quinta-feira, 4 de junho de 2020

Tacla Duran ressurge em meio à vingança de Bolsonaro contra Moro


Senadores que acompanham os lances de Bolsonaro em relação a Moro acreditam que o plano do presidente é tornar o ex-juiz da Lava Jato, candidato virtual à presidência em 2022, inelegível
Jornal GGN A jornalista Andreia Sadi afirmou na tarde desta quarta (3) que senadores que acompanham os lances de Jair Bolsonaro em relação a Sergio Moro acreditam que o plano do presidente é tornar o ex-juiz da Lava Jato, candidato virtual à presidência em 2022, inelegível. Para isso, Moro teria de ser condenado em órgão colegiado. Em meio a essa discussão, surge a notícia de que a Procuradoria-Geral da República decidiu retomar o acordo de delação premiada contra o ex-advogado da Odebrecht, Rodrigo Tacla Duran.
Moro declarou por meio de nota nesta quarta (3) que lhe causou “perplexidade e indignação” a notícia de que Augusto Aras assinou um acordo de confidencialidade com a defesa de Tacla Duran. Investigado na Lava Jato em Curitiba, Duran acusou Carlos Zucolotto, padrinho de casamento de Moro, de cobrar 5 milhões de dólares em propina para ajudá-lo a negociar um termo de colaboração premiada com os procuradores liderados por Deltan Dallagnol. Na época, Moro era o juiz das ações contra o advogado que está na Espanha.

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De acordo com Sadi, Aras retomou a conversa com a defesa de Duran há 90 dias, ou seja, pouco antes de Moro abandonar o governo Bolsonaro. Desde então, o ex-juiz da Lava Jato vem apresentando divergência contra o ex-chefe e abasteceu a PGR com acusações sobre interferência na Polícia Federal. Fontes ouvidas pela jornalista apostam em futuras buscas contra Moro, para minar sua imagem de justiceiro.
Moro é alvo certo porque racha a base eleitoral de Bolsonaro e, por isso, o presidente não quer vê-lo na disputa presidencial de 2022. Nas últimas semanas, críticos têm observado se Aras vai tender para o lado do presidente nos inquéritos que podem virar denúncia por crime de responsabilidade. Segundo Sadi, a interlocutores, Aras tem rechaçado que a delação de Tacla Duran seja uma ajuda no plano de Bolsonaro de se vingar de Moro.
A delação de Tacla Duran foi arquivada por um procurador da República em 2018. Antes disso, foi rejeitada pelos procuradores de Curitiba, suspeitos de montar a indústria da delação premiada.
Se encampado por Aras, o acordo de Duran será o segundo apresentado pelo novo chefe do Ministério Público Federal. O primeiro diz respeito ao empresário Eike Batista, outro que teve sua delação rechaçada por Moro.
Confira o que o GGN já publicou sobre Tacla Duran:


Relembre: Padrinho de Sergio Moro, Carlos Zucolotto pediu 5 milhões de dólares em propina, diz Tacla Duran



À Câmara, Tacla Duran pede investigação sobre suposta extorsão de investigados e denuncia a turma de Curitiba. "Eles não têm o menor constrangimento em amordaçar testemunhas que vão ameaçar suas teses de acusação"
Matéria publicada originalmente no dia 5 de junho de 2018

