quarta-feira, 22 de maio de 2019

Do El País: A Marcha da Loucura fascista, por Juan Arias



A manifestação pró Bolsonaro prevista para domingo 26 não será mais uma. Deixará marcas profundas, triunfando ou fracassando. O Brasil ficará perigosamente dividido



Bolsonaro durante sua campanha eleitoral, em 7 de outubro de 2018, no Rio de Janeiro MAURO PIMENTELAFP

do El Pais

A marcha da loucura

por Juan Arias

A anunciada manifestação para o domingo 26 dos seguidores do presidente Jair Bolsonaro contra os que teriam transformado esse país em “ingovernável” poderá ter consequências difíceis de se calcular.
Cresce o medo sobre os resultados dessa marcha sobre Brasília para defender o “mito” que se sente encurralado pelos que pretendem impedi-lo de realizar a missão que Deus lhe encomendou de devolver ao país corrompido sua pureza perdida. Medo que começou a preocupar até políticos de seu partido e muitos que votaram nele e hoje se sentem assustados e tentam dissuadi-lo dessa manifestação chamada de “marcha da loucura”.
E eu acredito que não existem precedentes na história das democracias mundiais de um Governo que cinco meses após sua eleição e que deveria viver sua lua de mel decide mobilizar o país em sua defesa ao se sentir sitiado pelos que, segundo ele, tentam impedi-lo de governar.
As manifestações, normalmente, são organizadas pelas oposições para exigir que as promessas de suas campanhas eleitorais sejam cumpridas. Curiosamente, no Brasil, até agora, a oposição parece na verdade muda e desunida contra um Governo que se apresenta incapaz de entender o que a sociedade pede dele.
Não é de se estranhar que a manifestação que está sendo organizada nas redes sociais pelas hostes mais aguerridas e violentas de Bolsonaro seja batizada também como “a marcha do medo”. Parece que de repente os demônios foram liberados e se fala sem pudor de “incendiar Brasília”, de “fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal”, que seriam a grande meretriz da política. Há até um general da reserva, Luiz Eduardo Rocha Paiva, que acha natural que se não deixarem Bolsonaro governar “estaríamos dispostos a pegar em armas para defender a liberdade e a justiça”, incitando a uma guerra civil. Curiosamente o general destoa da atitude de moderação que até agora demonstrou o restante de seus colegas militares.
Essa ideia de incendiar os outros poderes que dividem com o presidente a liderança e governabilidade do país nos faz lembrar como, já entre os romanos, imperadores como Nero usaram da artimanha de provocar incêndios de verdade, como o que destruiu meia Roma, para jogar sua responsabilidade sobre seus supostos inimigos.
No caso de Nero, o imperador aproveitou o incêndio de Roma para acusar os cristãos de sua autoria, considerados como inimigos do Império. Conhecemos os resultados: aqueles cristãos, dentre os quais estavam os apóstolos, Pedro e Paulo, foram martirizados, queimados na fogueira, crucificados e jogados aos cachorros para que fossem devorados vivos.
É difícil encontrar no Brasil precedentes de uma alucinação semelhante à que esse Governo vive, que vê por todos os lados inimigos e intrigas para derrubá-lo antes ainda de ter iniciado seu caminho. É difícil encontrar no passado um clima de política baseado na negatividade, na raiva e no ódio, como se de repente o Brasil e os brasileiros tivessem se transformado em monstros irreconhecíveis e inimigos de seu próprio país.
É difícil encontrar um grupo político tão apaixonado pela força das armas em guerra contra inimigos imaginários. Sua bandeira é a da desconfiança e da caça aos que não se ajoelharem diante de seus novos preceitos mortificadores de liberdades, que pretendem calar os que tentam ver o mundo e a vida com olhos que não sejam os seus.
A manifestação prevista para domingo não será mais uma. Deixará marcas profundas, triunfando ou fracassando. O Brasil ficará perigosamente dividido. No caso de o Governo conseguir encher as ruas do país gritando contra os pilares que hoje sustentam a democracia, não é difícil prever que os conflitos se agravarão. Seria um passaporte para que um Governo autoritário imponha suas leis com mão de ferro.
E se fracassar? Se não forem capazes de mobilizar mais gente do que o fizeram os jovens estudantes, e se não conseguir ser pacífica? Nesse caso, o mito Bolsonaro deveria ter a grandeza de admitir seu fracasso, de renunciar e passar o comando a alguém que seja capaz de reunificar um país cada dia mais perigosamente cético da política e da democracia.
Existe o perigo real de que essa guerra ideológica e essa desconfiança nas regras democráticas também acabem arrastando o país a uma crise econômica que quebraria a já martirizada caravana de milhões de pobres e desempregados que acabam sendo sempre o alvo das loucuras dos que deveriam protegê-los.

