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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Militarização das escolas é implantação do terraplanismo da educação, por Dora Incontri



  A educação tem sofrido ataques, desmontes, distorções desde a pré-escola até o ensino universitário, incluindo a pesquisa de ponta, em que já tínhamos atingido alguma excelência. Tudo para destruir o pensamento crítico e sedimentar o pensamento único bolsonarista-militarista-conformista...




Militarização das escolas é terraplanismo da educação, por Dora Incontri

Estava resistente à necessidade de escrever sobre educação nessa coluna, embora seja minha área de atuação militante há mais de 30 anos. Simplesmente porque o que estamos vivendo nesse momento no Brasil no campo da educação, assim como em todos os outros setores, é um verdadeiro pesadelo. Deprime só de tocar no assunto.

A educação tem sofrido ataques, desmontes, distorções desde a pré-escola até o ensino universitário, incluindo a pesquisa de ponta, em que já tínhamos atingido alguma excelência. Não é preciso mostrar o que vem sendo feito de maléfico para exterminar com a liberdade de ensino, acabar com a educação pública e direcionar ideologicamente (em nome de impedir uma suposta doutrinação de esquerda) o que sobrar das instituições de ensino fundamental, médio e superior.

De dedodurismo contra professores a censura de livros – tudo vale nessa guerra contra a liberdade de aprender, de ensinar e de ser.

Estou inserida numa tradição de educadores que trabalharam para mudar a educação tradicional – que nunca chegou a ser efetivamente transformada em profundidade, salvo em algumas ilhas de experimentação alternativa, no Brasil e no mundo – para uma educação de verdadeira autonomia do educando. Desde Comenius – tão pouco conhecido no Brasil, um dos clássicos que tenho pesquisado e divulgado – passando por Rousseau, Pestalozzi, Maria Montessori, Janusz Korczak, Alexander Neill, Paulo Freire… – a militância de todos esses educadores teve elementos de valorização da infância e sua criatividade, de pensamento crítico e livre, de afeto entre educador e educando…


Resgatei também os educadores espíritas que trabalharam nessa mesma linha, começando pelo próprio Kardec, que foi discípulo de Pestalozzi e educador na França por mais de 30 anos. No Brasil, tivemos um Eurípedes Barsanulfo e uma Anália Franco, que em pleno início do século XX, em que ainda se usava a palmatória, faziam uma educação amorosa, acolhedora, de diálogo e inclusão.

A militância que vinha fazendo por 30 anos, muitas vezes foi em nome de uma Pedagogia Espírita ou pelo menos de uma educação livre e humanista. A Pedagogia Espírita nunca se pretendeu confessional, mas ao invés inter-religiosa e inspirada por esses educadores, espíritas ou não, que tiveram em comum essa quebra de paradigma do ensino passivo, disciplinador, opressor da consciência crítica, formatado autoritariamente. No meio da luta por mudar a educação, achava que ainda estávamos muito longe da escola ser um lugar alegre, agradável, livre, criativo, acolhedor das diferenças e estimulador da aquisição interdisciplinar de um conhecimento construído na interação, na pesquisa, no debate…
E agora o que vejo se formar no horizonte desse século XXI? Um retrocesso sem limites. Abro hoje as notícias e leio estarrecida a proposta do (des)governo de militarização das escolas. O que precisaríamos fazer é bem o contrário: levar educação para os quartéis e para a polícia: uma educação que os despertasse para uma masculinidade não-violenta, não opressora, não patriarcal, não homofóbica. Uma educação que os levasse a lidar com a disciplina restaurativa e não com a disciplina hierarquizada, opressora, castradora…

 O manual das escolas militarizadas indica que os militares – que vão receber salários que poderiam ao invés ser passados para os professores, tão explorados há tantos anos – serão responsáveis pela gestão, pela disciplina, pela transmissão de valores cívicos. E se não houver militares disponíveis, serão policiais e bombeiros.Ou seja, bem essas pessoas que nada entendem de psicologia, de pedagogia, de direitos humanos, e que foram doutrinadas a obedecer e se submeter e resolver o que deve ser resolvido na bala e no cassetete, essas pessoas serão responsáveis pela direção das escolas. Ou seja, teremos os especialistas em educação submetidos aos especialistas em disciplina de caserna, que em todos os tempos sempre foi autoritária, opressora e muitas vezes sádica. Há pérolas como o controle do corte de cabelo e penteados, para meninos e meninas, a vigilância das postagens na internet… Não há outro nome para isso a não ser fascismo. É a mesma coisa que dar a tarefa de colocar satélites em órbita para um terraplanista!

