terça-feira, 30 de outubro de 2018

Sobrevivendo a Bolsonaro, capítulo 1: a luta contra a normalização do ódio, por Renato Bazan


  "Não há final feliz possível para o que está adiante. E é em meio a esses desespero inicial que você deve pensar qualquer análise da distopia adiante. Bolsonaro terá o controle das Forças Armadas e das Medidas Provisórias, e respeitar a democracia é respeitar esse poder. Mas não podemos ceder, em momento algum, à tentação da normalização de seus pensamentos preconceituosos."


Do GGN:




Sobrevivendo a Bolsonaro, capítulo 1: a luta contra a normalização
por Renato Bazan

Parece um livro de ficção mal escrito, mas é verdade - pouco mais de 24 horas atrás, o Brasil elegeu Jair Messias Bolsonaro como Presidente da República. Sinta o peso dessas palavras. O tsunami da virada foi quebrado pela muralha do antipetismo fanático, colocando o equivalente humano de um trem de carga sem freios no Palácio do Planalto.
Não há final feliz possível para o que está adiante. E é em meio a esses desespero inicial que você deve pensar qualquer análise da distopia adiante. Bolsonaro terá o controle das Forças Armadas e das Medidas Provisórias, e respeitar a democracia é respeitar esse poder. Mas não podemos ceder, em momento algum, à tentação da normalização de seus pensamentos preconceituosos.
As duas entrevistas iniciais do presidente-eleito, para a Record e para o Jornal Nacional, foram tão mortificantes quanto seu script de campanha. Na primeira, Bolsonaro prometeu incendiar o ambiente rural brasileiro com armas de fogo e licença para matar (o cheiroso e bem penteado “excludente de ilicitude”, em suas próprias palavras). Na segunda, voltou a falar do inexistente “kit gay” e do jamais realizado “congresso GLBT infantil”.
É exatamente o roteiro mentiroso que o premiou com a faixa presidencial.
Você, que quer lutar para impedir o triunfo do fascismo no Brasil, precisa primeiro aceitar que este será o nosso presidente agora: um homem que cria monstros de papelão para se engrandecer, e que muitas vezes tentará te vestir com esses recortes. "Dar a chance de Bolsonaro fazer a coisa certa", como tem dito parte da imprensa, não significa aceitar essa técnica de manipulação barata.
Mesmo na mais generosa das expectativas, não podemos permitir que um presidente vá ao ar disseminar fake news já desbaratadas, e que branda a palavra VERDADE enquanto metralha a lógica mais básica para receber aplausos. Temos que chamar um fato desses pelo que ele é: ANORMAL. Nosso próximo presidente é uma caricatura política que ganhou vida no WhatsApp e saltou da tela do celular.
O primeiro dever da resistência democrática será apontar as mentiras do presidente Bolsonaro assim que elas deixarem os seus tortos lábios, fazendo um fact-check implacável, minuto-a-minuto. Será a preservação da sanidade. Do outro lado, seus seguidores ainda em transe insistirão em dizer que suas falas estão fora de contexto, ou que é "da boca pra fora", ou que ele não é responsável pelo que diz.
Isso vai durar alguns meses. Tenha paciência e continue apontando as mentiras.
Com o tempo, o seguinte dilema será colocado para a população: ou o presidente do Brasil é um monstro que pretende levar todos os opositores para a cadeia ou o exílio, ou ele é um frouxo mentiroso, cuja palavra não tem valor, e que não terá a liderança necessária para tirar o país da crise. As duas possibilidades são igualmente ruins, mas abrem a porta para a retomada do diálogo com quem tem projeto para o Brasil.
Essa retomada jamais acontecerá se alimentarmos com complacência o disse-não-disse de Bolsonaro. Como não existe uma linha visível entre provocações e ameaças reais do presidente-eleito, o refúgio da sanidade é acreditarmos em cada coisa que ele diz pela sua literalidade. Pelas primeiras falas de Paulo Guedes à imprensa, o itinerário aponta para uma eletrocução neoliberal sem precedentes na história brasileira, que fará o governo Temer parecer um choque numa tomada de 110 volts.
Bolsonaro se tornou presidente em cima de uma campanha de mentira sistemática, apoiada em preconceitos e ressentimentos sociais, aproveitando o vácuo de um golpe jurídico-parlamentar mal calculado. Agora que está no poder, não há qualquer motivo para acreditar que não continuará usando suas estratégias de escândalo.
Quanto mais ele xingar, quanto mais divisiva for sua imagem, menos a população vai perceber a máquina federal moendo seus direitos. Cada nova declaração abrirá um precedente para uma violência um pouco maior, deixando seus oponentes mais atordoados.
O fascínio mórbido causado por Bolsonaro traz uma tentação específica: a de acharmos que qualquer violência é normal, que política se faz na base do grito. Questionar coisas óbvias e negar descaradamente a realidade não são erros de Bolsonaro, são ferramentas de trabalho.
O primeiro passo no combate ao seu governo será entender que a mentira é parte central de sua comunicação com o povo, a um nível tão endêmico que o banimento em massa de fake news causou uma queda de quase 4% em suas intenções de voto na última semana.
Qual é a solução, portanto? Em primeiro lugar, permaneça escandalizado. Não se isole do mundo. Estude ainda mais, para ser capaz de detectar a mentira quando ela aparecer. Busque o olhar da imprensa internacional, livre de interesses comerciais imediatos.
A imprensa brasileira não será capaz de fazer a crítica necessária - nunca foi, e não será agora, corajosa ou hábil o suficiente para enfrentar a estupidez galopante de Bolsonaro. Quem duvida disso, que assista William Bonner se desdobrar em três para corrigir a mentira óbvia contra a Folha de S.Paulo na última entrevista.
Mais importante de tudo: transforme sua militância de Facebook em atos reais de engajamento. Procure qualquer movimento social cuja mensagem te represente e participe, pois este é o pior momento para se calar. Fique perto da realidade, para que Bolsonaro não consiga te convencer que o mundo está como sempre foi, e foi você quem virou de ponta-cabeça.

