quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Jamil Chade: Trump parece desejar guerra civil para se sustentar no poder

 

Chade alerta que republicano pode usar Lei da Insurreição para conter violência e suspender eleições no país


Do Jornal GGN:

Em um
a entrevista exclusiva ao jornalista Luís Nassif, na noite de terça (27), para o canal TV GGN no Youtube, o correspondente internacional Jamil Chade expressou profunda preocupação com a possibilidade de Donald Trump estar deliberadamente provocando uma guerra civil nos Estados Unidos, não como um “acidente”, mas como uma estratégia para se manter no poder.

Sob Trump, os Estados Unidos vivem um momento de tensão extrema e forte polarização, com eventos de violência política e manifestações nas ruas, e medo crescente entre parte da população de que o país esteja caminhando para uma guerra civil. Chade, que vive em Nova York com a família, avaliou que pode existir método nas decisões de Trump que têm feito esse clima escalar diariamente. Para o jornalista, Trump seria favorecido por uma guerra civil ou, pelo menos, tentaria se aproveitar dela ao lançar mão da Lei da Insurreição para conter violência doméstica e rebeliões.

“Eu tenho muito medo do que está acontecendo porque eu não vejo essa guerra civil como uma ameaça para Donald Trump. Temo que seja uma jogada justamente para esticar a corda a um ponto tão absurdo que só a Lei da Insurreição poderia dar algum tipo de, entre aspas, solução. É a solução que ele quer. Por exemplo, suspender a eleição [de meio mandato] que ele sabe que ele vai perder”, explicou Chade.

Chade ressaltou que a sociedade americana, acostumada a exportar um conceito de democracia forte, mas não possui a “tecnologia de resistência” interna para lidar com essa ameaça trumpista, o que torna a situação ainda mais perigosa. Nassif comparou a situação atual dos EUA ao declínio do Império Romano, com um esgarçamento da moral interna e a aceitação passiva de abusos, culminando em figuras como Trump. “É um momento muito dramático, sem dúvida nenhuma”, confirmou Chade.

Ainda na entrevista, Jamil Chade detalhou a “capoeira” da política externa brasileira para 2026, cujo objetivo primordial é blindar a eleição de 2026 e manter Donald Trump “contido”, evitando qualquer atrito que possa gerar problemas no pleito interno.

AMÉRICA LATINA – Além disso, Chade abordou a preocupação do Brasil com a ampliação da cooperação militar dos EUA com países vizinhos, especialmente a possibilidade de uma base militar americana no Paraguai, um ponto geopoliticamente estratégico. O Itamaraty busca fortalecer relações com esses países para evitar a formação de um “grupo de Lima” contra o Brasil e para que qualquer ofensiva contra o país seja prejudicial aos vizinhos.

EUROPA – A entrevista também abordou a crise existencial da Europa, que está descobrindo que não é imune a ameaças externas, e a fragilidade das instituições globais, como a ONU, que enfrenta cortes orçamentários significativos, impactando programas humanitários e resultando na morte de centenas de milhares de pessoas.

CONSELHO DA PAZ – O Brasil, segundo Chade, adotou uma estratégia “marota” ao propor algo que sabia ser inaceitável, mas que não permitiria que o outro lado acusasse o Brasil de absurdo, como a sugestão de um Conselho da Paz com mandato exclusivo para Gaza e a inclusão dos palestinos.

A entrevista completa foi transmitida ao vivo no canal TV GGN, no Youtube, na noite de terça-feira, 27 de janeiro. Assista ao corte abaixo:




Leia também:

LUIS NASSIF ALERTA: CAMPANHA DA MÍDIA NO CASO MASTER VISA TIRAR PODER DO STF

 

Do Canal da TV GGN:




Do Portal do Jospe: MALANDRAGEM! GLOBO QUER MASTER NO COLO DE LULA! DIREITA DETONA FLAVIO BOZO! ECONOMIA E FALA-BOMBA

 

Do Portal do José:

MUITA AGITAÇÃO HOJE! SEGUE A CAMPANHA CONTRA O STFMALÚGASPAR QUER COLOCAR ESCÂNDALO NO COLO DE LULA! O QUE ESTÁ POR TRÁS DA CAMPANHA CONTRA O STF?




