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terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

O fascismo desfila na Paulista. Artigo de Márcia Tiburi

 

"Fascistas precisam odiar e atacar a quem odeiam, porque não conhecem o amor", diz Marcia Tiburi

Ato bolsonarista na Avenida Paulista

Ato bolsonarista na Avenida Paulista (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Alguns vêm chamando o fascismo brasileiro de “bolsonarismo”. É um termo circunstancial que não chega a estar errado, mas ameniza o maior problema expresso justamente pelo termo fascismo quando dito sem mascaramentos. Bolsonaro passará – e se for preso passará ainda mais rápido -, o fascismo não. 

Podemos dizer que o sujeito do fascismo é um “não sujeito”, um corpo esvaziado de subjetividade, em ação automática, movido por codificações estéticas. Daí a constante prova de insensatez, a burrice presente nos discursos das pessoas na Paulista no último domingo. 

Personalidades democráticas se perguntam como é possível que tanta gente venha a aderir ao fascismo. Freud já se perguntava sobre como as pessoas abandonam sua liberdade para aderir às massas. Adorno tentou explicar falando do papel da propaganda na manipulação das massas. Mas há outros elementos, como a função mimética na manipulação das massas. 

Por exemplo, há tempos, as cores verde e amarela vêm sendo elementos de adesão mimética. A mimetização tem a principal função psicopolítica no processo, pois todo sujeito fascista está morto de medo e busca um lugar para se sentir seguro. Assim, mimetizar-se à massa na qual busca se proteger, é o caminho. 

Criar a massa é a tarefa dos agitadores e líderes em geral. Os líderes sabem que não há massa sem estímulo e todo estimulo é, principalmente, estético, a saber, imaginário e vazio. A miséria estética - visual, musical, coreográfica - é sintoma. Ao mesmo tempo, a verdade da extrema direita está exposta nesse sintoma. 

Os fascistas sofrem com a miséria sintomática. Eles gostariam de ter expressão, mas só alcançam a caricatura. Nesse sentido, curioso é o uso da histórica música de esquerda “Para Não dizer que não falei de Flores” (1968) de Geraldo Vandré no ato da Paulista. Imitar é preciso para quem não tem autenticidade. E essa é a tragédia do fascismo, o desejo de expressão que se faz como caricatura da expressão - que depende da performance e da cena estimulante para criar a massa odienta. 

Sempre é bom lembrar que fascistas são aquelas pessoas que se podem definir como personalidades autoritárias. Sua principal característica é a submissão ao líder autoritário com o qual se identificam. A agressividade é parte disso. Ela é efeito do medo. Dirigida contra aqueles que podem ocupar o lugar de vítimas, ela expõe o ódio ao diferente: a mulher, o negro, o gay, o comunista, o judeu, o palestino, o indígena, o pobre, etc, mas também a projeção no outro daquilo que se teme e odeia em si mesmo. 

Fascistas precisam odiar e atacar quem odeiam, porque não conhecem o amor. Não tiveram uma experiência densa com esse fenômeno, algo que não se alcança no conservadorismo e no autoritarismo. 

Nas mulheres idosas que, na Paulista, portavam bandeiras de Israel afirmando que Israel era cristão, havia, além da admiração pelo Estado autoritário, praticamente um ato falho anti-semita que escapou nas palavras de ignorância prepotente dessas pessoas. A falta de amor se disfarçava em cristianismo, um cristianismo caricato que caricaturizava Israel. A ignorância sobre a diferença histórica e teológica entre cristianismo e judaísmo aparecia como a caricatura da própria opinião. 

No meio de tudo, o show da verdade exposta para quem quiser ver. 

O perigo fascista segue e o governo deveria se responsabilizar minimamente por isso. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Márcia Tiburi sobre a educação no estado de São Paulo ou a perversa política da queima de livros

 

'O estado de São Paulo, vampirizado pelos neoliberais, não quer ser decente nem com as crianças pobres', escreve a colunista Marcia Tiburi

Renato Feder (secretário de Educação do estado de São Paulo) e o governador Tarcísio de Freitas

Renato Feder (secretário de Educação do estado de São Paulo) e o governador Tarcísio de Freitas (Foto: Divulgação/Secretaria da Educação e do Esporte do Paraná | Reprodução/Facebook)

247. - O secretário da educação de São Paulo, Renato Feder (um sobrenome metafórico?), decidiu privar as crianças do ensino público estadual de livros que seriam doados a elas gratuitamente pelo governo federal. Políticos de extrema-direita nunca surpreendem com seus gestos desumanos e sempre podemos esperar o pior deles.

