segunda-feira, 28 de maio de 2018

Série de Reportagens, com o jornalista Luis Carlos Azenha, desvela aos desmemoriados e aos que se recusam a Estudar a prática de Tortura contra Crianças e Inocentes na Ditadura Militar



A série de cinco reportagens a seguir foi exibida no Jornal da Record e se referem ao hediondo crime de tortura praticados pelos agentes da Ditadura Militar entre 1964 a 1985. Todos os vídeos estão disponibilizados no Youtube:



Vídeo 2: Reportagem 2 - Lembranças do filho de um pai torturado


Vídeo 3: Reportagem 3 - Criança torturada é separada dos pais











Pedro Parente e os efeitos da política “America First”, que ele implantou na Petrobras. Por Joaquim de Carvalho


Do Diário do Centro do Mundo:




Artigo de Joaquim de Carvalho

O ministro das Minas e Energia, Moreira Franco, avisou ao mercado, através da Folha de S. Paulo: Pedro Parente fica.
“É como na música do Tim Maia: não há motivo (para ele sair)”, disse.
Não?
A histórica Associação dos Engenheiros da Petrobras, que existe praticamente desde a campanha o Petróleo É Nosso, analisou a política de preços implementada por Pedro Parente, que eu reproduzo aqui, na forma de perguntas e respostas?
Qual a política de preços implementada por Pedro Parente?
Resposta:  A Petrobras adotou nova política de preços dos combustíveis em outubro de 2016. A partir de então, foram praticados preços mais altos que viabilizaram a importação por concorrentes.
Quem ganhou com essa política?
Resposta: A estatal perdeu mercado e a ociosidade de suas refinarias chegou a um quarto da capacidade instalada. A exportação de petróleo cru disparou, enquanto a importação de derivados bateu recordes. A importação de diesel se multiplicou por 1,8 desde 2015, dos EUA por 3,6. O diesel importado dos EUA que em 2015 respondia por 41% do total, em 2017 superou 80% do total importado pelo Brasil.
Foi uma política boa para os americanos, então?
Resposta: Ganharam os produtores norte-americanos, os “traders” multinacionais, os importadores e distribuidores de capital privado no Brasil. Perderam os consumidores brasileiros, a Petrobras, a União e os estados federados com os impactos recessivos e na arrecadação. Batizamos essa política de “America first! ”, “Os Estados Unidos primeiro!”.
Mas as analistas da velha imprensa dizem que, se não houvesse essa política, a Petrobras quebraria. Quebraria mesmo?
Resposta: Diante da greve dos caminhoneiros assistimos, lemos e ouvimos, repetidamente na “grande mídia”, a falácia de que a mudança da política de preços da Petrobras ameaçaria sua capacidade empresarial. Esclarecemos à sociedade que a mudança na política de preços, com a redução dos preços no mercado interno, tem o potencial de melhorar o desempenho corporativo, ou de ser neutra, caso a redução dos preços nas refinarias seja significativa, na medida em que a Petrobras pode recuperar o mercado entregue aos concorrentes por meio da atual política de preços. Além da recuperação do mercado perdido, o tamanho do mercado tende a se expandir porque a demanda se aquece com preços mais baixos.
Mas a política implementada por Pedro Parente não fortaleceu a empresa?
Resposta: Não. A atual direção da Petrobras divulgou que foram realizados ajustes na política de preços com o objetivo de recuperar mercado, mas até aqui não foram efetivos. A própria companhia reconhece nos seus balanços trimestrais o prejuízo na geração de caixa decorrente da política adotada.
Outra falácia repetida 24 horas por dia diz respeito a suposta “quebra da Petrobras” em consequência dos subsídios concedidos entre 2011 e 2014. A verdade é que a geração de caixa da companhia neste período foi pujante, sempre superior aos US$ 25 bilhões, e compatível ao desempenho empresarial histórico. Em 2011, foram 33,03 bilhões de dólares gerados pela companhia; em 2012, 27,04; em 2013, 26,03; em 2014, 26,6; em 2015, 25,9; em 2016, 26,10; e em 2017, 27,11.
É possível ter uma Petrobras forte com preços dos combustíveis mais baixos:
Resposta: A Petrobras é uma empresa estatal e existe para contribuir com o desenvolvimento do país e para abastecer nosso mercado aos menores custos possíveis. A maioria da população quer que a Petrobras atue em favor dos seus legítimos interesses, enquanto especuladores do mercado querem maximizar seus lucros de curto prazo.
Nossa Associação se solidariza aos consumidores brasileiros e afirma que é perfeitamente compatível ter a Petrobras forte, a serviço do Brasil e preços dos combustíveis mais baixos e condizentes com a capacidade de compra dos brasileiros.
Como se vê, Pedro Parente foi bom para os americanos, não para os brasileiros. Tucano, com experiência na gestão de fortunas pessoais e em empresas multinacionais, deixou na Minas e Energia, quando ministro, o legado do apagão entre 2001 e 2002, no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Voltou ao governo com o golpe de 2016. Para ser mantido na empresa, é porque tem costas quentes. Para derrubá-lo, os petroleiros iniciam na quarta-feira uma greve na empresa.
A reivindicação é trabalho.
Os petroleiros querem que as refinarias voltem a operar na sua capacidade plena, para garantir a produção de derivados do petróleo, como gasolina, gás e querosene a preços fixados em real, não em dólar.
Só assim o brasileiro deixará de viver o absurdo de pagar R$ 5,00 pelo litro da gasolina em Foz do Iguaçu, no Paraná, e, ao atravessar a fronteira, abastecer a R$ 2,50 em Ciudad del Leste, no Paraguai.
Brazil first; Pedro Parente, go home.

