aquele Conselho foi auspiciado também pela Venezuela chavista. Oficialmente, foi brasileira a proposta de sua criação, após o exame com a Venezuela e outros parceiros de variantes como por exemplo a Organização do Tratado do Atlântico Sul (Otas), uma das propostas em debate, para caracterizar o antagonismo com o braço armado do imperialismo, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).  
Meses antes, em abril de 2008, em visita à Venezuela bolivariana, o então ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim, disse que o Conselho Sul-americano de Defesa, "se limitará à integração em temas de defesa e não assumirá um caráter militar operacional na solução de conflitos". (BBCBrasil). 
"Segundo Jobim" - prossegue o despacho da jornalista Claudia Jardim para a BBCBrasil - "o projeto não destoa da proposta do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que propunha a criação de uma Organização do Tratado do Atlântico Sul (Otas) para servir de contraponto à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)".
“Não há nenhuma pretensão operacional neste Conselho, e sim a necessidade de uma integração em questões de treinamento e de um conselho integral de defesa”, disse Jobim. 
A informação é preciosa também para lembrar o espírito de independência que animava a proposta:  “Não temos nenhuma obrigação de pedir licença para os Estados Unidos para fazer isso”, afirmou o ministro.
Um mês antes da visita à Venezuela, onde o ministro brasileiro se reuniu longamente com o Comandante revolucionário Hugo Chávez, o secretário de Defesa norte-americano, Robert Gates, questionou Jobim sobre como os Estados Unidos poderiam contribuir com o Conselho. O ministro civil brasileiro respondeu: "por enquanto, a colaboração que os senhores podem fazer neste momento é ficar à distância''.
Talvez por isso, os generais que participaram da cogestão do golpe de 2016, respaldaram o governo Temer e hoje mantêm relação simbiótica com o governo de extrema direita de Bolsonaro nunca tenham dado importância ao Conselho Sul-americano de Defesa e prefiram nomear oficiais de alta patente para o Comando Sul estadunidense, com soldo pago aqui. Na semana passada, o secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, disse que “novamente, brasileiros pagando para um general brasileiro vir aqui e trabalhar para mim para fazer diferença em segurança” (Folha de S.Paulo) . Mas isto é outra história.
O que importa discutir aqui e agora é o sentido da mudança operada na Política Nacional de Defesa e a ameaça velada de guerra à Venezuela. 
É uma mudança importante também se temos em consideração os princípios da política de paz adotados pela Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), à qual o Brasil não somente aderiu como foi um dos artífices de sua criação. Em 29 de janeiro de 2014, o Brasil foi signatário da Declaração de Havana, na Segunda  Cúpula da Celac, como se pode constatar nos arquivos do Itamaraty. No ponto 53 da Declaração escreve-se: "Nos comprometemos a seguir trabajando para consolidar a América Latina y el Caribe como Zona de Paz, en la cual las diferencias entre las naciones se resuelvan a través del diálogo y la negociación u otras formas de solución pacífica establecidas en el Derecho Internacional".
Os comandos castrenses ainda não tinham transposto o Rubicão de propor oficialmente a associação do Brasil a aventuras militares dos EUA, como fazem subliminarmente agora com a nova Política Nacional de Defesa.
Foi a partir da campanha eleitoral de 2018 e depois da posse de Bolsonaro, que o Brasil passou a visar a Venezuela como alvo de eventual intervenção militar. No início de seu governo, Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, se expuseram ao ridículo de participar de uma contrafação de entrega de ajuda "humanitária" à Venezuela, em conluio com a embaixada estadunidense e representantes do golpista Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino do país bolivariano. Araújo apequenou o Itamaraty indo pessoalmente até a fronteira, participando da ação. 