A chacina no Guarujá é complementar ao que parece ser uma verdadeira política de queima de livros, monumental e sem fumaça, pelo extermínio desses objetos do conhecimento. Os judeus nos campos de concentração eram transformados em fumaça na solução final. Imaginem que não há nem fumaça na solução do governo paulista. Mata-se uns adolescentes de um lado e se priva os pré-adolescentes de livros do outro, quem sabe para que sejam mortos mais adiante pelo mesmo estado que lhes tira oportunidades básicas como é o acesso à educação e ao livro que dela faz parte. Será isso a “educação do futuro”?

Todos sabem que a imensa maioria das crianças das escolas públicas pertencem às classes desfavorecidas e exploradas e precisam de todo apoio escolar para ter uma vida digna. Criança é sinônimo de escola. E livro infantil é bem de primeira necessidade. Na rejeição ao livro para as crianças há também uma atitude elitista, pois sabemos que essas crianças terão menos acesso a livros do que as crianças cujos pais podem pagar - ou se esforçam desesperados por conseguir pagar - uma escola particular para seus filhos. A educação deveria ser para todos, generosa e de qualidade, mas o estado vampirizado pelos neoliberais não quer ser decente com os pobres e nem com as crianças pobres.

A pergunta que não quer calar é: como um homem que não vê valor em livros, como o secretário Feder, tem um livro na lista dos mais vendidos? Quem comprou? Talvez a investigação do Ministério Público venha a elucidar o que se passa. Vamos esperar. Enquanto isso, a educação vai de mal a pior, o estado de São Paulo, sequestrado pelas milícias cariocas, segue seu triste destino. Pobre do povo que não sabe em quem vota.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

A democracia como inimiga do autoritário, ou o mal na retórica de Bolsonaro. Texto de Márcia Tiburi

 "O inimigo de Bolsonaro, o mal contra quem ele se insurge mais uma vez, é a democracia. A democracia que ele se esforça para derrubar", escreve Marcia Tiburi

www.brasil247.com - Ato pelo impeachment de Jair Bolsonaro

Ato pelo impeachment de Jair Bolsonaro (Foto: Mídia Ninja)

Quem ocupa a presidência da República tem vários poderes em mãos, inclusive, e principalmente, o poder de pautar os assuntos de um país inteiro. Isso acontece normalmente, mas quando a política é reduzida à publicidade, isso assume uma dimensão capital. 

É isso o que Bolsonaro tem feito com o seu tempo como presidente, enquanto o Brasil afunda a cada dia na mais profunda miséria econômica, social e moral. Daí a impressão, infelizmente verdadeira nesse governo da infelicidade, de que Bolsonaro não governa, de que passa o tempo a divertir-se, a mistificar e a zombar da nação que o critica, enquanto hipnotiza uns 30 por cento da população que segue em transe de pavor com a ajuda dos fascistas raiz espalhados em púlpitos, telas de TV e perfis nas redes sociais com milhões de seguidores. Ninguém mais se impressiona com palavras e atos grotescos do presidente porque todos já entenderam como funciona a farsa política e como ela depende da difusão de ideias torpes e imbecilidade para todos. 

Os ministros bolsonaristas, que lucram em todos os sentidos com o efeito de poder que só a incompetência produz, num ambiente mental doentio como se tornou o Brasil, saem de seus cargos para se candidatarem. Todos, sem exceção, cumpriram à risca a tarefa de zoar do povo e do país. 

Nesse cenário, e sempre em clima de campanha, Bolsonaro lançou uma velha pauta como se fosse nova: a do bem contra o mal. Colocou-se no lugar do bem, evidentemente. Ignorante, mas esperto, ele relançou o parâmetro básico do populismo: a existência do inimigo a ser combatido. 

O inimigo de Bolsonaro, o mal contra quem Bolsonaro se insurge mais uma vez, é a democracia. A democracia que ele se esforça para derrubar quando insiste que a população compre armas, como se a pobreza e a fome crescentes não fossem suficientes para matar. A incitação ao ódio, à guerra civil, o fomento ao milicianato, a militarização do governo, subsistituem políticas de segurança pública que, integradas a projetos de educação e projetos sociais, ajudariam a combater a violência no Brasil. Os mais de 650 mil mortos por Covid, na cabeça do presidente, são apenas gente que tinha mesmo que morrer, como todo mundo.