Raio X do comércio com a China e a diplomacia fundamentalista bolsonariana, por Luis Nassif




GGN. - A desmoralização internacional do país, pelo governo Bolsonaro, não tem implicações apenas morais. A respeitabilidade centenária do Itamarati está sendo corroída por um Ministro aloprado. Há uma reorganização internacional da economia, mudanças radicais no modelo de industrialização, o embate feroz entre dois gigantes – Estados Unidos e China =, políticas protecionistas sendo implementadas pelas maiores economias, e a única estratégia brasileira é um acordo com Israel que unifique as religiões cristãs permitindo a volta do Salvador.
As definições de política comercial de um país começam pela análise dos indicadores de comércio para, a partir deles, montar as estratégias comerciais, que vão desde acordos bilaterais até a promoções comerciais. É uma política que exige pleno conhecimento dos interesses nacionais e dos interesses dos parceiros, para se obter os melhores acordos.
Quando se compara a complexidade das políticas comerciais com as conversas de Jair Bolsonaro com Donald Trump ou com os arrufos fundamentalistas do chanceler Ernesto Araújo, percebe-se que o país está totalmente fora do jogo.
De qualquer modo, uma análise da balança comercial permite identificar estratégias óbvias, que serão retomadas assim que os fanáticos se apearem do poder.

O fator China

A China é um parceiro comercial importante, país com quem o Brasil ostenta o maior saldo comercial, de US$ 30 bilhões no acumulado de 12 meses até abril de 2019, e com crescimento consistente desde outubro de 2015.
É de longe o maior saldo comercial e o maior destino das exportações brasileiras. Confira o acumulado de 12 meses até abril.
Mesmo assim, a pauta de exportações brasileiras para lá é extremamente pobre, sendo basicamente de produtos primários. Enquanto as importações brasileiras da China são de produtos de alto valor agregado.
Comparativamente, a pauta de exportações brasileiras para os Estados Unidos é muito mais diversificada, com preponderância de produtos semimanufaturados de ferro, manufaturados, máquinas e aparelhos de terraplanagem. Enquanto as importações brasileiras são de produtos de baixo valor agregado além de uma gama relevante na categoria de “demais produtos”.
Aliás, quando se analisa a pauta de exportações de manufaturas brasileiras (os produtos de maior valor agregado) percebe-se a relevância dos mercados vizinhos da América do Sul.
É só conferir a pauta de exportações para a Argentina.

As estratégias

A partir daí, governos inteligentes teriam um corredor pela frente para definir as estratégias de políticas comerciais.
Com os Estados Unidos, por exemplo, haveria a necessidade de acordos que blindassem os produtos brasileiros da alta de tarifas de importação anunciadas pelo governo Trump. Em vez disso, Bolsonaro se contentou com a promessa vaga, talvez, quem sabe, de apoio de Trump ao ingresso do Brasil na OCDE. Qual o ganho que o país teria com esse ingresso? Nenhum.
Em relação à China, há um interesse estratégico pelas matérias primas brasileiras. Mas que isso, pela exploração dos mercados de energia, de alimentos e minerais. Em outros tempos, governos mais inteligentes se valeram da disputa de hegemonia entre nações para conseguirem grandes saltos no desenvolvimento brasileiro. Vargas conseguiu a Companhia Siderúrgica Nacional e os planos da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos.
Em um momento de profundas transformações tecnológicas, com os gigantes chineses de tecnologia buscando alianças no Ocidente, uma estratégia inteligente poderia arrancar concessões relevantes, ou da China ou dos EUA. Em um mundo em que os maiores países, como Estados Unidos, China e Alemanha, montam políticas industriais visando fortalecer a produção interna, a burrice diplomática só tem olhos para o acordo final com Israel, que abriria espaço para o fim do mundo e a salvação das almas.
Não se trata apenas de excentricidades de circo. Mas de um atraso que vai se consolidando, enquanto se tolera a manutenção do imbecil coletivo no governo.

A PF e a Mula Sem partido. Na Lua Cheia tsunami, na Minguante… por Armando Coelho Neto



PF não é filiada a um partido, mas nela predomina um ideário partidário. Majoritariamente seus servidores pensam estar ou querem ser parte do 1%.


