quinta-feira, 25 de junho de 2015

Boechat, Malafaia e "A hora da rola", em texto de Aytron Centeno



  "E hoje, na democracia duramente conquistada à Ditadura, quem tornará caro, muito caro, o desplante de ameaçar de morte, ao vivo e nas caixas de comentários, uma deputada federal — ou qualquer outra pessoa? Quando a pichação, nos mesmos termos, da calçada da casa de um homem de TV que ousou contrariar o decálogo da mídia empresarial, merecerá algo mais do que palavras sussurradas? Ameaças que também alcançam um dos mais conhecidos jornalistas e escritores do país? E que preço pagarão aqueles militares e policiais que desonram suas fardas e cospem nos seus deveres perante o Estado Democrático de Direito ao postarem nas redes sociais exortações ao assassinato? Quem se interporá entre a civilização e a barbárie para impedir que a última estupre a primeira como parece ser o desejo da bancada BBB, a maior do congresso, a do Boi, da Bala e da Bíblia?"

Segue trechos do texto "A hora da rola", de Ayrton Centeno, extraído do Contexto Livre:

Jornalista, Boechat foi de uma imprecisão inaceitável. Que diabos de rola Malafaia deveria localizar? Seria a Stratophelia turtur mais conhecida como rola-comum? Teria que ser a rola-do-Senegal — Streptopelia senegalensis — ou bastaria uma simples rola-miniatura, a Mathula? Qual o peso da variável cromática na afanosa busca? Sim, porque o enrolado Malafaia poderia optar pela rola-de-peito-rosa, a Streptopelia lugens, ou a rola-de-olhos-vermelhos, que os ornitólogos identificam como Streptopelia semitorquata. Para depois Boechat dizer-lhe que deveria ter capturado uma insinuante rola-gemedora, a Streptopelia decipiens.

Ignora-se até mesmo se o pastor saiu à cata de ave tão esquiva. Tampouco se esclareceu como o pipilar da rola aplacaria a ansiedade de Malafaia. Por isto mesmo, o bom pastor pode ter ignorado a prescrição e perseverado na sua trilha. Sem nenhum cajado, apenas munido das próprias forças para enfrentar e vencer os demônios que urdem o sequestro da alma daquele homem de Deus.

Significa, então, que o destampatório de Boechat caiu no vazio? Suspeito que não. Pilhérias à parte, ele apontou o caminho. Não necessariamente para a adoção do desaforo como prática cotidiana visando a definição de litígios. Mas para cravar um marco, balizar um limite: daqui nem um passo mais atrás. A proposta está posta, resta saber se haverá quem a assuma e honre.

Quem peitará o fascismo ascendente? Quem o denunciará em todas as frentes, formas e momentos? Nas noites da ditadura, uma aterrorizada Marília Pêra ouvia berros na frente de casa: “Marília, vamos te matar!” Compreende-se, eram as trevas e os fascistas estavam com as mãos livres para punir sem punição. E, hoje, na democracia, quem tornará caro, muito caro, o desplante de ameaçar de morte, ao vivo e nas caixas de comentários, uma deputada federal — ou qualquer outra pessoa? Quando a pichação, nos mesmos termos, da calçada da casa de um homem de TV que ousou contrariar o decálogo da mídia empresarial, merecerá algo mais do que palavras sussurradas? Ameaças que também alcançam um dos mais conhecidos jornalistas e escritores do país? E que preço pagarão aqueles militares e policiais que desonram suas fardas e cospem nos seus deveres perante o Estado Democrático de Direito ao postarem nas redes sociais exortações ao assassinato? Quem se interporá entre a civilização e a barbárie para impedir que a última estupre a primeira como parece ser o desejo da bancada BBB, a maior do congresso, a do Boi, da Bala e da Bíblia?

Quem contestará, pelo Direito e com o Direito, a banalização de prisões por parte de uma Justiça partidarizada que mais aparenta portar um tapa-olho de pirata e não a venda sobre os dois olhos da efígie que a interpreta? Quando o Supremo Tribunal Federal deixará de julgar com um olho no Direito e outro na direita para assumir plenamente sua função de protetor dos direitos do cidadão? Quem informará ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal que o fato de procuradores e agentes engajados explicitamente na campanha da chapa presidencial derrotada de 2014 não os qualifica para investigar aqueles que os venceram?

Alguém avisará, no interior de um governo que empanturra corporações midiáticas com publicidade oficial, que corvos arrancam os olhos daqueles que os criam? Quem explicará ao centro do poder que não é possível jogar o peso da disputa por corações e mentes nas costas da blogosfera progressista que, com bodoques, enfrenta diariamente as Panzer Divisions da ofensiva midiática? Quem confrontará as forças que levaram Getúlio ao suicídio, golpearam Jango, aliaram-se à ditadura e tentam destruir os governos que, aos trancos e barrancos, transformaram o Brasil em uma nação menos feroz com seus pobres? Quis o destino que um partido, acusado de atrasado e intolerante, fosse aquele que mais combateu o atraso e a intolerância. Onde anda? E onde se enfiaram as todas as vozes comprometidas com a agenda civilizatória, de todas as siglas, quando o atraso urra nas nossas portas?

The Second Coming, o mais famoso poema de W. B. Yeats e o único que conheço e me atrevo a citar, foi escrito na Europa há quase 100 anos mas parece que foi ontem e no Brasil. Sobretudo por dois versos, quando diz algo como “os melhores carecem de convicção, enquanto os piores estão cheios de intensidade passional”. É uma fotografia de 2015. A um desses entupidos de passionalidade, Boechat respondeu na bucha. E, sem querer, estabeleceu um desafio na arena política. Há mais rolas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia. Todas aguardando invocação.

Uma coisa é certa: esta batalha não será ganha por gente que pensa com as pernas. Não será ganha debaixo da cama. É um lugar que acumula mofo, imundície e covardia. E nenhum desses elementos serve à luta política.

Marco Aurélio Carone: “Aécio foi a Caracas visitar golpistas. Já eu (jornalista que ele perseguiu), nem a família nem a Comissão de Direitos Humanos puderam me visitar”


Marco Aurélio Carone mantinha o site Novo Jornal, onde publicava denúncias contra os tucanos mineiros, especialmente Aécio, que governou Minas de 2003 a 2010.
Acabou preso. Ficou encarcerado de 20 de janeiro a 4 de novembro de 2014, no complexo penitenciário segurança máxima Nelson Hungria, em Contagem, região metropolitana de BH.
O bloco parlamentar Minas Sem Censura (MSC) denunciou à época: a prisão de Carone foi  uma armação e teve a ver com o chamado “mensalão tucano” e a Lista de Furnas no contexto das eleições de 2014.



Aécio persegue jornalistas e blogueiros que o criticam, como foi o caso do jornalista Marco Aurélio Carone.


Segue texto de Conceição Lemes, extraído dos sites Viomundo e Contexto Livre:



Na quinta-feira passada, 18 de junho, Aécio Neves (PDSB-MG) e outros seis senadores brasileiros protagonizaram uma irresponsabilidade sem limite. Com o objetivo de provocar politicamente o governo Nicolás Maduro e constranger o de Dilma Rousseff, eles foram à Venezuela visitar Leopoldo Lopez e Antonio Ledezma, que a mídia brasileira trata como “presos políticos”.

O partido de Lopez, o Vontade Popular, não tem um deputado na Assembleia Venezuelana. Ele pretendia extinguir todas as instituições democráticas do país. Foi o principal incitador das “guarimbas”, manifestações violentíssimas que ocorreram no país no início de 2014, e que resultaram nas mortes de 43 pessoas.