O livro que liberta foi derrotado pela arma que mata, por Vinícius Canhoto




"É inegável a vitória do Brasil inculto e iletrado, o verdadeiro Brasil: violento."


O livro foi derrotado pela arma
por Vinícius Canhoto, no GGN
Escrevo consciente da total falta de poder das palavras e distante da mitologia, legada pelos séculos iluministas, que falavam do poder de transformação pela educação e a arte. Victor Hugo escreveu em algum lugar: “Quer civilizar um homem, comece pela avó dele”. Uma visão um tanto ingênua e progressista, própria da época, porque desconsidera possíveis regressões que podem ocorrer ao longo das gerações.
É inegável a vitória do Brasil inculto e iletrado, o verdadeiro Brasil: violento.
Bárbaros com títulos universitários ou não. A mentira e o ódio triunfaram. Esta eleição decreta a morte do mito do “homem cordial”, “do brasileiro alegre, hospitaleiro e de bom coração”. As violências que daqui por diante virão, serão legitimadas pela maioria do voto popular.
Esta é a vitória da Casa Grande, da classe média moralista, da covardia dos católicos e da ignorância dos evangélicos. Vitória da elite branca, dos negros de alma branca, das mulheres machistas e dos gays homofóbicos. Vitória da tecnologia da manipulação e da desinformação; da imprensa colaboracionista. Vitória da mentira e vitória do ódio: de classe, de gênero, de cor.
É o fim do mito de Machado de Assis: o verdadeiro Brasil não é bom e agora revela seus piores instintos. O país oficial, caricato e burlesco, venceu: de Temer a Moro, da família Marinho ao Edir Macedo, da FEBRABAN à FIESP, do STF aos generais.
Em toda parte se podia ouvir o som de rojões como se os brasileiros comemorassem mais uma Copa do Mundo. Em breve os sons não serão mais de rojões, mas de tiros. Sim, no país dos analfabetos e dos analfabetos funcionais, dos sofistas e dos rábulas, o livro foi derrotado pela arma.
Vinícius Canhoto é escritor e doutorando em Filosofia pela Unifesp.