OCTÁVIO GUEDES REAGE A MALU GASPAR E DEFENDE LULA AO VIVO E ESCULACHA LAVAJATISTA SOBRE BANCO MASTER

 

Da  TV Afiada:




A importância de Karl Marx hoje, por Wesley Sousa

 

A filosofia (e profundidade) de Marx é maior que o estandarte comum de “comunismo”, “luta de classes” e tantos outros jargões que o senso comum propagara


Do Jornal GGN:

    Reprodução


A importância de Marx hoje, por Wesley Sousa

Não é demais afirmar que Marx foi, antes de tudo, um filósofo. Um filósofo que, certamente, é mais comentado do que lido ao longo dos tempos – sobretudo pelos seus “adversários” políticos e teóricos. Com a segmentação das ciências, todavia, cada ramo quer um Marx para chamar de “seu”: o Marx sociólogo, o Marx historiador, o Marx da ciência política e o Marx da economia.

A filosofia de Marx é maior que o estandarte comum de “comunismo”, “luta de classes” e tantos outros jargões que o senso comum propagara ao longo dos tempos. No que é mais central ao pensamento de Marx: a crítica da forma do capital em seu núcleo[2]. A mercadoria é o ponto de partida, a célula do funcionamento do capitalismo; mas, é o capitalismo, a sociedade cujo pressuposto se efetiva através da produção de valor (e o consequente mais-valia), engendrando alienações e estranhamentos específicos de sua base, o conjunto crítico mais profundo –, o que não coloca tais conceitos e temas outros como menores[3].

Em seu pensamento, há um nível profundo de compreensão da natureza da realidade e do Homem (sentido de humanidade). Uma das coisas que mais chama a atenção é como ele trata a autoconstituição humana. A modo como Marx fala da “atividade sensível”, entre subjetividade e objetividade, o entrelaçamento entre a matéria e o espírito; a discussão entre torno do materialismo do século XVIII (Diderot, Voltaire, ou mesmo Bentham[4]). Tudo isso fez de um jovem leitor de filosofia e literatura se interessar por aquilo de modo profundo. Era ali uma elevação filosófica que, vale lembrar, fundamentou uma tradição relevante até nossos dias – mais do que uma formação juvenil.

Marx escreve em “A Ideologia Alemã” algo como “As representações que seus indivíduos elaboram são representações a respeito de sua relação com a natureza, ou sobre suas mútuas relações […]. Os homens são produtores de suas representações, de suas ideias, etc. mas a consciência jamais pode ser outra coisa que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real”.

A dinâmica capitalista explodiu a sua própria forma social e se coloca agora em processo ainda mais acelerado e incontrolável. A cultura de massas e as novas mídias parecem “aplainar” a “diferenciação” sistêmica: o que a crítica há mais de meio século denunciava, hoje é festejado como uma reintegração da arte à vida. A midiatização já vale nela mesma como certa emancipação das coerções da realidade capitalista.

Marx em O Capital escreve que “o modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual”. Marx não fundamenta a teoria da mais-valia para provar que o proletariado é explorado; ele a descobre no processo de produção da sociedade burguesa, a forma específica de exploração dessa classe particular, o proletariado. Ou seja, ele não rebaixa a ciência à política. O ponto é que o capitalismo, no decorrer de sua história (as categorias que engendram a maneira de expressar um conteúdo social), e como ele veio a ser, se colocou como diferente da maneira em que se expressa pela sua lógica, pelo seu funcionamento interno.

Assim, há quem interprete que sua lógica (do capital) refletiria como se desenvolveu na história, em identidade com seus desdobramentos lógicos, no qual um aspecto começa a ser pressuposto do desenvolvimento do outro, e que historicamente então só poderia ter se dado dessa forma. Caso contrário, a própria lógica do capital pareceria ficar “sem sentido”. Pois, como poderia o capitalismo e sua lógica ter vindo ao mundo e se autonomizado? Essa pergunta era desconcertante. Como o capitalismo funciona de tal forma como “funciona”?

