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terça-feira, 1 de agosto de 2017

O jornalismo de empulhação que personifica o “mercado”, por J. Carlos de Assis




GGN. - O noticiário econômico brasileiro é uma peça de ficção e de empulhação da sociedade. A maioria dos jornalistas de tevê e de jornal, notadamente dos grandes, mascara sua imbecilidade específica com conceitos ideológicos tomados do neoliberalismo sem qualquer espírito crítico. Pior do que isso. É um jornalismo que se baseia numa figura fantasmagórica chamada “mercado”, que emite opiniões extravagantes como se fosse uma pessoa.
Pela boca ou pela pena desses noticiaristas de circo o “mercado” fala, o “mercado” sente, o “mercado” ouve. Dão ao mercado uma personalidade específica, com sentimentos, razão e outros predicados humanos. O “mercado” é capaz de emitir extensos comentários a respeito das últimas medidas do governo, em geral repetindo noções elementares de economia que se tornam lições de idiotice para servir o público.
O leitor ou telespectador comum jamais saberão que, por trás do “mercado”, existe  um jornalista imbecil ou preguiçoso que se livra de uma investigação responsável da matéria recorrendo ao ente “especializado” que inventou. O “mercado” tem, assim, uma dupla função. Servir  como expressão da ideologia econômica de dominação, e possibilitar que o repórter preguiçoso, inventando um entrevistado, se livre da responsabilidade de fazer uma matéria decente, com nome e endereço do entrevistado.
Com mais de 40 anos de jornalismo econômico, jamais encontrei em qualquer instância de minha vida profissional o dito “mercado” – exceto, claro, as feiras livres de venda de hortaliças. Esse, sim, é o mercado. Entretanto, os jornalistas que cobrem bolsa provavelmente jamais visitaram um mercado real. O que não os impede de explicar o que  levou o “mercado” a este ou outro comportamento, sem  qualquer base real.
Todos sabemos que bolsa é um mercado absolutamente especulativo. Pode-se dizer que, matematicamente, é governado pela Teoria do Caos: pequenas alterações iniciais produzem grandes transformações finais, impossíveis de prever. Não obstante, os jornalistas de bolsa sentem-se obrigados a tomar o “mercado” como referência para avaliação de outros aspectos da sociedade, inclusive políticos.
Façam um experiência: vejam as afirmações do “mercado” no passado e comparem com o que veio depois. Quando se trata de previsões, só por pura sorte acertam. O “mercado”, em geral, tem prazo de validade de 24 horas. Para trás, os jornalistas que fazem do “mercado” seu porta-voz explícito não tem qualquer compromisso com a verdade ou a razoabilidade.
Mas a dominância absoluta da pessoa “mercado” no noticiário econômico não é a única extravagância brasileira nessa área. O contrário é ainda mais extraordinário. O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, cujas relações com o Itaú são notórias, tem prestado declarações segundo as quais a taxa de juros não caiu mais porque o Congresso não votou a reforma da Previdência, algo de notório interesse da banca privada, inclusive Itaú.
No contexto político em que o presidente da República foge de um processo por fraude e nove de seus ministros são apontados por corrupção, Ilan deve ter se sentido muito à vontade para defender abertamente os interesses da banca sem medo de conflito ético. É um país estranho este em que estamos. Vivemos entre o escárnio, a revolta e o nojo. Acaso isso poderá acabar bem?

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O bêbado e o jornalismo (tendencioso), por Elstor Hanzen




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   "O 2016 foi farto de problemas complexos para os quais se vendeu soluções fáceis e rápidas. Por causa da manifestação de insatisfação da população com a corrupção e com a crise política e econômica, a saída foi o impeachment e a instalação de um governante salvador da pátria. E a mídia teve um papel decisivo nesse processo porque coletou todas as evidências favoráveis à ideia e, o pior, passou até interpretar indícios ambíguos de modo a favorecer e respaldar a ideia como solução para a crise."