Um membro do governo venezuelano denunciou a Miguel do Rosário, de O Cafezinho, que esteve lá na semana passada:

“Em 23 de janeiro de 2014, Leopoldo Lopez, Maria Corina Machado [deputada cassada] e Antonio Ledezma [prefeito de Caracas, também preso] identificados como a ala radical da oposição, convocam a imprensa para anunciar o plano que eles chamaram ‘La Salida’. O objetivo do plano era a deposição do presidente Nicolás Maduro. Houve pequenas manifestações inicialmente. Mas em 12 de fevereiro, deste mesmo ano, eles convocaram uma manifestação até o Ministério Público. Era o “dia da juventude” e a convocação foi voltada principalmente para os estudantes universitários. A convocatória foi feita por Leopoldo, ele veio encabeçando a manifestação, e quando chegaram diante da Procuradoria, os líderes sumiram e começou a bagunça. Quebraram a sede do ministério público, tentaram incendiá-la.”.

“Vários agentes da ordem foram executados com tiros na cabeça. Eles (os “guarimbeiros”) colocavam fios de arame de poste a poste, atravessando a rua, que provocaram a degola de vários motociclistas”.

Desde o Brasil, uma pessoa acompanhou com especial atenção a esparrela dos tucanos e agregados e a caradura de Aécio: o jornalista Marco Aurélio Carone.

Carone mantinha o site Novo Jornal, onde publicava denúncias contra os tucanos mineiros, especialmente Aécio, que governou Minas de 2003 a 2010.

Acabou preso. Ficou encarcerado de 20 de janeiro a 4 de novembro de 2014, no complexo penitenciário segurança máxima Nelson Hungria, em Contagem, região metropolitana de BH.

O bloco parlamentar Minas Sem Censura (MSC) denunciou à época: a prisão de Carone foi  uma armação e teve a ver com o chamado “mensalão tucano” e a Lista de Furnas no contexto das eleições de 2014.

— O que te passou pela cabeça quando leu a notícia de que Aécio Neves iria à Venezuela visitar dois golpistas?

— Tive certeza absoluta de que o senador é uma pessoa desprovida de qualquer principio ético e moral. Ele continua imaginando que, através de uma cobertura midiática favorável, pode manter uma imagem desassociada da truculência e da censura. Mas não pode. Jornalistas mineiros sabem muito bem disso. E o que aconteceu comigo é a maior prova. Permaneci preso em um presídio de segurança máxima por 9 meses e 20 dias, em condições sub-humanas, sendo que nos últimos três últimos — justamente no período eleitoral —, em isolamento absoluto.

Tudo sem qualquer condenação. Meu crime: Publicar matérias que denunciavam o esquema criminoso e corrupto montado por ele em Minas Gerais

— Qual foi fundamentação para prisão?

— Manutenção da ordem pública e evitar que eu continuasse a publicar matérias que, na opinião do Ministério Público de Minas e da juíza que determinou a minha prisão, poderiam interferir negativamente nas eleições de 2014.

Meu jornal foi literalmente saqueado: os bens e documentos apreendidos sequer foram relacionados. Cabe destacar que, três meses antes da minha prisão, eu tinha ganho uma ação por acusação idêntica no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), que determinara que o Novojornal com terminação .br, fosse restabelecido. Eu tinha sido impedido de funcionar igualmente por uma medida cautelar indevida e absurda. Decisão esta que até hoje não foi cumprida pelo Poder Judiciário e Ministério Público mineiros.

— Uma provocação: Aécio foi te visitar na prisão?

— O ‘democrata’ foi a Caracas visitar golpistas. Já eu, em Minas, nem mesmo minha família pode me ver. Até a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais foi impedida de manter contato comigo.

Meu tratamento cardíaco e de diabetes foi interrompido. Estava recuperando de uma cirurgia de quadril devido um acidente automobilístico. Não tive qualquer atendimento fisioterápico. Minha perna direita agora, quase sete meses depois, começa a dar sinal de que vai voltar a movimentar, permitindo que eu largue as muletas… Praticamente todo o tempo de prisão permaneci deitado.

— Como está o processo contra você?

— Parado.

— A Globo foi à Venezuela acompanhar a visita de Aécio aos dois golpistas. Só que ela, assim como a mídia em geral, ignorou totalmente o que aconteceu com você, que foi realmente preso político do governo tucano de Minas. O que acha disso?

— São coisas da vida, meu bisavô e avô já passaram por isso, assim como meu pai em 1964. Ele era prefeito de Belo Horizonte e foi cassado pelo golpe miliar. Embora dono de duas usinas de açúcar, devido ao bloqueio de seus bens, entrou em tremenda dificuldade financeira.

Minha família composta por mim, minha mãe meu pai, dois irmãos e uma irmã, fomos morar em um quarto do Hotel Amazonas em Belo Horizonte. À noite, meu pai descia comprava uma pratada de macarrão e todos nos comíamos satisfeitos. Não poucas vezes, no dia seguinte, os jornais Estado de Minas e Diário da Tarde estampavam na capa manchetes dizendo que meu pai tinha sido cassado porque roubara. Respondeu 14 processos sem sair do Brasil. E em pleno regime de exceção foi absolvido.

Talvez daqui alguns anos quando fizerem uma nova comissão da verdade meu caso seja citado pela grande imprensa.

Conceição Lemes
No Viomundo

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Intenções de Moro e colegas, além da direita e mídia, na Lava Jato: quebrar o país para dar o golpe




textos de Miguel do Rosário e Paulo Moreira Leite

Sim, a estratégia é essa.

Asfixiar a economia brasileira, e dar um golpe.

A direita não está nem aí para o sofrimento de milhões. E ainda vende o discurso de “salvar o país”, ou pior, “refundar a república”.

Afinal, é fácil enganar o povo brasileiro, cujo comportamento foi moldado por décadas de monopólio midiático.

A Globo, nascida com dinheiro do golpe, se tornou um membro da família.

O governo tem uma parcela de culpa, ao não ter investido em sua politização, deixando-o vulnerável à manipulação.

Desde muito tempo que deveríamos, da mesma forma, ter iniciado discussões para democratizarmos nossa justiça e nos protegermos do arbítrio de promotores e juízes.


A REPÚBLICA LAVA JATO PODE QUEBRAR O PAÍS

19 de junho de 2015

por Paulo Moreira Leite, em seu blog.

Prisões de Marcelo Odebrecht e de presidente da empreiteira Andrade Gutierrez ameaçam gerar um efeito destruidor sobre economia brasileira

Com as prisões de hoje, a Operação Lava Jato não entrou em sua 14a. fase, como foi anunciado em Curitiba.

Entrou numa etapa em que uma ação judicial ultrapassa a fronteira do que é legítimo e razoável para assumir a fisionomia de uma operação abertamente política, capaz de destruir parcelas ainda saudáveis da economia, agravando todos os sacrifícios que tem sido feitos — e serão feitos — pela população nos próximos meses. As prisões e mandados criam uma situação desnecessária de incerteza e insegurança num país que quer trabalhar em paz, progredir e construir uma vida melhor. Habituada a justificar as centenas de prisões preventivas com o argumento de que é preciso preservar a “ordem pública,” a partir de hoje a Lava Jato tornou-se definitivamente uma ameaça a ordem pública.

