quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Mônica Iozzi enfrenta Gilmar Mendes, por Altamiro Borges

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Gilmar Mendes, o ministro tucano do Supremo Tribunal Federal (STF), não tolera críticas. Como já acusou Joaquim Barbosa, ex-presidente do órgão, ele gosta de intimidar seus críticos como fazem os jagunços das fazendas da sua família – acusada de explorar trabalho escravo. Recentemente, ele abriu um processo contra a atriz e apresentadora Mônica Iozzi. Numa postagem na internet, em maio passado, ela ironizou as posturas seletivas do Judiciário e lembrou que Gilmar Mendes concedeu habeas corpus ao médico estuprador Roger Abdelmassih. “Se um ministro do STF faz isso... nem sei o que esperar”, ironizou.

Irritado, ele ingressou com uma ação por danos morais e, rapidamente – o que não é comum na Justiça –, ele ganhou a causa. Na semana passada, um juiz de primeira instância condenou Mônica Iozzi a pagar uma indenização de R$ 30 mil, mais as custas dos processo e os honorários advocatícios. O servil magistrado considerou que a atriz “violou a dignidade, a honra e a imagem” de Gilmar Mendes. Conhecida por suas posições politicas corajosas e lúcidas, ela não se intimidou. 

Segundo relata a jornalista Keila Jimenez, em matéria postada no portal R-7 nesta terça-feira (4), Mônica Iozzi vai recorrer da decisão: “A atriz afirmou, por meio de sua assessoria, que não houve ‘qualquer tipo de ofensa ao ministro, mas expressão de uma opinião sobre um fato público a respeito do julgamento de um médico que chocou o país, médico acusado e condenado por ter abusado sexualmente de dezenas de suas pacientes’”. Sobre o episódio, que mostra bem a postura autoritária do mais falante ministro do STF, vale conferir a matéria postada no blog Diário do Centro do Mundo:

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Qual o crime de Mônica Iozzi?

Por Nathali Macedo

Para Gilmar Mendes, nunca é demais provar que está contra as mulheres brasileiras.

Primeiro, concedeu Habeas Corpus a Roger Abdelmassih, acusado por mais de 37 estupros, além de manipulação genética irregular.

A corajosa atriz Monica Iozzi – a mesma que criticou a rede globo, emissora, ressalte-se para a qual trabalha – fez um post em sua conta do Instagram: “se um ministro do Supremo Tribunal Federal faz isso… Nem sei o que esperar…”

Foi o que bastou para que Gilmar, condoído em seu ego – ego é, aliás, uma palavra que o judiciário brasileiro conhece bem – processasse a atriz (antes de atriz, cidadã brasileira, é bom lembrar), que foi condenada a pagar 30 mil reais de indenização por “danos à imagem do Ministro.” (O pedido inicial de Gilmar era de 100 mil.)

A decisão, concedida por um juiz de primeiro grau, estava fundamentada no fato de Monica ter “extrapolado os limites do direito de expressão.”

Por várias razões, esse argumento não cola. Iozzi nada mais fez do que expressar uma indignação comum à maioria das mulheres brasileiras.

As vítimas expressaram essa indignação. Grupos feministas, em choque, reclamaram publicamente da decisão. Uma das vítimas do médico, aliás, chegou a declarar que “O maior estupro foi feito por Gilmar Mendes.”

Iozzi não citou nomes, não proferiu ofensas pessoais, não alimentou discurso de ódio. Exerceu seu direito, como cidadã, de manifestar indignação diante de uma decisão que diz respeito a todas as mulheres brasileiras, sob o julgo de um judiciário notadamente machista. Onde estão as “ofensas à imagem do Ministro”, já que sequer seu nome fora citado?

Então desde quando manifestar indignação é “extrapolar os limites do direito de expressão”? Extrapolar limites, pelo que sei, é xingar uma mulher de “safada e branquela azeda”, como fez Frota a Letícia Sabatella – e ninguém incomodou-se a ponto de processá-lo porque, ao que parece, à direita tudo é permitido.

Isso sim pode ser compreendido como “ofensa pessoal.” Mas, se ela foi dirigida a uma mulher – pior: uma mulher de esquerda e que não faz parte da oligarquia judiciária – quem se importa?

É patético que em um país em que um deputado defende abertamente o estupro e a homofobia, um “ator” de filmes pornográficos xinga e humilha mulheres (Sabatella foi apenas uma delas) e depois é convidado a sentar-se com o grupo seleto de golpistas brasileiros para deliberações sobre a educação do país, uma brasileira seja condenada por expressar indignação diante de uma decisão que agride a todas as outras brasileiras.

O fato de Gilmar processar uma mulher que se manifestou diante de sua decisão irresponsavelmente machista não é só absurdo, é, antes disso, simbólico: representa o ódio, por parte do Judiciário brasileiro, às mulheres que falam – e, sobretudo, que podem ser ouvidas. Representa a ideia – provinciana, diga-se de passagem – de que membros do Judiciário brasileiro não podem ser publicamente criticados por suas posturas inadequadas – porque são e querem continuar a serem tratados como donos do país.