Aqueles dias tensos estão frescos em nossa memória e ainda soam fortes as ameaças dos bolsonaristas de intervir militarmente no país vizinho, a que oficialmente o Exército se opôs. Naquela altura, os militares brasileiros sopesaram a situação. Olharam para o outro lado e perceberam que, embora vivendo uma situação socioeconômica difícil decorrente das sanções e boicotes, a Venezuela não descuidou da sua Defesa e dispõe de capacidade de combate. Os comandantes do Exército brasileiro devem ter considerado também as consequências nefastas de um esforço de guerra para a economia e a estabilidade nacional. Logo depois do malogro da operação "ajuda humanitária", o principal representante brasileiro na reunião do Grupo de Lima realizada em Bogotá em fevereiro de 2019 para discutir a questão venezuelana, não foi o chanceler Araújo, mas o general vice-presidente Hamilton Mourão, que mesmo defendendo uma linha política antidemocrática favorável à derrubada de Maduro, opôs-e à participação do Brasil em ações intervencionistas na vida política interna venezuelana, o que torna ainda mais chocante a formulação agora proposta para a Política Nacional de Defesa. 
O texto dessa nova política será oficialmente apresentado ao Conselho de Defesa, em reunião no Palácio do Planalto, com a presença dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, e, em seguida, enviado ao Congresso, no próximo dia 22. Vale uma interpelação parlamentar, um amplo debate sobre o tema, a contestação das diretrizes belicistas que contém e a mobilização da sociedade em nome da paz.  
O imperialismo estadunidense está em plena ofensiva continuada para golpear a Venezuela, derrocar seu governo por meio de um golpe ou mesmo da intervenção armada. O Brasil não pode nem deve associar-se a isto.
No mês de maio, os EUA enviaram mercenários à costa venezuelana. Em junho, realizaram uma operação militar naval nas águas territoriais venezuelanas a pretexto de combate ao narcotráfico. Durante esta semana, está em curso nova operação naval nas proximidades do litoral da Venezuela, com a alegação de defender a "liberdade de navegação" e prosseguir a caça a narcotraficantes. No último sábado (11), o presidente estadunidense Donald Trump, em pronunciamento na Flórida, disse que "algo muito sério vai acontecer na Venezuela e os EUA estarão muito envolvidos". O titular da Casa Branca também anatematizou o governo bolivariano como um "sistema horrível" e avisou que continuará apoiando líderes golpistas. 
Decerto, os Estados Unidos continuarão sua saga inglória de intentos de liquidar a revolução bolivariana. Este é o fio da história desde 1998, quando Chávez venceu a primeira eleição presidencial. Em 2002, os EUA instrumentalizaram o golpe de abril; na sequência e até 2003 insuflaram o "paro petrolero"; em 2004, depositaram esperanças no referendo revogatório; em todas as eleições presidenciais apostaram em candidatos da oligarquia e submissos a Washington; em 2014, promoveram as "Guarimbas"; em 2015 o presidente Obama emitiu uma ordem executiva sancionando o país sob a alegação de que representava uma "ameaça inusual à segurança nacional dos EUA". Desde o início de seu mandato Trump se ocupa em examinar "todas as opções à mesa". 
Já se vão mais de 20 anos desde que este pedaço da história começou. Tempos de uma encarniçada resistência, que foi nutrida por patriotismo, unidade,  espírito de luta do povo, internacionalismo latino-americano e preparação militar. Um pedaço da história, apenas um pedaço, que deita raízes longevas, no início do século 19, quando Simón Bolívar levantou sua espada. 
Com certeza, a Escola Superior de Guerra e as academias militares ensinam esta história. Mestres e alunos fardados sabem que a liderança venezuelana é constituída de gente desta estirpe, que caracterizou também figuras como José de Francia e Solano López. Com a única diferença de que a Venezuela do século 21 não é o Paraguai de 1870.
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quarta-feira, 12 de junho de 2019