Como décadas atrás explicou Louis Brandeis, um dos mais brilhantes integrantes da Suprema Corte dos Estados Unidos, o que se promove com esse comportamento é a baderna:

— Nosso governo é o mestre poderoso e onipresente. Para o bem ou para o mal ensina todo povo pelo seu exemplo. Se o governo torna-se infrator da lei, cria ele próprio o desrespeito a mesma, incita cada um a tornar-se a própria lei e portando, à anarquia.

Marcelo Odebrecht, herdeiro e principal executivo do grupo do mesmo nome, e Octavio Azevedo, principal executivo da Andrade Gutierrez, não têm importância apenas como pessoas físicas, que devem ser respeitadas em seus direitos e garantias. Também tem importância como pessoas jurídicas. Por mais que executivos que dirigem grandes empresas possam ser acusadas de cometer toda série de atos ilícitos que marcam a política brasileira — atos que devem ser investigados e punidos de forma responsável e isenta — as companhias fazem parte da história do país. Ajudaram a construir a sétima economia do mundo. Respondem por centenas de milhares de empregos. Estão presentes em mercados importantes da economia global. Sua prisão é um péssimo sinal interno e externo. Ajuda a enfraquecer o país e pode contribuir, especialmente, para piorar as condições de vida da população.

As prisões ocorrem dias depois que, num recorde de descontração, um delegado da Polícia Federal afirmou que “muito provavelmente” o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva será submetido a uma investigação. Assim, como hipótese.

Impossível deixar de associar as prisões desta manhã à campanha da força tarefa do Ministério Público, com o indispensável respaldo do juiz Sergio Moro, para impedir que o país encontre uma saída racional para a crise aberta pelas denúncias da Lava Jato.

Estamos falando dos acordos de leniência,que representam uma solução lúcida para a situação de ruína em que várias empresas se encontram. O que se pretende, basicamente, é assegurar a punição de quem for considerado culpado de crimes de corrupção, mas preservar o patrimônio das empresas. Não é uma invenção brasileira. Foi empregada na Alemanha, quando se investigaram as denuncias recentes contra a Siemens — que só não foram investigadas no Brasil, embora não faltassem indícios imensos em vários governos estaduais. Também foi empregado nos Estados Unidos. Na reconstrução alemã, após o pesadelo nazista, os dirigentes de empresas foram julgados e condenados. As companhias foram poupadas. Isso explica, por exemplo, por que a Volkswagen, nascida de uma campanha de Adolf Hitler para construção de um carro popular, pode ser preservada.

O problema é que os procuradores condenam os acordos de leniência, que podem — ou não — ser celebrados pela advocacia geral da União.

É didático observar seus argumentos, que denunciam um projeto político, digno de ser disputado em urna, com base no voto popular — e não pelo braço da judicialisação. Em entrevista ao Estado de São Paulo de hoje, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima explica o que está acontecendo no país — e o que se pretende fazer diante daquilo que chama de “falsa República.”

Um dos mais politizados integrantes do MP, Lima mostra diagnóstico que mistura afirmações verdadeiras com observações absurdas, que só ajudam a reforçar uma visão sombria e distorcida da realidade. Afirma que no Brasil vigora um “capitalismo de compadres”, conceito que tem uma matriz ideologica inegável — onde funciona um capitalismo “puro”, sem compadres ou equivalentes? — ainda que possa ter uma ter uma base na realidade. Numa visão que encobre progressos sociais recentes na distribuição de renda e combate a miséria, assegura que na política brasileira “o interesse privado é a real motivação dos atos públicos. Qualquer um pode trabalhar duro, pode tentar alcançar o sucesso, mas isso somente será permitido a uma minoria que se apropriou dos mecanismos políticos e que pretende impedir a entrada de novos competidores em seus ‘mercados.’” Procurando esclarecer a verdadeira função política da Lava Jato, o procurador declarou ao Estado de S. Paulo (em 18/6/2015):

— O que nos preocupa é não conseguirmos montar para a população um quadro completo da corrupção, da cartelização, das mais diversas fraudes, enfim, da extensa criminalidade que permeia as relações público-privadas em nosso país. Cada acusação é como uma pequena peça de um imenso quebra-cabeça, e precisamos encaixar um número suficiente de peças desse puzzle para que todos que olharem esse conjunto possam saber como ele ficaria se completo. Só assim a população poderá separar o joio do trigo e poderemos enfim refundar nossa República.”

Então ficamos combinados: enquanto o MP tenta impedir os acordos que poderiam trazer um alívio ao ambiente político e econômico do país, as prisões de hoje se destinam a montar “um quadro completo da corrupção” e assim por diante. O espetáculo precisa continuar porque os procuradores acham que “só assim a população poderá separar o joio do trigo” e “refundar nossa República.” Não são guardiões da Constituição. Tornaram-se ideológos, doutrinadores, reformadores sociais sem mandato. E maus professores, além de tudo.

No espetáculo da Lava Jato não há lugar para apurar nem esclarecer, quem sabe por curiosidade, o jantar de R$ 7 milhões em donativos de empresários — tanto representantes da Odebrecht como da Andrade Gutierrez se encontravam no Alvorada naquela noite — para o Instituto Fernando Henrique Cardoso, quando ele ainda ocupava a presidência da República.

Advogados experimentados não deixaram de notar um detalhe. As prisões desta manhã ocorrem quando faltam poucos dias para o recesso do Judiciário, o que sempre dificulta o trâmite de recursos para a soltura de prisioneiros. Embora seus advogados possam entrar com recursos e pedidos de habeas corpus, os pedidos terão um longo caminho a percorrer entre tribunais intermediários antes de chegar ao Supremo Tribunal Federal. É claro que o ministro Teori Zavaski, relator do caso no STF, tem o direito de intervir a qualquer momento, atravessando o percurso no meio. Tem poderes para isso. Até agora, não agiu dessa forma. Aguardou pacientemente que o caso chegasse a sua mesa para só então se manifestar.

Nós já sabíamos que o modelo de trabalho de Sergio Moro, o juiz que comanda a Operação Lava Jato, é a Operação Mãos Limpas — aquela que entregou o país ao bunga-bunga Sylvio Berlusconi e transformou uma das glórias culturais e políticas da humanidade num reino de segunda classe, dependente e subordinado às potências vizinhas, a começar pela Alemanha de Angela Merkel.

Também sabíamos que, para Daltan Dallagnol, no necessário combate à corrupção o Brasil deveria mirar-se no espelho de Hong Kong — uma cidade-estado onde vivem 7 milhões de pessoas, que não têm sequer direito de escolher seus governantes pelo voto direto, em urna. O Brasil estava neste estágio pré-democrático até 1989. É bom não esquecer.

Sabemos agora, através do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, uma das vozes principais da Lava Jato, que o plano é “refundar a República.”

A partir dessa manhã, será possível enxergar melhor o que pretendem com isso.

Conselho de Direitos Humanos da ONU diz NÃO ao retrocesso reacionário maquiado de Redução da Idade Penal


Em carta que será lida nesta quinta-feira (25), entidades de Direitos Humanos ligadas à ONU denunciam a tentativa da Câmara dos Deputados do Brasil como um retrocesso



Fonte do texto e imagem: Luis Nassif Online / Jornal GGN

Jornal GGN - O Conselho de Direitos Humanos da ONU irá denunciar a tentativa do Congresso de reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, amanhã (25). O pronunciamento, assinado por mais de 60 entidades brasileiras, incita toda a delegação da Organização das Nações Unidas a apelar para a Câmara dos Deputados do Brasil a não aprovação da emenda. "Isso não só seria um retrocesso para os adolescentes no Brasil, mas também uma ameaça às normas internacionais sobre o tema", diz o documento.