Jornal GGN O advogado Rodrigo Tacla Duran reafirmou nesta terça (5), durante audiência na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, que recebeu de Carlos Zucolotto, amigo pessoal e padrinho de casamento de Sergio Moro, um pedido de pagamento de propina em troca de “proteção” na Lava Jato de Curitiba.
“Zucolotto me propôs que eu lhe desse 5 milhões de dólares em troca de sua proteção”, disse Duran. A “proteção” estaria relacionada a uma promessa de melhoria de um acordo de delação premiada junto aos procuradores liderados por Deltan Dallagnol. “Eu passei a ter problema a partir do momento em que não aceitei”, afirmou.
“Estranhamente”, continuou Duran, “Zucolotto nunca foi investigado. Entretanto, surgem denúncias de que outros advogados venderam proteção a outros investigados. É preciso investigar isso para que o Brasil saiba se houve tráfico de influência, advocacia administrativa ou extorsão”, cobrou.
O advogado afirmou ainda que “Moro ficou irritado comigo porque fui obrigado a informar à Receita Federal quem eram os colaboradores do meu escritório [de advocacia] e entre eles estava Zucolotto, que era meu correspondente em Curitiba. Essa relação profissional com Zucolotto vinha muito antes de qualquer ação contra mim. Eu não fazia ideia de que ele era amigo e padrinho de casamento de Moro.” Zucolotto também já foi sócio da esposa do magistrado, Rosangela Wolff Moro.
De acordo com Duran, a investigação da Receita durou 2 anos e foi encerrada sem apontar nenhum crime. Ele disse que, em 2016, procurou a Lava Jato em Curitiba para explicar sua relação profissional com a Odebrecht e acabou virando alvo dos procuradores quando a investigação avançou e o acordo de delação, com propina a Zucolotto, não foi fechado.
Duran ainda lembrou que, por conta dessa questão envolvendo Zucolotto, Moro vem impedindo que ele seja testemunha de defesa em um incidente de falsidade movido por Lula. A banca de advogados do ex-presidente sustenta que os documentos que a Odebrecht apresentou como provas de delações premiadas foram fraudados. Duran afirma que o sistema de onde os dados teriam sido extraídos foi manipulado antes e depois da Lava Jato, logo, não pode ser aceito pela Justiça como prova válida para processar Lula ou outros réus, como Michel Temer.
“Nunca serei testemunha de Lula, nem de Michel Temer, porque isso não é desejo de Moro nem da força tarefa. O que temos hoje no Brasil é a mordaça das testemunhas que são inconvenientes. Eles não têm o menor constrangimento em amordaçar testemunhas que vão ameaçar suas teses de acusação.”
No começo da audiência, Duran afirmou que “convivemos com dois juizes, dois Moros”. O primeiro se tornou herói dentro e fora do Brasil, mas o segundo é “criticado duramente por magistrados, inclusive de tribunais superiores e advogados”, por violar prerrogativas dos investigados.
A defesa de Lula recorre a tribunais superiores para ouvir Tacla Duran como testemunha. Moro, por sua vez, já se manifestou na imprensa em defesa de Zucolotto, que teria negado qualquer relação espúria com Tacla Duran. O padrinho do juiz ainda alegou que nunca atuou em nenhum processo criminal da Lava Jato. Além disso, Moro costuma reafirmar que Duran é um “foragido” (venceu um processo de extradição na Espanha) e “criminoso”, embora ainda não tenha concluído a ação penal contra o advogado.
Assista à audiência abaixo.
https://www.youtube.com/watch?v=1Mf3nuAf_zA

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Relembre: Tacla Duran pagou Marlus Arns através de banco acusado de lavagem em esquema envolvendo A Lava Jato e Sérgio Moro. Por Luis Nassif


Tacla Durán tem munição para implodir o que restou da ...
Marlus Arns é também ligado à família Moro. Era o advogado a quem Rosângela encaminhava todas as ações da APAE do Paraná, no período em que comandou a diretoria jurídica da entidade

Matéria publicada originalmente em 24 de junho de 2019 no Jornal GGN
O jornalista Jamil Chade mostra, em seu blog na UOL, que o advogado Rodrigo Tacla Duran pagou US$ 612 mil ao advogado Marlus arns, de Curitiba, através do Banco Paulista, acusado pela Lava Jato por lavagem de dinheiro.
É a segunda comprovação de atuação de advogados estreitamente ligados ao casal Moro. Um deles, Carlos Zucolotto, foi autor da proposta de redução da multa de Tacla, mediante honorários de US$ 5 milhões, pagos por fora. Zucolotto é considerado o melhor amigo de Sérgio Moro.
Marlus Arns é também ligado à família. Era o advogado a quem Rosângela Moro encaminhava todas as ações da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) do Paraná, no período em que comandou a diretoria jurídica da entidade.
Aqui, o trecho da matéria em que Jamil narra o pagamento a Marlus Arns. Agora, documentos bancários também submetidos ao MP da Suíça, apontam que, no dia 14 de julho de 2016, um pagamento ocorreu e teria sido feito a partir de um banco em Genebra para a conta de um escritório de advogados de Curitiba. Naquele dia, Tacla depositou US$ 612 mil ao advogado Marlus Arns em uma conta no Banco Paulista. As informações fazem parte de documentos que constam de processos na Suíça. A reportagem tentou contato com Arns. Mas o advogado não respondeu nem por telefone e nem por email. No início do mês, a força-tarefa Lava Jato do Ministério Público Federal no Paraná denunciou três ex-executivos do Banco Paulista: Tarcísio Rodrigues Joaquim, Gerson Luiz Mendes de Brito e Paulo Cesar Haenel Pereira.