Estudantes vão à escola de roupas pretas como sinal de resistência após vitória do fascismo Fake News




Por Debora Fogliatto
Em pelo menos três escolas de Porto Alegre, estudantes foram às aulas usando roupas pretas na manhã desta segunda-feira (29) como forma de demonstrar que se opõem à eleição de Jair Bolsonaro (PSL) como próximo presidente do Brasil. Os alunos dos colégios Aplicação e Bom Conselho também levaram faixas e placas, enquanto no Marista Rosário eles fizeram um ato simbólico dando as mãos e formando um grande círculo no pátio da instituição.
Os protestos ocorreram de forma orgânica, segundo o estudante do Bom Conselho José de Almeida Lemos, de 15 anos, que conta que na noite de domingo (28) começaram a circular fotos nos stories do Instagram sugerindo que quem havia ficado triste com os resultados usasse roupas pretas para ir à escola. Por isso, um grande número de estudantes acabaram aderindo ao chamado.
De acordo com José, os professores da escola não se manifestaram de forma contrária ao protesto, nem a coordenação. “Tiveram dois alunos, eleitores do Bolsonaro, que tiraram fotos no momento que estava ocorrendo o protesto e encaminharam para a coordenação. A coordenação não procurou ninguém que estava protestando pra falar sobre o assunto”, contou.
Além das vestimentas, os estudantes do Bom Conselho também levaram uma faixa escrito “resistência” e bandeiras LGBT. Também havia bandeiras do movimento no Rosário, onde os estudantes entoaram “seremos resistência”. No Aplicação, eles tiraram uma foto com cartazes que formam as palavras “ele não”.
A educação tem sido um dos campos de mais disputa nessas eleições, assim como na política em geral nos últimos anos. Em todo o país, defensores do programa Escola Sem Partido ganham espaço e influência, alegando que há “doutrinação política” ocorrendo nas escolas. Durante a campanha, diversas instituições de ensino tiveram seus banheiros pichados com dizeres preconceituosos, especialmente racistas, e a Universidade de Brasília chegou a ter livros de direitos humanos de sua biblioteca rasgados.
Ao mesmo tempo, as escolas e universidades também se transformaram em espaços de resistência e luta contra a ameaça de um governo autoritário. Na última semana, diversos campi chegaram a ser invadidos por policiais federais e militares por supostamente terem recebido manifestações de cunho eleitoral. Em Porto Alegre, uma faixa foi tirada da Escola Estadual Padre Reus na semana anterior, e um evento pela democracia foi transferido para o Viaduto Brooklyn após ser proibido de ocorrer de Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
No Ceará, um professor de uma escola em Fortaleza foi criticado por defensores de Bolsonaro e acusado de “doutrinação comunista” após exibir o filme “Batismo de Sangue”, que conta a história de dois freis católicos torturados durante a ditadura militar por se oporem ao regime. Mas nesta segunda-feira, o professor foi saudado por seus estudantes, que lotaram os corredores do colégio aplaudindo o docente quando ele chegou à instituição.
Continue lendo o texto original clicando aqui.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Talvez tenha sido melhor.... a melhor maneira de se destruir um falso mito é deixar ele demonstrar sua falsidade....




Eu detestaria estar no lugar de quem venceu... Por Rômulo de Andrade Meira, citando Darcy Ribeiro, Procurador de Justiça da Bahia e Professor de Direito Processual Penal




"Sinto muitíssimo pelo nosso País – tão grandioso! -, pelas nossas riquezas, pelo nosso patrimônio, pela nossa cultura, pela nossa arte e, sobretudo, pelo nosso povo. Este, sim, foi, ao final e ao cabo, o grande derrotado pelo resultado das eleições. Quando a economia naufragar, a inflação subir, o salário mínimo despencar, os programas sociais desaparecerem, evidentemente, que os ônus recairão sobre os mais pobres que, inevitavelmente, juntar-se-ão aos miseráveis."