O bêbado e o jornalismo

Por Elstor Hanzen em 19/12/2016 na edição 928 do Observatório da Imprensa



“O modo como enxergamos o mundo seria muito diferente se todos os nossos julgamentos pudessem ser isolados da expectativa e baseados apenas em informações relevantes”, ou ainda: “É fácil seremos vítimas das expectativas, e é também fácil explorá-las diante dos outros.” Essas são reflexões trazidas pelo físicoestadunidense Leonard Mlodinow, no livro O andar do bêbado, publicado em 2009. Em palavras gerais, a obra trata de como fatores aleatórios influenciam no resultado de sistemas complexos, como na nossa vida, por exemplo. Especificamente, Mlodinow traz importantes lições para o jornalismo, para tal apresenta resultados que desmistificam os salvadores da pátria, as celebridades, os gurus do marketing, enfim, contrapõe o mundo da aparência ao da essência.
O 2016 foi farto de problemas complexos para os quais se vendeu soluções fáceis e rápidas. Por causa da manifestação de insatisfação da população com a corrupção e com a crise política e econômica, a saída foi o impeachment e a instalação de um governante salvador da pátria. E a mídia teve um papel decisivo nesse processo porque coletou todas as evidências favoráveis à ideia e, o pior, passou até interpretar indícios ambíguos de modo a favorecer e respaldar a ideia como solução para a crise.
Por outro lado, não mostrou as contra razões desse processo, mas que ao longo do ano foram se impondo naturalmente. Portanto, ignorou-se a premissa básica que diz: para uma ideia ter o mínimo de consistência, é necessário equilibrar os prós e os contras, contudo, o que se fez foi seguir apenas o padrão de comportamento observado pelo filósofo Francis Bacon, em 1620. Para Bacon, “a compreensão humana, após ter adotado uma opinião, coleciona quaisquer instâncias que a confirmem, e ainda que as instâncias contrárias possam ser muito mais numerosas e influentes, ela não as percebe, ou então as rejeita, de modo que sua opinião permaneça inabalada”.
Esse comportamento é chamando pelos psicólogos de viés da confirmação, prática muito presente também nas redes sociais, em que se seguem pessoas com as mesmas opiniões e preferências, estratagema cada vez mais reforçado graças ao uso dos algoritmos para juntar um público homogêneo no espaço online que, em última instância, visa o mercado e o interesse comercial de grupos empresariais. Segundo tal lógica, quando estamos diante de uma ilusão – ou em qualquer momento em que tenhamos uma nova ideia -, em vez de tentarmos provar que nossas ideias estão erradas, geralmente, tentamos provar que estão corretas. Inclusive, a tendência de confirmação de nossas expectativas não é nova nem só coisa da internet. Conforme Mlodinow, ela pode ocorrer em várias circunstâncias, como exemplo, quando um empregador entrevista um candidato a um emprego, sua propensão é formar uma rápida primeira impressão do sujeito e passar o resto da entrevista buscando informações que a corroborem.
Mundo da aparência
Quem se serve bem do mundo das aparências e das falsas expectativas é o marketing. Para ilustrar sua obra sobre o mito das falsas verdades, Mlodinow apresenta diversas pesquisas e análises realizadas no campo das marcas. E num estudo feito em 2008, um grupo de voluntários deu nota melhor a uma garrafa com etiqueta de US$90 que a outra com etiqueta de US$10, embora os sorrateiros pesquisadores tivessem enchido as duas com o mesmo vinho. Outro teste foi feito com vodca. De acordo com a descrição da bebida feita pelo governo da Rússia, ela é neutra e não apresenta aroma, sabor e cor. Mas o estudo com 21 rótulos diferentes da bebida mostrou resultados curiosos: no primeiro teste, os rótulos e os preços ficaram à mostra, quando os envolvidos atribuíram qualidades melhores à medida que o valor era maior e a marca mais conhecida. Num segundo teste, às cegas, com as mesmas pessoas, a vodca mais barata recebeu melhor cotação.