O sobrinho de dom Paulo

Uma das características de Marlus é invocar o parentesco com Dom Paulo Evaristo Arns. Assim como seu tio, senador Flávio Arns, principal responsável pela indústria que se criou em torno das APAEs.
Até agora, Marlus não explicou a razão de ter conta em banco utilizado por doleiros. Precisa seguir os conselhos de tio Paulo.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

EUA: Perseguição aos Antifas denota diversionismo (desviar a atenção do desgoverno na crise) da direita, por Isabelle C. Somma de Castro



O uso da designação de grupo terrorista como forma de atacar oponentes está se afirmando como uma ação comum do governo Donald Trump. Em tuíte de 31 de maio, Trump disse que designaria o movimento Antifa como uma organização terrorista, demonstrando, mais uma vez, que os ataques retóricos são suas armas prediletas.

do OPEU – Observatório Político dos Estados Unidos

Perseguição aos Antifas denota diversionismo

por Isabelle C. Somma de Castro

O uso da designação de grupo terrorista como forma de atacar oponentes está se afirmando como uma ação comum do governo Donald Trump. Em tuíte de 31 de maio, Trump disse que designaria o movimento Antifa como uma organização terrorista, demonstrando, mais uma vez, que os ataques retóricos são suas armas prediletas. O atual ocupante da Casa Branca concede bastante importância à narrativa na era das redes sociais, da qual ele é exímio e frequente usuário. Mas, se a ameaça realmente se concretizar, ela extrapolaria o domínio do discurso e recairia em implicações questionáveis e ações com consequências indeléveis. Ao mesmo tempo, a medida parece ter como principal objetivo incriminar um movimento contrário aos interesses da base de apoio do presidente para tirar o foco sobre a questão realmente premente: o racismo estrutural da sociedade americana.
Um exemplo de como Trump instrumentalizou a designação de grupo terrorista ocorreu em relação a um inimigo externo. Em abril de 2019, a Guarda Revolucionária do Irã, uma divisão das Forças Armadas do país, foi inserida na lista de grupos terroristas. Pela primeira vez, uma organização que faz parte de um governo estrangeiro entrou para a lista publicada anualmente pelo Departamento de Estado. A rotulagem, a princípio, implica a imposição de sanções, como a proibição de se fazer negócios ou o congelamento de ativos financeiros do grupo e de seus principais integrantes. Também restringe o deslocamento de membros da guarda e de eventuais apoiadores, e até uma eventual aproximação de membros dos governos de outros países com a instituição.
A administração Trump foi além do usual. Utilizou tal designação como uma das justificativas para assassinar o general Qassem Suleimani, em janeiro deste ano. Suleimani, comandante da Força Quds, um dos braços da Guarda Revolucionária, seria um “líder terrorista” com pretensão de realizar um ataque “iminente” e, portanto, sua eliminação seria necessária. Ou seja, a administração Trump colocou a Guarda Revolucionária em pé de igualdade com Al-Qaeda e o Daesh (Estado Islâmico), grupos que a própria Força Quds combateu nos últimos anos e se mostrou vital para colocar os membros do último em debandada.