Voltamos aos tempos do totalitarismo judiciário? Arrisco dizer que, na verdade, jamais saímos destes tempos.

Ao participar ativamente do golpe, Gilmar parece ter esquecido que a Constituição Brasileira, em tese, ainda é democrática. Que ela protege a liberdade de expressão, vedando apenas o anonimato. Onde está escrito, na nossa Constituição, que discordar da decisão de um Ministro do STF gera indenização? Desde quando, Ministro, a Lei brasileira criminaliza a verdade?

Desde quando a democracia deixou de existir, ele dirá. Um judiciário que conluia-se com uma direita sórdida para tomar o poder através de um golpe e que cospe na Constituição que deveria proteger, de fato pode qualquer coisa.

Fonte: Blog do Miro

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A Midia Manipulativa, a História e a Volta do Velho do Restelo, por Raul Longo



Enfim, doze anos depois, a constante e cotidiana campanha da mídia deu resultado.

Não foi fácil. Deu muito trabalho recuperar a credibilidade perdida há 25 atrás, desde quando a mídia brasileira induziu o eleitor a acreditar na farsa do Caçador de Marajás.

Então a própria mídia se decepcionou com o produto que ela mesma confeccionou. Não por ser farsa, posto que por farsa o criou. Mas pela egoísta criatura não incluir o próprio criador no repartir dos despojos que quis só pra si. Em apenas dois anos, por vingança a mídia o descartou usando os mesmos que antes induziu a elegê-lo.

Qual o tempo de carência, de tolerância até o repartir dos despojos? No aferido pelo pleito de agora se efetivou o serviço que saiu melhor do que a encomenda, elevando a participação na partilha. Além do estancar da sangria e do estender do tapete escamoteando a sujeira, acima do trono; se varreu o estorvo para além da soleira. Isso tem um preço e o custo há de ser maior. A recompensa tem de equivaler aos permanentes esforços por 13 copiosos anos consecutivos e ininterruptos.

Mas lá em 1992, nas ruas em meio aos Caras Pintadas, já era tarde. Qualquer um que estuda marketing sabe que a má qualidade do produto sempre afeta a credibilidade de seu fabricante e produtor. E mais difícil recuperar a imagem de um mau produto do que construir novo produto.

Construir o Caçador de Marajás foi coisa de poucos meses, mas recuperar a imagem e a confiança no fabricante levou 25 anos. E assim, em 1994 o eleitor pôde mais uma vez errar por si próprio como propícia o aprendizado pela democracia.

Apesar dos 30 anos de inexperiência, sem o voto de cabresto do coronelato da mídia já desgastada por duas décadas de apoio à ditadura militar, o brasileiro elegeu um projeto de governo pela primeira vez desde a instauração da ditadura militar.

Ditadura que o brasileiro retirou aos brados de “Fora Globo que o povo não é bobo!”. Multidões às ruas gritando o mesmo refrão, mas na primeira marola democrática, induzidos pelo cabresto da própria Globo, elegeram um produto midiático.

O povo é assim mesmo. Como coisa viva, é tão impreciso quanto o viver. No entanto, é vivendo que se aprende e quando a marola democrática foi sucedida por uma verdadeira onda de democracia, enfim se escolheu um plano. Um projeto de governo.

Acertando ou errando o povo elegeu o Plano Real e Fernando Henrique comprou a reeleição pendurado naquele projeto que além de não ser dele depois se comprovou tão decepcionante e efêmero quanto o Milagre Brasileiro que nos jogou na boca da inflação, o mais aterrorizador dos monstros dos mares da política brasileira de então.

Ao dar conta o povo se viu adernando na vaga da inflação outra vez e só então caiu na real de que milagres não existem e nenhum plano é estável no oscilante mar da realidade econômica mundial. Sobretudo sob a imprevidente ganância de um comodoro de descontrolada e canina submissão alfandegária.

Também já era tarde pois, privatizados, não nos restavam patrimônios públicos como escaler nem boias de reservas internacionais. O tesouro foi ao fundo, o risco era total e o país submergiu ao apagão das profundezas com o peso de salários congelados por longos 8 anos invernais.

E infernais.

Mas é a democracia e a democracia é viva. Da imprecisão do viver é que se tira o aprendizado. Como coisa viva a democracia é o sistema político que permite o conserto do erro quando o eleitor se perde pelo caminho, mas apesar de recuperado o tesouro e mesmo com muita reserva de gordura, acima da voracidade da ganância da sangria estancada dos que sangram a nação, há que se temer pela democracia, pois se conhece a ditadura e seja de esquerda ou direita sabe-se que aí não há mais possibilidade de conserto algum.

A democracia é um caminho, mas quem sempre se perde é o caminhante e nunca o caminho. Como diziam os velhos navegantes, ao contrário do viver os caminhos do mar são precisos, exatos.