Para Marx, o capital posto em marcha, em seu automovimento, exibe um funcionamento que não explica sua gênese. Suas categorias como resultados históricos viraram pressupostos (pela dependência de uma categoria se desdobrar na outra), então tudo se confunde[5].

“[…] Seria impraticável e falso, portanto, deixar as categorias econômicas sucederem-se umas às outras na sequência em que foram determinantes historicamente. A sua ordem é determinada, ao contrário, pela relação que têm entre si na moderna sociedade burguesa, e que é exatamente o inverso do que aparece como sua ordem natural ou da ordem que corresponde ao desenvolvimento histórico. Não se trata da relação que as relações econômicas assumem historicamente na sucessão de diferentes formas de sociedade. Muito menos de sua ordem “na ideia” ([como em] Proudhon) (uma representação obscura do movimento histórico). Trata-se, ao contrário, de sua estruturação no interior da moderna sociedade burguesa. […]” (Marx, Grundrisse, p. 87)[6]

Como escreveu Marx no terceiro livro do Capital, sobre o reino da necessidade (necessidade eterna de intercâmbio orgânico entre homem e natureza) se emerge o reino da liberdade (campo de escolha entre alternativas postas). O gérmen da sociedade futura brota das contradições insolúveis desta forma atual de sociabilidade. A superação – ou rompimento – não se trata de nenhum modelo a priori e idealizado, mas dos fundamentos da falsa universalidade burguesa.

A crítica de Marx é salutar porque “dá um nó” na forma convencional como pensamos as categorias filosóficas. Há realmente uma dificuldade muito genuína em romper com algumas interpretações possíveis e conseguir apreender a teoria, o abstrato sempre aparece no imediato (como a noção de “trabalho”). Acredito que, no caso, foi um acidente por vias tortas: por exemplo, um tipo “materialismo aleatório” (expressão de Louis Althusser), ou seja, uma apreensão do imediato que foi se complexificando, que eu tinha há muito tempo em mente, advindo daquele ateísmo crítico da religião de outrora (algo que falta hoje, para a crítica de mundo). Isso obviamente facilita perceber o caráter de uma sociedade regida amplamente por abstrações, tal qual seria dos deuses ou Deus; assim, descendo da crítica dos céus à terra, a crítica sem piedade de um mundo sem coração se faz valer, sem dúvidas, a importância de Marx. Em resumo, naquela crítica da religião anterior foi possível desdobrar a compreensão de mundo.

Fazendo uma paráfrase de Hegel: fazer valer as abstrações no mundo real significa destruir a realidade. Portanto, a importância de Marx hoje se justifica, pois o que chamamos de realidade ainda é a configuração destrutiva das categorias do capitalismo.


[1] Doutorando em Filosofia pela UFMG.

[2] Eu especularia que, o sentido de “crítica” (Kritik) em Marx, pode fazer alusão ao conceito de crítica de Kant: a delimitação e a circunscrição de uma ciência racional.

[3] Agradeço pela dica e interpelação do amigo Rodrigo Cruz (USP).

[4] O professor Rogério Picoli (UFSJ) havia, em certa ocasião, mencionado um certo Marx leitor de Bentham.

[5] Devo essa interpretação, entre outras sugestões, ao amigo e estudioso Gabriel Ahmad, pelo diálogo em tornar sucinta a exposição.

[6] Edição da Boitempo (São Paulo, 2011).

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Trump enquanto farsa, violência, imperialismo e canastrice política em artigo de Wilson Ferreira

 


A performance de Donald Trump subverte a diplomacia tradicional para instaurar a era da "canastrice política".


Do Cinegnose e Jornal GGN:



Trump e o fenômeno do “Loop de Feedback da Hiper-realidade”


por Wilson Roberto Vieira Ferreira


Donald Trump em Davos: presidente ou comediante de stand-up? O comportamento bizarro do líder norte-americano diante dos aliados europeus levanta uma questão central para a comunicação moderna: quem imita quem? Da paródia no programa Saturday Night Live ao “mimetismo reverso”, exploramos como a política contemporânea se tornou um reflexo circular de simulacros, onde a verossimilhança é ditada pela ficção e o poder é exercido através de um estranho, porém eficaz, efeito de realidade. A performance de Donald Trump subverte a diplomacia tradicional para instaurar a era da “canastrice política”. Entre o mimetismo reverso das paródias do SNL e a construção ficcional de líderes como Zelensky, o que vemos não é mais a política dos fatos, mas o triunfo do simulacro. Neste texto, analisamos como o stand-up de Trump fecha o “Loop de Feedback da Hiper-realidade”, onde a autenticidade não reside na verdade factual, mas na fidelidade absoluta do líder à sua própria caricatura.