A virada do Patriot Act

Parece que Trump agora pretende usar a mesma tática contra seus inimigos internos a fim de criminalizá-los e persegui-los, utilizando-se não apenas da retórica, mas de interpretações mais rígidas da legislação.
Após os atentados de 11 de setembro de 2011, casos de terrorismo deixaram de ser enquadrados na Justiça Criminal, ou seja, em crimes comuns, e passaram a ser encarados como crimes contra a Segurança Nacional, especialmente por meio do Patriot Act. A nova legislação expandiu a definição de terrorismo internacional para doméstico: o crime é descrito como sendo um ato que viole a lei criminal americana e seja “perigoso para a vida humana” – algo extremamente abrangente. O ato deve se encaixar em um dos três itens da Seção 802: 1) intimidar, ou coagir, a população civil; 2) influenciar as políticas de um governo por intimidação, ou coerção; ou 3) afetar a conduta de um governo por meio da destruição em massa, assassinato, ou sequestro. Ou seja, a seção não estabelece um novo crime, mas expande “os poderes governamentais para investigar terrorismo”, sendo que muitos deles também se tornaram aplicáveis para casos de terrorismo doméstico.
O estabelecimento do Patriot Act tornou a vigilância mais invasiva e descomplicada. Ficou mais fácil solicitar a quebra do sigilo de dados – antes era necessário apresentar uma motivação. Gravações podem ser feitas em qualquer telefone, ou computador, que o “alvo” utilizar – antes era necessária uma ordem judicial para cada aparelho. Toda informação pessoal privada, como registros escolares e de retiradas de livros de uma biblioteca podem ser colhidos sem que o investigado saiba. E se, por exemplo, a bibliotecária informar o investigado sobre a coleta de seus dados pessoas, pode ser presa. Desde maio deste ano, a quebra de sigilo se expandiu ainda mais: o Senado passou a permitir que o histórico de pesquisa na Internet também seja espionado.
Além disso, o Patriot Act tornou outras medidas mais extremas. A seção 806 fez com que o confisco de ativos financeiros possa ser efetuado mesmo que o investigado ainda não tenha ido a julgamento. Ou seja, rotular um grupo, ou pessoas, como terroristas implica um enquadramento legal muito mais rigoroso, que permite uma investigação mais permissiva.

Ataque contra os inimigos

E por que perseguir os antifas?
Membros do movimento tiveram papel importante na resposta aos grupos nazistas, de extrema direita, supremacistas brancos que promoveram um encontro em Charlotesville, em agosto de 2017. Depois dos embates entre esses grupos e de manifestantes contrários, Trump condenou os dois lados. Para relembrar o caso, um dos lados promovia o racismo e o antissemitismo, além de defender a permanência de uma estátua do general confederado Robert E. Lee, um símbolo escravagista. O outro condenava o racismo e o fascismo e sofreu a perda de uma ativista atropelada por um membro do primeiro grupo.
Trump agora persegue somente um dos lados, o segundo. Assim como outros muitos movimentos, entre eles o Black Lives Matter, este lado vem-se manifestando nas ruas das principais cidades americanas contra a violência policial, responsável pelo brutal assassinato de George Floyd em Minneapolis. O presidente tem defendido a repressão violenta aos protestos. Faltam somente cinco meses para as eleições presidenciais. Com um opositor como Joe Biden, que tem larga maioria entre os eleitores negros, essa se mostra uma tática arriscada.
A própria criminalização dos antifas é controversa também em outro sentido. Eles estão longe de constituir um grupo tradicional, com lideranças e táticas definidas: é um movimento global. É uma posição política e também um termo utilizado como uma expressão por aqueles que se mostram contrários a grupos de extrema direita e a supremacistas brancos. Se, de um lado, há um grupo antifascista que combate tais ideias; o outro lado é, portanto, fascista. Ao dizer que os antifascistas são terroristas, Trump tenta retirar a legitimidade não apenas do movimento, mas da própria alcunha. E, seguindo essa lógica, os que combatem os antifa – base de apoio do trumpismo – estariam, estes sim, do lado da lei. Como o movimento é internacional, pode vir a ser inserido em listas de grupos estrangeiros ligados a terrorismo do Departamento de Estado. Nessa hipótese, por exemplo, todos aqueles que colocaram em seu perfil no Facebook as bandeirinhas preta e vermelha podem ser considerados terroristas. Ou, no mínimo, podem vir a ser acusados de fazer apologia a um grupo terrorista.
Se a ideia fosse realmente evitar novos ataques terroristas, a lógica seria investir na criminalização de grupos de extrema direita, que vêm crescendo dentro e fora dos EUA. Segundo o Center for Strategic & International Studies, o número de ataques de grupos do gênero quadruplicou em 2016 e 2017, tanto no país como na Europa. Os últimos atentados terroristas praticados no território americano envolveram indivíduos que defendiam ideias essencialmente racistas, antissemitas e/ou islamofóbicas. Nos últimos anos, houve três atentados a templos religiosos: a sinagoga de Pittsburgh, na Pensilvânia, e a de Pomway, na Califórnia, (2018 e 2019), além da mesquita de Escondido, na Califórnia (2019). Os outros ataques recentes foram o atropelamento da ativista antirracista em Charlotesville, na Virgínia, (2017), e o fuzilamento de hispânicos em um supermercado Walmart em El Paso, no Texas (2019).