A PF e a Mula Sem partido. Na Lua Cheia tsunami, na Minguante…

por Armando Rodrigues Coelho Neto, no GGN

Em 2017, 82% da riqueza mundial ficaram nas mãos do 1% mais rico. São indicadores que deixavam sem nada 3.7 bilhões de pessoas. No mesmo período, o número de bilionários do Brasil passou de 31 para 43. O patrimônio dos ricos cresceu 13% em relação a 2016, enquanto para os mais pobres, uma queda de 2,7% para 2%. Os dados são da Oxfam, uma ONG britânica, divulgados pelo jornal Valor, em janeiro de 2018.
Ter noção daquele 1% é meu referencial de pensar e me dispensa de assistir os vídeos idiotas que servidores da PF me mandam, do mesmo modo que me isenta de ler textos apócrifos e mal escritos. Se eles desconhecem aquele 1%, deveriam procurar saber. Se sabem e ignoram, por mais colegas são uns… Ressalvadas as exceções, a PF está infestada de Macabéas, Moscas Azuis. Em momento oportuno detalho o uso dessas expressões.
Além daquelas espécies, a instituição está repleta de Mulas Sem Partido, ainda que o mesmo ocorra noutras instituições, onde predominam bons salários. Justiça e Ministério Público Federal estão no pacote e, como regra, nelas vige certo voyeurismo em relação ao tal 1%. Integram a classe média que quer, a qualquer preço, fazer parte ou viver de forma parecida com o bendito 1%. Cultuam os valores do 1% no melhor estilo Cazuza – a burguesia fede e quer ficar rica. Consciência social zero, quem pensa diferente disso é petista, comunista. Não em sentido real, mas com o sentido que a burrice permite.
Servidores da PF mais atentos sempre souberam que os Estados Unidos ensaiavam repor as patas sobre o Brasil. Alheios às consequências, com solene toque de ingratidão, comemoraram a perspectiva de que a “era Lulista estaria no fim”. Como a PF tinha e tem lado (igual à escola sem partido), cedo passei a tratar a Farsa Jato como o que efetivamente ela é: FARSA. Como usina do golpe de 2016 e da farsa eleitoral de 2018, ideia reforçada pelo Pato Marreco – hoje aliado explícito da Mula Sem Partido, com promessa de novas recompensas.
Ter partido pode ser apenas tomar partido. Pode também ter sentido de filiação à sigla partidária. A PF não é filiada a um partido, mas nela predomina um ideário partidário. Majoritariamente seus servidores pensam estar ou querem ser parte do 1%. Votaram em candidatos apoiados pelo 1% como Collor, FHC, Aécio, foi capitã do mato do golpe de 2016 e cúmplice da farsa eleitoral de 2018. Sem explicação, guarda a sete chaves o segredo da farsa sobre a “facada no Bozo”, como não guardou o segredo de uma conversa de uma Chefe de Estado.
O alinhamento a tal faixa 1% é tão intenso, que inclui até servidores presos, processados, demitidos ou que sofreram arranhões morais. Recentemente, dois delegados da PF foram notícia. “PF: Delegado que indiciou testemunha do Caso Marielle quis achacar vereador”, diz uma chamada do site UOL do dia 19/05. Pergunte em quem ele votou. “Moro demite delegado da PF”, diz outra chamada no O Estadão. Em quem votou?
“Nós que fomos às ruas pedimos o impeachment da chapa Dilmanta/Temer”… Estava escrito no Facebook (página) do delegado demitido. Abaixo, uma série de apoio de colegas. A mesma rede social já exibiu fotos de outros delegados da PF demitido trajando a clássica camisa do golpe. Camisas, aliás, que hoje vestem mendigos nas ruas do país, enquanto as bandeiras do Brasil – com o perdão do poeta Castro Alves, servem de cobertor para uns ou de mortalhas para outros indigentes.
É possível que hoje nossas Macabéas estejam um tanto envergonhadas. Qualquer enquete na instituição sagraria vencedor o Cabo Daciolo ou Amoedo, já que os eleitores da Mula Sem Partido sumiram.
Não sei o que nos espera, nem qual o papel que da Polícia Federal nos dias sombrios que se avizinham. Seus servidores correm atrás de emendas para suas peles no desmonte da Previdência. Reajustes e salários ameaçados, assistem suas justas prerrogativas de funções policiais sendo tratadas maldosamente como privilégios. Quando a Mula Sem Partido e a Farsa Jato negavam as instituições eles aplaudiram, esquecendo que a PF é também uma instituição. Aplaudiram a demonização e negação da política e hoje precisam de políticos.
Às vésperas da Lua Cheia, no dia 18 último, Bozo (a Mula Sem Partido) teve a visão de um tsunami e fugiu para se homiziar na casa de seu patrão nos EUA. Passada a Lua Cheia, a lua de hoje está 91.71% visível, mas está decrescendo, faltando apenas 5 dias para a fase Lua Minguante. Sabe Deus o que acontece até lá! Talvez seja a hora dos federais seguirem o astrólogo da Mula, batendo retirada. Mais que isso, se enxergarem como cidadãos e terem um olhar mais generoso sobre os 99%.
Armando Rodrigues Coelho Neto – advogado e jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

Cristianismo bolsonarista? Não, não dá! Não pode haver maior contradição! Por Paulo Ghiraldelli



Do Canal do filósofo e educador Paulo Ghiraldelli sobre o surrealismo dos que se dizem e se intitulam cristãos e apoiam o fascismo, a demagogia e a violência bolsonarista:


terça-feira, 21 de maio de 2019

Bob Fernandes: os frutos da midiotia, desigualdade em alta e Bolsonaro, ameaçado, ameaça...