"El Odio", um documentário arrasador sobre o (golp)impeachment, Lula e a eleição de Bolsonaro

"Assisti-lo desperta os sentimentos mais ambíguos, uma imensa vergonha do Brasil, dos deputados que votaram pelo impeachment, da tibieza do Supremo Tribunal Federal, do papel indecente da mídia no período"

Do GGN:






“El Odio”, um documentário arrasador, de Andrés Sal-lari, sobre o longo processo do impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro.
Assisti-lo desperta os sentimentos mais ambíguos, uma imensa vergonha do Brasil, dos deputados que votaram pelo impeachment, da tibieza do Supremo Tribunal Federal, do papel indecente da mídia no período.
A visão de animais urrando na Câmara, enquanto votavam pelo impeachment, o ar solene dos apresentadores do Jornal Nacional, transformando a pantomima do Power Point em denúncia escandalosa, todos esses pontos, quando reunidos em um documentário, traçam um quadro dantesco. E, no contraponto, o martírio de Lula. Sim, conseguiram erigir Lula ao panteão dos grandes mártires do século 20, para desgosto de Fernando Henrique Cardoso, que passará à história como o Salieri de folhetim.
Conseguiram o botim do momento, o poder. Com ele, o desmonte de qualquer forma de regulação, ambiental, social, controle de armas, de velocidade no trânsito.
Tudo isso em nome de uma bandeira empunhada por um juiz que atuava politicamente.
À medida em que os fatos vão sendo, finalmente, assimilados pela opinião pública, avalia-se a dimensão do estrago que a operação causou ao país. Nos próximos meses, essa conta será cobrada duramente de seus principais estimuladores.


sábado, 24 de dezembro de 2016

2016, o ano em que os imbecis venceram... Artigo de Moisés Mendes



Políticos, empresários, procuradores, juízes, jornalistas e outros que ainda contribuem para a imbecilização do país não sofreram nenhum constrangimento da força para aderir ao projeto de produzir idiotas. A linha de montagem da imbecilidade é civil.

Mas quem irá se arrepender da contribuição ao projeto para que o país seja idiotizado? Quem bateu panelas sabe hoje o que de fato pretendia? Ou seguiu um pato pela Avenida Paulista? Ou apoiou Janaína Paschoal, ou aplaudiu Lobão, ou considerou a hipótese de que a democracia poderia (como ainda pode) ser trocada por uma eleição indireta?