"A idade penal é uma falsa solução para o problema do crime. Os fatos, dados públicos e experiências de outros países mostram que a redução da idade de responsabilidade criminal não reduz as taxas de criminalidade", afirma a carta aberta, que será lida.

"Os índices de criminalidade só podem ser reduzidos investindo fortemente em políticas preventivas, como a educação. Vale a pena lembrar que o Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo, com mais de 600 mil prisioneiros", alerta o texto.

Nas últimas horas, a ofensiva recebeu o apoio de 92 organizações internacionais de direitos humanos. Na carta conjunta que está circulando entre as delegações de todos os Estados-membros do Conselho, as entidades pedem que o tema seja incluído nas comunicações oficiais com o Brasil, aumentando a pressão sobre o governo brasileiro.

Leia a carta na íntegra:

Carta aberta para a não redução da maioridade penal

A todos os membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU

As organizações da sociedade civil, assinadas abaixo, incitam sua delegação para fazer um comunicado durante a 29ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU para as autoridades brasileiras, especialmente ao Presidente da Câmara dos Deputados e todos os membros representantes brasileiros, para não aprovar a redução da maioridade penal, impedindo um sério revés para os direitos humanos do país, especialmente para os direitos das crianças.

O Brasil sempre foi reconhecido pela sua legislação avançada em relação à proteção de crianças e adolescentes. Agora, a Casa Legislativa está prestes a aprovar uma alteração na Constituição que visa reduzir a idade para uma pessoa ser processada criminalmente como um adulto. As propostas que estão ocorrendo, além de algumas variações, têm a intenção de reduzir a idade de 18 para 16.

A Comissão de Justiça e Constituição e uma Comissão Especial formada para avaliar a alteração na Casa já aprovaram a proposta de emenda à Constituição. Nos próximos dias, espera-se que esta emenda constitucional será votada pelo Plenário da Câmara brasileira.

Tal como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos afirmou, "o projeto de reforma constitucional atual que está sendo analisado pela Câmara dos Deputados do Brasil constituiria um retrocesso grave e uma violação dos direitos humanos fundamentais dos adolescentes, pois violaria a garantia de os adolescentes serem submetidos a um sistema especializado de justiça juvenil"¹. Isso não só seria um retrocesso para os adolescentes no Brasil, mas também uma ameaça às normas internacionais sobre o tema.

Além do mais, a idade penal é uma falsa solução para o problema do crime. Os fatos, dados públicos e experiências de outros países mostram que a redução da idade de responsabilidade criminal não reduz as taxas de criminalidade. Os índices de criminalidade só podem ser reduzidos investindo fortemente em políticas preventivas, como a educação. Vale a pena lembrar que o Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo, com mais de 600 mil prisioneiros².

Conforme a ONU afirmou, "se os delitos cometidos por jovens são tratados exclusivamente como uma questão de segurança pública e não como um indicador de restrição do acesso aos direitos fundamentais, cidadania e justiça, o problema da violência no Brasil pode ser ampliado, com graves consequências no presente e no futuro³".

Por esta razão, nós mais uma vez incitamos a delegação para ecoar o apelo à Câmara dos Deputados a não aprovar esta emenda. Agradecemos por sua atenção a estas questões prementes.

Sérgio Moro, o juíz representante de uma conspiração de classe à serviço da retomada do poder pela Casa Grande tradicional



  "Não é banal o movimento que fazem a Justiça e o Ministério Público paranaense para inviabilizar um partido político nacional, o PT, ou qualquer outro que venham a botar no mesmo pacote – de preferência pequenos e ligados ao governo – para fingir que essa decisão não é uma perseguição ao partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que venceu as eleições dos tucanos Geraldo Alckmin e José Serra, e da presidenta Dilma Rousseff, que ganhou dois pleitos dos tucanos José Serra e Aécio Neves, o último deles o ano passado. Isso faz parte de uma estratégia de intimidação tão assustadora que transfere para o aparelho judicial de um Estado que sequer tem relevância na política nacional as decisões sobre o futuro da política nacional e sobre a legitimidade do voto do eleitor brasileiro; e que dá a uma decisão judicial de primeira instância o direito de proscrever partidos políticos."

Textos de Maria Inês Nassif e Luis Nassif, extraídos do site Megacidadania:

Leiam dois sensacionais artigos que motivaram a confecção do cartaz que ilustra este post. Um é do portal Carta Maior e o texto é de Maria Inês Nassif e o outro é do portal GGN do Luis Nassif (os links seguem ao final).

SEGUEM TRECHOS DOS RESPECTIVOS ARTIGOS (com os links para os textos na íntegra)

 I 

O golpe de mão do juiz Sérgio Moro contra o PT

  O juiz Sérgio Moro é apenas um numa conspiração de classe destinada a criar uma onda de pânico e um clima de histeria contra o PT.

  Maria Inês Nassif

   Não é banal o movimento que fazem a Justiça e o Ministério Público paranaense para inviabilizar um partido político nacional, o PT, ou qualquer outro que venham a botar no mesmo pacote – de preferência pequenos e ligados ao governo – para fingir que essa decisão não é uma perseguição ao partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que venceu as eleições dos tucanos Geraldo Alckmin e José Serra, e da presidenta Dilma Rousseff, que ganhou dois pleitos dos tucanos José Serra e Aécio Neves, o último deles o ano passado. Isso faz parte de uma estratégia de intimidação tão assustadora que transfere para o aparelho judicial de um Estado que sequer tem relevância na política nacional as decisões sobre o futuro da política nacional e sobre a legitimidade do voto do eleitor brasileiro; e que dá a uma decisão judicial de primeira instância o direito de proscrever partidos políticos.

  Um golpe de mão aplicado pela Justiça no quadro partidário brasileiro é, de fato, a inovação que a pouco neutra justiça paranaense pode legar para o país inteiro. Moro adora inovações, e segue os passos do inovador Joaquim Barbosa que, à frente do chamado Caso Mensalão, no Supremo Tribunal Federal, deixou de ser juiz e agiu como promotor, rasgou a Constituição, negou provas que inocentariam alguns réus e pediu a condenação de outros tantos sem provas, com o beneplácito do plenário da mais alta corte judiciária do país, com o aplauso da imprensa e as loas da oposição.

  É tão irracional a “sofismação” da realidade e a consolidação de sensos comuns que é difícil entender por que, de repente, as pessoas tenham escolhido se destituir do direito à inteligência. Cair na armadilha dos sensos comuns criados pelo ódio impede a visão do óbvio. O tesoureiro do PT, João Vaccari, foi preso pelo juiz Moro porque arrecadou dinheiro legal para o PT, vindo de empresas implicadas na Operação Lava Jato. As empreiteiras que encheram os cofres do partido de dinheiro doaram igualmente para partidos de oposição, na mesma proporção. O raciocínio do juiz – segundo o qual dinheiro vindo de empresas fornecedoras da Petrobras, mesmo legal, transforma-se em crime porque foram conspurcados pela ação dessas empresas nas operações com a estatal – não vale para os outros. Não existe a mínima neutralidade nessa decisão.

  A insanidade dos argumentos destinados a inibir a defesa do PT é outra coisa própria desse clima, a prova de que o país surfa na crista da onda de comoção. Por dois anos, desde a condenação de petistas no processo do Mensalão, criou-se um clima coletivo de ridicularização ou de raiva daqueles que ponderaram contra a ilegalidade de várias das decisões e condenações feitas pelo Supremo. O julgamento do Mensalão é uma mácula que a Suprema Corte brasileira demorará a se livrar. E a defesa que pessoas fizeram dos juízes que julgaram para atender o público e a mídia é uma mácula que a democracia brasileira terá de lidar daqui para a frente.