A rendição de Temer e a não-solução para a greve, por Luis Nassif


  "A subordinação da política energética à lógica de mercado atropela o próprio documento legal que dispõe sobre o tema, a Lei 9478/97, como informa a economista Ceci Juruna. Aliás, a posição de parte majoritária da velha mídia, não aceitando qualquer decisão que possa impor algum custo aos acionistas da Petrobras, ainda que à custa do bolso do contribuinte e do consumidor, é significativa desses tempos de profunda ignorância jurídica, de desconhecimento sobre o chamado interesse nacional e de adesão cega ao mercadismo mais irresponsável." - Luis Nassif

Do Jornal GGN:


Artigo de Luis Nassif
O tique de fechar a boca, como quem está engolindo a saliva que escorre do beiço; as mãos magras, desossadas, melífluas, espelhos da alma; a dissimulação de disfarçar a leitura do teleprompter com observações vazias, e, principalmente, o tom impositivo, ridículo para cenas de rendição, como que estivesse batendo em retirada de costas, para não levar projéteis no traseiro. Todo esse conjunto ajuda a compor a mais execrável personalidade política da história da República.
Depois de ameaçar os caminhoneiros com processo e prisão, depois de anunciar o fim dos bloqueios várias vezes, o presidente Michel Temer encerra o dia pedindo pelo amor de Deus para os caminhoneiros voltarem ao trabalho. E paga a conta com recursos fiscais, sangrando ainda mais um quadro fiscal desastroso. Aliás, em todos esses movimentos, não foi notada a presença do Ministro da Fazenda, Eduardo Guardia.
A subordinação da política energética à lógica de mercado atropela o próprio documento legal que dispõe sobre o tema, a Lei 9478/97, como informa a economista Ceci Juruna. Aliás, a posição de parte majoritária da velha mídia, não aceitando qualquer decisão que possa impor algum custo aos acionistas da Petrobras, ainda que à custa do bolso do contribuinte e do consumidor, é significativa desses tempos de profunda ignorância jurídica, de desconhecimento sobre o chamado interesse nacional e de adesão cega ao mercadismo mais irresponsável.
É um tratamento escandaloso, a começar do mega-acordo da Petrobras, nas ações propostas por minoritários norte-americanos.
Diz a lei:
CAPÍTULO I
Dos Princípios e Objetivos da Política Energética Nacional
Art. 1º As políticas nacionais para o aproveitamento racional das fontes de energia visarão aos seguintes objetivos: 
- preservar o interesse nacional;
II - promover o desenvolvimento, ampliar o mercado de trabalho e valorizar os recursos energéticos; 
III - proteger os interesses do consumidor quanto a preço, qualidade e oferta dos produtos; (...)
Sendo privada ou pública, como empresa quase monopolista, a Petrobras tem responsabilidades impostas por qualquer princípio de direito econômico. Às vantagens do monopólio deve corresponder a responsabilidade pela política de preços. Em nenhuma sociedade minimamente civilizada, admite-se o poder absoluto de um monopólio em fixar preços. Ainda mais em um preço chave da economia, como o dos combustíveis.

O encontro de contas


Aliás, se houvesse governo, seria o momento de experimentar o encontro de contas, especialmente com estados e municípios. Há um enorme passivo acumulado pela Lei Kandir – que obriga a União a ressarcir os estados de isenções tributárias para produtos exportados. E, na outra ponta, dívidas consolidadas de 1995, que impõem custo alto aos estados devedores. Aliás, dívidas profundamente infladas pelas taxas de juros praticadas pelo Banco Central no período.
Muitos dos estados credores – na ponta da Lei Kandir – estão se inviabilizando na questão previdenciária ou na quitação das dívidas com a União. O encontro de contas ajudaria a normalizar o quadro fiscal, dando um fôlego aos estados e quitando passivos históricos da União.

Leonardo Attuch sobre o Apocalipse provocado pelos golpistas, em especial Pedro Parente, gestor dos interesses das petroleiras internacionais sobre a Petrobras



Da TV 247:




Renúncia já e diretas já. Artigo de Gustavo Castañon



"Não podemos ficar contra a população no momento em que ela se levanta contra o governo mais ilegítimo, corrupto e entreguista de nossa história. Não pedimos isso há quatro meses das eleições, mas a realidade está aí. Não temos opção moral senão pedir, como o velho Brizola ensinou, não um "fora Temer" que pode vir contra a normalidade democrática, mas um RENÚNCIA JÁ junto de um DIRETAS JÁ, em outubro. Vamos pedir RENÚNCIA e DIRETAS para neutralizar o pedido de Intervenção Militar que circula pelos fascistas de sempre e entrou no movimento."




