terça-feira, 6 de novembro de 2018

Publique-se o obituário do brasileiro cordial, por Arion Escorsin de Gody, defensor Público no Rio Grande do Sul


Deveríamos estar discutindo um projeto de país. Poderia ser mais liberal ou menos. Com um Estado mais ou menos intervencionista. No entanto, estamos investindo toda nossa energia social em odiar, em exterminar, em vilipendiar

Do Justificando:
Publique-se o obituário do brasileiro cordial


Arion Escorsin de Godoy

Publique-se o obituário do brasileiro cordial


Arte: Caroline Oliveira

Em 2015 levei a público, com Domingos Barroso da Costa, o texto “A Onda, o poder constituinte originário e os totalitarismos”que integrou o livro “Direito e Cinema: por que devemos filmar narrativas?”. O breve ensaio, escrito em meados de 2014, conflitava com o ânimo reinante na sociedade brasileira naquele momento histórico. Vivíamos uma certa euforia, sobretudo no campo progressista, a contar das chamadas jornadas de junho. Lá, supunha-se a inauguração de um momento de avanços mais robustos em nossa travessia democrática. Na contramão, encerramos aquele texto ponderando:
Como se pode observar, os riscos de que trata o filme “A Onda” são atuais e concretos, tanto em países e sociedades com larga vivência democrática – como a Alemanha e a Grécia, que em 2014 possibilitam o ingresso de congressistas ligados a partidos neonazistas no Parlamento Europeu –, mas especialmente em nações com restrita experiência democrática, como o Brasil, onde sanção e vingança ainda se confundem.
A intolerância cultural – a monoculturação da sociedade –, a oposição entrehomens de bem (nós) e homens de mal (outros), além do incremento da violência pública e privada – em que os linchamentos públicos de hoje sucedem as fogueiras de ontem – conduzem a um cenário de radical intransigência, ao ponto de colocar em risco avanços civilizatórios duramente maturados e conquistados.
É relevante perceber ainda que discursos inflamados de tons sectários enfrentam, por vezes – especialmente em cenários de injustiças sociais, crises éticas e econômicas, como destacado na película em questão –, um caminho muito para curto para se converterem de absoluto absurdo em Direito posto, sobretudo quando, socialmente, normalizam-se práticas de violência dirigidasaos outros.
Portanto, imperioso é postarmo-nos sempre alertas quanto à apropriação do Direito por discursos de ódio e de exclusão que, por encontrarem ressonância social em contextos de adversidade, em um segundo momento, ganham ares de legitimidade ao adquirirem formas jurídicas, com o que o Direito termina por converter-se em instrumento de conforto dos sujeitos que conseguem, ainda que momentaneamente, agruparem-se na casta dos homens de bem – ou, pode-se dizer, integrantes de uma onda –, alcançando o prestígio e pertencimento social perdidos com a ascensão do individualismo, de modo a, assim, toldar precariamente sua incapacidade de lidar positivamente com a sensação de impotência e solidão que acompanham os avanços da liberdade.
acerto, todavia, não empolga. Gostaria que aquela energia social que vagava sem rumo naquele momento que, por certo, poderia ter tido destino diverso, nos levasse a outro cenário. Contudo, o que se consumou foi a subida do capitão.
Depois da esperança de que com a queda de Dilma, no dia seguinte os investimentos voltariamo desemprego desapareceria, a corrupção (sempre ela) seria coisa do passado, tivemos os 30 meses temerários que já receberam as adjetivações adequadas. Depois da crendice de que, com a hoje já quase esquecida Cármen Lúcia à frente, as togas saneariam o País, temos um Supremo Tribunal Federal que é aviltado diariamente por todos os meios e formas. Agora o fetiche volta a ser com fardas, botas e bíblias. Cabos, soldados, família e deus serão nossos redentores. Embora nosso histórico, sempre fundado em bandeiras semelhantes, denotem que nosso atraso, em grande parte, talvez advenha de tal universo simbólico. Afinal, como disse Gregório Duvivier, nunca nenhum governo fez merda em nome do Capeta, da Maconha ou da Sacanagem.
Penso, como 45 milhões de brasileiros e brasileiras, que não há como dar certo. Não pretendo, todavia, discutir isso.
Minha inquietação, neste momento, parte de pensar como todos aqueles que estão compactuando com este cenário se portarão. Não poderão dizer que não era previsível ou esperado. Não há espaço para inocentes. Saímos, como nação,do armário. Publique-se, registre-se, afixe-se em todos os postes e esquinas, o obituário do brasileiro cordial.
Colocando-me no lugar de meus compatriotas que defendem o dito Presidente, mas preservando elementos de minha trajetória de vida, tendo eu me graduado em uma Universidade Estadual e hoje cursando doutorado em uma Universidade Federal, pergunto-me como diria a meus filhos que votei naquele que prometeu acabar (e provavelmente acabará) com a universidade pública? Como direi às cidadãs e aos cidadãos que atendo na Defensoria para confiarem no direito e na justiça se o meu candidato diz que basta um soldado e um cabo para fechar o Supremo? Como diria a minha filha que votei – e por isso sou corresponsável – por eleger um candidato que, no mínimo, legitima uma posição subalterna, de inferioridade, para a mulher?
Como dizer a meus pais que, talvez em algum momento da vida dependam da previdência pública, que uma nação que hoje compromete mais de 40% com pagamento de juros a banqueiros e que possui a maior reserva de petróleo descoberta neste século, não tem dinheiro para pagar uma pensão digna àquelas pessoas que, por todo uma vida, por décadas e mais décadas, dedicaram-se a trabalhar e a contribuir com o país? Como não me importar com o fato de que famílias simples não poderão mais formar seus filhos em universidades públicas e, por conta disso, não poderão sequer sonhar que seus descendentes terão um futuro melhor? Como faço para acreditar que com mais violência, ainda que verbal ou simbólica, e armas teremos um futuro mais pacífico?
Como é possível que juízes apoiem um candidato que reiteradamente menospreza a função judicante e o Poder Judiciário? Como é possível que empresários votem em um candidato que tem um especulador como posto ipiranga? Como é possível que servidores públicos apoiem alguém que considera que o serviço público é o problema do país? Como é possível que trabalhadores legitimem um governo que, do ponto de vista econômico e de modelo social, é a continuidade da gestão de Michel Temer? Como é possível que um jornalista se demita ao vivo por ter sido censurado e seus colegas de bancada tentem justificar o injustificável, valendo-se de argumentos como eu preciso de meu emprego? Como é possível que um dos maiores jornais do país seja judicialmente censurado e não haja uma mobilização dos meios de comunicação?
É certo que, neste momento, mais do que a luta dos bonzinhos contra os mauzinhos, deveríamos ter maturidade política e cívica para percebermos que estamos devastando com o que sobrou de nossa indústria, de nossas empresas e de nossa ciência. Um projeto de uma geração anterior à minha e que deveríamos, no mínimo, defender. Petrobras, Embraer, Embrapa, universidades, IFs e centros de pesquisa, com eventuais problemas e necessárias correções, seriam motivo de orgulho em qualquer país civilizado e estariam sendo aperfeiçoados e não destruídos.
Tenho convicção de que mais solidariedade e menos armas; mais IFs e universidades e menos cadeias; mais BNDES – para auxiliar e financiar aquele que produz – e menos especulação; mais diálogo e menos fake news; mais cidadania e menos togas ou fardas; sanear a Petrobras e não destruí-la.
Enfim, deveríamos estar discutindo um projeto de país. Poderia ser mais liberal ou menos. Com um Estado mais ou menos intervencionista. Com uma ênfase ou outra. Tanto faz. Mas um p-r-o-j-e-t-o. No entanto, estamos investindo toda nossa energia social em odiar, em exterminar, em vilipendiar.
Porém, em algum tempo, ainda que estejamos ainda piores do que hoje, em um conflito social ainda mais aprofundado, poderei dizer a meus compatriotas, familiares, amigos, que não apoiei o golpe contra Dilma Rousseff. Que nem por um segundo considerei o governo Michel Temer como legítimo. Que nunca cogitei que a reforma trabalhista ou a previdenciária, na forma proposta por aqueles que não têm nenhum compromisso com o povo brasileiro, pudesse trazer qualquer resultado socialmente relevante. Que não apoiei o desmonte da Petrobras e a entrega do pré-sal – que poderia financiar uma sociedade mais igualitária – às empresas estrangeiras. Que não apoiei que a Amazônia se tornasse pasto. Que tem jeito e alternativa, mas que temos de reconstruir o desejo de ter um país melhor, uma sociedade mais igualitária, investindo – amor, trabalho, dinheiro – para que isso ocorra. Que, em outubro de 2018, estive ao lado dos derrotados. Detestaria, entretanto, como Darcy Ribeiro a seu tempo, estar no lugar de quem me venceu.