Do Justificando:


Segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Eu detestaria estar no lugar de quem venceu


A frase que intitula este pequeno desabafo é de um grande brasileiro: Darcy Ribeiro e é, rigorosamente, o meu sentimento agora, definido que está o resultado das eleições.[1]
Fez-se, dentre todas!, a pior das escolhas.
Optou-se por um sujeito fascista, preconceituoso, desqualificado, homofóbico, racista, misógino, retrógrado, arauto da tortura, adorador de torturadores, amante das ditaduras, subserviente aos militares – especialmente “os de pijama”, posto alijados já da caserna -, enfim, um “bunda-suja” (como os militares de alta patente designam aqueles que não subiram na carreira, o caso do capitão, que não era respeitado nem pelos seus superiores[2]).
Vejam que desastres deu: foi eleito um legítimo “bunda-suja” para governar uma das maiores nações do mundo. Um sujeito que vem sendo desmoralizado, avacalhado e esculachado pela imprensa internacional, por líderes políticos estrangeiros e por artistas nacionais e estrangeiros, razão pela qual, ao que tudo indica, não será nada fácil as relações diplomáticas do Brasil com o resto do mundo.
Sinto muitíssimo pelo nosso País – tão grandioso! -, pelas nossas riquezas, pelo nosso patrimônio, pela nossa cultura, pela nossa arte e, sobretudo, pelo nosso povo. Este, sim, foi, ao final e ao cabo, o grande derrotado pelo resultado das eleições. Quando a economia naufragar, a inflação subir, o salário mínimo despencar, os programas sociais desaparecerem, evidentemente, que os ônus recairão sobre os mais pobres que, inevitavelmente, juntar-se-ão aos miseráveis.
E parte desse povo – grande parte inclusive! -que fez esta escolha equivocada (muito em razão do desprestígio da classe política, da ausência de educação política e da falta de segurança pública) vai se decepcionar intensamente quando se der conta que ajudou a eleger um embusteiro e um farsante para governar o País.
Já o mesmo não sucederá com a elite. Óbvio que não! Esta – que em grande parte votou burramente com o fígado – continuará gozando (inclusive no sentido lacaniano) dos seus privilégios,contribuindo perversamente para a manutenção da pobreza e da miséria de grande parte do povo brasileiro.
Também a maioria do funcionalismo público não será afetada, especialmente aqueles que compõem, dentro deste setor, uma minoria prestigiada e dominante, como se dá, por exemplo, com os membros do Poder Judiciário e do Ministério Público, sempre confortavelmente instalados nas antessalas do Poder, auxiliando-o sempre que necessários os seus serviços. Continuarão a receber os seus polpudos contracheques/holerites, recheados de vergonhosos penduricalhos – legitimados com o luxuoso auxílio do Supremo Tribunal Federal -, numa afronta vergonhosa à inteligência brasileira e à sua pobreza.
Seguirão com a sua vidinha de larva, gozando a cada viagem para o exterior, a cada carro novo comprado no final do ano, assistindo os programecos da Rede Globo de Televisão, lendo aquelas revistinhas dominicais de sempre, frequentando os shoppings centers das capitais, enfim, morrendo de inveja dos verdadeiros endinheirados do Brasil que, aliás, não lhes dão a menor “bola”, ao contrário, esnoba-os.
Esta será, a partir de 1º. de janeiro de 2019, a nossa realidade e, como diria Caetano e Gilberto Gil, é preciso “ter olhos firmes, para este sol, para esta escuridão. Atenção: tudo é perigoso, tudo é divino maravilhoso. É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte”, nem as sombras, digo eu.[3]
Resta-nos conviver com ela e resistir ao avanço absurdo que se dará das ideias fascistas do novo Presidente da República, cada um ao seu modo e dentro de suas possibilidades.
Temos que resistir, pois, afinal de contas, como falou Zaratustra, “é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançarina.[4]
Fazer como fez Evandro Lins e Silva que “soube emprestar a todas as atividades profissionais ou funcionais que exerceu uma autêntica dimensão pública, isto é, o sentido de serviço permanente à causa do povo.[5]
Contudo, não será fácil, pois o empoderamento dos fascistas será animado pelas atitudes do novo governo. A luta não será branda, mas, por outro lado, não será em vão. Somos milhões de brasileiros que não votaram no fascista. São muitos, ainda bem!
Ao menos assim o farei, menos por mim, mais pela minha Pátria e pelo meu povo.
Também o farei pelos meus filhos, pois não posso deixar que a minha biografia seja maculada com a mancha vergonhosa da omissão e da covardia.
Afinal de contas, “só a alma transgressiva, só a traição evolucionária ao establishment do corpo e do corpo moral, resgata a verdadeira possibilidade de imortalidade.”[6]

Concluo também com Darcy: “Nesta América Latina, nós só podemos ser resignados ou indignados.”[7]

Fico do lado de cá, dos indignados, pois, de mais a mais, cada um tem a história da vida que se lhe merece.