Estamos diante de uma das situações mais difíceis que o país já viu. Evidentemente continuamos sendo desestabilizados. Como avaliar e agir?
Bem, minha opinião vai aqui.
1) Caminhoneiro é trabalhador explorado, o lugar da esquerda é do lado de qualquer trabalhador explorado. Temos que apoiar essa categoria que sofre no lombo com as estradas privatizadas e a Petrobrás servindo aos acionistas (eu sou acionista). Se tem imbecil achando que o combustível está alto por causa do "roubo dos políticos" a culpa é nossa que continuamos menosprezando as redes perdendo a narrativa.
2) A greve começou como locaute, então todos os patrões que promoveram isso no início devem ser presos provisoriamente, investigados e processados, pois locaute é crime e esse tipo de atentado a estabilidade econômica por categorias de empresários deve ser coibida.
3) O Exército não quer servir a Temer nem confrontar trabalhador. O risco de em breve assistirmos uma insubordinação é muito grande.
4) A extrema-direita que está organizada em células pequenas e virtuais joga no caos social já entrou no movimento e tenta dar a cara dele. Não acho que a esquerda deva fazer o mesmo porque é oportunismo e a categoria não é de idiotas, não pega bem. Mas devemos apoiá-los.
5) A situação de fato se encaminha para o colapso. E caos é a matéria prima da extrema-direita.
6) Ao vilanizar os caminhoneiros e pedir exército a Globo pode estar jogando no aprofundamento do golpe. Não é minha primeira hipótese, mas não se pode descartar que essa alta frenética de preços nos últimos meses e a inflexibilidade de Parente sejam propositais para criar o ambiente de golpe.
7) A agenda reformista-liberal liderada pelos maiores corruptos e salafrários do Brasil parece enterrada eleitoralmente pela greve e colapso da política de Parente, que não tem mais como ficar na Petrobrás. Se isso não foi parte de uma agenda para se livrar das eleições, isso coloca essa possibilidade na mesa diante do desespero da direita entreguista e globalista, os maiores motores do golpe.
8) Os petroleiros vão entrar em greve, mas não deveriam esperar condescendência da população. São uma categoria organizada, portanto, vão sofrer as mesmas difamações da mídia e classe média de sempre. Vão ter alguém de esquerda para vilanizar, mas mesmo com o risco acho que devemos disputar a narrativa do momento. 
9) É claro que a democracia está em risco. Desde junho de 2013. Só piora a cada ano, mês, dia. Se a greve não for furada em dois ou três dias ninguém sabe o que pode acontecer. Se o comandante militar não fosse o Villas-Boas já estaríamos com botas pisando o congresso e o palácio do planalto.
10) Se a NSA e a CIA manipularam os eventos de 2013 na rede, evidentemente tem muito mais poder para fazê-lo numa categoria limitada em tamanho. O objetivo dos EUA tem sido desde 2013, e em vários países do mundo, a dissolução nacional de países não alinhados. É claro que eles podem ter provocado isso ou se aproveitado para entrar nas redes dos caminhoneiros direcionando seu tráfego e narrativa, vídeos, monitoramento, etc. Quem ri dessa possibilidade não conhece o mundo em que vive e não é de hoje não, mas há vinte anos.
11) A renúncia de Temer é muito provável como desfecho desse debacle. E no momento, desejável. Ele não tem qualquer legitimidade capaz de dar estabilidade ao país.
12) A esquerda deveria se centrar logo na defesa do que restou de nossas liberdades democráticas no Brasil e denunciar isso para o mundo. 
13) Não podemos ficar contra a população no momento em que ela se levanta contra o governo mais ilegítimo, corrupto e entreguista de nossa história. Não pedimos isso há quatro meses das eleições, mas a realidade está aí. Não temos opção moral senão pedir, como o velho Brizola ensinou, não um "fora Temer" que pode vir contra a normalidade democrática, mas um RENÚNCIA JÁ junto de um DIRETAS JÁ, em outubro. Vamos pedir RENÚNCIA e DIRETAS para neutralizar o pedido de Intervenção Militar que circula pelos fascistas de sempre e entrou no movimento.
14) Não adianta ter medo. O que às vezes adianta é lutar. A vida quer é coragem, e a gente tem visto desde 2015 a tragédia que se abate sobre nós quando ela falta.

Fernando Brito sobre o fracasso de um "presidente" ilegítimo


"É um governo que jamais venceu, irremediavelmente perdeu e, agora, parte para ser espezinhado e humilhado por todos, incluisive pelos que o instituíram pelo golpe."

Do Tijolaço:

bufa

Primeiro, a capitulação; depois, a humilhação


Vamos ao fatos: o Governo não conseguiu restabelecer minimamente o fluxo de combustíveis e o de cargas no país e o ultimato dos caminhoneiros não será o último que enfrentará.
Esta foi a razão da “generosidade” de anunciar uma redução de 46 centavos, por litro, no preço do óleo diesel: o medo de uma situação caótica no início da semana útil, amanhã e depois.
Não conseguiu, em dois dias, uma ação mais expressiva das Forças Armadas, as ameaças de multas ao motoristas e proprietários de caminhões não foram, ao que parece, levadas a sério, não efetivou o confisco de caminhões, fez acordos que se desmancharam no ar.
A autoridade que ele já não tinha senão em migalhas, reduziu-se a zero e, nesta segunda-feira, os efeitos serão sentidos não apenas na confusão do transporte coletivo, mas na irritação da classe média, que já se expressou hoje na volta dos panelaços, aposentados há dois anos, desde a derrubada de Dilma.
É um governo que jamais venceu, irremediavelmente perdeu e, agora, parte para ser espezinhado e humilhado por todos, incluisive pelos que o instituíram pelo golpe.
É provável que o mercado financeiro reflita, amanhã, mais este capítulo fulminante na decadência, jogando mais lenha na fogueira de tensão em que o país foi lançado.
Não há governo e, não havendo, começa a se formar o vácuo que a política não aceita.
Junho se aproxima, como em 2013.

Temer manda tropas para cima de grevistas que "descumpriram acordo que nunca assinaram". Quem assinou foi a minoria rica dos patrões....


"Passados dois anos, PMDB e PSDB, que tomaram o poder prometendo colocar a casa em ordem, jogaram o país em um cenário de desabastecimento geral."

Segue o artigo de João Filho, no The Intercept:


Temer mandou tropas para cima de grevistas que “descumpriram” acordo que nunca assinaram

João Filho — 27 de Maio
O presidente cumpriu o roteiro manjado do seu governo na greve dos caminhoneiros: fez acordo com empresários sem a participação dos trabalhadores.










