quarta-feira, 17 de julho de 2019

E os que cultuaram o juiz de Curitiba? Por Dora Incontri



Jornalistas, juristas, intelectuais brasileiros e internacionais já apontavam todas as irregularidades, abusos e faltas de prova no julgamento de Lula, mas agora, com essas publicações, ficamos mais próximos de evidenciar que tudo não passou de uma fraude e de uma conspiração política

Do site Espiritismo Progressista/GGN


Closeup photo of wooden mallet in courtroom

Não poderia hoje escrever sobre outro tema que não citasse a bomba lançada pelo respeitado jornalista Glenn Greenwald no site no Intercept, sobre a operação Lava Jato e as ilegalidades presentes nas conversas entre Moro e Dallagnol.
Infelizmente, são muitos brasileiros, e muitos brasileiros espíritas (e cito-os, porque essa coluna justamente nasce por conta de espíritas progressistas que estão do outro lado dessa história), que elegeram o dito juiz em herói nacional, em defensor ilibado da justiça e de uma devassa anticorrupção.
Jornalistas, juristas, intelectuais brasileiros e internacionais já apontavam todas as irregularidades, abusos e faltas de prova no julgamento de Lula, mas agora, com essas publicações, ficamos mais próximos de evidenciar que tudo não passou de uma fraude e de uma conspiração política, para colocar a extrema direita no poder e para cumprirmos a agenda neoliberal de devastação de nossos direitos.
Vale, entretanto, uma reflexão: por que as pessoas se iludem com uma personalidade dessas, um juiz, que claramente agiu com intenções políticas, o que ficou já comprovado pelo fato de ter aceito o cargo de ministro como uma recompensa por seu trabalho conspiratório e agora já estava de olho no Supremo?

Essa análise me interessa sobretudo como educadora. Conversando com pessoas de todas as classes sociais que admiram o tal juiz, que apoiaram o impeachment e elegeram o dito cujo que está hoje no governo do Brasil, observam-se duas coisas que se alimentam mutuamente: um total analfabetismo político e uma completa sujeição à manipulação da grande mídia (leia-se principalmente a Globo). A manipulação midiática, inventada no século XX pelos nazistas, mas depois aplicada em todos os quadrantes do planeta, é aquela que faz apelo aos instintos mais primitivos do ser humano: o medo, o ódio, a desconfiança pelo diferente, o sentimento de pertencimento ao clã… e o próprio instinto de sobrevivência. Então, se elege um bode expiatório, que pode ser um povo como o judeu, um político, como o Lula; um partido, como o PT; partidários de uma ideia, como comunistas… e se manipulam todos os piores sentimentos contra tais representantes, como se fossem os responsáveis por todos os males do mundo. O povo que engole tais estímulos, infantiliza-se psiquicamente, passa a espumar ódio, apedrejar o lado oposto e pouco a pouco acha natural qualquer barbárie contra os alvos dessa manobra. Técnica muito conhecida por quem entende de psicologia das massas.
Isso não quer dizer que os políticos, partidos, povos, pessoas alvejadas por tais manobras sejam santos impolutos. São seres humanos, como qualquer um do outro lado da trincheira, com defeitos e virtudes. Mas nenhum ser humano, por mais criminoso que pudesse ser – e tais alvos desse tipo de manobra, jamais o são – merece ser depositário de um ódio tão devastador, que destrói a possibilidade de qualquer justiça, de qualquer sentimento humanitário.
A isso, alia-se o que chamei de analfabetismo político – um termo cunhado e usado pelo dramaturgo alemão (comunista, sim!!) Bertold Brecht. A maioria dos brasileiros de fato não tem noção do que é e de como deve funcionar a democracia. Com todas as críticas que possamos ter a esse sistema – e como anarquista, tenho inúmeras – como ela se constitui, como ela se mantém e como as instituições devem funcionar é o mínimo que um cidadão deveria saber, para se orientar no labirinto da vida social e política do país em que vive.
Então, por exemplo, a importância da independência dos três poderes, para que serve cada um deles, quais os seus limites. A necessidade da imparcialidade da justiça, de como a acusação, a defesa e o juiz devem agir absolutamente independentes e jamais em promiscuidade…(como é o caso que se delineia nessa troca de estratégias entre Moro e Dallagnol). Deveriam também saber, só para citar outro exemplo, que um presidente andar com seus filhos em viagens afora, condecorando-os, nada tem de uma democracia, e mais se parece com uma monarquia de paizeco bizarro.
Mas a maioria das pessoas não têm a mínima noção de nada disso.
E há uma minoria que sabe porque pertence à elite, mas esses fazem cara de paisagem porque só o que lhes interessa são suas vantagens pessoais e qualquer tipo de governo ou desgoverno lhes é indiferente, desde que não percam seus privilégios e tenham a oportunidade de, aliás, aumentá-los sempre.
Se as crianças aprendessem a constituição na escola, se pudessem exercitar a democracia em assembleias escolares, se estudassem a política como uma matéria teórica e prática, teríamos mais chance de sermos um povo menos manipulável pelo ódio e mais atento aos direitos de todos os cidadãos, que não pagaria o mico de idolatrar um sujeito como o juiz de Curitiba.
O mico dos espíritas conservadores é ainda maior, porque quando se invocam supostas revelações espirituais, para justificar posições políticas reacionárias (aliás, segundo Kardec, política é coisa dos seres humanos e espíritos não devem se meter), a coisa cai no ridículo.
No ano passado, houve uma grande liderança espírita – que os progressistas não aceitam como liderança – que se referiu ao dito juiz como “venerando”. Outros fizeram circular uma fraudulenta notícia de que Moro seria reencarnação de Emmanuel, o guia espiritual de Chico Xavier. Emmanuel, como todos os espíritas sabem, é o jesuíta português Manuel da Nóbrega, fundador da cidade de São Paulo, junto com Anchieta. Tenho lá minhas críticas a esse espírito, como jesuíta que foi, na época da contrarreforma, enviado por Inácio de Loyola. Entretanto, mesmo 500 anos atrás, ele já era uma personalidade mais íntegra que esse juiz de hoje, agora mostrado publicamente pelo Intercept, em toda a sua ação conspiratória, em que os fins justificam os meios.
Espíritas que propagam tais ideias envergonham os espíritas críticos, lúcidos e que não usam a teoria da reencarnação para promover o culto a personalidades duvidosas. Como nos envergonham também os brasileiros que antes e ainda agora insistem em defender o indefensável e apegam-se ao seu ídolo de barro.

