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segunda-feira, 17 de abril de 2023

Privilégios e mordomias reforçam espírito de casta na cúpula militar - e isso é péssimo para o país

 

"Os confortos exclusivos são um meio simples e direto para uma barganha política", diz Paulo Moreira Leite

www.brasil247.com - Militares

Militares (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O debate sobre as remunerações especiais da alta oficialidade das Forças Armadas do país voltou à ordem do dia neste início do governo Lula e  envolve uma  questão mais grave do que se costuma imaginar. 

A discussão serve como alerta contra um fenômeno que costuma corroer a própria democracia -- a formação de uma casta social abrigada na cúpula do Estado brasileiro, força política capaz de desenvolver interesses  próprios e colocar-se acima da sociedade para defendê-los a qualquer custo. 

Numa entrevista, a pesquisadora Ana Penido, pós-doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, descreve a relação entre as Forças Armadas e os cofres do Estado brasileiro nos seguintes termos:  "Quando se abre o orçamento de Defesa, é quase tudo RH (recursos humanos). Está gastando mais com pessoal e não com equipamentos, tecnologia, pesquisa ou outra coisa. É um poço sem fundo: quanto mais pedem dinheiro, mais eles gastam com eles próprios". (Folha de S. Paulo, 14 e 15 de abril 2023). 

Embora Ana Penido não empregue o termo "casta" na entrevista, trata-se de uma noção de grande utilidade em nossa história recente. 

Estamos falando de uma nação submetida  a uma desigualdade  social persistente e profunda. Aqui se soma  uma perversa herança escravocrata  a um sistema cruel de superexploração do trabalho assalariado, base para um projeto de sistema de bem-estar social às voltas com carências graves e permanentes. 

Neste país onde a aposentadoria da imensa maioria trabalhadores e trabalhadoras perdeu direitos históricos após o golpe de 2016, a reforma da Previdência dos militares chama atenção pelo conforto que lhes assegura. 

Eles já recebiam uma gratificação especial no momento da passagem para a reserva, equivalente a quatro vezes o soldo do último posto. Mantiveram o direito a receber esse prêmio exclusivo, com a diferença de que o valor dobrou. 

"Na prática, os generais passaram a receber até R$ 300 mil no ato da aposentadoria -- valor que, antes, chegava a R$ 150 mil", escreve a Folha. A única novidade não foi essa. 

Numa atividade onde o deslocamento entre regiões diferentes do país faz parte da rotina prevista de trabalho, ocorrem situações que chamam a atenção, pois envolve auxílio para mudanças. Enquanto parlamentares têm direito a uma ajuda fixa de R$ 40 000 no início e no fim de cada legislatura, os benefícios recebidos na cúpula militar envolvem gastos em outro patamar, como mostram dois casos apontados pelo jornal. 

Entre agosto de 2022 e março de 2023, as duas mudanças de um general quatro estrelas custaram R$ 290  000. No mesmo período, outro oficial do mesmo escalão fez duas mudanças, por R$  275 000. Numa síntese da situação, a professora Ana Penido explica: "Havia um corte orçamentário na época, regras mais duras para aposentadorias dos civis, e a carreira militar acabou com mais benefícios do que prejuízos na reforma da Previdência deles". 

Nesta situação, é fácil compreender a função política do espírito de casta. Num país que reserva carências graves para a maioria de brasileiros e brasileiros, os confortos exclusivos são um meio simples e direto para uma barganha política, que mantém os militares como uma força interessada na preservação de uma ordem social reconhecidamente injusta e excludente. 

Este é o jogo político-militar, antes e depois do retorno de Lula ao Planalto. 

Alguma dúvida?


sábado, 30 de julho de 2022

A Mídia finge não enxergar a gravidade das conexões bolsonaristas com o nazismo. Artigo de Paulo Moreira Leite

 "A presença do deputado Dudu Bolsonaro num encontro de nazistas na Flórida foi tratada com banalidade pela mídia", escreve Paulo Moreira Leite. "É absurdo"


Em primeiro lugar, estamos falando de um personagem de confiança absoluta de Jair Bolsonaro, que disputa a reeleição depois de  administrar o Brasil como um governo de traição nacional. 

Também estamos falando de nazismo, com quem a família presidencial cultiva relações comprovadamente próximas.  

Nenhum movimento político do século XX deixou uma herança tão monstruosa e atroz, o que explica a semi-clandestinidade de seus movimentos e aparições.   

Pois é. Em julho de 2022, quando faltam 9 semanas para o primeiro turno da eleição presidencial, a candidatura Bolsonaro se encontra em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto.  E aí Dudu vai encontrar nazistas na Flórida, num encontro onde o infalível Donald Trump, candidatíssimo a um segundo mandato contra um Joe Biden enfraquecido, também estava  presente. 

Do lado de fora, alguns amiguinhos chegaram a desfilar com bandeiras com a suástica. Outros  exibem as iniciais da SS. 

Num país que possui empresas de mídia classificadas entre as maiores do planeta, nossos grandes jornais e emissoras de TV estão devendo reportagens investigativas, em profundidade,  capazes de esclarecer as  conexões nazistas da família Bolsonaro. Tanta falta de curiosidade chega a ser suspeita. Alguma dúvida?


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

“Ida de Moro para consultoria americana revela promiscuidade sem limites”, diz o jornalista Paulo Moreira Leite

 

O colunista Paulo Moreira Leite critica a ida de Sérgio Moro para a consultoria Alvarez & Marsal e aponta conflito de interesses. “Depois de ajudar a quebrar as construtoras, vai atuar em recuperação judicial”

Paulo Moreira Leite e Sérgio Moro

Paulo Moreira Leite e Sérgio Moro (Foto: Felipe Gonçalves/Brasil 247 | Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

247O jornalista Paulo Moreira Leite, colunista do Brasil 247 e da TV 247, criticou, no programa Bom Dia 247, a decisão do ex-juiz Sergio Moro de se tornar sócio da consultoria estadunidense Alvarez & Marsal, que atua em processos de recuperação judicial de grandes empresas, como a Odebrecht e a OAS. “Isso revela a promiscuidade sem limites da Lava Jato”, diz PML, que escreveu o livro “A outra história da Lava Jato”. Segundo ele, há um claro conflito de interesses e Moro vai agora atuar na recuperação de empresas que ele próprio ajudou a quebrar.