Arion Escorsin de Godoy é defensor Público no Rio Grande do Sul e doutorando em Educação pela Universidade Federal de Pelotas.

Leia mais:

Justiça do Trabalho após a Reforma: A Mina de Ouro das Instituições Financeiras e Grandes Empresas, por Flávio da Silva Azevedo Júnior, Especialista em Direito do Trabalho e Seguridade Social.


"Para que se possa compreender o que de fato ocorre na seara trabalhista, há de se partir da premissa, que as empresas de grande porte ou instituições bancárias, não cumprem o que determina a lei, simplesmente por optarem pelo caminho mais rentável. Mas é possível que defensores das empresas ou economistas desavisados digam que a ausência no cumprimento das normas trabalhistas ocorra pela crise mundial enfrentada pelas empresas. E é ai que nos deparamos com o surpreendente dado que divide os maiores devedores do país em três grandes nichos: entes públicos; empresas de grande porte e instituições bancárias."

Do Justificando:


Justiça do Trabalho após a Reforma: A Mina de Ouro das Instituições Financeiras e Grandes Empresas


Quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Justiça do Trabalho após a Reforma: A Mina de Ouro das Instituições Financeiras e Grandes Empresas


Foto: Pinterest. Obra do artista e grafiteiro Dubpy.
Embora os empresários e banqueiros em sua totalidade insistam em afirmar com veemência que a justiça do trabalho sempre se apresentou muito austera, condenando-os em valores altíssimos, há de ser verificado, que desde 1943, com força ainda maior a partir de novembro de 2017, a Consolidação das Leis do Trabalho proporciona aos grandes empregadores um lucro exponencial, simplesmente deixando de quitar seus débitos trabalhistas, ainda que perca os respectivos processos em que são demandados.
Talvez nesse primeiro momento nos pareça um contrassenso dizer que o grande empregador perde a ação e ainda assim alcança êxito financeiro, mas ao analisarmos todo o contexto que circunda a relação trabalhista e as regras que permeiam o contrato e a processualística da justiça laboral, chegaremos a importantes considerações.
Para que se possa compreender o que de fato ocorre na seara trabalhista, há de se partir da premissa, que as empresas de grande porte ou instituições bancárias, não cumprem o que determina a lei, simplesmente por optarem pelo caminho mais rentável. Mas é possível que defensores das empresas ou economistas desavisados digam que a ausência no cumprimento das normas trabalhistas ocorra pela crise mundial enfrentada pelas empresas. E é ai que nos deparamos com o surpreendente dado que divide os maiores devedores do país em três grandes nichos: entes públicos; empresas de grande porte e instituições bancárias.
Veja, não estamos a tratar do pequeno empresário, que padece para empreender no país e, por vezes, é refém da falta de suporte jurídico; ao contrário, estamos a nos referir a grandes empregadores que se apresentam consolidados no mercado, não havendo que se falar na falta de cumprimento da lei laboral pela suposta dificuldade financeira, tão pouco pela ausência de assessoria jurídica – já que contam com vasto e experiente corpo jurídico – dedicando-se à inadimplência trabalhista pela vantagem financeira que lhes proporciona.
É notório que diante da lesão ao direito do empregado, em média, a metade dos trabalhadores que foram prejudicados deixam de propor a reclamação trabalhista por receio de represálias. Talvez um dos maiores exemplos disso sejam os bancários que receiam algum tipo de discriminação após a propositura da demanda trabalhista, informando inclusive uma suposta lista mantida pelos bancos daqueles que recorreram a justiça, inviabilizando o reingresso no mercado de trabalho.
Diante disso, após dois anos, opera-se a prescrição bienal, perpetuando no tempo o lucro quanto a negativa de quitação, tornando-se fonte de mão-de-obra sem oneração e verba remanescente para o proveito financeiro da instituição.
Por outro lado, daqueles que iniciam o processo – diante da necessidade premente dos valores ali discutidos– um pouco menos da metade (jan-jun de 2018 – 43,7%) decidem formalizar acordos que variam entre 20 (vinte) à 30% (trinta por cento) do que lhes era devido, concedendo ao empregador, por mais uma vez, lucro expressivo.
Aqueles que, por ventura, decidem persistir com a ação na justiça, contam com um prazo significativo de 2 à 7 anos de duração do processo, o que também se torna uma “aplicação financeira” aos empregadores, em especial aos da instituição financeira. Ao produzirmos um calculo simplório chegaremos a valores astronômicos gerados pela debito existente: se considerarmos um débito de 100 mil reais, é mais que evidente que a instituição financeira detém tal valor e, ao considerarmos a média de tempo de 5 anos e o oferecimento de tal valor em cheques especiais ou ainda juros de cartão de crédito, nesses 60 meses com juros impostos na casa dos 7 à 15%, trabalhando com a margem exemplificativa de 10%, chegaríamos a monta de R$ 600.000,00 (Seiscentos mil) nos 5 anos mencionados, apenas de juros – juros ganhos pelos bancos e instituições financeiras com a aplicação do dinheiro devido ao trabalhador que não foi pago e não será até o fim do processo. 
Mas as instituições financeiras se apegam ao seguinte questionamento: E os juros que também incidirão sobre o valor no processo trabalhista? Sem uma analise detida, temos a ligeira impressão de que existe um equilíbrio sob esse aspecto. Ledo engano! O valor de juros na justiça do trabalho apresentam-se fixo sob percentual de 1% ao mês, ou seja, no decorrer desses 5 anos, o empregado contaria com o acréscimo de 60 mil reais, valor esse infinitamente menor que o alcançado pela instituição financeira ou ainda das grandes empresas que aplicam tais valores no mercado financeiro e angariam lucros semelhantes.
Observe que no exemplo que apresentamos acima desconsiderando o valor da condenação no final do processo, a instituição financeira mesmo perdendo o processo com o efetivo pagamento do valor principal mais juros ao final, obtém o de lucro de R$ 440.000,00 (quatrocentos e quarenta mil reais).
A fim de potencializar esses ganhos, a reforma trabalhista trouxe importantes e truncados óbices ao acesso à justiça (custas, honorários sucumbencial e pericial) do empregado e redução drástica de direito material, sacramentando a redução do valor da hora intrajornada, terceirização irrestrita, autorização de banco de horas por acordo individual, fracionamento das férias em até 3 períodos, surgimento do contrato intermitente, extinção das horas in itinere, autorização do labor de gestantes em locais insalubres, dentre outros.
O receio do trabalhador quanto ao saco de maldade perpetrado na consolidação das leis do trabalho foi tão grande que, a partir da reforma, computou-se a redução de 41% de propositura de novas ações, comparado ao ano passado. Isso, sem sobra de dúvidas, não ocorreu porque os empregadores deixaram de ferir os direitos dos trabalhadores, os trabalhadores apenas contaram com os novos desestímulos criados pelo próprio legislador, que se somaram aos empecilhos já existentes.
Em resumo, vivenciamos o escabroso cenário em que o grande empregador paga menos do que devia (quando paga), oferece labor precarizado, autorizado pela própria norma de “proteção ao trabalhador” e, em contraprestação, responde poucos processos nos quais, ao final, se por ventura for condenado em algum, mantém um lucro de mais de 3 vezes o valor do débito. Ou seja: a reforma trabalhista é um verdadeiro estímulo à inadimplência das empresas e às práticas que garantem um  lucro desmedido diante da processualística adotada.
Flávio da Silva Azevedo Junior é advogado e Especialista em Direito do Trabalho e  Seguridade Social.
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O aval do STF sobre a terceirização reitera o descompromisso com o pacto social de 88
E a opressão abriu as asas sobre nós…

O conservadorismo nada liberal brasileiro


  "Agora, no entanto, o aparato mais autoritário e repressivo parece ter sido trazido de forma mais explícita, como uma possibilidade dentro do pacote liberal, paradoxal e capenga."

Do Justificando:

O conservadorismo nada liberal

Segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O conservadorismo nada liberal