Do Canal do analista político Bob Fernandes:



CRÉDITOS Direção Geral: Bob Fernandes Direção Executiva: Antonio Prada Supervisão Criativa: Pio Figueiroa Produção: Pletora Edição e Sonoplastia: Gabriel Edé Câmera e Som: Miguel Breyton Arte e Vinhetas: Lorota Música de abertura e encerramento: Gabriel Edé FOTOS Dallagnol e Moro (Foto: Pedro de Oliveira/ALEP) VÍDEOS Entrevista Bolsonaro (Câmera Aberta/TV Bandeirantes) Paulo Guedes em Dallas (TV Brasil)

Sob o império do grosseiro e do obsceno, por Leonardo Boff


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Se há algo a lamentar profundamente hoje em dia nas redes sociais de nosso país é o império da grosseria e da obscenidade.
Essa metáfora já foi usada por outros: parece que as portas e as janelas do inferno se abriram de par em par. Daí saíram os demônios das ofensas pessoais, das injúrias, dos fake news, das mentiras, das calúnias e de toda sorte de palavras de baixíssimo calão. Nem precisaria Freud ter chamado a atenção ao fato de que há pessoas com fixação anal, usando palavras escatológicas e metáforas ligadas a perversões sexuais, pois as encontramos frequentemente nos twitters, nos facebooks, nos youtubes e em outros canais.
A grosseria demonstra a falta de educação, de civilidade, de cortesia e de polidez no trato para com as pessoas. A grosseria transforma a pessoa em vulgar. O linguajar vulgar usa expressões que ferem a sensibilidade dos outros ao seu redor. A vulgaridade contumaz deixa as pessoas inseguras, pois, nunca sabem quais gestos, palavrões ou metáforas de mau gosto podem sair de gente grosseira. O grosseiro casa o mau gosto com o desrespeito.
Especialmente, embora não exclusivamente, é o homem mais vulgar em sua linguagem. A mulher, não exclusivamente, pode ser vulgar no modo de se expor. Não se trata apenas no modo de se vestir, tornando-a explicitamente sensual e sedutora, mas no comportamento inadequado de se portar. Se a isso ainda se somam palavras obscenas e grosseiras faz-se mais vulgar e grotesca.
Especialmente grave é quando os portadores de poder como um presidente, um juiz da corte suprema, um ministro de Estado ou senador entre outros, esquecem o caráter simbólico de seu cargo e usam expressões vulgares e até obscenas. Espera-se que expressem privada e publicamente os valores que representam para todos. Quando falta esta coerência, a sociedade e os cidadãos se sentem traídos e até enganados. Aqueles que usam excessivamente expressões indignas de sua alta função são os menos indicadas para exercê-las.
Infelizmente é o que verificamos quase diariamente no linguajar daquele que ocupa o cargo mais alto da nação. Seu linguajar, não raro, é tosco, ofensivo, quando não escatológico e quase sempre burlesco.
Se é grave alguém ser grosseiro, mais grave ainda é o ser obsceno. Pois, este, o obsceno, rompe o limite natural daquilo que implica respeito e o sentido bom da vergonha. Já Aristóteles em sua Ética anotava que nos damos conta da falta de ética quando se perdeu o sentido da vergonha. Sem ela, tudo é possível, pois, não haverá nada que imponha algum limite. Até a Shoah, o extermínio em massa de judeus pelo nazismo, se tornou terrível realidade.
Nem tudo vale neste mundo. Houve Alguém que foi sentenciado à morte na cruz por testemunhar que nem tudo vale e que é digno entregar a própria vida por aquilo que deve ser incondicionalmente intocável e respeitável: a reverência ao Sagrado e a sacralidade do pobre e do que injustamente sofre.
Houve no Ocidente uma figura que se transformou em arquétipo da cortesia e da finura de espírito, daquilo que Pascal chamava de “esprit de finesse” contraposto ao “esprit de géométrie”; aquele, cheio de cuidado e de delicadeza e este outro, marcado pela frieza do cálculo e pela vontade de poder.
Um franciscano francês, Eloi Leclerc, sobrevivente do campo nazista de extermínio de Dachau e Birkenau, traduziu assim a cortesia de Francisco de Assis: “ter um coração leve” sem nenhum espírito de violência e de vingança, o reverso o de ter um coração pesado como o nosso, cheio de grosserias e de obscenidades. Aí ele faz o Poverello de Assis dizer:
“Ter um coração leve é escutar o pássaro cantando no jardim. Não o perturbes. Faze-te o mais silencioso possível. Escuta-o. Seu canto é o canto de seu Criador.”
“Rosas desabrocham no jardim. Deixa que possam florir. Não estendas a mão para colhê-las. Elas são o sorriso do Criador”.
“E se encontrares um miserável, alguém que está sofrendo desesperado, cala-te, escuta-o. Enche teus olhos com a presença dele, com a vida dele até que ele possa descobrir em teu olhar que tu és seu irmão. Então tu o fizeste existir.Tu foste Deus para teu irmão” (O Sol nasce em Assis, Vozes 2000 p.127).
Releva dizer: somos seres duplos, grosseiros e obscenos, mas também podemos e devemos ser gentis e corteses. Destes precisamos muitos, nos dias atuais, em nosso país. Para isso importa educar o coração (sim, dar valor à educação) para que seja leve e totalmente distante de toda a grosseria e de toda a obscenidade, tão vigentes entre nós.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo, ex-frade mas conservando o espírito franciscano de Assis.