Rômulo de Andrade Moreira é procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS.
[1] Eis o que disse Darcy: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu
.”
[2] No livro “Ernesto Geisel”, organizado por Maria Celina D´Araújo e Celso Castro e publicado pela Editora Fundação Getúlio Vargas, o General Ernesto Geisel – de triste memória! – afirma que “o Bolsonaro é um caso completamente fora do normal, inclusive um mau militar.” (p. 113, da 3ª. edição).
[3] Refrão da canção “Divino Maravilhoso”, composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil.
[4] NIETZSCHE, Friedrich, “Assim Falou Zaratustra”, São Paulo: Editora Martin Claret, 1999, p. 29.
[5] COMPARATO, Fábio Konder, no prefácio que fez ao livro “Evandro Lins e Silva – O Salão dos Passos Perdidos”, Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas Editora, 1997, p. 13.
[6] BONDER, Nilton, “A Alma Imoral”, Rio de Janeiro, Editora Rocco Ltda., 1998, p. 18.

Mensagem aos Democratas verdadeiros....




domingo, 28 de outubro de 2018

sábado, 27 de outubro de 2018

Artigo dos Jornalistas Livres sobre as invasões da família Bolsonaro em terras da União no Vale da Ribeira



A família de Bolsonaro, que diz “não vai ter um centímetro demarcado para área indígena ou quilombola”, invadiu terras da União, lote de terra devoluta urbana e possui patrimônio-monstro numa das regiões mais pobres do país, o Vale do Ribeira