Arte: Gabriel Prado.
Até agora as eleições de 2014 haviam sido as eleições mais polarizadas desde a redemocratização. Eleições disputadas voto a voto, valendo chute na canela, dedo no olho, questionamentos com base em teorias conspiratórias do facebook e tudo mais. Após o período eleitoral, os ânimos permaneceram acirrados e a oposição que se formou permaneceu no palanque. Essa história é conhecida por todos em seus episódios e, até agora, parcialmente em seus resultados.
Em 2018, tivemos novamente uma eleição polarizada, só que desta vez, de um lado, entre um projeto mais radical (e paradoxal) que congrega elementos liberais no aspecto econômico e um conservadorismo social com pitadas de autoritarismo, e de outro, um projeto social democrata.
Evidentemente, não é a proposta do presente texto a fazer uma análise pormenorizada dos elementos contrapostos em ambos os projetos, até porque os planos de governo estão, e estavam, aí na internet, livres para a consulta por quem quer que seja, além do fato de o pleito já ter sido realizado. Apesar disso, o que se nota é que boa parte do eleitorado, mesmo nas parcelas com níveis educacionais mais elevados, não se esforçou nem mesmo para ler os planos de governo. O que nos evidencia que uma boa parcela do comportamento eleitoral não se opera em bases racionais, mas em bases sócio-psíquicas relativas a um sentimento de pertencimento de grupo, que na atual quadra se marca também por um descontentamento difuso, conglobando ainda elementos como de subrepresentação enquanto grupo e desilusão com a situação econômica, além de tantos outros. A equação é complexa e não seria um texto curto capaz de descortinar os elementos relevantes desse processo de tomada de decisão.
No entanto, algumas coisas merecem ser levantadas. Questões que evidenciam certo sentido paradoxal de algumas dessas propostas de recrudescimento social com liberalismo econômico, que, para além de sua baixa compatibilidade com o texto constitucional, podem vir a trazer consideráveis problemas.
Na tragédia Édipo Tirano, de Sófocles, em termos simples, o personagem principal, cujo destino era matar o pai e desposar sua mãe, mesmo tentando fugir de tal destino que lhe fora revelado, acaba por confirmar tal destino profético no desenrolar de toda a trama em seus desatinos trágicos. Obviamente o enredo é mais complexo e nuançado, com determinismos e inflexões. Mas para a alegoria pretendida, basta essa simplificação.
Bem, e o que isso tem a ver com a questão das plataformas políticas que foram apresentadas na eleição de 2018? A priori não muito. No entanto, apossando-nos da ideia trazida por João de Scantimburgo [1] relativamente à proclamação da República no Brasil, algumas reflexões são possíveis.
Aponta tal autor que a proclamação da república, observada a existência do poder moderador desde 1824, encarnado na pessoa do monarca, era uma espécie de complexo de Édipo, se valendo em parte da teoria freudiana sobre o tópico, no que tange ao “despaizamento”. Tratava-se, portanto, da morte do pai, o poder moderador encarnado na pessoa do monarca. A mesma lógica pode ser usada em relação ao Estado, tratando-o hipostaticamente em termos pessoais, como um grande pai dentro de tal alegoria.
Nesse sentido, observando-se as falas do candidato que se sagrou eleito, sua plataforma de campanha, seu plano de governo, nota-se uma ênfase, encarnada mesmo por seu conselheiro econômico, em medidas de liberalização da economia, com redução do Estado, alienação de ativos, enxugamento da máquina, etc, propostas destinadas a fomentar as liberdades individuais sem maiores constrangimentos na área econômica.
Ao mesmo tempo em que há uma proposta de recrudescimento em políticas sociais e sobre os costumes, propostas de políticas penais que demandam um grande aparato policial e repressivo, uma grave sinalização autoritária em termos de direitos políticos (marcada por falas grosseiras e simplistas em termos de perseguição a grupos adversários no curso da campanha), além de propostas, em determinadas áreas como segurança e educação, também questionáveis em termos de amplitude cognitiva com relação aos problemas reais. É como se existissem espantalhos a partir de respostas simplistas com relação aos complexos problemas sociais do país. Substantivamente, em termos políticos e sociais, trata-se de uma agenda pouco inclusiva, conservadora dentro de uma ideia de refreamento dos movimentos da sociedade no sentido de atenuar os descompassos históricos, propondo conservações de privilégios socialmente estruturados e dotados de historicidade. Assim, a retórica verborrágica acabou recaindo sobre grupos específicos, como negros, indígenas, dentre outros grupos que receberam tratamentos excludentes historicamente. Uma proposta, digamos, antiliberal em termos políticos e sociais.
Substantivamente, nesse contexto, o que se nota é certo complexo paradoxal de Édipo. Visto que a morte do Estado, o pai, somente se opera em determinada área, sendo, no entanto, reforçado em sua eficácia de repressão e constrangimento de liberdades em outra. É como se a questão econômica fosse uma área apartada das demais relações sociais. Como se o valor fundante eleito, a liberdade no caso, fosse válido somente nesta seara.
Dito de outro modo, a liberdade somente vale na área econômica e não nas demais. Não vale em termos de ferramentas para seu exercício, não vale em termos de autonomia e autodeterminação, não vale em termos de políticas penais. As propostas conservadoras em termos discursivos sobre os costumes refletem bem isso.