DCM Café da Manhã: Bolsonaro é um Nero que quer incendiar o Brasil dia 26



DCM Café da Manhã: Bolsonaro quer incendiar o Brasil

 






VÍDEO – Auditora fiscal desmonta o discurso mentiroso de Paulo Guedes sobre rombo na Previdência



 

Maria Lúcia Fattorelli é auditora fiscal aposentada e dirigente do movimento Auditoria Cidadã da Dívida Pública.

TV GGN: Os Bolsonaros vão partir para o confronto dia 26... Eles querem fechar o congresso...



Manifestações do dia 26 visam mobilizar suas milícias para o embate definitivo com as instituições

Do GGN:






segunda-feira, 20 de maio de 2019

“Bolsonaro é um destruidor em série”, por Fernando Brito, do Brasil, e Alexandra Lucas Coelho, do Jornal Público de Portugal

A jornalista e premiada escritora Alexandra Lucas Coelho, no jornal Público, de Lisboa, publica intenso artigo sobre o que acontece e o que nos aguarda na educação, não só nos cortes, mas no rebrotar das manifestações da juventude que, daqui a três dias, se unificam num único protesto contra o massacre na educação. E como a rejeição a Bolsonaro atravessou oceanos e fronteiras, vai reunindo o que há de mais importante no mundo, exatamente o que não importa ao presidente brasileiro: o dos que pensam.



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Bolsonaro inimigo do Brasil, inimigo do mundo