Em 2002 o povo teve como consertar o rumo a despeito dos astrólogos econômicos da mídia preverem tempestades, abismos e hecatombes. Condenaram o rumo escolhido pelo povo e previram que o mar da economia se abriria e engoliria o Brasil já naquele 2003.

Contrariando a mídia, o país começou a emergir naquele mesmo ano. Os astrólogos continuaram prevendo que 2004 seria fatídico, mas passou. O país singrando cada vez mais veloz e então garantiram que o fim se daria em 2005.

Como astrólogos não conseguiam acertar previsão alguma, se tentou fabricar um apocalipse virtual com bases em concretas experiências do PSDB transferidas para o PT. Criou-se o Mensalão e armou-se um motim. Fiscais da mídia se arvoraram em juízes, juízes se arvoraram em deuses e os deuses chegaram até a arrolar mitológicas literaturas que os permitiria condenar sem provas.

E de fato condenaram sem a mídia dar oportunidade para consciências nem preconização de consequências, mas ainda assim não conseguiram fazer o povo de bobo mais uma vez. Sem provas o povo não mais acreditou em milagres, magos ou justiceiros. Também se recusou a comprar caçadores de marajás por lebre.

E o Brasil emergiu de vez livrando-se do peso morto da dívida e da morte pela fome. Ao invés de mergulhar no abismo medieval do mapa astrológico da mídia, saímos do Mapa Mundial da Fome e por sete anos de tempestuosa crise em todos os oceanos navegamos com toda precisão pelos sete mares, comercializando por todo o mundo com galhardia e dignidade, sem mais mendigar descalços em cais de portos d’além mares. Tampouco bancando ridículos valentes e soberbos com povos d’além montes e cordilheiras.

Recebidos com salvas e palmas, cantados por todos os continentes, decantados à beira de todos os oceanos, o mundo era-nos e éramos o mundo. Paris foi Brasil, Nova Iorque foi Brasil, Tóquio e Pequim. Éramos o Cara e a cara do futuro do mundo. Enquanto dos esconsos de porões e do alto de tortuosas torres da mídia, os astrólogos insistiam em previsões de desgraças ano a ano, mês a mês, dia a dia, hora à hora, minuto a minuto.

Hoje o mundo deliberadamente nos afasta, nos recusa e faz questão de que fique evidente a rejeição. Praticamente nos proíbem de sair na foto, nos relegam à distância, à ausência. Sem nome e sem cara, estigmatizados como portadores de doença viral.

Ainda ontem considerados potência e estadista global, hoje somos a vergonha em todo encontro internacional. E até caso de perguntar se cheiramos mal? Talvez não, mas de toda forma cheira mal tão acintosa rejeição. Intencionalmente contra o golpe ou intenção de outro golpe de promoção internacional? Mas de todos os 19, fora um 20 excluído e relegado a zero, há 5 metros de distância? De toda as Nações Unidas resumidas a meia dúzia de palmas ocas e sem o menor entusiasmo? Sem contar os que se levantam e dão as costas.

Apesar da mídia brasileira insistir em que o golpe cumpriu com o rito constitucional, o planeta confiará que o bom resultado da eleição confirme a democracia propagada por inequívocos golpistas e pela mídia criada para apoiar 25 anos de ditadura?

Como interpretar intenções de bombardeios e manobras de palácios de pretensa Justiça, de parlamentos de facciosa e falaciosa representatividade popular? Essas eleições representam alguma realidade popular ou é mero reflexo da irreflexão de consciências incapacitadas por condicionamento a impedir raciocínio? Saberão hoje em quem votaram ontem? Por que votaram? Para que votaram?

Pelo país ou pelo ódio? Por si ou pelo que diz a TV? Pelo que se comprova ou pela convicção que desconsidera qualquer prova?

Atacasse, xingasse, agredisse! Ira e ofensas! Histeria e irrisão!

Por quê? Para quê?

Apenas por frustradas intenções de construção de poéticas pontes para o futuro? Somente para o cumprimento do papel de oposição? Rebeldia à condição decorativa do cargo? Contrariedade de menino mimado?

Ou apenas o comissionamento da corretagem do Pré-Sal?

Serão mesmo pretensões passageiras que agora satisfeitas permitirão que se retome e reinstitua a democracia?

Sarracenos sauditas e gananciosos capitais sionistas, em conluio para iludir o mundo através de terrorismos planejados e escandalosamente bem combinados, serão piratas que carregarão butins petrolíferos escondendo-os em reclusos redutos piratas?

Um eventual esvoaçar noturno de vampiros do negro sangue oleoso da terra que jorrando do mais profundo de nosso oceano nos elevaria entre as nações; mas uma vez saciados nos deixarão em paz retornando para as torres e cavernas de seus castelos em longínqua Transilvânia?

Sanguessugas nacionais ocasionalmente associados à mídia, sibila de farsas e falsetas; afortunadamente encobertos por uma geração de togas garantidoras de criminosa impunidade? Surto da peste do justicialismo fascista a ser debelada em 2018?