“Fila de uma hora e meia para entrar no auditório… parecia dia de jogo no Maracanã”. Assim a correspondente internacional da Globo News, Bianca Rothier, descreveu as horas que antecederam a palestra de Donald Trump em que o presidente dos EUA falaria à elite global no Fórum Econômico Mundial realizado anualmente em Davos, Suíça.

Como fosse a entrada de um show.

E o que se viu foi um profundo desprezo irônico de Trump com os aliados europeus: zombou de Macron e seus óculos escuros “Eu o vi ontem, com aqueles lindos óculos de sol. Que diabos aconteceu?”, chamou da Groelândia de “pedaço de gelo” e diversas vezes a confundiu com a Islândia; referiu-se à presidenta da Suíça como “uma senhora que me ligou para pedir para não tarifar um país tão pequeno como a Suíça”; reclamou dos EUA terem gastos bilhões de dólares na Ucrânia etc.

E preferiu muito mais falar dos “billions and trillions” de uma suposta reindustrialização do país (“o mundo está produzindo seus produtos nos EUA”), consertando “os fracassos das administrações anteriores”, do que sobre “ordem global” ou coisa que o valha. Tudo embalado com uma retórica exageradamente adjetivada e irônica.

Diante do nível de beligerância e belicosidade com o qual Trump vem se mostrando aos seus próprios aliados e ao resto do planeta nos últimos meses, no mínimo o que esse humilde blogueiro esperava reações da plateia parecidas com o que ocorreu com Netanyahu na plenária da ONU: pessoas em fila se retirando, burburinhos de reprovação etc.

Mas o que se viu foi o contrário: aqui e ali algumas risadas e o silêncio – ou de cemitério, ou de consentimento.

A impressão geral é que diferente dos chefes de Estado tradicionais que usam teleprompters e discursos estruturados, o que assistimos foi uma espécie de show de stand-up comedy com suas características principais:

(a) Crowd work: Trump interage com a plateia, está atento ao feed-back não verbal da audiência e testa “piadas” ou apelidos (como, por exemplo, Crooked HillarySleepy Joe) para ver qual gera mais risada.

(b) Timing e Pausas: Ele utiliza o silêncio e as expressões faciais de uma forma que lembra os mestres da comédia americana como Don Rickles (o “mercador de veneno”) ou Rodney Dangerfield (piadas depreciativas em alto ritmo).

(c) O “Bit” recorrente: Ele tem histórias que repete em quase todos os “shows”, como se fossem um “repertório” esperado pelos fãs.

(d) Roll Over: Um certo senso de “esportividade” (relaxamento mesclado com performance) e jogo. Tal como no stand-up comedy, o ritmo vocal de Trump sugere a existência de uma batida rítmica imaginária. Trump é verborrágico, mas com um estranho ritmo hipnótico, roll over.

Reprodução

Demência e verossimilhança

Para além do deleite particular desse humilde blogueiro, como alguém que pesquisa as conexões entre Comunicação, Política e Semiótica (vamos combinar! Com Trump as reuniões de cúpula globais deixaram de ser previsíveis e entediantes para ficarem mais divertidas…), há algo de incômodo em tudo isso: como a elite econômica global, a comunidade política internacional, jornalistas e demais profissionais de mídia naturalizam a bizarra situação em que o líder do Império faz um show de stand-up comedy ao vivo?

Como, para todos, Donald Trump é um personagem verossímil (excêntrico, vá lá, mas chefe de Estado da maior potência militar do planeta), cujos discursos devem ser interpretados, compreendidos, para ser descoberta suas verdadeiras intenções? Como se os seus discursos contivessem alguma ontologia, isto é, pudessem ser dissecados por alguma hermenêutica, para encontrar alguma verdade oculta por trás das camadas de retórica.