NA ÚLTIMA quarta-feira, o governo brasileiro colocava uma atriz atuando como uma youtuber descolada para anunciar o novo Portal de Serviços: “Mano do céu, dá pra você fazer de tudo nesse site, gente. A única fila que eu vou pegar daqui pra frente vai ser no supermercado”. Era o terceiro dia da paralisação dos caminhoneiros que levou milhares de brasileiros não apenas para as filas dos supermercados, como também dos postos de gasolina. Passados dois anos, PMDB e PSDB, que tomaram o poder prometendo colocar a casa em ordem, jogaram o país em um cenário de desabastecimento geral.
O governo poderia ter evitado a crise, ou ao menos tentado diminuir o seu tamanho. No dia 16, uma semana antes, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos enviou um ofício pedindo o congelamento do diesel e uma audiência em caráter emergencial. Até a data para uma possível paralisação dos caminhoneiro foi anunciada. No dia 18, a CNTA ainda emitiu um comunicado reforçando a possibilidade da greve acontecer no dia 21. O governo preferiu ignorar e deixou sem resposta os caminhoneiros, que cumpriram suas ameaças e colocaram o país na maior crise de um governo que vem tropeçando em crises.
E nada como um presidente ilegítimo, fraco e covarde para administrar o país no caos. No quarto dia de paralisação, Temer foi ao Rio de Janeiro participar de uma cerimônia de entrega de 369 carros para o Ministério dos Direitos Humanos. Depois, em meio ao colapso, decidiu dar uma esticadinha até Belo Horizonte para comemorar o Dia da Indústria, onde declarou que a sua presença ali era o “fato mais importante do dia”.
À noite, após negociação com entidades representativas, o governo anunciou um acordo que interromperia a greve por quinze dias. Mas tratava-se de mais um acordo nacional daqueles que a gente já conhece. Duas das principais entidades se recusaram a assinar e, das oito que assinaram o acordo, sete representam os empresários do setor. Apenas uma fração  a fração empresarial  de um movimento bastante heterogêneo se acertou com o governo. Cumpriu-se o roteiro manjado do governo Temer: acordo com empresários sem a participação dos trabalhadores.
Logo após o anúncio do fim da greve, líderes de grupos de caminhoneiros autônomos (muitos não são nem associados a sindicatos) apareceram em vídeos nas redes sociais rechaçando qualquer acordo e garantindo a continuação da paralisação. Estavam revoltados com transportadoras e governo que se acertaram sem atender praticamente nenhuma das suas reivindicações. O Brasil foi dormir com Temer dizendo ter “resolvido o problema”, mas o único problema que tinha sido resolvido era o do empresariado do setor.
Na manhã seguinte, fingindo indignação com o descumprimento de um acordo que ele sabia ser uma farsa, Temer acionou as Forças Armadas para resolver o problema que há poucas horas garantia já ter resolvido. Mesmo sabendo que boa parte dos grevistas rejeitara o acordo, o presidente tentou vender a ideia de que os caminhoneiros que ainda bloqueavam as estradas  que ele chamou de “minoria radical”  não estavam cumprindo o que haviam combinado, justificando a medida drástica. “O governo teve a coragem de dialogar; agora terá coragem de usar sua autoridade em defesa do povo brasileiro”, declarou. Esse grande ato de bravura consistiu em mandar tropas para cima de trabalhadores grevistas que estariam descumprindo um acordo que nunca assinaram. Talvez sejam eles “os inimigos do Brasil” aos quais o juiz e o general se referem.

A estratégia é jogar a população contra os grevistas e conter uma onda de apoio, mas motoristas de vans, motoboys, taxistas outras categorias de trabalhadores ligados ao transporte autônomo
 estão se mobilizando para engrossar a greve dos caminhoneiros.
Por mais que as consequências de uma paralisação sejam terríveis para o país, não se pode negar que as reivindicações dos caminhoneiros são justas. A nova política de preços da Petrobrás implementada no governo Temer, que varia de acordo com os preços do mercado internacional do petróleo, fez com que o valor do diesel mudasse 121 vezes em apenas dois anos. Com os sucessivos aumentos do petróleo e do dólar, a situação se tornou insustentável para os caminhoneiros, que estão com dificuldades de pagar suas contas.
Primeiro, o governo ignorou as ameaças de greve. Depois, quando ela se concretizou, fez um acordo que atendeu apenas os interesses das transportadoras. Como os caminhoneiros mantiveram o bloqueio, apelou  para as Forças Armadas — como já virou um hábito de um governo sem capacidade de diálogo.
Para piorar o quadro, há uma parte significativa dos caminhoneiros pedindo “intervenção militar”. Não são poucas as imagens de faixas e vídeos de lideranças nos bloqueios pedindo para que as Forças Armadas interrompam a democracia. Reportagem da Piauí acompanhou grupos de Whatsapp dos grevistas e constatou a grande simpatia que se nutre por Bolsonaro e pelos militares. Eles conseguiram parar um país e agora sabem exatamente o poder que têm. As reivindicações são justas, mas é preocupante imaginar onde isso irá parar.

domingo, 27 de maio de 2018

Pedro Parente, psdbista indicado e orientado por FHC, quebrou o país com a grande ajuda da Lava Jato para, destruindo a Petrobrás, atender os interesses da rapinagem internacional que incentivou o golpe... Leia o texto de Paulo Moreira Leite



Pedro Parente, indicado por FHC, quebrou o país para defender tubarões que rapinam Petrobras



"Mexer com o preço do óleo diesel é muito diferente de mexer com o preço de um picolé de sorvete", afirma o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos principais enconomistas do país, com uma obra fundamental sobre as idas e voltas da economia brasileira nas últimas décadas.