Para lembrar que a força das marcas não se restringe a produtos específicos, evidentemente, basta citar a eleição do prefeito de São Paulo, João Doria Jr.; e do presidente dos EUA, Donald Trump. O que os dois têm em comum: são empresários e ex-apresentadores de reality show; portanto, se beneficiaram fortemente na política devido à construção dos seus nomes pelo marketing. E o que o jornalismo fez para mostrar a realidade por trás dessas aparências? Pelo menos aqui no Brasil, praticamente nada.
Já o autor do O andar do bêbado busca uma compreensão mais ampla para o exposto. Ele avalia que a visão determinística do mercado dá conta que o sucesso da pessoa e do produto é determinado pelos valores intrínsecos, o que, em geral, é uma falácia, ressalta ele. Ou seja, na sociedade capitalista se diz que os valores e os princípios são essenciais, mas se projeta o grau da celebridade e a quantidade de dinheiro como sinônimo de sucesso. Esse tipo de sociedade também se apressa em transformar os ricos em heróis e os pobres em pondes expiatórios.
A origem disso vem da nossa tendência a confiar demais nas previsões excessivamente precisas das pessoas – comentaristas, especialistas de finanças, gurus do marketing – cujo histórico, supostamente, demonstra conhecimento dos assuntos. Mas se visto com mais cuidado, como fazem os historiadores, apenas se gera uma aparência de inevitabilidade, usando a estratégia de citar fontes abalizadas pelo mercado e de trazer para o primeiro plano as forças vencedoras e jogando para o segundo as que foram engolidas pelas primeiras.
Mundo da essência
O bom jornalismo que procura trazer à tona a essência e a relevância dos acontecimentos, infelizmente, está em falta nos últimos tempos. O que se tem visto é a espetacularização dos fatos, a criação de heróis e salvadores da pátria, publicitação de falsas polêmicas. Tudo isso se materializou em 2016, quando acompanhamos a cobertura da tragédia com o time da Chapecoense, a sobreposição de determinados juízes da Lava Jato a suas próprias instituições ou a dicotomia entre o Congresso Nacional e o STF.
Esse tipo de tratamento dos fatos ajuda pouco a cumprir uma das essências do jornalismo, levar informações às pessoas para terem sua independência e se autogovernarem, por exemplo. Ainda mais agora, momento em que a mídia tradicional – jornal, rádio, televisão – sofre com as superficialidades, boataria e polarizações das informações publicadas nas redes sociais. Para fazer frente a tal realidade, dever-se-ia ter como uma espécie de missão a verificação e a relevância dos assuntos, antes de lançá-los à agenda pública. Mas o que tem acontecido é o viés da confirmação de algumas verdades, assim ampliando as falsas verdades e a tão conhecida polarização dos temas nas plataformas online.
Acompanhar e endossar opiniões diante de movimentos de ocasião, conforme sopra o vento, não contribui em nada a fortalecer o jornalismo e preservar seu principal ativo: a credibilidade. Por isso, não importa quanto a forma de fazer jornalismo e a distribuição da informação tenham mudado com a nova tecnologia, a essência tem permanecida a mesma: desmistificar as falsas verdade e fornecer aos cidadãos informações seguras para tomarem suas decisões. Adotando esta postura, conforme Bill Kovach e Tom Rosenstiel escreveram no livro “Os Elementos do Jornalismo: o que os jornalistas devem saber e o público deve exigir”, pode até não se alcançar a verdade, mas o público sabe reconhecer se se chegou perto – quando fontes autorizadas, pesquisa exaustiva e métodos transparentes foram aplicados no processo e de modo honesto.
Em 2017, para não continuar neste movimento aleatório, culpando a crise econômica e as redes sociais e se chocando contra todos os obstáculos que encontra pelo caminho sem saber aonde irá chegar, como o andar do bêbado, o jornalismo precisa deixar de lado o papel do marketing e se dedicar a desvendar os temas que de fato influenciam e ajudam a construir nossa cidadania. Só assim a notícia será relevante e servirá como base nas decisões da vida.
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Elstor Hanzen é jornalista e especialista em convergência de mídias