II

Advogados da Odebrecht poderão renunciar coletivamente

Luis Nassif - Jornal GGN

  Nos próximos dias é possível que ocorra uma renúncia coletiva dos advogados que defendem a Odebrecht na Operação Lava Jato. A alegação deles é que houve cerceamento amplo da defesa.

  Há dois fatos justificando a medida.

 Um deles foi a invasão do Departamento Jurídico da Odebrecht pela Polícia Federal, que carregou computadores e arquivos e, com eles, toda a estratégia de defesa dos advogados.

 Em episódios anteriores, de invasão de escritórios de advogados, havia a imputação de um fato criminoso.

 Desta vez, não houve nada. A polícia simplesmente invadiu a empresa, foi direto no Departamento Jurídico, recolheu documentos, devassando a defesa sem motivo e alimentando as suspeitas de que os advogados estavam sendo monitorados.

  Os documentos foram levados sem lacre, ficando acessíveis a delegados e procuradores. Ali – na opinião dos advogados da Odebrecht – rompeu-se o estado de direito.



domingo, 21 de junho de 2015

Luciano Martins Costa discute as novas aventuras da Coluna Aécio (Na Venezuela)




PROGRAMA Nº 2632

CRISE DIPLOMÁTICA

As novas aventuras da coluna Aécio

Por Luciano Martins Costa em 19/06/2015 | 17 comentários
Comentário para o programa radiofônico do Observatório Observatório da Imprensa, 19/6/2015

Ouça aqui

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Os jornais de sexta-feira (19/6) tratam como saga a barafunda em que se meteram senadores brasileiros que tentavam intervir em problemas internos da Venezuela. Como se sabe, os parlamentares liderados pelo senador Aécio Neves, do PSDB, candidato derrotado à Presidência da República em 2014, voaram até a capital venezuelana mas não puderam sair da região do aeroporto, que foi bloqueada por manifestantes e agentes de trânsito.
A viagem, em avião da Força Aérea Brasileira, tinha como objetivo oficial uma visita a opositores do governo de Nicolás Maduro que se encontram detidos ou em prisão domiciliar, acusados de organizar protestos violentos contra o regime “bolivariano”. Em termos comparativos, seria o equivalente a ter um senador brasileiro privado de sua liberdade por haver estimulado manifestantes que pregam o golpe militar.
Formalmente, pode-se admitir que a comitiva se encontrava em missão humanitária, com o propósito de averiguar as condições dos venezuelanos perseguidos pelo governo de Maduro, um dos quais, segundo se noticia, estaria em greve de fome. Mas, dado o contexto de confrontação política que se vive no Brasil, não se pode descartar a hipótese de que se tratava de uma versão aérea da “coluna Aécio”, que se desmanchou pateticamente na Praça dos Três Poderes no dia 27 de maio (ver aqui).
O governo brasileiro reagiu formalmente, em termos diplomáticos, ao que se considerou um constrangimento a parlamentares nacionais que usavam uma aeronave da FAB. Mas o incidente não deve passar desses protocolos.
A rigor, também para a chamada opinião pública tanto faz se a comitiva foi vítima de truculência ou se foi se meter em assunto afeto à soberania do país vizinho – aquela parcela da população que acredita em tudo que sai na imprensa vai continuar pensando que a Venezuela é governada por uma tirania comunista.
Interessante é notar a cautela das principais lideranças do PSDB, que observam com certo embaraço a nova bravataria do ex-governador mineiro e seu fiel escudeiro, o senador paulista Aloysio Nunes Ferreira, duas das vozes mais radicais da oposição. Na disputa interna pela candidatura presidencial do partido em 2018, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ganha pontos com essas trapalhadas de seu rival.
O ovo da serpente
Nas redes sociais, a iniciativa de Aécio e seus companheiros de voo é testada por perguntas provocativas. “Na próxima viagem, que tal ir resgatar o brasileiro Islã Hamed, que faz greve de fome há dois meses numa prisão da Palestina?”. “E se deputados venezuelanos viessem ao Brasil pedir a libertação de Vaccari?” No entanto, como se pode depreender em dois segundos de reflexão, não é disso que se trata.
A viagem dos senadores oposicionistas a Caracas é parte do programa de confrontação incessante com o governo petista, com a criação sucessiva de situações de crise. A tentativa de produzir um incidente internacional tem o propósito de alimentar a cultura do ódio no campo político e minar a governabilidade. O tempo e o espaço ocupados pela aventura da nova “coluna Aécio” são roubados de questões como o ajuste nas contas públicas e a redução da maioridade penal.
Por outro lado, pode-se afirmar que atos como esse estimulam a ação de radicais, no momento em que o governo, para atender a exigências de órgãos internacionais, se vê obrigado a se adequar apressadamente às normas do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o combate ao terrorismo. Essa é uma nova frente na qual os setores reacionários do Congresso poderão confrontar o Executivo, pressionando para que movimentos sociais sejam criminalizados.
Não custa lembrar que, por conta das manifestações de rua iniciadas em 2013, três senadores propuseram transformar em crime de terrorismo os protestos durante a Copa do Mundo de 2014. Até mesmo um parlamentar petista, o senador Walter Pinheiro, da Bahia, entrou nessa canoa furada. Recentemente, este observador foi alertado para mensagens postadas no Facebook por um empresário e publicitário famoso, que pregava o assassinato de autoridades.
Consultada sobre a investigação de fatos como esse, a Agência Brasileira de Inteligência deu a seguinte resposta: “A área de Contraterrorismo da ABIN tem atuação ampla, que abrange não apenas ações de grupos terroristas publicamente estabelecidos. Atos de violência contra a sociedade cometidos por motivação política são também objeto de interesse desse departamento da ABIN”.
No contexto de radicalismos estimulado pelos pitbulls da mídia, a patética provocação dos senadores oposicionistas contribui para aquecer o ovo da serpente.

O ínclito e midiaticamente incorruptível juiz Moro e o dinheiro da CBF

Sérgio Moro deve explicação ao distinto público por qual motivo aceitou participar de evento bancado pela CBF de Ricardo Teixeira.

Moro refestelou-se bancado pela CBF

A cbf bancou MoroSérgio Moro deve explicação ao distinto público por qual motivo aceitou participar de evento bancado pela CBF de Ricardo Teixeira.

Em reportagem publicada na sexta-feira (29/05), a Folha de S. Paulo indicou ligação de delegados da Polícia Federal com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e seu ex-presidente Ricardo Teixeira. Na matéria, são apontados 13 inquéritos contra a entidade que, em 15 anos, não foram concluídos e que, neste período, a ainda teria patrocinado congressos, viagens e cedido campo para torneio de futebol de delegados.

Entre os casos apontados pelo jornal, está a liberação de R$ 300 mil da CBF para o 4º Congresso Nacional da Associação, realizado no hotel Gran Marquise, em Fortaleza (CE). Na ocasião, além do patrocínio, Ricardo Teixeira foi um dos palestrantes. Curiosamente, outro painelista do mesmo evento foi o juiz federal Sergio Moro.

A prova contra Moro
O Diário do Centro do Mundo informou que a apresentação de Sérgio Moro no IV Congresso Nacional de Delegados de Polícia Federal estava disponível no Youtube.

Por algum motivo, o vídeo foi retirado.