Explicando a diferença: enquanto uma alta no preço do picolé tem um impacto limitado ao bolso dos consumidores e produtores envolvidos na fabricação e compra de uma ótima sobremesa de verão, o preço do diesel envolve a economia de um país inteiro, como os 210 milhões de brasileiros puderam experimentar nesses dias. 
"Se a economia já não estava bem, agora complicou de vez", afirma Belluzzo. "Pode-se prever uma queda no PIB de dois a três pontos por causa do impacto de um imenso desastre como este".
Ao elevar o preço de um produto essencial como diesel a um patamar incompatível com o padrão de renda da  sociedade brasileira, com a única finalidade de manter um alinhamento com o mercado internacional -- e assim proteger os ganhos de acionistas minoritários que se tornaram a referencia para as decisões da Petrobras sob Temer  --, Parente produziu um colapso de efeito geral na economia.
 A resistência -- inevitável -- das dezenas de milhares de caminhoneiros a uma política de preços irracional, que ameaça inviabilizar sua atividade, produziu  um movimento em círculos, semelhantes aos de uma pedra que se atira num lago. Derrubou o sistema de transportes num país onde  caminhões e ônibus -- sempre a diesel -- se encontram no coração da produção, distribuição e circulação de bens e pessoas. Provocou a falta de mercadorias nos supermercados e feiras, a falta de insumos para a industria, dificultou o transporte de trabalhadores para seus empregos, a ida de milhões de estudantes para suas escolas e assim por diante. Em São Paulo, maior cidade do país, a circulação de ônibus está reduzida por falta de combustível. Para terça-feira, a própria prefeitura reconhece que não tem a menor garantia para colocar a frota em movimento.  
 Não estamos na guerra do picolé, portanto. O país assiste -- e participa -- de uma disputa gigantesca para o destino de nossa economia e do futuro de brasileiros e brasileiras, no qual o destino da Petrobras terá um lugar decisivo, para o bom ou para o mal. Não por acaso, a Frente Única dos Petroleiros, principal entidade sindical do setor, programa uma greve a partir de quarta-feira. Quer a redução dos combustíveis e a saída de Parente. Nada mais justo. 
A política de Pedro Parente é o ponto essencial de um programa de desconstrução de uma das dez maiores economias do mundo. Seu projeto, de natureza colonial, que remonta aos velhos acordos entre Portugal e Inglaterra, aquele dos panos e vinhos -- pelos quais Lisboa entregava produtos primários e comprava bens industrializados. Sabemos o resultado desse programa de submissão a Metrópole, não é mesmo? 
A ideia é andar para trás. Depois de servir, com altos e baixos, ao desenvolvimento do país, pretende-se empregar a estrutura gigantesca da Petrobras para alimentar o atraso e a pobreza, em benefício dos 0,1% que manipulam a riqueza do planeta.
É uma visão tão minoritária, do ponto de vista do Brasil e da democracia, que Temer emprega força militar para defendê-la. Não há diálogo nem argumento civilizado que convença. Alguma surpresa?   
A pressa de Parente, inclusive para acelerar a privatização de grandes refinarias é uma tentativa óbvia de escapar das incertezas inevitáveis do calendário eleitoral para garantir uma medida que representa nova ameaça ao futuro do país. De seu ponto de vista, nenhum parafuso pode ficar fora do lugar.
Até por isso mesmo, a resistência, mais do que nunca, é necessária. A saída de Parente é urgente. 
 (Nesta segunda-feira, a partir das 16 horas, Luiz Gonzaga Belluzzo dará entrevista a TV 247).  

sábado, 26 de maio de 2018

Entendendo a Traição Golpe-Temer-PSDB-Lava Jato na destruição do país exposta na crise da greve dos Caminhoneiros, por Leonardo Attuch em vídeo para o 247


Do Bom Dia 247, com Leonardo Attuch:



O inimigo é Pedro Parente, não os caminhoneiros


Caos de Pedro Parente, com sua política irresponsável na Petrobras, produz estragos bilionários na economia brasileira.

Carta sobre Política aos Estudantes, pelo Professor Jason de Lima e Silva, publicada no Le Monde Diplomatique Brasil


Do Le Monde Diplomatique Brasil

Resultado de imagem para Stuart Davis artistas contra a guerra
Foto: Pintura de Stuart Davis intitulada "Artistas contra a Guerra e o Fascismo"


Uma das questões mais importantes da vida é saber como governar nossa própria vida. A outra é compreender como nos governam. Essa é a diferença entre ética e política. Às vezes se leva uma vida inteira para aprender uma e entender a outra


Convidado para falar aos estudantes do nono ano do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina sobre política, aproveitei para escrever a seguinte carta:

A política é um terreno amplo e complexo, com seu vocabulário próprio, como qualquer saber ou ciência. É um terreno movediço também, porque mexe conosco, move nossos humores, agita nossas convicções e preferências, e as questões estão aí: a luta do feminismo, o perigo do fascismo, democracia e golpe de Estado, ser de esquerda ou ser de direita, progressista ou conservador. Mas onde começaria a política? Antes de ser uma ciência ela parece ser uma atividade, porque alguns se dedicam à política, vivem da política, muitas vezes são presos, perseguidos e mesmo morrem por causa da política. Mas seria uma atividade restrita aos profissionais que chamamos políticos ou a política pertence a todos nós desde sempre? Condenar todos os políticos como se fosse uma coisa só,  “farinha do mesmo saco”, não seria condenar a política e a nossa chance de se politizar e resistir contra tudo o que vem de cima para baixo? Por que, além de tantas outras atividades, teríamos de nos preocupar com a política? Faria alguma diferença para a vida saber o que acontece no governo do país ou da escola? Sugiro três sentidos para o termo política: primeiro, o sentido comunitário de pertencimento; segundo, o sentido perceptivo de realidade; terceiro, o sentido mais restrito de mediação de conflitos e interesses. Tentarei ser breve o suficiente para não entediá-los, nem confundi-los.