Inscreva-se na TV 247 e confira a fala de PML:


O conhecimento liberta. Saiba mais

sábado, 7 de novembro de 2020

Bolsonaro, Trump, seus cúmplices e o significado da palavra excrescência. Texto de Paulo Moreira Leite

 

Capitão do mato pagará uma conta pesada pelos serviços prestados ao império, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia


O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e o presidente dos EUA, Donald Trump, durante uma entrevista coletiva no Rose Garden da Casa Branca, em Washington (EUA)

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e o presidente dos EUA, Donald Trump, durante uma entrevista coletiva no Rose Garden da Casa Branca, em Washington (EUA) (Foto: Reuters/Kevin Lamarque)


Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia - Depois que uma sólida maioria de mais de quatro milhões eleitores demonstrou a incompatibilidade de Donald Trump com a sociedade norte-americana, ficou fácil compreender natureza real do governo Jair Bolsonaro, seu principal aliado na América.  

As urnas norte-americanas desfalcaram o presidente brasileiro daquela companhia  na qual buscava proteção -- inclusive militar -- e legitimidade política.

Empossado em 2019 após uma campanha de ataques à democracia e reversão de  conquistas sociais importantes, Bolsonaro confirmou a noção de que nunca passou de um chefe de governo incapaz de andar pelas próprias pernas.

No papel assumido de capitão do mato dedicado a disciplinar povos coloniais, jamais escondia que buscava, em Trump, uma energia política incapaz de produzir por conta própria -- uma perspectiva de futuro, elemento essencial em qualquer projeto de poder.

A ilusão durou a metade do mandato. As urnas norte-americanas não apenas desmascararam Trump e sua retórica fascista. Também mostraram o capitão do mato em momento de conveniente humildade. "Eu não sou a pessoa mais importante do Brasil, assim como Trump não é a pessoa mais importante do mundo" disse.

O fracasso de Trump também joga luzes sobre o Terceiro Mundo sul-americano onde vive Bolsonaro. Aqui, milhões de chilenos foram às ruas para enterrar a Constituição de Pinochet.

Outro tanto de bolivianos conseguiu reabrir o palácio presidencial para permitir o retorno do MAS, menos de um ano depois do golpe que afastou Evo Morales. (Em Buenos Aires,  Fernandez-Cristina venceram eleições há menos de um ano).

O fiasco eleitoral de Trump, permite reconhecer, no presidente brasileiro, um aliado submisso e caricato, que sobrevive entre  crises artificiais e incapacidades estruturais, num mandato político usurpado,  uma "matéria sólida ou líquida excretada pelo organismo humano ou animal" como descreve o dicionário Houaiss, para explicar o significado da palavra "excrescência". 

Num continente novamente inquieto, a  derrota republicana não pode ser vista como um raio no céu azul.

No Brasil, as pesquisas sobre as eleições municipais, cujo primeiro turno será disputado dentro de uma semana, indicam um fiasco amplo e irrestrito do bolsonarismo e seus protegidos. 

Incapazes de apresentar candidatos ao menos competitivos nas grandes capitais, os aliados do Planalto já assumem a forma "sólida ou líquida excretada pelo organismo humano ou animal".

Alguma dúvida?

domingo, 27 de maio de 2018

Pedro Parente, psdbista indicado e orientado por FHC, quebrou o país com a grande ajuda da Lava Jato para, destruindo a Petrobrás, atender os interesses da rapinagem internacional que incentivou o golpe... Leia o texto de Paulo Moreira Leite



Pedro Parente, indicado por FHC, quebrou o país para defender tubarões que rapinam Petrobras



"Mexer com o preço do óleo diesel é muito diferente de mexer com o preço de um picolé de sorvete", afirma o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos principais enconomistas do país, com uma obra fundamental sobre as idas e voltas da economia brasileira nas últimas décadas.

Explicando a diferença: enquanto uma alta no preço do picolé tem um impacto limitado ao bolso dos consumidores e produtores envolvidos na fabricação e compra de uma ótima sobremesa de verão, o preço do diesel envolve a economia de um país inteiro, como os 210 milhões de brasileiros puderam experimentar nesses dias. 
"Se a economia já não estava bem, agora complicou de vez", afirma Belluzzo. "Pode-se prever uma queda no PIB de dois a três pontos por causa do impacto de um imenso desastre como este".
Ao elevar o preço de um produto essencial como diesel a um patamar incompatível com o padrão de renda da  sociedade brasileira, com a única finalidade de manter um alinhamento com o mercado internacional -- e assim proteger os ganhos de acionistas minoritários que se tornaram a referencia para as decisões da Petrobras sob Temer  --, Parente produziu um colapso de efeito geral na economia.
 A resistência -- inevitável -- das dezenas de milhares de caminhoneiros a uma política de preços irracional, que ameaça inviabilizar sua atividade, produziu  um movimento em círculos, semelhantes aos de uma pedra que se atira num lago. Derrubou o sistema de transportes num país onde  caminhões e ônibus -- sempre a diesel -- se encontram no coração da produção, distribuição e circulação de bens e pessoas. Provocou a falta de mercadorias nos supermercados e feiras, a falta de insumos para a industria, dificultou o transporte de trabalhadores para seus empregos, a ida de milhões de estudantes para suas escolas e assim por diante. Em São Paulo, maior cidade do país, a circulação de ônibus está reduzida por falta de combustível. Para terça-feira, a própria prefeitura reconhece que não tem a menor garantia para colocar a frota em movimento.  
 Não estamos na guerra do picolé, portanto. O país assiste -- e participa -- de uma disputa gigantesca para o destino de nossa economia e do futuro de brasileiros e brasileiras, no qual o destino da Petrobras terá um lugar decisivo, para o bom ou para o mal. Não por acaso, a Frente Única dos Petroleiros, principal entidade sindical do setor, programa uma greve a partir de quarta-feira. Quer a redução dos combustíveis e a saída de Parente. Nada mais justo. 
A política de Pedro Parente é o ponto essencial de um programa de desconstrução de uma das dez maiores economias do mundo. Seu projeto, de natureza colonial, que remonta aos velhos acordos entre Portugal e Inglaterra, aquele dos panos e vinhos -- pelos quais Lisboa entregava produtos primários e comprava bens industrializados. Sabemos o resultado desse programa de submissão a Metrópole, não é mesmo? 
A ideia é andar para trás. Depois de servir, com altos e baixos, ao desenvolvimento do país, pretende-se empregar a estrutura gigantesca da Petrobras para alimentar o atraso e a pobreza, em benefício dos 0,1% que manipulam a riqueza do planeta.
É uma visão tão minoritária, do ponto de vista do Brasil e da democracia, que Temer emprega força militar para defendê-la. Não há diálogo nem argumento civilizado que convença. Alguma surpresa?   
A pressa de Parente, inclusive para acelerar a privatização de grandes refinarias é uma tentativa óbvia de escapar das incertezas inevitáveis do calendário eleitoral para garantir uma medida que representa nova ameaça ao futuro do país. De seu ponto de vista, nenhum parafuso pode ficar fora do lugar.
Até por isso mesmo, a resistência, mais do que nunca, é necessária. A saída de Parente é urgente. 
 (Nesta segunda-feira, a partir das 16 horas, Luiz Gonzaga Belluzzo dará entrevista a TV 247).  