Será que aquela plateia no auditório em Davos ficou “pianinho” por temerem estar diante de um Nero incendiário sentado sobre o maior arsenal militar do planeta?

Será que todos estão pensando “louco não pode contrariar… então, deixa ele falar”?

Embora a grande mídia Ocidental esteja buscando alguma evidência clínica de demência no mandatário – chegou-se até a noticiar uma recorrente “mão roxa” com a presença de hematoma na mão do presidente, além da ingestão de aspirina em doses muito maiores do que a recomendado pelos médicos – clique aqui.

Esse Cinegnose prefere ir por um outro caminho: na verdade, apenas o medo de que um demente esteja com o dedo do lado do botão que pode mandar o planeta para os ares não explica.

Isso dá no que pensar: as duas personalidades que mais catalizaram a atenção de microfones e objetivas das câmeras no Fórum Econômico de Davos são personagens NÃO oriundos das contendas do campo político ou geopolítico – Trump, cuja imagem do “magnata bilionário de Nova York” foi diligentemente construída através de tabloides, fazendo pontas em cenas de filmes, aparições em programas de TV e, fundamentalmente, pela sua atuação como apresentador de reality show. Transformou sua merca pessoal em um ativo midiático.

E Zelensky, um comediante que alcançou a notoriedade numa série ucraniana Netflix de baixo orçamento, replicou a ficção tornando-se presidente e contou com todo o investimento semiótico da Mídia OTAN para transformá-lo num líder político e herói geopolítico.

Loop de Feedback da Hiper-realidade

Isso quer dizer que principalmente Donald Trump é uma resultante de um fenômeno media life (Apud Mark Deuze) que muitos teóricos da comunicação e sociólogos chamam de “Loop de Feedback da Hiper-realidade”.

A fronteira entre o político e o performer não apenas se tornou tênue; ela se tornou circular. O paradoxo de quem imita quem (será que os comediantes do “Saturday Night Live”, como Alec Baldwin ou James Austin Johnson, parodiam Trump ou Trump parodia suas próprias parodias?) sugere que não estamos mais lidando com uma “realidade” que é parodiada, mas com uma paródia que dita o ritmo da realidade.

Chamamos esse fenômeno de “canastrice política”: esse estranho efeito de verossimilhança circular que cada vez mais substitui o poder persuasivo da retórica política clássica. Um século de cultura visual e do espetáculo fizeram a nossa percepção da realidade ficar invertida. Tomamos o real não a partir dele mesmo, mas tomando como referencia imagens anteriormente feitas do próprio real.

O efeito estranho ocorre porque:

(a) Mimetismo Reverso: Muitas vezes, Trump parece adotar os maneirismos que os comediantes exageraram. Se o SNL o retrata como alguém que se perde em tangentes absurdas, ele passa a abraçar essas tangentes de forma ainda mais performática.

(b) Verossimilhança Midiática: Para o público que consome política via redes sociais, o Trump “real” parece mais verdadeiro quando ele age como o “Trump da TV”. A “verdade” do personagem não está na precisão dos fatos, mas na coerência com a sua própria caricatura.

Mas há uma diferença fundamental entre Trump e Zelensky, muito embora o mecanismo do Loop de Feedback da Hiper-realidade seja idêntico.

Zelensky interpretou um presidente na série Servo do Povo. O público votou no personagem Vasyl Holoborodko tanto quanto no homem Volodymyr Zelensky. A ficção serviu de “ensaio” para a realidade. A Ficção se torna realidade.

Enquanto em Trump temos o inverso: o fato que se torna ficçãoEle veio do reality “O Aprendiz”, onde interpretava a “ideia” de um bilionário de sucesso. Ao chegar à presidência, ele não abandonou o papel; ele transformou a Casa Branca no set da segunda temporada…

Tanto que em suas postagens nas redes sociais tornou-se uma assinatura formal do presidente a expressão “Obrigado pela sua atenção a este assunto” (ou “TYFYATTM”) como se não fosse um comunicado de cunho presidencial, mas um mero informe comercial para usuários de algum serviço comercial ou corporativo.