Vejam vocês: fomos recebidos no mundo por braços e por seios que nos alimentaram. Mas fomos recebidos também por uma família e por um idioma, uma língua. A linguagem indica o que queremos e o que não queremos. Nem sempre traduz nossos sentimentos, mas pode comunicar o perigo iminente ou o objeto de nosso desejo à vista. A palavra é uma extensão de nosso próprio corpo, como são os gestos, os gestos que são fala em potencial e potência de expressão. Fazemos coisas no mundo, mas o mundo também faz coisas conosco: ele nos dá um nome que não escolhemos, uma família que não conhecíamos, um idioma que aprendemos. Pertencemos porque somos pertencidos. Ter um idioma não é o mesmo que termos uma casa ou um carro. Ter um idioma é ser pertencido, é fazer parte de algo que pertence tanto a mim quanto aquele que não sabe ler. Não importa quantos idiomas se fale. Importa muito mais é o que se fala. Se alguém conta vantagem e mentira em cinco idiomas para ganhar dinheiro, que mérito há? Pertencemos porque nos inclinamos naturalmente a aprender as coisas, o significado das coisas, assim como nos inclinamos a buscar quem gostamos, e podemos até gostar de quem apenas tolerávamos. O filósofo Aristóteles definiu o ser humano como animal que tem linguagem e por isso é um animal político, o zoon politikon. Aristóteles quer dizer com isso que somos não apenas capazes de falar, mas de dar nome e sentido às coisas. E mais do que isso: a linguagem também serve para separar o que convém do que não convém, o justo do injusto e a “participação comunitária nesses valores forma a casa familiar e a cidade”. Portanto, o que nos faz políticos por natureza é a constatação de pertencermos antes de sermos qualquer coisa que queiramos ser. Mas não pertencemos sempre de braços abertos. Há um custo na sociabilidade. Por três rápidos motivos. Primeiro, porque não é sempre que queremos ser vistos. Ser visto é ser lembrado, requisitado, exigido. Segundo, porque precisamos de um tempo para nós, para fazer coisas, coisas que exigem concentração, como desenhar ou ler, ou para não fazer coisa alguma. Terceiro, porque há perigos na vida urbana: no trânsito, por exemplo. A vida social nos dá prazer, claro, mas também nos dá algum trabalho. Por isso é preciso sabedoria para conciliar a vida pública e a vida privada, não se gastar toda vitalidade no mundo de fora para encontrar o vigor no mundo de dentro. Mesmo que nos viremos bem na dinâmica social, mesmo que nos julguem simpáticos, simpatia também cansa, assim como cansa manter qualquer aparência: o malvadão, o divertido, o fechado. Alguém insistentemente e metodicamente simpático corre o risco de parecer chato. Ninguém, claro, é essencialmente chato ou simpático. Nós nos tornamos quem somos, não viemos prontos, a sociedade pode ou não nos ajudar nessa tarefa, e essa é uma tarefa também política. Se a cidade prolifera apenas concessionárias, oficinas, revendedoras de carros, pouca inspiração dará a quem quer estudar música, simplesmente porque não se encontra no seu bairro um único conservatório ou escola de música. Esse é o primeiro sentido de política que proponho aqui: o sentido comunitário de pertencimento a um grupo social. Um grupo social que é bem diferente da organização comunitária das abelhas. Nós podemos fazer nossas leis, assim como podemos recusar as que nos são escritas. Obedecemos, a contragosto muitas vezes, e exigimos razões para obedecer, como bem observou o filósofo espanhol Fernando Savater. Savater, que está vivo entre nós, escreveu um livro sobre ética e um sobre política para seu filho, que tinha a idade de vocês. Em um certo momento, esse pensador diz que política “não é mais do que o conjunto das razões para obedecer e das razões para sublevar”, no sentido aqui de resistir, revoltar-se, rebelar-se. Nosso pertencimento grupal, nosso impulso gregário, nem sempre é pacificamente garantido. Um outro filósofo, bem mais próximo de nós, Kant, diz que os humanos agem segundo uma lei da própria natureza: a insociável sociabilidade.