domingo, 6 de dezembro de 2015

A sabotagem da Direita Golpista e sua grande mídia iniciou-se, contra Dilma, bem antes dela assumir o novo mandato...


O momento de avaliá-la foi em outubro de 2014

Texto de Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo

Dilma está sendo bombardeada muito além da conta.

Me chamou a atenção o número de artigos em que pessoas que condenam o impeachment fazem questão de dizer que Dilma vem fazendo um governo péssimo e é irremediavelmente incompetente.

Um momento.

Gostaria de saber quais as razões concretas por trás dessa avaliação.

Dilma, a rigor, fez um mandato. Se os brasileiros não aprovassem seu desempenho ela não teria sido eleita. Isto é fato.

Para colocar em contexto, ela venceu em circunstâncias extraordinariamente adversas, o que dá ainda maior legitimidade à vitória.

A imprensa fez tudo o que podia para sabotar sua candidatura. Aécio foi escandalosamente favorecido. A imprensa tratou-o como seu candidato.

Dilma foi, em todos os momentos da campanha, massacrada por jornais, revistas, telejornais. O caso da Petrobras veio para liquidá-la.


Aécio não foi associado sequer ao helicóptero cheio de cocaína de seu amigo do peito (e de clube) Perrela.

O favorecimento criminoso da mídia a Aécio, neste episódio, pode ser avaliado diante das obsessivas menções, agora, a um “amigo de Lula”.

Perrela, para a imprensa e só para ela, não era amigo de Aécio.

Sequer o aeroporto privado que Aécio construiu com dinheiro público numa cidade mineira foi objeto de questionamento da imprensa.

A Folha tocou no assunto, e logo caiu fora. Aparentemente, estava mais preocupada em fazer marketing — o do rabo que não está preso — do que jornalismo efetivamente.

E a Globo fez uma palhaçada. Depois de ignorar o assunto, Bonner, em sua entrevista com Aécio, interpelou-o duramente sobre o aeroporto. De novo: depois de esconder o aeroporto.

Aécio, se fosse mais esperto, poderia responder: “Ora, Bonner, se o assunto fosse importante, vocês teriam dado bem no Jornal Nacional.”

Seria um ippon.

Dilma viveu uma situação oposta. A obra magna da imprensa foi a capa da Veja na véspera da eleição.

Baseada numa mentira acintosa, a de que um delator teria dito que Dilma e Lula sabiam de tudo no Petrolão, a capa foi maciçamente usada como propaganda política antipetista no maior colégio eleitoral do país, São Paulo.

O gangsterismo da Veja se comprovaria, algum tempo depois, quando foi publicado o real conteúdo da delação. Emnenhum instante o delator disse o que a Veja disse que ele disse.

Pois bem.

Com tudo isso, e sem ser uma debatedora com os dotes de Lula, Dilma venceu.

O povo, portanto, a aprovou. Deu-lhe mais um mandato.

E o que veio depois?

Dilma nem assumira e se iniciou um descarado movimento para derrubá-la. A direita, sem pudor, repetiu o que fizera em 1954 e 1964: tentar tirar na marra um governante de caráter popular.

Governar um país é difícil. Quando este país tem uma estrutura secularmente voltada para preservar privilégios e mamatas de uma pequena elite predadora, é ainda mais complicado.

Agora: quando você é sabotado a cada minuto, é simplesmente impossível. E Dilma vem sendo sabotada em regime de 24 horas por 7 dias. Não há feriado, não há dia santo, não há sábado e não há domingo.

Se você olhar para trás, vai ver que até os números de votos foram postos em dúvida. Nem a direita venezuelana chegou a tal grau de abjeção.

Como, diante disso, avaliar Dilma? Quem faria melhor? Quem teria chance de fazer melhor?

Ninguém.

A “incompetência” é, ao lado da corrupção, uma antiga arma usada pelo plutocracia brasileira contra presidentes que ela não controla. Jango foi o tempo inteiro acusado de incompetente quando criavam contra ele dificuldades simplesmente intransponíveis.

É a mesma história com Dilma.

A direita inviabiliza qualquer chance de você governar e depois acusa você de inepto.

Não há limites para o descaramento. Aécio, para defender o impeachment, disse nestes dias que a instabilidade é enorme no Brasil.

Ora, a instabilidade tem um nome: Aécio. Desde o primeiro dia ele se dedica a conspirar contra 54 milhões de votos.

O mandato de Dilma é de quatro anos. E no entanto desde a primeira semana cobravam dela como se fosse a última.