Mas vejam, Maria Montessori fugiu de Mussolini. Mussolini morreu, passou, mas ainda hoje há escolas montessorianas no mundo. Janusz Korczak, que fazia assembleias com as crianças, morreu com seus 200 alunos num campo de concentração nazista. Mas hoje, suas ideias (junto com as de Montessori) inspiram o reconhecimento de direitos internacionais da infância. Os nazistas passaram à história como assassinos sanguinários.

Então, sim, para uma educadora como eu, que já atuei com crianças e adolescentes, que atuo com formação de educadores, e sempre me pautei no afeto,  no diálogo, na liberdade e no despertar de consciências autônomas e críticas, de repente acordar num país, (des)governado por amigos de milicianos, que estão dando o tiro de misericórdia na educação brasileira, pode ser desanimador, desesperador mesmo. Mas toda essa gente passará. E nós continuaremos construindo e reconstruindo sempre que necessário e com maior profundidade e coerência, os caminhos do afeto, da paz, da liberdade e do progresso.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Na Goiás de Perillo e do PSDB, a Educação está sob Estado de Sítio... Por Guilherme Boulos



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O ovo da serpente está sendo chocado em Goiás, na forma de militarização do ensino. Gestão militar das escolas adestra os jovens de hoje para a gestão militar da sociedade
Por Guilherme Boulos - no Outras Palavras
Neste momento há 31 estudantes e professores presos em Goiás por protestarem pela educação pública. Dentre eles, 13 menores. Na última segunda-feira (15), a PM goiana entrou violentamente na Secretaria de Educação — que estava ocupada — e prendeu o grupo.
Antes disso, o governador Marconi Perillo (PSDB) já havia despejado os estudantes secundaristas de 28 escolas ocupadas em uma onda de protesto contra a privatização do ensino estadual.
Tudo começou com um decreto do governador no final do ano passado repassando 30% das escolas goianas para gestão das famigeradas Organizações Sociais (OS). A iniciativa prevê a terceirização de serviços escolares, a contratação privada (sem concurso) de até 70% dos professores e 100% dos funcionários, dentre outras medidas.
Trata-se evidentemente de uma privatização “branca” do ensino. O próprio Ministério Público do estado recomendou nesta semana o adiamento do edital das OS, por estar repleto de ilegalidades, incluindo o repasse de recursos do Fundeb para a iniciativa privada. Nas palavras do promotor Fernando Krebs: “Chegamos à conclusão que o projeto referencial é inconstitucional. Vai piorar a qualidade da educação. Vai promover a terceirização, a privatização às avessas da escola pública”.
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Foi este despautério que motivou a mobilização de estudantes e professores, reprimidos com violência e prisões pela PM.
Mas não é de hoje a paixão do governador Marconi Perillo por tratar a educação como caso de polícia. Desde 2014, seu governo tem implementado um inacreditável processo de militarização das escolas, que também foi alvo das manifestações.
A polícia militar já havia assumido até o ano passado a gestão de 26 escolas, tornando Goiás o estado com o maior número de colégios militares no país. Sob os princípios da “hierarquia e da disciplina”, oficiais da PM estabelecem a regra do medo, mandam e desmandam no ambiente escolar.
Nas escolas militarizadas passou a ser exigido o uso de farda militar por todos os alunos. Os meninos precisam ter cabelo curto e as meninas são obrigadas e prenderem os seus. As gírias foram proibidas, assim como o esmalte de unha, o beijo e os óculos com armação “chamativa”. A continência tornou-se obrigatória na entrada, para os professores e também entre os alunos.
Para completar foram inseridas novas disciplinas no currículo, como a “Ordem unida” – sabe-se lá o que seja isso, coisa boa não é. Assim como a “sugestão” de uma taxa de matrícula de R$100 e de mensalidade de R$50, em valores de 2014, possivelmente já reajustados nos dias de hoje. O governo pretende militarizar mais 24 escolas neste ano.
O capitão Francisco dos Santos, diretor da escola Fernando Pessoa, exalta numa matéria da BBC o fim da violência no colégio. Também pudera. Impondo estado de sítio e intimidação permanente o resultado seria esse. O preço é rifar o futuro, jogando o pensamento crítico e a democracia na lata do lixo. A gestão militar da escola adestra os jovens de hoje para a gestão militar da sociedade.
A repressão ao movimento dos estudantes secundaristas por essa mesma polícia é expressão cabal disso.
Perillo seguiu o exemplo de seu colega de partido Geraldo Alckmin ao tentar remodelar o ensino à força, sem qualquer debate com a sociedade. Que, enquanto é tempo, siga novamente Alckmin, desta vez para recuar das medidas perante o rechaço da comunidade escolar. É preciso libertar imediatamente os 31 presos e recuar do projeto de privatização e militarização das escolas.
Caso contrário, Goiás será lembrado como o laboratório da barbárie na educação brasileira.