Para Bolsoanro, o mal é a democracia que, ao elegê-lo, caiu em um paradoxo, no qual ela deve permanecer. 

Colocando-se no lugar do bem em oposição ao mal, numa atitude maniqueísta, boba para gente culta, mas essencial para gente vivendo em precarização cognitiva, Bolsonaro conseguiu virar a democracia de cabeça para baixo. Daí a sensação, infelizmente verdadeira, de que tudo está de cabeça para baixo. A democracia dava a sensação de que o mundo estava no lugar. 

Assim, brasileiros e brasileiras elegeram um governo autoritário que, de posse do poder de decidir, pode acabar com o próprio voto. 

Portanto, o mal a ser combatido é também o voto. A democracia é a inimiga e se ela voltar ao normal, se ela erguer a cabeça e colocar os pés no chão, Bolsonaro terá sido vencido. O mal para Bolsonaro é o pensamento crítico, é o amor ao próximo, é uma economia solidária com escola pública e de qualidade, junto com um SUS fortalecido, empresas públicas trabalhando pelo Brasil, a proteção da floresta amazônica e os povos indígenas. O mal para Bolsonaro é o amor que vence o ódio. 

Bolsonaro entende que o bem é o que lhe serve. Em seu discurso, não aparece o bel comum, a felicidades para todos. Assim, ele segura o povo brasileiro por um fio de cabelo, antes de lançá-lo de vez no abismo. Seus filhos e o pastor Milton Ribeiro, junto a outros capatazes dos últimos escândalos de corrupção do MEC, seguem ilesos. 

A gritaria fascista se esforça para não deixar ver que o torturador nacional, herdeiro de Ustra, chama de bem os seus interesses e chama de mal aquilo que contradiz o projeto autoritário neoliberal de destruição do país. 

sexta-feira, 25 de março de 2022

Márcia Tiburi expõe pontos de reflexão sobre o bolsolão "sagrado" do MEC

 

 "Bolsonaro chegou ao poder berrando, ameaçando e se fingindo de bobo e assim seguirá até o fim, rosnando para não largar o osso com o apoio de muitos militares, eles mesmos pendurados em pelancas e mamatas estatais"

Bolsolão do MEC

www.brasil247.com -

(Foto: Reprodução | REUTERS/Adriano Machado)