1. O pior inimigo do Brasil está sentado no palácio em Brasília. É o próprio presidente eleito. Escrevo esta crónica em Salvador, entre vir de Brasília e partir para São Paulo. E em menos de uma semana os crimes são tantos que fica difícil actualizar. Estamos a um ritmo mais do que diário. Bolsonaro é um criminoso horário. A cada hora, é mais chocante para o Brasil, e para o mundo, que esta criatura tenha sido eleita. Foi cúmplice quem contemporizou na campanha, ou não quis ver nem ouvir, apesar de tudo o que estava na cara, e no ouvido. Mas, pior, é cúmplice quem, depois de quatro meses e nove dias de destruição, continua a teimar, ou acena com a legitimidade democrática. Parceiros no crime de um destruidor em massa, serial.
O presidente de Portugal, que tratou Bolsonaro como “irmão” na posse em Brasília, já se escapuliu entretanto de ser fotografado ao lado do infame Moro, na Faculdade de Direito de Lisboa, apesar de a sua presença ter sido anunciada. Imagino que hoje já não seria tão palmadinhas-nas-costas em Brasília. Ou em Lisboa. Mas já não se imagina Bolsonaro em Lisboa, não é? Ou alguém, fora eleitores dele, está tão equivocado que, sim, imagina?
Gostaria de ver, ler perguntas, notícias, sobre como os governantes portugueses estão a encarar isto. O ministro Augusto Santos Silva foi questionado sobre aparecer amenamente ao lado de Moro, como se nada fosse? Alguém perguntou a Marcelo porque afinal não compareceu no encontro onde esteve Moro? Coisas que, à distância, neste périplo, pelo Brasil, gostava de saber.
Chegamos a um ponto em que foi cruzada, sem retorno, uma linha da diplomacia. Para além dessa linha, a diplomacia normal, dos lugares comuns ditos em público, não se aplica, passa a ser cúmplice.
Alguns, cada vez mais, já perceberam isso. O mayor de Nova Iorque percebeu isso, e a sua clareza firme levou Bolsonaro a cancelar a visita. O mayor de Nova Iorque simplesmente declarou Bolsonaro persona non grata. É isso que o mundo tem de fazer. Porque o pior inimigo do Brasil, que está sentado no palácio presidencial, é inimigo do mundo.
2. E o mundo começou a fazer. Mais de onze mil intelectuais das mais reputadas universidades do planeta assinaram uma carta contra Bolsonaro. Concretamente contra o ataque inédito de Bolsonaro à educação, que na última semana se tornou guerra mesmo. Bolsonaro conseguiu, aliás, o prodígio de na mesma semana em que mais atacou a educação facilitar mais o uso de armas. Entre os assinantes do manifesto contra estão académicos de Harvard, Princeton, Yale, Oxford, Cambridge, Berkeley, além das grandes universidades brasileiras, como Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade de Brasília.
Pisei esta semana pela primeira vez a Universidade de Brasília, um campus incrível, verde, sem separação entre cidade e universidade, sem portão, sem muro, sem segurança. Sonho do antropólogo Darcy Ribeiro que — ao contrário do sonho principal de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, planeadores da cidade — está totalmente habitado. A Universidade de Brasília é sonho e é humana. É arquitectura e é gente. A cara de Paulo Freire, mestre de um sonho de educação a quem Bolsonaro também declarou guerra, recebeu-me num cartaz à entrada para o Instituto de Letras. Pelas paredes, cartazes em defesa das ciências humanas, devolvendo a “balbúrdia” a Bolsonaro. Porque uma das pérolas que veio deste governo brasileiro, durante a semana, foi a de que as universidades públicas são antros de balbúrdia, gente nua e marxismo cultural. Entre os cartazes e graffiti contra Bolsonaro, um cartaz com o título “A Queda do Céu”, livro já lendário do xamã ianomami Davi Kopenawa, cartazes em defesa dos povos indígenas, corredores e pátios fervilhando com muitos tons de pele: o Brasil.
Esta semana, o homem sentado no Planalto cortou um terço ou mais dos orçamentos das universidades públicas e institutos federais, estrangulando ou exterminando à partida ensino e pesquisa no Brasil. E, quando a luta de estudantes e professores, pais e mães já saía às ruas, foi anunciado o corte das bolsas de mestrado e doutoramento em todas as áreas, ciências humanas e exactas, da Capes, principal fonte de bolsas no Brasil.
3. Entretanto, todos os anteriores ministros do Ambiente ainda vivos se juntaram, em alarme e protesto, numa frente, para além das diferenças políticas e ideológicas. Acusaram Bolsonaro de pôr “em prática, em pouco mais de quatro meses, uma ‘política sistemática, constante e deliberada de desconstrução e destruição das políticas meio ambientais’ implementadas desde o início dos anos de 1990, além do desmantelamento institucional dos organismos de protecção e fiscalizadores, como o Ibama e o ICMbio”, resumiu o “El Pais Brasil”. Acusam Bolsonaro e o ministro Ricardo Salles de reverterem todos as conquistas das últimas décadas, que “não são de um governo ou de um partido, mas de todo o povo brasileiro”. Marina Silva usou a expressão “exterminador do futuro”.
4. Nessa altura, quarta-feira, já as ruas se tinham enchido, em defesa da educação, de Belo Horizonte a Salvador ao Rio de Janeiro. Secundaristas, muito jovens, defendendo os seus colégios públicos, como o histórico Pedro II, porque o corte não atinge só as universidades, mas sim todos os institutos federais. E universitários, e professores. Quero acreditar que estes quatro meses foram de choque e atordoamento, mas que as ruas que agora se enchem são o prenúncio de uma luta nova, de algo que recomeçou no Brasil. Em 2013, quando muitas lutas explodiram nas ruas, um Brasil ignorante, boçal, autoritário, nostálgico do esclavagismo e da ditadura, começou a capturar a energia do protesto e as redes sociais. Este ano de 2019 talvez seja o recomeço de 2013 no ponto em que 2013 se perdeu. Adolescentes erguendo livros contra gente armada.
5. Mas os próximos tempos serão duríssimos, mesmo que a luta cresça e cresça. Educação, ciência, cultura já perderam, vão perder mais. Neste périplo que estou a fazer pelo Brasil, entre universidades e livrarias, só estar com livros, com debate, com quem estuda, já parece subversivo. Então, mesmo por entre as peripécias da geringonça, gostaria de saber se o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, tem alguma ideia nova para apoiar tantos professores, estudantes, pesquisadores brasileiros, ameaçados de novos perigos. Ou a ministra da Cultura, Graça Fonseca, num momento em que os apoios à cultura no Brasil estão a paralisar, uns atrás de outros.
6. Lembram-se de quem, a propósito do Brasil, do impeachment de Dilma, insistiu que não era golpe? Escrevo esta crónica por entre as imagens do golpista Temer entregando-se à polícia.
Como o Fora Temer parece fazer parte de outra era. De perda de inocência em perda de inocência, ou inconsciência, estamos diante do horror. E os que são jovens agora, tão ou mais jovens que a jovem Greta Thunberg, como os secundaristas brasileiros que há anos já aprendem uma nova luta, cada vez mais sabem que não há outros, seremos nós a mudar isto, ou não haverá nós. Tal como não há planeta B.

A grande mentira da vitimização dos neofascistas. Por Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça


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A pequena república da Áustria está em polvorosa. Uma gravação de vídeo pôs a nu intenções rasteiras da cúpula do FPÖ – o Freiheitliche Partei Österreichs (trad. “Partido Liberal da Áustria”), que, apesar de carregar o adjetivo “liberal” no nome, não passa de um ninho de nazistas saudosistas – de vender ativos estratégicos da economia do país a oligarcas russos, em troca de apoio financeiro e eleitoral. A interceptação conspirativa teria se dado em julho de 2017, às vésperas das eleições federais austríacas, que levariam o FPÖ ao poder, como parceiro minoritário do governo de coalizão com o conservador ÖVP – Österreichische Volkspartei (trad. “Partido Popular Austríaco”).