O ano em que os imbecis venceram

Foto: divulgação


O ano em que os imbecis venceram

Moisés Mendes, no Extra Classe


Em 1944, quando os nazistas deixaram a França, depois de mais de quatro anos de ocupação, perguntaram ao cineasta Jean Renoir como ele definiria aquele período. Renoir, que havia fugido do nazismo para os Estados Unidos, disse que muitos poderiam ver os franceses mais acovardados, mais amedrontados ou mais brutalizados. Mas ele, olhando de longe, achava que os franceses estavam mesmo mais imbecis pela ação ou omissão de intelectuais, jornalistas e artistas.
Daqui a alguns anos, poderemos fazer a mesma pergunta, não aos outros, mas a nós mesmos, sobre o período que chegou ao auge em 2016 no Brasil e que ninguém sabe quanto tempo poderá durar. Por antecipação, dá para dizer que nos prepararam nos últimos anos para que sejamos todos imbecis. E que a imprensa tem papel decisivo nessa empreitada.
Na França, as perguntas incômodas com o fim da ocupação eram estas: o que se faz agora para entender o colaboracionismo? Como olhar para os que atenderam aos apelos dos nazistas para que colaborassem com a imposição de seu domínio? Os franceses chegaram a planejar julgamentos, mas desistiram. Não haveria, em muitas circunstâncias, como separar omissão, silêncio, distanciamento ou apoio declarado aos que ocuparam o país, perseguiram e mataram.
Quem colaborou ou se calou – e muitos da imprensa, da universidade e das artes fizeram isso – teve o argumento de que não havia, como admitiu Sartre, como fazer parte da resistência declarada sem ao mesmo tempo condenar-se à morte. No Brasil pós-golpe de 64, sem querer comparar contextos e circunstâncias, um argumento semelhante foi usado pelos que se aliaram à ditadura.
Havia na França ocupada pelo nazismo e no Brasil tomado pelos militares nos anos 1960 a imposição da força e do terror fardado. Os que se aliaram ou colaboraram têm esse pretexto, inclusive a imprensa. Poucos dos que sobreviveram, lá e aqui, perfilados com os regimes no poder, admitiram depois que emporcalharam a própria reputação e as reputações e a vida de parentes e amigos. Adesistas não cedem com facilidade à tentação de serem sinceros e honestos consigo mesmos e com os que os rodeiam.
Mas o Brasil das exceções de 2016, do golpe e da ascensão de um governo ilegítimo não está sob ameaça de nenhuma força militar. O ano de 2016 pode ter nos deixado mais imbecis por uma sequência de desatinos levados adiante com naturalidade.
Não há nazistas e militares a fazer ameaças. Políticos, empresários, procuradores, juízes, jornalistas e outros que ainda contribuem para a imbecilização do país não sofreram nenhum constrangimento da força para aderir ao projeto de produzir idiotas. A linha de montagem da imbecilidade é civil.
Mas quem irá se arrepender da contribuição ao projeto para que o país seja idiotizado? Quem bateu panelas sabe hoje o que de fato pretendia? Ou seguiu um pato pela Avenida Paulista? Ou apoiou Janaína Paschoal, ou aplaudiu Lobão, ou considerou a hipótese de que a democracia poderia (como ainda pode) ser trocada por uma eleição indireta?
Qual é a dimensão do drama pessoal do ex-presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, que presidiu as sessões do Senado em que foi decidida a cassação do mandato de Dilma Rousseff?  Que força jurídica inquestionável e superior determinou que o chefe da mais alta Corte do país se submetesse aos ritos e às vontades de um Congresso corrupto e golpista? Por que Lewandowski não se indispôs com a liturgia da farsa e não se declarou impedido de levar adiante o processo do golpe?
Por que o país foi conivente até agora com as agressões do deputado Bolsonaro às mulheres? Quem um dia irá se arrepender (em especial os liberais brasileiros) de ter sido silencioso diante dos excessos da Lava-Jato? Com a transformação da prisão preventiva em masmorra desmoralizadora de candidatos a delator? Com o recorde de processos (cinco), decididos em tempos recordes, contra o ex-presidente Lula? Com a vergonhosa impunidade dos corruptos tucanos.
O Brasil ficou mais imbecil em 2016 porque muitos colaboraram com os que articularam as ações de desqualificação da política, de esvaziamento das eleições e de destruição das conquistas da Constituição de 1988. E não há nada, como havia no nazismo e havia na ditadura, não há nenhuma força excepcional que justifique omissões, acovardamentos e colaborações com o golpe e com a sequência de fatos que o consolidam.
O jornalismo estará um dia diante do que lhe cabe no balanço final do processo de imbecilização do país. Na cumplicidade com a manutenção de Eduardo Cunha até a execução do golpe. Nos aplausos ao homem do Jaburu usurpador do cargo de presidente. Na concordância com os desvios de conduta do juiz Sergio Moro. Na participação no processo de seleção de vazamentos que ajudaram a idiotizar desinformados e a empoderar golpistas.
O jornalismo imbecilizador não estava, como estiveram os que enfrentaram o nazismo e a ditadura, sob nenhuma pressão insuportável. Desta vez, a imprensa brasileira contribuiu por conta e risco para a transformação de 2016 no ano da idiotia. A imprensa foi uma das idealizadoras e executoras do projeto de destruição das esquerdas e da democracia e de preservação de todos os envolvidos no golpismo.
Não precisamos esperar que um dia alguém nos diga que em 2016 o jornalismo dito ‘independente’ foi protagonista do plano de imbecilizar o Brasil. E o projeto em curso ainda está longe do que foi idealizado com a ajuda de jornalistas que deveriam denunciá-lo e destruí-lo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Dilma, a cada dia mais inocente, busca justiça. Por Mauro Donato

“A Lava Jato abriu um processo contra Lula por ele não ter recebido um terreno, que segundo a operação, seria destinado ao Instituto Lula. A Lava Jato reconhece, porque é impossível não reconhecer, que o terreno não é nem nunca foi do Instituto Lula ou de Lula. É o grau de loucura que a Lava Jato chegou na sua perseguição contra o ex-presidente”, afirmaram. O local é um terreno até hoje.