Mas política tem a ver também com uma forma de percepção da realidade, ou melhor, percepção de realidades. Pode alguém olhar para as casas da periferia como gente que não deu certo na vida ou, ao contrário, como efeito de uma sociedade que está longe de acertar. Um vê a miséria como fato natural, porque sempre haverá pobres e ricos, azarados e sortudos. Outro suspeita que essa diferença não tem relação com sorte ou azar, nem com habilidades naturais para sobreviver na selva de pedras e asfalto. Há razões econômicas, razões de governo, razões de mercado, razões de acúmulo de bens e dinheiro, razões de gente que não quer dar razões aos miseráveis que na maior parte das vezes não têm voz, emprego e muito menos representação política. Pensar e agir politicamente é deixar de lado um pouco nossos pequenos caprichos ou grandes vaidades, para considerar não apenas o que queremos para nossa vida, mas o fato de que outros também querem, e precisam. Por isso, uma ideia muito importante na origem da discussão sobre política é a ideia do bem-comum. Tem gente de um lado que ainda precisa de muito para poder querer alguma coisa, tem gente de outro lado que não tem limites para querer e poder sempre mais: bens e dinheiro. Essa percepção também serve de base para aceitarmos ou recusarmos coisas relacionadas à cidade, seus grandes problemas, mas seus pequenos problemas que viram grandes problemas no dia-a-dia. Se ficarmos quietos, se não nos reunirmos por um coletivo, se não formos para a rua protestar, o transporte público continuará como está, o ônibus sem ar-condicionado no verão, sem cortinas para a proteção do sol, lotado sempre e parado no mesmo lugar. Continuaremos dependendo dos ônibus ou entulhando ainda mais a cidade de carros, continuaremos presos nos carros. O modo como nos posicionamos frente ao que acontece pode ser neutro ou político. Pode ser por hábito de obedecer (e mesmo de sofrer). Mas pode, ao contrário, se pôr no lugar da crítica, da recusa às coisas tais como são: o sofrimento próprio, o sofrimento alheio. Logicamente, quem recusa tem de estar pronto também para propor um caminho, ou perguntar se ele não é possível. Fazer mais pontes para mais carros ou pensar a ampliação do transporte público, o uso do mar, o subsolo para metrôs ou estacionamentos? Colocar os problemas, discuti-los com outros, é ocupar o domínio que os filósofos políticos chamam de esfera pública. Na esfera pública temos de lidar com opiniões tão diversas quanto contraditórias, muitas vezes diretamente ofensivas, que agridem não apenas o nosso gosto, mas nosso próprio modo de vida. E ainda estamos no meio de uma guerra de informações, a mídia se alimenta dessa esfera pública, muitas vezes ajuda a destrui-la, produz manchetes ambíguas, capas fake news, edições de planos e imagens que contam a história que interessa a quem paga para nos fazer acreditar naquilo. Uma coisa é certa: não dá para confiar total e imediatamente nas notícias, sobretudo nos grandes jornais do país. Um bom exercício político é desconfiar, coçar a pulga atrás da orelha antes de acreditar no que aparece na revista ou na TV. Não é nem duvidar dos fatos, mas da interpretação dos fatos. Vale sempre investigar fontes diferentes sobre o mesmo assunto, se realmente interessa o assunto, se realmente ele é útil, ou não passa de mais uma fofoca ou de mais uma razão para odiar e não para compreender. É preciso aplicar aquele crivo socrático, o filtro do velho Sócrates, o filósofo ateniense que recomendava antes de espalhar qualquer novidade ou reproduzir uma notícia, primeiro, saber se é verdade, segundo, se fará bem a quem diz, terceiro, se lhe será útil.

Em um sentido mais restrito e rigoroso da palavra, política é mediação, a arte de mediação dos conflitos e dos interesses em uma sociedade, por isso é também uma arte do exercício do poder, a atividade de governo. Para mediar os conflitos é que nós inventamos instituições tais como a assembleia e o tribunal. A própria ideia de democracia, como forma de governo fundada no demos, no povo, só pôde existir por meio dessas instituições. Essas instituições são artificiais, quer dizer, são inventadas para ordenar a ordem das ações humanas, para comandar nossos impulsos e paixões, não apenas para se sobreviver, mas para se bem conviver. Instituições que no tempo dos gregos formavam a polis, palavra em grego que quer dizer cidade, donde nos chegou a palavra política. Política é o lugar a partir do qual se decidem e se julgam as coisas públicas publicamente, ou seja, as coisas que comprometem a todos, que podem afetar uma grande parte ou uma pequena parte, como regular os impostos, aprovar ou não uma reforma, reconhecer as diferenças de gênero, para que o empresário não se sobreponha ao operário, o branco ao negro, o homem à mulher. Por que então pensar a política, ou pensar em política, se há outras coisas que parecem mais interessantes, como os esportes, o estudo das línguas, o cinema. Eu diria: para entendermos como somos governados: como governam nosso tempo, nossos corpos, nossa aparência, nossos sonhos, nosso desejo, nossa força de trabalho. Como somos governados não apenas pelos políticos, mas pelo discurso de uma empresa, pelas informações da imprensa ou da propaganda, pelas orientações médicas e psicológicas. Vejam só, Aristóteles diferenciou três tipos de poderes: o poder do pai, o poder despótico e o poder político. O primeiro se exerce para o interesse do pai, o segundo, para o senhor, o terceiro, para os governantes e governados. Se o poder só atende o interesse dos governantes acontece uma degeneração da política, uma corrupção não dos políticos, nem de suas consciências, mas do próprio sentido da política. Um exemplo de perversão ou corrupção da política é a democracia se tornar ditadura (para os gregos, seria a tirania). Não esqueçamos que Hitler foi eleito democraticamente. 

Mas além desses poderes, o paterno, o despótico e o político, podemos pensar nos poderes do médico, do psicólogo e mesmo no poder de um professor. Michel Foucault, um pensador de nosso tempo, não mais vivo, disse que na sociedade moderna o grande desafio do poder é nos adaptar ao processo de desenvolvimento econômico. Ou seja, é nos adaptar, adaptar cada um e cada uma de nós, para produzir, atingir metas, aumentar o lucro da empresa e estar contente com tudo isso, ou pelo menos não sofrer a ponto de parar na linha de produção, como se, nas palavras de Foucault, os governantes de hoje fossem os psicólogos e o povo seus pacientes (O mundo é um grande hospício, 1973). Uma das questões mais importantes da vida é saber como governar nossa própria vida. A outra é compreender como nos governam. Essa é a diferença entre ética e política. Às vezes se leva uma vida inteira para aprender uma e entender a outra. Não há problema. Não precisamos ter pressa para a liberdade, nem sofrer de ansiedade para ter o que poderíamos chamar de senso político ou consciência política. Mas é bom estar atento. As grandes transformações são lentas. Começam por uma atenção ao que se passa conosco, mas também pelo que acontece em torno de nós.