Existirá golpe democrático? Volta à normalidade democrática como a prometida por Castelo Branco para 50 anos antes? Para o 1968 do AI-5? Para a censura do AI-5? Para a Operação OBAN do AI-5? Para as torturas do AI-5? Os estupros do AI-5? Exílios, mortes e desaparecidos?

Ou tornamos a ser cordeiros à espera da redenção democrática de 1968, novamente aguardando outro sacrifício pelo cutelo de uma Ato Institucional 50 depois? E por mais quantas décadas para o retorno à Ilha da Democracia em busca de novo acerto em hipotético e futuro 2052 ou 3003, quem sabe?

Deixamos decapitar Penélope confiantes no retorno de Odisseu para vingar o traído futuro de Telêmaco?

Solitário Odisseu cujos marujos se acomodam na calmaria, mas é na calmaria que inexperientes grumetes se perdem por caminhos que a história confirma precisos, exatos.

Caminhos nunca se perdem, quem se perde são os caminhantes como há muito tempo ensinaram os velhos navegantes: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.

Navegar é preciso porque os caminhos do mar são sempre exatos. Mas viver é a arte do impreciso.

Individual ou coletivamente, viver nunca é exato. Ainda que a genética permita prever até a cor dos olhos do filho que nascerá, quem pode prever o caráter das gerações futuras se não cuidar de transferir, repassar as próprias experiências? Sem demonstrar as próprias percepções?

Quais os mais fieis herdeiros do nazismo? Novos germânicos ou jovens do exército do judaísmo sionista?

Qual o projeto de domínio imperialista que mais se expande no mundo atual?

Qual a genética da mídia mundial e brasileira em particular? Dos atuais sistemas de condicionamento de massas? Das mentiras repetidas mil vezes até que se torne verdade?

Revolução para implantação ou restauração da democracia é possível, mas quem na história promoveu golpe para em dois anos se conformar com o retorno democrático?

Se a rejeição popular nas urnas é motivo de golpe, por que a rejeição da política externa haverá de ser motivo de redemocratização?

Quando muito poderia ser incentivo a contragolpe, mas se por medo da precisão do navegar, tíbios marujos preferem as imprecisões do viver aguardando por novos AI-5, por que não abordar tão provida nau a deriva? Mero navio fantasma sem comando, sem rumo nem previsão. Sem seguir estrela que aponte um norte ou melhor sorte.

Muitas e terríveis são as sereias e nem mesmo é possível almejar que novas gerações tenham a mesma percepção de seus fatídicos cantos. Não se deve nem pretender, pois as percepções têm mesmo de ser outras e distintas para se detectar as muitas origens dos falsos encantos. Mas alertar sobre a inexatidão do viver é responsabilidade de todos para que a precisão dos caminhos permaneça inalterada.

Os rumos podem ser vários e de muitas variáveis, pois não importa a exatidão do viver. Se o caminho é exato, todo viver em algum momento encontrará seu próprio rumo.

Muitas e terríveis são as sereias e quem queira escutá-las que se amarre ao mastro, mas não esqueça da cera nos ouvidos de seus marujos, pois na calmaria não se pode esquecer as responsabilidades com a precisão do navegar, já que do viver pouco ou nada se poderá prever.

Por maior a calmaria a atenção da responsabilidade sempre é necessária porque se o grumete se perder do rumo pelo caminho, que seja apenas pela própria teimosia e não pela irresponsabilidade dos que deveriam ter ensinado a navegar, a ler as estrelas, prevenir das oscilações, das intempéries, do cantar das sereias e dos piratas sempre a espreita.

No leme, uma vez alguém alertou: “Não faço o que faço porque quero. Faço o que a sociedade organizada diz o que quer que eu faça”. Em política, isso é o que se chama Democracia Participativa. Com apenas 40 anos de democracia em 516 de história, o grumete brasileiro mal tem noção do que seja Democracia Representativa e ainda nem sabemos o que é a participativa que se aprende participando mesmo, fazendo junto mesmo.

Pretendendo-nos como arautos a anunciar terra à vista, abandonando-nos ao comodismo da calmaria e quando o lufar de um vento mais forte, o adernar mais brusco por uma vaga de um oceano de crises, como grumetes novatos nos pomos a culpar o almirante, perdendo a noção e a nação por trás da primeira onda mais alta do que uma marola.

Um navio não singra apenas pela experiência do almirante. Tem de haver esforços conjuntos de toda a tripulação e constante transmissão de experiências e conhecimentos sobre o içar de cada vela, a importância de cada amarra, o enlaçar de cada nó, o lançar de cada ancora, o cortar de cada onda, o aproveitar de cada vento. E ler as estrelas num universo imenso de constante aprendizado.

O inverso é permitir que o farfalhar de páginas e imagens ao vento, o esvoaçar de vaidades e enfunar das togas descontrolem bússolas e enganem astrolábios em errático rumo perdido por tão precisos caminhos de mares ditosos.