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Paulo Moreira Leite: Aprendendo com a História, Temer pode cair como Nixon



Num país obrigado a procurar caminhos para livrar-se de Michel Temer e escolher seu sucessor em urna, pelo voto direto, interrompendo um processo de destruição de direitos e ameaças crescentes a soberania do país, os brasileiros podem encontrar lições úteis na luta política que produziu a  derrocada de Richard Nixon, o presidente norte-americano forçado a deixar a Casa Branca em 1974.


Ignorando, por um minuto, as imensas distâncias econômicas, políticas e geo-políticas entre os dois países e os dois personagens, é possível encontrar traços razoáveis de semelhança entre o Temer que prometeu resistir com todas as forças a toda tentativa de afastá-lo do cargo, mesmo em caso de decisão judicial, e o comportamento de Nixon no último ano de governo, quando sua permanência na presidência mostrou-se insustentável. Há muita diferença mas um razoável número de semelhanças no esforço de dois presidentes capazes de mobilizar -- de qualquer maneira -- o conjunto das forças do Estado para garantir a própria sobrevivência.
   A saída de Nixon costuma ser descrita como "renúncia", palavra presente na Constituição de quase todos os países, e que transmite a ideia de um ato voluntário, mas não foi isso o que ocorreu. O episódio mostra que  a renúncia, na verdade, deve ser entendida como a última carta na manga de um presidente para escapar de uma situação desfavorável e proteger o próprio futuro.   
   Vitorioso em duas eleições presidenciais, não custa lembrar que Nixon iniciou o segundo mandato com a legitimidade à flor da pele, coisa que Temer jamais possuiu. Venceu o pleito em 48 dos 50 estados americanos, um desempenho histórico.
    Um ano e sete meses depois Nixon deixava a Casa Branca, vencido numa luta inútil e vergonhosa para manter-se no cargo, numa operação  onde multiplicou lances inescrupulosos e ilegais de toda ordem, inclusive mobilizando dinheiro sem origem para pagar operações clandestinas.  Foi um atdo forçado. Enquanto era possível, Nixon exibiu a coreografia de presidente da grande potência imperial do planeta e até  patrocinou golpes de Estado.  Em setembro de 1973, as suspeitas de envolvimento de seus homens de confiança no caso Watergate já estavam nos jornais e provocavam reações de protesto no país. No dia 11 daquele mês ocorreu o golpe contra Salvador Allende no Chile, episódio onde a Casa Branca, Nixon e seu secretário de Estado, Henry Kissinger, tiveram um papel fundamental. A renuncia ocorreu em julho do ano seguinte. 
  O presidente dos Estados Unidos  rendeu-se quando havia a possibilidade de enfrentar um processo de impeachment num Congresso onde a oposição do Partido Democrata tinha maioria nas duas casas. Ele próprio ainda seria obrigado a enfrentar ações na própria Justiça, após a perda do mandato. Já estavam configurados os crimes de obstrução da justiça e abuso de autoridade.
   A trama política que abriu a porta de saída foi um decreto de anistia, envolvendo acusações criminais que o atingiam Nixon diretamente. O pacto permitiu ao presidente salvar a própria pele, num momento em que dois assessores diretos cumpriam pena de prisão e cinco haviam feito confissões a Justiça para escapar de uma condenação criminal em função do escândalo  Watergate, frente de batallha onde a Casa Branca sofreu derrotas sucessivas e desde o início operou para ganhar tempo e atrasar investigações. O perdão foi negociado com o vice Gerald Ford e assinado em seu primeiro dia no lugar do titular. Pelo acordo, Nixon livrou-se de todas as acusações já existentes contra ele, como obstrução da justiça e abuso de de poderes. Também ficou previamente livre de qualquer outra denuncia que pudesse aparecer -- e que deveria ser imediatamente arquivada.
    A imagem de Nixon na saída da Casa Branca, na porta de um helicóptero, mostra um cidadão de braços abertos e um sinal de paz e amor nas duas mãos, um imenso sorriso nos lábios. A cena mostra um país em busca de pacificação mas, na prática, Nixon deixou o posto como náufrago de uma tragédia em três atos.
     Fez um governo de prolongada crise econômica, desemprego alto e crescimento baixo. Nunca foi capaz de dar uma resposta convincente ao principal problema político do país -- a guerra do Vietnã -- o que provocou uma insurreição permanente da juventude e dos setores progressistas da sociedade norte-americana, que encurralaram o governo com protestos amplos e crescentes. Na mesma década de 1960, do festival de Woodstock, cujo lema era Paz e Amor,  ocorreram protestos em Washington, um deles com a mobilização de 600.000 pessoas. Em 2500 universidades ocorreram protestos contra a guerra e em pelo menos 10% delas ocorreram confrontos violentos com a polícia.
     Neste contexto,  Watergate mobilizou as atenções país porque desde o início as investigações trouxeram sinais  robustos que apontavam para o envolvimento de homens de confiança do presidente -- nada que os brasileiros não estejam vendo em seu país, vamos combinar.  Num esforço para embaralhar as investigações, Nixon chegou a mobilizar a CIA para criar obstáculos ao FBI, que desde o início se encontrava a frente da apuração -- soube-se depois que seu vice diretor foi a fonte principal dos repórteres do  Washington Post que deram o furo sobre o caso. Quando surgiram indícios de que o próprio Nixon poderia estar envolvido, o procurador-geral solicitou à Casa Branca que entregasse as gravações que desde a década anterior registram todos os diálogos telefônicos no gabinete do  presidente dos Estados Unidos. Nixon enviou uma cópia editada, da qual trechos comprometedores haviam sido eliminados. Em decisão unânime, inclusive com apoio de seu presidente, escolhido pelo próprio Nixon, a Suprema Corte  determinou que o presidente entregasse as fitas -- em sua versão original. Em vez de atender a ordem, Nixon refugou, alegando que não iria divulgar informações de natureza confidencial.  A Suprema Corte repeliu o argumento e o presidente desistiu. Negociou a renuncia e deixou o cargo 16 dias depois.
    Ninguém deve imaginar que neste episódio encontra-se uma fórmula política aplicável em toda parte. Até porque há distinções notáveis entre os personagens e instituições envolvidas. Aqui estão os principais ensinamentos.
    Longe do papel que viria a desempenhar em 2000, quando decidiu uma eleição a favor de George W Bush, numa postura abertamente favorável ao candidato republicano, em 1974  a atuação da Suprema Corte honrou a independência da Justiça, dando sequencia a uma exigência natural de toda investigação, que é a busca de provas. Não condenou Nixon, não determinou seu afastamento nem o arquivamento do caso. Fez seu papel sem tomar partido político. O mesmo se pode dizer do FBI e do procurador encarregado do caso. Prestando-se a um serviço de natureza política-partidária, a CIA desmoralizou-se, tornando-se alvo de uma investigação a fundo sobre seus métodos de trabalho.   
   É um comportamento que marca uma notável diferencia com a condução do processo no Brasil, onde o caráter seletivo dispensa comentários e justificativas. O  comportamento messiânico das investigações já preocupa até mesmo grandes aliados da Lava Jato, como seu principal porta-voz nos meios jurídicos, o jornal Estado de S. Paulo, que nas últimas semanas elevou o tom de críticas que até agora pareciam limitadas aos aliados do PT. "Num momento em que a justa indignação nacional contra a corrupção começa a alimentar a irracionalidade de paixões pretensamente moralizantes, o império da lei passa a ser visto como óbice e não como condição indispensável ao progresso e à justiça social." Braço civil do golpe de 64, o Estadão levou quatro anos -- até o AI-5 -- para consumar um afastamento com os militares que derrubaram João Goulart. É sintomático que essa visão seja veiculada agora. Passaram-se apenas quatro meses desde a instalação definitiva da ordem que levou Temer ao Planalto, processo definido como "encenação" por Joaquim Barbosa, como "truculento" pelo professor Oscar Vilhena Vieira, da FGV.
  Nesta situação, o caráter dependente e subalterno do governo Temer, que impõe ao país que uma depressão que não  tem a ver com uma recessão convencional, mas é um processo deliberado de destruição estrutural de instrumentos de crescimento econômico e bem-estar social, joga contra sua sobrevivência. Suas contradições já se tornaram visíveis na reação popular contra o desmonte dos governos estaduais, instituições legítimas da República, com uma função insubstituível na prestação de serviços públicos procurados pela maioria da população. Um primeiro alerta já foi exibido na aprovação da PEC 55, por uma margem de votos ínfima diante de votações anteriores.
   No Brasil de 2016, a mobilização popular e a resistência dos setores atingidos diretamente por medidas anti-sociais do governo deve desempenhar um papel ainda mais importante nos rumos da crise. Ao tentar abrir o mercados das aposentadorias ao setor privado, o governo provocou uma reação nacional de indignação, que mobiliza inclusive sindicatos que se mobilizam a seu favor. Ali, na reforma da Previdência, Temer pode encontrar o Vietnã que vai assinalar o fim de seu governo.  