dos Jornalistas Livres 
O cunhado não gostou quando uma parte de sua fazenda, fruto de invasão de terras, virou quilombo. Capangas destruíram a nova plantação de bananas assim que o processo de reconhecimento da área foi finalizado, em setembro passado. Por sua vez, em 2015, uma das irmãs se apossou do lote urbano de mais de 800m2 que foi regularizado por um programa voltado a pequenos posseiros. Seis meses depois, ela vendeu o lote para o prefeito do município. Já o núcleo familiar da caçula dos cinco irmãos de Jair Bolsonaroalugou 3 imóveis, sem licitação e na faixa dos R$ 8 mil por mês, para prefeituras do Vale do Ribeira, uma das áreas mais pobres do Estado mais rico do Brasil.
É nessa região que Jair Bolsonaro morou até os 18 anos de idade, quando saiu para o serviço militar. Filho de um dentista prático e de uma dona de casa, viveu na pacata cidade de Eldorado Paulista. O município hoje tem pouco mais de 15 mil habitantes, 40% deles ganhando menos de dois salários mínimos. Não por acaso, o município sofre com o segundo pior índice de mortalidade infantil do Estado.
Mas Eldorado Paulistatambém é o quarto maior município em extensão territorial de São Paulo. No começo do século passado, foi apelidado de “Amazônia Paulista” e, em 1993, reconhecido pela Unesco como “Reserva da Biosfera do Patrimônio Mundial”. Cerca de 70% do território é coberto por Mata Atlântica protegida por reservas e parques, estações ecológicas e áreas de proteção ambiental naturais tombadas, além de 26 quilombos e cerca de 50 comunidades remanescentes de quilombos. Mas Bolsonaro diz que não quer saber de nada disso. É obcecado por minérios como nióbio (usado em siderurgia) e tório, um elemento químico radiativo.
Natural de Campinas, foi em Eldorado que Bolsonaro se criou. E é aquela região que explica algumas das obsessões do ex-capitão, a começar pela idolatria à caserna. Bolsonaro adora dizer que sua “vocação” militar foi despertada no começo dos anos 1970, quando a região do Vale do Ribeira viu-se ocupada por 2.500 homens do Exército, auxiliados por um contingente não determinado de policiais cedidos pelo governo de São Paulo, que caçavam míseros 17 militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), sob o comando do guerrilheiro Carlos Lamarca, este sim, um mito. Pois não é que os soldados, depois de bloquear a BR-116, a Rodovia Régis Bittencourt, além de estradas vicinais, depois de prender 120 pessoas e varrer a Mata Atlântica com helicópteros, depois – por fim – de bombardear áreas civis suspeitas de abrigarem os guerrilheiros com bombas de napalm jogadas de cargueiro B-26 da FAB; depois disso tudo, Lamarca conseguiu furar o bloqueio do Exército e fugir.
Nada menos do que 41 dias de fome e cerco depois, e Lamarca conseguiu escapar da maior mobilização da história do II Exército, atual Comado Militar do Leste. O baile que o guerrilheiro deu no Exército marcou indelevelmente o psiquismo do menino Jair Bolsonaro, que até hoje promete vingar-se da esquerda.
A família do candidato à presidência – que chama ocupantes de terras e fazendas improdutivas de “terroristas” e pretende não “dar nenhum centímetro” de terra para reservas indígenas e quilombolas – está espalhada por todo o Vale do Ribeira. Lá, os Bolsonaros construíram um império. Em municípios como Barra do Turvo (o mais pobre do Estado), JacupirangaPariquera-AçuMiracatu e outros que compõem a área de baixíssimos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), o clã dos Bolsonaro contabiliza mais de 60 imóveis. Agregam-se ao sobrenome presidenciável os dos cunhados José Orestes Fonseca Campos e Theodoro da Silva Konesuk, considerados os mentores financeiros da família. Mas não só de casas, fazendas e terrenos vive a próspera família. Além das propriedades, eles são donos de empresas. Muitas.
Um levantamento na Junta Comercial de São Paulo aponta, pelo menos, 19 foram registradas em oito municípios. Se forem contabilizadas as filiais das lojas “Campos Mais” (Magazine Campos Mais, Campos Móveis e Campos Materiais de Construção), e da “Art’s Móveis”, de móveis e produtos eletrônicos, em 13 cidades, são cerca de 30 empreendimentos, de acordo com uma reportagem da revista Época de setembro passado.
A crise econômica parece que não abalou a família: 14 lojas foram abertas nos últimos oito anos. À boca miúda, diz-se que o shopping em construção em Eldorado também é do grupo, assim como um empreendimento em hotelaria no centro de Cajati, no litoral Sul.
Um dos negócios mais peculiares da família em Eldorado é a casa lotérica “Trilha da Sorte”, registrada como “Casa Lotérica Bolsonaro ME Ltda”. O empreendimento está no nome do irmão do candidato, Angelo Guido Bonturi Bolsonaro, e desperta a curiosidade. Uma rápida busca no Google, afinal, explica como loterias fazem lavagem de dinheiro sujo: basta o criminoso pagar mais do que o prêmio em troca de um bilhete sorteado.
Na cidade, também fica a loja de sapatos da mãe, dona Olinda Bonturi Bolsonaro, de 92 anos. Ela mora no mesmo prédio do comércio. Todo esse patrimônio, no entanto, não inclui aquele formado pelo próprio núcleo familiar do candidato à presidência e seus três filhos políticos.
Uma série de reportagens publicada no começo do ano pelo jornal Folha de S. Paulo apontou que os quatro acumulariam mais de R$ 15 milhões em 13 imóveis. Entre eles, os de Brasília – apesar de o candidato à presidência e seu filho Eduardo, que é deputado federal, receberem R$ 6,1 mil por mês de auxílio-moradia pela Câmara dos Deputados, benefício a que teriam direito apenas os parlamentares sem casa em Brasília.
A conta feita pra estimar o patrimônio, porém, não contabiliza bens como carros que vão de R$ 45 mil a R$ 105 mil, um jet-ski, além de aplicações financeiras, em um total de R$ 1,7 milhão, como consta na Justiça Eleitoral e em cartórios. As dúvidas sobre transações suspeitas de lavagem de dinheiro e de enriquecimento após começar a atuar na política não foram esclarecidas pelo Bolsonaro-pai nem pelos Bolsonaros-filhos.
Toda a família e seus tentáculos, por sinal, estão proibidos por Jair Bolsonaro de dar entrevistas. Apesar disso, os Jornalistas Livres foram atrás dos personagens, empreendimentos e atividades do clã no Vale do Ribeira. A partir de documentos, relatos, dados fornecidos por cartórios de registros de imóveis, pela Junta Comercial de São Paulo e no Tribunal de Justiça de São Paulo, traçamos, ao menos em parte, pistas do império dos Bolsonaros.