Os protagonistas do animado convescote regado a muito álcool e clandestinamente interceptado – ocorrido numa vila de veraneio em Ibiza, alugada a quase mil euros por noite – são o presidente do partido (o estridente Heinz-Christian Strache, hoje vice-premiê na coligação de centro-direita que governa a Áustria), o atual líder da bancada do FPÖ no Conselho Nacional, o parlamento austríaco (o pau-para-toda-obra de Strache, Johann Gudenus, filho de um negador do holocausto condenado) e a suposta sobrinha de um oligarca russo de nacionalidade letã. A bilionária é apresentada a Strache por Gudenus, como quem tencionaria investir no mínimo meio bilhão de euros na economia da república alpina. Para tanto, propõe-se a ajudar o FPÖ em troca de facilidades em contratos públicos.

A conversa gira em torno da lavagem de ajuda financeira por meio de uma entidade de utilidade pública não vinculada ao partido, como forma de desviar das exigências legais de registro de doações partidárias no tribunal de contas e de limitação de doações estrangeiras. Afinal, lembra Gudenus a Strache, o dinheiro não seria de procedência “completamente regular”.

A investidora confidencia que estaria prestes a adquirir metade das cotas do principal periódico austríaco, a Kronen-Zeitung, com conversas já bem avançadas com os herdeiros do fundador do jornal. Sugere-se que a compra poderia acontecer antes das eleições para ajudar o FPÖ na campanha. Strache se entusiasma com a perspectiva de, segundo o próprio, poder fazer 34 porcento dos votos ao invés dos 27 porcento previstos, se contar com ajuda de um diário desse porte. Em compensação, a bilionária poderia dar como certo o controle sobre as concessões de autoestradas, hoje com a concessionária Strabag, controlada por um desafeto do chefe do FPÖ. Segundo Strache, se o FPÖ ganhasse com ajuda da russo-letã, “todos os contratos seriam seus”.

Strache adora se apresentar para o público como o único político limpo, diferente dos demais, um cumpridor das leis, que não se mistura com a lama da política dominante. E, na sua conversa indecente com a bilionária faz questão de dizer que “tudo tem que ser de acordo com a lei”, ainda que proponha negócios francamente escusos e fale em limpar a mídia de jornalistas que se oponham ao FPÖ, tratando a classe como a das “maiores prostitutas do planeta”. Elogia o premiê direitista húngaro, Victor Orbán, que, com apoio de um empresário endinheirado, conseguiu assumir todo controle sobre a imprensa de seu país.

A divulgação do vídeo pela bávara Süddeutsche Zeitung e pela revista alemã Der Spiegel desencadeou uma tormenta na política austríaca, já bastante abalada com a parceria entre conservadores e neonazistas que se intitulam de liberais. O jovem premiê Sebastian Kurz, do ÖVP, foi obrigado, diante da comoção pública, a por fim à coalizão e pedir ao Presidente Alexander van der Bellen a dissolução do parlamento e a convocação de novas eleições.

Strache, aos costumes, pediu desculpas a seu eleitorado pelo passo em falso, mas não mostrou propriamente arrependimento, preferindo atacar forças do establishment que não querem uma nova forma de se fazer política.

O discurso é sempre o mesmo entre direitistas que não se conformam com as regras da democracia verdadeiramente liberal-burguesa.

Chegam ao poder pelas regras dessa democracia, mas a tacham de “injusta” e “desleal” para com sua forma “diferente” de governar. Acusam a democracia e suas instituições de “sabotar” a direita no poder.

Strache não é diferente de Jair Bolsonaro, sempre à espreita de inimigos, ao invés de se colocar argumentativamente contra os que contestam, dentro do jogo democrático, suas ideias e iniciativas simplórias e rasteiras. E nisso ambos têm longa tradição.

Matéria do Der Spiegel lembra hoje da forma de agir dessa direita desde a época da chegada ao poder de Adolf Hitler, em 1933. A comparação com o que acontece no Brasil de hoje é inevitável. Diz-se na revista alemã:

“Strache permanece Strache. Depois de o mundo inteiro poder testemunhar sua tentativa, inspirada no modelo húngaro, de remodelar o panorama da mídia em seu país com investimentos russos, queixa-se – em sua coletiva de imprensa no sábado – duma campanha “jogada a partir do exterior”.

Em completa distorção da situação, trata como escândalo o fato da interceptação clandestina, sem admitir o óbvio: que não teria havido nada para interceptar, se não tivesse formulado tais planos concretos para a transformação da Áustria. A única fonte daquilo que corretamente chama de “lixeira” é ele mesmo. É por isso que nenhum poder no mundo poderia salvá-lo: afundou-se num barco que ele mesmo construiu.

No entanto, toda sua declaração de renúncia foi uma tentativa de dividir a responsabilidade com os outros.

Alguns, como o conselheiro político israelense Tad Silberstein e o satirista alemão Jan Böhmermann, mencionou pelo nome, mas, acima de tudo, entregou-se a insinuações. Apontou para redes e agrupamentos, num tom sinistro, com um horizonte cheio de nuvens cinzentas escuras, em que cada qual da audiência que lhe é simpática pode reconhecer outra coisa.