domingo, 24 de julho de 2016

Terrorismo e o golpe no Brasil, por Paulo Moreira Leite


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     Não vamos nos enganar. Não é preciso ser um admirador de Maquiavel para entender que num momento de grandes incertezas políticas como aquele que enfrentamos no Brasil a denúncia de uma possível ameaça terrorista pode ser de grande utilidade para forças que ocupam provisoriamente a presidência da República e necessitam, como é visível a cada dia, "mostrar serviço" aos olhos de uma população desconfiada de gestos e intenções para manter-se no cargo de qualquer maneira. 

   Vivemos uma situação de desagregação institucional em que tudo é política, como reconheceu a líder do governo Rose de Freitas, ao explicar por que o Senado afastou Dilma sem prova de crime de responsabilidade.

     Não é preciso ficar com complexo de republica bananeira, porém. Basta lucidez. 

    Na França que já deu lições de liberdade, igualdade, fraternidade, o mesmo presidente François Hollande que enfrenta uma insurreição de trabalhadores em defesa de seus direitos - situação que pode repetir-se no Brasil caso Michel Temer siga em frente com seu programa de aniquilar a CLT - transformou a ameaça terrorista na preocupação número 1 de seu governo. 

      Incapaz de dar respostas aos problemas da vida cotidiana da maioria da população, como desemprego, perdas salariais, recessão, desde o final de 2015 Hollande multiplica medidas de exceção que produzem indignação - a ministra de Direitos Humanos renunciou ao cargo em protesto - e pouco tem servido para evitar novas tragédias, como demonstrou o ônibus assassino de Nice, menos de um ano depois do ataque ao Charlie Hebdo e ao Bataclan. 

     Mesmo assim, não há dúvida que a campanha do medo operou um previsível milagre de natureza eleitoral. Transformou Hollande, até então um George W Bush da social-democracia francesa, num candidato minimamente competitivo para enfrentar o fascismo nas eleições presidenciais. 

   Essa considerações recomendam prudência e bom senso diante da prisão de dez brasileiros que podem vir a ser um dia considerados suspeitos de terrorismo. Para tanto, é bom lembrar, será preciso que informações hoje em estagio muito preliminar se transformem em indícios e provas. Não custa sublinhar - mesmo fora de moda - o principio da presunção da inocência. Ninguém quer construir uma nova Guantânamo, certo? 