É golpe, é uma tentativa intolerável de destruir a democracia, falar em qualquer coisa que desconsidere que Dilma foi eleita para governar até 2018.

O momento de julgá-la — nas urnas — foi no final de 2014.

Querer tirá-la no poder agora, e com os argumentos desumanamente falaciosos que estão sendo utilizados, é um crime de lesa pátria e lesa democracia.

Paulo Nogueira
No DCM

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A mídia golpista, Dilma e Jango

Texto de Luis Nassif, extraído do Luis NassifOline-Jornal GGN:

José Eduardo Cardoso, Dilma e a solidão de Jango




A governo Dilma entra na batalha final do segundo turno. Perdendo, joga fora um projeto de país do qual é fiadora. Trata-se, portanto, de uma batalha final onde está em jogo um governo e, mais que isso, um projeto de país.

Nas gravações clandestinas dos depoimentos de Paulo Roberto Costa há um jogo de vazamentos seletivos, cuja responsabilidade é do juiz Sérgio Moro. Digo isso pelo fato da gravação ter sido efetuada na sua presença, sem que tomasse a menor precaução em prevenir o grampo - mesmo havendo um número reduzido de pessoas assistindo o depoimento - e por seu desinteresse em apurar o episódio.

Trata-se de um vazamento articulado com os grupos de mídia, cada qual atuando como peça de uma estratégia maior. E a gravação clandestina foi cometida nas narinas de Moro, sutil como um estupro à luz do dia, em plena Avenida Paulista.

Abre-se uma guerra de informações e declarações. Do lado do governo, o porta-voz autorizado, o que obteria maior espaço na mídia seria o Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo. Ele seria o campeão de Dilma, a entrar em campo, de peito aberto, em defesa do seu governo.

Sem minimizar a gravidade das denúncias, ele poderia dar uma de suas aulas de direito - que reserva para os cursos que coordena nas Faculdades Damázio, acumulando com seu cargo de Ministro.

Lá poderia didaticamente explanar sobre os abusos dos vazamentos, anunciar medidas para apurar as responsabilidades, atuar junto ao Conselho Nacional de Justiça, ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal para punir os infratores e interromper o estupro da lei. Tudo isso sem abrir mão do reconhecimento das tramoias.

Nada faz. Não corre riscos, não se expõe em nenhum momento.

Contam que, ao sair de uma apresentação do documentário "O  dia que durou 21 anos" - sobre a ditadura - Dilma comentou com interlocutores, emocionada, como Jango estava só. Referia-se ao Comício da Central, com Jango cercado por assessores e aliados parte dos quais, dias depois, o abandonaria.

Um dos convivas  olhou para José Eduardo, que também assistia o documentário, pensou em falar alguma coisa para a presidente. Mas achou melhor não. Com a teimosia da presidente, o alerta cairia no vazio.

Se reeleita, talvez Dilma já esteja suficientemente vacinada contra a mais cruel das armadilhas: os assessores que só dizem sim e que jamais se expõem.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Uma mídia comprometida que há muito perdeu o senso de razão e da sensibilidade




Do diário de Centro do Mundo


A derrota do Brasil para a Alemanha levou os suspeitos de sempre a pintar um cenário tenebroso no país. Ok, foi um massacre, mas houve um certo regozijo sádico, um acerto de contas pelo apocalipse estrutural que não veio.

A capa do Globo com um David Luiz de quatro no gramado e a manchete “Vergonha, Vexame, Humilhação” é um exemplo rematado de histeria sensacionalista.

Por incrível que pareça, a vida seguiu adiante no dia seguinte. O jornalista Matthew Futterman, do Wall Street Journal, escreveu um bom artigo contando o que viu nas ruas sob uma perspectiva estranhíssima: o mundo não acabou.

Eis a matéria:

Adivinhe o que aconteceu no Brasil na quarta-feira?

O sol apareceu. As pessoas foram para o trabalho. Elas dirigiram táxis, abriram supermercados, clicaram em seus computadores para tratar de assuntos jurídicos e financeiros. Médicos curaram os doentes. Assistentes sociais enfrentaram os problemas da grande pobreza neste país de cerca de 200 milhões. A vida continuou.