É uma clara proposta de defesa de uma liberdade capenga, que somente vale para aqueles que possuem recursos financeiros, visto que o recrudescimento social se dá ao custo de aumento e fortalecimento do Estado em medidas proibitivas e repressivas das práticas afastadas pela plataforma do candidato eleito.
Basicamente o que esse complexo paradoxal de Édipo reflete é uma ideia de pouco Estado para o capital e muito Estado na repressão dos grupos periféricos e socialmente marginalizados, bem como de práticas tidas como inoportunas diante de um discurso moralista raso.
É uma posição contraditória, por escolher a liberdade como valor fundante, como fundamento ontológico-normativo de uma dada ordem social, mas somente em parte dessa dada ordem social. É uma contradição evidente, como se o valor fundante, ontológico socialmente, pudesse ser seccionado. Manifestam-se a favor da liberdade em tópicos econômicos, mas contrariamente a sua afirmação em tópicos sociais que envolvem “bolas divididas”, como políticas criminais, a questão das drogas, do aborto, dentre tantas outras.
Tal concepção somente ganha coerência caso não se referira a ela como liberal, mas sim como conservadora, tendo em vista que propugna a conservação das coisas como são, seja em termos de rendas e patrimônios, seja em termos de privilégios sociais. Ou seja, uma plataforma exclusiva para os privilegiados pela dádiva do bom nascimento (algo próximo do direito divino e que nada tem de meritocrático), ou então para aqueles que conseguem ascender, mas que de tão excepcionais em seus casos somente confirmam a regra de que a sociedade é estamental.
O interessante dessa contradição é que a plataforma liberal econômica conviveu bem inclusive com regimes ditatoriais, como o de Pinochet. Assim, sem receios dessa contradição, há uma defesa enfática da liberdade econômica para o capital, esquecendo-se do fundamental que são as liberdades políticas, as liberdades sociais, a inclusão como condicionante necessário desse exercício. Como se fosse uma liberdade sujeita a fatiamento. Como se a ordem econômica não integrasse a ordem social.
É como se tudo fosse afastável diante das necessidades do capital, que ao emascular o Estado em suas possibilidades de ingerência econômica, dá carta branca à repressão (algo que demanda contraditoriamente um Estado forte em sua estrutura policialesca) e mesmo ao afastamento da democracia, caso seja necessário para assegurar uma melhor e livre circulação de bens, mercadorias e serviços. É o aparato de repressão pronto e a postos para a defesa da liberdade econômica, ainda que com o sacrifício de outras liberdades ou mesmo do futuro.
Essa opção paradoxal e contraditória já tentou, ainda que sem a repressão possível que ora vem implícita e como possibilidade no pacote, se ver implementada no Brasil. Mas nunca por inteiro. Isso em razão de diversos fatores, mas substantivamente por força do texto constitucional de 1988 e sua natureza analítica, dirigista e pormenorizada em diversos ditames da tutela constitucional sobre a ordem social e econômica.
Agora, no entanto, o aparato mais autoritário e repressivo parece ter sido trazido de forma mais explícita, como uma possibilidade dentro do pacote liberal, paradoxal e capenga. Ainda que por ora seja uma possibilidade contida na retórica autoritária do candidato.
A Constituição de 1988, apesar de englobar contradições normativas decorrentes do momento político em que foi elaborada, adota, sem maiores digressões, um panorama dirigente, como força motriz dos processos políticos do Estado. Erige, dessa forma, uma série de programas teleológicos visando superar assincronias e desequilíbrios sociais, do contrário não constaria logo dentre os objetivos fundamentais da república a erradicação da pobreza e da marginalização, com a superação das desigualdades sociais e regionais.
Contudo, a Constituição não se efetiva por si só. Ela demanda programas, demanda projetos, que acabam corporificados e encarnados em instrumentos normativos. E estes dependem fundamentalmente da inter-relação entre os poderes constituídos. É a separação dos poderes como anverso da moeda da preservação das liberdades, tendo em vista que há a necessidade da concorrência de mais de uma vontade institucional para que haja mudança no status quo. É uma dinâmica inercial, coerente com os valores individuais professados pelas revoluções burguesas do Século XVIII, que implicavam em uma abstenção do Estado.
Releva, no entanto, considerar que essa inter-relação é balizada pela conformação partidária do Congresso Nacional. Assim, mesmo a despeito da guinada conservadora refletida na formação das bancadas na eleição geral realizada dia 07 de outubro, o Congresso Nacional é o mais fragmentado da história, com 30 partidos representados na Câmara, com várias bancadas de tamanho intermediário.
O que isso significa? Significa uma possibilidade clara de impasses, diante do aumento relativo do peso dos diversos atores partidários que necessitam convergir para que, democraticamente (e isso é importante de ser frisado), as mudanças no status quo se façam possíveis.
Nesse contexto resta ponderar se, em caso de impasses, como corolário necessário da dinâmica da separação dos poderes em um Congresso fragmentado, a plataforma do Édipo paradoxal (e que não se assume como voltada para conservar as coisas como são) invocará o autoritarismo para promover sua agenda de liberalismo econômico, ou realizará as práticas sempre questionadas (até pelo próprio candidato eleito) de loteamento dos cargos da administração federal…