Dois pesos e duas medidas

A tática é, portanto, usar “double standards” no tratamento de cada lado. Enquanto os que provocam vandalismo são estigmatizados, os grupos que defendem o racismo e até o desrespeito a práticas legais no país, como o aborto, são deixados em paz. Diversos grupos antiaborto, por exemplo, já promoveram uma série de ataques contra clínicas e médicos, especialmente na década de 1980 e, mais recentemente, em 2015 e 2016. Eles não somente não sofrem escrutínio da atual administração, como são premiados. Esforços têm sido empreendidos pelo atual governo para dificultar o planejamento familiar e a prática do aborto legal. O grupo católico Obria, que defende “métodos naturais para a contracepção”, recebeu um fundo de US$ 5 milhões do governo federal.
O aborto é garantido desde a decisão do processo Roe versus Wade, em 1973. Atento a isso, Trump indicou dois juízes para a Suprema Corte que são conhecidos por serem contrários ao direito de escolha. Sabe-se que, quando houver uma maioria conservadora na corte, grupos antiaborto voltarão a questionar sua prática legal na Justiça. A preocupação de Trump é, portanto, utilizar os meios disponíveis para atacar os opositores e agradar a seus apoiadores.
A primeira emenda da Constituição confere a liberdade de expressão a todos, incluindo nazistas, racistas, xenófobos, grupos que disseminam o ódio em geral. Os antifas também têm o mesmo direito de se expressarem livremente e de se manifestarem, ao mesmo tempo em que podem ser enquadrados em leis comuns no caso de praticarem vandalismo e outros crimes previstos em lei. Portanto, parece que a intenção é tirar o foco da necessária discussão em torno da permanente desigualdade racial e do racismo estrutural da sociedade americana para incriminar a reação dos manifestantes que desafiam a base de apoio de Trump.
Os antifas podem estar sendo transformados em um novo bode expiatório, apesar de representarem os mesmos ideais que teriam levado os americanos a lutarem e morrerem na Segunda Guerra Mundial: a luta contra o nazismo e o fascismo.
Isabelle C. Somma de Castro é bolsista Fapesp de pós-doutorado no Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais (Nupri-USP). Faz parte do Grupo de Pesquisa Tríplice Fronteira e Relações Internacionais (GTF/Unila) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). Foi Visiting Scholar 2018-2019 no Arnold A. Saltzman Institute of War and Peace Studies, Universidade de Columbia, com bolsa Fapesp.

Começa a discussão sobre o pacto nacional pós-aberração Bolsonaro, por Luis Nassif