      Está claro que nenhuma pista contra a ameaça do terror pode ser desprezada, pois, se forem indícios consistentes e corretamente investigados, podem impedir atos de barbárie que ameaçam vidas inocentes, inclusive crianças. 

        O problema é que toda iniciativa para transformar um episódio inconclusivo em grande espetáculo, sem justificativas razoáveis, equivale a uma demonstração de desprezo absoluto pela inteligência do cidadão brasileiro. Também é um ato contraproducente do ponto de vista de toda investigação, que envolve material de inteligência sensível, necessita de prudência e segredo, em vez de espalhafato e sensacionalismo. 

    O desvio para os holofotes é apenas parte do problema, porém. Outro sinal é político e diplomático. 

    A postura mostra um passo, no governo Michel Temer, para alinhar o aparato policial e jurídico do estado brasileiro com as prioridades do governo norte-americano. É compreensível, diante do isolamento internacional do golpe. Deve ser visto como mais um capítulo num programa de generosas gentilezas externas que inclui, como grande troféu, a abertura do pré-sal da Petrobras a grandes empresas estrangeiras. 

      Coerente com uma diplomacia de preservar de qualquer maneira a ordem vigente no Oriente Médio, endereço de reservas de petróleo vitais para sua economia e para o faturamento de uma parte de seus maiores gigantes econômicos, Washington transformou a luta contra o terrorismo de origem árabe na pedra de toque de sua ação internacional e dos chamados programas de cooperação. 

     Não custa lembrar que o principal reflexo, no Brasil, do atentado de 11 de setembro foi um reforço das investigações da CIA e outros órgãos do serviço secreto contra imigrantes palestinos na região da Tríplice Fronteira, com base em suspeitas que a própria embaixada dos EUA em Brasília considerava pouco mais do que risíveis. 

       Não por acaso, Washington não deixou de aplaudir, uma década e meia depois, a lei anti-terrorismo aprovada pelo Congresso, por iniciativa do governo Dilma. 

     Interessada em embelezar toda e qualquer medida do governo Temer que possa contribuir para a aprovação definitiva do impeachment pelo Senado, a mídia grande não perdeu a oportunidade de ressaltar a "colaboração" do serviço secreto dos EUA nas investigações. A historia diplomática dos dois países, marcada por longos períodos de adaptação e mesmo submissão do lado brasileiro, com raros mas reais momentos de independência e soberania, permite acreditar que seja muito mais do que isso. 

       Há outro ponto a observar. 

     É certo que, por sua própria natureza, as ações terroristas não obedeçam a uma lógica previsível nem racional. Não custa ponderar porém que seus alvos mais frequentes envolvem países e governos que tem uma postura agressiva nos conflitos do Oriente Médio, participando ativamente de operações de apoio em relação a diplomacia norte-americana. Os atentados de Madri e Londres ocorreram depois que os governos da Espanha e da Grã Bretanha se engajaram na invasão do Iraque. A França entrou no radar depois de patrocinar a queda de Kadhafi, na Líbia e realizar oções de guerra na Siria e no Iraque. Antes disso, costumava ser poupada depois que, ao lado da Alemanha e governo brasileiro, recusou apoio a Bush guerra do Iraque. 

    Diversos estudiosos consideram que até agora a postura diplomática do governo brasileiro, alinhado com a defesa intransigente da soberania de cada povo para escolher e definir seus governos, ajuda a entender porque o país tem sido preservado, até o momento, de ações dessa natureza. 

       Isso não representa garantia nenhuma, muito menos na conjuntura de um país que irá sediar uma Olimpíada. Mas mostra a necessidade de se evitar toda e qualquer medida fora do tom adequado. 

   O único suspeito real até agora é o ministro da Justiça Alexandre Moraes, que acabou corrigido pelo juiz do caso por dizer mais do que poderia.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Ataque às liberdades públicas marcou 2015, por Paulo Moreira Leite

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Texto de Paulo Moreira Leite