  1. Bolsonaro, como todo político populista, se elegeu usando a bandeira da “guerra à corrupção”. Ele continua sustentando esse discurso, o que não é difícil para um sujeito que conseguiu impor a falta de conhecimento, a grosseria e a estupidez como formas de governo. No seu caso, basta realizar a operação psicopolítica habitual rumo à hipnose das massas. Bolsonaro chegou ao poder berrando, ameaçando e se fingindo de bobo e assim seguirá até o fim, rosnando para não largar o osso com o apoio de muitos militares, eles mesmos pendurados em pelancas e mamatas estatais. 
  2. A desqualificação intelectual, moral, estética e política produzem efeitos de poder sobre as massas. O mal pelo mal é a técnica desse governo da destruição. Construir qualquer coisa em qualquer ramo das atividades humanas é muito mais difícil do que destruir e, desse modo, a operação bolsonarista do governo como um todo segue firme com seu objetivo maior.
  3. O áudio de Milton Ribeiro, ministro responsável pela destruição da educação no país, revela um esquema de corrupção imenso. Dentre muitos outros escândalos, esse é o fato político que pode abalar as estruturas desse governo em ano de eleição, considerando que os brasileiros tem memoria curta, justamente porque seus arquivos mentais são produzidos pela televisão e, agora, pelas redes sociais. A corrupção que Bolsonaro afirma inexistir no seu governo, está cada vez mais escancarada e ela não é pequena. 
  4. Corrupção é um significante fundamental na política atual. O assunto não pode ser abandonado por quem respeita a democracia, mas ao mesmo tempo, se trata de uma palavra preferencial na retórica populista de direita e extrema-direita. De modo que o desafio da esquerda sempre será o de combater a corrupção sem, ao mesmo tempo, se deixar levar por essa retorica, sob pena de se igualar ao que visa combater. Quando falamos de retórica falamos de discurso como capital político, algo que, na prática política da esquerda é algo naturalizado e bastante mal trabalhado. Isso se dá porque a moral da esquerda implica que o discurso não pode ser tratado como um capital, mas deve revelar a ideologia segundo seus básicos imperativos. Daí a rejeição bastante geral a um populismo de esquerda que seria a única forma concreta de superar aquilo que se chama “efeito de bolha” pelo qual falamos uns para os outros sobre o que já sabemos e nos contentamos com isso. Dedicarei em breve um texto a esse tópico. 
  5. Quem trabalha o discurso como um capital é a mídia, aparelho ideológico do Estado que no Brasil se apresenta como mero aparelho do neoliberalismo e das oligarquias anti-povo. Isso explica porque, em 2018, o jornal O Estado de São Paulo, foi capaz de lançar a questão da “escolha muito difícil” entre Haddad e Bolsonaro e reeditar essa propaganda política em 2021. Haddad foi o melhor ministro da educação de todos os tempos, sem sombra de dúvida. Então é absolutamente lógico que, como professor, como sujeito ilustrado, como defensor da educação, ele tenha sido tão abominado pela mídia oligárquica. Ao combater Haddad, se combatia também a educação como um todo, usando-se do capital do discurso, ele mesmo um poder. Fernando Haddad foi combatido, mas Milton Ribeiro não será.  
  6. Isso quer dizer que o esquema de corrupção do MEC virá ou não à tona se a mídia assim desejar. E como ela não deseja, certamente não acontecerá muita coisa. Bolsonaro, grande líder desse esquema, será protegido. 
  7. Na era da comunicação, a mídia é o quarto poder que regula a mentalidade do povo, seus afetos e escolhas. Não haveria golpe sem mídia, nem Bolsonaro estaria no poder sem ela. Justamente por isso, os pastores bilionários das igrejas neopentecoistais investem na compra de rádios e Tvs, pois esse é um jeito de chegar ao poder político e assim garantir o funcionamento da máquina do poder econômico. 
  8. Que Bolsonaro, depois de muitas críticas esteja novamente sendo cortejado pela Rede Globo e mídia golpista em geral, nos informa apenas que a produção da informação como mercadoria precisou da crítica por um tempo, como agora precisa do voto (enquanto ainda houver voto, algo a ser descartado assim que o deus dos militares mandar). Não haverá democracia no Brasil se não houver regulamentação da mídia. E sabemos que a mídia – e as igrejas - orienta o voto grande parte da população. Regulamentar a mídia é algo que precisa acontecer junto a um projeto de educação nacional voltada para a autonomia e a capacidade de refletir inclusive sobre o poder da mídia que atua sobre a cabeça de todo mundo. As oligarquias midiáticas, econômicas e politicas não gostam desse tipo de proposta, pois ela representa democracia demais, poder demais pata o povo atualmente impotente faminto, mas sentado diante da Tv para ter sua inteligência humilhada diariamente. 
  9. A educação está destruída moral e politicamente desde as investidas contra os salários dos professores, com o fechamento de escolas por todos o país, com a adaptação do currículo aos parâmetros da miséria neoliberal e com a colaboração de pessoas como Arilton Moura, Gilmar Santos sob o comando de Milton Ribeiro e Jair Bolsonaro. A roubalheira na educação é a cara desse governo e espelho da miséria espiritual das oligarquias super ricas, exploradoras da fé e da ignorância do povo.
Fonte do texto: 247

quinta-feira, 17 de março de 2022

Lugar da mulher na concepção reacionária do bolsonarismo e do neofascismo | Marcia Tiburi e Henry Bugalho

 

Do Canal Rede TVT:

A escritora e filósofa Marcia Tiburi, no ciclo de debate “Precisamos falar sobre o Bolsonaro”, bate um papo com o também filósofo Henry Bugalho, escritor do livro "Minha especialidade é matar. Como o bolsonarismo tomou conta do Brasil" .



domingo, 31 de março de 2019

Vídeo esclarecedor e emocionado da filósofa e escritora Márcia TIburi


Do DCM:

VÍDEO: “A gente vai ter que recolher os cacos”, diz Márcia Tiburi, emocionada, no exílio

 

00:00/00:40Diário do Centro do Mundo
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quarta-feira, 27 de março de 2019

Márcia Tiburi: “NO BRASIL, O ESTÍMULO À MATANÇA VEM DE CIMA PARA BAIXO”.



Do Canal TV Nocaute:


"Em entrevista exclusiva ao Nocaute, Marcia Tiburi revela o que a levou a sair do Brasil e aceitar o convite de uma instituição americana que protege escritores perseguidos no mundo. Professora de Filosofia e escritora, Tiburi tece críticas à esquerda brasileira, defende a bandeira Lula Livre, a necessidade de resguardar o caráter simbólico de nossos líderes e comenta a violência em que o país vive e que culminou no assassinato de Marielle Franco."