A tônica de recrudescimento da repressão em nível social já se encontra nos discursos e em parte do plano de governo. A retórica verborrágica de violência já engloba isso. Agora, não se sabe se tal repressão descambará para o plano institucional, para o plano da violência institucional, tudo dependerá da possibilidade de conformação de um time do pesadelo (ou um dream team a depender dos anseios de cada qual, se inclusivos ou excludentes), de uma coalizão que encampe tais pautas inconstitucionais (em boa monta), paradoxais, pouco refletidas em sua conjuntura e, portanto, contraditórias entre si.
No mais, caso se forme o time do pesadelo, forte no Édipo paradoxal, é bem possível que teremos um claro acentuar nas dinâmicas de concentração de renda, diante da sinalização clara no sentido de que os aspectos sociais referidos como custos produtivos serão tendentes a redução. Esse é um horizonte claramente possível dentro da plataforma econômica do candidato.
Nesse sentido, observando-se a própria dinâmica de concentração de renda existente na América latina e no Brasil [2], tal projeto, em uma parcela de seus resultados deletérios possíveis, pode significativamente representar uma cristalização de tal dinâmica, com uma acentuação da descrença no Estado e o encampar de discursos ainda mais radicais. É necessário recordar que mesmo os governos progressistas não conseguiram alterar o abismo de desigualdade, apesar dos claros avanços no combate a miséria, universalização do consumo, acesso a melhores níveis educacionais. Feitos que são esquecidos diante do próprio contexto de crise econômica.
A reforma da estrutura tributária seria um dos caminhos razoáveis para reverter tais tendências. No entanto, se nem governos progressistas populares conseguiram impulsionar tal agenda, o que imaginar de uma plataforma liberal econômica, politicamente autoritária e socialmente repressiva e conservadora de privilégios socialmente estruturados…
Assim, caso seja possível a implementação da agenda do pesadelo, seja pela via política (o que seria ruim) ou pela via da repressão (o que seria pior), o resultado possível e crível é a cristalização de uma estrutura desigual que espolia proporcionalmente mais os que menos ganham. Daí porque seria mais coerente que tal plataforma se assumisse por inteiro como conservadora, afirmando em alto e bom som sua vocação para os desatinos de preservação da estrutura social de forma estamental, exclusiva em suas benesses para os detentores do poderio econômico.
Os indícios revelam que essa incoerência programática atende a interesses claros, que, a priori, não aparentam e não aparentavam ser os da população descontente diante do contexto de compressão salarial, desemprego e forte oneração proporcional das camadas das classes médias. No entanto, tal perspectiva, visível diante da contraposição das propostas, acabou subtraída do debate diante dos ânimos inflamados e de descrença, além das simplificações e lugares comuns que permearam o marketing eleitoral na disputa.
Por ora, esse cenário é analiticamente hipotético, ou seja, está na esfera da possibilidade, da especulação. A torcida agora vai no sentido de que a sua verdadeira face e os problemas e consequências dele possivelmente decorrentes não venham acompanhados da repressão como mecanismo assecuratório dos privilégios que a tal plataforma se propõe a conservar. Visto que aí já será tarde demais para se opor.
Recordando novamente Édipo, tomara que o enigma da esfinge que se colocou no segundo turno não tenha sido respondido precipitada e odiosamente… Tomara que as vozes do campo progressista estejam erradas, pois, caso contrário, as possibilidades estão longe de ser animadoras…
Pedro Casquel de Azevedo é mestrando em Direito do Estado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie e Advogado em São Paulo.
[1] SCANTIMBURGO, João de. A crise da República Presidencial: do Marechal Deodoro ao Marechal Castelo Branco. São Paulo: Livraria pioneira, 1969.
[2] Medeiros, Souza e Castro apontam, com fundamento nos dados do IR, que no Brasil, na série de 2006 a 2012, o 1% mais rico do país concentra 25% de toda a renda, os 5% mais ricos do país concentram quase metade, já o 0,001% mais rico acumula mais que a metade de toda a população mais pobre, que por seu turno não incorpora nem 10% de toda a renda. Apontam ainda que houve uma variação do coeficiente de gini no período mas sem grande relevância para os dados Cf. MEDEIROS, Marcelo; SOUZA, Pedro H. G. F.; CASTRO. A estabilidade da desigualdade de renda no Brasil, 2006 a 2012: estimativa com dados do imposto de renda e pesquisas domiciliares. Ciência e saúde coletiva. V. 20. N. 4. Rio de Janeiro. 2015. Há ainda outra série mais interessante, diante de sua amplitude histórica. Observando a série que vai de 1928 a 2012, Souza e Medeiros apontam no sentido de que 1% mais rico historicamente se apropria de uma parcela que flutua entre 10% e 20% de toda a renda, sendo que a desigualdade viu quedas no período 46-64, mas tornou a crescer no período da ditadura militar (sim, foi uma ditadura e não um movimento). Cf. SOUZA, Pedro H. G. F.; MEDEIROS, Marcelo. Top income shares and inequality in Brazil, 1928-2012. Revista da sociedade brasileira de sociologia. SID. V. 1. N. 1. P. 119-132. 2015.
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Leandro Prazeres, Gustavo Maia, Aiuri Rebello e Flávio Costa do UOL, em São Paulo e em Brasília... -