Adivinha o que não aconteceu? Cidades não queimaram. Rebeliões em massa não aconteceram. Tanto quanto sabemos, torcedores não se jogaram de edifícios porque sua amada Seleção foi destruída pela Alemanha, por 7-1, na semifinal da Copa.

À luz cruel do dia, ainda é estranho escrever “Alemanha 7, Brasil 1.” Esse tipo de resultado não acontece neste nível de futebol. O último jogo oficial que o Brasil perdeu em casa foi em 1975. Se eu fosse um nativo, estaria abalado, tentando descrever a debacle que aconteceu em Belo Horizonte.

Não se engane: a derrota para a Alemanha, para usar a frase favorita do técnico dos EUA, Jurgen Klinsmann, foi uma lástima. As pessoas aqui amam o futebol. O governo declara feriados nos dias de partidas da equipe nacional. Ruas vazias, e eu quero dizer vazias – como se você pudesse montar uma barraca no meio de uma delas e não acontecer nada.

Ainda assim, não compre a história de que esta perda vai deixar alguma cicatriz indelével em um país tentando desesperadamente prosperar em uma série de áreas que não têm nada a ver com futebol. Essa idéia é um pouco humilhante para os brasileiros, que são a coleção de almas mais acolhedoras com que eu me deparei.

Houve a mulher na loja de óculos aqui em São Paulo que se recusou a aceitar dinheiro pelo estojo de óculos que ela me deu depois que eu perdi o meu. Houve os estudantes universitários em Natal que me ofereceram um tour pela cidade e uma carona de volta para meu hotel no meio da noite, quando não havia transporte à vista após a vitóriq dos EUA sobre Gana.


Embrulhando o peixe
 Lá estava o rabino que, 30 segundos depois de me conhecer, insistiu para que eu fosse jantar no sábado em sua casa (eu fui, e a sopa de matzo ball estava incrível). Houve as inúmeras almas pacientes comigo na rua, esperando enquanto eu tateava meu dicionário de bolso de português, procurando a palavra certa para completar uma pergunta idiota, quando certamente eles tinham algo melhor para fazer.

Estive aqui por um mês. Isso dificilmente me qualifica como um especialista na cultura brasileira. Minha amostragem é pequena e limitada a hotéis, restaurantes, estádios de futebol e pistas de corrida ao lado de praias do Rio, Natal, Recife e algumas outras cidades-sedes. Eu sei do crime e da pobreza.

Mas eu também sei que este é um país incrível, diverso. Encare quatro horas de voo rumo à Amazônia a partir de São Paulo e as pessoas parecem completamente diferentes daquelas em qualquer shopping do país. Em Salvador, você pode muito bem achar que está na África Ocidental. Em cada cidade, pessoas de todos os tons de pele — preto, marrom e branco — preenchem áreas de ricos e pobres. É um país de beleza física impressionante e vastos recursos naturais. O tráfego da hora do rush faz as avenidas de Los Angeles parecerem estradas do interior, um sinal claro de que o lugar precisa de alguns melhoramentos de infra-estrutura, mas também que há um grande número pessoas trabalhadoras que querem tornar o amanhã melhor do que hoje.

Em outras palavras, o Brasil é muito mais do que uma camisa canarinho e uma obsessão com o futebol.

O colapso contra a Alemanha certamente vai despertar algum exame de consciência nacional sobre como o Brasil cultiva e desenvolve a sua próxima geração de estrelas do futebol. O país tem um enorme banco de talentos, mas acidentes não podem mais acontecer no esporte. Vencer nesse nível hoje significa não apenas talento, mas dinheiro, treinamento e uma estratégia coerente.

“Quando você pensa sobre isso”, disse uma brasileira de 20 e poucos em um bar na noite passada,  “é meio engraçado. Quer dizer, sete gols. É engraçado, né?”

Eu vou apostar que o Brasil como um todo vai se sair muito bem depois disso. Chateado um pouco, claro, mas em última análise, tudo vai dar certo. De muitas maneiras, já deu.


Sobre o Autor

Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.