Por fim, eu gostaria de aprofundar essa distinção que julgo importante: entre ética e política. Assim entramos um pouco mais nesse terreno movediço da política, sem nos afogarmos em polêmicas ou juízos apressados. Ambas, ética e política, tem a ver com o universo das ações e das palavras, universo que nos faz humanos, singulares e plurais, como indivíduos e como povos. Na cidade nos tornamos visíveis para o outro fisicamente, somos corpos, corpos muitas vezes dentro de máquinas, como dentro de carros e ônibus. O modo como andamos ou falamos já nos coloca no espaço entre outros. Quanto às máquinas, elas não nos livram de nossa responsabilidade de cuidar dos pedestres e dos ciclistas enquanto dirigimos. Nossas ações e palavras, nosso jeito de ser e de se comunicar, aparecem no espaço público. Isso é o que chamamos de caráter, que tem a ver com o temperamento, mas também com nossa educação, com nossos gostos e interesses, porque eles nunca vem prontos: aprendemos a gostar do que gostamos de aprender. Quando ouço música, sozinho ou com meus amigos, estou no campo da ética, porque exercito minha liberdade de escolha. Mas se alguém do condomínio ouve regularmente a todo o volume a sua música, estou no campo da política, e a obrigação de uma multa por exemplo representa o uso da força para medir um querer, quando faltou ética. Essa invasão de um gosto, essa sobreposição de um interesse de uma pessoa em relação a outra, pode acontecer no gesto de um olhar, pela insistência ou perversão de um olhar por exemplo, e as mulheres irão senti-lo como os homens não o imaginam. Isso não apenas pode, mas deve ser debatido publicamente. Por quê? Para que o querer de um olhar não se sobreponha ao querer de uma mulher não ser encarada na rua por um desconhecido. Aqui estamos no campo da política. É pelas ações e pelas palavras que contamos histórias, amamos e rimos, mas também é por ações e palavras que declaramos nossa revolta por algo injusto, o limite do poder exercido por quem conhecemos ou não conhecemos. Se nos falta a palavra, o diálogo, estamos fadados à violência. A política é uma atividade de governo não apenas para sobrevivermos no meio de uma guerra de carros, máquinas, armas e informações. A política serve para criarmos condições de se bem viver, viver sem medo, sem medo de experimentar e se aperfeiçoar, sem medo de ser feliz. Não haveria graça na vida se não pudéssemos ampliar nossa compreensão, e aos poucos moldar nosso corpo e nossa alma, esculpir sempre, porque o tempo passa e é mais fácil perder os talentos do que cultivá-los. Assim também a inteligência e a sensibilidade. A ética nos mostra o que é possível querer e fazer diante do que não podemos ter ou ser, por isso existe a consciência moral. A política justifica o poder como princípio para todos os quereres, por isso existe o Estado. A ética procura um princípio através do qual se possa garantir uma boa ação, ou a mais justa possível. A política procura a ação mais eficaz para manter a convivência, e o menos injustamente possível. Para a ética se trata de aprender a viver em paz consigo mesmo. Por isso uma pessoa ética exige mais de si que dos outros, para ser melhor do que se é, sem comparar ou impor seus talentos. Para a política se trata de evitar a guerra, por isso o político precisa considerar as diferenças dentro de uma mesma cidade, as condições econômicas e étnicas, para ajustar não apenas os direitos e benefícios, mas também as obrigações dos indivíduos e dos grupos sociais. O movimento de ocupação dos sem teto só existe porque tem muitas famílias sem casa e tem muito juiz que acumula imóveis e ganha auxílio moradia. Como canta Mano Brown, “eu sei, você sabe o que é frustração, máquina de fazer vilão” (Jesus chorou). Essas contradições precisam ser enfrentadas por nós para que a cidade não vire um palco de guerra, e mais do que isso, para que a cidade possa dar condições para que ninguém tenha medo de ser livre, nem tenha medo da liberdade do outro, e se possível encontre tempo para desenvolver seus gostos e interesses, sem cair facilmente no tédio de uma vida automática, na frustração de um sonho ou na angústia de não ser alguém de sucesso. A ética é uma arte da vida, a política uma técnica de convivência. Algumas sociedades não precisam de Estado, mas precisam de política, ou seja, precisam de um governo, uma condução para construir e manter suas comunidades, para defendê-las da natureza, da fome e do frio, mas também precisam de política para negociar as regras impostas por outros povos ou para receber um homem que não encontrou mais lugar no seu país, como o exilado, o refugiado ou o preso político. 

Aristóteles, já bastante citado aqui, tem um livro sobre ética e outro sobre política. Para esse filósofo da Macedônia de quatro séculos antes de Cristo, ambas, ética e política, fariam parte das ciências práticas, ou seja, representariam o conhecimento das ações humanas no mundo. A finalidade de ambas seria a felicidade, o bem pessoal e o bem comum. Não haveria cidade feliz sem pessoas felizes. Mas também não haveria quem pudesse ser feliz em uma cidade infeliz. E o que seria uma cidade infeliz hoje em dia? Provavelmente aquela com mais problemas do que meios de resolvê-los. Uma cidade que não dá parques, bibliotecas, conservatórios, institutos de ensino público, mobilidade urbana, casa e terra, cinema e música. Mas não dá sobretudo esperança para as pessoas serem mais do que são e terem o mínimo para serem alguma coisa. Uma cidade infeliz não dá esperança porque deixa as pessoas esperando por muito tempo, por toda a vida: esperam o transporte público, o emprego decente, o atendimento à saúde, a vaga na universidade. Vocês conhecem a música do Chico Buarque, Pedro pedreiro? “Pedro pedreiro fica assim pensando / Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando pra trás / Esperando, esperando, esperando / Esperando o sol, esperando o trem /Esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem”. Bom, espero que vocês tenham gostado dessa conversa e que pensando nós não fiquemos para trás de nós mesmos, nem tenhamos que passar outros para trás, como se fôssemos obrigados a chegar sempre na frente. Deixo meu abraço.

*Jason de Lima e Silva é professor de Filosofia do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Cantarina