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Future-se é o programa de desmonte bolsonarista da universidade, por Gilberto Maringoni



Direitos e serviços públicos não são negócios regidos pelas sacrossantas leis do mercado, mas pelo benefício universal que geram. O modelo de gestão proposto pelo "Future-se" é o "Vire-se" para captar recursos.




Do GGN:

OS FINANCISTAS DO MEC apresentaram hoje pela manhã o projeto Future-se, que busca alterar radicalmente o ordenamento jurídico, patrimonial, pedagógico, trabalhista e o papel social das Universidades públicas. Toda a apresentação tinha o figurino de encontro de negócios espertos. Não faltaram painel de Led e apresentador de bleiser azul marinho sem gravata a recitar vantagens para todos, promessas de happy startups, criação de fundos, investimentos, PPPs, organizações sociais e a possibilidade de professores “ficarem ricos”.
“Nós nos inspiramos em Friedman”, foi dito a certa altura. Às escâncaras, trata-se de um acelerado processo de privatização das instituições públicas, que ganharão suposta eficiência e vinculação ao mercado, como as krotons da vida.
NO GOVERNO FHC, anos 1990, as privatizações eram alardeadas como forma de se superar a chamada ineficiência estatal, a falta de telefones, as carências no mercado de energia, os cabides de emprego, os cartórios corporativos etc. etc. Foi preciso massacrar a opinião pública com a ladainha de que a venda de estatais era o segredo para a superação de nosso “atraso”, e que com auxílio do mercado estaríamos em sintonia com o “primeiro mundo”.
No governo Bolsonaro, nem argumentos desse tipo há mais. Existe chantagem, feita por quem nada tem a ver com educação. Cortam-se orçamentos – o que inviabiliza de imediato o funcionamento das instituições – , coloca-se a faca no pescoço de reitores, professores, alunos, técnicos administrativos e monta-se um teatro midiático, cuja adesão seria opcional.
A UNIVERSIDADE PÚBLICA BRASILEIRA é um modelo internacional de sucesso. Ela não apenas produz ciência de ponta, como se volta – na maior parte dos casos – para a resolução de problemas concretos e materiais da sociedade. A “torre de marfim” autossuficiente tornou-se anacrônica, em especial ao longo das últimas décadas, fruto da expansão de unidades pelo país.
O aumento do número de vagas, as políticas de cotas e sua presença cada vez maior na vida pública faz dessas instituições a marca de um Estado que verdadeiramente se articula com as demandas sociais. Temos aqui algo raro nos Estados Unidos ou na Europa Ocidental: universidades de massa, amplas, plurais e financiadas com o dinheiro dos impostos.
HÁ UMA DÉCADA, o documentário “Inside job”, de Charles Ferguson, ganhou o Oscar da categoria ao fazer uma varredura profunda nas causas e consequências do tsunami financeiro originado nos EUA, em 2008. Secundariamente, a fita exibiu a imensa teia de interesses privados que se sobrepõem à Universidade estadunidense. Lá, é bom lembrar, cresce a legião de jovens inadimplentes que não conseguem arcar com os altos custos das anuidades (O ministro da Educação afirma que não haverá cobrança de anuidades. Por enquanto).