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Do Justificando: “Como conversar com um fascista” de Márcia Tiburi continua sendo atual



"O fortalecimento político da extrema-direita nessas eleições, nos colocou de frente do fenômeno do fascismo que Márcia Tiburi apresenta. Três anos depois da primeira edição do livro “Como conversar com um fascista”(2015) podemos ter claro que ele responde grande parte dos nossos problemas. A atual conjuntura vivida no Brasil de retrocessos no campo dos direitos denota que sua superação só será possível a partir do conhecimento e compreensão dos princípios fundamentais, bem como dos nossos processos históricos. "
O fortalecimento político da extrema-direita nessas eleições, nos colocou de frente do fenômeno do fascismo que Márcia Tiburi apresenta. Três anos depois da primeira edição do livro “Como conversar com um fascista”(2015) podemos ter claro que ele responde grande parte dos nossos problemas. A atual conjuntura vivida no Brasil de retrocessos no campo dos direitos denota que sua superação só será possível a partir do conhecimento e compreensão dos princípios fundamentais, bem como dos nossos processos históricos. Se não centrarmos nossas análises nas particularidades da nossa transição democrática não seremos capazes de traçar ações práticas que possam contribuir para uma nova ordem.
Nesse contexto, ao tratar do fascismo, Tiburi (2015) mostra que este permite práticas arbitrárias no contexto do capitalismo e outras posturas contrárias aos interesses coletivos e ao mesmo tempo logra, a estrutura econômico-social da qual o mesmo é reflexo. Com esse processo, se apresenta diferentes elementos que atuam e condicionam visões deterministas, unilaterais, perspectivas que sustentam formas de controle social e político contra as liberdades.

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Segundo Tiburi (2015, p.27). “Em uma política verdadeiramente democrática deveria haver lugar para todos, para vários modos de produção da existência e de subsistência que não precisassem seguir o ordenamento do capital.” Evidencia-se que, numa democracia de verdade, portanto, ninguém deve estar de fora. Porque direitos humanos e civis não têm a ver com merecê-los ou não, tem a ver com um pacto civilizatório, cuja função é assegurar condições necessárias ao bem estar social ou seja,os direitos fundamentais cumpre a tarefa de represar todo um ambiente social e político que legitima uma cultura de autoritarismos.
São muitos os exemplos, dentre tantos diários, do quanto vivemos num país desigual e de contradições. O classismo, o racismo, a homofobia atravessam quase todos os nossos espaços de socialização e nesse sentido cabe perguntar: e por que, apesar de serem expressões tão perversas e flagrantes da sociedade brasileira, elas sequer são vistas como problemas por essas pessoas que as legitima? O discurso fascista tem ganha do espaço sob o escopo do direito à liberdade de expressão, tal premissa tem sido diariamente desvirtuada e tem implicações práticas sérias no cotidiano. Esta dinâmica se traduz em ações regressivas nas condições de vida dos trabalhadores com o processo de austeridade das políticas públicas levado a cabo pelos governos neoliberais como também na destituição dos direitos humanos, das liberdades democráticas e da justiça social.

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É importante considerar que essa forma de sociabilidade não é consequência apenas de fatores econômicos, suas determinações seguem estando no eixo da lógica das transformações socioculturais neste âmbito promovido pela cooptação dos movimentos sociais, os limites da nossa democracia, existem avanços a partir da “abertura”, mas grande parte dos traços da ditadura se mantiveram e seguem até os dias de hoje, os resultados produzidos pelo golpe de Estado de 2016 e da política de conciliação de classes.
As contribuições de Tiburi em sua obra seguem sendo atuais, ao falar que há diversos fatores constitutivos da nossa formação social que indicam a continuidade de um Estado que tende ao arbítrio e que apesar das conquistas no campo formal, a realidade brasileira nos apresenta hoje uma democracia restrita. Tiburi enfatiza que compreender as características do nosso contexto sócio histórico é de enorme importância analítica e coloca em novas bases “Somente a união em outra direção, contra o fascismo em nome da democracia, pode mudar o rumo perverso da história que se desenha hoje” ( TIBURI2015, p.51).
Pensando em tempo histórico, a respeito do avanço do conservadorismo a autora indica que “As verdades que muitos compram hoje em dia parecem baratas, mas a médio e longo prazo o preço pode ficar muito caro. Juros sociais e políticos não cessam de ser cobrados historicamente” (TIBURI, 2015, p.66). Evidencia-se, que não é só no Brasil: podemos ver os EUA de Trump, a Europa quanto ao Brexit, num contexto em que há a ascensão de movimentos fascistas, racistas e xenófobos. Movimentos iguais e crescentes, que devem ser levados a sério e barrados. Enquanto perspectiva para cenário nacional, reafirmamos que é necessário impulsionar conquistas sociais de “baixo para cima”e ampliar a articulação das mais variadas lutas sociais nesse momento contra a desconstrução do “Estado de Direito”.
Maciana de Freitas e Souza é bacharela em Serviço social pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)
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quinta-feira, 13 de julho de 2017