A maioria das retrospectivas de cada ano costuma ser puro exercício burocrático, num esforço típico para esconder a falta de notícias relevantes. Não acho que seja assim desta vez. Em 2015 ocorreu um fato grave, que aguarda uma boa reflexão. 
Estou me referindo a um ataque impensável às garantias fundamentais asseguradas pela carta de 1988, naquele ponto em que os direitos individuais se encontram com as liberdades públicas para alimentar um regime político que aprendemos a chamar de democracia.
Num país onde 120 milhões de pessoas têm acesso à internet, das quais 93% utilizam o WhatsApp, em 16 de dezembro de 2015 uma juíza da 1ª Vara Criminal de São Bernardo do Campo assinou uma ordem que bloqueou o uso do aplicativo por 48 horas em todo território nacional.
O argumento é que os administradores do WhatsApp se recusaram a autorizar a interceptação em três linhas do aplicativo que poderiam ser úteis numa investigação sobre tráfico de drogas. Duas dessas linhas, soubemos depois, estão fora de uso e apenas uma delas se encontra em território brasileiro.
Mesmo assim, atendendo a um pedido do Ministério Público, uma magistrada de primeira instância, que responde por fatos ocorridos numa região da Grande São Paulo, tomou uma medida que afetou os direitos dos moradores de mais de 5 000 municípios brasileiros.
Na prática o bloqueio atingiu os direitos do professor e da operária, da dona de casa e do estudante, do empresário rico e do cidadão que procura emprego.
Num aspecto que dá um caráter inacreditável ao caso, a decisão foi tomada em "Segredo de Justiça." Quer dizer: presumidamente inocentes, milhões de pessoas foram punidas em seus direitos, sem que ao menos pudessem saber por quê. 
Num país que se orgulha de viver sob o mais amplo regime de liberdades públicas de sua história, a decisão teve vida curta, felizmente. Foi suspensa, através de mandado de segurança, pelo desembargador Xavier de Souza, do Tribunal de Justiça de São Paulo. A decisão do desembargador merece aplauso. 
Não permite, porém, que se esqueça uma situação preocupante e vergonhosa.
A decisão judicial questionava, com um só autógrafo, um dos pontos essenciais do regime construído pela derrota da ditadura de 1964, definido de forma exemplar, exaustiva e sem retoques pelo artigo 5º da Constituição, um dos mais amplos da carta de 1988.
Ali se informa, no parágrafo IV, que vivemos num país onde “é livre a manifestação do pensamento”. É difícil negar que é exatamente isso que acontece quando um cidadão zapeia para outro – mesmo que esteja exercitando o inalienável direito de comunicar besteiras de todo tipo. (As pesquisas indicam também que mais de 90% dos usuários de WhatsApp o utilizam para assuntos de trabalho, mas vamos em frente).  
No mesmo artigo 5, o parágrafo IX reforça a ideia central. Sublinha que a “livre expressão” deve ser assegurada “independente de censura ou licença.” Deu para entender, certo?
Não é só.
Contra a alegação de que um público estimado em 100 milhões de brasileiros deveria ser impedido de usar o WhatsApp porque o aplicativo se recusou a cumprir uma ordem judicial de fornecer dados sobre um possível usuário, a Constituição ainda fez questão de estabelecer a necessária distinção entre cidadãos livres e condenados.
“Nenhuma pena passará da pessoa do condenado”, diz o parágrafo XLV do mesmo artigo 5º.
Isto quer dizer o seguinte: se uma lei ordinária, número 9.296, garante à Justiça o direito de exigir dados telefônicos ou equivalentes sobre uma pessoa contra a qual possa apontar “indícios razoáveis de autoria ou participação em infração penal”, a Carta de 1988 protege as garantias de quem se supõe inocente.
Se a garantia já vale para amigos e familiares, imagine para um país inteiro.
Ainda há outro aspecto. Obra do governo Dilma Rousseff, o Marco Civil da Internet é considerado uma referência civilizatória em várias partes do mundo. Isso porque, ao assegurar a neutralidade da rede, veda qualquer esforço para selecionar o conteúdo que trafega pela rede, o que permite questionar que mesmo as operadoras sejam punidas por crimes cometidos por terceiros.    
Cabe perguntar como e por que um fato dessa gravidade pode ter acontecido um quarto de século depois da entrada em vigor da Carta de 1988.
Em parte, isso se explica pela judicialização de nossa vida pública, um comportamento que os estudiosos definem como “fazer política por outros meios”.
Em geral, atos de truculência costumam ser condenados na teoria, mas justificados por seus aspectos práticos. Alega-se que o respeito aos direitos constitucionais pode envolver um processo mais demorado, mais complicado, talvez – ainda que seja o correto do ponto de vista dos valores do Estado Democrático de Direito.
Em 1968, quando foi o único voto solitário no lamentável colegiado de ministros que aprovou o AI-5, que jogou o país no pior período de treva do golpe militar, o vice-presidente Pedro Aleixo registrou uma frase memorável. Disse que não temia os altos oficiais, mas o “guarda da esquina.”
Há uma visão preconceituosa nessa afirmação. A experiência mostrou, antes e depois, que altos oficiais eram capazes de envolver-se a fundo em aos de crueldade criminosa nos porões do regime – não só para dar ordens, mas até para acompanhar tudo pessoalmente. Mas a frase advertia para um fato real. Ao liberar abusos no alto da hierarquia, a ditadura não seria capaz de controlar o que aconteceria em baixo.
E isso aconteceu na democracia brasileira em 2015. No mesmo país onde o whatsapp foi proibido para mais de 90 milhões de usuários, cidadãos foram as ruas pedir golpe militar. Chico Buarque de Holanda foi alvo de um assédio em estilo fascista no Rio de Janeiro. Eduardo Suplicy, Guido Mantega e Alexandre Padilha sofreram agressões semelhantes em São Paulo.
Como assinalou Pedro Aleixo, o exemplo vem de cima e sempre chega aos direitos do cidadão comum. Na cúpula do sistema político, os derrotados pelas urnas de 2014 empenharam-se num movimento para afastar Dilma Rousseff de qualquer maneira, sem apontar para um crime de responsabilidade, como exige a Constituição. Com apoio dos grandes grupos de comunicação, paralisaram o Congresso, intimidaram o Judiciário.
Aplicando com rigor inaudito uma súmula destinada a limitar o uso de habeas-corpus, que são uma garantia contra prisões sem justificativa, os tribunais deram livre curso as prisões temporárias, de grande utilidade para delações premiadas. 
A escancarada utilização da Lava Jato pela oposição criou um ambiente de sufoco político.
O que se viu depois é consequência.
Não custa reparar – sem que seja necessário elaborar teorias conspiratórias -- que a proibição contra um instrumento de comunicação e contato direto entre 90 milhões de brasileiros tenha sido divulgada em 16 de dezembro, no final daquelo dia em que ocorreu uma gigantesca mobilização popular em defesa do mandato de Dilma Rousseff.
Também é significativo que o cidadão acusado de envolvimento com tráfico de drogas, protagonista de todo o caso, tenha passado dois anos em regime de prisão temporária, sem julgamento – até que conseguiu ser liberado em novembro de 2015, por decisão do Supremo.
Alguma dúvida?

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Um Nobel se levanta contra o ajuste pró-banqueiros e pró-golpismo de Levy - texto de Paulo Moreira Leite



  "Vivemos um momento no qual vontade de destruir um adversário político que produziu inegáveis melhorias na condição da vida da maioria da população transformou-se numa campanha permanente contra o principal elemento de coesão da  sociedade brasileira, o regime democrático. Sem culpa." - Paulo Moreira Leite



Paulo Moreira Leite, em sua coluna no Brasil 247

A partir das 23 horas de amanhã, no programa Espaço Público, na TV Brasil, você poderá assistir a uma entrevista de uma hora do economista Joseph Stiglitz.

Prêmio Nobel de Economia em 2001, chefe da Assessoria Econômica da Casa Branca durante o primeiro mandato de Bill Clinton na Casa Branca, na década de 1990, Stiglitz dedicou a vida a demonstrar cientificamente as falhas estruturais (o nome técnico é “ assimetrias”) da chamada economia de mercado. É um adversário competente dos ajustes estruturais e das políticas de austeridade que têm contribuído para reduzir conquistas históricas dos trabalhadores em anos recentes e se revelam um entrave à recuperação crescimento e à criação de empregos.

Criador da tese de que vivemos num mundo onde 99% trabalham para satisfazer 1%, que animou vários protestos de rua dos últimos anos, é um dos mais aplicados estudiosos a lembrar a importância da igualdade entre cidadãos – não apenas como princípio político natural das democracias, mas como condição para o bom funcionamento da economia.