O que chamamos de “estranho efeito de realidade” é o que o filósofo Jean Baudrillard certa vez definiu como Hiper-realidade: o momento em que o simulacro (a cópia) é mais real para as pessoas do que o próprio objeto original.

Trump é considerado “autêntico” por seus seguidores não porque ele diz a verdade factual, mas porque ele é fiel ao personagem midiático que ele e seus parodistas criaram. Ele é “verdadeiro” por ser uma performance perfeita de si mesmo.

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

TRUMP QUER EXTIRPAR O DIFERENTE, EXPLICAM JAMIL CHADE E DANI LIMA

 

 

Do Canal TMC 360

Os comentaristas Jamil Chade e Daniela Lima comentam a maneira como o presidente Donald Trump tem conduzido sua política de imigração neste segundo mandato, marcado pela atuação polêmica do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) e uma ideia de "extirpar o diferente" dentro dos Estados Unidos. Essa política se choca com a iminente realização da Copa do Mundo de 2026 e a ideia do esporte como união e celebração em torno do futebol, por exemplo. Enquanto isso, federações europeias debatem a possibilidade de protestos, e mesmo boicote, à presença de suas seleções no torneio deste ano que ocorre, também, no Canadá e no México.



quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Tutela, soberania e Forças Armadas, por Francisco Celso Calmon

 

O golpe militar que derrubou Pedro II e instaurou a República instituiu, desde então, o signo da tutela como marca da nova forma de governo no Brasil.

Do Jornal GGN:

    Foto de Marcelo Casal Jr - Agência Brasil

Tutela, soberania e Forças Armadas

por Francisco Celso Calmon

A recente declaração de um general brasileiro, registrada em publicação vinculada a uma instituição militar sediada nos Estados Unidos, recolocou no debate público uma questão estrutural da história política nacional: o papel das Forças Armadas na definição dos rumos do Estado. Ao afirmar que a liderança militar pode influenciar decisões estratégicas, institucionais e políticas, o general André Luís Novaes Miranda explicitou uma concepção ampliada da atuação militar – concepção que dialoga diretamente com a tradição de tutela sobre o poder civil que marcou sucessivos momentos da experiência republicana brasileira.

Historicamente, as Forças Armadas ocuparam um lugar central e contraditório nesse processo. Instituições indispensáveis à defesa territorial e à integridade nacional, foram, ao mesmo tempo, reiteradamente mobilizadas como instrumentos de intervenção interna, culminando no regime autoritário instaurado em 1964. Essa ambiguidade se estrutura a partir de uma concepção tutelar, onde os militares assumiram a função de poder, legitimando sua interferência nos ciclos de instabilidade política.

O golpe militar que instaurou a República instituiu, desde então, o signo da tutela como marca da nova forma de governo no Brasil.

As redemocratizações não foram capazes de desmontar plenamente essa lógica tutelar.

Ao longo dos três governos Lula, não se construiu um planejamento sistemático e de longo prazo voltado à desarticulação da tutela no interior das Forças Armadas. Faltaram políticas continuadas de formação, presença institucional consistente, diálogo político permanente e, sobretudo, uma estratégia clara de disputa de projeto. O resultado foi a manutenção de um distanciamento estrutural entre o poder civil democrático e a instituição militar, abrindo espaço para a reprodução autônoma de heranças ideológicas.

A conjuntura recente tornou esse limite ainda mais visível. De um lado, a responsabilização de militares de alta patente envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 sinaliza que certos marcos institucionais começam, ainda que tardiamente, a ser afirmados. De outro, persiste a ausência de uma estratégia estatal consistente para reinserir as Forças Armadas no campo da soberania nacional e da legalidade democrática.

Em 2024, o Supremo Tribunal Federal reafirmou, por unanimidade, que a Constituição de 1988 não confere às Forças Armadas qualquer papel de poder moderador. Ao julgar ação que questionava interpretações distorcidas do artigo 142, a Corte deixou explícito que a atuação militar está estritamente subordinada ao poder civil e limitada à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, de forma excepcional, da lei e da ordem. A decisão buscou afastar leituras que vinham sendo instrumentalizadas no debate político recente para justificar intervenções indevidas na dinâmica institucional.