FONTE: Conexão Jornalismo


ACESSE TAMBÉM:
CBF de Teixeira patrocinou Moro
Sérgio Moro, o justiceiro da Globo, foi patrocinado pela CBF

Sérgio Moro, um juiz a serviço da TV Globo e do PSDB




  "Nos últimos meses vimos desaparecer das manchetes as denúncias de contas secretas no HSBC da Suíça que envolvem bilhões de reais depositados ilegalmente por políticos, empresários e donos dos meios de comunicação. Vimos as denúncias de corrupção na CBF que envolvem políticos e emissoras de televisão desaparecer em apenas uma semana. O mesmo se deu com as denúncias das licitações fraudulentas no Metrô de São Paulo. Até a fraude fiscal de quase 1 bilhão de reais da maior emissora de televisão deixou de ter importância, isso sem falar no mensalão do PSDB de Minas. Portanto, o país não está numa cruzada contra a corrupção, mas num jogo já conhecido de golpe para a retomada do poder pelos setores que sempre mandaram no país."


Os principais interessados na Operação Lava Jato são o PSDB e as multinacionais do petróleo. Ambos clientes da esposa de Sérgio Moro.

Segue texto de Emanuel Cancella, extraído do site da Carta Maior

Fotos Públicas
A esposa do juiz Sérgio Moro, que está à frente da Operação Lava Jato, advoga para o PSDB do Paraná e para multinacionais de petróleo. A denúncia foi publicada no Wikleaks.

O fato já seria suficiente para inviabilizar a participação do juiz Moro no processo que apura a corrupção na Petrobrás (Operação Lava Jato). O Código de Processo Civil, em seu artigo 134, manda arguir o impedimento e a suspeição do juiz: “ IV- Quando nele estiver como advogado da parte o seu cônjuge ou qualquer parente seu, consanguínio ou afim, em linha reta: ou na linha colateral até o segundo grau”.

Mais claro impossível. Ora, quem são os principais interessados na Operação Lava Jato, que afeta diretamente a Petrobrás? O PSDB e as multinacionais do petróleo, clientes da mulher de Moro! São eles os grandes beneficiados com essa Operação.

Na véspera da eleição presidencial, a Revista Veja estampou uma foto da então candidata Dilma, afirmando: “Dilma e Lula sabiam da corrupção na Petrobras”. A TV Globo repercutiu no Jornal Nacional.

A capa da Veja – um panfleto pró-Aécio – e o noticiário da emissora de maior audiência (ainda que decadente) manipularam até o final e certamente conseguiram arrancar alguns milhões de votos da presidenta, embora não o suficiente para derrotá-la.

Depois do estrago causado, a farsa montada pela Veja e pela Globo foi desmentida. O próprio advogado do doleiro Alberto Youssef (suposto delator) assegurou que “o seu cliente não fez declaração alguma envolvendo os nomes de Lula e Dilma”.  Quem provavelmente “sabia” da manipulação montada, era o juiz Sérgio Moro.

Parcialidade e blindagens se revelam como um novo escândalo


A sociedade não deve nenhum respeito a um juiz que extrapola suas funções e, sem nenhuma base jurídica, destrata a autoridade máxima do país. É o que aconteceu no segundo turno das eleições presidenciais, quando foram veiculadas as acusações – depois desmentidas. Por esse fato, o juiz Sérgio Moro deveria se desculpar publicamente.

Por mais que os brasileiros queiram ver na cadeia corruptos e corruptores -  também me incluo entre os indignados - não é possível aceitar que a Justiça tenha dois pesos e duas medidas. O juiz Sérgio Moro mantém preso o tesoureiro do PT, mas não mandou prender os tesoureiros dos demais partidos citados em delação premiada, dentro da mesma operação, dentre os quais havia políticos do PSDB, PMDB, PP e outros. O tesoureiro do PSDB, Marcio Fortes, que foi tesoureiro de campanha de FHC e de José Serra, além do envolvido com o PSDB na Lava Jato é titular de conta para lavagem de dinheiro no HSBC da Suíça. Mas continua solto.

A parcialidade de muitos juízes se revela como um novo escândalo, tão grande quanto aqueles que apuram. Pior é a blindagem de personagens, como o atual presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha. Será ele refém ou artífice de um projeto conservador em andamento que pratica uma verdadeira devassa, derrubando conquistas históricas da sociedade civil e dos trabalhadores?

Por que não são investigados e punidos os empresários de comunicação que falam e escrevem o que bem entendem, contra tudo e contra todos, sem nenhuma regulamentação?

Por que esses escândalos não têm a mesma repercussão na mídia? O que se diz é que órgãos de comunicação também estariam envolvidos, em escândalos bilionários, como o Swisslaikes, Zelotes e Trensalão.

A lei determina que todos os envolvidos em corrupção, corruptos e corruptores, depois da ampla defesa e, se condenados, sejam presos e os bens adquiridos por meio da corrupção sejam ressarcidos. Mas a regra deveria valer para todos os partidos!

A TV Globo deu ao juiz Sérgio Moro o título de personalidade do ano. A TV Globo apoiou e cresceu à sombra da ditadura, foi contra as eleições diretas e, no governo de FHC, na década de 1990, fez campanha pela privatização da Petrobrás, comparando a estatal a um paquiderme e chamando os petroleiros de marajás.

A Globo e o PSDB sempre defenderam a privatização da Petrobrás. O seu projeto de país tem sido derrotado nas urnas. Mas, por vias transversas, está sendo retomado. É o que aponta o projeto do senador do José Serra que retira a Petrobrás como operadora única do pré-sal e acaba com o regime de partilha, retornando ao pior modelo, que é o de concessão, instituído em 1997 pelo entreguista FHC.

Como funcionário da Petrobrás e brasileiro não posso aceitar calado essa tramoia contra a empresa que é o maior patrimônio da nação e a única que pode pagar a dívida social que temos com nosso povo. A sociedade não pode permitir que a Globo e o PSDB destruam a Petrobrás.
___________

Emanuel Cancella 
é coordenador do Sindicato dos Petroleiros do Estado do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ) e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP).
Créditos da foto: Fotos Públicas

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Ricardo Boecaht dá a merecida resposta ao vendilhão hipócrita Silas Malafaia




Na manhã da sexta-feira dia 19 de Junho de 2015, o jornalista Ricardo Boechat critica em seu programa de rádio alguns líderes evangélicos que pregam discursos de intolerância, segregação e ódio, atacando pessoas que possuem religiões diferentes, afirmando que eles têm uma parcela de culpa na recente onda de crimes contra líderes de religiões espíritas ( http://extra.globo.com/casos-de-polic... ).

  Silas Malafaia, o pastor da grana alta, em seguida postou no seu Twitter mensagens acusando Boechat de ele sim fazer um discurso de ódio contra os evangélicos e o "chama" para um debate cara-a-cara. Então o jornalista dá a resposta acima ao vivo em seu programa. A resposta que todos os
esclarecidos gostariam de dar ao máximo mentor da hipocrisia farisáica. Ouça no video abaixo:



Façam uma campanha a favor da liberdade religiosa


Kayllane Campos Rio de Janeiro, Brasil

Tenho apenas 11 anos e já sou vítima da intolerância religiosa. Como o Brasil inteiro viu, nos jornais, TV e pelas redes sociais, fui atingida por uma pedra na cabeça ao sair de um culto de candomblé. O machucado foi forte, mas a maior dificuldade será esquecer a sensação de que eu poderia morrer. Não quero que mais ninguém passe por esta situação. Por isso, criei este abaixo-assinado, para que o ministro de Direitos Humanos, Pepe Vargas, providencie uma campanha a favor da liberdade religiosa.