Ondas e marolas são previsíveis pela própria história do mar que sempre foi e permanecerá sendo preciso. Mas viver, não.

Por imprudência com a vida, mais uma vez o Brasil se torna uma nação que se perde de si mesma após avistar o cimo do Monte Paschoal. E segue sendo um sempre descaminho em busca de nunca alcançado oriente, de sempre insuficiente orientação.

E quem são os desgraçados que neste oceano se afogam na imprecisão do viver?

“Dize-o tu, severa Musa! Musa libérrima e audaz!” – suplicava o poeta, mas musas não libertam a ‘desgraçados que não encontram mais do que o rir calmo da turba que excita a fúria do algoz’

516 anos de história formaram suficiente espelho em que só não se enxergam os que creem que negando a chibata curarão a chaga. Viver não é preciso e somos o povo que ri de si mesmo para fingir-se algoz enquanto agoniza por desconhecer as precisões do navegar.

Inexatidões do viver de gente que abre a porta ao ladrão e vai à rua vigiar para que ninguém surpreenda o roubo da própria casa. E àquele que tentar nos alertar, será o que acusaremos de roubo como quer a sacro santa igreja da mídia à qual rezamos pela mentira nossa de cada dia. Pois só na farsa encontramos salvação.

Viver não é preciso, não é exato. Mas navegar é tão exato que até se pode reutilizar as previsões de Luiz Vaz Camões. O navegar é tão preciso que em bem pouco tempo se comprovará o que o poeta já previu há meio milênio atrás.

Os astrólogos apocalípticos da mídia jamais enxergarão. Marujos de primeira viagem, acomodados em calmarias ou seduzidos por sereias, também não. Todos igualmente transferem suas inexatidões culpando almirantes ou imprevisões do caminho que, em verdade, sempre são extremamente precisos e seguem pontuando pelas previsões daquele velho em remota praia do Restelo, desde o Canto IV de Os Lusíadas:

94

Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

                                                               95

— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

                                                                96

— "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem o povo néscio se engana!

                                                               97

— "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome proeminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?

Raul Longo

Fonte: Contexto Livre

Bob Fernandes sobre o Doria de Alckmin: "Não à Política", força de uma mídia tendenciosa e derrota do PT



Geraldo Alckmin teve estrondosa vitória com João Dória no 1º turno. E larga na frente para 2018.
Terá que tourear egos e apetites no PSDB, grande vencedor desta eleição...
Um bom problema. Isso é bem melhor do que purgar uma derrota...
Alckmin tem o PSB do seu vice, Marcio França, como alternativa e espantalho para impor-se no tucanato.
Aécio ainda comanda o partido e se fortalece se João Leite vencer em Belo Horizonte.
Serra, que não desiste nunca, à revelia do PSDB perdeu com Matarazzo e Marta.
Muito dependerá dos rumos da Lava Jato. Por ora os camburões da Lava Jato mantem fechadas as portas do lado direito.
Marcelo negocia delação. Se quiserem mesmo saber o que ele sabe, e indicam planilhas, dados e computadores da Odebrecht, baixas para 2018 serão ampliadas.
Grande derrotado, o PT já chegou às urnas encolhido. Disputou mil prefeituras menos do que em 2012. E perdeu 60% das suas 644 prefeituras.
Derrota antecipada pelo desastre econômico. Desastre esse antecedido e inflado pelo desastre no território ético-político.
O PT fez o que por duas décadas mostrou que os demais faziam. Por isso agora pagou dobrado pelo mesmo que os demais compram, ou vendem.
O "Mensalão" está nas manchetes há 10 anos. O "Petrolão" há três.
O PT se queixa: instituições da chamada Grande Mídia têm lado. Enquanto magnificam erros do PT escondem ou minimizam erros de aliados tradicionais.
Onde está a novidade? Por que, em 13 anos no Poder, o PT não convocou a sociedade para, ao menos, debater regulação econômica que impeça monopólios no setor?
Porque apostou na conciliação com quase tudo e todos. E nisso PMDB e similares são insubstituíveis.
O PMDB, apesar de derrotas como a de Paes e seu Pedro Paulo no Rio de Janeiro, segue com maior número de prefeitos. Isso conta para 2018, inclusive para formatação do Congresso.
Há outro grande vitorioso. Em São Paulo, votos brancos e nulos ganharam de Haddad, o segundo colocado.
Dória venceu anunciando "Não ser Político". Por 11.147 votos Dória perdeu para abstenção, brancos e nulos.
Estes somados, 38,5% dos paulistanos disseram "Não à Política". No Rio de Janeiro, 42,5% disseram "Não á Política". Cenário que se repetiu em outras cidades e estados.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Frei Betto sobre erros e acertos de um partido que foi e é firmemente atacado por hipócritas