Postado em 22 Dec 2016
por : , no DCM


dilma

A ex-presidente Dilma Rousseff entrou com requerimento no Ministério Público Eleitoral solicitando que Otávio Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez, seja investigado.
Em sua delação, Otávio Azevedo mentiu na cara dura. Afirmou que sua Andrade Gutierrez havia feito doação ilegal de R$ 1 milhão para a campanha de Dilma. Como que a comprovar o que estava dizendo, ainda relatou ter tratado da ilicitude em encontro com Edinho Silva (ex-tesoureiro de campanha e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social de Dilma) e mais um correligionário. Tudo mentira cabeluda.
A reunião com os petistas nunca aconteceu e a defesa de Dilma apresentou ao TSE comprovante do pagamento do tal R$ 1 milhão. Não foi em dinheiro, foi em cheque, portanto declarado e dentro da legalidade. Mais: o cheque era nominal e destinado a Michel Temer.
O TSE então convocou Otávio Azevedo para que se explicasse. “Veja bem, me equivoquei”, foi mais ou menos o que disse candidamente o executivo engravatado. Aquilo não foi um engano, mas falso testemunho. Azevedo deveria estar preso por isso. Até porque não foi seu único lapso de memória.
Otávio Azevedo em um outro depoimento ‘esqueceu’ de mencionar R$ 7 milhões (esses sim, por fora) doados pela Andrade Gutierrez para Aécio Neves. Não tinham sido R$ 12,5 milhões e sim R$ 19 milhões. Coisa boba, fácil de esquecer. E há hoje um grande empenho na república de Curitiba em aceitar suas versões de ‘equívoco’ ou ‘confusão’.
Quanto mais o tempo passa, menos crédito pode-se dar à Lava Jato. Uma operação que até agora não conseguiu assegurar aos brasileiros de que não esteja premiando com a liberdade caguetas mentirosos que estejam fazendo afirmações convenientes para sabe-se lá quem.
As mais recentes fizeram com que advogados de Lula reagissem com ironia e afirmassem que a coisa agora atingiu ‘grau de loucura’. Referiam-se a três delatores que induziram a operação a investigar um terreno que ‘teria sido’ comprado, onde ‘seria construído’ o Instituto Lula. Tudo assim, no condicional.
“A Lava Jato abriu um processo contra Lula por ele não ter recebido um terreno, que segundo a operação, seria destinado ao Instituto Lula. A Lava Jato reconhece, porque é impossível não reconhecer, que o terreno não é nem nunca foi do Instituto Lula ou de Lula. É o grau de loucura que a Lava Jato chegou na sua perseguição contra o ex-presidente”, afirmaram. O local é um terreno até hoje.
Nem todas as delações mentirosas como a do ex-presidente da Andrade Gutierrez serão desmascaradas. E, de resto, o estrago já está feito.
Mas voltemos a Dilma. No meio de tanta lama, nada apareceu sobre ela até agora. Nenhum ato ilícito, nenhuma falcatrua, nenhuma vantagem pessoal. Ao contrário, a todo momento ficamos sabendo que deu liberdade para a Polícia Federal (reconhecida publicamente por seus agentes), não intercedeu para brecar a Lava Jato nem mesmo quando seus companheiros de partido eram alvos, fez o possível para barrar as sacanagens de Romero Jucá, Eduardo Cunha e companhia limitada.
E foi enviada para a guilhotina.
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Sobre o Autor
Jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Bob Fernandes sobre o Doria de Alckmin: "Não à Política", força de uma mídia tendenciosa e derrota do PT