No Brasil, já temos uma lei muito importante contra a intolerância religiosa, que tem as mesmas medidas contra o racismo. Mas a grande maioria das pessoas não conhecem. O país já teve muitas campanhas contra o racismo, contra a homofobia e contra a violência contra a mulher. Isso é ótimo! Chegou a hora de termos também uma campanha contra a intolerância religiosa.

Peço que você assine e compartilhe este abaixo-assinado. Ele é a nossa força para transformar este ato de violência em algo bom, algo que vai fazer as pessoas serem mais solidárias e tolerantes.

Kayllane Campos
(com apoio de sua família)
Assine em Change.org

Leonardo Boff, Ecologia Integral, Grito da Terra, Grito dos Pobres e a Encíclica Laudato Si do Papa Francisco


A Carta Magna da ecologia integral: grito da Terra-grito dos pobres




  Leonardo Boff




 Antes de qualquer comentário vale enfatizar algumas singularidades da encíclica Laudato sí do Papa Francisco.
É a primeira vez que um Papa aborda o tema da ecologia no sentido de uma ecologia integral (portanto que vai além da ambiental) de forma tão completa. Grande surpresa: elabora o tema dentro do novo paradigma ecológico, coisa que nenhum documento oficial da ONU até hoje fez. Fundamental é seu discurso com os dados mais seguros das ciências da vida e da Terra. Lê os dados afetivamente (com a inteligência sensível ou cordial), pois discerne que por detrás deles se escondem dramas humanos e muito sofrimento também por parte da mãe Terra. A situação atual é grave mas o Papa Francisco sempre encontra razões para a esperança e para a confiança de que o ser humano pode encontrar soluções viáveis. Honra os Papas que o antecederam, João Paulo II e Bento XVI, citando-os com frequência. E algo absolutamente novo: seu texto se inscreve dentro da colegialidade, pois valoriza as contribuições de dezenas de conferências episcopais do mundo inteiro que vão dos USA, da Alemanha, do Brasil, da Patagonia-Camauhe até do Paraguai. Acolhe as contribuições de outros pensadores como os católicos Pierre Teilhard de Chardin, Romano Guardini, Dante Alighieri, de seu mestre argentino Juan Carlos Scannone, do protestante, Paul Ricoeur e do muçulmano sufi Ali Al-Khawwas. Por fim, os destinatários são todos os seres humanos, pois todos são habitantes da mesma casa comum (palavra muito usada pelo Papa) e padecem das mesmas ameaças.
O Papa Francisco não escreve na qualidade de Mestre e Doutor da fé mas como um Pastor zeloso que cuida da casa comum e de todos os seres, não só dos humanos, que habitam nela.
Um elemento merece ser ressaltado, pois revela a”forma mentis”(a maneira de organizar seu pensamento) do Papa Francisco. Este é tributário da experiência pastoral e  teológica das igrejas latino-americanas que à luz dos documentos do episcopado latinoamericano (CELAM) de Medellin (1968), de Puebla(1979) e de Aparecida (2007) fizeram uma opção pelos pobres contra a pobreza e em favor da libertação.
O texto e o tom da encíclica são típicos do Papa Francisco e da cultura ecológica que acumulou.  Mas me dou conta de que também  muitas expressões e modos de falar remetem ao que vem sendo pensado e escrito principalmente na América Latina. Os temas da “casa comum”, da “mãe Terra”, do“grito da Terra e do grito dos pobres”, do “cuidado”, da “interdependência entre todos os seres, “do valor intrínseco de cada ser”, dos “pobres e vulneráveis” da “mudança de paradigma” do “ser humano como Terra” que sente, pensa, ama e venera, da “ecologia integral” entre oturos, são recorrentes entre nós
A estrutura da encíclica obedece ao ritual metodológico usado por nossas igrejas e pela reflexão teológica ligada à prática de libertação, agora assumida e consagrada pelo Papa: ver, julgar, agir e celebrar.
         Primeiramente, revela sua fonte de inspiração maior: São Francisco de Assis, chamado por ele de “exemplo por excelência de  cuidado e de uma ecologia integral e que mostrou uma atenção especial aos pobres e abandonados”(n.10; 66).
E então começa com o ver: ”O que está acontecendo à nossa casa”(nn.17-61). Afirma o Papa :”basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma deteriorização de nossa casa comum”( n.61). Nesta parte incorpora os dados mais consistentes com referência às mudanças climáticas (nn.20-22), à questão da água (n.27-31), à erosão da biodiversidade (nn.32-42), à deteriorização da qualidade da vida humana  e à degradação da vida social (nn.43-47), denucía a alta taxa de iniquidade planetária, afetando todos os âmbitos da vida (nn.48-52) sendo que as principais vítimas são os pobres (n. 48).
Nesta parte, traz uma frase que nos remete à reflexão feita na América Latina:”Hoje não podemos desconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social que deve integrar a justiça nas discussões sobre o ambiente para escutar tanto o grito da Tera quanto o grito dos pobres”(n.49). Logo a seguir acrescenta:”gemidos da irmã Terra se unem aos gemidos dos abandonados deste mundo”(n.53). Isso é absolutamente coerente, pois logo no início diz que “nós somos Terra”(n. 2; cf. Gn 2,7), bem na linha do grande cantor e  poeta indígena argentino Athaulpa Yupanqui:”o ser humano é Terra que caminha, que sente, que pensa e que ama”.
Condena a proposta de internacionalização da Amazônia que “apenas serviria aos intereses da multinacionais”(n.38). Há uma afirmação de grande vigor ético:”é gravíssima iniquidade  obter importantes benefícios fazendo pagar o resto da humanidade, presente e futura, os altíssimos custos da degradação ambiental”(n.36).
Com tristeza reconhece:”nunca temos ofendido nossa casa comum como nos últimos dois séculos”(n.53). Face a esta ofensiva humana contra a mãe Terra que muitos cientistas denunciaram como a inauguração de uma nova era geológica -o antropoceno – lamenta a debilidade dos poderes deste mundo que, iludidos, “pensam que tudo pode continuar como está”como alibi para “manter seus hábitos autodestrutivos” (n.59) com “um comportamento que parece suicida”(n.55).
Prudente, reconhece a diversidade das opiniões (nn.60-61) e que “não há uma única via de solução”(n.60). Mesmo assim “é certo que o sistema mundial é insustentável sob vários pontos de vista porque deixamos de pensar os fins do agir humano”(n.61) e nos perdemos na construção de meios destinados à acumulação ilimitada á custa da injustiça ecológica (degração dos ecossistemas) e da injustiça social (empobrecimento das populações). A humanidade simplesmente “defraudou a esperança divina”(n.61).
O desafio urgente, então, consiste em “proteger nossa casa comum”(n.13); e para isso precisamos, citando ao Papa João Paulo II : “de uma conversão ecológica global”(n.5); “uma cultura do cuidado que impregne toda a sociedade”(n.231).
Realizada dimensão do ver, se impõe agora a dimensão do julgar. Esse julgar é realizado por duas vertentes, uma científica e outra teológica.
Vejamos a científica. A encíclia dedica todo o terceiro capítulo na análie “da raíz humana da crise ecológica”(nn.101-136). Aqui o Papa se propõe analisar a tecnociência, sem preconceitos, acolhendo o que ela trouxe de“coisas preciosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano”(n. 103).      Mas esste não é o problema. Ela se independizou, submeteu a economia, a política e a natureza em vista da acumulação de bens materiais (cf.n.109). Ela parte de um pressuposto equivocado que é a “disponibilidade infinita dos bens do planeta”(n.106), quando sabemos que já encostamos nos limites físicos da Terra e grande parte dos bens e serviços não são renováveis. A tecnociência se tornou tecnocracia, uma verdadeira ditadura com sua lógica férrea de domínio sobre tudo e sobre todos (n.108).