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Reproduzo esse artigo de Frei Betto com o qual me identifico. É sincero e sabe manter o equilíbrio entre os acertos e os erros cometidos pelos governos Lula-Dilma.É uma auto-crítica necessária que deverá ser ainda feita por todo o partido do PT pois somente assim faz justiça à realidade, presta conta à população e começa a resgatar sua credibilidade abalada. Nunca fui filiado ao PT. Soube distinguir entre a causa que ele levava avante, dando centralidade aos pobres e o partido que servia de instrumento para esta causa. A mim pouco importa o partido que é sempre parte. Importou e continua a importar o destino dos esquecidos e feitos invisíveis que constituem um permanente desafio para a consciência ética .Para aqueles que se orientam pela mensagem de Jesus eles eles constituem um imperativo teológico, pois o Mestre os fez nossos juizes no termo final da história. Isso é o que definitivamente conta para mim. Leonardo Boff
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Continuo a fazer coro com o “Fora Temer” e a denunciar, aqui na Europa, onde me encontro a trabalho, a usurpação do vice de Dilma como golpe parlamentar. Porém, as forças políticas progressistas, que deram vitória ao PT em quatro eleições presidenciais, devem fazer autocrítica.
Não resta dúvida, exceto para o segmento míope da oposição, que os 13 anos do governo do PT foram os melhores de nossa história republicana. Não para o FMI, que mereceu cartão vermelho; não para os grandes corruptores, atingidos pela autonomia do Ministério Público e da Polícia Federal; nem para os interesses dos EUA, afetados por uma política externa independente; nem para os que defendem o financiamento de campanhas eleitorais por empresas e bancos; nem para os invasores de terras indígenas e quilombolas.
Os últimos 13 anos foram melhores para 45 milhões de brasileiros que, beneficiados pelos programas sociais, saíram da miséria; para quem recebe salário mínimo, anualmente corrigido acima da inflação; para os que tiveram acesso à universidade, graças ao sistema de cotas, ao ProUni e ao Fies; para o mercado interno, fortalecido pelo combate à inflação; para milhões de famílias beneficiadas pelo programas Luz para Todos e Minha Casa, Minha Vida; e para todos os pacientes atendidos pelo programa Mais Médicos.
No entanto, nós erramos. O golpe foi possível também devido aos nossos erros. Em 13 anos, não promovemos a alfabetização política da população. Não tratamos de organizar as bases populares. Não valorizamos os meios de comunicação que apoiavam o governo nem tomamos iniciativas eficazes para democratizar a mídia. Não adotamos uma política econômica voltada para o mercado interno.
Nos momentos de dificuldades, convocamos os incendiários para apagar o fogo, ou seja, economistas neoliberais que pensam pela cabeça dos rentistas. Não realizamos nenhuma reforma estrutural, como a agrária, a tributária e a previdenciária. Hoje, somos vítimas da omissão quanto à reforma política.
Em que baú envergonhado guardamos os autores que ensinam a analisar a realidade pela óptica libertadora dos oprimidos? Onde estão os núcleos de base, as comunidades populares, o senso crítico na arte e na fé?
Por que abandonamos as periferias; tratamos os movimentos sociais como menos importantes; e fechamos as escolas e os centros de formação de militantes?
Fomos contaminados pela direita. Aceitamos a adulação de seus empresários; usufruímos de suas mordomias; fizemos do poder um trampolim para a ascensão social.
Trocamos um projeto de Brasil por um projeto de poder. Ganhar eleições se tornou mais importante que promover mudanças através da mobilização dos movimentos sociais. Iludidos, acatamos uma concepção burguesa de Estado, como se ele não pudesse ser uma ferramenta em mãos das forças populares, e merecesse sempre ser aparelhado pela elite.
Agora chegou a fatura dos erros cometidos. Nas ruas do país, a reação ao golpe não teve força para evitá-lo.
Deixemos, porém, o pessimismo para dias melhores. É hora de fazer autocrítica na prática e organizar a esperança.
Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros.

Luis Nassif sobre Xadrez da grande derrota do PT pós Golpe e Pós Moro



"Com a vitória de Dória, quem sobe é Geraldo Alckmin e sua extraordinária capacidade de influenciar o homem médio, isto é, o homem medíocre."


As eleições municipais trazem consequências variadas para a oposição e para a situação.
As principais conclusões a serem tiradas:

Peça 1 – a derrota de Fernando Haddad

A derrota no primeiro turno em São Paulo foi a maior demonstração, até agora, da eficácia da política de “delenda PT”, conduzida pela Lava Jato junto com a mídia. Não se trata apenas de uma derrota a mais, mas a derrota do mais relevante prefeito da cidade de São Paulo desde Prestes Maia.
Enquanto Prestes Maia e Faria Lima ajudaram a consolidar a era dos automóveis, com suas grandes obras viárias, Haddad trouxe para São Paulo a visão do cidadão, colocando a política metropolitana em linha com as mais modernas práticas das grandes capitais do mundo. Não houve setor em que não inovasse, da gestão financeira responsável à Lei do Zoneamento, das intervenções viárias às políticas de inclusão.
Teve defeitos, sim. Foi excessivamente tolerante com secretários medíocres, excessivamente personalista, a ponto de impedir que os bons secretários ganhassem projeção, descuidou-se da comunicação e da presença na periferia. E não soube difundir de maneira eficiente as políticas transformadoras que construiu, vítima que foi de um massacre cotidiano da mídia.
Haddad também era o último grande nome potencialmente presidenciável do PT.
Sua derrota sepulta definitivamente as pretensões do PT de ser líder inconteste das esquerdas, acelerando a necessidade de uma frente de esquerdas acordada. E aumenta as responsabilidades sobre o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, o do Piauí, Wellington Dias, o do Maranhão, Flávio Dino.
Esse rearranjo exigirá medidas rápidas do PT, a mais urgente das quais será a de eleger uma nova Executiva em linha com os novos tempos, aberta à renovação, aos acordos horizontais, antenada com a nova cultura das redes sociais e dos coletivos. Ou o PT se refunda, ou se tornará politicamente inexpressivo.
Agora, trata-se de aguardar o segundo turno no Rio. Em caso de vitória de Marcelo Freixo, do PSOL, completam-se as condições para a unificação das esquerdas em uma frente negociada, sem aparelhismos, sem pretensões hegemônicas de quem quer que seja.

Peça 2 – o novo desenho do golpe

A vitória de João Dória Jr desequilibra as disputas dentro do PSDB. José Serra já era uma miragem comandado um exército de três ou quatro pessoas. Como chanceler, tem acumulado uma sucessão inédita de gafes. Não há nenhuma possibilidade de se recuperar politicamente.
Aécio Neves ainda se prevalece de sua condição de presidente do partido, mas foi alvejado seriamente pelas delações da Lava Jato – apesar da blindagem garantida pelo seu conterrâneo Rodrigo Janot, Procurador Geral da República (PGR).
Com a vitória de Dória, quem sobe é Geraldo Alckmin e sua extraordinária capacidade de influenciar o homem médio, isto é, o homem medíocre.
Se for adiante a tese do golpe dentro do golpe, com a impugnação total da chapa Dilma-Temer, é provável que se decida colocar na presidência da República alguém com competitividade para se candidatar à reeleição em 2018. Nesse caso, o nome seria Alckmin.
O discurso da anti-política consegue, assim, dois feitos. O primeiro, o de eleger prefeito da maior cidade da América Latina uma pessoa armada dos conceitos mais anacrônicos possíveis sobre gestão metropolitana. E coloca como favorito provavelmente o governador mais inexpressivo da história moderna de São Paulo.

Peça 3 – o desenho das esquerdas

No “Xadrez de Fernando Haddad e a frente das esquerdas” (http://migre.me/v8ftE) levanto a necessidade da explicitação de um padrão de governança das esquerdas, para reconstrução de uma alternativa de poder.
Nos próximos meses, à destruição das políticas sociais do governo federal, corresponderá à destruição das políticas implementadas em São  Paulo pela era Haddad.
O caminho seria construir uma instância de articulação suprapartidária, uma espécie de Conselho de Gestão juntando os principais estados e municípios governados pelos ditos governos progressistas. Os acordos se fariam acima das idiossincrasias das Executivas (especialmente do PT), e em cima de propostas concretas, de implementação de políticas públicas.
Seria a maneira de juntar os vastos contingentes que despertaram novamente para a política, depois de excluídos dela pela burocratização do PT – jovens, intelectuais, especialistas diversos. Nesse caso, Haddad poderia ser o grande articulador, devido à experiência acumulada em seus tempos de Ministro da Educação e prefeito de São Paulo, sua aceitação por jovens e intelectuais.