Márcia TIburi sobre como os golpistas, ilegítimos e sua elite vêem Lula: O mais "perigoso" dos Líderes....



  "Pesquisas apontam que Lula seria novamente presidente do Brasil, caso concorresse ao cargo máximo da nação em 2018. No cenário de um país colonizado e cada vez mais “neoliberalizado” como é nosso, a presença de um personagem como Lula passa de fator de conciliação entre classes a grande perigo para as elites que usurparam o poder. Lula continua sendo um fator político fundamental, talvez o mais fundamental no contexto de uma democracia cada vez mais destruída."


O mais perigoso dos líderes


O mais perigoso dos líderes

  1. Marcia Tiburi

Pesquisas apontam que Lula seria novamente presidente do Brasil, caso concorresse ao cargo máximo da nação em 2018. No cenário de um país colonizado e cada vez mais “neoliberalizado” como é nosso, a presença de um personagem como Lula passa de fator de conciliação entre classes a grande perigo para as elites que usurparam o poder. Lula continua sendo um fator político fundamental, talvez o mais fundamental no contexto de uma democracia cada vez mais destruída.
Se estamos falando do desejo do eleitorado em relação a Lula, devemos começar por ter presente que esse desejo, na verdade, já não conta no Brasil desde o golpe de 2016. Sabemos que, se ainda houver eleição direta para presidente, hipótese plausível em um país que se tornou terra de ninguém, o desejo do povo manifesto nas urnas só será aceito entre aspas se ele coincidir com o desejo das elites, as mesmas que, servas do grande capital, transformam o Brasil inteiro em um mercado barato, vendendo-o em termos de commodities a preço de balaio. É nesse contexto que enfraquecem as tentativas de sustentar teoricamente a democracia, de manter a resistência contra a ditadura corporativa, midiática, judiciária cada vez mais claras. É claro que resistir é urgente, necessário e muitos morrerão por isso, mas é certo também que não podemos ser ingênuos diante dos jogos que estão sendo tramados nas costas da população, dos movimentos sociais, de todos os que se ocupam em promover qualquer sinal real de democracia no bizarrismo do momento.
Dilma Rousseff, sabemos, estava na mira das armas neoliberais manejadas pelo colonialismo externo do grande capital e o colonialismo interno de políticos, banqueiros e outros donos do Brasil. Ela estava marcada desde o começo, pelos muitos motivos que se tornam cada vez mais evidentes. Do mesmo modo, não é novidade que ela, assim como Lula, apesar dos pesares e das críticas de quem sempre espera um governo mais à esquerda, ou seja, mais socialista, mais capaz de garantir direitos, conseguiu uma proeza incomum: sustentar uma relação com o neoliberalismo de rapina ao mesmo tempo em que tentava por algum freio à barbárie, defendendo direitos fundamentais e uma democracia, por assim dizer, sustentável. Hoje, em que pese a necessidade de repensar o paradigma sócio-político que nos rege, sabemos que essa democracia sustentável praticada por Lula e, na sequência, por Dilma, é só o que se pode esperar de um governo popular em um país colonizado. Talvez Dilma e Lula tenham feito o melhor jogo de cintura de que teremos notícia em nosso país que começa a viver, de 2016 em diante, os piores tempos de sua pós-história. Perdemos a ingenuidade diante dos acontecimentos. A democracia se torna a cada dia um assunto menor.
Antes de seguir, gostaria de gastar um pouco do meu tempo e do meu espaço para pensar no lugar político mais fundamental da nação. Fato é que o cargo de Presidente da República Federativa do Brasil não é mais o mesmo depois do golpe. Esse lugar vale hoje em dia tanto quanto o voto da nação. Michel Temer conseguiu uma antiproeza fundamental na política brasileira do momento. De tudo o que ele ajuda a destruir hoje, o cargo de presidente da República é um dos que perdeu a dignidade conquistada com as eleições de Fernando Henrique Cardoso, de Luiz Inácio Lula da Silva, bem como de Dilma Rousseff, presidentes eleitos e legítimos. Não eram vices golpistas, nem oportunistas. Entrará Rodrigo Maia em seu lugar para confirmar a trilha do rebaixamento, deixando claro que não é de democracia, nem de dignidade que se trata, ou qualquer desses valores que contavam na época em que política era algo fundamental. Ao ocupar o cargo de maneira ilegítima, entre o patético e o ridículo de seu personagem, invotável e rejeitado por mais de 90% dos brasileiros, Michel Temer segue se segurando na própria incompetência dos que querem derrubá-lo para não cair, e humilha o cargo que ocupa por meio de um golpe.