O cunhado fazendeiro que não gosta de quilombos

Theodoro da Silva Konesuk é casado com Vânia Rubian Bolsonaro, a caçula dos irmãos do candidato à presidência pelo PSL. Há pouco mais de um mês, Konesuk perdeu uma área de 55 hectares de uma de suas fazendas para a Associação dos Remanescentes de Quilombos da Barra de São Pedro do bairro Galvão, em Iporanga. A propriedade, em áreas devolutas que pertencem à União e ao Município, foi ocupada por seu pai, que foi prefeito da cidade de Eldorado por dois mandatos, entre os anos 60 e 80. Os quilombolas aguardavam a regularização da terra desde 2013, quando a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) e o governo paulista entraram como o processo de reintegração de posse. Theodoro Konesuk não se manifestou. Mas parece que não gostou da sentença.
Dias depois de os quilombolas receberem o direito à terra, lideranças do quilombo contam que os capangas do cunhado de Jair Bolsonaro destruíram o cercado e as recém-plantadas mudas de bananeiras das 32 famílias da comunidade, segundo reportagem do site www.deolhonosruralistas.com.br.
O relatório técnico do Itesp realizado em 2000, época de análise dos territórios do bairro Galvão, chamou atenção para os altos níveis de violência na região e até um assassinato ocorrido em conflitos de grilagem das terras. Ao defender a demarcação das terras quilombolas, o documento feito pela antropóloga Maria Celina Pereira de Carvalho afirma que “o sistema agrícola dessas comunidades permanece o mesmo que era praticado pelos antepassados há duzentos, trezentos anos, apoiado em um saber-fazer que exige profundos conhecimentos da natureza e seus ritmos”.
Aponta ainda que há décadas os descendentes de homens e mulheres negros escravizados lutam contra a construção de uma barragem, ao longo do rio Ribeira de Iguape, que forneceria energia elétrica para uma empresa do grupo Votorantim, e também contra mais três barragens que seriam construídas pela Companhia Energética de São Paulo que, segundo dados do Instituto Socioambiental, inundariam cerca de 60% do território de inúmeras comunidades negras da região.
Além da propriedade em Iporanga, constam em nome de Konesuk, nos serviços registrais de imóveis, ocorrências nas cidades de Apiaí, Cananéia, Eldorado, Iguape, Itanhaém, Jacupiranga, Miracatu, Peruíbe, Registro e Sorocaba. Em sua fazenda em Registro, há negócios de extração de areia e gado de corte em sociedade com o empresário Maurici Ribeiro Botelho Junior, dono de uma empresa de terraplenagem e de uma transportadora que tem em seu registro de atividades o comércio atacadista de ferramentas, cigarros, cigarrilhas e charutos, artigos de viagem, tecidos, lustres, couros, lãs e peles, jóias, relógios e bijuterias, inclusive pedras preciosas e semipreciosas lapidadas.

A irmã Vânia e os aluguéis para prefeituras: sem licitação

Ela é casada com o empresário que perdeu parte de suas terras para quilombolas, Theodoro da Silva Konesuk, e começou seus negócios na venda de artigos para pesca e camping, há 23 anos. Mudou de ramo em 2011 e hoje o casal tem 11 lojas Art’s Móveis. As seis no nome de Vânia Bolsonaro estão registradas como de pequeno porte e as do marido como Eireli, que separa o patrimônio empresarial do pessoal.
Os portais de transparência dos municípios da região apontam que Vânia e Theodoro Konesuk já alugaram imóveis para as prefeituras de Cajati, Iguape e Jacupiranga. Todos sem licitação. Entre eles, locação firmada em 2014 do imóvel que hospeda a Delegacia Civil em Cajati. Em Iguape, o nome de Vânia consta como locadora do imóvel destinado à administração do Paço Municipal. Em um ano de aluguel, a partir de março de 2015, a irmã do presidenciável embolsou R$ 90 mil. A locação foi estendida por mais um ano, a R$ 8.325 mensais, totalizando outros R$ 99.906 até março de 2017. Em Jacupiranga, desde 2010, o imóvel onde funciona a Câmara Municipal é do marido, Theodoro Konesuk. Atualmente, ele cobra R$ 8.000 mensais pelo espaço.