Marcos Aurélio (mais à direita) com os futuros ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil, à direita), General Augusto Heleno (Defesa, ao centro) e Marcos Pontes (Ciencia e Tecnologia)

O empresário Marcos Aurélio Carvalho, sócio de uma empresa ligada à investigação sobre envio em massa de mensagens via WhatsApp durante as eleições deste ano, foi nomeado nesta segunda-feira (5) para integrar a equipe de transição do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Carvalho, que é sócio da maior fornecedora da campanha de Bolsonaro, diz que vai cuidar da área de comunicação da equipe de transição. Seu salário como membro da equipe será de R$ 9,9 mil. 


O empresário é sócio da AM4 Brasil Inteligência Digital. A empresa está envolvida no caso investigado pela Polícia Federal e pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).


No dia 18 de outubro, uma reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo revelou que empresários teriam comprado pacotes de disparos de mensagens de WhatsApp com conteúdo anti-PT durante o primeiro turno das eleições presidenciais. Essa prática é considerada ilegal.


No dia 26 de outubro, uma reportagem do UOL mostrou que a AM4 contratou disparos de mensagens junto a outra empresa investigada, a Yacows. Inicialmente, a AM4 havia dito que não tinha contratado esse tipo de serviço. 


A reportagem também mostrou que, no mesmo dia em que a matéria da Folha foi publicada, dados das campanhas contratadas pela AM4 junto à Yacows foram apagados. Procurada, a AM4 disse que não foram seus funcionários que apagaram os dados do sistema.


Segundo dados da Justiça Eleitoral, a AM4 é a maior fornecedora da campanha de Jair Bolsonaro. Ela recebeu R$ 650 mil para conduzir a campanha do então presidenciável na internet. Esses valores podem ser ainda maiores porque o prazo final para a prestação de contas de quem disputou o segundo turno termina no dia 17 de novembro.

Nomeado diz que se afastou do comando da empresa

Segundo o cadastro de pessoas jurídicas da Receita Federal, Marcos Aurélio é um dos três sócios da AM4, que tem sede no município de Barra Mansa (RJ). Nesse cadastro, ele aparece como "sócio-administrador" da empresa ao lado do seu irmão, Magno Carvalho, e do amigo Alexandre José Martins.


Na condição de sócio-administrador, Marcos Aurélio estaria, em tese, impedido de assumir o cargo para o qual foi nomeado.


Isso porque a legislação impede que servidores públicos federais atuem como gestores ou administradores de empresas privadas. 


Procurado, o empresário informou que continua sócio da empresa, mas se afastou da sua direção. "Não há impeditivo em ser sócio", disse.


Sobre seu afastamento da direção da empresa, ele afirmou que recebeu o convite para integrar o grupo de transição na quinta-feira da semana passada (1º) e que, como a sexta-feira (2) foi feriado, ele ainda aguarda a atualização dos dados da empresa na Junta Comercial do Rio de Janeiro.


Segundo Carvalho, o convite para integrar a equipe de transição foi feito pelo deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), apontado como futuro ministro da Casa Civil de Bolsonaro. 


A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da equipe de transição de Bolsonaro para questionar os termos nos quais a nomeação de Marcos Aurélio Carvalho foi feita e se o fato de sua empresa estar vinculada à investigação sobre o uso em massa de mensagens via WhatsApp durante as eleições não criaria conflito de interesse.


Até a última atualização desta matéria, a equipe não respondeu as questões. 

Leandro Prazeres, Gustavo Maia, Aiuri Rebello e Flávio Costa 
No UOL

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Brasil tem como resistir ao regime híbrido de Bolsonaro, diz o jurista e sociólogo português mundialmente respeitado Boaventura de Sousa Santos


"O regime híbrido se dá porque conserva traços da democracia, como a chegada ao poder pelas urnas, mas é altamente marcado pelo autoritarismo e moralismo dos militares que acompanham o deputado de extrema direita na Esplanada dos Ministérios."