Três professores de Harvard – também operadores no mercado financeiro – foram desmascarados diante das câmeras por darem aval acadêmico à saúde financeira de empresas e países a peso de ouro.
Harvard é um centro de excelência global, especialmente nas áreas de Direito e Finanças. Tem cerca de 23 mil alunos e é privada. A USP tem 95 mil alunos e é pública.
SEGUNDO O CENSO DA Educação Superior do INEP, o Brasil possui “296 Instituições de Educação Superior (IES) públicas e 2.152 privadas, o que representa 87,9% da rede. Das públicas, 41,9% são estaduais; 36,8%, federais e 21,3%, municipais. Quase 3/5 das IES federais são universidades e 36,7% são Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs) e Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets)”.
Com raríssimas exceções, a pesquisa está concentrada nas públicas. Por esse motivo, é aí que se concentra o pensamento crítico e resultados em diversas áreas que se traduzem em importante apoio para políticas públicas.
Os milicianos da gestão Bolsonaro não conseguem externar a mesma distorção conceitual que fazem no debate da Previdência, de que “o sistema dá prejuízo”. Se olharem apenas para o que o orçamento do MEC, com pensamento terraplanista de contador, “o sistema dá prejuízo”, sim.
O raciocínio é evidentemente torto. Direitos e serviços públicos não são negócios regidos pelas sacrossantas leis do mercado, mas pelo benefício universal que geram. O modelo de gestão proposto pelo “Future-se” é o “Vire-se” para captar recursos. Quem conseguir dinheiro, segue funcionando – com alta ingerência de investidores nos conteúdos pedagógicos – e quem não conseguir, adentrará literalmente no programa “Foda-se”
Como o projeto bolsonarista é o da entrega da Petrobrás, da Embraer, da Eletrobrás, do saneamento e do desmonte do BNDES, do SUS e de várias ferramentas do desenvolvimento e da soberania nacional, acabar com a Universidade é algo que está na conta. Pesquisa e inovação de ponta será feita pelos novos donos desses ativos.
Impedir esse ataque fulminante é impedir que se acabe com o futuro do país. Apesar do nome do programa ser o horrível trocadilho Future-se.

Mídia tradicional esconde atentado a evento com Glenn Greenwald em Paraty, por Alceu Castilho



"Ninguém me contou, eu estava lá na mesa ao lado de Sérgio Amadeu, Sabrina Fernandes e Gregório Duvivier, além do próprio Glenn. O clima de tensão era enorme. Nossas falas eram interrompidas por rojões", afirmou Castilho


Foto: Reprodução/A Postagem
Por Alceu Castilho
No Facebook, reproduzido pelo Jornal GGN
A miserável imprensa brasileira conseguiu esconder – ou amortecer – o que aconteceu de principal, ontem, em Paraty: rojões foram atirados contra a mesa onde estava o jornalista Glenn Greenwald e na direção de uma multidão com pelo menos mil pessoas, por um grupo de apoiadores barulhentos do juiz Sérgio Moro. Ironicamente, durante um debate sobre “Jornalismo em tempos de Lava Jato”.
Os rojões foram disparados por dois homicidas em potencial. Chegaram bem perto do barco pirata da Flipei. Mas os coleguinhas da imprensa preferiram outras narrativas. Como se não fosse essa a notícia, em qualquer lugar sério do mundo. E não apenas o fato de os fascistas (não, não usaram essa palavra exata) terem abafado com som alto boa parte do debate.