Geraldo Alckmin teve estrondosa vitória com João Dória no 1º turno. E larga na frente para 2018.
Terá que tourear egos e apetites no PSDB, grande vencedor desta eleição...
Um bom problema. Isso é bem melhor do que purgar uma derrota...
Alckmin tem o PSB do seu vice, Marcio França, como alternativa e espantalho para impor-se no tucanato.
Aécio ainda comanda o partido e se fortalece se João Leite vencer em Belo Horizonte.
Serra, que não desiste nunca, à revelia do PSDB perdeu com Matarazzo e Marta.
Muito dependerá dos rumos da Lava Jato. Por ora os camburões da Lava Jato mantem fechadas as portas do lado direito.
Marcelo negocia delação. Se quiserem mesmo saber o que ele sabe, e indicam planilhas, dados e computadores da Odebrecht, baixas para 2018 serão ampliadas.
Grande derrotado, o PT já chegou às urnas encolhido. Disputou mil prefeituras menos do que em 2012. E perdeu 60% das suas 644 prefeituras.
Derrota antecipada pelo desastre econômico. Desastre esse antecedido e inflado pelo desastre no território ético-político.
O PT fez o que por duas décadas mostrou que os demais faziam. Por isso agora pagou dobrado pelo mesmo que os demais compram, ou vendem.
O "Mensalão" está nas manchetes há 10 anos. O "Petrolão" há três.
O PT se queixa: instituições da chamada Grande Mídia têm lado. Enquanto magnificam erros do PT escondem ou minimizam erros de aliados tradicionais.
Onde está a novidade? Por que, em 13 anos no Poder, o PT não convocou a sociedade para, ao menos, debater regulação econômica que impeça monopólios no setor?
Porque apostou na conciliação com quase tudo e todos. E nisso PMDB e similares são insubstituíveis.
O PMDB, apesar de derrotas como a de Paes e seu Pedro Paulo no Rio de Janeiro, segue com maior número de prefeitos. Isso conta para 2018, inclusive para formatação do Congresso.
Há outro grande vitorioso. Em São Paulo, votos brancos e nulos ganharam de Haddad, o segundo colocado.
Dória venceu anunciando "Não ser Político". Por 11.147 votos Dória perdeu para abstenção, brancos e nulos.
Estes somados, 38,5% dos paulistanos disseram "Não à Política". No Rio de Janeiro, 42,5% disseram "Não á Política". Cenário que se repetiu em outras cidades e estados.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O golpe judiciário, por Sérgio Sérvulo, jurista.