Não é possível, nesse momento, não pensar na figura dos que nos representando, não nos representam. Não é possível não se perguntar como Michel Temer suporta ser quem se tornou, sem grau algum de reconhecimento, sem méritos, sem história, sem coragem, sem brilho, sem vergonha. Qualquer pessoa a quem a questão da dignidade ainda fizesse sentido, que ainda tivesse um mínimo de amor próprio, já teria renunciado, teria se matado ou morrido de tristeza estando em sua situação. Mas aqueles que perderam a subjetividade, aquilo que os antigos, chamavam de alma, esses não sentem nada. E talvez seja esse o caso do homem que, sentado no trono da ilegitimidade e da rejeição popular, estarrece a todos.
Anti-Temer
Mas por que gastar tempo falando de Michel Temer enquanto os Direitos trabalhistasvazam pelo ralo, enquanto vários outros direitos se perdem no meio da desregulamentação da economia, da privatização e dos demais aspectos que fazem parte de um programa neoliberal? Por que Michel Temer é apenas mais um. E porque é sob o seu nome, num país que precisaria de líderes democráticos, de um projeto de país, que se produz a ignominia do desmantelamento do Estado, da sociedade e assistimos a destruição do país. O protótipo do político brasileiro, aquele que chegou onde chegou por tramas obscuras, por jogos sinuosos de poder, no caminho da ilegitimidade é o que está em jogo.
Podemos citar muitos nomes que acompanham Michel Temer na sua inexpressividade a serviço da covardia dos neoliberais. Falamos de um e estamos falando de todos, salvaguardadas as exceções que confirmam a regra. Não podemos nisso tudo esquecer os agentes do Judiciário que hoje, sem provas, sustentados em convicções em nível de delírio, que fazem lembrar idiotas, tentam encontrar um lugar ao sol enquanto todos percebem que se valem de um ódio – no caso dos mais famosos atualmente, de um ódio contra Lula e o Partido dos Trabalhadores. O ódio destrói a crítica que poderia ser interessante em qualquer momento. O ódio, como sabemos, é plantado em corações vazios, em mentes despreparadas para a política por meios de comunicação que em tudo são máquinas protéticas que definem hoje o caminho, a verdade e a vida da população.
neoliberalismo é essa religião que programa um caminho, uma verdade e uma vida para cada um. O caminho é o mesmo, o da servidão voluntária ao mercado, ao capitalismo neoliberal.
O que Lula significa para o Brasil nesse momento? Qualquer líder que possa atrapalhar concreta ou simbolicamente o cenário do poder econômico, a descarada tendência dominante há tempos, será destruído, descartado, eliminado. Lula em tudo é o anti-Temer. Querido, amado, altamente expressivo como ser humano, capaz de encantar os mais exigentes estadistas e massas inteiras de gente simples, Lula continua impressionando os intelectuais, os que pensam e até aqueles que não se preocupam muito com política. Ele foi e continua sendo o mais perigoso dos líderes capazes de atrapalhar o cenário político previamente estabelecidos pelos donos do Brasil, simplesmente por um fator. Ele é amado pelo povo que nele se reconhece e nele votaria pura e simplesmente. Me refiro ao povo, às pessoas das classes humilhadas e exploradas que lhe eram fiéis e que, nesse momento, passam a amá-lo mais ainda. Do mesmo modo que, aqueles que ainda não tinham percebido a sua dimensão, diante das injustiças das quais é vítima, passam a adorá-lo.
Mas essa parte da população, que é a imensa maioria, tem perdido seu espaço. E tem perdido a si mesma, seus corpos e suas mentes.