Foto: P2

Jornal GGN Sociólogo e professor em universidades de Portugal e dos Estados Unidos, Boaventura de Souza Santos concedeu uma entrevista a um jornal português demonstrando preocupação com a implementação de um "regime híbrido" por Jair Bolsonaro, o presidente eleito desde o dia 28 de outubro de 2018. Mas indicou que a oposição e os movimentos sociais brasileiros têm condições de organizar a "resistência" à agenda de retrocessos que será apresentada nos próximos anos, principalmente na economia e direitos trabalhistas.
O regime híbrido se dá porque conserva traços da democracia, como a chegada ao poder pelas urnas, mas é altamente marcado pelo autoritarismo e moralismo dos militares que acompanham o deputado de extrema direita na Esplanada dos Ministérios.
Para Boaventura, o aspecto positivo é que o Brasil, "ao contrário de outros países da América Latina, tem uma sociedade civil bastante organizada, com muitos movimentos sociais. É evidente que vai haver resistência." A questão é saber como "é que vai ser enfrentada? Pela concertação ou pela repressão? Se acreditarmos no discurso do Bolsonaro, será pela repressão."
O pensador destacou, contudo, que Donald Trump também bradava contra vários setores enquanto candidato a presidente dos Estados Unidos. Mas, uma vez dentro do governo, teve de flexibilizar ou atenuar seu discurso.
No caso da imprensa como parte do sistema de freios e balanços a atuar sobre o governo Bolsonaro, Boaventura comentou que é um cenário difícil porque o WhatsApp e o Facebook, principais difusores de fake news, mostraram uma influência e "capacidade tóxica muito grande".
Quanto ao papel do Judiciário, "a minha preocupação também é grande. Vejo que foi a fraqueza dos checks and balances que levou Bolsonaro ao poder. Isto é, toda a operação Lava-Jato e atropelos à legalidade que se cometeram nesta investigação fizeram com que ela não fosse apenas uma luta contra a corrupção — que é perfeitamente legítima — mas uma luta de desestruturação do sistema político."
Apesar disso, para Boaventura, o que preocupa mais em Bolsonaro é sua agenda econômica, que não deverá trazer nenhum boom de crescimento significativo, ao contrário do que imagina seus eleitores.
"Começa agora um capitalismo financeiro que é concentrador de riqueza — como vimos em Portugal durante a troika — e um ataque aos direitos sociais. Como eles já são fracos no Brasil, vai ser muito fácil destruí-los. O meu alarme foi quando o grupo de Nouriel Roubini — o economista turco que previu a crise de 2008 — apresentou um estudo a dizer que os mercados nada tinham contra Bolsonaro. Vi que era o certificado de legitimação, não de Bolsonaro, mas da política dele."
 
PARTIDOS DE OPOSIÇÃO
 
Sobre a oposição a Bolsonaro, Boaventura analisou que o PT deverá aprender a conservar e lutar pela imagem e história de Lula sem deixar que esta se transforme na principal bandeira do partido durante a estruturação da frente de esquerda.
 
"(...) temos de construir uma política democrática no futuro que não pode repetir os erros do passado. Isto é, o “lulismo” não pode voltar. Mas a figura do presidente Lula não pode ser condenada historicamente e morrer na prisão. Será de uma injustiça histórica enorme em relação a um homem que, com todos os erros que cometeu, conseguiu tirar 50 milhões de pessoas da miséria e da fome. Por outro lado, se as outras forças se concentrarem exclusivamente no slogan 'Lula livre', que eu próprio tenho defendido bastante, é uma luta em relação ao passado."
 
Sobre Fernando Haddad, ele disse que é "um homem honesto, muito moderado", que deve ajudar o PT a inaugurar este "novo capítulo".
 
Boaventura disse ainda que prevê espaço para "um novo partido de esquerda, um partido-movimento, a partir dos movimentos sociais, que mostraram o que houve de melhor nesta candidatura. A grande liderança [que surgiu], no meu entender, foi o Guilherme Boulos, do PSOL."
 
Leia a entrevista completa aqui.

Snoopy e o desejo pelo respeito aos mais nobres dos profissionais....



O horror, o horror, o horror..., por Fábio de Oliveira Ribeiro


  "A civilização se caracteriza principalmente pelo respeito impessoal devotado às regras pelas autoridades encarregadas de distribuir justiça. Quando os juízes começam a distorcer o conteúdo da Lei por razões políticas ou a rasgar os textos legais para obter vantagens pessoais a sociedade já mergulhou na barbárie. A preservação da aparência civilizada não pode ser a essência da missão do Poder Judiciário como tem ocorrido no Brasil."