Caro leitor do GGN, estamos em campanha solidária para financiar um documentário sobre as consequências da capitalização da Previdência na vida do povo, tomando o Chile como exemplo. Com apenas R$ 10, você ajuda a tirar esse projeto de jornalismo independente do papel. Participe: www.catarse.me/oexemplodochile


O Globo foi quem chegou mais perto da notícia. Ainda que a tenha confinado ao subtítulo. Os demais veículos, nem isso. Folha e UOL tinham pelo menos três repórteres no local, fora os fotógrafos, mas elas preferiram passar ao largo do atentado – contra a liberdade de expressão e contra uma multidão.
Ninguém me contou, eu estava lá (embora o 247 tenha amputado minha participação), na mesa ao lado de Sérgio Amadeu, Sabrina Fernandes e Gregório Duvivier, além do próprio Glenn. O clima de tensão era enorme. Nossas falas eram interrompidas por rojões. O início do debate quase não foi ouvido pelo público.
Foto: Karen Garcia/OGlobo
Uma das repórteres da Folha, curiosamente convidada pelos organizadores da Flipei para acompanhar Glenn na chegada ao barco, em uma voadeira, escreveu um texto deslumbrado com o próprio furo. Mas não enxergou maior importância nos rojões, disparados na horizontal. Em determinado momento do texto, pareceu indignada ao informar que os organizadores infiltraram-se em grupos de Whatsapp da extrema-direita.
Sim, repórter, e foi com isso que eles souberam que haveria a manifestação. O que possibilitou a interrupção da passagem pela ponte – já que a polícia (indiferente ao atentado, assim como a organização da Flip) se entrincheirou por ali. Esse que foi o grande pecado político dos últimos dias? Ficar à mercê de uns rojõezinhos na cabeça, como você ficou, como eu fiquei, tudo bem, né?
Estamos tentando fazer jornalismo em tempos de barbárie. A Lava Jato é apenas uma expressão com resquícios de legalidade dessa violência abjeta, dessa celebração do grotesco. Um simulacro nadando no pântano, em meio a esta radicalização da história brasileira da infâmia.
Alguns de nós, jornalistas, continuaremos resistindo. Outros preferem fazer de conta que são intrépidos repórteres independentes, até mesmo “investigativos”, quando estão a serviço de uma narrativa putrefata – a de que ainda vivemos em tempos normais.
E não diante de gente que tem quase alguma ideia na cabeça. E alguns rojões na mão.

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Efeito bumerangue da Globo: Como foram plantadas as sementes do ódio que atingiram Miriam Leitão, por Luis Nassif



Todos eles sem se dar conta que estavam jogando carne fresca para a matilha de cães ferozes que estavam sendo criados no cativeiro da mídia. Agora, com as grades da jaula abertas pelo WhatsApp saem pelo mundo mordendo até  as pessoas que os alimentavam.
Do Jornal GGN:



A jornalista Miriam Leitão e seu marido Sergio Abranches são impedidos de participar de uma feira de livros em Jaraguá do Sul. Uma petição com mais de 3 mil assinaturas pediu o cancelamento da participação de ambos. “Por seu viés ideológico e posicionamento, a população jaraguaense repudia sua presença, requerendo, assim, que a mesma não se faça presente em evento tão importante em nossa cidade” (aqui).
A razão tem sido o posicionamento corajoso da jornalista contra medidas do governo Bolsonaro.
Ontem, na noite de autógrafos do meu livro, em Brasília, aparece um rapaz jovem, simpático, me agradecendo “profundamente”. Por que? Pela defesa que fiz dele no caso Wikipedia.
Em agosto de 2014, em plena campanha eleitoral, Miriam Leitão denuncia o Palácio do Planalto por ter manipulado de forma difamatória seu perfil na Wikipedia. O escândalo explode em todo o país.
Segundo descrição do jornal O Globo (aqui), as alterações na Wikipedia incluíram o seguinte trecho:
“Míriam Leitão fez a mais corajosa e apaixonada defesa de Daniel Dantas, ex-banqueiro condenado por corrupção entre outros crimes contra o patrimônio público. A forma como Míriam Leitão se envolveu na defesa de Dantas chamou a atenção de Carlos Alberto Sardenberg, seu companheiro na CBN, para quem a jornalista estava diferente naqueles dias. Para Míriam Leitão, apesar do vídeo que flagrava o suborno a um delegado da Polícia Federal, a prisão de Dantas não se justificava, posto que se tratava de coisas do passado”.
Provavelmente se referia a um comentário de Miriam na CBN, apanhada de surpresa com a notícia da prisão de Dantas. Não havia mentira, nem ilações, mas apenas permitia ilações. Contra Sardenberg, a crítica era bobinha, atribuindo sua defesa dos juros altos ao fato de ter um irmão economista da Febraban.
Descobriu-se que a alteração saiu de um dos computadores da rede que servia o Palácio do Planalto. É uma rede com centenas de computadores, do mesmo modo que as redes que servem as Organizações Globo. No entanto, atribuiu-se ao Palácio.
A intervenção na Wikipedia havia sido em 2013. Descobriu-se, depois, que tinha sido o ato individual de um jovem de 29 anos, do interior de São Paulo, concursado.
De forma desproporcionalmente pesada, caiu o mundo sobre ele, como a pata de elefante esmagando uma formiguinha.
Apelou-se a uma das modalidades menos analisadas de fake news, que consiste em tratar como grandes escândalos pequenos episódios irrelevantes.
Imediatamente a oposição pediu a interferência da Procuradoria Geral da República. Espocaram manifestações de solidariedade da ABI e da Fenaj, entidades que permaneceram mudas e quietas ante todos os abusos cometidos contra jornalistas que não eram da Globo.
A presidente Dilma Rousseff caiu na esparrela e usou da palavra presidencial, aquela que deveria ser empregada apenas para grandes temas institucionais, para condenar a atitude e ordenar a instauração de um inquérito para apurar o responsável pelo crime.
Tempos depois, Mirian promoveu outro festival de solidariedade, ao denunciar que havia sido moralmente agredida por petistas em um voo para Brasília.
“Sofri um ataque de violência verbal por parte de delegados do PT dentro de um voo. Foram duas horas de gritos, xingamentos, palavras de ordem contra mim e contra a TV Globo. Não eram jovens militantes, eram homens e mulheres representantes partidários. Alguns já em seus cinquenta anos. Fui ameaçada, tive meu nome achincalhado e fui acusada de ter defendido posições que não defendo” (aqui).
“(…) “Durante o voo foram muitas as ofensas, e, nos momentos de maior tensão, alguns levantavam o celular esperando a reação que eu não tive. Houve um gesto de tão baixo nível que prefiro nem relatar aqui. Calculavam que eu perderia o autocontrole. Não filmei porque isso seria visto como provocação. Permaneci em silêncio. Alguns, ao andarem no corredor, empurravam minha cadeira, entre outras grosserias”.
Era um fake News (aqui) que foi desmentido no mesmo dia pelas redes sociais.
Segundo depoimento do advogado Rodrigo Mondego, no Facebook, presente ao voo (https://goo.gl/p6x7KH)
Cara Miriam Leitão,
A senhora está faltando com a verdade!
Eu estava no voo e ninguém lhe dirigiu diretamente a palavra, justamente para você não se vitimizar e tentar caracterizar uma injúria ou qualquer outro crime. O que houve foram alguns poucos momentos de manifestação pacífica contra principalmente a empresa que a senhora trabalha e o que ela fez com o país. A senhora mente também ao dizer que isso durou as duas horas de voo, ocorreu apenas antes da decolagem e no momento do pouso.