Maria Denise: a empresária-posseira e fazendeira

Na cidade de Barra do Turvo, a mais pobre do Vale do Ribeira, houve regularização de fundiária urbana realizada pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) em 2015. Maria Denise Bonturi Bolsonaro, irmã do candidato à presidência que já declarou a intenção de criminalizar movimentos sem-terra, foi beneficiada pelo programa “Minha Terra”. Ela recebeu a concessão de um lote de 869,28 m2 na cidade. A propriedade do terreno era do município.
De acordo com o site do Itesp, o programa “Minha Terra” consiste em um projeto social do Governo do Estado de São Paulo “voltado a pequenos posseiros da cidade ou do campo que, devido à insegurança dominial sobre os imóveis que ocupam, convivem com conflitos pelo uso e posse da terra e com sérios obstáculos para o desenvolvimento social e econômico das comunidades.” Seis meses depois de receber o lote, entretanto, Maria Denise Bonturi Bolsonaro o vendeu para o atual prefeito da cidade, o médico Jefferson Luiz Martins, eleito pelo PSDB em 2014.
Constam, nos registros da Associação dos Registradores Imobiliários de São Paulo, 12 (doze!!!) menções a imóveis no CPF de Maria Denise nas cidades de Eldorado, Jacupiranga, Itanhaém e Miracatu. Vale citar só alguns:
  • Uma casa residencial de 762,50m² no perímetro urbano da cidade de Jacupiranga
  • Uma área de terra urbana de 941,96m² no perímetro de Jacupiranga
  • Uma área de terra urbana com 190,48m², na cidade de Pariquera-Açu
  • Um lote de terreno urbano na cidade de Barra do Turvo
Separada há 5 anos, ela foi casada por 30 anos com José Orestes Fonseca Campos, dono da rede de materiais de construção “Campos Mais”, que inclui 14 filiais da Magazine “Campos Mais” (saiba mais no perfil abaixo). Seus filhos também são empresários. Osvaldo está no mesmo ramo da família. Já a empresa de Orestes oferece peças de vestuário, calçados, suprimentos de informática e suporte técnico em tecnologia da informação. Os Bolsonaro Campos também são donos de duas fazendas, uma de gado e outra de banana.

O ex-cunhado José Orestes e o impressionante crescimento em tempos de crise

2015 foi um ano excelente para o ex-cunhado de Jair Bolsonaro José Orestes Fonseca Campos, que foi casado com Maria Denise Bolsonaro Campos, quando ele inaugurou mais três filiais da Magazine “Campos Mais”. O crescimento do negócio de materiais de construção de fato impressiona. Em cinco anos, entre 2005 e 2010, foram abertas oito lojas espalhadas por todo o Vale do Ribeira e litoral Sul. O último empreendimento, no ano passado, foi em Jacupiranga. Mas, para ampliar ainda mais os negócios, José Orestes montou outra empresa. Agora é dono da incorporadora, construtora e administradora de bens imobiliários “Campos Mais”. Além da gestão de imóveis, as atividades da empresa incluem construção de edifícios e hotéis. Na cidade onde mora, Cajati, está construindo um hotel e espaço de eventos.
Diante de todas essas informações, fica evidente que os ataques do candidato Jair Bolsonaro às comunidades quilombolas e a movimentos, como o MST e o MTST, são hipócritas e criminosos. Os sem-terra e os sem-teto são humildes e pobres que ocupam propriedades improdutivas, enquanto os parentes de Jair Bolsonaro, riquíssimos, invadem terrenos públicos para transformá-los em objeto de especulação imobiliária e cobiça. Eles querem auxílio-moradia, mas só para eles!
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