Jornal GGN. - O que distingue a civilização da barbárie não é a cor da pele dos homens, nem a existência de regras, pois até mesmo os selvagens são capazes de imaginar algumas regras básicas de convivência. A civilização se caracteriza principalmente pelo respeito impessoal devotado às regras pelas autoridades encarregadas de distribuir justiça. Quando os juízes começam a distorcer o conteúdo da Lei por razões políticas ou a rasgar os textos legais para obter vantagens pessoais a sociedade já mergulhou na barbárie. A preservação da aparência civilizada não pode ser a essência da missão do Poder Judiciário como tem ocorrido no Brasil.
Há bastante tempo a defesa de Lula suspeita que as decisões proferidas por Sérgio Moro no caso do Triplex foram comprometidas por suas preferências políticas. Aqui mesmo no GGN publiquei a cópia de um HC que foi por mim impetrado em favor de Lula https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/habeas-corpus-em-favor-de-lula. O fundamento jurídico do remédio heróico foi a parcialidade do juiz da Lava Jato evidenciada pelas fotos que ele tirou ao  lado de inimigos políticos de Lula que seriam beneficiados eleitoralmente em razão do ex-presidente ser removido da disputa eleitoral. Carmem Lúcia rejeitou sumariamente o HC como se a jurisprudência do STF não admitisse a supressão de instância https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/carmem-lucia-rejeitou-habeas-corpus-em-favor-de-lula-por-fabio-de-oliveira-ribeiro.
Em razão do comportamento de Sérgio Moro ser maculado pela suspeita de parcialidade, o Comitê de Direitos Humanos da ONU proferiu uma decisão garantindo o direito de Lula fazer campanha e disputar a eleição https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/lula-finalmente-jogou-mpf-e-judiciario-na-ilegalidade-por-fabio-de-oliveira-ribeiro. Referida decisão foi ignorada pelas autoridades brasileiras (Itamaraty, TSE e STF) como se não tivesse validade jurídica no Brasil comprometendo não só a imagem do Brasil como a legitimidade do governo Jair Bolsonaro https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/uma-nova-facada-do-stf-na-onu-inviabilizara-o-governo-bolsonaro.
Até aquele momento, entretanto, a questão da parcialidade de Sérgio Moro e do Judiciário brasileiro era apenas objeto de suspeita razoável. O cenário se modificou no exato momento em que o juiz da Lava Jato aceitou o convite para se tornar ministro do candidato que ganhou a eleição facilmente porque Lula foi impedido de se candidatar. Segundo o general vice de Bolsonaro, o convite ocorreu antes mesmo da votação. Esse fato compromete tanto a higidez da condenação penal imposta a Lula quanto a legitimidade da eleição e a posse do Sieg Heil Führer do Reich tupiniquim.
Comparada à Fake Justice que condicionou a condenação de Lula no processo do Triplex e o resultado do processo eleitoral - é fundada a suspeita de que Sérgio Moro garantiu a eleição do Sieg Heil Führer para receber em troca o ministério que lhe foi prometido - a campanha de Fake News massiva orquestrada por Jair Bolsonaro é uma brincadeira de criança. A conspiração para impor ao país um governo não necessariamente desejado pela população é um fato grave. Na prática estamos diante de um sofisticado golpe de estado urdido pela instituição que deveriam garantir não só a legitimidade do processo eleitoral como o respeito ao livre exercício da soberania popular.
Há pouco mais de dois anos, a divulgação da gravação de uma conversa telefonica do senador Romero Jucá revelou ao mundo que o processo de Impeachment imposto a Dilma Rousseff foi uma farsa, um golpe de estado “com o Supremo com tudo” https://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/24/politica/1464058275_603687.html. O novo golpe imposto pelo Judiciário ao país “com Sérgio Moro com tudo” é muito mais grave. Afinal, o vice de Dilma Rousseff havia sido eleito pelo povo brasileiro numa eleição legítima cujo resultado não poderia ter sido contestado e o mesmo não se pode dizer do pleito que levará à posse de Bolsonaro. O resultado da eleição presidencial de 2018 foi condicionado desde o princípio por uma fraude (a Fake Justice distribuída pelos juízes) e maculada pela campanha massiva de mentiras orquestrada pelo candidato vitorioso (a Fake News noticiada pela Folha de São Paulo).
Aqui mesmo no GGN afirmei que o TSE teria que escolher entre o “mythos” e o “logos” https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/em-breve-o-tse-sera-obrigado-a-escolher-entre-o-mito-e-o-logos. Agora que foi revelada a podridão de toda a conspiração envolvendo o Judiciário para tirar Lula da disputa e suprimir o livre exercício da soberania popular a missão do TSE se torna mais dramática. Se o Sieg Heil Führer for empossado o Brasil corre o risco de afundar na lama entre dois campos inimigos irreconciliáveis caso a eleição presidencial de 2018 não seja anulada.

Jânio de Freitas, da Folha: Decisão de Moro fortalece pior do governo Bolsonaro



Ida para Ministério da Justiça reduz prestígio do juiz mas deve potencializar "a combinação de autoritarismo e reacionarismo" do novo governo 




Foto: José Cruz/Agência Brasil
 
Jornal GGNQuando o (ex) Juiz Sérgio Moro declarou, em 2016, que jamais entraria para a política explicou que a movimentação colocaria em dúvida a "integridade do trabalho" feito por ele, e isso inclui a Lava Jato. Na sua coluna deste domingo (04), na Folha de S.Paulo, Janio de Freitas relembra o fato, agora ponderando o peso da escolha de Moro em participar do governo Bolsonaro.
 
"Integridade que tem o sentido de totalidade como o de retidão. É o próprio Moro, portanto, na condição de maior autorizado a falar do seu trabalho, quem o põe em dúvida no todo e na retidão. Nesse ponto, não custa concordar com Moro", pontua Janio.
 
Moro irá assumir um "superministério" com a fusão da pasta atual a de Segurança Pública. O órgão irá também absorver o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e deve abrigar a Controladoria-Geral da União. Bolsonaro também destacou que ficará a cargo do novo ministro a escolha da diretoria do chefe da Polícia Federal.
 
 
"Se, nas ocasiões em que teve direção ministerial criteriosa, a PF não se poupou do chocante, pode ser um instrumento perigosíssimo nas mãos de quem a utilize sem respeito aos limites éticos e legais", destaca Janio de Freitas.
 
O articulista concorda com a avaliação de alguns analistas, incluindo o professor da Oxford, Timothy J. Power, de que a decisão de Moro custará "um bom pedaço do prestígio". Ao mesmo tempo, Moro fortalece Bolsonaro e, com isso, tonificar "o pior esperável" do presidente eleito: "a combinação de autoritarismo e reacionarismo".
 
Janio abre o artigo lembrando da lista de "impropriedades" da conduta do juiz, "como a gravação ilegal e divulgação de conversas de Lula, Dilma e outros; a liberação, a seis dias da eleição, de depoimento já antigo de Antonio Palocci contra Lula e o PT, e outras incorreções".
 
"Muitos dos que as citam agora ao tempo de suas ocorrências as aceitaram e até as defenderam. A gravidade que tiveram é, porém, reconhecida na rememoração a que poucos se negaram", arremata. 
 
Mas como será o papel de Moro à frente do "superministério" da Justiça ainda é uma incógnita preocupante:
 
"Moro está bem conhecido em poucos dos seus lados e arestas pessoais. Do que sabe e do que pensa, não se tem ideia. A terra para trabalhar, a necessidade do teto, a vida e o espaço dos indígenas, as milícias já aplaudidas por Bolsonaro, os refugiados, a fauna contrabandeada, enfim, são muitos os problemas sensíveis a cargo do Ministério da Justiça. Só têm recebido referências sinistras da roda de recém-poderosos. E agora são objeto da depravação que é sua entrega à inexperiência, provável desconhecimento e descaso pelo respeito humano e pelos limites legais". Para ler a coluna de Janio de Freitas na íntegra, clique aqui.