Para ser eficaz, o pacto não pode abrir espaço para espertezas. A bandeira anti-Bolsonaro está se tornando um poderoso aglutinador de reações. Mas, assim como o pacto que garantiu Itamar Franco, após o impeachment de Fernando Collor, não pode abrir espaço para manobras oportunistas.
Jornal GGN:
Vamos por partes.
O ponto de partida é aceitar que o destino de Jair Bolsonaro já está traçado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ontem circulou a informação de que o Ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, visitou o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes em sua casa, em São Paulo.
Não foi pressioná-lo. Pelo contrário, tentava colocar panos quentes nas crises provocadas pelo presidente da República Jair Bolsonaro. Foi uma conversa amena, mas que não demoveu Moraes de seu propósito de levar até o fim o inquérito das fake news – que atinge o coração do bolsonarismo.
O Supremo já firmou convicção de que Bolsonaro é incorrigível e, cada vez mais, uma ameaça à saúde, economia e à paz interna. É o ponto mais próximo que o país jamais esteve de se tornar refém de milícias armadas.
De seu lado, o decano Celso de Mello não autorizou o recolhimento do celular de Bolsonaaro, por não reconhecer a legitimidade da solicitação por um partido político. Mas reiterou que, caso venha a requer e Bolsonaro se recusar a entregar, incorrerá no crime de quebra de decoro.
O dia terminou com Bolsonaro comparecendo à posse de Alexandre Moraes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em uma prova clara de temor, depois dos ataques desferidos por ele e pelo Gabinete do Ódio contra o Ministro. Maomé acabou indo à montanha, como ocorre em países democráticos.
A série de abusos de Bolsonaro está acelerando seu desgaste e enfraquecendo seus seguidores. O Procurador Geral da República, Augusto Aras, depois de uma defesa da intervenção militar – em caso de invasão das atribuições de um Poder por outro -, foi obrigado a voltar atrás, em nota oficial, rejeitando qualquer possibilidade de considerar as Forças Armadass como poder moderador.
Ainda não há um prazo claro de fim desses inquéritos, mas tanto Moraes, com as fake news, quanto Mello, com as denúncias de Sérgio Moro, estão trabalhando em ritmo acelerado, conscientes dos impactos da demora na radicalização das milícias bolsonarianas.
Até agora, o mercado tem traçado cenários enganosos sobre a economia com Bolsonaro.
O primeiro é reagir com otimismo a qualquer sinal de pacificação entre os poderes, sem se dar conta de que
  • Não há a menor possibilidade de solução com Bolsonaro;
  • A saída de Bolsonaro são cartas marcadas.
Quando cair a ficha, o mercado passará a tratar a cassação de Bolsonaro como desfecho de um movimento altista.
A prova maior é o fato da maior fuga de capitais do momento se dar no Brasil, em função da total perda de credibilidade do governo Bolsonaro emenfrentatr a crise de saúde e a econômica.
Esse engano decorre da segunda ilusão,  a de que há qualquer chance de retomada do crescimento com Bolsonaro e Paulo Guedes. Ontem, três meses após a eclosão da pandemia, Guedes jogou a toalha que, sem o Tesouro participando do risco de crédito, os bancos não emprestariam para pequenas e micro empresas. Milhares de empresas e empregos destruídos por um erro óbvio. Mesmo depois dessa constatação, deu-se o prazo de um mês para resolver o pepino.
O fim do governo Bolsonaro será acelerado pelo efeito-demonstração do caso George Floyd, o homem negro morto pela polícia. Há uma revolta generalizada em vários países, não apenas contra o massacre dos negros, mas contra toda uma política excludente, de ódio e anticientífica que se esgotou, conduzida por presidentes sem a menor capacidade de comandar, apontar rumos ou, ao menos, mostrar solidariedade com as vítimas.
O coronavirus acelerou a volta do pêndulo global para a busca da solidariedade, do entendimento e da racionalidade. É esse movimento que trouxe de volta as propostas de pacto nacional;. E, aí, se chega em um ponto relevante, que abordei ontem por aqui.
Para ser eficaz, o pacto não pode abrir espaço para espertezas. A bandeira anti-Bolsonaro está se tornando um poderoso aglutinador de reações. Mas, assim como o pacto que garantiu Itamar Franco, após o impeachment de Fernando Collor, não pode abrir espaço para manobras oportunistas.
A transição será bem-sucedida se for uma pausa para o segundo tempo do jogo, a volta das diretas. Rodrigo Maia tem todas as condições de ser o Itamar Franco da transição, desde que respeite alguns compromissos básicos:
  1. Compromisso com eleições diretas, após o mandato tampão.
  2. Discussão de um plano de salvação nacional com todas as forças democráticas, discutindo com racionalidade as reformas necessárias, interrompendo o desmonte selvagem das redes de proteção social..
3, Superação da ortodoxia econômica cega da Lei do Teto, e discussão aprofundada com economistas que defendem a emissão de moeda como saída para o financiamento da reconstrução nacional.
Se mostrar isenção e a mesma competência que demonstrou nos últimos meses, poderá entrar para a história. E até ser um candidato de consenso para as próximas eleições.

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