Um segundo depoimento foi de Lúcia Capanema, professora de Urbanismo da UFF – Universidade Federal Fluminense (https://goo.gl/JjWSSA)
“(…) Fui a última a entrar no avião, e quando o fiz encontrei um voo absolutamente normal. Não notei sua presença pois não havia nenhum tipo de manifestação voltada à sua pessoa (https://goo.gl/KpX9P9).
Durante as duas horas de voo nada houve de forma a ameaçá-la, achincalhá-la ou mesmo citá-la nominalmente. Por duas ou três vezes entoou-se os já consagrados cânticos “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” e “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”; cânticos estes que prescindem da sua presença ou de qualquer pessoa relacionada a empresa em que você trabalha, como se pode notar em todas as manifestações populares de vulto no país. Veja bem, estávamos a apenas seis fileiras de distância e eu só fui saber de sua presença na aeronave na segunda-feira seguinte, depois de ter escrito o relato publicado por várias fontes de informação da mídia alternativa. (…)
Conforme escrevemos na época (aqui)
Alguém pode imaginar uma cena dessas, de duas horas de escracho, em um voo comercial em uma das rotas aéreas mais frequentadas do país, passar em branco durante dez dias, sem uma menção sequer nas redes sociais ou mesmo no próprio blog da jornalista? Não teve uma pessoa para sacar de seu celular e filmar as supostas barbaridades cometidas contra a jornalista. Não teve um passageiro para denunciar os absurdos no seu perfil? E a jornalista disse que não filmou por ter se sentido intimidada e estoicamente guardou durante dez dias as ofensas que diz ter sido alvo.
Sinceramente, como é possível a uma pessoa empurrar ostensivamente a cadeira de um passageiro, de uma senhora, sem provocar uma reação sequer dos demais? Tivesse sido alvo de um escracho real, teria toda minha solidariedade. Não foi o caso.
Mesmo assim, imediatamente – como seria óbvio – a denúncia de Miriam provocou manifestações de solidariedade não apenas de entidades de classe como de jornalistas que não se alinham ao seu campo de ideias. De repente, foram relevadas todas as opiniões polêmicas da jornalista, nesses tempos de lusco-fusco político, de ginásticas mentais complexas para captar os ventos da Globo, para que explodisse uma solidariedade ampla.
No início do governo Dilma, houve episódio semelhante com Miriam, com a tal manipulação de seu perfil na Wikipedia por algum funcionário do Palácio. As alterações diziam que ela teria cometido erros de avaliação em alguns episódios.
Não existe um personagem público que não tenha sofrido com interferências em seu perfil na Wikipedia. E tentar transformar em atentado político, por ter partido de um computador da rede do Palácio, é o mesmo que acusar uma empresa por qualquer e-mail enviado por qualquer funcionário.
(…) E depois se diz que são as redes sociais que criam a pós-verdade.
Nos dois casos era claramente um jogo político, o episódio do voo sendo denunciado apenas dez dias depois da suposta ocorrência; o caso da Wikipedia sendo denunciado um ano depois. Em ambos os casos, impactando o período eleitoral.
Agora, enquanto Miriam enfrenta o ódio das milícias bolsonaristas, entendendo de fato o que é o ódio, o jovem à minha frente conta que até hoje está respondendo a cinco processos dela e de Sardenberg, promovidos por advogados da Globo. Não foi demitido do setor público, por estável. Mas sua carreira morreu no momento em que incluiu menções a Miriam na Wikipedia, sem se dar conta de que o macarthismo já tinha se implantado no país.
Era apenas um jovem do interior que cometeu a imprudência de conspurcar o Wikipedia de uma jornalista notável e se tornou o álibi preferencial no grande teatro da real politik, permitindo à jornalista despertar solidariedades e amenizar as críticas contra ela, para a oposição e a Globo reforçarem as narrativas sobre os exércitos bolivarianos, e a presidente se mostrar como uma grande democrata.
Todos eles sem se dar conta que estavam jogando carne fresca para a matilha de cães ferozes que estavam sendo criados no cativeiro da mídia. Agora, com as grades da jaula abertas pelo WhatsApp saem pelo mundo mordendo até as pessoas que os alimentavam, instaurando o protofascismo no país.
Tenho certeza que agora, depois de provar do fel amargo do macarthismo em estado puro, e se tornar uma campeã da democracia, Miriam terá a generosidade de suspender as ações. Afinal, era apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco sem parentes importantes, e vindo do interior.
Repito, há um doloroso ajuste de contas a ser feito pela mídia com ela própria.