Você acertou se já percebeu que o professor tem críticas duras à política econômica conduzida por Dilma Rousseff e Joaquim Levy. Na entrevista, que fiz em parceria com Florestan Fernandes Junior, Stiglitz faz isso com a autoridade de quem foi um aliado importante da orientação assumida pela economia brasileira na fase anterior a 2015. Elogia os programas de distribuição de renda e incentivo ao crescimento mantidos e até ampliados depois do colapso de 2008/2009.

Com um pragmatismo coerente e honesto, o professor defende a intervenção do Estado na economia, lembrando sua importância decisiva no financiamento de investimentos de longo prazo que sustentam o crescimento e os grandes avanços científicos e tecnológicos de nosso tempo, inclusive nos Estados Unidos.

Teve a mesma postura quando pedi sua opinião sobre o BNDES, o banco de desenvolvimento brasileiro que é alvo de admiração permanente em muitos centros acadêmicos fora do país, e vítima de suspeitas permanentes lançadas por um espírito reacionário que se disfarça pelas máscaras do moralismo barato.

O professor, que conhece bem o assunto, chegou a fazer uma ironia bem colocada com a tese de que o BNDES subsidia empresas supostamente amigas do governo. Mostrou que na vida real o subsídio não se encontra nas taxas de juro oferecidas pelo banco a quem faz investimentos – em linha com o mercado internacional, um pouco para cima, um pouco para baixo – mas vem das taxas de juros definidas pelo Banco Central, matematicamente as mais altas planeta. Deixou claro que ali sim se pode falar em favor amigo, que abrem rombos bilionários nas contas do Estado, sugerindo que é estranho que esse tipo de ajuda não seja questionado. Curto, direto, impossível de responder.  

Perguntado sobre regras do imposto de renda brasileiro que garantem isenção total à minoria de milionários-felizardos que não entregam um centavo sequer de seus lucros e dividendos ao Estado, deixando a carga dos impostos aos pobres e a classe média, reagiu com respostas indignadas.

Numa conjuntura onde a política brasileira encontra-se contaminada pelo ódio, Stiglitz comenta uma das ideias de O Preço da Desigualdade, um de seus livros mais importantes. Ele está convencido de que um dos traços do mundo contemporâneo é a falta de sentimento de culpa por parte de elites e explica por que.

Abandonando regras de convívio e mesmo solidariedade que permitiram a construção de sociedades desiguais mas equilibrados ao longo do século XX, esses cidadãos tornaram-se capazes de tomar medidas que podem beneficiar exclusivamente seus próprios interesses, mas comprometem o futuro da maioria dos contemporâneos, por várias gerações. O resultado é a criação de um mundo de sobrevivência difícil pela falta de valores comuns, onde a deslealdade e a falta de transparência são uma regra constante.  

É um raciocínio muito apropriado para se refletir sobre o Brasil de 2015. Vivemos um momento no qual vontade de destruir um adversário político que produziu inegáveis melhorias na condição da vida da maioria da população transformou-se numa campanha permanente contra o principal elemento de coesão da  sociedade brasileira, o regime democrático. Sem culpa.

Deu para entender?

Paulo Moreira Leite, em sua coluna no Brasil 247

domingo, 18 de outubro de 2015

Paulo Moreira Leite: "PSDB finge que não ouviu Lara Resende"


   Rompendo a melodia ufanista em torno do juiz Sérgio Moro e da Força-Tarefa do Ministério Público, diz que "alguns procuradores" fazem uma "oposição totalitária fascista", sublinhando, numa observação que ajuda a entender a gravidade do que ocorre hoje, que o "clima emocional" do país  "está muito propício a esse modo de lidar".  Paulo Moreira Leite

 Segue texto de Paulo Moreira Leite extraído do Brasil 247:

PSDB finge que não ouviu Lara Resende



:

Depois de ler as opiniões do economista André Lara Resende sobre a Operação Lava Jato, proferidas numa conferência em Nova York e registradas pela correspondente Taís Bilenky, da Folha, convém perguntar o uso que o PSDB e o DEM pretendem fazer delas. A pior atitude seria fechar os olhos, tapar os ouvidos e a boca, como têm feito até aqui. 
Um dos mais influentes cérebros do mercado financeiro, interlocutor frequente de Fernando Henrique Cardoso, Lara Resende aponta para um cenário de tragédia política e econômica no horizonte. Diz que impeachments  sempre são "traumáticos" e que o afastamento de Dilma Rousseff deve ser evitado. Não é só.
Enquanto o Ministério Público faz campanha para transformar a corrupção em crime hediondo, Lara Rezende deixa claro  que os indícios de corrupção "sistêmica" no país colocam a necessidade de se discutir uma pacificação entre as partes -- e não a lógica da vingança e do conflito.
Lembrando o valor insubstituível de uma vida humana, vai um pouco mais fundo na crítica a campanha do MP. Faz questão de dizer que não acha corrupção "mais grave que assassinato."
Rejeitado a noção de que o remédio infalível para mais crimes é mais punição, ele disse: "Minha impressão é que, quando você tem uma crise como a que temos no Brasil, a forma que podemos usá-la para provocar uma mudança é dizer: Vamos começar do zero, vamos superar o passado", diz Lara Resende. 
Rompendo a melodia ufanista em torno do juiz Sérgio Moro e da Força-Tarefa do Ministério Público, diz que "alguns procuradores" fazem uma "oposição totalitária fascista", sublinhando, numa observação que ajuda a entender a gravidade do que ocorre hoje, que o "clima emocional" do país  "está muito propício a esse modo de lidar".  
Em resposta ao questionamento de uma estudante, Lara Rezende cita a "Mani pulite", que investigou esquemas de corrupção na Itália, nos anos 1990. Seu balanço: "Deixou o país completamente desmantelado, causou o colapso dos dois principais partidos e o que veio depois? [O ex-premiê Silvio] Berlusconi."
Cabe registrar que nenhuma observação de Lara Resende ganharia o prêmio de originalidade nos debates sobre a Lava Jato. Nem é isso o que importa.
O importante é sublinhar um ponto. Críticas que até há pouco eram descartadas como pura invenção de aliados do governo  começam a ser reconhecidas como verdade por vozes que se encontram do lado oposto do espectro político.
Lara Resende é um adversário assumido e rigoroso das principais linhas de política econômica implantadas no país a partir de 2003. Não custa lembrar que, como presidente do BNDES, esteve a frente dos programas de privatização de estatais no governo FHC.
Não é preciso concordar com a visão de mundo de André Lara Resende – a quem fiz críticas duras neste espaço ao longo da campanha de 2014 – para reconhecer o valor de sua conferência. Ela ocorre num momento em que o  país se encontra às voltas com permanentes demonstrações de desonestidade intelectual, que ajudam a alimentar uma crise em larga medida artificial.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Depois do ínclito Moro, o pretenso luminar bíblico Deltan Dallagnol tenta pôr a Lava Jato acima do bem e do mal