Alguns analistas afirmam que o impeachment da presidente Dilma Rousseff caracterizou um golpe de Estado, que se veio a designar como “golpe de Estado parlamentar”, não obstante a participação nele, além da oposição política, de setores da mídia e do judiciário.
O impeachment de Dilma assegurou, à oposição, a tomada do governo. Entretanto, conforme alguns desses analistas, o objetivo maior do golpe – a tomada do poder político, com o esmagamento do PT – só se consumará com a desmoralização de Lula, e sua inabilitação para concorrer às eleições presidenciais de 2018.
Esses mesmos analistas estão agora mencionando um “golpe judiciário”, a partir da decisão adotada, na última 5ª. feira (dia 22 de setembro de 2016) pelo Tribunal Regional Federal da 4ª. Região (sede em Porto Alegre), com a qual, por 13 votos a 1, foi repelida representação contra ato ilegal do juiz Sérgio Moro, titular da Vara Privativa dos Feitos do PT, dos seus membros, parentes e amigos, com sede em Curitiba. Essa decisão não invoca jurisprudência do STF, isto é, acórdãos proferidos, em casos semelhantes, pela Suprema Corte; mas replica a extensão dada, por ela, à sua jurisdição.
À parte outras considerações sobre a gravidade dessa decisão “contra legem”, ela sepulta de vez qualquer esperança quanto à reforma da sentença a ser proferida, pelo juiz Sérgio Moro, ao julgar a denúncia recentemente aceita contra o ex-presidente.
Nos últimos editoriais deste site, analisei essa denúncia, e as três imputações que contém. Demorei-me com relação à segunda, que é inepta, visto acusar Lula de haver praticado um crime impossível (a ocultação de propriedade imóvel); e porque principalmente a partir dela é que se pode esperar a condenação: das três, é a única endereçada também contra d. Marisa Letícia. Acontece que a denúncia perderia a utilidade caso apenas se inabilitasse eleitoralmente Lula, deixando-se porém, em aberto, a possibilidade de indicar como candidata sua mulher. O juiz Moro mostrará o quanto é magnânimo, na sentença, ao descartar a terceira acusação (aquela do acervo presidencial); mas desde já evidencia o quanto é sensível, ao lamentar a inclusão, como ré, da ex-primeira dama.
Devo discordar, porém, dos que identificam apenas agora, na decisão do TRF-4, a consumação do golpe.
Desde 2010 tenho denunciado que o Supremo Tribunal Federal cometeu um golpe de Estado judiciário quando assumiu funções legislativas.
Denunciei esse golpe em texto publicado na Revista Latino-Americana de Estudos Constitucionais em abril de 2013 (n° 14). Ele foi resumido no prefácio à 2ª. edição de meu livro sobre recurso extraordinário (2012), onde se lê: “A importância dessa mudança, ocorrida no papel institucional da Corte Suprema, transcende a lógica jurídica e o direito processual, e passa a reclamar também a atenção dos cientistas políticos.” E mais, em conclusão: “O comportamento da Suprema Corte revela o que podemos designar como ‘lei da incontinência do arbítrio’. Assim como o sistema normativo da ditadura – que se buscou legitimar com o ato institucional – veio a recair no casuísmo, o STF, tendo abandonado a Constituição como norte de sua atividade, já não encontra freio na lei e sequer no seu regimento interno. O que ressalta hoje em seus anais – tal como nos anos negros de 1964 – é a tecnocracia dos números, posta por cima dos direitos cidadãos”.
Sérgio Sérvulo da Cunha é advogado, autor de várias obras jurídicas. Foi procurador do Estado de São Paulo e chefe de gabinete do Ministério da Justiça.
Fonte: Jornal GGN

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Nós, leitores, a campanha midiática e a Petrobrás



Segue artigo de Carlos Castilho, extraído do Observatório da Imprensa:

Nós, leitores, e a Petrobras

Por Carlos Castilho em 06/02/2015

O público brasileiro está sendo submetido a um verdadeiro massacre informativo envolvendo a corrupção na Petrobras. A intensidade do noticiário já deixou de ser uma opção questão meramente jornalística para se transformar num caso típico de campanha movida pelos principais órgãos de imprensa do país.
Os fatos passaram a ser menos importantes do que as versões e o que era inicialmente a cobertura de um escândalo de corrupção desdobrou-se numa trama de problemas que no seu conjunto procura transmitir aos consumidores de notícias a percepção de que o país caminha para o caos.
O caso das propinas na Petrobras acabou vinculado pela imprensa à crise energética quando o uso de combustíveis para amenizar os efeitos da redução da capacidade de geração hidrelétrica do país provocou uma disparada nos preços ao consumidor. O link entre Petrobras e a crise hídrica permitiu criar a sensação de instabilidade e insegurança econômica entre as pessoas que já não sabem mais quando e como começará o racionamento de energia e se a inflação vai disparar ou não.
A análise da estratégia noticiosa adotada pela imprensa aponta claramente na direção de um acúmulo, intencional ou não, de problemas. Os casos Petrobras e crise hídrica serviram de pretexto para que instituições internacionais de credibilidade duvidosa, como a agência Moody’s, rebaixassem o Brasil nos mercados financeiros internacionais, o que provocou um efeito cascata da desvalorização do real e o fantasma da fuga de investidores externos.
Esse conjunto entrelaçado de notícias sem a devida contextualização tende a aumentar a orfandade do público, e há duas alternativas possíveis: uma é o cansaço e exaustão do público em relação a repetição exaustiva no noticiário de depoimentos, documentos, acusações, explicações canhestras envolvendo tanto o caso da Petrobras como o da crise hídrica. O desdobramento seria a perda de interesse.
A outra alternativa é o fim da paciência dos leitores, que passariam a exigir medidas drásticas – o que criaria o ambiente adequado para mudanças institucionais tanto na estatal petrolífera como no próprio governo. A imprensa, obviamente, nega esta intenção mas sua estratégia na produção e veiculação de notícias envolvendo a crescente associação entre a corrupção na Petrobras e a crise hídrica torna quase inevitável uma radicalização política que pode vir tanto pelas ruas como por maquinações legislativas ou judiciais.
O que nós, leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas estamos perdendo é a noção de onde estão os fatos reais. O caso da Operação Lava Jato tende a transmitir para a população a ideia de que a Petrobras está quebrada por conta das estimativas bilionárias da corrupção interna, mas o respeitado comentarias da Folha de S.Paulo Janio de Freitas aponta, com dados, justamente o contrário (ver “Reino do ‘nonsense’”). Janio tem um histórico de integridade profissional intocável e não arriscaria seu prestígio numa informação sem fundamento.
O mesmo acontece com a crise de falta d’água, onde a avalancha de dados a favor e contra o racionamento se avolumam com um claro predomínio das percepções pessimistas. A gente só descobre que há um outro lado na questão hídrica quando vai para as redes sociais, blogs e páginas web alternativas. Nenhum lado chega a ser 100% convincente porque a crise hídrica é tão complexa quanto as investigações do escândalo de Petrobras.
A confusão informativa cresce na proporção direta da intensificação do bombardeio noticioso que funciona como uma espécie de preparação do estado de espírito do público em relação a medidas futuras mais radicais. Referências à privatização da Petrobras e ao impeachment da presidente Dilma Rousseff já circulam nas redações elobbies político-empresariais.
Não há dúvida de que sempre existiu corrupção na Petrobras porque osuperfaturamento e as propinas são instrumentos institucionais na política brasileira há décadas e sem eles a maioria esmagadora dos políticos com mandato não teria sido eleita. Também não há dúvida de que a falta de chuvas agravou o problema energético do país. São questões recorrentes que foram transformadas pelo noticiário da imprensa em crises terminais da politica energética vigente no país.
A solução para ambas teria que surgir num ambiente tranquilo de reflexão, debate e experimentação, envolvendo uma participação crescente da sociedade brasileira que, no fundo, é a principal e maior interessada. Mas o que a imprensa e os políticos estão fazendo é criar um clima de agitação, instabilidade, insegurança e imprevisibilidade para dissimular a luta pelo poder. Nós, leitores, somos as principais vítimas desse processo, porque não sabemos o que está acontecendo. Os porta-vozes do governo estão desacreditados por sua insistência numa visão rósea da realidade nacional, enquanto a oposição e os interesses corporativos adotam o discurso pessimista.
A conjuntura atual está claramente vinculada ao início da batalha eleitoral para a sucessão de Dilma. Depois que o escândalo do mensalão cortou um dos mananciais de financiamento ilegal de campanhas eleitorais do PT e aliados (e também usado pela oposição, como ficou claro no mensalão tucano coincidentemente nunca julgado) , a Petrobras passou a ser a grande torneira para irrigar a o projeto da volta de Lula ao poder. A Operação Lava Jato está fechando também esta fonte de recursos para o caixa 2 eleitoral, com o claro objetivo de asfixiar financeiramente o Partido dos Trabalhadores. É uma estratégia editorial vinculada a uma estratégia eleitoral, só que a imprensa procura induzir o público a achar que o objetivo é exclusivamente moralizador.