A grande ilusão, hoje dominante, reside na crença de que com a tecnociência se  podem resolver todos os problemas ecológicos. Essa é uma diligência enganosa porque “implica isolar as coisas que estão sempre conexas”(n.111). Na verdade, “tudo é relacionado”(n.117) “tudo está em relação”(n.120), uma afirmação que perpassa todo o texto da encíclica como um ritornelo, pois é um conceito-chave do novo paradigma contemporâneo. O grande limite da tecnocracia está no fato de  “fragmentar os saberes e perder o sentido de totalidade (n.110)“. O pior é “não reconhecer o valor intrínseco de cada ser e até negar um peculiar valor do ser humano”(n.118).
O valor intrínseco de cada ser, por minúsculo que seja, é permanenemente enfatizado pela encíclica (n.69) , como o faz a Carta da Terra. Negando esse valor intrínseco estamos impedindo que “cada ser comunique a sua mensagem e dê glória a Deus”(n.33).
O desvio  maior produzido pela  tecnocracia é o antropocentrismo moderno. Seu pressuposto ilusório é que as coisas apenas possuem valor na medida em que se ordenam ao uso humano, esquecendo que sua existência vale por si mesmo (n.33). Se é verdade que tudo está em relação, então,”nós seres humanos somos unidos como irmãos e irmãs e nos unimos com terno afeto ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe Terra”(n.92). Como podemos pretender dominá-los e vê-los na ótica estreita da dominação por parte do ser humano?
Todas estas “virtudes ecológicas”(n.88) são perdidas pela vontade de poder como dominação dos outros e da natureza. Vivemos uma angustiante “perda do sentido da vida e da vontade de viver juntos”(n.110). Cita algumas vezez o teólogo italo-alemão Romano Guardini (1885-1968), um dos mais lidos nos meados do século passado e que escreveu um livro critico contra as pretenções da mordernidade(n.83: Das Ende der Neuzeit, 1959)
A outra vertente do julgar é de cunho teológico. A encíclica reserva um bom espaço ao “Evangelho da Criação”(nn. 62-100). Parte justificando a contribuição das religiões e do cristianismo, pois sendo a crise global, cada instância deve, com o seu capital religioso, contribuir para o cuidado da Terra (n.62). Não insiste nas doutrinas mas  na sabedoria presente nos vários caminhos espirituais. O cristianismo prefere falar de criação ao invés de natureza, pois “criação tem a ver com um projeto de amor de Deus”(n.76). Cita, mais de uma vez, um belo texto do livro da Sabedoria (21,24) onde aparece claro que “a criação é da ordem do amor”(n.77) e que Deus emerge como “o Senhor amante da vida”(Sab 11,26).
O texto se abre para uma visão evolucionista do universo, sem usar a palavra, mas fazendo um circunlóquio, referindo-se ao universo “composto por sistemas abertos que entram em comunhão uns com os outros”(n.79). Utiliza os principais textos que ligam Cristo encarnado e ressuscitado com o mundo e com todo o universo, tornando sagrada a matéria e toda a Terra (n.83) É neste contexto que cita P.Teihard de Chardin (1881-1955, n. 83 nota 53) como precurssor desta visão cósmica.
O fato de o Deus-Trindade ser relação de divinas Pessoas tem como consequência que todas as coisas em relação sejam ressonâncias da Trindade divina (n.240).
Citando o Patriarca Ecumênico Bartolomeu da Igreja ortodoxa “reconhece que os pecados contra a criação são pecados contra Deus”(n.7). Daí a urgência de uma conversão ecológica coletiva que refaça a harmonia perdida.
A encíclica conclui esta parte, acertadamente:”a análise mostrou a necessidade de uma mudança de rumo….devemos sair da espiral de autodestruição em que nos estamos afundando”(n.163). Não se trata de uma reforma, mas, citando a Carta da Terra, de buscar “um novo começo”(n.207). A interdependência de todos com todos nos leva a pensar “num só mundo com um projeto comum”(n.164).
Já que a realidade apresenta mútiplos aspectos, todos intimamente relacionados, o Papa Francisco propõe uma  “ecologia integral” que vai além da costumeira ecologia ambiental (n.137). Ela recobre todos os campos, o ambiental, o econômico, o social, o cultural, o espiritual e também a vida cotidiana(n. 147-148). Nunca esquece os pobres que testemunham tambem sua forma de ecologia humana e social, vivendo laços de pertença e de solidariedade de uns para com os outros (n.149).
O terceiro passo metodológico é o agir. Nesta parte, a encíclica se atém aos grandes temas da política internacional, nacional e local (nn.164-181). Sublinha a interdependência do social e do educacional  com o ecológico e constata lamentavelmente os constrangimentos que o predomínio da tecnocracia traz, dificultando mudanças que refreiam a voracidade da acumulação e do consumo e que podem inaugurar o novo (n.141). Retoma o tema da economia e da política que devem servir ao bem comum e criar as condições de uma plenitude humana possível (n.189-198). Volta a insistir no diálogo entre a ciência e a religião, como vem sendo sugerido pelo grande biólogo Edward O.Wilson (cf. o livro  A criação :como salvar a vida na Terra, 2008). Todas as religiões “devem buscar o cuidado da natureza e a defesa dos pobres”(n.201)
Ainda no aspecto do agir desafia a educação no sentido de criar a “cidadania ecológica”(n.211) e um novo estilo de vida, assentado sobre o cuidado, a compaixão, a sobriedade compartida, a aliança entre humanidade e o ambiente, pois ambos estão umbilicalmente ligados e a corresponsabilidade por tudo o que existe e vive e pelo nosso destino comum (nn.203-208).
Por fim, o momento do celebrar. A celebração se realiza num contexto de “conversão ecológica”(n.216) que implica uma “espiritualidade ecológica”(n.216).  Esta se deriva não tanto das doutrinas teológicas mas das motivações que a fé suscita para cuidar da casa comum e “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo”(216). Tal vivência é antes uma mística  que mobiliza as pessoas a viverem o equilíbrio ecológico, “aquele interior consigo mesmo, aquele solidário com os outros, aquele natural com todos os seres vivos e aquele espiritual com Deus”(n.210). Aí aparece como verdadeiro que “o menos é mais” e que podemos ser felizes com o pouco.
No sentido de celebração “o mundo é mais que uma coisa a se resolver, é um mistério grandioso para ser contemplado na alegria e no louvor”(n.12).
O espírito terno e frateno de São Francisco de Assis perpassa todo o texto da encíclica Laudato sí.  A situação atual não significa uma tragédia anunciada, mas um desafio para cuidarmos da casa comum e uns dos outros. Há no texto leveza, poesia e alegria no Espírito e inabalável esperança de que se grande é a ameaça, maior ainda é a oportunidade de solução de nossos problems ecológicos.
Termina, poeticamente com as palavras “Para além do sol”, dizendo: “caminhemos cantando. Que nossas lutas e nossas preocupações por esse planeta não nos tirem a alegria da esperança”(n.244).
Apraz-me terminar com as palavras finais da Carta da Terra que o proprio Papa cita (n.207):”Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade e pela intensificação no compromisso pela justiça e pela paz e pela alegre celebração da vida”.
Este texto será um capitulo de um livro em italiano Curare la Terra, Editrice EMI, Bologna 2015.

Leonardo Boff é colunista do JBonline