O poder capaz de mudar – e até de explodir – todas as regras, que tanto fascina a extrema direita, depende de tais projeções. É preciso ser apontado um motivo pelo qual o sistema deve ser derrubado e este é melhor identificado ao atribuir a si o papel da suposta vítima.

Somente quando se puder provar que, na relação com um poder superior hostil, todos os meios anteriores de compromisso e de solução de controvérsias são injustos e ameaçadores, é que se pode criar uma situação de emergência legal capaz de legitimar medidas mais extremas. Dificilmente alguma outra imagem pode mobilizar melhor tais energias e aliviar os escrúpulos que a da ameaça de poderes omnipotentes a agirem clandestinamente.

Após a Primeira Guerra Mundial, essa função foi cumprida pela lenda da adaga nas costas, segundo a qual a Primeira Guerra Mundial teria sido vencida pela Alemanha, se, no foro doméstico, imprensa, os políticos e os judeus não tivessem traído os soldados. Durante décadas, os judeus, comunistas e social-democratas foram, aos olhos da direita, os agentes de uma sempre subestimada ameaça – o que alimentou um ódio irracional a desencadear impiedosamente sua atividade cruel e a praticar os maiores crimes da história da humanidade.

Hoje, os tempos e os movimentos são outros, mas os padrões pelos quais se justificam atitudes radicais permanecem semelhantes. Eles [n.t. – a direita radical] não confiam na troca de razões e argumentos, no discurso público, mas apenas na mecânica do poder. Se você demitir jornalistas críticos, estará livre das críticas nesta visão de mundo mecânica. Eis que a ameaça nunca diminui – a possibilidade que a direita tem, na Europa, de alcançar o sucesso eleitoral e assumir a responsabilidade, de acordo com esta lógica, não é prova da fairness do sistema. Qualquer falha dos planos da direita, como o Brexit, não é prova de sua inadequação. Tudo aponta para poderes superiores e ocultos que exigem resposta adequada. Não se trata de concepção, de propostas políticas e possibilidades, mas de proteção e necessidade…”

Bolsonaro e sua tropa de choque, capitaneada por seus filhos incultos, atrevidos e agressivos, adotam o mesmo padrão. Criam crises para, nelas, se fazerem de vítimas. Tudo – as “corporações”, o “sistema”, permeados do “marxismo cultural” – conspira contra “a nova forma de governar”, contra “o projeto escolhido pelos eleitores”, como se projeto houvesse que “eleitores” pudessem conscientemente escolher.

Ainda antes das eleições e durante a campanha, era a Justiça Eleitoral que não prestava, ao adotar um sistema de votação, a urna eletrônica, talhada para “roubar” a vitória de Bolsonaro. O partido adversário foi demonizado como pervertido, com a mentira da “mamadeira de piroca” e o “kit gay” para as crianças nas escolas. Quando ganharam as eleições, já no governo, se puseram a “despetizá-lo”, mesmo que houvesse dois anos que o governo já não era do PT. A partir daí, não se passou uma semana sem uma declaração polêmica de Bolsonaro ou de seus ministros, a causar rebuliço no espaço político. Tem sido tanto vento na farinha, que não se conseguiu cozer um único pão. O governo da direita tem sido um vazio de ideias e projetos e um ataque permanente a todas as instituições e aos atores públicos, como se nada prestasse e tudo tivesse que ser destruído para levar adiante “uma nova forma de governar”, que ninguém, ao certo, sabe o que é.

Para deixar bem claro, os eleitores de Bolsonaro não votaram em projeto nenhum. Votaram contra “tudo que aí está”, mas não votaram a favor de nada, até porque seu candidato fugiu do debate de ideias como o diabo foge da cruz, com medo, de certo, de ser posta à evidência a grande fraude que era sua candidatura. Não pode, por isso, o Sr. Bolsonaro dizer que faz isso ou aquilo porque “o eleitor” assim escolheu. Ele, o eleitor, não escolheu nada. Apenas repudiou. E não se faz um governo somente com repúdios.

Mas agora que percebe dilapidado todo seu ativo político, com a insatisfação contra seu governo crescendo de semana a semana e sem qualquer apoio sólido no legislativo para dar curso a seus projetos de lei mal elaborados e não negociados com a sociedade, quer dar a entender que é impossível governar com as instituições – chamadas de modo pouco definido de “corporações” – porque todas conspirariam contra seu mandato.

É a ladainha de sempre: incapaz de ver que causou ele mesmo sua vulnerabilidade, Bolsonaro distribui a responsabilidade aos outros, “às corporações” que infestam o estado e “tornam o Brasil disfuncional”. Não há diferença entre o Sr. Strache e o Sr. Bolsonaro, afora que o primeiro foi flagrado com a mão na botija e o segundo talvez ainda espere sê-lo, o que não é difícil, dadas as tortas relações de sua família com o submundo do crime carioca. É só uma questão de tempo. E aí veremos se pedirá para sair, como o Sr. Strache, ou se conclamará sua turba para tentar o golpe no grito e na marra.

Esperemos as cenas dos próximos capítulos.

Eugênio Aragãoex-ministro da Justiça