  Ontem, Mello Franco, articulista da Folha, esteve numa igreja batista na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, onde o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Lava Jato, falou para cerca de 200 pessoas.
  A reportagem descreve: "Antes de falar, o procurador, que tem mestrado em Harvard, foi apresentado como 'servo' e 'irmão.' De terno e gravata, discursou do púlpito, citou a Bíblia e disse acreditar que Deus colabora com a Lava Jato."


Dallagnol tenta pôr Lava Jato acima do bem e do mal

Texto de Paulo Moreira Leite, extraído do Brasil 247




Vladimir Platonow/Repórter da Agência Brasil: <p>O procurador da República Deltan Dallagnol, que integra o núcleo da Operação Lava Jato, participa de lançamento, no Rio, do projeto 10 Medidas Contra a Corrupção, do MPF (Vladimir Platonow/Repórter da Agência Brasil)</p>

Nunca tive religião. Só frequentei igrejas, templos e sinagogas por razões sociais, como assistir a casamentos, batizados e cerimônias fúnebres.
Essa situação me ajudou a ter um convívio enriquecedor com várias correntes religiosas, usufruindo da diversidade cultural de nossa época, a partir da compreensão de que a diferença não nos afasta, mas pode nos aproximar e fortalecer.
Estou convencido de que entender que somos iguais em nossas diferenças é um dos principais aprendizados do século XXI, numa  civilização onde a intolerância deixou marcas terríveis e profundas.
Um de meus grandes amigos foi Jaime Wright, pastor protestante, grande militante de direitos humanos. Convivi com pessoas de profunda fé católica, boa parte em minha família. Mantive longos diálogos com o rabino Henri Sobel, orador capaz de rezas emocionantes. Conversei menos do que gostaria com Leonardo Boff. Já maduro, após uma viagem a Paris -- olha só -- tive um longo contato com lideranças umbandistas. Graças aos romances de Nagib Mahfouz e aos ensaios de Edward Said, compreendi a riqueza da cultura árabe e da religião muçulmana.
Escrevi os parágrafos acima porque me confesso chocado com as revelações de Bernardo Mello Franco, na Folha de S. Paulo de hoje.
Ontem, Mello Franco esteve numa igreja batista na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, onde o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Lava Jato, falou para cerca de 200 pessoas.
A reportagem descreve: "Antes de falar, o procurador, que tem mestrado em Harvard, foi apresentado como 'servo' e 'irmão.' De terno e gravata, discursou do púlpito, citou a Bíblia e disse acreditar que Deus colabora com a Lava Jato."
O jornalista cita um diálogo entre Dallagnol e os fiéis: 
"Dentro da minha cosmovisão cristã, eu acredito que existe uma janela de oportunidade que Deus está dando para mudanças", afirmou.
"Amém", respondeu a plateia.
"É isso aí. Deus está respondendo", devolveu Dallagnol.
O procurador também disse: "se nós queremos mudar o sistema, precisamos orar, agir e apoiar medidas contra a corrupção", disse, antes de acrescentar: "O cristão é aquele que acredita em mudanças quando ninguém mais acredita. Nós acreditamos porque vivemos na expectativa do poder de Deus".
Em seguida, Dallagnol pediu apoio para um abaixo-assinado favorável a um projeto de lei do Ministério Público que pede mudanças na lei contra corrupção.
Eu acho errado e inaceitável.
A Lava Jato é uma operação policial feita por homens de carne e osso, com qualidades e defeitos. Podemos listar uns e outros, mas este não é o caso, agora.
Quando as mudanças nas leis contra corrupção, basta saber que, no Supremo, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello fazem críticas à alteração principal, aberração que tenta permitir que a Justiça aceite provas obtidas de modo ilícito. (Algo a ver com as escutas da Lava Jato, terrestres e ilegais? Quem sabe).
Cabe estranhar que seu responsável, chefe da força-tarefa, condição que lhe dá uma posição muito especial no Ministério Público, e uma força interna muito grande frente ao PGR Rodrigo Janot, tente apresentar  a Lava Jato num patamar acima de toda crítica, sugerindo que se trata de uma obra divina.  "Deus está respondendo." É isso aí?
Se isso é feito por puro marketing, é desprezível. Se apoia-se numa crença verdadeira, hipótese em que acredito, é mais grave ainda -- pois, através de convicções religiosas, exprime um absurdo viés antidemocrático, anterior à Revolução Francesa de 1789. Em qualquer caso, é uma postura estranha -- eu diria incompatível até -- com a justiça dos homens.
Se aprendemos que o bom Direito se revela através do conflito e do contraditório, como conciliar essa noção, moderna, herética, com noções divinas, quando sabemos que o sagrado é intocável?
Deltan Dallagnol é procurador da República, num país onde o artigo 127 da Constituição diz que o "Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis."
Em seu artigo 5o, parágrafo VI, a Constituição diz ainda que é "inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;”
No artigo 19, inciso I, se afirma que é "vedado a União, Estados e Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público."
São regras importantes. O  Estado não pode perseguir religiões. Também não pode ter preferências.
O Brasil define-se como um Estado laico desde 1889, na proclamação da República. Essa visão se contrapõe a de um Estado confessional, aquele onde uma religião específica tem proteção especial e direitos específicos.
O Brasil, há 126 anos, optou pelo caminho da tolerância e da igualdade entre as religiões, proibindo até que estabeleçam "relações de dependência ou aliança."
É esta "ordem jurídica" que cabe a um procurador desta República defender. E só. 
Alguma dúvida?