terça-feira, 16 de julho de 2019

A ‘jabalândia” de Deltan & cia no Ceará, por Fernando Brito

"Numa quinta-feira à noite, 20 de julho de 2017, o ubíquo procurador estava em Fortaleza, ensinando aos empresários cearenses as virtudes da honestidade.

"Mas como a vida não é só feita de sacrifícios, além dos “30 k” – a maneira pela qual se refere ao cachê de R$ 30 mil por cada palestra nas mensagens trocadas com Sergio Moro – Dallagnol arrancou também passagens de avião e hospedagem para sua mulher e filhos no caríssimo hotel e complexo de lazer aquático Beachpark – coisa de R$ 1 mil a diária – para o resto do final de semana"


Do Tijolaço:



Monica Bergamo, na Folha, põe uma cereja cearense na história da lucrativa exploração de prestígio de Deltan Dallagnol, que empresariou a Operação Lava Jato para lhe render um bom dinheiro “por fora” em palestras e eventos.

Numa quinta-feira à noite, 20 de julho de 2017, o ubíquo procurador estava em Fortaleza, ensinando aos empresários cearenses as virtudes da honestidade.

Mas como a vida não é só feita de sacrifícios, além dos “30 k” – a maneira pela qual se refere ao cachê de R$ 30 mil por cada palestra nas mensagens trocadas com Sergio Moro – Dallagnol arrancou também passagens de avião e hospedagem para sua mulher e filhos no caríssimo hotel e complexo de lazer aquático Beachpark – coisa de R$ 1 mil a diária – para o resto do final de semana.

“Eu pedi pra pagarem passagens pra mim e família e estadia no Beach Park. As crianças adoraram”, disse Dallagnol. “Além disso, eles pagaram um valor significativo, perto de uns 30k [R$ 30 mil]. Fica para você avaliar.”

Uma beleza!

Deltan deve ter gostado, pois repetiria a dose, um ano depois, em outubro de 2018, agora às custas do plano de saúde Unimed, seção Fortaleza, palestrando sobre ““Ética e luta contra a corrupção”.

Além da ideia dada a Sérgio Moro que pegasse também o “bocão”, Dallagnol deixa nas mensagens uma cândida observação: de que o abuso não vai dar problemas:

“Não sei se você viu, mas as duas corregedorias —[do] MPF [Ministério Público Federal] e [do] CNMP [Conselho Nacional do Ministério Público]— arquivaram os questionamentos sobre minhas palestras dizendo que são plenamente regulares”.

Plenamente, Deltan, plenamente.

Fernando Brito
No Tijolaço

“Aha, uhu o Toffoli é nosso”: STF dá abraço hétero em Flávio Bolsonaro, Queiroz, as milícias etc etc. Por Kiko Nogueira



A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) chamou atenção, inutilmente, para a necessidade de manter independência e resguardar a “imparcialidade” do Poder que ele representa.
“É muito bom termos aqui a Justiça ao nosso lado”, falou Bolsonaro, num de seus abraços héteros.

Do DCM:
Bolsonaro com Tofolli, senadoras e deputadas federais: pacto
O presidente do STF, Dias Toffoli, acolheu pedido da defesa de Flávio Bolsonaro — o Zero 1 – e suspendeu as investigações em curso que tenham como base dados do Coaf e da Receita Federal sem autorização prévia da Justiça.
Responsável pelo plantão no recesso do Judiciário, assinou a decisão na segunda, dia 15, mas o conteúdo foi divulgado um dia depois.
Numa canetada, liberou geral a vida de corruptos e milicianos.
No fim de 2018, o Coaf apontou operações bancárias suspeitas de 74 servidores e ex-servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Verificou-se movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, amigo da família, ex-factotum de Flávio à época em que ele era deputado estadual.
Em janeiro, Luiz Fux já havia mandado suspender investigação instaurada pelo Ministério Público contra Queiroz e o ex-chefe.
Ao retornar das férias, o relator Marco Aurélio Mello negou o pedido do senador.
Os bolsonaristas não precisam se incomodar em fechar o Supremo.
Não foi necessário, como pediu Eduardo num vídeo famoso, um cabo e um soldado para o serviço.
Em maio, Toffoli participou de um café da manhã no Palácio da Alvorada em que Bolsonaro defendeu um “pacto” entre os três poderes da República para aprovar reformas, especialmente a da Previdência.
Ora. Isso é papel do Executivo e do Legislativo.
Posou para fotos patéticas com Jair e Joice Hasselmann fazendo coraçãozinho com as mãos.
A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) chamou atenção, inutilmente, para a necessidade de manter independência e resguardar a “imparcialidade” do Poder que ele representa.
“É muito bom termos aqui a Justiça ao nosso lado”, falou Bolsonaro, num de seus abraços héteros.
Toffoli é santo de casa e faz milagre. In Toffoli we trust.