Peça 4 – o acirramento da repressão

Nem se pense que a vitória de Doria em São Paulo reduzirá a gana repressora.
Nos últimos dias, houve as seguintes ofensivas:
·       Indiciamento de Lula.
·       Prisão de Guido Mantega.
·       Prisão de Antônio Palocci.
·       Novo inquérito contra Lula, para investigar a colocação de uma antena de celular pela Oi, próxima ao sítio em Atibaia. Esses quatro itens precedendo as eleições.
·       Decisão do TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4a Região) de consagrar o Estado de Exceção.
·       Demissão de professor de direito no Mackenzie, por artigo contra o golpe.
·       Ameaça de demissão a quem insistir no golpe, formulada por diretor de redação da revista Época.
·       Demissão de José Trajano, comentarista símbolo da ESPN, por manifestações políticas.
  • Afastamento do ex-MInistro Carlos Gabas dos quadros do Ministério da Previdência por ter ajudado no pedido de aposentadoria de Dilma Rousseff
Não há sinais de que essa escalada enfrentará resistências de jornais e jornalistas.
A fragilidade financeira dos jornais está submetendo-os a episódios outrora impensáveis, frente à camarilha dos 6 que assumiu o poder. Em outros tempos, com toda sua dose de conservadorismo, o Estadão se insurgiu contra práticas da ditadura.
Agora, dificilmente.
De grandes monstros tentaculares da estatização, por exemplo, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal se transformaram nas empresas mais admiradas pela mídia.
Na primeira semana após o golpe, a Folha convidou a diretoria da CEF e do BB para almoços sucessivos. E o Estadão inventou um novo prêmio para as empresas mais admiradas. No segmento bancário, deu CEF e BB na cabeça.
O balanço dos repasses publicitários à velha mídia, por parte do Miguel do Rosário, contemplou apenas a publicidade institucional, aquela dos ministérios. Quando se consolidar com os dados das estatais, se verá o desenho da bolsa-mídia.
A ideia do direito penal do inimigo está sendo aplicada em todos os cantos.
Na matéria sobre publicidade nos blogs considerados de esquerda, a Folha encampou a tese de Michel Temer, de que a publicidade somente seria para quem veiculasse notícias de interesse. Ou seja, notícias que atendessem a um público anti-esquerda.
Com o Estado de Exceção explicitamente endossado pelo TRF4, a colunista Mirian Leitão, de O Globo, depois de colocar gasolina na fogueira que fritou Mantega e Palocci, teimou em explicar que não se pode comparar os tempos atuais com os da ditadura. Reviveu a tese da ditabranda. Depois justificou que ela foi torturada etc. etc., o que lhe dá obviamente enorme autoridade moral para explicar que Estado de Exceção não é bem isso e para colocar mais gasolina na fogueira.
Em ambos os casos, fica nítida a pesada herança inquisitorial de uma cultura – a portuguesa – que aceitava toda sorte de inclusão, desde que quem chegasse professasse a fé católica.
Esse será o maior desafio do Brasil moderno: a luta pela volta do estado de direito, independentemente de quem esteja no poder.

Altamiro Borges: Um tsunami conservador arrasa o país




Ainda é muito cedo para analisar o resultado das eleições municipais deste domingo (2). A contagem dos votos segue em muitas cidades médias e pequenas e o segundo turno, no final de outubro, é que definirá, de fato, o novo quadro de correlação de forças no país. Mesmo assim, a primeira impressão é de que o Brasil sofreu um tsunami conservador, que terá consequências desastrosas para o sofrido povo brasileiro. No rastro do "golpe dos corruptos", que depôs a presidenta Dilma e levou ao Palácio do Planalto uma gangue de mafiosos neoliberais, a eleição confirmou a guinada direitista no Brasil.


O principal partido de esquerda do país, o PT, só conseguiu vencer o primeiro turno em uma capital, Rio Branco (AC). Em outras capitais e centros urbanos, a sigla não conseguiu nem chegar ao segundo turno. O "inesperado" crescimento de Fernando Haddad na reta final da campanha - que novamente coloca em dúvida a lisura do "Datafalha" e do "Glopobe" - não foi suficiente para evitar a vitória no primeiro turno do empresário-picareta João Doria, expressão maior do elitismo nativo. Já o PCdoB também sofreu duros revezes eleitorais. A sigla segue na disputa do segundo turno em Aracaju (SE).

O PSOL obteve importantes vitórias parciais no Rio de Janeiro, com o candidato Marcelo Freixo, e em Belém, com Edmilson Rodrigues. No segundo turno, ambos enfrentarão disputas dificílimas, o que exigirá uma amploa unidade do campo popular para derrotar as forças conservadoras. A legenda não obteve, porém, o resultado desejado em Porto Alegre, onde a presidenciável Luciana Genro ficou em quarto lugar e dificultou a chegada do campo popular, com Raul Pont (PT), ao segundo turno. A mesma frustração se manifestou em São Paulo, com a candidatura de Luiza Erundina.

No computo geral, o PSDB surge como o maior vitorioso da direita nativa. Elegeu prefeitos em duas capitais (São Paulo e Teresina) e disputará o segundo turno em outras sete capitais - incluindo Porto Alegre e Belo Horizonte. É certo que os tucanos seguem rachados e que as bicadas no ninho tendem a ficar ainda mais sangrentas. O governador Geraldo Alckmin bancou, na marra, a candidatura de João Doria e quase levou a sigla à implosão. Ele desponta agora como o principal presidenciável da sigla, para desespero do cambaleante Aécio Neves e do eterno candidato José Serra.

Também houve o crescimento de várias siglas fisiológicas, com a eleição de falsos pastores, policiais metidos a justiceiros e outros trastes conservadores. É preciso também analisar o fiasco do PMDB do Judas Michel Temer, o que fica para um próximo texto. Uma visão parcial sobre o mapa dos prefeitos eleitos indica que o Brasil pendeu mais à direita neste domingo. O tsunami conservador terá reflexos em importantes pautas, devendo reforçar a onda pela retirada dos direitos sociais e pela regressão civilizatória no país. O novo cenário político exigirá forte unidade do campo popular, intensa batalha de ideias na sociedade e muita disposição para a luta.