Há, sem dúvida, também o lacaio do neoliberalismo. Em geral, ele não gosta de Lula, não gosta de esquerda, mesmo quando se favorece com as lutas em nome de direitos e garantias sociais levadas adiante por movimentos, ativistas e até políticos de esquerda. O neoliberalismo não respeita nada que não seja útil, e o cidadão, entre ingênuo e astucioso, tenta “prestar” seu serviço ao capital. Não é só a ingenuidade do corpo docilizado o que entra em jogo na inércia da população, é também a covardia interesseira que o “aburguesamento” do mundo nos legou. Muitos que um dia foram honrados com a consciência de serem trabalhadores perdem agora o seu desejo de lutar – porque o desejo político é a coragem da luta – enquanto são rebaixados a produtores e consumidores. Para essas pessoas, a política vira uma humilhação. A política deve ser rejeitada, pensam aqueles que não sabem o que dizem, nem o que fazem.
O pensamento simplificador, típico de sociedades levadas à incapacidade de reflexão, e a correlata polaridade política, movida a desinformação e ódio, impedem a compreensão do significado de Lula para o Brasil. Hoje, há uma espécie de interdição à percepção de que há um Lula para além do Luiz Inácio Lula da Silva, político com qualidades e defeitos, eleito por duas vezes à Presidência da República.
Se o Lula de carne e osso foi racionalmente tolerado pelos detentores do poder econômico (afinal, os bancos nunca lucraram tanto), esse outro Lula, o do imaginário de imensa parcela da população brasileira (e que alcançou também a atenção de pessoas em todo mundo) tornou-se insuportável justamente no momento em que vem simbolizar o Brasil que volta a ser uma velha colônia usada e abusada pelos colonizadores de sempre, o velho capital internacional aliado hoje em dia de corporações e banqueiros que ocupam os cargos políticos como se fossem os donos do Brasil.
Lula continua em seu papel como representante do povo idêntico ao povo, um papel que é incomparável com qualquer outro político de seu tempo. Perseguido e humilhado, como é inevitável a um líder de sua envergadura, mas altivo e sem dever nada a ninguém, ele nos deixa um recado: “não há solução para nenhum país que não seja uma solução política”. Isso nos leva a pensar que o neoliberalismo em curso propõe soluções econômicas que favorecem os ricos e que esse favorecimento conta com a adesão do cidadão rebaixado a otário. Nas palavras de Lula “a desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta”. Precisamos sair desse lugar de otários em que fomos postos por uma produção discursiva que nos afasta de nosso próprio desejo por política e nos faz viver das decisões alheias que sempre nos desfavorecem.
O presidente Lula foi condenado como já se esperava, sem provas, a partir de acusações ridículas. Foi condenado por um juiz que só existe como figura pública porque se colocou a caçar o presidente. O juiz do Paraná lembra Michel Temer, é mais um dos “sem brilho próprio” que sobrevive tentando apagar o alheio. Após deixar de ser unanimidade, o que restará a esse cidadão é agradar alguns admiradores. Talvez Michel Temer, absolvido, Aécio, solto…
A estrela de Lula é maior. Não se apagará de modo algum da história do Brasil, nem do coração das classes humilhadas.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

"Estamos vivendo a espetacularização fascista", afirma a filósofa Márcia Tiburi

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  A filósofa Marcia Tiburi lançou o livro "Como conversar com um fascista" no qual fala sobre o momento atual vivido pelo Brasil onde a intolerância política tem provocado uma série de agressões contra pessoas que defendem o estado democrático de direito no país; "Acho que a gente está vivendo uma espécie de escândalo fascista", afirma; ela diz que o ódio dessas pessoas tem sido "fomentado pelos meios de comunicação"

247 - A filósofa Marcia Tiburi lançou o livro "Como conversar com um fascista" no qual fala sobre o momento atual vivido pelo Brasil onde a intolerância política tem provocado uma série de agressões contra pessoas que defendem o estado democrático de direito no país.
"Acho que a gente está vivendo uma espécie de escândalo fascista", afirma. Para ela, há um temor no país por parte das pessoas até por questões simples como utilizar uma camisa vermelha. "O fascista não escuta, é uma figura autoritária, não está aberta ao outro. Ela tem um pré-julgamento do outro", disse. "Esse ódio que ela pensa que é dela foi fomentado pelos meios de comunicação", destacou.
Ouça aqui a entrevista à Rede Brasil Atual.