É nesse contexto que as declarações do atual ministro da Defesa, José Múcio, ganham maior densidade política. Ao confirmar sua permanência no governo e sinalizar disposição para contribuir com o projeto de reeleição do presidente Lula, Múcio desloca o debate sobre as Forças Armadas para o centro da disputa política nacional. Esse movimento, contudo, é marcado por tensões. Ao longo do governo, o ministro acumulou divergências com setores do próprio campo governista e assumiu posições controversas, como a defesa de tratamento leniente aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro.

Ao fazer essa declaração, Múcio deu no governo um golpe de MMA, evitando qualquer mudança que o Presidente pudesse pensar em demovê-lo.  

Múcio era peça-chave na intentona bolsonarista, não concretizada porque Janja exclamou GLO é golpe! 

Tais gestos evidenciam os limites de uma condução que, embora reconheça a centralidade da defesa e da soberania, permanece atravessada por ambiguidades políticas. Dessa maneira, torna-se evidente que a redefinição do papel das Forças Armadas não pode depender exclusivamente de figuras pouco alinhadas a um projeto democrático e popular.

Cabe ao governo assumir, de forma ativa, a disputa pelos sentidos da instituição militar e por sua inserção estratégica no projeto de país que se pretende construir.

Reconhecê-las como instituição de Estado – e não como um bloco homogêneo – é condição para qualquer projeto democrático consistente.

Nenhum dos governos Lula estruturou uma política contínua capaz de disputar, no interior das Forças Armadas, os sentidos de soberania, democracia e projeto nacional. A ausência dessa disputa, não apenas fragilizou o controle civil, como permitiu que visões autoritárias e tuteladoras permanecessem latentes, prontas para se reativar em momentos de crise.

Esse debate precisa ser situado na conjuntura internacional pela sociedade civil organizada.

As recentes movimentações do governo Donald Trump, marcadas pelo fortalecimento de uma lógica imperialista explícita e de viés fascista, recolocam no centro da cena a disputa por territórios, recursos e zonas de influência.

As veias abertas do continente permanecem abertas, irrigando o capital estrangeiro e fortalecendo o poder político das potências imperialistas, enquanto os países do Sul Global seguem submetidos a estruturas de dependência que limitam sua autonomia estratégica.

É precisamente nesse ponto que o papel das Forças Armadas se torna incontornável. Elas ocupam um lugar estratégico na proteção do território, dos recursos e da autonomia política do país. Mas, para que cumpram essa função, é indispensável romper com heranças ideológicas que historicamente as afastaram da sociedade civil e as aproximaram, reiteradas vezes, de projetos alheios ao interesse nacional.

Pensar a soberania brasileira hoje, exige, portanto, abandonar leituras simplificadoras. Defender a democracia implica enfrentar, simultaneamente, os discursos autoritários internos e as estruturas internacionais, as quais historicamente condicionam os países do Sul Global.

É indispensável, pois, que o Brasil disponha de Forças Armadas preparadas, profissionalizadas e politicamente presentes em um projeto nacional comprometido com a soberania popular – não como instância tutelar, mas como instrumento legítimo de defesa do país e de sua autodeterminação. Por isso mesmo, reafirmamos, como mantra, a necessidade de um Projeto de Nação.

Nessas eleições é uma situação propícia e necessária para formular o projeto do Brasil que queremos.

É com essa compreensão que defendemos, há algum tempo, a revogação do artigo 142 da Carta Magna. Ainda que o Supremo Tribunal Federal tenha firmado entendimento claro sobre seus limites, consideramos que sua exclusão é politicamente necessária, sobretudo para não seguir alimentando interpretações golpistas no interior das Forças Armadas.

A garantia da lei e da ordem não deve caber às instituições militares, mas às forças policiais, como previsto em um Estado democrático. As Forças Armadas, subordinadas ao comando supremo do presidente da República, devem ser acionadas apenas em situações estritamente excepcionais, quando efetivamente necessárias.

Este texto contou com a colaboração de Lucas Cedro.

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.



Reinaldo Azevedo – Discurso de Macron em Davos dá uma dimensão dos desastres de Tump

 

Do Canal BandNews FM: